Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Rever, repensar, reescrever." - Manuscrito de página de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984)

"Rever, repensar, reescrever."
“O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984)


"Saramago, José, 1922-2010
O ano da morte de Ricardo Reis : romance / José Saramago
1983; [4], 365 f. ; 30 x 21 cm;

Dactiloscrito a preto com emendas autógrafas a esferográfica azul e preta. - No canto superior direito da 1.ª folha do texto, uma nota autógrafa, riscada: «Rever, repensar, reescrever». - Tem como suporte folhas lisas A4, com numeração de [1] a 365 (correspondentes ao número de páginas do romance); inclui mais três folhas: folha de rosto, tábua de publicações e epígrafes; nos versos das folhas 39 e 341, fragmentos de texto dactiloscrito, um deles riscado e, no verso da folha 216, cálculos aritméticos. - Versão muito próxima da editada (Caminho, 1984), embora esta última não contemple todas as emendas deste documento e introduza outras alterações. (BNP N45/11)"

Pode ser consultado aqui, via página da Biblioteca Nacional

sábado, 19 de março de 2016

"Escrevi o romance para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites" - Adelino Gomes entrevista José Saramago (Público - 27/05/2002)

"Escrevi o romance para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites"
Adelino Gomes entrevista José Saramago - Público (27/05/2002)

A entrevista pode ser recuperada e consultada, aqui
em, http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/entrevistaAnoMorteRicardo.htm

"O livro está editado em 22 países. Em Portugal, vendeu quase 100 mil exemplares. Para muitos leitores, é o melhor romance de José Saramago. O autor acha que com ele tocou "o tecto". E chegou a Pilar, a jornalista espanhola, hoje sua mulher. Com o PÚBLICO, chegaram hoje às bancas mais 90 mil exemplares, no segundo livro da colecção Mil Folhas, vendido juntamente com o jornal a 5 euros.

José Saramago, 79 anos, acabara de regressar a casa, na ilha de Lanzarote, após mais uma das longas viagens e respectivo cortejo de compromissos que a concessão do Nobel só veio aumentar. As datas das próximas passagens por Portugal não coincidem com os prazos editoriais. Na impossibilidade de uma entrevista frente a frente, combina-se uma sessão de perguntas e respostas via Internet. Com direito a "repique", por parte do entrevistador. O tema é o livro que hoje o PÚBLICO distribui aos seus leitores. Mas Saramago aceita uma digressão pela polémica israelo-palestiniana, em que se envolveu após ter invocado Auschwitz quando se encontrava em Ramallah.


Contou, em mais do que uma ocasião, que o título "O Ano da Morte de Ricardo Reis" lhe surgiu num hotel, em Berlim. Pode especificar?
Passaram mais de 20 anos, não recordo o nome do hotel, se alguma vez o fixei. E não se tratou de um congresso, mas de um grupo viajante, daqueles que a Associação de Amizade Portugal-RDA organizava. Calhou-me ser o "porta-voz" da delegação, o que significou ter a meu cargo os discursos de agradecimento em todos os lugares e instituições que visitámos. Foi no final de um desses dias que a "coisa" aconteceu. Tinha visto em Lisboa um filme ("Anno Domini" não sei quantos, não recordo o nome do realizador) e, não sei porquê, ele veio-me à memória quando entrei no quarto do hotel. Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás e, nesse momento, "caíram-me" do tecto as palavras "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Tinha publicado poucos meses antes "Levantado do Chão" e esta era a primeira ideia que me surgia para um novo livro. A ideia do "Memorial do Convento" veio depois. Se me perguntarem porque não os escrevi pela ordem de "nascimento", direi que me assustou o que os "pessoanos" iriam dizer da presunção deste adventício. O "Memorial" deu-me forças e confiança para arrostar depois com aquele Adamastor...

É verdade que lhe acontece muitas vezes ter o título antes de escrever uma única palavra do livro?
Quase sempre. O Memorial esteve para chamar-se simplesmente "O Convento", mas como Agustina Bessa-Luís tinha publicado "O Mosteiro", achei que devia arredondar o título para não parecer que andava a inspirar-me em títulos alheios. Quanto a romances que começaram pelo título, são eles, por exemplo, "Levantado do Chão", "História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira", "Todos os Nomes", "A Caverna" e este em que estou a trabalhar, "O Homem Duplicado".

Mas para aparecer um título deve haver antes uma ideia geral para a qual ele remete. Por exemplo, "Todos os Nomes" tem relação com uma busca de dados que andava a fazer sobre o seu irmão Francisco de Sousa, morto aos dois anos.
Alguns títulos, de facto, propõem imediatamente o que chama "uma ideia geral" da história. Não é, porém, o caso de "Todos os Nomes", que me apareceu num avião que me levava a Brasília. Já íamos a pouca altura, eu olhava a paisagem lá em baixo e de repente saltaram-me dentro da cabeça aquelas três palavras. Perguntei a mim mesmo que diabo quereria aquilo dizer e pensei que, tendo escrito um romance - "Ensaio sobre a Cegueira" - em que nenhuma personagem tem nome, poderia agora tentar outro em que apareceriam "todos os nomes". Uma espécie de contraponto. A ligação à busca de dados sobre o meu irmão Francisco em que andava empenhado deu-se algum tempo depois. Estava em Amherst, no estado norte-americano de Massachusetts, hospedado em casa do professor José Ornelas, e foi aí que se me desenhou na mente a história do funcionário do Registo Civil.

E quanto a "O Ano da Morte de Ricardo Reis"? Andava às voltas com Pessoa? 
Directamente, não andava às voltas com o Fernando Pessoa, mas todos nos lembramos que por aqueles anos (cinquentenário da morte, centenário do nascimento) era o Pessoa que andava às voltas connosco...

Começou a escrever o livro logo a seguir? Quanto tempo lhe levou? Esse tempo foi superior ou inferior ao normal? 
O Ricardo Reis teve de aguardar na fila que eu me livrasse do "Memorial", sobrou-lhe portanto a espera para chegar maduro ao momento de principiar a ser escrito. Creio que o trabalho de escrita não me ocupou mais de nove meses. Aliás, é esse, pouco mais ou menos, o tempo de que necessito para pôr um romance em pé.

Como concilia as exigências da editora (e dos leitores) com os eventuais caprichos da inspiração?
A minha relação com a Editorial Caminho não é desse tipo. Eles respeitam o meu trabalho, eu respeito o trabalho deles. Os prazos fixo-os eu a mim mesmo, não eles. E se alguma vez me atrasei na entrega de um original, foram bastante compreensivos para aceitar sem reserva as razões por que isso tivesse sucedido. Quanto aos leitores, não têm eles mais remédio que esperar pacientemente. Ou impacientemente, o que será melhor ainda...

Qual foi o livro que lhe levou mais tempo a escrever?
Talvez "História do Cerco de Lisboa".

E o de mais rápida elaboração?
"A Caverna".

Lembra-se do seu primeiro contacto com o heterónimo de Fernando Pessoa Ricardo Reis?
Conheci Ricardo Reis por altura dos meus 17 ou 18 anos. Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista "Athena" em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro. Nessa altura, pensei que Ricardo Reis era uma pessoa real, não sabia nada dos heterónimos e pouquíssimo do próprio Pessoa.

Um espectador da vida, Ricardo Reis é, talvez de todos, o heterónimo com o qual José Saramago se identificará menos. Porquê então este privilégio que lhe concede ao fazê-lo "herói" do seu livro?
Quando mais tarde avancei no conhecimento de toda aquela "gente" - foi muito importante para mim a antologia organizada por Adolfo Casais Monteiro, cuja segunda edição, a que tenho, saiu em 1945 - e sobretudo comecei a penetrar mais profundamente no espírito do Reis, achei-me diante de algo que quase por instinto rechaçava, aquela sua ideia de que a sabedoria consiste em contentar-se cada um com o espectáculo do mundo... Pensava já então, e continuo a pensá-lo, que se a alguém o espectáculo do mundo contenta, ao menos que tenha a decência de não chamar sabedoria a essa atitude. Direi que "O Ano da Morte de Ricardo Reis" foi precisamente escrito para mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo (de Portugal também) e perguntar-lhe se continuava a considerar sabedoria a mera contemplação dele... Foi portanto para resolver o choque entre uma admiração sem limites e uma rejeição sem limites que escrevi o romance.

O próprio Fernando Pessoa pode dizer-se que esteve nos antípodas daquilo que José Saramago defende. Tanto no seu percurso pessoal como nas intervenções que ele foi fazendo na vida cultural e política do país. A sua admiração por Pessoa faz esse "distinguo"?
Todos sabemos que Fernando Pessoa dá para tudo. Se quisermos viver em paz com ele, teremos de o aceitar como foram. Mas realmente é difícil suportar com serenidade certas afirmações suas, como aquela de que a escravatura, afinal, não era um sistema assim tão mau...

Já agora, o mesmo quanto ao Padre António Vieira, cultor da língua, defensor dos índios e visionário do Quinto Império?
Provavelmente, para o Padre António Vieira, as visões de um Quinto Império não passaram de uma manha política (digo "manha" no melhor sentido da palavra), hoje sem particular significado, salvo para alguns "iluminados" que ainda imaginem por aí grandiosos futuros para Portugal. Quanto ao Quinto Império pessoano, esse era puro teatro. Não se vê que diabo de espiritualidade "futurante" poderia ter ele encontrado na modorrenta Lisboa dos anos 30...

Da sua lista de autores preferidos, constam outros escritores em que o fascínio pela obra literária não acompanhe a admiração pela pessoa? Pode especificar?
Falando de autores portugueses, confesso que não consigo ler aqueles a quem ao mesmo tempo não estime e respeite como pessoas. Sou menos exigente se se trata de autores estrangeiros.

Tem consciência de que esse é o "drama" de numerosos fãs da sua obra, que não o acompanham nas suas opções políticas e a quem nalguns casos essas opções repugnam até?
Se me lêem apesar de as minhas opções políticas lhes repugnarem (outra coisa seria se lhes repugnasse a pessoa que as tem), então o "drama" não é assim tão grande...

Alguma vez pensou em moderar a sua militância no terreno, de forma a alargar ainda mais a base de apoio literário de que goza no mundo, sobretudo a partir do Prémio Nobel?
A minha base de apoio literário nasceu simplesmente daquilo que escrevo, não de uma estratégia de autor ou de uma dosagem de ingredientes narrativos supostamente "abrangentes", para usar um termo do calão político. Moderar aquilo a que chama "a minha militância no terreno" para alargar ainda mais a dita base de apoio seria um cálculo indigno. Quem me quiser, terá de aceitar-me tal qual sou. Quanto aos outros, que vivam tão bem sem mim como eu vivo sem eles.

Disse uma vez numa entrevista: "Eu estou nos meus livros." Como explica que numerosos leitores (como se viu agora em Israel) adiram aos seus livros entusiasticamente mas reajam tão fortemente a posições políticas públicas suas?
Alguns críticos literários de Israel disseram que eu escrevi "Ensaio sobre a Cegueira" pensando no Holocausto e era voz corrente que um dos meus livros, suponho que o mesmo, havia sido lá escrito... Nada disto era verdade, simplesmente era o lado imaginário de uma relação privilegiada entre leitores e autor que se estabeleceu em Israel e que nunca alimentei de caso pensado. De certa maneira, consideravam-me um deles. Mesmo que para isso tivessem de saltar por cima de alguma interpelação minha, como aquela que sobre o conflito israelo-palestino se pode ler no "Evangelho segundo Jesus Cristo" (pp. 210-211 da edição portuguesa) e cuja parte final aqui deixo: "Agora vais dizer-me, segundo o que te aconselhem as tuas luzes, se, chegando nós um dia a ser poderosos, permitirá o Senhor que oprimamos os estrangeiros que o mesmo Senhor mandou amar, Israel não poderá querer senão o que o Senhor quer, e o Senhor, porque escolheu este povo, quererá tudo quanto for bom para Israel, Mesmo que seja não amar a quem se devia, Sim, se essa for, finalmente, a sua vontade, De Israel ou do Senhor, De ambos, porque são um, Não violarás o direito do estrangeiro, palavra do Senhor, Quando o estrangeiro o tiver e lho reconheçamos, disse o escriba." Nestas últimas palavras ("lho reconheçamos") está o nó da questão: Israel não reconhece o direito dos palestinos a viverem na sua própria terra, mas os judeus que leram aquilo fizeram de conta que não era nada com eles...

Acha que a sua opinião sobre a situação palestiniana vale a perda de milhares de leitores israelitas dos seus livros?
Ai de mim se quando vou dizer ou escrever alguma coisa começasse por pensar se com isso irei vender mais ou vender menos livros... Em Março venderam-se em Israel 3000 exemplares de "Todos os Nomes", em Abril, depois das minhas declarações em Ramallah, apenas 280. A conclusão é fácil: 2720 leitores andavam equivocados a meu respeito, 280 sabiam quem eu era. Estes são os que me importam.

Não o impressiona o argumento daqueles que lembraram que os seus leitores se encontram em Israel e não na Palestina?
É um argumento estúpido e mesquinho, que denuncia uma mentalidade de avaro. A Israel não falta dinheiro para comprar livros, mas eu não me vendo a quem compre os meus, seja quem for e onde quer que esteja. Em todo o caso, que não se preocupem, estou traduzido ao árabe e alguns dos livros que escrevi circularão certamente na Palestina. É mesmo muito possível que um exemplar desses se encontre soterrado sob os escombros de Jenin...

Já agora, tendo em conta o seu recente artigo "Das pedras de David aos tanques de Golias" (na imprensa internacional e no PÚBLICO de 03-05-02): reconhece que foi excessiva a comparação histórica que fez com a situação que prevalecia em Ramallah durante o cerco israelita? 
O meu artigo não retira nada às declarações que fiz em Ramallah. É simplesmente outra visão do problema. Se a denominada comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse na Palestina, teria de informar que não comparei os factos de Ramallah aos factos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao espírito de Ramallah... Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o prof. Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeo-nazi) não fez depois mais que confirmar. E se ainda há por aí quem tenha dúvidas, que consulte o "plano de paz" que Sharon levou a Bush para aprovação. Nele se contempla o reconhecimento de um Estado palestino sem capacidade militar e com o território reduzido, em que se criarão zonas de segurança para separar fisicamente israelitas e palestinos. O "plano" prevê um acantonamento permanente de tropas nos territórios palestinos, grades, vedações electrificadas e portas de acesso, como as que actualmente separam Gaza de Israel. Não é preciso ser um lince de inteligência para perceber que a aplicação de um tal "plano de paz" transformará definitivamente o chamado território palestino num enorme campo de concentração...

Voltando ao livro. Que métodos seguiu para reconstituir o ambiente de Lisboa naquele período (segunda metade dos anos 30), para além da consulta de jornais da época, abundantemente citados? Foi aos locais para melhor os descrever (Hotel Bragança, Cemitério dos Prazeres, etc.)?
Apesar de ter apenas 13 anos em 1936, a minha lembrança do ambiente geral da cidade naquela época mantém-se bastante viva. Essa lembrança foi o pano de fundo de que me servi para fazer representar as minhas personagens. Mas, tal como refere, a substância dos factos colhi-a nos jornais, principalmente "O Século", pelas características populares que sempre o distinguiram: enquanto o "Diário de Notícias" afirmava ser o jornal de maior tiragem, "O Século" desforrava-se dizendo ser o de maior circulação... Não só visitei o Hotel Bragança, na Rua do Alecrim, como escolhi o quarto - o 201 - em que iria alojar-se Ricardo Reis. Aos Prazeres fui também, claro. O resto teve de resolvê-lo a imaginação.

E quanto às personagens? Por exemplo as duas mulheres, Lídia e Marcenda, sendo figuras literárias [das "Odes" de Ricardo Reis], onde foi buscar o corpo e os tiques que lhes deu?
Marcenda não é uma "personagem literária" de Reis, não é sequer um nome feminino com presença nos vocabulários onomásticos. A palavra aparece na ode "Saudoso já deste Verão que vejo" designando uma rosa emurchecida. Achei que estava a carácter com a "minha" personagem. Quanto a Lídia, uma vez que me tinha proposto mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo, pensei que seria uma boa partida dar a uma criada de hotel o nome de uma das suas quase incorpóreas musas...

O lançamento deste livro pelo PÚBLICO vai fazê-lo chegar a muita gente que de outra forma não o leria. Tendo em conta que entre os seus novos leitores se deverão encontrar muitos estudantes, que leituras lhes aconselharia a fazer para melhor compreenderem a história?
A leitura que eu próprio fiz, a da imprensa da época. Aprende-se muito a ler jornais 50 anos depois de terem sido publicados...

Foram vários os prémios atribuídos a "O Ano da Morte...". Qual a importância de que se revestiu, para si e para a sua "carreira", ter sido o Prémio de Ficção Estrangeira do diário britânico "The Independent", num ano, 1992, em que concorriam, entre outros, livros de Gunter Grass e de Ismail Kandaré?
É fácil de imaginar se se souber que eu trabalhava nos Estúdios Cor quando esta editora, no princípio dos anos 60, publicou "O Tambor" de Gunter Grass. A publicação de "Terra do Pecado", em 1947, não tinha feito de mim um escritor, e "Os Poemas Possíveis" só seriam publicados em 1966. Literariamente, portanto, não existia. Ganhei em 1990 o prémio de "The Independent" em competição com Grass e, como se isto não fosse bastante, dão-me o Nobel antes de o darem a ele. É caso para dizer que não há justiça neste mundo...

Refere-se muitas vezes, nos "Cadernos de Lanzarote", à grande quantidade de leitores que tomam a iniciativa de lhe escrever ou de o interpelar de viva voz sobre os livros que escreve. Qual o lugar de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" nas preferências confessadas dos seus leitores?
Não faltam leitores que consideram ser "O Ano da Morte de Ricardo Reis" o meu melhor romance, mas não se me peça que concorde com eles, uma vez que iria contrariar aqueles outros leitores que, por razões não menos pertinentes, defendem outras preferências.

Qual o lugar dele na sua lista pessoal da obra escrita até agora? Porquê?
Apenas direi que nada poderia consolar-me se por alguma arte diabólica o "Ricardo Reis" desaparecesse da minha bibliografia. Não sei se é ele o melhor dos que escrevi, mas sei que pelo menos dessa vez toquei o tecto. E toquei algo mais, se se me permite uma nota pessoal: foi "O Ano da Morte de Ricardo Reis" que nos juntou. Refiro-me a Pilar, claro está...


Frases

Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás e, nesse momento, "caíram-me" do tecto as palavras "O Ano da Morte de Ricardo Reis".

A ideia do "Memorial do Convento" veio depois. Se me perguntarem porque não os escrevi pela ordem de "nascimento", direi que me assustou o que os "pessoanos" iriam dizer da presunção deste adventício. O "Memorial" deu-me forças e confiança para arrostar depois com aquele Adamastor...

Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista "Athena" em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro.

"O Ano da Morte de Ricardo Reis" foi precisamente escrito para mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo (de Portugal também) e perguntar-lhe se continuava a considerar sabedoria a mera contemplação dele...

Fernando Pessoa dá para tudo. Se quisermos viver em paz com ele, teremos de o aceitar como foram.

Em Março venderam-se em Israel 3000 exemplares de "Todos os Nomes", em Abril, depois das minhas declarações em Ramallah, apenas 280. A conclusão é fácil: 2720 leitores andavam equivocados a meu respeito, 280 sabiam quem eu era. Estes são os que me importam.

(...) Não se preocupem, estou traduzido ao árabe e alguns dos livros que escrevi circularão certamente na Palestina. É mesmo muito possível que um exemplar desses se encontre soterrado sob os escombros de Jenin...

Se a denominada comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse na Palestina, teria de informar que não comparei os factos de Ramallah aos factos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao espírito de Ramallah... Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o prof. Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeo-nazi) não fez depois mais que confirmar.

Não sei se ["O Ano da Morte de Ricardo Reis"] é o melhor dos que escrevi, mas sei que pelo menos dessa vez toquei o tecto.

domingo, 31 de janeiro de 2016

A forma como José Saramago descobre Ricardo Reis - Cadernos de Lanzarote Diário III (11/01/1995)

"Ricardo Reisin Viimeinen Vuosi" - Tammi, Finlandia
A editora Tammi continua a apostar nas reedições dos romances de José Saramago, 
apresentando novos arranjos gráficos de grande qualidade e sensibilidade.
Acaba de dar à estampa a nova edição de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", 
com um trabalho gráfico de Markko Taina e fotografia de Pertti Nisonen.


11 de Janeiro (1995)
"Carlos Câmara Leme, do Público, pediu-me, a propósito da próxima publicação duma edição crítica dos poemas de Ricardo Reis, umas palavras que recordassem as circunstâncias em que os li pela primeira vez. 
Escrevi o que segue: 
«Não era risonha, e de certeza não era franca completamente. Refiro-me à escola. Chamava-se de Afonso Domingues vizinha do lado da Igreja da Madre de Deus, paredes meias com o Asilo de Maria Pia, que era onde se corrigiam os rapazes maus daquele tempo. A escola era industrial, mas está claro que não preparava industriais: preparava gente para as oficinas. Também, havendo na família suficientes teres e cumpridos os necessários exames de admissão aos escalões seguintes - Instituto Industrial e Instituto Superior Técnico -, podia-se chegar a agente técnico ou a engenheiro. A maior parte tinha de contentar-se com os cinco anos do curso (que podia ser de serralharia mecânica, serralharia civil ou carpintaria) e ia à vida. Levava umas luzes gerais de matemática e de mecânica, de desenho de máquinas, de física e química, de francês, de ciências da natureza, o suficiente de português para escrever sem erros - e literatura. Sim, nos remotíssimos anos 30 aprendia-se literatura portuguesa no ensino industrial. Ora, quem diz literatura, diz biblioteca: a Afonso Domingues tinha uma biblioteca, um lugar escuro, misterioso, com altas estantes envidraçadas e muitos livros lá dentro. Nisto de livros, os meus amores (estava na idade, andava pelos 16, 17 anos) iam sobretudo para a Biblioteca Municipal do Palácio das Galveias, no Campo Pequeno, mas foi em Xabregas, na Escola de Afonso Domingues, que começou a escrever-se O Ano da Morte de Ricardo Reis. Um dia, numa das minhas incursões à biblioteca da escola (estava a chegar ao fim do curso) encontrei um livro encadernado que tinha dentro, não um livro como se espera que um livro seja, mas uma revista. Chamava-se Athena, e foi para mim como outro sol que tivesse nascido. Talvez alguma vez seja capaz de descrever esses momentos. O que certamente não conseguirei explicar é a razão por que me abalaram tão profundamente as odes de Ricardo Reis ali publicadas, em particular as que começam por Seguro assento na coluna firme / Dos versos em que fico, ou Ponho na altiva mente o fixo esforço, ou Melhor destino que o de conhecer-se / Não frui quem mente frui. Nesse momento (ignorante que eu era) acreditei que realmente existia ou existira em Portugal um poeta que se chamava Ricardo Reis, autor daqueles poemas que ao mesmo tempo me fascinavam e assustavam. Mas foi anos mais tarde, poucos, no princípio dos anos 40, quando Adolfo Casais Monteiro publicou uma antologia de Pessoa (então já eu sabia isso dos heterónimos), que uns quantos versos de Ricardo Reis se me impuseram como uma divisa, um ponto de honra, uma regra imperativa que iria ser meu dever, para todo o sempre, cumprir e acatar. Eram eles estes:

Para ser grande, sê inteiro: nada 
Teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
No mínimo que fazes. 
Assim em cada lago a lua toda 
Brilha, porque alta vive. 

Durou uns anos. Fiz o que pude para não ficar atrás do que se me ordenava. Depois compreendi que não podiam chegar-me as forças a tanto, que só raros deveriam ser capazes de ser tudo em cada coisa. O próprio Pessoa, que foi grande mesmo, ainda que de outra forma de grandeza, nunca foi inteiro... Logo... Não tive outro remédio que tornar-me humano.»" 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 16 a 18 (11 de Janeiro de 1995)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

José Saramago na arte da artista plástica Isa Silva no "Project Square Faces"


Arte de Isa Silva no "Project Square Faces"

Aqui está José Saramago, 
e também Fernando Pessoa que foi abordado em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", 
o Luís Vaz de Camões retratado na dificuldade em publicar o seu "Lusíadas", 
na peça de teatro "Que Farei com Este Livro?"... 
e os outros...


Visitem para saber mais da autora em http://www.isasilva.com


domingo, 29 de novembro de 2015

Roteiro Literário - O Percurso Pedestre baseado na obra de José Saramago "O Ano da Morte de Ricardo Reis" - Dias do Desassossego 2015





Roteiro Literário - O Percurso Pedestre baseado na obra de José Saramago 
"O Ano da Morte de Ricardo Reis"

«"O Ano da Morte de Ricardo Reis" é um dos mais interessantes romances do Prémio Nobel, onde se cruzam personagens como Ricardo Reis, Lídia e até Fernando Pessoa. Neste passeio percorremos os locais referidos na obra e, em cada um desses locais, para alé da explicação da obra, é lido, como de costume, um excerto do romance.»

Mais informação, 
ou na página do Facebook, em https://www.facebook.com/MissLisb/?fref=ts

Contactos Directos 
Mail - geral@misslisbon.com
Morada - Praça Infante D. Duarte, n.º8, 3ºD - Infantado - 2670 - 386 Loures
Telefone - 965 458 919 / 964 601 916

Início da visita - Fundação José Saramago

 A sede da FJS - Casa dos Bicos - As janelas com a arte de José Santa-Bárbara


O Cais das Colunas
"Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheias nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Higland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara"


Praça Duque da Terceira  - Cais do Sodré - Rua Nova do Carvalho (Hotel Bragança)













"tornou o hóspede a entrar na recepção, um pouco ofegante do esforço, pega na caneta, e escreve no livro das entradas, a respeito de si mesmo, o que é necessário para que fique a saber-se quem diz ser (...) Ricardo Reis, idade quarenta e oito anos, natural do Porto, estado civil solteiro, profissão médico, ultima residência Rio de Janeiro, Brasil, donde precede, viajou pelo Highland Brigade"







Rua do Comércio
"Ricardo Reis saiu cedo do hotel, foi ao Banco Comercial cambiam algum do seu dinheiro inglês pelo escudos da pátria, pagaram-lhe por cada libra cento e dez mil réis"


Rua do Crucifixo
"Afasta-se Ricardo Reis em direcção à Rua do Crucifixo, atura a insistência de um cauteleiro que lhe quer vender um décimo para a próxima extracção da lotaria, É o mil trezentos e quarenta e nove, amanhã é que anda à roda"

Rossio (Restaurante Irmão Unidos)
"Fez um gesto na direcção da praça de táxis, tinha fome e pressa, se ainda encontraria a esta hora restaurante ou casa de pasto que lhe desse de almoço, Leve-me ao Rossio, se faz favor"

Nota Informativa (Miss Lisbon): "Os Irmãos Unidos, no Rossio, era um restaurante que pertencia ao pai de Alfredo Guisado (detalhe da placa). Aqui se reunia a geração do Orpheu, e encomendado para ele, Almada Negreiros pintou o retrato de Fernando Pessoa, em 1954, que presentemente se encontra na Casa Fernando Pessoa. Dez anos mais tarde, pintou uma réplica para a Fundação Gulbenkian. O restaurante encerrou em 1970, tendo a sua área sido ocupada pela Camisaria Moderna."

 Rua dos Sapateiros / Rua de Santa Justa
"Vai Ricardo Reis a descer a Rua dos Sapateiros quando vê Fernando Pessoa. Está parado à esquina da Rua de Santa Justa, a olhá-lo como quem espera, mas não impaciente."

A estátua de Fernando Pessoa


Praça Luís de Camões 
"Tivesse Ricardo Reis saído nessa noite e encontraria Fernando Pessoa na Praça Luís de Camões, sentado num daqueles bancos como quem vem apanhar a brisa"


Alto de Santa Catarina
 
"Ainda não são três da tarde quando chega ao Alto de Santa Catarina. As palmeiras parecem transidas pela aragem que vem do largo, mas as rígidas lanças das palmas mal se mexem. Não consegue Ricardo Reis lembrar-se se já aqui estavam estas árvores há dezasseis anos, quando partiu para o Brasil."

Estátua do Adamastor
"Foi dar a volta à estátua, ver quem era o autor, quando foi feita, a data lá está, mil novecentos e vinte e sete, Ricardo Reis tem um espírito que sempre procura encontrar simetrias irregulares do mundo, oito anos depois da minha partida para o exílio foi aqui posto o Adamastor, oito anos depois de aqui estar Adamastor regresso eu à pátria, ó pátria, chamou-me a voz dos teus egrégios avó"












quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Primeira edição de “História do Cerco de Lisboa” em finlandês - Tammi (editora)

Informação via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/primeira-edicao-de-historia-do-cerco-de-lisboa-em-finlandes/

"Primeira edição de “História do Cerco de Lisboa” em finlandês

Acaba de dar à estampa, e pela primeira vez na Finlândia, a tradução de História do Cerco de Lisboa, com a chancela da Tammi. Este é o terceiro título publicado por esta editora depois de A Viagem do Elefante e O Ano da Morte de Ricardo Reis, renovando, assim, o interesse em levar José Saramago aos leitores fínicos. A tradução deste romance é da responsabilidade de Antero Tiittula.
O livro já se encontra na Biblioteca da Fundação José Saramago, em Lisboa, gentilmente oferecido por 2 leitores finlandeses, admiradores profundos da obra de Saramago."

(Capa de "O Ano da morte de Ricardo Reis")

Mais informação da editora, aqui

(Capa de "A Viagem do Elefante")

Programa "Ler Mais, Ler Melhor" Livro da vida de Pilar del Río - "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago

Programa "Ler Mais, Ler Melhor"
Livro da vida de Pilar del Río
"O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago (Editorial Caminho)


Pode ser visualizado via YouTube, 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Citador #40 Pessoa e Ricardo Reis no final da obra "O Ano da Morte de Ricardo Reis" - Caminho, 11.ª edição Página 407

Citador #40
Pessoa e Ricardo Reis no final da obra "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição
Página 407

Frame do registo filmado da apresentação do livro "O Ano da Morte de Ricardo Reis",
 no café Martinho da Arcada - Lisboa, produzido e realizado pela 
Direcção Geral de Acção Cultural / Divisão de Audiovisuais.
José Saramago em 1987



"Saíram de casa, Fernando Pessoa ainda observou, Você não trouxe chapéu, Melhor da que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera."



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

67 razões para ler "O Ano da Morte de Ricardo Reis"...


1. Vapor Highland Brigade faz escala em Lisboa

2. 16 anos depois regressa do Rio de Janeiro - Hotel Bragança

3. Visita túmulo de FPessoa no cemitério dos Prazeres

4. Lídia ...
 
5. Lisboa debaixo de chuva e vento... uma constante

6. Passagem de ano 1/1/1936, meia noite e meia hora; Lídia sobe ao quarto; depois Fernando Pessoa sentado no sofá, abraçaram-se, fazem promessas de novos encontros para colocar o diálogo em dia

7. Lídia e Ricardo Reis dormem juntos

8. A forçada ida ao Dona Maria e as apresentações a Marcenda e seu pai Dr. Sampaio

9. Depois do teatro aparece de novo Fernando Pessoa e mais tarde Lídia

10. Ricardo Reis conversa longamente com Marcenda na ausência do Dr. Sampaio

11. Jantam os três na mesma mesa

12. Primeiros mixericos de "sunânbulismo" pelos corredores numa alusão às incursões de Lídia no quarto de Ricardo Reis

13. Leitura de "conspiração" de Tomé Vieira

14. Por curiosidade Ricardo Reis assiste ao cortejo fúnebre do "mouraria" assassinado por José Rola, tal ajuntamento é o exemplo das piores profissões em desfile

15. Encontros vários com Pessoa

16. As esquerdas ganham as eleições em Espanha vêm famílias fugidas

17. Estado febril e o aconchego e cuidados de Lídia

18. Ofício da PVDE e o boato corre depressa no hotel

19. Dr. Sampaio evita o contacto... Marcenda deixa bilhete por debaixo da porta do quarto de Ricardo Reis... encontro amanhã no Alto de Santa Catarina

20. Pessoa aparece, falam, Ricardo Reis pede-lhe que não esteja presente porque Marcenda estará a chegar... esta pede desculpa pelo pai, deixa morada para saber de novidades do interrogatório. .. afinal de contas Pessoa manteve-se invisível para Ricardo Reis

21. Interrogatório que não o era mas Ricardo Reis assim entendeu. O Doutor-Adjunto e o subalterno Victor (este amigo do gerente do hotel Bragança) deixaram passar em claro alguma ríspidez de Ricardo Reis. Entretanto descansado envia carta para Coimbra.

22. Pondera deixar o Bragança. Continua o mau tempo por Lisboa



23. Aluga casa no Alto de Santa Catarina perto do local onde se encontrou com Marcenda às escondidas

24. A despedida do hotel Bragança e a mudança para a casa nova.... os 2 velhos no jardim do Alto de Santa Catarina são uma constante

25. Lídia aparece de surpresa. Virá fazer a faxina. Marcenda estará para chegar. A melancolia de um homem sem nada para fazer.

26. A semana de ansiedade. O serviço de Lídia. A vizinhança alcoviteira. As novas rotinas.

27. Marcenda aparece de surpresa. O beijo apaixonado.

28. Ricardo Reis entra lentamente ao serviço... arranjou um lugar de médico em substituição

29. As estranhas ideologias fascistas na Europa e os "bodos" pela mediocridade nacional

30. Fernando Pessoa que não tem dado sinal


31. Troca de correspondência com Marcenda... recebe um subscrito violeta... relutância em abrir para saber as novas... paralelo no futuro com As Intermitências da Morte (a cor, coincidência??)

32. A visita de Fernando Pessoa

33. A PVDE através do agente Victor rondando a porta

34. Ricardo Reis lê a Fernando Pessoa as novidades do mundo e de Portugal... os mortos perdem a capacidade de ler, debatem a novidade de Portugal e Alemanha utilizarem o divino como avalista político

35. Episódio com Lídia que volta para a faxina semanal... a tentativa de um acto sexual falhado por incapacidade de Ricardo Reis lhe poder responder... a rispidez deste e a tristeza de Lídia

36. Ricardo Reis recebe a visita de Marcenda no consultório... há desejo reprimido. Um inesperado pedido de casamento prontamente recusado... e "um dia" na despedida

37. Outra carta violeta chegada de Coimbra.... esta matando e acabando o que não poderia ter começado.... "não responda"

38. Continuam os ecos perigosos das guerras... Addis-Abeba arde... 

39. Visitas de Lídia, teorização sobre a duplicidade da mulher a dias e da amante

40. Apanha no Rossio comboio a caminho de Fátima... por conversas com Marcenda, Fátima seria para o Dr. Sampaio uma última esperança para a maleita da filha

41. Os caminhos e as gentes a caminho de Fátima, os milagres que não aconteceram, a impressão que Ricardo Reis ganha pela inadaptação àquele lugar e ao que representa

42. O regresso a Lisboa, as visitas de Lídia e Fernando Pessoa... este apercebe-se que o hálito a cebola estará nas imediações da sua casa... sinónimo de contínua vigilância do agente Victor e da PVDE. Perde o lugar no consultório. Equaciona voltar ao Brasil

43. Fernando Pessoa e Ricardo Reis abordam o Estado e contestam Salazar. Episódio do anúncio de António Ferro e do simulacro de um "ataque aéreo ao Rossio por inimigo desconhecido"

44. As aparições de Fernando Pessoa cada vez mais espaçadas ... passam 6 meses da morte... o esquecimento... o medo de se perder

45. Ricardo Reis sem consultório e pouca vontade de exercer deixa-se levar pela preguiça dos dias... dorme ... dorme

46. Dia da Raça. Fernando Pessoa apercebe-se que sobre Camões não escreveu... inveja?


47. Lídia confessa a Ricardo Reis o atraso de 10 dias... Virá filho de pai incógnito? 

48. Ricardo Reis e Fernando Pessoa em nova visita abordam os vários heterónimos, a estátuas que são retiradas e a questão do filho indesejado

49. Espanha e as revoltas, Franco... abordagem à ingenuidade que paira sobre as ilusões criadas à volta da Mocidade Portuguesa e a Juventude Hitleriana

50. Fernando Pessoa que não tem aparecido. Ricardo Reis vai aos Prazeres. 4371 é onde se dirige

51. General Milan d'Astray a caminho da guerra em Espanha estará de passagem por a Lisboa, isto inquieta Ricardo Reis ao ponto de procurar Fernando Pessoa

52. O contínuo desleixo de Ricardo Reis. O pequeno rádio para ouvir as novas. Os espanhóis exilados no hotel Bragança e nos Estoris que retornam a uma Espanha com novos poderes e governos nacionalistas

53. Ricardo Reis e a voz dos jornais. Lídia e a voz do irmão comunista

54. Badajoz rendeu-se. A praça de touros será palco da vingança... o cheiro e imagem de sangue dos milicianos prisioneiros corre numa arena de outras lides

55. Franco tomará Madrid para erradicar o mal do comunismo e marxismo. Em Portugal organizam-se demonstrações de nacionalismo em comícios contra esses males dos vermelhos.

56. Ricardo Reis vai ao comício no Campo Pequeno por curiosidade e por alguma convicção. Estão lá os de Itália, Alemanha e Espanha. O comício apela à criação de uma legião cívica... terá camisa verde para não copiar os seus iguais da Europa.

57 . Lídia há muito que não aparece. Ricardo Reis está num contínuo estado de desleixo... passa os dias a dormir... escreveu uma carta a Marcenda que a rasgou ... mas seguiu um verso para a posta restante de forma anónima...

58. Lídia apareceu... desespero dela... o irmão irá no Afonso de Albuquerque e outros barcos para uma suposta revolta... tem medo... nem o peso de carregar um filho de homem que não o quererá como um pai quer a um filho lhe afronta tanto como a vida do irmão... desespero...

59. Ricardo Reis descerá à beira do rio... vê os hipotéticos futuros revoltosos barcos em hora de almoço... vê passar o zepellin Hindemburgo que vem largar correspondência para que algum navio a leve para a América do Sul... Victor aparece de surpresa e Ricardo Reis depois de dizer que "estava a observar os barcos e o rio", seguiu caminho como se fugisse do agente do cheiro a cebola

60. Tiros vindos dos barcos. A revolução? RR vem para a rua e afinal é o ataque vem Forte de Almada que disparam contra os barcos... e do Forte do Duque... o Afonso de Albuquerque e Dão são atingidos... rendem-se...


61. Ricardo Reis refugia-se em casa.... chora desalmadamente... "sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo"...

62. Ricardo Reis levanta da cama e apronta-se... segue em direcção ao hotel Bragança... a Pimenta e ao gerente Salvador perguntará por Lídia... não estando só poderia estar em socorro ou de novidades do seu irmão revoltoso...

63. O jornal do dia seguinte dá notícia da morte de doze marinheiros, feridos e outros presos. Daniel Martins, irmão de Lídia morreu...

64. À noite Pessoa apareceu... sentaram-se e assim ficaram... o inevitável anúncio... os nove meses de transição que Fernando Pessoa tinha falado passaram... "não nos tornaremos a ver"

65. Ricardo Reis levanta-se, pega no livro que nunca conseguira ler, aquele que não devolveu da viagem de regresso no Highland... "the god of the labyrinth"... então vamos disse... não conseguirá ler é a primeira virtude que perde com a morte... deixo o mundo aliviado de um enigma

66. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis

67. Aqui onde o mar se acabou e a terra espera.

Epígrafe "Ricardo Reis regressou a Portugal depois da morte de Fernando Pessoa" José Saramago

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Citador #27 ... Pessoa e Reis num hipotético diálogo envolto em inquietude...

Citador #27
em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição, página 144

(...) Se um morto se inquieta tanto, a morte não é um sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de a não ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre, não de doença, e é por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte, Meu caro Fernando Pessoa, você treslê, Meu caro Ricardo Reis, eu já não leio. Duas vezes improvável, esta conversação fica registada como se tivesse acontecido, não havia outra maneira de torná-a plausível. (...)

Ópera "Lucia de Lamermoor" de Donizetti, pronuncio de desgraça?

(...) "A entrada na sala foi unanimemente festejada com sorrisos e pequenas vénias de cabeça. Salvador, esquecido de agravos ou diplomaticamente fingidor, abriu de par em par as portas envidraçadas, à frente passaram Ricardo Reis e Marcenda, como devia ser, é ele o convidado, aqui onde nós estamos não se consegue perceber o que a telefonia toca, muito daria que pensar a coincidência se fosse a marcha nupcial de Lohengrin, ou a de Mendelssohn, ou a menos célebre, talvez por ser tocada antes de uma desgraça, a da Lucia de Lamermoor, de Donizetti." (...)

em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição (página 131)


Breve trecho ópera que pode ser vista via YouTube

"Dame Joan Sutherland performing 'Eccola!' (The Mad Scene) 
from Donizetti's Lucia di Lammermoor 
in the Australian Opera's - 1986 
production at the Sydney Opera House."

Breve informação via Wikipédia

"Lucia di Lammermoor é uma ópera em 3 atos de Gaetano Donizetti, com libreto de Salvatore Cammarano, baseada no romance "The Bride of Lammermoor" (A Noiva de Lammermoor), de Walter Scott. Juntamente com Don Pasquale e L'Elisir d'Amore, é uma das óperas mais representadas de Donizetti na atualidade. A sua estreia ocorreu no Teatro San Carlo em 26 de setembro de 1835.

Sinopse
Ato I
Jardins do castelo da família Lammermoor. Normanno, capitão da guarda do castelo, acompanhado de outros serviçais, está procurando um intruso. Ele conta logo a Enrico Ashton de Lammermoor que suspeita que tal intruso é Edgardo de Ravenswood, de uma família inimiga, que vem ao castelo para encontrar-se com Lucia, sua irmã mais nova. Ao descobrir que Normanno estava certo, Enrico dispõe-se a acabar de uma vez com a relação entre ambos.
Diante de uma fonte, na entrada próxima ao castelo, está Lucia, esperando por Edgardo. Lucia explica a Alisa, sua serviçal, que viu o fantasma de uma menina assassinada nesse mesmo lugar por um ciumento ancestral da família Ravenswood - a mesma de Edgardo. Alisa vê nisso um mau pressentimento e alerta Lucia para que desista do romance. Edgardo aparece e explica que vai à França, em missão política, acreditando poder selar a paz com Enrico e casar-se com Lucia. E, diante das dúvidas da aceitação ou não por parte de Enrico, trocam alianças selando o compromisso.

Ato II
Dentro dos aposentos de Lorde Enrico, acontecem os preparativos para o casamento arranjado de Lucia e Arturo Bucklaw. Enrico, preocupado com a reação de Lucia, forja uma carta supostamente escrita por Edgardo dizendo que ele já a esqueceu e está casado. Raimondo, o capelão, tenta convencer Lucia a esquecer Edgardo pelo bem de sua família.
Tem início a cerimônia nupcial. Arturo e Lucia, contrariada, assinam o contrato nupcial. Edgardo aparece de súbito e ameaça os presentes. Raimondo mostra a Edgardo o contrato nupcial e este, irritado, faz com que Lucia se desfaça dos anéis de compromisso. E é forçado a se retirar do castelo.

Ato III
Enrico e Edgardo marcam um duelo. Dentro do castelo, Raimondo noticia que Lucia assassinou Arturo cravando-lhe um punhal durante a noite de núpcias. Fora de si, Lucia se imagina na noite de núpcias com Edgardo e roga-lhe perdão pela traição. Lucia chegara à loucura.
Amanhece, e atrás do cemitério dos Ravenswood, Enrico e Edgardo se encontram para o duelo. Surge uma procissão lamentando a morte de Lucia (não é explícita a causa - se Lucia foi condenada à execução, suicidou-se ou adoeceu). Dobram os sinos anunciando a morte e Edgardo, que não suporta a idéia de vê-la morta, suicida-se com uma punhalada no peito."

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Ricardo Reis com uma curiosa associação de ideias perante S. Francisco de Assis (Convento de São Pedro de Alcântara)

Ricardo Reis, decide dar um passeio, saindo do hotel vê-se impedido de descer em direcção ao Cais do Sodré, por causa das inundações da noite passada, que alagaram com águas sujas e detritos todo o espaço, por tal, sobe a Rua do Mundo, futura da Misericórdia, e chegará a este maravilhoso painel.
Eis a visão do autor.


(Francisco de Assis - painel de azulejos - portão do Convento de São Pedro de Alcântara)

(...) "onde se representa S. Francisco de Assis, il poverello, pobre diabo em tradução livre extático e ajoelhado, recebendo os estigmas, os quais, na figuração simbólica do pintor, lhe chegam por cinco cordas de sangue que descem do alto, do Cristo crucificado que paira no ar como uma estrela, ou papagaio lançado por esses rapazitos das quintas, onde o espaço é livre e ainda não se perdeu a lembrança do tempo em que os homens voavam. Com os pés e as mãos sangrando, com o seu lado aberto, segura S. Francisco de Assis a Jesus da Cruz para que não desapareça nas irrespiráveis alturas, lá onde o pai está chamando pelo filho, Vem, vem, acabou-se o tempo de seres homem, por isso é que podemos ver o santo santamente crispado pelo esforço que está fazendo, e continua, enquanto, murmura, cuidando alguns que é oração, Não te deixo ir, não te deixo ir... (...)

em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição, páginas 62 e 63

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ricardo Reis e a reflexão sobre o sentir o e pensar... bastará?

(ocasião em que José Saramago apresenta a reflexão sobre a obra)


(...) Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente lugar onde se pensa e sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim  vivem, eu sou qual, quem, Quain, que pensamentos e sensações serão os que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser. Juntou os papéis, vinte anos dia sobre dia, folha após folha, guardou-os numa gaveta da pequena secretária, fechou as janelas, e pôs a correr a água quente  para se lavar. Passava um pouco das sete horas. (...)

em, O Ano da Morte de Ricardo Reis
Caminho, 11.ª edição (páginas 23 e 24)



quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Fernando Pessoa ou Ricardo Reis... assim nasce "O Ano da Morte de Ricardo Reis"



Via bibliografia activa no site da Fundação José Saramago
em, http://www.josesaramago.org/o-ano-da-morte-de-ricardo-reis-1984/

«Um tempo múltiplo. Labiríntico. As histórias das sociedades humanas. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de Dezembro de 1935. Fica até Setembro de 1936. Uma personagem vinda de uma outra ficção, a da heteronímia de Fernando Pessoa. E um movimento inverso, logo a começar: “Aqui onde o mar se acaba e a terra principia”; o virar ao contrário o verso de Camões: “Onde a terra acaba e o mar começa”. Em Camões, o movimento é da terra para o mar; no livro de Saramago temos Ricardo Reis a regressar a Portugal por mar. É substituído o movimento épico da partida. Mais uma vez, a história na escrita de Saramago. E as relações entre a vida e a morte. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de Dezembro e Fernando Pessoa morreu a 30 de Novembro. Ricardo Reis visita-o ao cemitério. Um tempo complexo. O fascismo consolida-se em Portugal.»




"A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Página 26

(...) E assim, com a admiração por um lado, mas com um rancor surdo por outro, fui vivendo, até que uma tarde, em Berlim, descansando de um passeio excessivo, na sonolência que leva a nossa mente de um lugar a outro, caiu-me do tecto uma evidência: o ano da morte de Ricardo Reis. Isto é, pensando em Pessoa, que morreu em 1935, não deixou escrito em lugar algum a data da morte de Ricardo Reis, pensando que o heterónimo não pode viver muito mais que o criador, pensando que todos temos nove meses de vida que não contamos porque não vivemos fora das nossas mães, pensando que talvez depois de mortos possamos contar com outros nove meses de vida, que será mais ou menos o tempo que dura a nossa memória, pensando em tudo isto, a sentença que me caiu do tecto, «o ano da morte de Ricardo Reis», misturada com o antigo rancor e a permanente admiração, animaram-me a confrontar com Ricardo Reis com o espectáculo do mundo no ano da sua morte que, na minha lógica, teria de ser em 1936, quer dizer, o ano em que começou a Guerra de Espanha, o ano que a besta fascista ocupou a Etiópia, o ano em que o nazismo consolidou posições, o ano em que se criaram as mocidades e as milícias fascistas em Portugal... (...)
(...) Ricardo Reis, o poeta das odes maravilhosas, sentava-se diante do mundo, como se de um pôr do sol se tratasse, e vendo o que se estava a passar, sentia-se sábio. Assim nasceu este romance, que tão-pouco é histórico, que é a resolução de uma fascinação e de um calafrio. (...)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Como "nasceu" a ideia da obra "Memorial do Convento"

Depois de "conviver" com a obra de José Saramago, importa-me saber alguns detalhes sobre as origens e casualidade à volta do processo criativo.
Sendo ideias que ocorrem, como no "Ensaio sobre a Cegueira" num restaurante na Madragoa, num escaparate de jornais em Espanha, ou na visita à imensidão do "calhau" do Convento de Mafra.
Se não é importante para a obra, não ajuda à sua interpretação, porém é fundamental para se conhecer o processo criativo e construtivo que o romancista referencia.




(...) Memorial do Convento, romance que nasceu duma circunstância fortuita que passo a contar em meia dúzia de palavras. Um dia, estando em Mafra com algumas pessoas contemplando o Convento, pronunciei em voz alta: «Gostaria um dia de pôr isto num romance». Provavelmente, se não as tivesse dito em voz alta, se simplesmente o tivesse pensado e permanecido em silêncio, a própria dimensão da tarefa me haveria intimidado tanto que talvez não tivesse sido capaz de escrever o livro. Aconteceu que, por pronunciar em voz alta aquilo que tinha pensado, em senti obrigado perante as pessoas que me tinham ouvido, e que inevitavelmente não deixariam de perguntar-me depois como levava o livro sobre o Convento... Devo aclarar que a ideia de escrever sobre o Convento de Mafra foi posterior à ideia de "Ano da Morte de Ricardo Reis", no entanto, "Memorial do Convento" foi publicado em Portugal em 1982 e o "Ano da Morte de Ricardo Reis" em 1984. A explicação é simples: se enfrentar-me ao Convento de Mafra me pareceu uma ideia tremendamente arriscada, tocar a figura de Ricardo Reis, que é a mesma coisa que dizer Fernando Pessoa, era então o cúmulo da ousadia. Senti tal receio de provocar as iras e os desdéns dos eruditos pessoanos, eu que não diplomas, nem atributos académicos, nem méritos conhecidos ou por conhecer, que disse para mim mesmo, não como o outro «Afasta de mim esse cálice», mas sim «Afasta de mim essa tentação». Por isso o "Memorial do Convento" foi escrito antes, como se a tarefa não fosse, coisa que acabei por saber depois, muitíssimo mais árdua e difícil que a de descrever o que sucedeu no ano em que morreu Ricardo Reis... (...) 

A Estátua e a Pedra
Fundação José Saramago
Páginas 23 e 24