Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Primeira edição de “História do Cerco de Lisboa” em finlandês - Tammi (editora)

Informação via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/primeira-edicao-de-historia-do-cerco-de-lisboa-em-finlandes/

"Primeira edição de “História do Cerco de Lisboa” em finlandês

Acaba de dar à estampa, e pela primeira vez na Finlândia, a tradução de História do Cerco de Lisboa, com a chancela da Tammi. Este é o terceiro título publicado por esta editora depois de A Viagem do Elefante e O Ano da Morte de Ricardo Reis, renovando, assim, o interesse em levar José Saramago aos leitores fínicos. A tradução deste romance é da responsabilidade de Antero Tiittula.
O livro já se encontra na Biblioteca da Fundação José Saramago, em Lisboa, gentilmente oferecido por 2 leitores finlandeses, admiradores profundos da obra de Saramago."

(Capa de "O Ano da morte de Ricardo Reis")

Mais informação da editora, aqui

(Capa de "A Viagem do Elefante")

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Trigo Limpo Teatro Acert, leva o nosso "Salomão" à Figueira da Foz, com a encenação de "A Viagem do Elefante"


A VIAGEM DO ELEFANTE | TRIGO LIMPO teatro ACERT

Sáb, 1 ago'15 às 22:00h · Esplanada Silva Guimarães · Figueira da Foz

Mais informação através http://acert.pt/aviagemdoelefante/


(Pode ser visualizado no YouTube, em  https://www.youtube.com/watch?v=yTRap35P9hQ)

"A Viagem do Elefante" - Uma produção Trigo Limpo teatro ACERT,
 em coprodução musical com Flor de Jara, e com a parceria da Fundação José Saramago. 
Imagens recolhidas em São Pedro do Sul a 20-09-2014.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Concerto "A Viagem do Elefante" de Luís Pastos e Trigo Limpo Teatro Acert - 30 de Abril - CCB - 21 horas

A propósito do concerto "A Viagem do Elefante" de Luís Pastos e Trigo Limpo Teatro Acert (30 de Abril - CCB Pequeno Auditório - 21 horas), recorda-se aqui os dois post's do blog "Caderno" (com a sua publicação no livro "O Caderno 2"), "O elefante em viagem" e "Regresso". 

Queremos uma casa cheia de música...

Para leitura aqui,

"O elefante em viagem"
"Os leitores recordarão que os nomes das duas aldeias que a expedição encontrou no seu caminho para Figueira de Castelo Rodrigo nunca foram mencionados pelo narrador da história. Essas aldeias, tal como se encontram descritas, foram simples inventos necessários à ficção e não tinham nem têm qualquer correspondência na vida real. Parecerá portanto abusivo aos amantes do rigor histórico que Salomão esteja a preparar-se hoje para uma viagem que, não sendo documentalmente a que foi, bem o poderia ter sido, ainda que dela não tenha ficado qualquer registo. A vida traz muitos acasos no bolso e não se pode excluir que, em um ou outro caso, a letra tenha acertado com a tabuleta. É certo que a História não diz que Salomão tivesse pisado terras de Castelo Novo, Sortelha ou Cidadelhe, mas também é impossível jurar que tal não sucedeu. Dessa obviedade nos servimos, nós, Fundação José Saramago, para idear e organizar uma viagem que vai começar hoje em Belém, diante do mosteiro dos Jerónimos e nos levará à fronteira, lá em cima, onde aconteceu aquilo dos couraceiros austríacos que pretendiam levar o elefante ao arquiduque. Que o itinerário é arbitrário, protestará o leitor, nós, porém, se no-lo permitem, preferiremos chamar-lhe um dos inúmeros possíveis. Andaremos por fora dois dias e do que neles se passar faremos relato. Quem vai? Vai a Fundação em peso, vão mais uns poucos amigos fixes de Salomão, jornalistas portugueses e espanhóis, tudo boa gente. Ficai em paz. Até ao nosso regresso, adeus, adeus."
(Quarta-feira, 17 de Junho de 2009)


Para leitura aqui,
em http://caderno.josesaramago.org/47860.html

"Regresso"
"O elefante gostou do que viu e fê-lo saber à companhia, embora em nenhum ponto o itinerário que escolhemos tivesse coincidido com aquele que a sua memória de elefante zelosamente guardava. Que haviam, disse, ele e os soldados de cavalaria, subido para o norte quase a pisar a linha da fronteira, por isso eram os caminhos tão ruins. Comparada com a viagem de então, esta foi um passeio: boas estradas, bons alojamentos, bons restaurantes, o próprio arquiduque, ainda que habituado aos luxos da Europa central, teria ficado surpreendido. A expedição foi para trabalhar, mas disfrutou como se andasse de férias. Até os sofridos câmaras, obrigados a carregar com equipamentos de sete quilos ao ombro, estavam encantados. O interessante é que nem os nossos amigos, nem os jornalistas conheciam os lugares que visitámos. Melhor para eles, que dali levaram muito que contar e recordar. Começámos por Constância, onde se crê que Camões viveu e teve casa, de cujas janelas terá visto mil vezes o abraço do Zêzere e do Tejo, aquele suave remanso da água na água capaz de inspirar os versos mais belos. Dali fomos para Castelo Novo para ver a Casa da Câmara, do tempo de D. Dinis, e o chafariz joanino que lhe está pacificamente encostado. Vimos também a lagariça, essa espécie de dorna ao ar livre para a pisa das uvas, cavada na rocha bruta em tempos que se acredita serem os da pré-história. Dormimos no Fundão, terra de cerejas por excelência, e na manhã seguinte ala para Belmonte onde nasceu Pedro Álvares Cabral, direitos à igreja de S. Tiago, da minha particular devoção. Ali está uma das mais comovedoras esculturas românicas que existem na face da terra, uma pietà de granito toscamente pintado, com um Cristo exangue deitado sobre os joelhos da sua mãe. Ao pé desta estátua, a célebre pietà de Miguel Ângelo que se encontra no Vaticano não passa de um suspiro maneirista. Não foi fácil arrancar o pessoal à extática contemplação em que havia caído, mas lá os conseguimos levar aliciando-os com o enigma arquitectónico de Centum Cellas, essa construção inacabada cuja problemática finalidade foi e continua e ser objecto das mais acaloradas discussões. Seria uma torre de vigia? Uma hospedaria para viajantes de passagem? Uma prisão, embora o neguem as rasgadas janelas que subsistem? Não se sabe. Saciada a fome de imagens, o destino seguinte seria Sortelha, a das muralhas ciclópicas. Ali nos caiu em cima uma trovoada como poucas, relâmpagos em rajada, trovões a condizer, chuva a cântaros e granizo que era como metralha. Não chegámos a beber o café, a corrente eléctrica sumira-se. Uma hora foi o que demorou o céu a escampar. Ainda chovia quando entrámos no autocarro, a caminho de Cidadelhe, sobre o qual não escreverei. Remeto o leitor interessado e de boa vontade para as quatro ou cinco páginas que lhe dediquei na Viagem a Portugal. Os companheiros arregalaram os olhos perante o pálio de 1707, depois foram ver aldeia, os relevos nas portas das casas, os caixotões da igreja matriz com retratos de santos. Vinham transfigurados e felizes. Agora só faltava Castelo Rodrigo. O presidente da câmara municipal de Figueira de Castelo Rodrigo esperava-nos na ponte sobre o Côa, a pouca distância de Cidadelhe. De Castelo Rodrigo eu conservava a imagem de há trinta anos, quando lá fui pela primeira vez, uma vila velha decadente, em que as ruínas já eram só uma ruína de ruínas, como se tudo aquilo estivesse a desfazer-se em pó. Hoje vivem 140 pessoas em Castelo Rodrigo, as ruas estão limpas e transitáveis, foram recuperadas as fachadas e os interiores, e, sobretudo, desapareceu a tristeza de um fim que parecia anunciado. Há que contar com as aldeias históricas, elas estão vivas. Eis a lição desta viagem."
(Segunda-feira, 22 de Junho de 2009)

sábado, 11 de abril de 2015

Pilar del Río e João Amaral à conversa com João Caldeira sobre a obra "Viagem do Elefante" (Banda Desenhada)






O testemunho de Pilar del Río e de João Amaral com a moderação de João Caldeira.


"A propósito da adaptação da Viagem do Elefante da obra de José Saramago, prémio Nobel da Literatura, para banda desenhada, aqui se reúnem em conversa Pilar del Río, João Amaral e João Caldeira.
Pilar del Río, Presidenta da Fundação José Saramago, dispensa apresentações, João Amaral é o autor da BD e João Caldeira o fundador da Casa das Artes e Conhecimentos.
A Obra de Saramago e as suas múltiplas adaptações, bem como o valor dessas adaptações e o lugar que ocupam, é dos assuntos abordados.
A Viagem do Elefante e as suas mensagens profundas, é um tópico de destaque nesta conversa.
Uma conversa que irá revelar um pouco mais sobre esta obra inserida no mundo de Saramago.
Um apontamento realizado na Fundação José Saramago.
Referências:
João Caldeira Monsanto - Casa das Artes e Conhecimentos - http://www.arteseconhecimentos.com"


Link do trabalho do autor João Amaral - http://joaocamaral.blogspot.pt/










segunda-feira, 23 de março de 2015

Luis Pastor e a ACERT - Canções do Espectáculo Teatral baseado na obra de José Saramago "A Viagem do Elefante"



"Lançamento do CD/Livro
Luís Pastor | A cor da língua ACERT

30 Abr 2015 - 21:00 
Pequeno Auditório - Duração 90’ - M/6

Trigo Limpo Teatro ACERT
A partir do conto de José Saramago

Depois de ouvidas pelos mais de 30.000 espetadores que nos dois últimos anos assistiram à representação de A Viagem do Elefante e de terem passado por Tondela, Coimbra e Madrid sob a forma de concerto, chega agora a vez de Lisboa poder ouvir as canções compostas por Luís Pastor para os poemas de José Saramago.

O Pequeno Auditório do CCB recebe o cantautor espanhol acompanhado pelos músicos do A Cor da Língua ACERT e convidados para um concerto que celebra as palavras de José Saramago, aqui acompanhadas pelos sons do fado, da morna, da chula ou do flamenco, dando-lhes novas identidades, como se um novo corpo ganhasse vida para palmilhar outra viagem. O concerto serve de apresentação ao CD/Livro editado no final de 2014 pela ACERT com o apoio da Fundação José Saramago.

A Viagem do Elefante é uma adaptação do texto homónimo de José Saramago, numa produção do Trigo Limpo Teatro ACERT, em parceria com a Fundação José Saramago e a Flor de Jara. Entre 2013 e 2014, o elefante Salomão visitou mais de 25 localidades portuguesas e espanholas, numa viagem que terá continuidade já em 2015, contando, como aconteceu até aqui, com a participação das comunidade locais.

Produção Fundação José Saramago | ACERT"

domingo, 1 de março de 2015

O dia em que José Saramago retorna a Cidadelhe (22/06/2009)

No estudo da obra que efectuei à obra "Viagem a Portugal", Saramago dá um amplo destaque a Cidadelhe. Em 2009, na viagem organizada pela Fundação José Saramago, que recriou os caminho do elefante Salomão, é feita a paragem nesta localidade para voltar a descobrir o pálio.

Será colocada, quando finalizado, na entrada do post o item 148, referente a esta paragem e que avanço

«148. Cidadelhe a ermida e o pálio que supostamente está fora em restauro. A estátua do Cidadão achada talvez prós lados do Côa. As paisagens que fazem o viajante regressar à infância. E o pálio datado de 1707 que aparece. O viajante que parece ser gente boa lá merece a atenção de ver tal artefacto que afinal anda escondido.»

No site da Câmara Municipal de Pinhel, é recordado e aqui publicado alguns detalhes da visita.







Aqui para consulta o link, via
http://www.cm-pinhel.pt/noticiaspublicacoes/noticias/Paginas/SaramagovoltaaCidadelhe.aspx

"Saramago volta a Cidadelhe"

"José Saramago esteve em Cidadelhe, aldeia que visitou pela primeira vez há cerca de 30 anos e que descreveu como sendo o “calcanhar do mundo” no seu livro “Viagem a Portugal”.
Esta passagem pelo concelho de Pinhel surgiu no âmbito de uma iniciativa da Fundação José Saramago que quis recriar o percurso de Salomão, tema do livro “A Viagem do Elefante”.
Assim, a comitiva saiu de Lisboa no dia 17 de Junho, fez várias paragens e chegou à aldeia histórica de Castelo Rodrigo no final do dia seguinte, de onde saiu em direcção a Valladolid – Espanha já no dia 19.
No decorrer deste percurso, José Saramago fez questão de voltar a Cidadelhe, aldeia que teve oportunidade de visitar mais do que uma vez e que quis mostrar aos amigos e jornalistas que o acompanhavam.
O património edificado de Cidadelhe e o seu valioso Pálio, com mais de 300 anos, foram alguns dos “tesouros” que encantaram Saramago, na sua primeira visita, motivo pelo qual quis aproveitar esta “viagem” para, de certa forma, contribuir para a sua promoção e valorização.
A população da freguesia ficou satisfeita por receber novamente o escritor e Prémio Nobel da Literatura e até houve quem viesse de muito longe para falar pessoalmente com José Saramago e pedir um autógrafo. Por sua vez, Saramago agradeceu a recepção e a amabilidade das gentes de Cidadelhe, onde agora é muito mais fácil chegar do que há 30 anos atrás."

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Saramago em entrevista à Bomb Magazine (06/2001) aborda o elemento "Amor" nos seus romances

No livro de João Céu e Silva é abordada a questão da construção do novo livro (A Viagem do Elefante) e o espaço que este pode abrir para uma nova abordagem ou reformulação do seu estilo literário.

(Capa do livro de banda desenhada, baseado na obra "A Viagem do Elefante"
de João Amaral - Porto Editora)

"Vai, então, começar uma nova fase dentro do seu estilo literário?
Não, com esta idade não se vai aprender... Neste livro aconteceu, pela própria natureza e pela própria história que tenho para contar, que me tinha de afastar daquilo que fiz até agora. Tinha forçosamente de ser, basta dizer que é o meu primeiro romance em que não haverá uma história de amor. E não é porque já se tivesse dito tudo sobre o amor, é que não cabe ali e seria um postiço artificial. É a viagem de um elefante e o que é que acontece? O elefante pensa, não sei. E se pensa, não sei em que é que consiste o pensamento dele. O elefante observa, raciocina sobre o que vê ou sente, não sei. Não sabemos nada. Então não vale a pena fazer como tantas vezes se fez, com resultados esteticamente mais ou menos improváveis, onde se antropomorfizou o animal. Separa-nos um abismo e mesmo nos casos em que, como nos chimpanzés e outros símios, há motivos para ver toda esta gente como uma família mas mesmo assim a diferença existe. O que é que se pode contar sobre um elefante que está a fazer uma viagem? O elefante é levado, não vai pelo seu pé. Não vai porque não saberia aonde ir e se soubesse onde ir não saberia como lá chegar. Então, dá isto para uma história a que eu chamo A Viagem do Elefante? Eu creio que sim, que dá. E a dificuldade está em a tornar plausível."

em "Uma longa viagem com José Saramago"
Porto Editora, página 289

E esta alusão de Saramago às histórias que constrói nos seus romances, abriu espaço para que João Céu e Silva recuperasse um "momento" de uma entrevista concedida a Katherine Vaz (Bomb Magazine - 23/06/2001). O amor como elemento não planeado ou pré-existente, mas que acontece decorrente da «variável constante da humanidade». Por outras palavras, acontece porque tem que acontecer e porque as personagens assim o obrigam. Em "A Viagem do Elefante", não acontece.

(Capa da revista Bom Magazine)

Entervista pode ser consultada e lida
em, http://bombmagazine.org/article/3565/jos-saramago 23/06/2001


Katherine Vaz You once said that after winning the Nobel, all the traveling and appearances made you feel like Miss America. Is that still true?
José Saramago No, no, I’d never be Miss America. I said it was as if I was Miss Universe. Because America is not yet the universe!

KV I’d like to address your passion for writing about people who are often invisible or unrecognized. You’ve mentioned that even when Michelangelo and the Sistine Chapel are discussed, the name of the assistant who ground the paints is left out. In Baltasar and Blimunda, when you talk about the building of the gigantic monastery in Mafra, you call the reader’s attention to the silversmiths, lace-makers, clock-makers, carpenters. I think of them as the people whose blood is left hiding in the stones.
JS My intention is to not leave people who come into this world in the dark. Obviously we can’t give voice to everyone, but our culture demands that we speak only of things of obvious importance, or of those who leave the completed work of art. But often–I could say always–whether it’s a painter, writer, sculptor or musician, there are others who leave traces within any given work. You bring up Michelangelo; there had to be an apprentice who was moving the cans of paint or producing landscapes off in the atelier. Then the master came in, painted, retouched his assistant’s work, and signed his name.

KV You’ve emphasized a certain obligation toward those people and their names. For me, the most striking illustration is in Baltasar and Blimunda, when the men transport the enormous stone required to make the door of the monastery. The action continues for many pages, forcing us to be there with the men as they struggle to get the stone slab past trees and around corners. Some oxen are killed by it, and Francisco Marques’s legs are severed. This happens while he’s thinking of how much he wants to go home and make love with his wife. We’re asked to see his life and blood and desire to love literally sacrificed for King Dom João V’s arrogant request to have this door.
JS Yes, yes, Francisco Marques is fictional, he never actually existed, but I mean for him to demonstrate that complete death is the absence of remembrance. Most people will never have any record left except a bureaucratic one. What do you call it here? A “vital statistic,” nothing else. In Baltasar and Blimunda, when I present Francisco Marques or list those twenty or so names by letter–A, B, C, D, to Z–I want those fictional characters to represent all those human beings who never get mentioned. My point is to stop them from being ignored people. I write them down on the page because that’s my best means of conveying this notion; I write books. Francisco and the rest of them are there to shed light, to tear away the remaining shadow that covers the majority of humanity.

KV Where does it come from, your need to do this?
JS If I’d been born into a rich family and had had an easy life, this probably would not be an important issue for me. But since I come from poor people, a family from the working class, I consider this type of justice to be necessary.

KV I’m reminded of your speech yesterday, when you mentioned your brother who died at the age of four. You called him the co-author of All the Names. Can you explain that a little more?
JS I can’t pinpoint what stage of creation I was in, but I decided to write an autobiography–an unusual one that would cover only my first 14 years. But addressing my childhood was going to be difficult, because I had to include my brother, who was two years older and died when I was only two. I did not know the exact date of his death. I had some information about his dying of bronco-pneumonia in 1924, four or five months after my parents moved to Lisbon, and I set out to put together the facts. I requested his birth certificate from our native town (Azinhaga, in the central Ribatejo section of Portugal), and what I received went against everything I had known: it showed that my brother was alive. No date of death was written down.

I then asked for a death certificate from the hospital (Instituto Câmara Pestana) where my parents had told me that he died, and the answer came back that he’d never been there. No trace existed. But they did send me some papers showing that I myself had been a patient for four days! So I had my temperature charts. If it mattered to a biographer, he could say that on such and such a day, José Saramago ran a temperature of 38.5. At least the hospital wasn’t saying that I had died there.

After researching the eight cemeteries of Lisbon and the archives in Lisbon’s City Hall, the truth fell into place: the date of death (December 22, 1924) and the date of burial (two days later in the Cemetery of Benfica). And in fact he really had died in that hospital. But those original, central records had blank spaces. My brother was born in 1920 and today would be 80 years old. If I keep quiet, if I fail to inform the Department of Vital Statistics about their error, then two hundred years from now, some scrupulous employee will say, “Somewhere out there is an old man named Francisco who’s 240 years old! It must be a miracle!”

Tomorrow, if I request another copy of my brother’s birth certificate, it will still be issued missing the date of death. I think I’ll leave him the way he is–alive.

KV So your brother is a presence in All the Names? The main character, José, a clerical worker, becomes obsessed with tracing the life of the nameless woman whose record falls by accident into his hands.
JS My brother’s story didn’t make it into my book, but it had a direct connection to the one I told, about people’s names and the atmosphere of a central registry and the dead’s place among the living. That’s why I consider him a coauthor.

KV José eventually becomes consumed with finding out why this unknown woman committed suicide. He breaks in to spend the night at the school that she attended, where she later taught math; he speaks to her parents, her neighbors. He goes to her former residence. But no one can help him get to her essential mystery. Likewise, when the dead poet Fernando Pessoa visits his heteronym, Ricardo Reis, whom you present as a living character in The Year of the Death of Ricardo Reis, he tells him that he can’t really hope to know anything about Lídia and Marcenda. Pessoa remarks, “…the wall that separates the living from one another is no less opaque than the wall that separates the living from the dead.”
JS The “real dead” would never die if we kept on thinking about them. Maybe it comes down to this: what is it that we fear about the dead? Because what we derive from them are the same things we get from the living; we have memory connected to them, we have their work, we have whatever they left behind. If we stopped worrying about the fact that the dead are dead, we could defeat many of the oppositions we construct between the dead and the living, and we could continue life through memory. There’s memory of the past–meaning all that existed, and there’s memory of the future–the things that people have done or not done that end up leaving a mark on the future. However you want to describe it, we have a continuing relationship with past events, with people, beyond divisions of life and death.

Nowadays we’re preoccupied with not recalling the past, with declaring that memory has no importance. The new generations are not interested in what happened to their parents or grandparents: only what matters today and perhaps tomorrow. This is a disease, a mortal illness. People who have amputated themselves from their own memories become a species of zombies. The irony is that we’ve developed this consciousness–or lack thereof–according to our country, attitudes, and language–all things that could only exist through memory! A plant has no memory. We should expect better from sentient beings.

KV In terms of memory and the naming of names, I’m wondering if you’ve seen the Vietnam Memorial in Washington, D.C. There’s a scar in the earth, and–
JS That’s pure rhetoric! Pure rhetoric. You can fill the earth with evocative monuments, and for the first few times people see them they make associations; what they observe induces a feeling. But as time passes, our eyes glance indifferently over these things. What remains is the aesthetic value of the piece, but the point is not to have people think that something is a beautiful and evocative artwork; the point is to continue contemplation, toward what’s fundamental. The only authentic place to store memory is in people’s heads.

I don’t wish to be offensive, but it’s a fact that the United States has a particular talent in promoting and feeding historical memories that end up becoming quite superficial, rather than developing a committed, authentic conscience. Maybe I’m wrong. But monuments tend to be in designated areas, apart from where people actually reside, so it becomes easy for us to set any deeper meanings aside from contact with our daily lives, from affecting us in the places we occupy.

I’m also quite skeptical about flags or military music; these are designed to mobilize people. The first flag, in ancient Egypt–what we might consider the precursor of all the world’s flags–was the uterus of a cow hung on top of a stick and elevated. We’re supposed to give a cry of emotion and raise our arms against the enemy–because of that? In my opinion, if people were to look at flags from that perspective, much of the solemnity and patriotic rhetoric would fade out.

KV Can we agree that the world falls apart in small ways, but also in overwhelming, large ones? That’s the sense I get from your descriptions, that everything can come loose from its moorings without warning–the entire Iberian Peninsula in The Stone Raft. Gangs roam in Blindness and The Gospel According to Jesus Christ. In The Year of the Death of Ricardo Reis, the title character searches for his love, Marcenda, who might be at the shrine of Fátima because of her paralyzed left arm, but instead of going there, he wanders alone through a crowd beseeching God for a miracle. Then he’s enveloped in the madness of fascist Lisbon. In all these scenes of tumult the backdrop of the world often becomes like a rendition of La Guernica.
JS In fiction, the narrative is obviously about individuals, but to do that effectively, to convey the personal situation of one, two, or three people, the author must understand that everything is set in the context of history. We are “subjected,” the subjects of history. One can’t forget what is behind us and what exists now in a world that is fragmented, chaotic, corrupted, and always moving toward the unknown. We appear on this planet, we try to give our actions meaning, but when the sun finally disappears there won’t be anyone left to talk about it. The Divine Comedy and The Brothers Karamazov will be over. Don Quixote will be over, Beethoven’s Ninth Symphony will be over, as well as the Seventh and the Sixth and all the others, and therefore we will vanish. Humanity will become an insignificant episode in the universe.

KV In Fernando Pessoa’s “Tobacco Shop,” the narrator reflects that one day both he and the shop’s owner will die. The poet will leave his verses and the tobacconist his signboards, but both will perish–it’s only a matter of time–and so will the street with the shop, the language of the verses, and eventually the planet.
JS Let me add to that perspective: it doesn’t imply that there’s any orderly progression to the end of things. I don’t believe that God exists, but let’s suppose for the sake of argument that He does. How can we reasonably think that He devised a universe like this one, one that makes no sense? If He created all those distances, those billions of light-years, why are we confined to this tiny spot? There must have been a time when we populated the whole universe, but because we behaved so badly God cleared us out and put us here; the rest of His creation surpassed us. Pessoa asserts that time will end everything, but I think we ourselves will help time along. I suspect that if there is a God, He is waiting for us to put a final end to our existence. We certainly keep trying to do just that.

KV But haven’t you also implied that we can create dignity and compassion? That we can reclaim history if we respond to what passes as the official word with a “no”? Then we’ve set up an obligation to find another answer, a “yes.” Isn’t there something redemptive or creative there?
JS No, compassion is what would save us, reclaiming history would help us–so why don’t we see much of it? Let me explain myself. Most of us know already that so-called official history is a fiction. Historians write about Portugal, or Spain, or the United States of America, or wherever, by collecting some facts and a certain number of characters–and so they leave out all the rest. Deciding to write a conclusive book about “The Past” is inconceivable, because by definition it’s impossible to include everything. What if I wanted to write a book called Pilar del Rio [Saramago’s wife]? Or your “complete” story? Or mine, or anyone else’s? We pick certain facts, we try to be coherent. And then someone comes along and claims that we’ve written the truth and it gets put on television. Nothing should ever be considered so correct that we could not also reply with a “no” or “perhaps.”

But giving such a radical “no” to every answer would be considered anarchic; it would suggest that everything should be questioned. “No” creates a revolution. Raimundo (The History of the Siege of Lisbon) is curious, he’s doubtful, and he changes the entire history of a city, the lie about it, by inserting one true negative word. The reality is that a “no” often, inevitably, undergoes the process of becoming the norm. And it becomes necessary to fight the subsequent “yes” with another “no.” This isn’t destruction for the sake of destruction; it’s constructive, ongoing discourse. For instance, we’re aware that power can corrupt, that a lack of ethics can overtake the revolutionary who overthrew a power that very much needed a “no” applied to it. Today’s world, unfortunately, is one big “yes,” a self-centered “yes,” the “yes” is everything. There are very few people in today’s world who continue to bring forward the “no.”

KV What role, then, does memory serve in recalling history? In One Hundred Years of Solitude, the disease of forgetfulness infects Macondo. There is a strong undercurrent later about the need to remember in order to defeat forgotten episodes of history. In this case, that means keeping alive the memory of the massacre that occurred during a protest against the United Fruit Company. History may be inexact, but aren’t there things that exist as indisputably true, without equivocation?
JS Well, sure, yes, but the truth there wasn’t recorded, the official local history omitted the incident, that was the point; it was left to the memories of the people to say no, to provide the truth.

There cannot be any writing without memory. Writers are constantly nourished by what they remember–in fact, everyone is. Memory is our deepest actual language. It’s our storehouse of riches, our gold mine or diamond mine, and we need to keep it open, to keep in mind the importance of childhood events that will somehow condition our life and character as adults. What would happen to someone who forgot those experiences? If we have no memory, we are nobody, and nothing is possible.

KV You once said, “Perhaps it is the language that chooses the writers it needs, making use of them so that each might express a tiny part of what it is.”
JS No, I never said that!

KV Okay, okay, forgive me. The narrator of The Year of the Death of Ricardo Reis says it. Do you agree with that yourself? Did the Portuguese language choose you? What part of it have you expressed?
JS This is a common situation for writers–I’m not sure I can make sense of those words. We write things, we evaluate them later as good or terrible, we rethink. Maybe we should keep this as a metaphor instead of a rigorous belief: language needed Luís de Camões, Camilo Castelo Branco, Fernando Pessoa, and because it went looking for them, it found them. Or maybe we can say that we don’t see language creating the writer during the precise, living moment of writing, but when we observe the history of literature, our perspective enables us to observe language in its growing expressiveness.

KV Shall we finish by addressing the practical matters concerning those precise, living moments of writing? How do you manage to write while you travel?
JS When I have something to say, I have to create the conditions for writing it, and with the life I am leading, that’s not always easy. I’ve traveled lately to Italy and Germany, to Timor and America, and Pilar and I recently spent a month in Lisbon. But even with all the traveling as a result of the prize in 1998, I do manage to write, although things might take me a little longer. I only write at home. I can’t write in hotels, or at a friend’s house–totally impossible! I’m just incapable of it, nothing comes out, and that’s that. But when a work is outlined, when I have the idea, it becomes an obsession. I wanted La Caverna to be published this year (in Portugal), and fortunately that will happen. My better half would say that my focus and concentration make this possible.

KV Do you still produce two pages faithfully every day that you’re working?
JS For La Caverna, I was writing four pages a day. It’s a matter of mental organization. It may not seem like a lot, but–

KV Four pages a day every day is a lot.
JS It helps that I start out with a fairly clear idea of what I’m going to say, of certain situations. I have a relationship with my writing that is probably uncommon, which I compare to the growth of a tree that’s been planted and grows and grows in a way that seems simultaneously expected and unexpected. It’s expected, because if we’ve just planted an olive tree, we know what the result will be; olive trees are easy to recognize. But there’s a large degree of unpredictability, in that no two olive trees are alike. Similarly, a book takes root and grows with its own logic.

I don’t write 40 pages and go back to transform them into 80; I don’t go back and rewrite 120 and transform them into 200.

I don’t begin with a detailed outline. To predetermine a story too much is to oblige it to exist before it comes into existence. No, all my books begin as books and branch out by being written, and then they come to an end.

KV Without revisions?
JS I perform a final revision, editing out unpleasant repetitions or errors. I go through everything carefully. Now, what I want to say is this: my method is not haphazard. My books give the reader an impression of solidity, of a real structure. But this is not the result of pulling out a rotten passage, calling it weak, and strengthening it. It’s because the book began as itself and I guided it to grow solidly. As the author, I retain control, of course. Sometimes I say that writing a novel is the same as constructing a chair: a person must be able to sit in it, to be balanced on it. If I can produce a great chair, even better. But above all I have to make sure that it has four stable feet. A chair with three feet promises a fatal fall. No three-footed chair will last.

Writing is my job. It’s the work I do, what I build. I don’t believe in inspiration. I don’t even know what that is. What I know is that I have to decide to sit down at my desk, and inspiration isn’t going to push me there. The first condition for writing is sitting–then writing.

KV There’s a great deal of talk about your novels being books with ideas, but I find that very often–despite your claim as a pessimist–they contain beautiful stories about love and compassion.
JS It never happens that when I’m writing a new book I preplan a love story for it. But in the process of narrating something, in dealing with the circumstances, love enters in as a constant human variable. So it’s possible that in the middle of a story love will spring up, but I don’t specifically intend that. It’s different in every book.

KV In The History of the Siege of Lisbon, Raimundo’s love story grows out of his writing a “no” in a book he’s proofreading. He reverses the history of Lisbon, and suddenly his lonely personal life is turned around.
JS And he meets Maria Sara, who finds that “no” so attractive. Sometimes absolute love occurs; for instance, for Baltasar and Blimunda, and that’s a curious case. When I got to the end of writing that novel, I realized that I had composed a love story without any words of love: no “light of my eyes,” “I love you,” “star of my life”–those sorts of things. A reader might imagine that these omissions were deliberate. It wasn’t like that! I was surprised at this myself. And yet readers have found it a moving, passionate love story. It would have interfered with the book and with the integrity of the characters to have gone back and added those plain spoken words as an afterthought.

At this point in our interview, Saramago’s wife Pilar moved to the couch to sit next to him. He reached out to put his arm around her as she lowered her head to his shoulder.]

My books turn out to be unusual in matters of love. In All the Names, Senhor José has the awkward situation of being in love with someone he will never meet. Even in Blindness, in that terrible environment, we have the Doctor and his wife, and the Young Woman with the Dark Glasses and the Old Man. These are love stories out of the ordinary, but I think it’s for a reason. The love is predetermined by the character of the women who enter the picture. The women who come into my stories–it’s all thanks to them. They’re the ones, these women with their capacities and affection, who make everything extraordinary.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

"A Viagem do Elefante" Uma produção Trigo Limpo Teatro ACERT / Flor de Jara / Parceria da Fundação José Saramago / Música de Luis Pastor

Disponível via YouTube, em https://www.youtube.com/watch?v=yTRap35P9hQ

"A Viagem do Elefante"
Uma produção Trigo Limpo teatro ACERT 
Coprodução musical com Flor de Jara 
Parceria da Fundação José Saramago
Música de Luis Pastor
Imagens recolhidas em São Pedro do Sul a 20-09-2014


Mais dados sobre a obra, via site do "Trigo Limpo teatro Acert"


"A Viagem do Elefante" - Exposição

"Exposição a partir do livro A Viagem do Elefante por Viseu Dão Lafões, um relato que cruza 14 localidades com a digressão do espetáculo do Trigo Limpo teatro ACERT
Entre Maio e Setembro de 2014, A Viagem do Elefante atravessou as terras de Viseu Dão Lafões, apresentando-se em praças e largos de catorze localidades. Depois de uma primeira digressão que atravessou as localidades da rota do Vale do Côa, em 2013, o desafio lançado pela ACERT à Comunidade Intermunicipal de Viseu Dão Lafões voltou a colocar na estrada uma equipa de mais de vinte pessoas, entre atores, técnicos e músicos.
Baseado no conto homónimo de José Saramago, o espetáculo de rua encenado pelo Trigo Limpo teatro ACERT, com a participação musical de Luís Pastor/Flor de Jara e de A Cor da Língua, integrou mais de 700 participantes locais nas suas apresentações, envolvendo as comunidades na transformação do espaço público em espaço cénico e criando, em cada sítio, laços afetivo e culturais que o elefante Salomão – um engenho cénico com mais de seis metros de altura –  soube fortalecer com o seu porte imponente. 
A exposição que agora se apresenta resulta do trabalho elaborado por uma equipa de dois fotógrafos,  dois jornalistas e um designer gráfico que acompanharam a digressão a par e passo. Entre ensaios, montagens de cena, visitas a lugares do património cultural e natural de cada terra e conversas com artesãos de vários ofícios, a digressão de A Viagem do Elefante 2014 resultou num livro que cruza a crónica do espetáculo e da sua preparação com  um percurso pelo território de Viseu Dão Lafões. O que aqui se mostra é uma pequena parte desse trabalho, arrumado em momentos chave da passagem do elefante Salomão por cada localidade e das pegadas que este foi deixando – e recebendo – ao longo do percurso. 

Ficha Técnica
EXPOSIÇÃO a partir dos textos e fotos do livro”A viagem do elefante por Viseu Dão Lafões"
FOTOGRAFIAS: Carlos Teles e Ricardo Chaves
TEXTOS: Ricardo Viel e Sara Figueiredo Costa
DESIGN GRÁFICO: Zétavares"



"Canções do Espectáculo A Viagem do Elefante 
Luis Pastor e A Cor da Língua ACERT

14 Canções do Espectáculo A Viagem do Elefante reúne o disco com as canções do espectáculo levado à cena pelo Trigo Limpo teatro Acert, resultantes do trabalho de Luis Pastor e dos músicos de A Cor da Língua, e um livro onde se guardam os poemas de José Saramago que serviram de letra a estas canções, momentos do espectáculo e fotografias das digressões de 2013 e 2014. 

“(…) Com o objecto que agora se edita, (…) nasce um novo corpo que, não esquecendo a sua origem – como o cornaca Subhro também não esqueceu – assume uma identidade que lhe permite perdurar para além das futuras apresentações, que se desejam, do espectáculo. Assente no diálogo entre a tradição e a contemporaneidade, uma outra marca distingue este trabalho: a sua orgânica, como se um novo corpo se levantasse e se preparasse para fazer, palma com palma, o seu caminho.
Mantê-lo na nossa memória será sempre um dos objectivos da Fundação José Saramago.”

Ficha Técnica
O CD-Livro está à venda na ACERT e na Fundação José Saramago (Lisboa), podendo igualmente ser adquirido por encomenda através do email producao@acert.pt "

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A Trilogia Completa de "A Viagem do Elefante"

Por estes dias... completou-se uma trilogia... 
Salomão adoptado por José Saramago, também corre mundo, com as pranchas de João Amaral, 
nos poemas musicado por Luis Pastor, e na encenação do Trigo Limpo teatro Acert.

"A Viagem do Elefante"
(Uma produção Trigo Limpo teatro ACERT, em co-produção musical com Flor de Jara, 
e com parceria da Fundação José Saramago. 
Imagens recolhidas em São Pedro do Sul a 20-09-2014.)


...a minha trilogia, agora completa...
"A Viagem do Elefante" original de José Saramago
com a edição em BD de João Amaral
e Livro/CD produção Trigo Limpo teatro ACERT com musicas de Luis Pastor

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Fernando Gómez Aguilera destapa um pouco de "A Viagem do Elefante"

(Imagem de João Amaral, "A Viagem do Elefante" em BD)



(...) "Depois para deixar para trás um período de hospitalização em Lanzarote, que coincidiu com a fase mais aguda da sua doença, no início de 2008, retomou a escrita entretanto interrompida de "A Viagem do Elefante". E regressaria à ficção alentando por uma atitude de plena liberdade, descosendo, uma vez mais, as costuras do género, com uma nouvelle abordada desde o seu interior, ratificando o papel desempenhado pelo majestático e libérrimo autor-narrador por quem Saramago se sentia tão encantado. O arranque do conto, que se desenvolveria com um declarado propósito simbólico, parte de uma passagem por Salzburbo, cuja universidade o escritor visitou, em 1999, para pronunciar uma conferência. No hotel onde estava alojado - o Zum Elefanem -, reparou um diferentes reproduções que representavam um elefante em plena viagem, pelas quais se interessou. Tomou assim contacto com a aventura do exótico animal que, no século XVI, havia viajado de Lisboa até  Viena, como presente do rei D. João III de Portugal o Arquiduque Maximiliano de Áustria pelo seu casamento com Maria de Habsburgo. Mas, sobretudo, impressionou-o o grotesco final do admirável e sofrido viajante: as suas patas convertidas em recipiente para sombrinhas. Adoptando intelectualmente a atitude de ensaísta, Saramago articulou o relato com a expressa vontade de penetrar na medula da literatura, numa das metáforas mais substantivas, a da viagem, e dar à luz o seu texto mais cervantino, detendo-se no prazer da literatura pela literatura, quando a palavra e a invenção se convertem em puro discurso autónomo sobre a nossa existência, pois, como ele próprio admitiria, «ao falar do elefante, falo da vida humana». Nada de estranhar, pois desse mesmo modo havia lido o grande livro das letras hispânicas, interpretando Dom Quixote nascia quando Alonso Quijano partia, quando verdadeiramente começava a sua viagem de liberdade. (...)
Com uma frescura tonificante, retoma a circunstância portuguesa, para além de se fixar em figuras concretas, para levar ao leitor um humor desinibido, por vezes burlesco, que serve de contraponto à épica melancolia do paquiderme, cujo discreto e terno heroísmo não o eximirá de um destino implacável, se exceptuarmos o poder redentor da literatura, porque, tal como indica Saramago na epígrafe que ilumina o sentido da narrativa, «sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam». (...)

Em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Ensaio de Fernando Gómez Aguilera
Páginas 56 e 57

(Imagem da encenação da peça de teatro, baseada na obra, pela ACERT)

Quem é Alonso Quijano, referido por Fernando Gómez Aguilera?
Aqui uma breve explicação, via Wikipédia em http://es.wikipedia.org/wiki/Alonso_Quijano

(Iluminura de Dom Quixote e seu fiel escudeiro)


"Alonso Quijano era el auténtico nombre del hidalgo don Quijote, personaje ficticio principal en la novela Don Quijote de la Mancha. Su procedencia se desconoce. Familiarmente, en su aldea natal se le conocía por el nombre de Alonso Quijano, el Bueno.
El porqué del nombre
Investigadores españoles han encontrado documentos históricos que avalan la historia de 'Don Quijote de la Mancha' y de las personas reales en que se basó Miguel de Cervantes para crear su célebre novela. Según 'ABC', en 1581 Pedro de Villaseñor, amigo de Cervantes, y Francisco de Acuña, intentaron matarse a lanzazos en el camino que unía los municipios manchegos de El Toboso y Miguel Esteban.
A diario, Villaseñor y Acuña, coetáneos de Cervantes, iban vestidos como caballeros medievales, y el historiador Francisco Javier Escudero y la arqueóloga Isabel Sánchez Duque consideran que el célebre dramaturgo pudo conocer estos hechos y parodió con su novela una historia y personajes reales.
"Encontramos que los Acuña intentaron matar a los Villaseñor vestidos de caballeros, con todo el aparataje medieval, y nos dimos cuenta de que la historia de Don Quijote no es inventada, es real: es lo que hacían los enemigos de los Villaseñor contra ellos. Increíble pero cierto, está documentado", afirmó Escudero.
Pero en 1573, según textos del Archivo Histórico Nacional español, se produjo un intento de asesinato de otro Villaseñor, Diego, y aquí aparece un tercer personaje, Rodrigo Quijada, que fue procesado aquel año. A su apellido, Quijada, pudo añadir Cervantes un sufijo despectivo que derivó en Quijote.
Escudero explica que El Quijote es "una parodia, una burla" y teniendo en cuenta que no se escriben novelas para burlarse de amigos, Cervantes debió crearla para "ridiculizar" a los enemigos de los Villaseñor, amigos de una de las máximas figuras de la literatura española.
"Todavía estamos en la fase preliminar y puede aparecer mucho más, pero lo que parece evidente es que El Quijote está dedicado a burlarse de esos enemigos de los Villaseñor que, posiblemente, también sean enemigos de Cervantes o a quienes Cervantes consideraba enemigos", añadió el historiador.
Los investigadores han encontrado media docena de documentos de Rodrigo Quijada, en los que se le retrata como "un personaje muy polémico que estuvo muy mal visto en todos los pueblos de la zona", y que, según su biografía, se merecía el maltrato que se le da al Quijote en la novela.
Además, todos estos personajes confluyen en un entorno geográfico conocido por Cervantes."


domingo, 7 de dezembro de 2014

Apresentação do Cd-Livro do espectáculo "A Viagem do Elefante" - Acert Tondela

CD-Livro do espectáculo A Viagem do Elefante
"14 canções do espectáculo A Viagem do Elefante", do Trigo Limpo - Teatro ACERT, a partir do conto de José Saramago. 
Luis Pastor e A Cor da Língua, na ACERT, Tondela

Aqui link, http://issuu.com/acert/docs/14cancoesve_issuu-2



"A Viagem do Elefante"

Espectáculo teatral de rua, do Trigo Limpo - Teatro ACERT, em coprodução musical com Flor de Jara (Espanha) e parceria da Fundação José Saramago

APÓS A DIGRESSÃO DE SUCESSO EM 2013, O ANO DE 2014 É MARCADO PELA VIAGEM DE SALOMÃO POR VISEU DÃO LAFÕES

Ver o site de 'a viagem do elefante'

SEMPRE CHEGAMOS AO SÍTIO AONDE NOS ESPERAM[1]

Foi este o pulsar afetivo que gerou no Trigo Limpo teatro ACERT a ideia da montagem teatral do conto de José Saramago. Primeiro, a paixão compartilhada pela leitura. Depois, as visões encantatórias que faziam de cada momento lido um momento teatral. Tudo mexia. Os personagens passaram a conviver connosco e a segredarem-nos intenções de saírem do conto para lhes darmos vida. O elefante Salomão povoava-nos sonhos e dava-nos carícias de uma humanidade singular. Agigantá-lo seria um justo merecimento. José Saramago semeava em nós o prazer duma aventura imaginosa e arrojada. Tão somente o escutámos: “As pessoas não escolhem os sonhos que têm, São, pois, os sonhos que escolhem as pessoas”.[2]

Assim sucede quando a literatura, sem mais pretensão que ser literatura, se converte em expressão de vida. A partir desse momento, será já, para sempre, por obra e graça da vida dos leitores, grande literatura, destinada a fortalecer, com audácia, a experiência da liberdade humana e da expressão criadora, essa vontade lúcida que tanto ajuda a sonhar e a construir a realidade desejada.[3]

O QUE DÁ O VERDADEIRO SENTIDO AO ENCONTRO É A BUSCA E QUE É PRECISO ANDAR MUITO PARA ALCANÇAR O QUE ESTÁ PERTO[4]

Caminhos de partilha se impuseram. Convidados, Luis Pastor e Flor de Jara, entraram na aventura afetuosa e generosamente. O cantautor criou com José Saramago “Nesta Esquina do Tempo”, livro/disco em que musicou os seus poemas e que encerra com a voz do nosso escritor. Deitou mãos à guitarra e a sua voz encantou-nos nesta nova viagem.
Delicadamente, contámos o sonho a Pilar del Río que se encantou, maravilhando-nos com sua generosidade. Cumpria-se mais um momento onírico: “Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós”.[5]

Escrevê-lo [A Viagem do Elefante] não foi um passeio ao campo: Saramago lançou-se a esta tarefa quando estava incubando uma doença que tardou meses a deixar-se identificar e que acabou por manifestar-se com uma virulência tal que nos fez temer pela sua vida. Ele próprio, no hospital, chegou a duvidar que pudesse terminar o livro. Não obstante, sete meses depois, Saramago, restabelecido e com novas energias, pôs o ponto final numa narração que a ele não lhe parece romance, mas conto, o qual descreve a viagem, ao mesmo tempo épica, prosaica e jovial, de um elefante asiático chamado Salomão, que, no século XVI, por alguns caprichos reais e absurdos desígnios teve de percorrer mais de metade da Europa.[6]

“FISICAMENTE, HABITAMOS UM ESPAÇO, MAS, SENTIMENTALMENTE, SOMOS HABITADOS POR UMA MEMÓRIA …” [7]

A adaptação dramatúrgica não dispensa a leitura integral do conto “A Viagem do Elefante”. Procurou-se encontrar os trilhos que, literariamente, respeitassem a bússola do itinerário de Salomão, evidenciassem as tensões que, teatralmente, exprimissem a riqueza dos personagens e os momentos mais salientes da aventura transfronteiriça. O paquidermísmo humano e a humanização afetuosa do Salomãozinho, cruzam a narrativa teatral assimilada do texto literário de José Saramago que se caracteriza pelo “humor irreverente, a ironia distanciadora, a compaixão, o humanismo cético e a ternura”, contrabalançada com “a mesquinhez, os inconvenientes próprios do caminho e o desconsolo provocado pelos poderes terrenos e divinos”.[8] Contra factos tão literários, que argumentos restam ao teatro? Somente navegar na narrativa, bem como devolver ao palco os diálogos já tão magnificamente elaborados e o carácter ficcional das situações que, estando a viver nas páginas do livro, pertencem ao imaginário daqueles que, na leitura, assumem a encenação singular que a sua fantasia reclama. Por isso, estamos confrontados não com público desprevenido, mas, em muitos casos, com guardadores de memórias do que leram. Encenadores duma fílmica leitura. Mediadores zelosos que querem identificar a leitura na visão teatral que lhes é proposta.

Mas não será excessivo, sem embargo, observar que onde poderia parecer que há pouco de Saramago, aqui se encontra todo ele, o mais relevante, a palavra descoberta, sem alardes nem arranjos, sem argumentos nem propósitos que não sejam habitar o centro da língua portuguesa e, uma vez mais, dar a sua versão heterodoxa e complementar da História a partir de ressurreições marginais imaginadas, de uma vontade humanista, de substituir a crónica pela invenção e forçar a alteração da perspectiva acomodada.[9]

[1] José Saramago, A Viagem do Elefante,
[2] idem, O Evangelho Segundo Jesus Cristo,
[3] Jornal de Letras, Artes e Ideias, Testemunho de Fernando Gomez Aguilera sobre obra literária de Saramago, 5/11/08,
[4] José Saramago, Todos os Nomes,
[5] Idem, ibidem,                                  
[6] Mensagem de Pilar del Rio, José Saramago terminou um novo livro. Chama-se A viagem do elefante.
[7] José Saramago, Palavras para uma cidade
[8] Fernando Gomez Aguilera, “Testemunho de sobre obra literária de Saramago”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 5/11/08
[9] Idem, ibidem

INICIOU A GRAVAÇÃO DO LIVRO/CD " A VIAGEM DO ELEFANTE"
A LOUCURA CONTINUA!



"A VIAGEM DO ELEFANTE" POR VISEU DÃO LAFÕES
Um Roteiro em 2014
Lançamento do Livro

Um espetáculo, uma viagem, um território.

Apresentação integrada no 20º FINTA - Festival Internacional Teatro ACERT

A propósito da circulação do espectáculo “A Viagem do Elefante” criado pelo Trigo Limpo teatro ACERT e promovida pela Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões, é apresentado o livro/roteiro “A viagem do elefante por Viseu Dão Lafões”.
Mais do que um trabalho sobre o eespectáculo é um trabalho sobre o território e o que dele se destacou ao longo desta digressão. Um apelo à visita guiada por um elefante indiano. Um guia por locais habitados por gente boa, com recursos únicos, memórias e identidades que se cruzaram na passagem do elefante Salomão por cada terra. Um território que faça cumprir, citando José Saramago, que “No interior de cada país está o seu destino”.

Quatro criadores (dois fotógrafos, Carlos Teles e Ricardo Chaves, e dois jornalistas, Sara Figueiredo Costa e Ricardo Viel) que acompanharam toda a digressão, mostram-nos o que de melhor descobriram em cada local, apelando ao visitante para que descubra por si um território diverso, rico, estimulante. Um território cheio de sinais de enorme vitalidade, que ousou, demonstrar a cultura como ferramenta essencial de desenvolvimento. Uma comunidade que assumiu, com ousadia, apostar na criação artística como projecto comum aos catorze municípios que a integram. Um território que deixa marcas em quem o visita e que tem como “primeiro cidadão em comum” o elefante Salomão.

O projeto não se confinou às apresentações nem se esgotou numa digressão teatral. A riqueza do processo, nas suas vertentes sociológicas, turísticas e de desenvolvimento regional mereceram, desde o primeiro instante, uma atenção particular.

Uma obra pioneira, reflexo de um projecto pioneiro, que tenta demonstrar a importância de fazer/ pensar diferente em áreas como o trabalho colaborativo, o turismo, o desenvolvimento local e comunitário e das práticas artísticas descentralizadas com repercussões na valorização dos territórios e das suas gentes.

Assim, esta edição literária e fotográfica não é o diário de bordo do eespectáculo“A Viagem do Elefante”. É sim um cicerone que dá conta duma experiência integradora, dando visibilidade aos locais e suas riquezas materiais e imateriais de forma singular. Esta edição desvia se propositadamente do sentido do habitual guia turístico, uma vez que é o Elefante Salomão que ficcionalmente corporiza cumulativamente o papel de viajante e do residente. Com as devidas ressalvas, a opinião de José Saramago na sua “Viagem a Portugal” está subjacente ao que se pretende:

“História de um viajante no interior da viagem que fez, história de uma viagem que em si transportou um viajante, história de viagem e viajante reunidos em uma procurada fusão daquele que vê e daquilo que é visto, encontro nem sempre pacífico de subjectividades e objectividades. Logo: choque e adequação, reconhecimento e descoberta, confirmação e surpresa.”

Aqui o link, http://www.acert.pt/programacao/registo.php?id=795



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Entrevista ao Público, por ocasião do lançamento da obra "A Viagem do Elefante" - 7/11/2008



Entrevista a Saramago, por Sílvia Souto Cunha, publicada no Público a 7 de Novembro de 2008

Aqui, em http://visao.sapo.pt/memoria-de-elefante=f497069


(Imagem da peça de teatro, baseada na obra e encenada pela ACERT)


"Memória de elefante"

"Saramago atravessou para o lado da escuridão e regressou. Tem um novo livro, A Viagem do Elefante, um filme a partir de Ensaio sobre a Cegueira, um blogue em nome próprio, dez anos cumpridos de Nobel... Um modo de ressuscitamento."

"Há talvez um voyeurismo, como se ele fosse um Lázaro. E uma homenagem sentida, este corropio de entrevistas que cerca agora o Nobel português. Cabeça de pássaro, figura magríssima, voz frágil, Saramago é, ainda e sempre, lúcido, sarcástico, atento, atirador de farpas. A vida venceu a morte, pulsa à sua volta no novo livro, no filme realizado por Fernando Meirelles, na Fundação José Saramago que se transplantará para a Casa dos Bicos, no blog pessoal (em http://josesaramago.org ), nas lágrimas que lhe rasam os olhos quando fala da cena que mais o impressionou em Ensaio sobre a cegueira: "Quando as mulheres vão para a camarata vizinhas, para a violação, e nós as vemos passar por trás de uma janela, em fila... Para mim, naquela passagem delas, de cabeça curvada, está representada a história da mulher." 
"O que tiver de ser meu às mãos me há-de vir ter'. Que presunção é essa, que consciência de importância era essa, seu rapazote?", recorda ele aos 86 anos, a frase dita aos 18. Depois do Nobel, de 41 obras, peças, diários, depois de Lanzarote, depois de Pilar del Rio. A pergunta última será interrompida por ela, atenta à agenda. Há alguma coisa que falte vir à sua mão? A resposta: "Não falta nada. A única coisa que eu quero ter ainda é vida. Vida para viver, vida para viver com quem vivo, se possível trabalhando. Se eu faço um balanço, operação bastante inútil, enfim, pois balanço feito pelo próprio é sempre suspeito. Se eu olho para trás, independentemente dos triunfos, das glórias, aquilo que eu gosto mais é encontrar um sujeito consciente, coerente. Coerente. Nunca cedi às tentações do poder, nunca me pus à venda."



Em A Viagem do Elefante, um aldeão questiona o padre sobre Jesus. É o seu habitual desmontar do aparelho teológico através de homens simples, do senso comum? 
É mais a forma como eu digo algo que já disse. O diálogo está articulado de forma natural, com a naturalidade que a literatura pode ter. E muito estimulante, porque dá a ideia de que o leitor estará a assistir, ia dizer ao despertar de uma consciência, mas ao manifestar de uma consciência. A consciência do aldeão que enfrenta o cura com uma arma: a lógica. Gosto disso. O senso comum faz-nos muita falta. Pode ser provocante, chato. Mas também pode apresentar-se como algo muito tónico que é o desmancha-prazeres. Ou, como dizem os franceses, o 'empecher de danser'."

O senso comum é, neste momento de crise, é a única arma possível dos intelectuais, das instituições, das pessoas comuns?
Não é a única arma possível. E o senso comum não é uma arma, é um modo de relacionar-se, é uma relação que se propõe um certo equilíbrio, um reconhecimento tácito de certas verdades elementares. Enfim, são aquelas coisas que, no fundo, são uma espécie de consensualidade em que muitos podemos dialogar uns com os outros, partindo de bases que são compartilhadas, e que permite um discurso - que pode não levar à concórdia. Mas uma discordância  sobre a qual se fala já é algo mais do que uma discordância. Bastaria, no caso da crise actual, um pouco de senso comum para perceber que tudo aquilo iria conduzir-nos ao maior desastre deste século e não sei de quantos séculos mais.

Senso comum ou honestidade?
Os princípios do capitalismo, os banqueiros sobretudo da Europa central, eram quase todos calvinistas com o sentido moral de existência até demasiado rígido. Enfim, era assim que eles viviam. Esse espírito resultava de uma determinada concepção religiosa, ou de uma interpretação do cristianismo que formava pessoas de códigos de regras morais que, para eles, seria inconcebível pensar em infringir. Ora bem, a banca, com a passagem do tempo, deslocou-se até se transformar naquilo que é - o seu contrário. Esperaríamos encontrar senso comum em pessoas alcandoradas, por meios próprios ou por razões de outra ordem, a situações de poder. Como os grandes banqueiros, os grandes industriais, os grandes fazedores de dinheiro sobretudo para si próprios. Aquilo que nós chamamos 'uma certa moralidade'. Que no fundo se traduz naquele preceito, tão simples, tão simples, que é: não faças aos outros aquilo que não quiseres que façam a ti'. Todo o espírito de justiça social ou justiça em geral, está contida numa frase tão de senso comum como esta. Num artigo que publiquei, aqui em Portugal e em Espanha, a que chamei de Crime financeiro contra a humanidade, apelava a esta ideia: que se está a cometer um crime que, como tal, deveria ser julgado. Esta gente devia ser julgada nos tribunais. 
Isso causou, nessa altura, reacções bastante destemperadas como se eu tivesse dito alguma enormidade. Pois já se está a falar disso! Milhões e milhões de pessoas desempregadas por efeito de acções, delitivas ou não, que têm consequências tremendas para pessoas, famílias - e que se compraziam nas delícias, autenticas ou supostas, da classe média, com o seu carro, a sua capacidade de consumo, as suas férias, e que de repente... Há pessoas aqui que há 4 ou 5 anos colaboravam em acções de ajuda humanitária, e que agora estão à espera que alguém os ajude. 

Há quem defenda aqui uma oportunidade - um castigo para justos e pecadores, quase - para que se possa renascer melhor. Um sistema melhor. O que lhe parece essa opinião?
Isso é um discurso moralista que não leva a lado nenhum. Pode ser que leve a isso, mas não por essas razões. Aí teríamos que perguntar, quem é que nos está a castigar? Deus nosso senhor, uma vez mais? Não podemos classificar-nos de cúmplices do que está a acontecer. Transformaram-nos em sujeitos passivos, dispostos a usufruir das benesses do desenvolvimento - carros para toda a gente, férias no Pacifico para todos, consumo à disposição, crédito ilimitado para criarmos dívidas que dificilmente pagaríamos mas que, no momento em que o dinheiro entra em casa, parece que o problema da felicidade pessoal e familiar ficou resolvido... E, de repente, acordámos. Isto explodiu. Temos culpas? Provavelmente sim, mas onde é que estavam as ideias capazes de organizar-nos, ideias inteligíveis e mobilizadoras das consciências e vontades para se opõr a isso? Pode levar a uma mudança, mas precisamos de ideias. Não vamos a parte nenhuma sem ideias. 

É uma forma de dizer que precisamos de uma ideologia forte? 
Ideologia, já temos. É a ideologia do consumidor.  A facilidade de consumir forma ou deforma a consciência da pessoa. Isso acaba com tudo! Porque preencheu o espaço de uma determinada ideologia, fosse ela qual fosse. Já não és um cidadão, és um consumidor, um cliente. A partir daí, a pessoa vai cumprir as obrigações inerentes a esse facto: vai comprar e comprar e comprar. Isso acaba por ocupar todo o espaço mental na sua vida. Essa situação acabou neste momento. Acontece que a esquerda não está preparada, não se preparou para esta eventualidade.  Não vamos chamar, referindo-me exclusivamente à Europa, esquerda aos governos sociais-democratas ou socialistas. O facto de terem preocupações de justiça social, não faz deles esquerda porque a justiça social não é qualquer coisa de inseparável da esquerda. Claro que uma esquerda sem justiça social não é, não deveria ser, concebível. Mas uma direita pode ter preocupações de justiça social, no interesse da estabilidade do seu poder, há que reconhecê-lo. Agora, ideias para transformar o mundo da maneira como ele se encontra, não é fácil. Onde estão os filósofos, os sociólogos? O problema é que não faltam: pegamos num jornal e não faltam as análises, as propostas. Mas nada disso tem capacidade mobilizadora, porque  as pessoas não se deixam mobilizar, ou porque as razões aduzidas não são suficientemente convincentes, e tudo avança ao pé-coxinho. 

Falta aí uma, digamos, paixão, ingrediente das religiões e dos partidos?
Repare, a paixão partidária já está muito por baixo. E a paixão religiosa fragmentou-se em seitas cada vez mais irresponsáveis, falsas, mentirosas. A facilidade com que um oportunista qualquer monta uma nova igreja, junta uns milhares de pessoas à sua volta para ouvirem aquilo que ouvem - versões ou interpretações completamente abusivas dos evangelhos. E a necessidade que as pessoas têm de ser enganadas. Seria preciso concluir que as pessoas sabem que estão a ser enganadas, e não é assim. Acreditam naquilo. O que é interessante é que acreditam mais no irracional do que numa operação de racionalização. Esta é demasiado fria, não apaixona - para usar essa terminologia. O que é necessário para atingir os seus fins é: quanto mais irrealidade tenha o discurso que congrega esses milhares, mais eficaz se revela. As pessoas gostam de ser convencidas de que 2 mais 2 são cinco. E se aparece alguém a dizer que são 4, é um herege. Ou um desmancha-prazeres. Sobretudo, um desmancha-prazeres.



O José Saramago teve sempre, e apurou até, essa imagem do desmancha-prazeres, do denunciador. Sente-se confortável nesse papel? 
Não me sinto confortável. Mas se me perguntar se me agrada esse papel, sim. É uma expressão da minha maneira de ser. Não suporto enganos. Contei isto algumas vezes: quando era rapazito, ia ao São Carlos - não porque eu tivesse dinheiro para pagar o bilhete. O meu pai, que era policia de segurança pública, conhecia os porteiros. E eu ia lá para cima, para o galinheiro. Houve aí uma alegoria que me ficou para toda a vida. Para quem estava nos camarotes, era uma coroa o que estava sob a tribuna real. Mas para nós, sentados por trás dela, víamos outras coisas: primeiro, que a coroa não estava completa. Segundo, que tinha poeira e teias de aranha dentro e uma ponta de cigarro republicana, posta ali para protestar. Aquilo ficou-me para sempre, o outro lado das coisas. O outro lado da palavra, de tudo o que nos conduz numa determinada direcção, e que é preciso iluminar para que, se não podemos resistir, pelo menos termos consciência. Que não nos levem ao engano, que é uma expressão muito portuguesa. Por exemplo, numa entrevista a um jornal argentino, há uns quatro anos, eu disse que 'a esquerda não tem puta ideia do mundo em que vivemos'. Isto causou um escândalo dos diabos. Que eu, um homem de esquerda, comunista ainda por cima, se atreva a dizer isto! O que, desgraçadamente, é uma realidade. Porque boa parte dessa esquerda vive no passado, julga que ainda pode assaltar o Palácio de Inverno e começar aí uma nova era para a humanidade. O tempo passou, as coisas aconteceram, muitas delas autênticos desastres, crimes, e é preciso rever as próprias ideias à luz desses mesmos acontecimentos. Se as ideias resistem, vamos dar-lhes uma segunda oportunidade. É quando eu digo sobre esta crise, e já me estou a repetir, que Marx nunca teve tanta razão como hoje. 

Quando fala em segunda oportunidade, abrange a via da esquerda comunista? 
Não é a razão póstuma que possa ter Marx que vai resolver os nossos problemas. Eu sou suspeito, como militante que sou. Posso ser acusado de ter uma visão deformada sobre as coisas. Admito que sim. Mas quando olho a Europa e vejo o que aconteceu aos partidos de esquerda... Como pôde este partido, num País pequeno como o nosso, sobreviver ao ponto de poder dizer-se que é o único partido comunista que sobrevive na Europa? A verdade é que o célebre capitalismo que ia resolver tudo, resolveu tão pouco que estamos numa crise e não sabemos como iremos sair dela. As pessoas movem-se mas necessitam que uma ideia as faça mover. 

Continuamos na alegoria da caverna?
Sim. Ainda não saímos daí. Os que se encontravam na caverna de Platão viam imagens no fundo e pensavam que aquela era a realidade. Mas nós estamos numa situação talvez pior. A irrealidade manifesta daquilo que a televisão mostra, é isso que nos atrai. Nós queremos viver vidas impossíveis, fabricadas no contexto da TV, da publicidade. Se juntar isto ao crédito fácil, tem aí milhões de pessoas dispostas a fazer todos os disparates que as levem a acreditar que são felizes. Essa felicidade é uma bola de sabão, que explodiu.

Fala sobre a contemporaneidade, já lhe chamaram o Nobel bloguero. O que o interessou neste Salomão? Porquê voltar atrás na História?
Eu já fiz algumas viagens assim. O Cerco de Lisboa é isso, coloca uma questão fundamental para mim que é a da verdade histórica. A Viagem não é um livro de evasão, uma história simpática e bem-humorada, para o escritor se evadir das ameaças, tristezas e agruras do mundo exterior. A história do elefante que podia ter ido de barco até Génova e subir os Alpes até chegar a Viena, mas que foi andando, andando, milhares de quilómetros, só por si podia dar uma ideia para escrever algo. Mas o que me levou a este livro foi o destino dele no sentido de que lhe cortaram as patas, depois de morto, para as pôr à entrada do palácio como lugar para deixar as bengalas, os bastões, sombrinhas. Narrado até esse ponto, não excluindo esse final, seria uma metáfora da vida humana. 

Salomão somos todos nós?
Não temos patas de elefante para andar mas alguém se aproveitará daquilo que fizemos ou fomos, para tirar daí vantagens, notícias ou até o prazer de conservar uma memória ou um trabalho. Repare, tive o cuidado de não antropomorfizar o elefante, aquilo que é muito corrente quando um autor mete um animal na sua história. A tentação é irresistível, pô-lo a pensar como nós. Eu sei lá o que é um elefante! Um elefante pensa, constipa-se, apaixona-se? Não sei. 

Deixa-se seduzir ao ponto de se ajoelhar perante uma igreja, num "milagre" encomendado...
Sim. Ensinaram-lhe isso. Ele ajoelha-se mas não sabe porque se ajoelha: a questão é essa. O que está diante dele não é a Basílica de Santo António. Ele não sabe o que isso é. Aprendeu a suportar o peso do cornaca, aprendeu outras coisas. O elefante é um dos animais mais usados  - veja-se o circo. Se este livro se dedicasse à realidade histórica, uma página chegaria. O livro tem 260 páginas, portanto 95% é pura invenção. Tive de inventar situações de que não há registo. Há que dizer que aquele caso do salvamento da criança aconteceu. O elefante agarrou-a com a tromba. Se eu tivesse inventado tal, sentir-me-ia mal, estaria a abusar da credibilidade do leitor. 


Escreveu 40 páginas, interrompeu o livro devido à doença respiratória que teve, e acabou o livro depois. A doença mudou a forma de escrever?
Não, não mudou. A questão podia ser posta dessa maneira: um escreveu o livro, e outro esteve doente. Ora acontece que o que esteve doente escreveu o livro. Em primeiro lugar, é estranho porque é que uma doença tão grave como a que tive, não deixa no livro a mais pequena marca. Pilar diz que sim, que é o episódio do homem perdido no nevoeiro. E que isso era premonitório, embora creia que foi escrito depois de ter saído do hospital. O livro conta uma espécie de fábula, feita durante um tempo em que estive entre a vida e a morte. Algumas vezes, mais perto da morte do que da vida. Podia, consciente ou inconscientemente, fazer alguma citação em que o leitor pudesse pensar 'ah, escreve isto porque tem uma relação com esse momento'. Mas não há nem uma.

Foi uma decisão consciente?
Não foi consciente como deliberação. Agora, estive consciente de que estava a fazer isso mesmo em cada página. Eu creio que, em qualquer caso, nunca escreveria nada que tentasse reconstituir algo que eu tinha vivido num estado de consciência bastante limitado. 

Como fez José Cardoso Pires, após o seu coma, no De Profundis?
Não sei que parte de ficção haverá ou não no livro do Cardoso Pires. Por outro lado, há um antecedente igualmente importante, que é o livro do José Rodrigues Miguéis, Um homem sorri à morte com meia cara. Eu creio que não o faria. Neste caso concreto, seria errado fazê-lo, porque há pouco eu disse que estive entre cá e lá... é muito difícil que eu pudesse pôr uma história, uma versão do que foi a minha situação durante estes meses. 

Mas falou já deste novo livro como um testamento.
Será inevitavelmente um testamento se eu não escrever um outro livro. Com a passagem do tempo, não acredito em testamentos literários. Mas há outras consequências. Acho que o livro é, sobretudo, uma homenagem à língua portuguesa. A minha impressão é que esta doença transtornou a ordenação desses sedimentos: alguns que estariam no profundo passaram à superfície e tornaram-se mais conscientes. Foi uma espécie de revelação, como alguém que descobre que sabia mais do que imaginava. Construções frásicas, palavras que julgava sepultadas nos sedimentos no passado, de repente deslocaram-se para o presente. É como se tivesse captado, sem esforço, algo essencial no meu idioma. Por isso, a linguagem desta Viagem é, ao mesmo tempo, moderna e arcaica. Noutro plano, há a profunda serenidade com que vivi esse momento, inclusive o período mais agudo e perigoso da doença. Amanhã morrerás. Sim.

Teve medo que as capacidades de escrita, a memória, pudessem ser alteradas?
Nunca tive medo. O chamado medo de morrer, o medo de não ser. Tive um momento em que as funções principais do corpo se suspenderam. Creio que, aí, o vencedor dessa batalha foi o coração. Tenho um coração excelente. Enquanto o resto ameaçava falhar, ele continuava a trabalhar. Saí e vivi essa parte já consciente da minha realidade com essa profunda serenidade, que sempre tive mas que se cristalizou. Hoje, surpreendo-me com ela. 86 anos. Devia estar preocupadíssimo em chegar aos 87. Mas não. Sairei da vida quando tiver de sair. Já podia ter saído, não calhou. Valeu-me a Pilar, que me deitou a mão à gola do casaco e não me deixou cair no poço. 

O criador de banda desenhada Enki Bilal, órfão de pátria, disse que 'a última ideologia que restava era a utopia do amor'. O duo Pilar-José Saramago tornou-se um exemplo, no presente e para o futuro, sobretudo se se pensar na Fundação José Saramago?
Um dos erros maiores que podemos cometer é generalizar a vida pessoal. Não sei se ele tinha razão ao dizer que todas as ideologias acabaram. É como dizer 'A arte acabou, a literatura acabou', e depois não acabam, encontram outros caminhos. E aquilo que fica como única utopia - o facto de lhe chamar utopia já é grave - seria o amor. Mas que espécie de amor? Aquele, bastante egoísta diga-se, que une duas pessoas? Ou, por exemplo, em termos amplos, o amor pela humanidade? É um amor à pátria, a isto, aquilo ou aqueloutro? Não sei. Neste caso, o que há, além do que se chama amor, afecto, tudo isso e muitíssimas coisas, é um sentimento de igualdade. Que não é discutível. Como diria o senhor Sarkozi, não sendo eu muito versado em francês, 'c'est comme ça, il n'a rien a dire'. Também há o sentido do respeito mútuo. Não o simples respeito devido, mas alguma coisa mais profunda pelo que é a identidade do outro. Que, sendo esposa ou marido, é Outro. Não há nenhum sinal de uma subalternidade, não creio que isso possa ser dito acerca de nós. Vivemos num plano de igualdade, como não é frequente. Ou mesmo sendo frequente, nem toda a gente pode exprimir estas ideias num jornal - numa entrevista por exemplo, então nota-se mais. Mas ainda bem. Se se nota e se é verdade, e eu garanto-lhe que sim, que isso sirva não de exemplo, pois não estamos na vida para dar lições a quem quer que seja. Estamos na vida para viver segundo os nosso juízos, os nossos critérios, a nossa forma de entendermos a vida.

A propósito dos dez anos do Prémio Nobel, referiu que sentia que tinha "cumprido bem o papel do ponto de vista cívico". Quer elaborar?
Pode parecer algo supérfluo que poderia ter passado na entrevista sem ser referido. O prémio Nobel é o que é, prémio esse para um escritor português, atribuído praticamente um século depois de ter sido criado. O Prémio Nobel não tem nenhuma espécie de caderno de responsabilidades. Trata-se apenas de ir lá, receber a medalha, o diploma, o dinheiro, e se quiser fica-se por aí. A academia sueca não nos pede explicações sobre como estamos a viver esse prémio. Mas pensei que as minhas obrigações iam muito além do literário. O prémio era para um escritor, para a literatura, para um certo modo de fazê-la, pensá-la, criá-la. Mas também era um prémio para Portugal. Quando disse então que "os portugueses tinham crescido três centímetros" - todos nós nos sentimos mais altos, mais fortes, mais formosos até. Só havia uma coisa a fazer: era viver e fazer viver o mais intensamente possível as consequências do prémio. Estive em aldeias portuguesas, onde me encontrei com a filarmónica, os foguetes, o rancho a dançar, as crianças, os velhinhos que nem sabiam ler mas estavam ali. Acho que fiz bem em estar ali! Quando digo que, no plano cívico, estive à altura do Nobel, não quer dizer que o prémio exigisse aquilo! Mas era importante, e não era menos importante que eu viajasse. E houve a repercussão: as distinções honoris causa que recebi, já vão em 34 ou 35, e esperam-me mais duas: da universidade de Quioto e da universidade de Budapeste. Não quer dizer que tenha andado por aí como embaixador da cultura portuguesa, há pessoas muito mais responsáveis e com mais razões que podiam assumir-se como tal. Mas fiz tudo aquilo que podia. Cansei-me, pois cansei-me. Viagens longuíssimas, cerimónias, recepções, muitos apertos de mão, muitos sorrisos, e eu sou todo ao contrario, mas compreendia que havia de engolir até ao fim. Não me estou a queixar, foi muito lisonjeiro esse reconhecimento.

A Fundação José Saramago é a expansão natural desse dever cívico?
Minha cara, eu sou suficientemente antigo (não me custa nada reconhecê-lo) para poder ser moderno quando me apeteça. Sendo eu a pessoa que sou, não tinha outra saída. Se fosse esta a maneira da maioria das pessoas participarem numa alegria que, sendo minha em primeiro lugar, também poderia sê-la para outros. Muitos deles nem me leram, talvez agora o façam com A Viagem do Elefante.

Ou talvez também o leiam devido ao filme, Ensaio sobre a Cegueira, realizado por Fernando Meirelles a partir do seu livro. De que gostou muito, disse-o já. 
Muitíssimo. Não me surpreende nada que os Estados Unidos não tenham gostado, mas no Brasil, que me interessa muito mais, já vai quase no milhão de espectadores. E segundo me disse o Fernando, há uns dias, esperavam cerca de 500 mil pessoas. Eu tinha visto uma versão do filme, no início deste ano, no São Jorge, mas a projecção foi muito má. Agora, em Alcochete, naquela sala enorme com 900 pessoas, num ecrã como nunca vi em parte nenhuma, Ensaio mostrou-se-me como aquilo que é: um grande filme. Um grande filme. Tudo aquilo que é essencial no romance é essencial no filme. E não vale a pena entrarmos nessa discussão sobre se se pode ou deve adaptar, ou não, se é melhor o livro ou o filme... Essa é uma obsessão inútil.

Disse certa vez que gostaria de ser recordado pela cena do Ensaio sobre a cegueira, em que o cão lambe as lágrimas da mulher. Gostou de a ver no ecrã?
Sim. Mas gostaria que o cão fosse um pouco maior. Porquê? Nós, os escritores, somos assim, temos de encontrar umas respostas interessantes, senão o que seria da nossa reputação? Mas isto não é uma espécie de capricho. Tem a ver com o que sinto na relação com os animais. O cão é um animal muito particular, transforma-se num elemento da família, numa plataforma de entendimento entre as pessoas. Disse isso porque presumo que não é qualquer um que é capaz de inventar um cão que lambe as lágrimas a uma pessoa para consolá-la. Claro que não sei se o cão fez isso para consolar, mas essa é a imagem que fica. Mantenho a resposta. Embora tenha dúvidas sobre se não deveria colocar, ao lado do cão, o elefante a quem mudam até o nome. 

Reconheceu-se no narrador, interpretado por Danny Glover? 
Não. O Fernando Meirelles pretendeu fazer do personagem com a pala preta uma espécie de alter ego meu. Chegou a pensar num certo tipo de participação minha, e eu disse-lhe 'nem pensar'. Porque eu não sou actor, porque não tenho nada a fazer ali. O que tinha a fazer, o livro, estava feito. A minha presença, por muito curiosa que pudesse ser, não acrescentaria nada e deslocaria o foco. O que eu quero é que o filme seja ele, o que é, como é, e para que é. E isso está conseguido. O personagem, e o actor é muito bom, evoca-me mais talvez pelo tom em que diz as coisas do que pelo que diz: um tom de sagesse... Sabedoria mas não só, as palavras não são traduzidas de uma língua a outra 100%. Como dizia alguém, uma rua não é uma calle nem uma street. Uma rua é uma realidade social particular. Então, o modo de expressar-se do actor, eu diria que talvez se aproxime bastante da minha forma de comunicar as coisas. Sou capaz de dizer as maiores enormidades no tom mais discreto.

Há ainda Julianne Moore, a heroína do filme. Uma mulher que, como quase todas as mulheres, muda estoicamente o mundo?
Tem uma interpretação exemplar. Mas vou dizer-lhe a cena que mais me impressiona no filme: Quando  as mulheres vão para a camarata vizinha, para a violação, e nós as vemos passar por trás de uma janela, em fila... Para mim, naquela passagem delas, de cabeça curvada, está representada a história da mulher.

Não há mulher alguma a conduzir o elefante Salomão...
Não. Há uma arquiduquesa feita para parir filhos, porque para isso está, para isso a fizeram nascer e nada mais. Quando eu dizia que este livro não é um romance, é um conto - embora pela dimensão não o pareça e as pessoas decidem as coisas pela aparência que estas têm - é, no fundo, isso mesmo. A história da viagem de um elefante que vai para Viena (por Figueira de Castelo Rodrigo, Valladolid, Rosas e Génova) não pode ser um romance. Não há nenhuma Blimunda pelo caminho nem uma mulher do médico nem nenhuma das minhas heroínas - como existiam em Manual de Pintura e Caligrafia ou como a própria Morte em As Intermitências da Morte.  Aliás, este último livro teve uma critica extraordinária no The New Yorker, que me fez pensar como é que um dos melhores analistas literários dos EUA perdeu todo este tempo comigo.

Essa espécie de modéstia não será algo deslocada?
Não é modéstia, é a consciência das coisas. Habituamo-nos durante tanto tempo a não ser considerados... Aliás, a ser ignorados. E, de repente, uma obra literária de um autor português entra nos Estados Unidos da América. Eu não fiz nada para isso, não andei a visitar editores de revistas e jornais. Apercebi-me que, desde o início, a critica norte-americana foi simpática e compreensiva comigo - e eles são habitualmente implacáveis.  Não o foram de uma forma entusiástica mas, nos últimos anos, renderam-se às minhas virtudes e tal, quer se queira quer não, continua a surpreender-me. Não é modéstia. Não sei se sou modesto. Creio que sou natural, o orgulho não faz parte do meu carácter. Mas um ensaio como aquele, feito com aquela inteligência, é obra. 

Sente falta desse tipo de atenção em Portugal?Há outra gente aqui. Eu não tive quem em ajudasse, fui fazendo, livro após livro, escritos bastante tarde quando outro escritor já teria obra feita. O resultado foi este: entregam-me o Nobel, venderam-se milhares de livros. Felizmente para mim, nada disso me subiu à cabeça. 

Já antes dissera que sabia que isto estava no seu destino.
Quando eu tinha 18 anos, em conversa com amigos, disse uma frase que ainda hoje me surpreende. "O que tiver de ser meu às mãos me há-de vir ter". Que presunção é essa, que consciência de importância era essa, seu rapazote?. Mas não era presunção. Era simplesmente a consciência de que, fosse o que fosse, estava iminente. E eu não sou um espírito fatalista. A minha vida demonstra-o. 

Há algo que ainda falte vir à sua mão?
Não falta nada. A única coisa que eu quero ter ainda é vida. Vida para viver, vida para viver com quem vivo, se possível trabalhando. Se eu faço um balanço, operação bastante inútil, enfim, pois balanço feito pelo próprio é sempre suspeito... Se eu olho para trás, independentemente dos triunfos, das glórias, aquilo que eu gosto mais é de encontrar um sujeito consciente, coerente. Coerente. Nunca cedi às tentações do poder, nunca me pus à venda. No fundo, fui e sou uma pessoa totalmente desprovida de ambição. 

Livro
A grandeza de Salomão
Saramago diz que não é um romance, mas sim um conto, para estranheza dos que lhe tomam o peso. As 260 páginas de A Viagem do Elefante (Caminho) que chega às bancas hoje, quinta-feira, 6, tem mistérios mais interessantes do que a sua classificação formal. A viagem do paquiderme indiano da Lisboa de 1551 à Viena de Aústria, à pata por terra e Alpes, mercê da vontade de dom joão III em ofertar coisa digna ao primo arquiduque maximiliano (assim, em minúsculas), parte de um facto histórico para a ficção plena. Caminha por parágrafos mais sincopados do que é costume, mas revela as provocações habituais: o interpelar do leitor, a fina ironia, a denúncia da pequenez humana, o questionamento da religião. E a poesia dos instantes em que homens e bestas, às vezes sem se saber qual é qual, se superam. 
O princípio, soube-o Saramago `a mesa de um restaurante. O fim, duvidou se chegaria - Pilar del Rio confessou ter pensado pedir aos médicos que conseguissem mais três meses de vida para o marido acabar o manuscrito. A dedicatória é para ela: "A Pilar, que não deixou que eu morresse". Ao elefante Salomão, olharão como ovni e como deus - uns aldeões confundem-no até com o deus-elefante indiano Ganesha (e um deles aproveita e questiona o padre sobre a eficácia do exorcismo dos 2 mil porcos na Galileia bíblica: "(...) nunca me pareceu uma boa maneira de Jesus acabar o trabalho"). Salomão será também salvador, barrindo para um homem perdido no nevoeiro, como um Dom Sebastião qualquer. Ou como um homem a morrer. A literatura também salva...

Vida nova
A Viagem do Elefante inaugura um grafismo vivo (da autoria de Rui Garrido) que, mais tarde, funcionará como sobrecapa à linha clara dos anteriores livros, ideia que agrada a Saramago: "Gosto daquela simplicidade tipográfica", diz.