Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
Mostrar mensagens com a etiqueta jornal de poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta jornal de poesia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

"Saramago, a vaidade justificável" texto de Miguel Sanches Neto (05/06/1999)


(Fotografia de João Francisco Vilhena 
Exposição Lanzarote — A Janela de Saramago)

Texto pode ser consultado em http://www.jornaldepoesia.jor.br/msanches29.html

"Saramago, a vaidade justificável" de Miguel Sanches Neto
em "Gazeta do Povo" (05/06/1999)

"Um diário é um cômodo íntimo de uma casa. Nele, encontramos o autor em suas roupas domésticas, vivendo como o comum dos mortais. O que impera é o acontecimento miúdo, as pequenas vaidades, as alegrias cotidianas, os prazeres de ver a vida que passa, as indignações, etc. Quando o diário é escrito por uma grande personalidade, a estes móveis mais inexpressivos são acrescentados outros: a sua participação em grandes acontecimentos, sua concepção de mundo e os eventos dos bastidores da vida pública por ele vivida. É, invariavelmente, a parte interna da casa, as intimidades do edifício, com suas manchas de bolor e com sua decoração, que encontramos na leitura dos textos nascidos sob este rótulo.
O leitor de diários está sempre atrás das grandezas e das fraquezas de quem escreve e sempre será possível encontrá-las nesta categoria de texto em que sobressai um eu. Acusar um autor de ser ególatra é algo que não diz absolutamente nada, servindo apenas para depor contra a inteligência de quem faz tal afirmação. Todo diário é, em sua essência, um culto do eu e, portanto, todo autor de diários é um cultor de si mesmo. O que varia é o grau de presença do eu, uns são mais e outros menos ególatras, e natureza desta presença, algumas são justificáveis pelas questões que suscitam.
Quem procura tais textos deve portanto saber que o que ele encontrará é um discurso do eu, que pode vir mais velado, como quando um viajante mostra uma paisagem ou fala de questões sociais. Mas o eu, neste caso, não está ausente, apenas oculto. São suas as opiniões e seu o olhar. Até esconder o eu não é mais do que chamar a atenção para ele.
No diário tudo é vaidade. Quem escreve é vaidoso por levar a sua vida a sério, por dar-lhe importância ao ponto de escancará-la ao público. E quem o lê também é vaidoso, porque no fundo quer se ver no diário. Mesmo que não seja conhecido do autor, ele quer se reconhecer na vida privada deste. Depois que começou a transcrever cartas em seus diários, cujo segundo volume da edição brasileira acaba de ser lançado (Cadernos de Lanzarote II, Cia. das Letras, 1999), José Saramago passou a receber um número muito maior de missivas, como fica sugerido pela recorrência delas no volume em questão. Também deve ter aumentado a freqüência de visitas à sua casa e de convites para participar de eventos. Pois são estas as matérias do diário, espaço da vaidade por excelência. O próprio artigo que escrevo não deixa de ser movido pela vaidade de freqüentar a sua casa, de ocupar-lhe um mínimo espaço.
Isso posto, acabemos com as acusações ao autor. Saramago é tão vaidoso quanto quem o lê. Ponto final. Abramos outro parágrafo.
Por baixo desta matéria mais mundana e perecível pode ou não haver uma base sólida. É isso que deve definir a relevância de um diário. Assim, a imprescindibilidade dos Cadernos de Lanzarote II se localiza em duas questões axiais, pelo menos para este crítico. A primeira é a sua proposta de um retorno ao autor. A segunda é a história (que geralmente fica no mais completo segredo) do nascimento da ficção, da sua fase pré-natal.
Durante as longas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, a literatura sofreu uma aceleração do movimento de tecnicização que tem acompanhado a modernidade. Nunca, como nesta segunda metade do século, ser moderno significou de forma tão primária investir, em todos os sentidos, em aparatos tecnicamente sofisticados. A estética, na arte, acabou ocupando o mesmo espaço que os objetos eletrônicos têm em nossa vida. O homem viu-se reduzido a um ser perplexo em meio a coisas que roubaram o seu lugar, condenando-o ao exílio. Que isso tenha acontecido no mundo material já é algo assustador, mas que a mesma coisa tenha se manifestado no mundo da cultura é que me desespera. Tanto na crítica (entregue ao estudo de questiúnculas técnicas), quanto na filosofia (perdida em conceitos vagos) e nas artes (que enaltecem o domínio dos instrumentos), o homem passou a ser uma figura dispensável.
No território específico de Saramago - a ficção -, o centro das atenções foi transferido para o narrador, ou seja, para um lugar técnico da narrativa. A obra, dentro desta visão distorcida, ganha relevância quando há a construção aprimorada de um narrador. O livro, portanto, passa a valer pelos recursos que convoca e não pelas verdades humanas condensadas nas trajetórias de seus personagens. Quando a figura do narrador se sobrepõe, o autor perde espaço - o que é o mesmo que dizer: o homem deixa de ser relevante. "O problema está, mais cruamente, em que o escritor, regra geral, deixou de comprometer-se com o cidadão, e que muitas das teorizações em que se foi deixando envolver acabaram por constituir-se como escapatórias intelectuais, modos de disfarçar, aos seus próprios olhos, a má consciência e o mal-estar deste grupo de pessoas - os escritores – que, depois de terem se considerado a si mesmas como farol e guia do mundo, acrescentaram agora à escuridão intrínseca de todo o ato criador as trevas da renúncia e da abdicação cívicas"(p.118).
Vendo neste culto do narrador uma escapatória intelectual, Saramago propõe que a literatura dê maior visibilidade às pessoas. Só isto já seria mais do que suficiente para justificar os seus diários. O diário revela o homem Saramago, não como o reverso do escritor, mas como o homem/escritor, este ser indissociável. Ele não vê o escritor como um personagem, como uma criação intelectual, e sim como um ser vivo que adquire estatuto literário. Assim, o literário é um estado decorrente e revelador do real e não um mascaramento deste. Poderíamos até arriscar a dizer que não há diferença significativa entre os Cadernos de Lanzarote e os demais títulos do autor. Todos estão a serviço do homem. Este movimento de retorno ao autor é o mesmo movimento que buscou dar espessor humano tanto para a história (Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa) como para o personagem de ficção criado por Fernando Pessoa (O ano da morte de Ricardo Reis). Neste livro, Ricardo Reis sai do mundo da literatura (onde se caracteriza por um programático abstencionismo) e penetra no mundo dos homens, para morrer como tal. Ele, ser sem corpo, se solidariza com a sofredora espécie humana. Alguém devia estudar as relações entre este romance e o filme Asas do desejo, de Wim Wenders.
Seus diários revelam ainda a precedência do humano no processo de gestação de seu mais recente romance: Todos os nomes, uma parábola sobre a imortalidade conquistada historicamente através da capacidade que o homem tem (e que muitas vezes acaba obliterada) de manter vivas, através da memória, pessoas que já se foram. Toda a busca do personagem de Todos os nomes, o escriturário José, um ser de essência autobiográfica, surgiu de um fato vivido por Saramago. Ele passou a desentranhar dos arquivos informações sobre um irmão morto no início da infância. O interesse pelo irmão deu origem a uma parábola (de caráter histórico e não religioso - que fique bem claro) em que ele propõe o interesse irrestrito por todos os seres humanos. Está aí não só a gênese da literatura de Saramago como também a razão de seu sucesso. Num período em que a maioria escreve a partir de uma concepção literária e artificiosa, ele se vale de suas vivências mais profundas, criando uma obra que encanta pela autenticidade.
É preciso ler os Cadernos de Lanzarote II perseguindo estas discussões e não atrás de exemplos de vaidade. Comecei este artigo dizendo que um diário é um cômodo íntimo de uma casa. A vasta produtividade do autor faz com que ele acolha muita coisa, transformando os cadernos numa espécie de quarto de despejo. No futuro, quando boa parte dos temas envelhecer, será preciso organizar este quarto, deixando apenas os móveis indispensáveis."

Este texto é publicado, respeitando o original do autor


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

João Alexandre Barbosa escreve sobre José Saramago "Até os limites da realidade" 06/12/1998)

Um texto do académico João Alexandre Barbosa

Pode ser lido e consultado em http://www.jornaldepoesia.jor.br/1jab.html

"Até os limites da realidade" (publicado em 06/12/1998)

"Vejo agora que venho lendo a obra de José Saramago há muito tempo. A prova está na mistura de edições em que tenho os seus textos publicados por duas ou três editoras portuguesas e, a partir de uma certa época, a brasileira Companhia das Letras, que, para quem lê no Brasil, seguindo aquilo que é feito, do lado de Portugal, pela Editorial Caminho, veio dar uma certa ordem no caos editorial que costumam sofrer os escritores de língua portuguesa. 
E por aí se vê que, embora tenha começado como romancista desde 1947 com "Terra do Pecado", publicado pela Editorial Minerva, somente em 1977, com "Manual de Pintura e Caligrafia, da Edição Moraes, assume a identidade de romancista que, para o público mais amplo, atinge a sua plenitude com a publicação, em 1982 e já pela Caminho, do "Memorial do Convento". Duas consequências para a reflexão: durante 30 anos entregou-se ao jornalismo e à poesia (de que dão notícias os livros "A Bagagem do Viajante", "Os Apontamentos" e "Os Poemas Possíveis", "Provavelmente Alegria" e "O Ano de 1993", respectivamente) e somente há 21 anos vem escrevendo os romances que lhe conferem, sem qualquer sombra de dúvida, a posição de um dos melhores prosadores de língua portuguesa deste século que vamos terminando -e, para dizer a verdade, o plural só está aí pela existência anterior de João Guimarães Rosa. São dez romances: além dos já citados "Terra do Pecado", "Manual de Pintura e Caligrafia" e "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "A Jangada de Pedra", "A História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira" e "Todos os Nomes". E não é muito difícil estabelecer, desde logo, uma marca narrativa que, por assim dizer, articula a variedade ficcional de cada um: a presença forte de um narrador, quase sempre no limiar da dicção autobiográfica, que busca fixar, no patamar mais objetivo da história e da realidade circunstancial, as dissonâncias das experiências subjetivas de que a linguagem tem dificuldades em dar conta.
Neste sentido, o chamado romance histórico sofre, com Saramago, um desvio fundamental: a história circunstancial não lhe serve apenas para alimentar a imaginação, mas esta, por meio de pequenos e substanciais erros de leitura, como vai estar explícito naquele "não" introduzido pelo revisor de "A História do Cerco de Lisboa", cria uma complexidade de maior realidade, pois inclui no real histórico as dissonâncias da própria linguagem que é utilizada para a sua apreensão. O que, por outro lado, permite ou mesmo imanta a presença contínua de uma desconfiança de base para com os dados históricos, freqüentemente embaralhados pelo imaginário da linguagem. E como este, no caso de um romancista, está constituído, sobretudo, pelas fontes próprias da tradição narrativa, o chamado romance histórico, em Saramago, inclui necessariamente, e de modo solidário, a história do próprio gênero. Por isso, é possível dizer que, na esteira do que há de mais inovador na narrativa moderna e pós-moderna, o romance de Saramago é uma prolongada discussão acerca das relações possíveis entre a representação da realidade pela linguagem da narrativa e as inserções operadas pela imaginação ficcional.
Quando, portanto, o próprio Saramago apontava Pessoa, Borges e Kafka como, para ele, os mais importantes escritores do século, estava sinalizando para aquilo de que a sua própria obra dá testemunho, isto é, quer para a multiplicidade de vozes ficcionais que está em Pessoa, quer para a realidade da ficção, como está em Borges, quer para a precisão do sonho e do imaginário de Kafka, tudo, no entanto, por assim dizer, sob a tensão de uma consciência dilacerante da linguagem. Veja-se, por exemplo, o modo pelo qual, no seu último romance, "Todos os Nomes", transmite ao leitor lugares e tarefas que constituem o espaço da grande sala da Conservatória Geral do Registro Civil e que serve de pórtico à narrativa:
"A disposição dos lugares na sala acata naturalmente as precedências hierárquicas, mas sendo, como se esperaria, harmoniosa deste ponto de vista, também o é do ponto de vista geométrico, o que serve para provar que não existe nenhuma insanável contradição entre estética e autoridade. A primeira linha de mesas, paralela ao balcão, é ocupada pelos oito auxiliares de escrita a quem compete atender ao público. Atrás dela, igualmente centrada em relação ao eixo mediano que, partindo da porta, se perde lá no fundo, nos confins escuros do edifício, há uma linha de quatro mesas. Estas pertencem aos oficiais. A seguir a eles vêem-se os subchefes, e estes são dois. Finalmente, isolado, sozinho, como tinha de ser, o conservador, a quem chamam chefe no trato cotidiano.
A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de cada categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo
a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte. Isto significa que os auxiliares de escrita são obrigados a trabalhar sem parar de manhã à noite, enquanto os oficiais o fazem de vez em quando, os subchefes só muito de longe em longe, o conservador quase nunca. A contínua agitação dos oito da frente, que tão depressa se sentam como se levantam, sempre às corridas da mesa para o balcão, do balcão para os ficheiros, dos ficheiros para o arquivo, repetindo sem descanso estas e outras sequências e combinações perante a indiferença dos superiores, tanto imediatos como afastados, é um factor indispensável para a compreensão de como foram possíveis e lamentavelmente fáceis de cometer os abusos, as irregularidades e as falsificações que constituem a matéria central deste relato".
Eis, portanto, um traço estilístico de Saramago em sua essência:
os dados da realidade objetiva são expostos até os seus últimos limites, não obstante as interferências irônicas, para que então possa surgir o elemento de dissonância que se introduz pela movimentação final do trecho citado e que é sua decorrente: o erro, o abuso, a irregularidade ou a falsificação que transformam a rasura do nome num motivo de procura pelo nome que é o romance e que por aí faz o leitor retornar, mesmo que não o saiba, às fontes primordiais do gênero narrativo. Mas a busca pelo nome, que é também a da identidade, tudo envolve, desde aquele que busca até o objeto que se busca e, por isso, a história se confunde com as histórias individuais, sejam as do personagem Sr. José, sejam as deste romance que dialoga com as suas origens. Nascimento e morte, fichas hierárquicas da Conservatória, diapasões pelos quais se mede o pulsar da realidade, é o espaço e o tempo que são alterados e renomeados pela presença do erro que somente o imaginário da ficção foi capaz de provocar."


* João Alexandre Barbosa é professor aposentado de teoria literária da USP. Autor, entre outros, de "A Biblioteca Imaginária" (Ateliê Editorial).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Massaud Moisés «Nos ‘Cadernos de Lanzarote’, a imagem do ‘eu’ de José Saramago» - Análise

Caderno I - 1994 - ”Este livro, que vida havendo e saúde não faltando terá continuação, é um diário”

Caderno II - 1995 - "Um ano depois, o autor prossegue o desafio. Dia após dia, Saramago não esconde pormenor."

Caderno III - 1996 - "A comunicação social portuguesa, em particular imprensa e rádio, comportou-se uma vez mais com acendrado patriotismo, apregoando aos quatro ventos as qualidades que exornam aqueles a que chama, num rasgo verdadeiramente criativo, “nomeados” ou “candidatos” ao Prémio Nobel de Literatura."

Caderno IV - 1998 - "Mais uma vez Saramago a contar os dias pelos dedos, e a meditar sobre os eventos, as pessoas, as paisagens, as políticas."

Caderno V - 1998 - "O relato da vida quotidiana do escritor, dos episódios íntimos da criação literária às mais corajosas tomadas de posição, nos quatro cantos do mundo."

Pequenos excertos retirados da página da Fundação José Saramago, a propósito da colecção dos "Cadernos de Lanzarote"

(Imagem de capas dos cinco cadernos)


Nos "Cadernos de Lanzarote", a imagem do ‘eu’ de José Saramago, 
por Massaud Moisés (29/05/1999)

Pode ser lido e consultado online,


"Num estilo que preserva, ou mesmo intensifica, a oralidade dos romances, graças à instantaneidade requerida pela anotação dos eventos cotidianos, os diários do escritor português, cujo segundo volume acaba de ser lançado em edição brasileira, reúnem condições para atrair e ampliar o círculo de leitores do último ganhador do Prêmio Nobel de Literatura – o primeiro de um autor de língua portuguesa"

"É sabido que os ficcionistas, sobretudo os prolíferos, sempre dão a impressão de estar redigindo um diário enquanto fantasiam e constroem o enredo das suas narrativas. Ou, ao menos, de pensar no registro do seu dia-a-dia de modo a recolher o vaivém da sorte e a matéria que não cabe nas suas histórias ou ainda não sofreu o caldeamento imaginário para converter-se em obra literária. Se muitos escritores férteis se contentam com a transfiguração do seu viver cotidiano, aproveitando dele aquilo que mais lhes serve como fonte de inspiração, outros há cuja experiência diária, variada e múltipla, extravasa a ponto de requerer um espaço próprio. É o caso de José Saramago.

As circunstâncias o levaram a preferir a ilha de Lanzarote a Lisboa, num momento em que a sua obra havia alcançado renome internacional. O resultado não se fez esperar: os Cadernos de Lanzarote. Iniciados em 15 de abril de 1993, cinco volumes já foram publicados. Os três primeiros, correspondentes aos anos de 1993, 1994 e 1995, foram reunidos num largo tomo de 664 páginas e lançados pela Companhia das Letras, em 1997. Agora vêm a público pela mesma editora os Cadernos de Lanzarote II (...), enfeixando os anos de 1996 e 1997.

Que o autor tinha plena consciência do artefato que lhe saía das mãos, dizem nitidamente as palavras de abertura a toda a série. E dum tal modo que praticamente funcionam como guia ao navegante que se lança nas suas ondas. Diz ele: “Escrever um diário é como olhar-se num espelho de confiança, adestrado a transformar em beleza a simples boa aparência ou, no pior dos casos, a tornar suportável a máxima fealdade. Ninguém escreve um diário para dizer quem é. Por outras palavras, um diário é um romance com uma só personagem.” De onde ter ele sentido “a necessidade de juntar aos sinais que me identificam um certo olhar sobre mim mesmo. O olhar do espelho”. E por fim, para a tranqüilidade do leitor, avisa que “este Narciso que hoje se contempla na água desfará amanhã com a sua própria mão a imagem que o contempla”.

Como se vê, tem-se o esboço duma teoria do diário e, a um só tempo, as notas caracterizadoras dos Cadernos, ao ver de José Saramago. Sem entrarmos a fundo nas questões implícitas nessas palavras de pórtico, de resto encimadas por uma significativa epígrafe tomada de empréstimo a Ortega y Gasset (“Eu sou eu e a minha circunstância”), podemos observar que os Cadernos constituem um diário em que há de tudo, desde as trivialidades do cotidiano até as reflexões suscitadas por um fato novo, uma visita, uma leitura, uma viagem, um rasgo da memória, escritos de ocasião, notas para um romance, um ensaio, uma conferência, etc. Nem faltam mesmo algumas páginas do diário de viagem de Pilar, a sua companheira, conselheira e musa de tantos anos, a mostrar-nos que o autor dos Cadernos se dispõe a dar conta do seu cotidiano nos mais variados aspectos. As impressões de viagem ou do dia-a-dia da sua mulher não podiam faltar, assim como as cartas ou escritos de leitores e amigos, porquanto fazem parte do seu universo: são indispensáveis à imagem do “eu” que os Cadernos vão definindo no fio dos dias.

O resultado é que o diário, como uma gaveta de sapateiro, nos franqueia a privacidade (possível) do autor, aí talvez resida todo, ou quase todo, o seu fascínio: ao escrever os Cadernos é como se Saramago convidasse os leitores a participarem todos os dias, ou quase, do seu viver cotidiano, satisfazendo-lhes desse modo a curiosidade e o prazer de privar do seu microcosmos de homem e de escritor. Prato cheio tanto para os leitores sofisticados como para os voyeuristas meio bisbilhoteiros que, assistindo aos trabalhos e aos dias do escritor, sentem que por momentos refletem o brilho que dali se irradia. É como se fossem, ainda que por breves instantes, exclusivos senhores de particularidades somente disponíveis a uns poucos, os “de casa”, tendo acesso aos “segredos” que os romances e as peças de teatro do hospedeiro escondem ou que não podem revelar, salvo indiretamente. E alguns deles, pelas cartas enviadas a Lanzarote, podem até desfrutar o sabor especial de integrar a massa pulsante dos Cadernos, como se entrassem numa cidadela interditada ao comum dos mortais.

O diarista bem sabe que escancara as portas da sua casa aos leitores, decerto consciente de que lhes permite aceder a algo mais do que os apontamentos recolhidos nas páginas dos Cadernos. Sabe, pelo menos, que nelas se “encontra alguém (eu próprio) que tendo vivido toda a sua vida de portas fechadas e trancadas, as abre agora, impelido, sobretudo, pela força de um descoberto amor dos outros, com a súbita ansiedade de quem sabe que já não terá muito tempo para dizer quem é”. E nem importa, como é o caso, que os Cadernos sejam “também destinados a serem livro”, mesmo porque, se isso não acontecesse, o diário perderia a sua razão de ser.

O convite ao leitor para privar da intimidade do escritor é ao mesmo tempo, para este, um ato permanente de exorcismo ou de catarse, que os romances geralmente não facultam com a mesma intensidade e vigor. Daí as dúvidas recorrentes do autor acerca do caráter do seu diário, num exercício de intratextualidade em que o benefício que disso colhe acaba sendo também do leitor. Se lhe ocorre dizer que “o leitor não lê o romance, lê o romancista”, não será porque assim o leitor dialoga com o “outro” que se esconde por trás da narrativa? Ora, é “a pessoa invisível, mas onipresente, que é o autor”, o que o leitor busca, e de certo modo, encontra, não nos romances, mas no diário.

E que, como observa o autor dos Cadernos, nos seus livros se esconde “a vida labiríntica, a vida profunda, aquela que dificilmente ousaria ou saberia contar com a sua própria voz e em seu próprio nome”. Uma autobiografia poderia ser o expediente para que a própria voz do autor se fizesse ouvir, mas apelando para a memória muito depois que se desenrolaram os acontecimentos dignos de serem lembrados. Diferentemente, o diário registra sur le champ o cotidiano do escritor, sem que este perca a sua identidade sob a camuflagem dum “outro” imaginário, ou suposto. E para ter à mão o espelho que lhe devolve instantaneamente a imagem do passar dos dias. Se ele dispensasse este registro dos eventos em cima da hora, o leitor teria de perscrutar-lhe os outros livros à procura duma face esquiva, divergente, embora presente em todos os momentos.

Dessa perspectiva, todas as obras dum mesmo autor participam do universo da autobiografia, mas o leitor tem mais gosto em contemplar, na superfície da narrativa, uma fabulação imaginária do que em buscar ali a vera efígie civil de quem a compôs com o magma da sua multifacetada existência. O diário supre a ausência vertiginosa do autor nos seus escritos ficcionais, e com a vantagem de permitir ao leitor a sondagem de recantos que nem mesmo na ambiência imaginária da narrativa poderiam estar abertos à visitação.

Desfeita assim a dicotomia autor/narrador, que José Saramago mais de uma vez discute, chamando a atenção para a importância do primeiro termo, o leitor tem diante de si, nos Cadernos, o rosto fugidio que procura nos romances. E descobre que a pessoa até então oculta nas dobras da narrativa está agora visível sem perder a sua condição de fabulador. Antes pelo contrário: o prazer que o diário desperta vem de ser redigido por um romancista, que se revela como pessoa, mas uma pessoa especial, que escreve ficção, num incessante movimento circular ou numa seqüência de imagens em espelhos paralelos.

Por outras palavras, no jornal íntimo desdobrado à sua frente, o leitor percorre o romance do autor, isto é, a vida, ou “a vidinha” que Alexandre O’Neill recomendava que não se contasse, como em certa altura Saramago recorda. Agora porém o leitor desfruta um prazer novo, semelhante ao prazer de acompanhar as notícias nos matutinos que lhe chegam à porta, com a diferença fundamental de que esta emoção desconhecida prolonga ou repercute o sentimento euforizante que nasce das ficções que o escritor engendra com os materiais da sua imaginação.

Sem forçar a nota, pode-se dizer que o fascínio dos Cadernos, ou uma das suas fontes mais abundantes, vem precisamente de o autor viver (também) com a imaginação os lances do seu dia-a-dia, pois não os pode viver doutro jeito. A idéia de que entre a pessoa civil e o escritor, seja ele quem for, há uma um abismo, não corresponde aqui à verdade dos fatos. Supor que Saramago é romancista apenas quando se põe ao computador para narrar o ano da morte de Ricardo Reis, significa acreditar que nesse momento fica em suspenso a pessoa que ele é. O próprio autor não o diz quando pondera que “um diário não passa de um modo incipiente de fazer ficção. Talvez pudesse chegar mesmo a ser um romance se a função da sua única personagem não fosse a de encobrir a pessoa do autor, servir-lhe de disfarce, de parapeito”?

Nesta mesma passagem, no entanto, diz que “um diário não é um confessionário”, o que está certo no seu caso, em que os Cadernos são polivalentes e não raro dão voz a outros convivas do seu mundo de relações. E em que, por isso, diferem do diário dum Amiel ou do Livro do Desassossego, centrados egolatricamente na figura do autor/narrador, a ponto de criar atmosferas líricas, por vezes destacáveis como poemas em prosa, a exemplo de “Na Floresta do Alheamento”, do livro-caixa de Bernardo Soares. O diário de Saramago estaria, verdadeiramente, mais próximo da dramaturgia.

De qualquer modo, aqui se levanta uma vez mais a questão essencial do diário como obra de um narrador voltado para as suas peripécias cotidianas – o narcisismo –, de que o autor vinha sendo acusado. Espelho de Narciso, os Cadernos? Por certo, as mais das vezes. Somente porém os diários o serão? Não espelhará qualquer obra literária pendor narcisista? Além disso, há uma diferença entre o diário aparentemente aberto, em razão de a folhagem metafórica recobrir os acontecimentos e as reflexões, e o diário francamente aberto, porque se trata de um narciso que se desnuda aos leitores, para melhor se conhecer ao dar-se a conhecer sem máscara. Nesta alternativa se situa Saramago, tanto mais que revela cristalina lucidez ao responder a um repórter que “toda a escrita é narcísica” e que “a escrita de um diário, sejam quais forem as suas características aparentes, é narcísica por excelência”.

Contudo, uma coisa é uma escrita narcísica em que o autor se inventa, ou inventa um “eu” com as excelências (ou as deficiências) criadas por sua imaginação e sua exacerbada sensibilidade. Outra, muito diversa, é a escrita narcísica de quem se pretende “dizer quem é” ainda que levado pela força imaginativa que convoca para a tessitura das suas ficções. De alguém que recebe uma carta de uma psicanalista argentina a dizer-lhe, com referência ao narcisismo comentado nas páginas do diário, que “há um narcisismo bom e um outro mau”, aquele “é o que nos cuida, o que faz que, quando temos febre, façamos repouso para curar-nos”, etc, e o outro “está ligado à soberba, à nudez dos sentimentos humanos, a não poder olhar a vida para além do umbigo e que em geral causa dano aos que o cercam”.

Para a missivista, o autor dos Cadernos, está, obviamente, entre os primeiros. Sem recorrer à dualidade maniqueísta, que evidencia quão espinhosa é a questão do narcisismo, podemos dizer que Saramago quer-se dar a conhecer, sem disfarces ou autocomplacência: volta e meia lembra os começos infantis na Azinhaga e a luta incansável até chegar a Lanzarote, com um realismo que não cede senão a um confesso orgulho de ter vindo de baixo sem fazer concessões, sem perder as raízes e, mais ainda, tornando-as a razão de ser da sua vida, bem como da sua obra literária e da sua militância política.

Aí se localiza provavelmente a fonte de onde provém tudo, ou quase tudo, para Saramago: a infância na Azinhaga. Como se guiado pelo aforismo nosso conhecido – “O menino é pai do homem” – reconhece que “a Azinhaga me deu o que Lisboa não me poderia ter dado: aqueles campos, aqueles olivais, a lezíria, o rio Almonda (o Almonda daquele tempo, não o de hoje, que é uma cloaca), o Tejo e as marachas, os porcos que o meu avô Jerônimo guardava, os passeios de barco, as manhãs à pesca, os banhos”. Nascido e criado nesse ambiente, o escritor ficaria para sempre preso à natureza e aos objetos à sua volta, como bem atestam as notas acerca do seu pequeno mundo doméstico e da deslumbrante paisagem vulcânica de Lanzarote: “Como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas? Esta pergunta, que ainda hoje não me parece absurda, fi-la eu muitas vezes em criança, mas só a mim próprio me atrevia a fazê-la, não a pais e professores”. Em síntese: “Sábio da minha experiência (...), instruído na mágica arte de olhar o que as coisas escondem”. Aí se diria o fundamento mais remoto e mais sólido do mundo ficcional de Saramago, a chave que pode abrir o segredo da sua interpretação. E a “paixão pela leitura”, cedo despontada e mantida ao longo dos anos, faria o resto.

Nem falta, nessa reconstituição proustiana de olhos abertos de um passado ainda presente na memória e na consciência como constitutivo do ser do escritor, uma espécie de “rosebud”, mas sem o travo de melancolia ou de tragédia que exalava na vida frustre do cidadão Kane. Ouçamos o narrador: “Tenho, desde há muitos e muitos anos, um pesa-papéis de vidro com efeitos coloridos no interior. Não tem qualquer anúncio. Se a menina daquele tempo deu um pesa-papéis de vidro a um senhor que ia a sua casa para classificar e arrumar livros, então o pesa-papéis é esse, e nós dois somos quem éramos.” Se ninguém se desgarra do passado (ainda que, ou porque, esteja submerso nas vagas do inconsciente), menos ainda o exilado de Lanzarote que passa os dias absorto na metamorfose alquímica das suas visões em tramas imaginárias: não só se sente preso às coisas e circunstâncias, que guarda ciosamente ao redor de se e nos confins da memória, como também as cultiva como amarras para continuar a presenciar o espetáculo da vida e nele intervir com o seu testemunho, com a sua voz, a fim de tornar mais justo e mais agradável a todos, independentemente da religião, credo político ou cor.

Num estilo que preserva, ou mesmo intensifica, a oralidade dos romances, graças à instantaneidade requerida pela anotação dos eventos cotidianos, os Cadernos reúnem condições para atrair, e ampliar, o círculo de leitores de Saramago. Ainda mais agora, que o prêmio Nobel, coroando uma longa trajetória de êxitos editoriais, veio derramar luz mais intensa sobre os escritos que lhe saem das mãos. Se os Cadernos publicados pertencem à fase anterior ao grande galardão e já têm exercido considerável fascínio sobre o leitor, que se dirá dos que vierem a seguir? À ansiedade de Saramago para aproveitar o tempo que lhe parece cada vez mais escasso corresponde a do leitor, que deve estar aguardando impaciente o momento de compulsar as reações desencadeadas por um raro acontecimento quanto é este de um escritor da Língua Portuguesa merecer, pela primeira vez, tão cobiçado e honroso prêmio."

Massaud Moisés é professor-titular da USP, autor, entre outros livros, de A Literatura Portuguesa e História da Literatura Brasileira e da seleção, introdução e notas de Contos de Machado de Assis

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Fortuna crítica: Luciana Stegagno Picchio, escreve "Saramago: Momento por todos esperado" (05/12/1998)



Informação biográfica em http://pt.wikipedia.org/wiki/Luciana_Stegagno_Picchio
"Luciana Stegagno Picchio (Alessandria, Piemonte, 26 de abril de 1920 — 28 de agosto de 2008) foi uma filóloga, historiadora da cultura, crítica literária, especialista em literatura medieval portuguesa, história do teatro português e literatura brasileira.
Faleceu aos 88 anos e foi autora de mais de 500 publicações dedicadas às literaturas e culturas de língua portuguesa, o que lhe valeu o título de mais importante luso-brasileirista da Europa."

em Fortuna crítica: Luciana Stegagno Picchio
Pode ser consultado e lido 
em http://www.jornaldepoesia.jor.br/1lstegagno.html

"Saramago: Momento por todos esperado"

Ainda que este universo lusófono contasse com grandes tradições literárias tanto em Portugal como no Brasil e com uma nova impetuosa tradição de escritores africanos de expressão portuguesa. Esperávamos este momento há tempo. Esperamos que acontecesse para o velho rapsodo Jorge Amado e para poetas de elite como João Cabral de Melo Neto. Mas sobretudo para um escritor como ele, José Saramago, no qual há vários anos vivíamos o candidato mais legítimo, mais prestigioso, mais nosso: e pelo qual sofríamos esperando a cada outubro, como quem aguarda com angústia confiante a chegada de sua bagagem na esteira rolante do aeroporto, sem que ela nunca desponte.
A decepção agridoce, para nós italianos, do ano passado, quando Dario Fo ganhara na linha de chegada logo de José Saramago, nos deixara uma grande margem de esperança. A história do Nobel nos ensinou pelo menos, como já na época do prêmio para Octavio Paz, a jogar com as probabilidades. Apesar de seu corpo ágil e longilíneo de adolescente e o sorriso de quem, aos 76 anos, pensa em um futuro operoso e sereno do lado de Pilar, a jovem mulher espanhola que o acompanhará a Estocolmo, mostrando para o mundo como pode ser bonito um casal de intelectuais, Saramago em sua longa vida teve, como todos, facilidades e decepções. Sobretudo de seu país.
Comunista militante, nunca faccioso, sempre crítico, nunca trânsfuga, tivera que esperar o fim do salazarismo e a Revolução dos Cravos do abril de 1974 para poder despontar com pleno direito na cena literária portuguesa e internacional. E fora logo um sucesso, como de quem, na sombra da espera, tivesse afiado seus instrumentos. Viera antes a poesia, com os Poemas possíveis (1966) e Provavelmente alegria (1971), que, na distância de ano, revelam hoje toda sua carga humana e profética: “Só direi,/Crispadamente
recolhido e mudo,/que quem se cala quanto me calei,/não poderá morrer sem dizer tudo”. Depois apareceram as primeiras coletâneas de crônicas: Deste mundo e do outro (1971), A bagagem do viajante (1974), como provas de redação que contivessem já em seu casulo todos os motivos da narrativa futura. Em seguida o teatro (começando com A Noite, 1979), que hoje nos parece obra de um autor “outro”, tanto discursivo, referencial e polêmico quanto a prosa de invenção é misteriosa, alusiva, poética. A motivação do Nobel fala de um Saramago “que com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade
fugidia”. E talvez este seja o melhor rótulo para uma obra que, apesar de minuciosamente ambientada numa época e numa ideologia (a Lisboa inquisitorial do começo do século XVIII, a Lisboa das origens, ainda dividida entre mouros e cristãos, os anos do franquismo e de seu contágio ao Portugal salazarista, a Palestina de uma Vida de Jesus ao lado do Homem), nunca aparece como mera revisitação do fato histórico, mas sua parábola, pretexto para a interpretação de um hoje que filtra o passado com o alheamento comovido e irônico do depois.
O novo Saramago, um intelectual já amadurecido que vive desde sempre em Lisboa, mas que fora do círculo dos amigos de trabalho e de café poucos conheciam, irrompe de repente na cena literária portuguesa em 1980, com um romance singular que o coloca de imediato no primeiro plano entre os narradores nacionais. E é aquele Levantado do chão, no qual pela primeira vez aparecia, numa saga camponesa de sabor ao primeiro olhar ainda realista, a sua organizadíssima cifra estilística. O “discurso oral” de Saramago, aquelas suas páginas lotadas de signos, sem maiúsculas e pontuação, era de fato capaz de reproduzir poeticamente, em som antes até do que em letras, uma história nacional e individual; as vicissitudes de três gerações de camponeses do Alentejo, as quais, através da luta de classe, levantando-se do chão, verticalizando-se no seu reconhecer-se enquanto homens, assurgiam como protagonistas de uma história que até aquele momento fora apanágio de seus patrões. A fama internacional virá logo em seguida, em 1984, com aquele Memorial do Convento, que permanece ainda hoje como sua obra mais famosa e da qual ele sairá para uma viagem de escrita, para uma aventura
narrativa que no-lo restituirá escritor sem mais limitações regionais: um dos mais significativos narradores do nosso tempo.
O Memorial conta a construção, nas primeiras décadas do século XVIII, do Mosteiro e da Igreja de Mafra, erigidos com extraordinária magnificência nos arredores de Lisboa, por vontade do soberano absoluto D. João V. Romance histórico na minuciosa descrição da sociedade portuguesa, cortesã e popular, do começo do século, na suntuosidade barbaresca dos autos da fé promovidos por uma inquisição ainda imperante, torna-se romance social na evocação daquelas multidões de operários, carregadores braçais, canteiros,
que foram os construtores materiais do templo. Mas torna-se romance de realismo fantástico na invenção dos personagens, primeiro entre todos aqueles de Blimunda, filha de marrana dos olhos claros e do belo nome germânico que não por acaso um músico como Azio Corghi depois escolheu como protagonista de sua recriação musical do romance.
Deste momento em diante, a inspiração de Saramago torna-se urgente. O ano da morte de Ricardo Reis (1984), que ambienta em uma Lisboa atingida pela vizinha guerra da Espanha a permanência na cidade de um heteronômio de Fernando Pessoa, sobrevivido por um ano à morte do poeta, talvez seja a mais poética, comovida homenagem à memória de quem hoje é considerado o maior poeta moderno português.
Assim como A jangada de pedra (1987) representa a saborosa e polêmica profissão de fé antieuropeísta do português Saramago, a História do cerco de Lisboa (1989) é uma sua jubilosa “correção” da história no nome da liberdade da interpretação. Mas o Saramago mais próximo de nós e para nós mais universal é sem dúvida o último. Aquele que, com o sofrido e humaníssimo Evangelho Segundo Jesus (1991), agüentou a incompreensão na pátria, escolhendo desde então o caminho do exílio em Lanzarote, nas Canárias. E mesmo aquele do qual, após o voluntário afastamento de Portugal e de sua “realidade sonora”, com a conseqüente imersão num universo da
língua espanhola, todos tínhamos temido uma redução da sua sensibilidade “auditiva”: indispensável, nos parecia, para a criação daquela “literatura oral” da qual até aquele momento se substanciava a sua criação poética. Mas Saramago enxergou mais longe do que nós. E com as projeções brancas do seu romance Ensaio sobre a cegueira (1995) antes, e depois com o “burocrático” Todos os nomes (1997), soube imergir-nos em rarefeitas atmosferas de pesadelo e sonho.
Se a praxe acadêmica nos sugere por enquanto de defini-las kafkianas, no futuro talvez estas atmosferas sejam diretamente ligadas a ele, à sua fantasia, à sua humanidade, à sua capacidade de “ver” do que naturalmente de “ouvir”, naquela sua peculiaríssima recriação auditiva da realidade circunstante. Saramago gosta da Itália, onde tem muitos amigos, onde suas obras foram traduzidas até antes do que em outros países, onde recebeu os primeiros doutoramentos ad honorem e os primeiros prêmios literários. E para nós este prêmio longamente anunciado e finalmente concedido é como um Nobel para um escritor nosso. Traduzido do italiano para esta edição por Silvia La Regina, professora e ensaísta, este artigo foi publicado no jornal italiano La Repubblica e posteriormente, numa outra tradução, no Jornal de Letras de Lisboa.

[Nota de A Tarde: Luciana Stegagno Picchio, a mais importante luso-brasileira da Europa, autora, entre inúmeros outros estudos, de Histórias da Literatura Brasileira (Rio, Nova Aguilar, 1997), escreveu este artigo no dia em que foi anunciado o Prêmio Nobel para José Saramago, amigo de muitos anos]

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Texto de Gerana Damulakis - "Saramago, sempre Saramago" (1997)

(Fotografia de José Saramago aclamado de pé, pelos seus leitores)


Texto de Gerana Damulakis
Pode ser encontrado e consultado, aqui
em http://www.jornaldepoesia.jor.br/1gerana3c.html

"Saramago, sempre Saramago"

"Quem já leu os romances de José Saramago está acostumado com a alta qualidade literária de livros como Memorial do convento, O evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a cegueira; daí que esse leitor pode pegar as crônicas do mesmo autor, pensando, claro!, em encontrar textos de muito boa qualidade também, mas sendo crônicas, pode ser que espere desde logo aquele “desleixo” — digamos assim — inerente à pressa com que se escreve o gênero dito menor da literatura. Ledo engano, vã espera. Saramago é sempre Saramago, seja qual o gênero que escreva. Não se lhe nota queda de qualidade, não se lhe aponta um texto aquém dele mesmo.
Mestre no relato de curto fôlego, José Saramago expressa-se com concisão nas suas crônicas, mantendo, durante todo o tempo da leitura, o interesse, como se estivesse conversando com os leitores de jornais. A crônica é uma prosa, nos dois sentidos; no sentido de gênero e no sentido de quem conversa —e aqui estamos diante, então, daquela faceta da crônica que fez o nosso Adroaldo Ribeiro Costa, cronista por 25 anos diariamente no jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, intitular sua reunião de crônicas como Conversa de Esquina.
A ironia, um dos tropos da retórica, vê-se presente, como de resto em todo aficionado do gênero, para olhar o mundo de forma a redimir todos os leitores. Afinal, “crônicas, que são? Pretextos ou testemunhas?”, pergunta-nos Saramago. A resposta pode ser o que cada um espera que seja: o lugar onde o escritor pode falar por nós, quando usa um timbre que reivindica; o espaço da perplexidade ou da constatação; o momento de reflexão filosófica ao alcance de todos ou, enfim, um exemplo de uma tomada poética tirado agora, oportunamente, da coletânea de textos publicados no diário A Capital (1969) e no semanário Jornal do Fundão (1971-72), intitulado A Bagagem do Viajante ( Companhia das Letras, São Paulo,1996, 205 pp.):
Por causa de tudo isto me veio uma grande vontade de chorar. Ninguém me via, e eu via o mundo todo. Foi então que jurei a mim mesmo não morrer nunca.
Portanto, parece ser simples preconceito o rótulo de gênero menor; o que há é o escritor menor ou o escritor maior diante de determinados gêneros. Assim, o que coloco aqui é a capacidade de Saramago frente à crônica, sem queda, repito, da qualidade literária que lhe é freqüente no romance.
Outro ponto a considerar diz respeito a nacionalidade desse texto que nós — incluo-me no que hoje vejo como um julgamento apressado — estamos acostumados a rotular como “um gênero brasileiro”, quando mais não fosse, “carioca”, o que é mais localista ainda. Cabe refletir: mas se se acha a crônica nos jornais do mundo inteiro, se existem esses espaços para que os jornalistas desenvolvam um texto parecido com a nossa crônica, como considerá-la apenas nossa? O que difere o texto jornalístico das colunas de opinião dos periódicos mundo afora em relação aos nossos textos, talvez seja o humor sempre presente na crônica brasileira; e é com este argumento que vem a aquisição da crônica para a cultura nacional.
Em outros países, essas pessoas que ocupam esse tipo de espaço no jornal são chamados de colunistas, o que, entre nós, não tem o mesmo sentido de cronista. Inserindo a tomada de posição acima na avaliação dos textos de Saramago, motivo do enfoque, constatamos que o escritor português faz crônica no estilo brasileiro. Por outra, não poderíamos olhar a questão sem xenofobia, e avaliar com mais profundidade a colocação e concluir que, independente da nacionalidade, a crônica adquire esse jeito de ser quando escrita por pessoas que a ela se moldam com facilidade, tal como se para escrevê-la tivessem determinado quociente de sensibilidade?
Com o jeito de ser da crônica, José Saramago registra a vida contemporânea, olhando o mundo ao redor para fazer uma primeira leitura, e, deitando no papel o texto para a segunda leitura do mundo. A observação atual pode levá-lo à uma lembrança de infância, ao estarrecimento ou à notificação apenas de um ocorrido que , se agora é irrelevante, depois pode ter importância dentro da recriação de uma época.
E, a propósito de um outro ponto levantado aqui, sobre a crônica ser uma conversa, sabe-se que conversar é uma arte, haja vista Sherazade. Imagine, então, quando tudo é um monólogo, quando a resposta pertence a um interlocutor que você não escuta, não vê, não conhece. Manter a conversa dentro dessas condições é como falar sozinho, contudo, espera-se que ocorra o eco. E isso se dá, seja nos comentários da turma reunida, seja através de uma manifestação do leitor explícita em carta ou, quando possível, por telefone, ou, quem sabe, ao encontrar o cronista na esquina. Afinal, estamos mesmo tratando de uma “conversa de esquina”.
Analisando esse gênero, para o qual ando me debruçando com especial interesse, notei que não escapa aos cronistas em geral o tom de confissão. Por tal veio, intitulei um capítulo de um pretenso livro da seguinte maneira: Hoje estou triste! Saramago não foge à regra, e, na crônica “Natalmente crónica”, acaba confessando-se:
Acontece porém que tenho fortes razões para não estar de bons humores, o que me permite esquivar-me desta vez, se alguma outra caí em tão ingénua fraqueza, ao jogo cúmplice do amplexo universal... Mas o leitor também lá tem a sua vida, quem sabe se dura e difícil, e não há-de aceitar que eu lhe agrave as amarguras. Desculpe o desabafo.
Constate-se o “desabafo”, a confissão e a inclusão, com segurança, deste cronista no rol dos que lá um dia resolvem “repartir” suas “amarguras” com o leitor. E é aí que acontece a cumplicidade, terminando por viciar, porque criamos o hábito de ler “o que diz hoje” o nosso amigo: a pessoa abre o jornal e vai direto procurar aquele canto onde sabe que encontra outro ritmo verbal, outro ritmo de pensamento diferentemente do restante do jornal.
No século que consagrou a crônica, o ganho foi da literatura, enriquecida com o texto mais verdadeiro: o texto que traz o “eu” que fala por todos. Sim, porque a crônica tem um “eu” muito rico, pois se poético quiser sê-lo, pode; se meramente narrativo de um caso esdrúxulo, idem; enfim, se ali se coloca, diz por todo um grupo de opinião; ademais de tudo isto, o “eu” do cronista está livre das amarras que a qualquer outro gênero são impostas em nome da arte. Reunindo todos esses “eus” no seu “eu” de cronista, José Saramago desfila pelo gênero com beleza e poeticidade, com mão firme do prosador que é e com o tom de grande conversador que a crônica requer.
Ampla como gênero, na hora de passar do jornal para o livro, são as características literárias de cada texto que contam pontos para a escolha da seleção. Independente das circunstâncias em que foram escritas, as crônicas ficam submetidas a um crivo, onde não importa a carga brilhante de humor e ironia frente às colocações do autor porque o que ressalta é o aspecto literário.
No total, o cronista português, motivo desse texto, transforma os fatos e os sentimentos do cotidiano em situações e sensações que merecem “não morrer” com o jornal do dia, entrando, assim, para fazer parte do que é perenal, ou, por outra, fazendo literatura."

[Nota do JP: Este ensaio foi escrito 1 anos antes do Nobel!]