Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 16 de abril de 2016

"Sobre os jornais e redacções" Pequeno extracto da entrevista de Fernando Dacosta a José Saramago (18/01/1983 JL - Jornal de Letras)



"Quando andei por [os jornais], mesmo antes de trabalhar dentro das redações, exprimia já as mesmas ideias que exprimo hoje. De uma maneira geral a literatura que hoje faço continua ligada a esse tipo de textos. Às vezes, confesso, vem-me a saudade dos jornais… Não sou um caso único, penso que qualquer um que passou por eles há de lembrar-se até ao fim, há de sentir essa espécie de apelo, essa voz que chama de longe, essa sensação de estar metido dentro das coisas, que a literatura de um modo geral não dá."
Fernando Dacosta entrevista José Saramago (Jornal de Letras #50 - 18/01/1983)
"Escrever é fazer recuar a morte, é dilatar o espaço da vida”

quarta-feira, 30 de março de 2016

Cátedra José Saramago da Universidade de Vigo candidata-se ao título de cátedra da Unesco - Jornal de Letras (30/03/2016)

Imagem do artigo em questão


O artigo pode ser consultado no Jornal de Letras (30/03/2016), n.º 1187, na página 2 do destacável "Camões"

"Cátedra José Saramago de Vigo candidata-se à chancela da UNESCO"

A Cátedra José Saramago da Universidade de Vigo, instituída em 2015 na sequência de uma iniciativa conjunta daquele estabelecimento de ensino superior da Galiza, Espanha, e da Fundação José Saramago, vai candidatar-se ao título de cátedra da UNESCO. 
Essa é a intenção que consta de um protocolo a ser assinado entre a Universidade de Vigo, a Fundação José Saramago, enquanto fundadores da I Cátedra Internacional José Saramago, e a Fundação Eugénio de Almeida e o Camões, 1.P, enquanto membros honorários deste projeto, na medida em que prestam o seu contributo financeiro para a realização de projetos e atividades da Cátedra. 
Enquanto financiador, o Camões, I.P. deverá contribuir anualmente com uma verba de 10 mil euros. Os objetivos da Cátedra - cuja criação é fruto de uma proposta dos professores Burghard Baltrusch e Carlos Nogueira, segundo refere o sítio da fundação sedeada na Casa dos Bicos, em Lisboa - são, em termos gerais, o desenvolvimento de projetos de divulgação social e de transferência do conhecimento; a divulgação e promoção da figura e da obra de José Saramago, através de cursos, conferências, simpósios ou seminários; o apoio a docentes, investigadores e estudantes; o intercâmbio de publicações, trabalhos de investigação e materiais académicos que resultem, de projetos culturais e literários de interesse comum; a mobilidade de estudantes, docentes e investigadores; e a promoção da igualdade de oportunidades entre mulheres e homens. 
Segundo Filipa Soares, Coordenadora do Ensino Português (rede EPE) em Espanha, a Cátedra Internacional José Saramago atuará em três âmbitos. O primeiro, na área da docência - «pretende-se promover a criação de módulos didáticos dedicados ao estudo da vida e obra» do Prémio Nobel da Literatura -, bem como «incrementar a inclusão de textos sobre o autor» nas licenciaturas, mestrados, doutoramentos da Universidade de Vigo. A segunda área, científica, visa «aumentar a produção em matéria de investigação (trabalhos de fim de carreira e teses de doutoramento)» e ainda «organizar jornadas e congressos centrados na obra de Saramago, que darão origem a publicações em vários formatos». A terceira área, fora do âmbito universitário, prevê a «divulgação dos resultados científicos obtidos em bibliotecas, livrarias de Espanha e Portugal, e a organização de mostras teatrais, recitais literários e ou musicais». 
Apesar do âmbito universitário da Cátedra, pretende-se que os resultados obtidos se repercutam em todo o sistema educativa e na sociedade civil, em geral, nomeadamente no ensino da língua portuguesa e na difusão da cultura em língua portuguesa. 
A qualificação da Cátedra para concorrer à chancela da UNESCO prende-se com o facto de se pretender integrar «no programa da ONU para promover a educação, a ciência, a cultura e a comunicação entre nações com o intuito de fomentar uma cultura de paz, mediante o intercâmbio de conhecimentos (nas diferentes áreas: humanísticos e científicos), por forma a estabelecer um verdadeiro diálogo entre culturas.» 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Citador #47 - Sobre a origem do "Levantado do Chão" (Extracto de entrevista realizada por Inês Pedrosa a José Saramago) - JL #227 (10/11/1986)

"Muitas vezes me interrogo sobre o que teria sido a minha vida se não tivesse havido o 25 de Novembro. É verdade que nessa altura já tinha escrito alguns livros, mas, com esses, não ocuparia qualquer espaço nos manuais de literatura. Também não sei bem que espaço irei ocupar com estes… Mas houve qualquer coisa de decisivo, que foi a situação em que de repente me achei, sem emprego nem esperança de o conseguir. O verão quente de 1975 tinha-me queimado totalmente. Então tomei a grande decisão, que não foi uma decisão dramática: “Ou escreves agora, ou decides já que nunca serás escritor”. De tal forma que, em março de 1976, estava a caminho do Alentejo, onde passei dois meses a recolher material para o Levantado do chão. Agora, finalmente, tenho o direito de ser apenas escritor, 24 horas sobre 24 horas."

Extracto de entrevista realizada por Inês Pedrosa a José Saramago 
“José Saramago: ‘A Península Ibérica nunca esteve ligada à Europa’”
in, Jornal de Letras, Artes e Ideias - Edição n.º 227 (10/16 de Novembro de 1986)

Imagem postada no blog "Cais do Olhar", que pode ser consultada, aqui 

A imagem refere-se à famosa secção "Diálogos Confidenciais", 
que Inês Pedrosa manteve no Jornal de Letras

domingo, 13 de dezembro de 2015

"Portugal pela Clarabóia" - Entrevista a Maria do Céu Guerra - Encenadora da peça de teatro "A Claraboia" Teatro A Barraca (Visão - 11/12/2015)

"Portugal pela Clarabóia" - Entrevista a Maria do Céu Guerra
Encenadora da peça de teatro "A Clarabóia" Teatro A Barraca (Visão - 11/12/2015)

A entrevista pode ser consultada e lida, via revista Visão, aqui
em http://visao.sapo.pt/jornaldeletras/teatroedanca/2015-12-11-Maria-do-Ceu-Guerra---Portugal-pela-Claraboia

Fotografias de Luís Rocha - Movimento de Expressão Fotográfica
Mais informação em http://www.mef.pt/mef/ 


"Um 'fresco' Portugal nos anos 50, visto através da Claraboia, o romance de José Saramago no palco de A Barraca estreou na quinta-feira, dia 10, no Cinearte, em Lisboa. Um espetáculo encenado por Maria do Céu Guerra, que abre um ciclo que a companhia vai dedicar ao Nobel da Literatura."

"O teatro em tempos de “austeritarismo” encolheu os atos e os “sonhos”. A Barraca quase acabou, com os cortes e os 40 mil euros de subsídio anual a que viu reduzida a existência. Farta de tanto aperto e míngua, Maria do Céu Guerra não quer poupar mais na “ousadia” de “fazer um espetáculo em grande”. Sentiu essa ânsia crescer página a página, capítulo a capítulo do livro de José Saramago que agora arrisca levar à cena: Claraboia, o romance póstumo do escritor, embora tivesse sido escrito em 1953. E atreveu-se a encená-lo, mesmo tendo que poupar em tudo menos em esforços e imaginação. Essa nunca é “pobrezinha”, como garante a atriz e encenadora."

"No palco, um prédio com seis casas dentro, um “mosaico” de quotidianos familiares, nos anos pardacentos do fascismo, e subterrâneo o conflito, as pulsões da condição humana. São 16 atores para dar corpo à narrativa de Saramago tornada diálogo, com a adaptação de João Paulo Guerra. Para a reconstituição desse tempo, o cenário criado por Costa Reis. Um espetáculo para ‘virar a página’ da austeridade. “Um pontapé na sorte”, diz Maria do Céu Guerra, consciente do risco da aposta. E sabe-se que a sorte protege os audazes."

Jornal de Letras: Que possibilidades teatrais descobriu neste romance de Saramago?
Maria do Céu Guerra: Foi Pilar del Río quem me ofereceu Claraboia, que sabia que tinha tido uma história editorial complicada. Quando o comecei a ler fiquei logo interessada no retrato que José Saramago faz das casas, das famílias, da vida naqueles anos pesados, mesquinhos, do Estado Novo.

Um retrato quotidiano do fascismo?
E sem nunca falar de repressão, de polícia ou mesmo aparentemente de política, a não ser pela boca de uma personagem, assumidamente oposicionista. Saramago consegue dar uma narração do fascismo branco. Isso entusiasmou-me e comecei a imaginar como seria possível pôr um prédio em cena, com seis famílias em simultâneo. A partir do meio, o livro começou a desafiar-me para o palco. E cada vez me apaixonava mais pela própria dificuldade desse exercício.

Fotografias de Luís Rocha - Movimento de Expressão Fotográfica

Que aguçou o engenho?
Estes anos de austeritarismo, como lhe chamo, dificultaram tanto a vida d’A Barraca que andamos a fazer reposições, um Tartufo muito austero, sempre a contar os tostões. Há dois anos estivemos mesmo para acabar. Só não aconteceu porque tivemos sempre a solidariedade do nosso público e houve uma petição entregue e aprovada na Assembleia da República reconhecendo o nosso trabalho, o que não nos trouxe mais dinheiro mas nos deu ânimo. Pensei muitas vezes que não me apetecia fazer mais nada, continuar a pensar só em coisas baratinhas, pequeninas. E sei que o público também gosta de qualquer coisa de espetáculo, o que é caro. Claraboia fez-me sentir vontade de correr esse risco.

É uma grande produção, com 17 personagens. Como foi possível?
A Pilar del Río ajudou-nos, não economicamente mas a abrir alguns caminhos, a chegar por exemplo ao Fundo de Fomento Cultural e a entreabrir algumas portas. Claro que foi uma dívida enorme que A Barraca contraiu e que só será capaz de pagar se o público vier ver a peça.

Uma ‘ousadia’ nos tempos que correm?
Foi um rasgo e avancei, apesar desses perigos. E teve o condão de me entusiasmar e apaixonar de novo. E sair da mediania. Já tenho esta idade e ainda muitos sonhos que quero realizar. A ousadia muitas vezes ajuda a dar um salto em frente. E é preciso.

Além das questões orçamentais, encenar Claraboia foi um quebra-cabeças?
Se foi. São muitas famílias, personagens, cenas, feitas ao mesmo tempo… E que têm que o ser em estilos diversos, porque são mesmo diferentes. Cada casa é uma casa, com o seu décor, as suas formas de relacionamento, pessoas que se cruzam nas escadas, que se veem e ouvem, uma que transporta o desgosto de ter perdido uma filha, duas irmãs com o amor pela música e pela rádio, um linotipista do Diário de Notícias sórdido, uma rapariga por conta e o seu protetor, um casal infeliz, com uma galega nostálgica e muito divertida… Foi obra não os deixar contagiar pelos ritmos uns dos outros.

E a narrativa de Saramago não levantou problemas especiais na transposição para o palco?
Não. É um romance com um fio ficcional ténue, a história surge naquele painel de vidas remediadas. No teatro, esse fresco é dado, mas o conflito vai-se insinuando como um réptil, através da calúnia, da mentira, dos defeitos dominantes daquele tempo, talvez de todos os tempos. Tudo o que vemos naquele prédio se calhar não está tão longe de nós.

É isso que procura sublinhar a sua encenação?
Interessou-me trabalhar precisamente esse lado dos conflitos das famílias, as histórias silenciosas das casas, aquilo que acontece portas adentro. Por isso, fazemos uma espécie de corte naquela casa maravilhosa, criada pelo Costa Reis, inspirado na casa onde nasceu, e convocamos os espetadores a serem voyeurs desses universos fechados. Gostei muito de fazer esta dramaturgia. Aliás, agrada-me muito a passagem da escrita narrativa para a dramática.

Porquê?
Já adaptámos muitos romances e seduz-me esse exercício de tornar as descrições didascálias, o narrativo ativo. E desta vez, sem recorrer a narrador, o que acontecia numa outra adaptação, A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, uma peça de que gostei muito. E sem ninguém a narrar é mais difícil. São seis casas ativas na frente do público, como a espreitar pela claraboia, o verdadeiro olho de Deus, para o interior daquelas vidas. E vão ajudar-nos as roupas, os hábitos, o que se comia, como se vivia.

Fizeram uma verdadeira ‘reconstituição’?
Sim. E foi muito divertido recuar no tempo. E tenho a aspiração de que o público faça essa viagem connosco. Estamos muito contentes com o espetáculo. Por outro lado, o Hélder [Costa] há muito queria encenar O Ano da Morte de Ricardo Reis e decidimos fazer um ciclo José Saramago, que se prolonga pelo primeiro semestre do próximo ano.

Haverá mais textos de Saramago?
O Conto da Ilha Desconhecida, que vamos fazer em reposição. E gostaria muito que Claraboia ainda estivesse em cena quando A Barraca fizer 40 anos, a 4 de março

terça-feira, 14 de julho de 2015

"Europa Sim, Europa Não" Publicado originalmente no Jornal de Letras, Artes & Ideias (10/01/1989)

2015, o ano onde a Europa, continente, mas também símbolo de unidade política e monetária, centro de discussão das artes e culturas, terra de guerras entre povos e suas conquistas territoriais, vive de novo o paradigma de desconhecer o caminha para onde se dirige.
Da Grécia, berço das nações; dos países do sul, dos países do norte, das "Alemanhas" reunificadas que surgem como poder inquestionável pelos demais, das guerras a leste, o cemitério de refugiados no Mediterrâneo, os Balcãs, as ilhas Britânicas, a Península Ibérica, o espectro do radicalismo religioso... tanta Europa para tão pouco Europa.
Em 1989, um homem, "um humanista por acaso escritor" pensava estas questões. Agora se confirmam.
Leia-se o texto, e sentimos que foi hoje escrito.
Rui Santos
      


Mencionado na obra de Ana Paula Arnaut, "José Saramago" - Edições 70 (2008)

Capítulo 2 - Textos Doutrinários
"Europa", páginas 77 a 80

Publicado originalmente no Jornal de Letras, Artes & Ideias,
10 de Janeiro de 1989, página 32

(Capa da obra de Ana Paula Arnaut 
que republica o texto sobre a ideia de "Europa")


"Europa Sim, Europa Não"
"Algumas vezes este romancista, preso nas malhas da ficção que ia tecendo, chegou a imaginar-se transportado na delirante jangada de pedra em que transformara a Península Ibérica, flutuando sobre o mar atlântico, a caminho do Sul e da Utopia. A peculiaridade da alegoria era transparente: embora prolongando algumas semelhanças com o mais comum dos emigrantes que parte para outras terras a buscar a vida, prevalecia, neste caso, uma definitiva e substancial diferença, a de viajarem também comigo, na migração inaudita, o meu próprio país, todo ele, e, sem que aos espanhóis tivesse pedido a devida licença, portanto sem autorização nem procuração, a Espanha. Ora, embalado nestas minhas imaginações, notava eu que não tinha parte nelas qualquer sentimento de pesar, de tristeza, de aflição mais ou menos pânica, ou, para tudo dizer na inevitável [palavra] portuguesa, saudade. Compreender-se-á já porquê. É certo que, pelos vistos irremediavelmente, me ia afastando da Europa, mas os tecidos vitais da barca imensa que me levava continuavam a alimentar as raízes da minha identidade própria e da minha pertença colectiva: logo, não encontrava causa para chorar um bem perdido, se realmente podia ser assim designado o que antes ganho não fora, mesmo tendo tão pouco de bem. 
Para não cairmos nos braços da banalidade e da redundância não nos fatiguemos a repetir aqui o longuíssimo catá-logo das maravilhas europeias, desde os gregos e latinos até aos felizes dias de hoje. Por de mais sabemos que a Europa é madre ubérrima de culturas, farol inapagável da civilização, lugar onde haveria de instituir-se o modelo humano que, seguramente, mais próximo estará do projecto que Deus tinha em mente quando colocou no paraíso o mais antigo exemplar da espécie. Pelo menos é desta idealizada maneira que os europeus costumam ver-se ao espelho de si mesmos, e essa é a resposta servil que a si mesmo invariavelmente dão: «Sou eu o que de mais belo, de mais inteligente e de mais culto a Terra produziu até agora.» Dito o que seria a altura de começar a redigir a decerto não menos longa acta dos desastres e horrores europeus, que acabaria por levar-nos à deprimente conclusão de que a famosa batalha celeste, afinal, foi ganha por Lúcifer e que o único habitante do paraíso teria sido a ser-pente, encarnação tangível do mal e seu emblema gráfico, que não precisou de macho, ou de fêmea, se macho era, para proliferar em número e em qualidade. Não faremos pois a acta, como não fizemos o catálogo. Antes cobriremos piedosamente o espelho para que não venha a ser pronunciada sequer a primeira palavra da resposta. 
E agora basta de escatologias e ficções. De um ponto de vista ético abstracto, a Europa não tem mais culpas no cartório da História que qualquer outra região do mundo onde, hoje e ontem, por todos os meios, se tenham disputado o poder e a hegemonia. Mas a ética, exercendo-se, como no-lo está dizendo o senso comum, sobre o concreto social, é porventura a menos abstracta de todas as coisas e, ainda que variável no tempo e no espaço, permanece como uma presença calada e rigorosa que, com o seu olhar fixo, nos pede contas todos os dias. Suponho que estamos vivendo o tempo em que a Europa terá de apresentar a juízo o balanço da sua gestão, se não quer prolongar, com o requinte de processos que os modernos meios de comunicação de massa permitem, o seu pecado ou vício maior, que é a existência de duas Europas, a central e a periférica, mais o consequente lastro histórico da injustiça, discriminações e ressentimentos. Já não falo das guerras, das invasões, dos genocídios, das eliminações selectivas, falo sim da ofensa grosseira que é, para além dessa espécie de deformação congénita denominada eurocentrismo, aquele outro comportamento aberrante que consiste em ser a Europa eurocêntrica em relação a si mesma. Para os Estados europeus ricos e, segundo opinião narcísica em que se comprazem, culturalmente superiores, o resto da Europa é algo vago e difuso, um pouco exótico, um pouco pitoresco, merecedor, quando muito, da atenção da antropologia e da arqueologia, mas onde, apesar de tudo, contando com as adequadas colaborações locais, ainda se podem fazer alguns bons negócios. 
Ora, não haverá no futuro uma nova Europa se esta não se instituir formalmente como entidade moral, e também não haverá se não for abolido, mais do que os egoísmos nacionais, que tantas vezes não passam de meros reflexos defensivos, o preconceito da prevalência ou da subordinação das culturas. Tenho obviamente presente a importância dos factores económimicos, militares e políticos na formação das estratégias continentais e seu enquadramento nas geoestratégias globais, mas, sendo por fortuna ou desfortuna homem de literatura, é meu dever imediato lembrar que as hegemonias culturais de hoje resultam, fundamentalmente, de um processo duplo e cumulativo de evidenciação do próprio e de ocultação do alheio que teve artes de impor-se como inelutável, quase sempre, pela resignação, quando não pela cumplicidade das próprias vítimas. Nenhum país, por mais rico e poderoso que seja, deveria poder arrogar-se uma voz mais alta. E, já que de cultura esta-mos falando, também nenhum país ou grupo de países, tratado ou pacto, deveria propor-se como mentor ou guia dos restantes. As culturas, comece a Europa por entendê-lo, e entendido tente ficar de uma vez para sempre, não são melhores nem piores, não são mais ricas nem mais pobres, são, simplesmente e felizmente, culturas. Aí, valem-se umas às outras, e é só pela diferença, assumida e aprofundada, que se acharão justificadas. Não há, e esperamos que não venha a haver uma cultura una e universal. A Terra, sim, é única, mas o homem não. Cada cultura é em si mesma um universo comunicante: o espaço que as separa umas das outras é o mesmo espaço que as liga, como o mar aqui na Terra, separa e liga os continentes. Esse romance [A Jangada de Pedra] em que afasto a Península Ibérica da Europa, não precisaria dizê-lo, é o efeito último de um ressentimento histórico. Provavelmente só um português poderia ter escrito este livro. Mas o seu autor declara que estaria pronto a fazer do mar a errante jangada, depois de alguma coisa ter aprendido nesta navegação, se a Europa, reconhecendo-se incompleta sem a Península Ibérica, fizesse pública confissão dos erros cometidos, injustiças e desprezos. Porque, enfim, se de mim se espera que ame a Europa como à minha própria mãe, o mínimo que lhe posso exigir é que a ame a todos os seus filhos por igual e, sobretudo que por igual os respeite a todos." 
José Saramago
"Europa sim, Europa não", in Jornal de Letras, Artes & Ideias
10 de Janeiro de 1989, página 32 

sábado, 11 de julho de 2015

"História do Lagarto Verde" - Maria Alzira Seixo faz a crítica a "As pequenas memórias" (JL #846 - 8/11/2006)

"Maria Alzira Seixo faz a crítica a "As pequenas memórias", 
na edição do JL 846, de 8 de Novembro de 2006"

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://visao.sapo.pt/historia-do-lagarto-verde=f562777

(Maria Alzira Seixo, José Saramago e Luiz Francisco Rebello)

"História do Lagarto Verde"

"Saramago dá-nos, com As Pequenas Memórias, o trigésimo nono volume da sua obra. Mais consagrada ao romance, é de facto obra de polígrafo: integra outros géneros de ficção (conto e novela), significativa produção de teatro, escritos opinativos e autobiográficos, livros de crónicas e de poesia que lhe marcam o início da carreira e nos quais encontramos em esboço muita da sua temática posterior, e textos híbridos que equacionam em densidade o seu modo de articular literatura e mundo: O Ano de 1993 e Viagem a Portugal. Após Cadernos de Lanzarote, o entendimento do eu como objecto de reflexão e não apenas ponto de vista dá agora outro resultado de escrita, que o autor judiciosamente apelida de memórias.
O memorialismo parte do eu, mas enquanto postura narrativa de quem dá a ver as coisas e sabe que se arrisca a ser comprovado, ou não, no que conta; o memorialismo não se ocupa do eu para o narrar como objecto privilegiado, caso em que resvala para a autobiografia, e por isso alcança a sua integração reflectida na comunidade e, nesse sentido, ultrapassa a subjectividade para traçar lugares e tempos que valem por interesse próprio, enquanto modos de vida idos que são raízes e alimento da sociedade actual. Como fez Saint-Simon, o memorialista que Proust punha acima de todos, seguindo-o na sua obra compósita de memórias, autobiografia e ensaio, que é sobretudo ficção.
Quem ler As Pequenas Memórias vê satisfeita a curiosidade de saber como viveu e cresceu este vulto das Letras, e será surpreendido pela lição de briosa humildade que elas contêm, assim como pelo exemplo de trabalho e estudo que fazem, do menino rústico e sem condições, a culta e interventiva personalidade que é Saramago no mundo de hoje. Este exemplo não pode ser entendido como expoente de regra, pois é excepção, mas permite ponderar os resultados do facilitismo no ensino actual, assim como condições que, proporcionadas sem sentido moral e afectivo, não dão frutos. Os objectivos morais não emergem na escrita do texto, mas o certo é que nele se fala muito de costumes. Que erguem diante de nós terra e gente, um estilo de vida do campesinato e de classes urbanas desfavorecidas. Sem propaganda nem miserabilismo. Na real.

Um lagarto na memória
Na real, é como quem diz. Naquela camada de real indestrinçável de factos, emoções, ecos, pressentimentos, interpretações e olvido recuperado que leva a acarinhar ou idealizar a vida passada, mesmo se foi difícil. E a isolar nela grandes acontecimentos e pormenores fortuitos que, postos por escrito, os irmanam em poder de repercussão. Por isso acho nestas memórias do "rapazinho da Azinhaga" (a que o autor chama "as memórias pequenas de quando fui pequeno") a história do lagarto verde.
Dir-se-á, com razão, que o livro dá conta da expressão indelével provocada no sujeito da escrita por pessoas (os avós maternos, o primo José Dinis, o irmão Francisco), lugares (o rio Almonda e o Tejo, o olival, ruas de Lisboa), habitações (em constantes mudanças por partes-de-casa), momentos afectivos (encontros com raparigas, a ternura dos bacorinhos que dormiam com o avô, o medo dos cães, o gosto pelos cavalos), de lazer aprazível (idas à pesca ou ao cinema "Piolho "), de contacto problemático com os outros (a maçaroca surripiada ao primo), de entrada na escrita (escrever na pedra, os ditados na escola, a primeira quadra). Tudo isso é o livro.
Mas o livro é também o lugar original formulado no começo, em estilo indirecto (como o nome que a contingência cola à pessoa), a colocar no coração da frase um caminho tosco de vida (a "azinhaga"), ligado à História e à imaginação, às águas do rio e às árvores que o bordejam, e ao extenso olival com troncos em cujas locas "se acoitavam os lagartos", destruído pelas transformações agrícolas da União Europeia. "Contam-me agora que se está voltando a plantar oliveiras", escreve o autor; "o que não sei é onde se irão meter os lagartos". E de certa forma, nestes troços despegados da recordação (como as talhadas de melancia que come, já perto do final), "o pobre de mim", como ironicamente se autoapelida ao jeito de Fernão Mendes Pinto, parece não ter em vistas um fito muito estável, oscilando entre um projectado Livro de Tentações e estas memórias do "eu pequeno", do qual não anda visivelmente à procura já que é ele que aqui o comanda. E do que a mim me parece que anda à procura é de saber mesmo onde se meteram os lagartos. Como se a própria estrutura da narrativa, dada em continuidade de discurso mas entremeada de espaços em branco, figurasse frinchas por onde esses seres vivos alapardados ao sol da memória se escapam quando pretendemos alcançá-los com os gestos das nossas sombras escritas.
A mistura de real e imaginário, dada pela memória que inventa a vida para a dar em literatura, atravessa a individualidade do memorialista para reconstituir esboços de história das mentalidades, hábitos quotidianos, crenças e modos de agir hoje raros. Quem se lembra do uso de defumadouros para afastar doenças e mau olhado? Ou do ruído da "costureira" em tardes de verão ou serões silenciosos de leitura e bordados? Eu lembro-me. Como me lembro do sistema de contabilidade dos analfabetos de então, o da avó Josefa de Saramago e da minha tia Emília, que tinha um lugar de fruta e hortaliça e não lhe falhava um tostão no rol de fiados, com aqueles sinais que mais ninguém entendia e me ensinou, de círculos fechados com uma cruz interna (um escudo), um traço diagonal interno (cinco tostões), sem traço (um tostão) e risco sem círculo nenhum (meio tostão). Ou sistemas de partilha empírico-afectiva, como a sopa que o petiz e a mãe comem do mesmo prato, com duas colheres e um de cada lado. Ou o costume, por necessidade e natureza, de andar de pé descalço; ou ainda, entre pavores e tentações, e medo do escuro como todas as crianças, dormir no chão com as baratas, "não estou a inventar nada, de noite passavam-me por cima", diz ele sem mais comentários. E passa adiante, tal como o petiz dormia. E que passou adiante vê-se em cenas do ontem dadas por ele hoje, como a do Otelo de Mouchão de Baixo ou do sapateiro que lia Fontenelle. Para pé-descalço e meio prato de sopa, não se pode dizer que José Saramago venha mal alimentado do caminho que percorreu.

Nas asas da palavra
Ao ouvir ler em voz alta o primeiro livro de que se lembra, Maria, a Fada dos Bosques, Saramago entra em contacto com a literatura, e o importante não parece ser tanto a impressão que lhe provocam cenas do livro como a sensação de ser levado a outros mundos pela articulação encantatória das frases, revigorando em experiência pessoal as "palavras aladas" de Homero que como escritor tenta também. Essa é talvez a maior das tentações neste livro onde, a certa altura, explica que a sua génese era a de ponderar sobre "a teratologia da santidade", isto é, os desejos e monstros, os pesadelos e pavores da noite que afligiam a mentalidade infantil reprimindo a sua expansão de natureza humana. É por isso que a Saramago-criança se vai contrapondo o Saramago-homem, a olhar para si de longe e para o mundo onde, pequeno, mas porque pequeno é o homem, se integra natural e artificiosamente.
Com a sua propensão para a integração na natureza (campos, animais, costumes urbanos primitivos) e a vocação da construção da arte. Quando relata as idas à pesca em petiz, e a imobilidade espelhada do pedaço de rio, é o Saramago de hoje quem escreve, a partir da indizível sensação da criança: "não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água". A recordação é por vezes confessada invenção ("senti dentro de mim, se bem recordo, se não o estou a inventar agora, que tinha, finalmente, acabado de nascer") assim se transmudando em descoberta; outras vezes acontece, inexplicável, pois "esquecemos o que gostaríamos de poder recordar" e, por outro lado, "recorrentes, obsessivas, reagindo ao mínimo estímulo, vêm-nos do passado imagens, palavras soltas, fulgurância, iluminações, e não há explicação para elas, não as convocámos, mas elas aí estão". O livro termina com uma iluminação destas, forte e concentrada, adjacente ao que se narrou, e onde o autor se dá como sujeito de observação e participante moral da acção. Aquilo, afinal, que o escritor vai ser. Passa-se nas ruínas de uma malhada de porcos, entre um homem e uma mulher não identificados, e o narrador (jovem) senta-se num valado, "a distância, perto de uma oliveira ao pé da qual, dias antes, tinha visto um lagarto verde". E quando a cena termina, com a partida das personagens, o livro finda também com a observação do autor: "nunca mais tornei a ver o lagarto verde".
Os lagartos, que de início afirmava não saber onde se tinham metido, meteram-se afinal aqui no livro, como símbolos da familiaridade terrestre e do gosto pelo sol, em lendas mediterrânicas representando a inexorabilidade da morte. Como reconhecimento também da inocência perdida, sobretudo porque a observação se segue à menção da morte de José Dinis, o primo com quem se dava como o cão e o gato, e a quem, nas penúltimas linhas, furtara a maçaroca, após saborearem ambos a bela melancia de casca verde-escura, de cujas talhadas foi ficando o "castelo" ou "coração". Isto é, o cerne da recordação. A simbólica de Saramago é sempre objectual e pede para ser lida à letra, como palavra a saber a sentidos, mas a sua notação sóbria, despojada, emerge isolada no texto, a despertar os sonhos e tentações, também no espírito do leitor."

Ler mais: http://visao.sapo.pt/historia-do-lagarto-verde=f562777#ixzz3fZVMT3l0

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Georges Duby - Historiador e sua influência na visão e análise do relato histórico (História do Cerco de Lisboa)

(Livro no mural existente na Fundação José Saramago)

José Saramago reconhece a influência de alguns historiadores, na forma como encara o relato histórico nas suas obras. 
Na entrevista a José Carlos de Vasconcelos (Jornal de Letras, 18/04/1989), aquando do lançamento da obra "História do Cerco de Lisboa", Saramago faz a seguinte alusão a este processo, também ele formativo, e presente na forma de relatar a visão dos acontecimentos passados.

"Algum historiador o influenciou?"
" Traduzi livros de Georges Duby, e um deles, O Tempo das Catedrais, fascinou-me. Aí pude ver como é tão fácil não distinguir o que chamamos ficção, e o que chamamos história. A conclusão, certa ou errada, a que cheguei, é que, em rigor, a história é uma ficção. Porque, sendo uma selecção de factos organizados de certa maneira para tornar o passado coerente, é também a construção de uma ficção."


“O tempo das catedrais” de Georges Duby traduzido por José Saramago para a Editorial Estampa.

Em 1978, a Editorial Estampa publica “O tempo das Catedrais. A Arte e a Sociedade, 980-1420″ de Georges Duby com a tradução de José Saramago. O livro viria a ser re-editado, em 1993, na colecção Nova História.


Pequena menção a Georges Duby na Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Georges_Duby)
"Georges Duby (7 de Outubro de 1919 - 3 de Dezembro de 1996) foi um historiador francês, especialista na Idade Média.
Deu início à sua carreira universitária em Lyon, no ano de 1949, tendo sido posteriormente membro da Academia Francesa e professor do Collège de France entre os anos de 1970 e 1992. Foi um especialista em história medieval, lançou mais de 70 livros e coordenou coleções importantes, como a História da vida privada."

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Referência a Benedetto Crosse - José Carlos de Vasconcelos entrevista Saramago

José Carlos de Vasconcelos entrevista José Saramago
Jornal de Letras - 18 de Abril de 1999

No momento em que seria lançado o livro "História do Cerco de Lisboa", foi realizada esta entrevista, de onde a menção a Benedetto Crosse. Quem foi e o que motivou a referência que se transcreve.

José Carlos de Vasconcelos, a propósito da obra carregada por uma profunda encenação histórica, que concorre em paralelo com a participação do revisor Raimundo Silva; questiona José Saramago sobre o estudo e referências na obra.

"O livro obrigou-o a alguma preparação histórica. Isso agrada-lhe?"
Agrada-me muito. E provavelmente cada vez mais. Cada vez melhor compreendo a verdade e significado extremo da célebre frase de Benedetto Crosse: «Toda a história é a história contemporânea»." 
in Conversas com Saramago, Jornal de Letras



Benedetto Croce (Pescasseroli, 25 de fevereiro de 1866 - Nápoles, 20 de novembro de 1952) foi um historiador, escritor, filósofo e político italiano. Os seus escritos giram em torno de um largo espectro temático, sobretudo estética e teoria/filosofia da história. É considerado uma das personalidades mais importantes do liberalismo italiano no século XX.
Croce nasceu em Pescasseroli, na região de Abruzzo, no seio de uma família rica e influente. A sua educação foi marcada por uma atmosfera fortemente religiosa, da qual o jovem Croce cedo se distanciaria. Em 1883, perdeu os pais, Pasquale e Luisa Sipari, assim como a irmã, Maria, todos mortos num terremoto que acometeu a vila de Casamicciola Terme, na ilha de Ísquia, onde a família passava férias. Nesta ocasião, o próprio Croce permaneceu soterrado por longo tempo, tendo corrido sério risco de morte. Após a fatalidade, ele herdou a fortuna da família, o que lhe permitiu viver em relativo conforto, e dedicar tempo à reflexão filosófica.
Na política, foi nomeado senador em 1910. Entre 1920-21 foi ministro da educação. Croce opôs-se ao governo fascista de Benito Mussolini, embora inicialmente o tivesse apoiado.