Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
Mostrar mensagens com a etiqueta ano da morte de ricardo reis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ano da morte de ricardo reis. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 20 de julho de 2018

"Falando de... O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago" - Publicado no "Jornal do Nordeste"

Crónica de João Cabrita, publicada no "Jornal do Nordeste" e que pode ser recuperada aqui 
em http://www.jornalnordeste.com/opiniao/falando-de-o-ano-da-morte-de-ricardo-reis-de-jose-saramago

Link para a página da publicação aqui http://www.jornalnordeste.com/

"Falando de... O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago"



"Os tempos eram outros. Nos anos trinta aprendia-se Literatura Portuguesa no ensino industrial. São palavras de Saramago nos Cadernos de Lanzarote – Diário III. Frequentador da biblioteca da escola Afonso Domingues, em Xabregas pelos seus 16, 17 anos tomou contacto com Ricardo Reis. Vale a pena recordar o que em 11 de Janeiro de 1995 afirmou a propósito das suas incursões pela Biblioteca. Encontrara a revista Athena dentro de um livro encadernado. Aí viu pela primeira vez as Odes de Ricardo Reis. Acreditara que existia ou existiria um poeta que se chama Ricardo Reis, que ao mesmo o fascinara e assustara, mas foi no princípio dos anos 40 que uns quantos versos de Ricardo Reis se lhe impuseram, como uma divisa, um ponto de honra, uma regra imperativa que iria ser seu dever, para cumprir e acatar.
Mas se Ricardo Reis é a segunda metade de um sintagma que funciona como título, o ano da morte é a outra escolha de Saramago. Questionamo-nos: porquê o ano da morte e não o ano do nascimento? É conhecida a afirmação proferida por Saramago que os seus livros têm uma marca política e ideológica bastante forte. Em entrevista concedida a Carlos Reis em 25 de Janeiro de 1997, publicada pela Caminho em 1998, sob o título Diálogos com Saramago, afirma o escritor: “Onde é que a literatura viveria, se pudesse viver fora da ideologia ou à margem dela? A Literatura pode viver até de uma forma conflituosa com a ideologia […] O que não pode é viver fora da ideologia”. 
Se é certo que a ideologia está ligada à Literatura, só depois do 25 de Abril é possível conceber um texto como O Ano da Morte de Ricardo Reis, onde a ironia e a crítica se apresentam lado a lado para retratarem a governação de Salazar, e daí importa citar Saramago na entrevista a Baptista-Bastos publicada pela parceria Sociedade Portuguesa de Autores-Publicações Dom Quixote, em 1996, com o título José Saramago, Aproximação a Um Retrato, “Creio que nada ou quase nada daquilo que fiz, depois do 25 de Abril, podia ter sido feito antes”.
Levam-nos estes considerandos sustentados pela ideologia, pelo 25 de Abril e pela política, a uma afirmação que nos parece pertinente “1936, ano considerado como o da morte de Ricardo Reis, é o ano que reúne todos os ingredientes, configurando um painel de regras tendentes a cercear a liberdade; é o ano da consagração do salazarismo na sua plenitude, ano da afirmação de todas as transgressões, daí encontrarmos nesse tempo histórico, paratexto e pretexto, os elementos que enformam O Ano da Morte de Ricardo Reis, andaimes, alicerces e infra-estruturas que puseram de pé esta estrutura narrativa que se enfileira na obra saramaguiana.
Saramago é um homem empenhado politicamente. É um denunciador de causas políticas. Não lhe são indiferentes os problemas sociais. Quem escreve Levantado do Chão, em 1980 e Memorial do Convento, em 1982, tornando públicas questões laborais caídas no olvido, naturalmente que não vai optar de forma ingénua pelo Ano da Morte de Ricardo Reis. Era a ditadura salazarista em plena formação a dar os primeiros passos. Da escrita do texto, aproveitámos e vimos “vivo” um Ricardo Reis ficcionado como se fosse um de nós e lembrámo-nos que a PVDE/PIDE também existiu.
É o título um elemento premonitório de um texto que se abre à nossa frente e nos quer introduzir na vivência heteronímica de Fernando Pessoa. Ricardo Reis é um elemento de ficção legitimado e dado ao mundo por Fernando Pessoa em carta escrita a Adolfo Casais Monteiro, em 13 de Janeiro de 1935.
Viveu dentro de Saramago muitos anos. Sabemo-lo “nascido” em 1887, médico de profissão, residente no Brasil desde 1919, poeta, criador de Odes.
Saramago, empenhado no processo político, leitor de todos os quadrantes e observador tenaz, está atento ao que se passa em seu redor. Romancista do jornalismo herdado, conhecido em tempos de estro serôdio, dá à luz os seus romances mais conhecidos por volta dos anos oitenta, depois de ter passado pela poesia e pelas crónicas políticas publicadas antes do 25 de Abril, quando a censura campeava. Em plena ditadura, Saramago vai-se furtando aos olhares inquisitoriais, em artigos de opinião, em prosa, crónica e contos, mostrando a sua verve de homem político, o mesmo se passando na poesia, onde o seu mérito, contudo, não atingiu o esplendor do romance.
Escritor da inquietação, da insatisfação e da rebeldia, faz de Portugal o seu objecto de cultura, conferindo-lhe uma dimensão ética e épica, através de uma “arqueologia” onde são postos a nu acontecimentos que, produzindo o presente, exorcizam o passado, tornando o tempo coevo, conforme afirma, “Só o tempo passado é que é tempo reconhecível – o tempo que vem, porque vai, não se detém, não fica presente […] Desse tempo que assim se vai acumulando é que somos o presente infalível, não de um inapreensível presente”.
Sabemos que uma das justificações encontradas por Saramago para a escrita de O Ano da Morte de Ricardo Reis foi o “desafio” imposto pelo verso “Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo”, escrito por Ricardo Reis em 19 de Junho de 1914. 
Não sendo Saramago um homem acomodado, as suas leituras nas várias bibliotecas que frequenta em Lisboa, não fazem dele um ser instalado e passivo. Sábio seria, antes, para quem o mundo é motivação, convocação, correcção de assimetrias através da assunção de compromissas resultantes de uma tomada de consciência despertada por um espírito crítico que lhe advém da correlação entre o conquistar-se e o conquistar o mundo segundo paradigmas que vão sendo instaurados pela palavra que não é exclusivamente pensamento.
Com frequência o romance convive com o espaço e o tempo, e é nesta convivência que se move O Ano da Morte de Ricardo Reis. Sabemos que a acção central se desenrola em Lisboa, uma vez Ricardo Reis aí desembarcado. Desembarca no cais de Alcântara. Viajou no Highland Brigade, vapor inglês da Mala Real. Recebera um telegrama de Álvaro de Campos anunciando a morte de Fernando Pessoa, sentira que era um dever regressar. Não sabe se fica para sempre em Portugal ou se regressa ao Brasil. 
Ficou instalado no Hotel Bragança, no segundo andar de onde pode ver o rio, no quarto 201, que tinha ficado livre naquela manhã. Ficou entre nós e deambulou pela cidade. Lisboa é porta aberta para os que de Espanha procuram paz e sossego “por isso os Estoris albergam o que em linguagem de crónica mundana se diz ser uma selecta colónia espanhola, afinal pode bem acontecer que lá estejam, em veraneio, aqueles e outros duques e condes”. Para benefício destes, o Rádio Clube Português passou a ter uma locutora espanhola que lê as notícias dos avanços nacionalistas na língua de Cervantes. 
Saramago pensou preencher o espaço deixado em aberto por Fernando Pessoa, como se fosse preciso dar vida a Ricardo Reis que permanece na capital até Agosto de 1936. Como se estivesse a fazer a exumação de um passado mal conhecido que era obrigatório desvendar e denunciar com vista a esclarecer o presente para que se entenda o passado, numa ótica de efemeridade e de transitoriedade, porque salvando-o através da reescrita, há uma hipótese de correcção, com vista a criar homens e mulheres mais capazes, como se o mundo pudesse vir a ser melhor, através da adição de pessoas mais sólidas.
Sendo um texto, um movimento de reorganização que produz destruindo a partir de um extra-texto, ou que de outra forma tende a arrumar o caos e que, neste caso, sendo o social, é também a vida de Ricardo Reis que se vai transformando. Para a sua construção, serviu-se José Saramago de jornais da época, como por exemplo, O Século, investigado durante dois meses, na Biblioteca Nacional. Oito meses ocuparam o autor para a feitura da sua obra. 
Neste painel de espaços e personagens imaginado a partir de um outro já existente, rebuscado no verdadeiro ou imaginado, com vista a criar o verosímil ou inverosímil, onde o autor e o leitor dialogam, numa troca de significantes e significados, com vista a dinamizar uma acção em que o facto do contacto assume foros de autenticidade. Uma retrospectiva de Portugal, um postal ilustrado de Lisboa com as cores da simpatia e da vivência dos bairros menos afortunados por onde Saramago viveu, “Aqui não é sequer a Lisboa toda, muito menos o país, sabemos nós lá o que se passa no país, Aqui é só estas trinta ruas entre o Cais do Sodré e S. Pedro de Alcântara, entre o Rossio e o Calhariz, como uma cidade interior cercada de muros invisíveis que a protegem de um invisível sítio, vivendo conjuntos os sitiados e os sitiantes”.
Lisboa é o macro-espaço onde tudo se passa, para além de Fátima aonde se deslocou, numa tentativa para encontrar Marcenda:

"Ricardo Reis partiu para Fátima. O comboio saía do Rossio 
às cinco horas e cinquenta e cinco minutos, e meia hora antes 
de a composição entrar na linha já o cais estava apinhado de gente."

Ricardo Reis está aqui no livro. Dinâmico, parece que vivo, dialogante, médico ainda, de trabalho precário, quarenta e oito anos, natural do Porto, solteiro,” última residência, Rio de Janeiro, Brasil, donde procede, a recordar-nos tempos de Polícia política, de agentes a cheirar a cebola, provocando um sorriso irónico ao leitor que ainda se lembra da ditadura e da matança de Badajoz. Como se fosse um de nós, autónomo e senhor de si”, “é aqui que irá viver não sabe por quantos dias, talvez venha a alugar casa e instalar consultório, talvez regresse ao Brasil”. Veio para falar com Fernando Pessoa. O cemitério dos Prazeres é já ali, não muito longe do Hotel Bragança. Lá no jazigo 4371 está Fernando Pessoa. Sai de quando em vez e dialoga com Ricardo Reis. Rua do Alecrim, Chiado, Rua Garrett, Rossio, Calçada da Estrela, Largo de São Roque, Príncipe Real e Estátua de Eça de Queirós são referentes que nos remetem para a realidade, dissipando a ficção. 
Dezanove capítulos, não numerados, de 415 páginas, de vida de Ricardo Reis, médico de profissão, de guerra, de Hitler, de Salazar, de silêncio, de medo, de presos políticos, de palavras interditas, de manifestações de apoio contra o comunismo.

"Sem dúvida os sindicatos nacionais repelem com energia o comunismo, 
sem dúvida os trabalhadores nacionais(…) os sindicatos nacionais pedem a Salazar, 
em suma grandes remédios para grandes males, os sindicatos nacionais reconhecem(…)
a iniciativa privada e a apropriação individual dos bens, dentro dos limites da justiça social."

Há, também, os nomes que se recordam e cujas raízes ainda perduram: Luís Pinto Coelho, Fernando Homem Cristo, António Castro Fernandes, Ricardo Durão, Nobre Guedes, Jorge Botelho Moniz, de bancários de fita azul com a Cruz de Cristo no braço e as iniciais SNB.
Como se fosse um repórter, alguém que sentimos presente, o narrador vai-nos dando conta do quotidiano, sem esquecer a localização espacial, “Aqui o mar acaba e a terra principia”, pintando-a em tons de meteorologia. Há o rio e a água em abundância. Chove muito. E há Camões, Os Lusíadas, onde todos nós vamos dar.

"Todos os caminhos portugueses vão dar a Camões, de cada vez
 mudado consoante os olhos que o vêem, em vida sua braços às armas feito e 
mente às musas dado, agora de espada na bainha, cerrado o livro, os olhos cegos, ambos,
tanto lhos ficam os pombos como os olhares indiferentes de quem  passa."

Narrador omnisciente, que tudo sabe, com prerrogativas ilimitadas, sabendo o que está a acontecer, informa o que se passou, ao mesmo tempo que transmite uma visão do futuro, “Quando amanhã cedo o Highland  Brigade sair a barra, que ao menos haja um pouco de sol e de céu descoberto”. 
Não participando na acção, o narrador está em condições privilegiadas para observar e contar. Digamos que se trata, segundo Genette, de um narrador heterodiegético, com uma capacidade de contar que não é posta em causa, dada a autoridade que lhe advém do seu saber, embora não seja alheio a cenários ideológicos que se vão manifestando através das suas impressões, fruto da sua subjetividade.
Se é verdade que Ricardo Reis é transportado para a vida, suscitado pelas Odes descobertas na revista Athena, outras são as personagens revividas no Ano da Morte de Ricardo Reis. O hotel Bragança é o local de todos os encontros. Espanhóis que em Portugal procuram a paz e a serenidade que a guerra do seu país não proporciona. Marcenda, nome gerúndio, filha do Dr. Sampaio, notário de Coimbra, que é maneta, “irmã” física de Baltazar, do Memorial do Convento. Conheceram-se de soslaio na sala de jantar do hotel Bragança, “foi ela quem daí a pouco olhou, por cima da manga do criado que a servia, no rosto pálido perpassou uma brisa, um levíssimo rubor que era apenas sinal de reencontro”. Através do olhar mantêm uma relação que as regras da época não permitem ir muito longe. Carteiam-se e são parcos em contactos físicos. Casamento que é pedido e recusado. Nunca seriam felizes. Marcenda não o esquece. Uma ida a Fátima e um encontro fracassado e de fracasso é também o seu primeiro encontro com Lídia, figura nuclear nas Odes de Ricardo Reis. Transportada para a obra de Saramago, Lídia é filha de pai incógnito, empregada de quartos de hotel e de casas a dias, subalterna de Ricardo Reis, de parto adiado, de olhos vermelhos e inchados, grávida de médico, irmã de Daniel, marinheiro do Afonso de Albuquerque, também ele vítima da ditadura salazarista.
Não tendo nenhum assunto a tratar em Lisboa, Ricardo Reis decide ir ao cemitério dos Prazeres visitar Fernando Pessoa que tinha morrido e que se encontra no jazigo quatro mil trezentos e setenta e um. Depois de desencontros, a vinda a Lisboa acaba por resultar. Ricardo Reis que se confessa monárquico, sem rei, tivera o seu primeiro encontro com o seu “criador” graças ao poder vivificador do demiúrgico narrador. O verosímil acabara com as fronteiras entre a vida e a morte. A partir daqui tudo é possível, mas só durante oito meses pode circular à vontade, tempo suficiente para o total olvido.
Passaram oito meses e onze encontros. A noite estava quente, naquele final do mês de Agosto. O prazo estipulado por Fernando Pessoa estava a terminar. Só podiam estar juntos oito meses. Era ali, em Lisboa, “onde o mar se acabou e a terra espera”.
E a leitura/escrita poderia continuar…
João Cabrita"

sexta-feira, 6 de abril de 2018

"O Ano da Morte de Ricardo Reis" apresentado pelo Teatro Municipal Baltazar Dias (Madeira - Março 2018) nas comemorações dos 130 anos

Crónica "O Ano da Morte de Ricardo Reis: mais um projecto inovador" de Carlos Gonçalves - Investigador Integrado no INET-md (FSCH/UNL) - publicada a 29/03/2018 no "JM Madeira" e que pode ser consultada e recuperada aqui

"Nos passados dias 9, 10 e 11 de março, os madeirenses tiveram a feliz oportunidade de assistir a um espectáculo de elevada qualidade artística - criativa e interpretativa -, ao qual foi dado o título de “o ano da morte de Ricardo Reis”, numa adaptação do original de José Saramago.
Este espectáculo que juntou cerca de 60 jovens artistas em palco, integrou-se nas comemorações dos 130 anos do Teatro Municipal Baltazar Dias. Tratou-se de uma organização da Secretaria Regional de Educação, através da Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM), com produção da Câmara Municipal do Funchal.
A mim, pessoalmente, não me surpreendeu a qualidade deste espectáculo performativo de música, dança e teatro, pois assisti a todas as grandes produções da DSEAM, ao longo dos últimos treze anos. Mas acredito que para alguns dos madeirenses que lotaram os três espetáculos, possa ter sido uma surpresa inusitada. Pegar num original do consagrado escritor madeirense José Saramago é, por si só, um grande risco, pois trata-se de retratar Fernando Pessoa, através do seu heterónimo Ricardo Reis. O espetáculo está dividido em dez cenas, todas elas passadas após a morte de Fernando Pessoa, numa adaptação de Carolina Caldeira, com direcção artística de Juliana Andrade, composição e direcção musical de Márcio Faria. A estes jovens docentes juntam-se Diana Pita, Roberto Moritz e Maurício Freitas. Sem dúvida uma equipa de “ouro” que a DSEAM conta para criar e dirigir espectáculos de qualidade. Uma verdadeira “Equipa de Criativos” que se mantêm na Madeira e não emigrou, como tantas outras.
Não posso deixar de destacar as competências da equipa de produção, coordenada por Ricardo Araújo, sob a direcção-geral de Virgílio Caldeira, bem como a equipa do Teatro Municipal, liderada por Sandra Nóbrega.
Sobre esta produção começo, naturalmente, pelo início de qualquer projecto criativo e inovador: Escolher a ideia! Depois a construção/adaptação de um texto/libreto; a criação da música original e respectiva orquestração; a criação das coreografias e finalmente a encenação com todas as suas facetas, incluindo a cenografia, desenho de luz, sonoplastia, etc… etc… Só quem nunca criou e montou um espectáculo desta natureza poderá ficar indiferente. Este foi mais um trabalho dedicado de vários meses de professores, alunos e técnicos que encarnam um papel de “profissionais”, no verdadeiro sentido da palavra. A mensagem ficou e a elevada qualidade artística e interpretativa também. Resta-nos questionar a oportunidade destas produções regionais poderem sair da Ilha e estar no todo nacional, representando o que de BOM aqui se produz e realiza. Para quando os apoios devidos a esta mobilidade, imprescindível para o reconhecimento dos artistas madeirenses? Será que as verbas da Santa Casa não poderiam servir, igualmente, para esta missão artístico-cultural?
Termino com um dos pensamentos de Fernando Pessoa “Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes – tudo isso passa. Só a Arte fica, por isso só a Arte se vê, porque dura”.

Mais informação pode ser consultada e recuperada aqui

Cartaz alusivo ao evento


"Com o espetáculo "O ano da morte de Ricardo Reis" terminamos de uma forma incrível as comemorações dos 130 anos. Durante 11 dias o Teatro realizou 11 eventos numa programação cultural de excelente qualidade em parceria com 9 entidades e que envolveu mais de 200 artistas e cerca de 3 mil espetadores. Muito obrigada a todos os que quiseram associar-se às estas comemorações."





"Registo fotográfico da estreia no palco do 
Baltazar dias do espectáculo "O Ano da Morte de Ricardo Reis"

sábado, 15 de julho de 2017

Barbara Jursic "As personagens femininas em O Ano da Morte de Ricardo Reis" (Revista Triplo V - Nova Série | 2011 | Número 14)

"As personagens femininas em O Ano da Morte de Ricardo Reis" de Barbara Jursic

"Revista Triplo V" de Artes, Religiões e Ciências
Nova Série | 2011 | Número 14
Pode ser consultada aqui
em http://triplov.com/novaserie.revista/numero_14/barbara_jursic/index.html


"O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago oferece imensas possibilidade de estudo porque muito rico no nível literário, da intertextualidade, da realidade social e política.

A história parece simples à primeira leitura. Fernando Pessoa morto aparece várias vezes a Ricardo Reis, vindo do Brasil, depois da sua chegada a Portugal. Sem sabermos quem era Ricardo Reis ou, melhor dito, que era (só) um produto da imaginação de Fernando Pessoa, uma personagem que vem pintada segundo a imagem de uma pessoa verdadeira, que realmente existiu, ele parece um homem normal e não apresenta dúvidas sobre a sua veracidade. Quando olharmos para o que está por detrás da história, os elementos dos quais Saramago se serviu para inventar ou reinventar à sua maneira as personagens, percebemos que é tudo muito mais complexo do que parece à primeira vista.

Fernando Pessoa, que realmente existiu, aparece no romance como um fantasma, um homem já morto que aparece a Ricardo Reis que, por sua vez, tenta ser ou tornar-se personagem verdadeira e não ficar só na qualidade de heterónimo de Fernando Pessoa. Os seus esforços são bastante vãos e, em vez de o levarem para uma vida nova, para uma existência só dele, para a individualidade, o protagonista acaba por seguir Fernando Pessoa ao cemitério dos Prazeres, finaliza o seu percurso na terra dos mortos, mortos fisicamente.

No romance há duas personagens femininas diametralmente opostas que são muito importantes na vida de Ricardo Reis e têm também um forte valor simbólico.

Marcenda anuncia a morte, a impossibilidade de agir de Ricardo Reis, mas é ao mesmo tempo uma personagem muito poética e excepcional, e a outra, Lídia, é a única personagem inteiramente verdadeira, ela é vida e não tem nada de fantástico, tem uma voz e um corpo e é o laço de Ricardo Reis com o mundo (real).

 
Marcenda – ilusão ou espelho de Ricardo Reis?

 
Marcenda, já pelo nome, como lemos no romance, “este nome de Marcenda não o usam mulheres, são palavras doutro mundo, doutro lugar, femininos mas de raça gerúndia”[1], parece um fantasma também, como se tentasse existir sem inteiramente conseguir. Esta personagem surge na vida de Ricardo Reis como uma aparição, com a sua mão paralítica que atrai a atenção, porém, apesar de morta, a mão parece a parte mais viva de todo o seu corpo. Marcenda parece ausente deste mundo, menos presente do que um fantasma.  

Essa musa etérea que poderia à primeira vista alinhar-se com as de Cloe, Neera e Lídia que o engenho pessoano criara, é uma espécie de traição romanesca tragicamente instaurada desde o nome.[2] 

O nome da protagonista anuncia que ela deve murchar, ela é marcenda, não é imarcescível. A protagonista é musa, mas não eterna e incorruptível, porque “marcenda é aquela que deve murchar, aquela a quem falta a eternidade e que está fadada a ser mortal”[3]. A personagem, durante a leitura, nem nos parece mortal, parece menos do que um fantasma, quase inexistente. Ricardo Reis, que é de certo modo um fantasma e, por isso, quase inexistente, envolve-se com ela emocionalmente, porque se sente atraído pela sua rarefacção, em tudo semelhante a ele.

Marcenda, estranho nome, nunca ouvido, parece um murmúrio, um eco, uma arcada de violoncelo, les sanglots longs de l’automne, os alabastros, os balaústres, esta poesia de sol-posto e doente irrita-o, as coisas de que um nome é capaz, Marcenda.[4]

O seu nome perturba Ricardo Reis como se de um velho segredo, um mistério, quase de um esconjuro se tratasse; como se fosse irreal, só um murmúrio, um eco, algo que toca levemente a nossa consciência e passa, que não é mais do que fruto da nossa imaginação ou sensibilidade excessiva, alguma coisa leve, mas ao mesmo tempo fria e petrificada, que passa, embora permaneça qual pequena memória que irrita. Marcenda irrita Ricardo Reis, porque estabelece com ele uma relação diferente de todas as suas anteriores. Às vezes, temos a sensação de que não se trata de um ser vivo, antes as vibrações de um nome, Marcenda.

Todavia, a personagem parecendo tão angelical, com a sua mão paralítica, anuncia a morte, a impossibilidade de agir de Ricardo Reis. Marcenda reforça o falhanço de Reis em se autonomizar. No horizonte deste romance onde pululam os fantasmas, esta mulher é mais um ou apenas uma sombra deles.

A somar a isto, Marcenda lembra também as musas antigas das Odes do heterónimo Ricardo Reis. Reis, personagem, tenta construir a sua história depois de voltar do Brasil como a jovem tenta construir a sua própria, mas tanto um como o outro não conseguem fazê-lo. A personagem não tem forças para agir, para fazer o que quer, é incapaz de resistir às imposições externas, como se pode verificar na seguinte citação: “Meu pai continua a dizer que devo ir a Fátima e eu vou, só para lhe dar gosto”[5]. Marcenda vem a Lisboa para agradar ao pai, que vai ver a amante sob o pretexto de levar a filha ao médico. “Obedece, não luta, cede, agrada, mente até, se necessário, não assume”[6]. Marcenda parece-se muito com Ricardo Reis, personagem, sobretudo na segunda parte da sua estadia em Portugal, quando já não luta mais e é incapaz de conquistar a sua identidade. Ela não está no tempo, como também Ricardo Reis não se encontra no tempo em que vive ou tenta viver independentemente de Fernando Pessoa, escapando ao heterónimo. Não está viva, porque nada lhe pertence, nem mesmo a mão inerte. Reis, ao deixar no fim da narrativa o chapéu que o caracteriza, expressa a sua desistência. “Você não trouxe chapéu, Melhor do que eu sabe que não se usa lá.”[7] Os dois estão presos no labirinto da sua própria incapacidade.  

Não é Ricardo Reis quem pensa estes pensamentos nem um daqueles inúmeros que dentro de si moram, é talvez o próprio pensamento que se vai pensando, ou apenas pensando, enquanto ele assiste, surpreendido, ao desenrolar de um fio que o leva por caminhos e corredores ignotos, ao fim dos quais está uma rapariga vestida de branco que nem pode segurar o ramo das flores, pois o braço direito dela estará no seu braço, quando do altar tornarem, caminhando sobre a passadeira solene, ao som da marcha nupcial.[8] 

Num tom bastante irónico o narrador expõe que Ricardo Reis não é capaz de controlar nem dirigir os seus próprios pensamentos, assim como Marcenda não consegue mexer a sua mão paralisada. Reis, sem querer, sente-se próximo desta personagem feminina menina, vê-se casado com ela, o que não é de estranhar, pois partilham a mesma incapacidade de se imporem ao mundo.  

Marcenda é a aventura do livro que foi sem ter sido, da musa nova que relembra a musa antiga e revela a sua própria falência, que é semelhante à falência do heterónimo no tempo novo de 1936. Se, para continuar a viver 1936 na Europa, o heterónimo teria que assumir-se personagem na História, também a musa nova de molde antigo não pode sobreviver, é marcenda, marcescível.[9] 

O destino deles é feito pelos outros, moldado pela incapacidade dos dois agirem, da sua fragilidade.  

Ricardo Reis fez uma pausa, parecia reflectir, depois, debruçando-se, estendeu as mãos para Marcenda, perguntou, Posso, ela inclinou-se também um pouco para a frente e, continuando a segurar a mão esquerda com a mão direita, colocou-a entre as mãos dele, como uma ave doente, asa quebrada, chumbo cravado no peito. Devagar, aplicando uma pressão suave mas firme, ele percorreu com os dedos toda a mão dela, até ao pulso, sentindo pela primeira vez na vida o que é abandono total, a ausência duma reacção voluntária ou instintiva, uma entrega sem defesa, pior ainda, um corpo estranho que não pertencesse a este mundo.[10]

    Marcenda é a mão inerte, a asa quebrada, o pássaro que não pode voar, a pessoa que não consegue viver. Será que não pertence a este mundo? O que provocou a paralisia foi, contudo, uma dor completamente humana, a perda da mãe, facto que simboliza a possibilidade de doença física causada por distúrbios emocionais. Ricardo Reis diz a Marcenda: “se está doente do coração, também está doente de si mesma”[11]. Ela não consegue livrar-se daquela dor e Ricardo Reis não consegue escapar à presença de Fernando Pessoa, realidades que os unem simbolicamente. Quando programam um encontro, o narrador anuncia-o com um dos seus famosos comentários.  

Uma donzela de Coimbra marca, em furtivo bilhete, encontro com o médico de meia-idade que veio do Brasil, talvez fugido, pelo menos suspeito, que quinta das lágrimas se estará preparando aqui.[12] 

Esta passagem lembra a conhecida narrativa histórica de Inês de Castro. O comentário saramaguiano é irónico e anuncia os eventos seguintes. Claro que a história não é tão cruel como a do século XIV, mas deixa perceber uma impossibilidade, uma incapacidade parecida. Tal como Pedro e Inês, Marcenda e Ricardo Reis não ficarão juntos, contudo, enquanto o primeiro par foi afastado por forças externas, o segundo falhou por incapacidade emocional de ambos. Apesar de Reis e Marcenda se beijarem, quando ela o vem ver a casa e depois ao consultório dele, nada mais acontece, porque, quer um quer o outro, não têm forças para mais. Marcenda recusa o pedido de casamento de Ricardo Reis, “Marcenda, case comigo”[13]. Não pode, porque não é somente a sua mão que está morta, é toda ela. Ricardo Reis escreve-lhe cartas, como se estivesse muito longe, num outro mundo.  

Ricardo Reis tem a impressão de estar a escrever a alguém a quem nunca tivesse visto, alguém que vivesse, se existe, em lugar desconhecido. (...) E se é verdade que beijou essa pessoa que hoje não lhe parece ter alguma vez visto, a memória que ainda conserva do beijo vai-se apagando por trás da espessura dos dias.[14] 

Marcenda é pintada como um fantasma, como uma aparição e não como uma pessoa de carne e osso. Como já foi dito, temos a impressão de que Ricardo Reis nunca encontrou verdadeiramente a rapariga doente. “Marcenda não é nada”.[15] A jovem não mora nem neste tempo nem neste espaço. Se mora em algum lugar, isso não pode estar senão além e acaba por chegar uma carta do “além”. Nela lemos: “a cidade, donde esta carta verdadeiramente vem, chama-se Marcenda”[16]. Ela é um mundo à parte e a sua “cidade” é ligeiramente parecida com Lisboa na obra estudada, onde “os pombos se recolhiam aos altos ramos dos olmos, em silêncio, como fantasmas”[17]. Não somente as pessoas, melhor dito, as personagens do livro, mas também o resto da natureza, tudo parece fantasmagórico. Para a criação desta atmosfera etérea contribui a cor das cartas de Marcenda que é “a conhecida cor de violeta exangue”[18]. Exangue quer dizer sem forças, débil, sem sangue, o que pode referir-se a Marcenda, e violeta simbolicamente significa a passagem da vida para a morte, a involução. Tudo isso ajuda a compor a sua imagem. Na viagem a Fátima, Ricardo Reis, quando adormece, imagina Marcenda como sendo, não uma mulher terrestre, mas com características semelhantes à Virgem, embora seja ele, na sua imaginação, que consegue curá-la, que faz um milagre.  

(...) passou a imagem da Virgem Nossa Senhora e não se deu o milagre, nem admira, mulher de pouca fé, então Ricardo Reis aproxima-se, Marcenda levantara-se, resignada, é então que ele lhe toca no seio com os dedos médio e indicador, juntos, do lado do coração, não foi preciso mais, Milagre, milagre (...), e Marcenda, (...), acena com os dois braços levantados e desaparece (...)[19] 

Há aqui um paralelismo imaginário entre Reis e a Virgem, ambos seres de índole transcendente.                                                

Marcenda parece-se com as musas das Odes do heterónimo Ricardo Reis, das Neera, Cloe e Lídia. Ricardo Reis personagem reflecte sobre elas desta maneira: “não são mulheres verdadeiras, mas abstracções líricas”[20]. Marcenda também podia ser abstracção lírica de Ricardo Reis, a personagem que é de igual modo sombra/fantasma de uma abstracção literária de Fernando Pessoa.

Marcenda 

encerra-se num livro modelar de odes arcádicas sem que nunca dele tivesse feito parte, ao lado das Cloe e das Neera, ocupando, talvez, o espaço de uma certa Lídia que dessas teias escapou.[21] 

Nesta constatação Teresa Cristina Cerdeira afirma que Marcenda ocupou o espaço da Lídia das odes, e, se continuarmos neste sentido, podemos dizer que a Lídia deste romance escapou das Odes, dum contexto irreal, para a vida real, banal talvez mas palpável e verdadeira.  

 
Lídia – ligação com o mundo e a vida

 
 “Como se chama, e ela respondeu, Lídia, senhor doutor”[22], foi assim o primeiro encontro de Lídia – criada e pessoa verdadeira, de carne e osso, e Ricardo Reis, que se alojou no hotel Bragança em Lisboa. “Ele poeta, ela por acaso Lídia (...)”.[23] 

Lídia, diz, e sorri. Sorrindo vai buscar à gaveta os seus poemas, as suas odes sáficas, lê alguns versos apanhados no passar das folhas, E assim, Lídia, à lareira, como estando, Tal seja, Lídia, o quadro, Não desejemos, Lídia, nesta hora, Quando, Lídia, vier o nosso outono, Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira-rio, Lídia, a vida mais vil antes que a morte (...)[24]

O que acabamos de ler refere-se a Lídia, a musa etérea das odes. A Lídia que Ricardo Reis encontra não se parece em nada com aquela que vem cantada ao lado de Neera e Cloe. Lídia é uma mulher do povo que vive a vida como pode e como sente. A criada de hotel está viva, mesmo que pareça em momentos banal, o que a torna ainda mais autêntica, real e verdadeira, diferenciando-se assim das restantes personagens do romance. A personagem é a única que não tem nada de fantasma. 

Reentraria no livro, não fosse o desacordo evidente entre a musa das odes e a mulher do povo que o olha e que em breve se deitaria com ele, fugindo por completo ao arquetípo que ele próprio inventara.[25] 

Lídia foge da poesia, do etéreo, do irreal, e vai em direcção ao quotidiano, ao palpável, ao real, à vida.

Fernando Pessoa, num dos seus encontros com Ricardo Reis, troça dele comparando a Lídia real com a das odes.  

Ah, ah, afinal a tão falada justiça poética sempre existe, tem graça a situação, tanto você chamou por Lídia, que Lídia veio, teve mais sorte que o Camões, esse, para ter uma Natércia precisou de inventar o nome e daí não passou, Veio o nome de Lídia, não veio a mulher, Não seja ingrato, você sabe lá que mulher seria a Lídia das suas odes, admitindo que exista tal fenómeno, essa impossível soma de passividade, silêncio sábio e puro espírito.[26]

Fica-lhe somente o nome, Lídia, e esse nome, como no caso de Marcenda, leva-o a um lugar ainda desconhecido. Lídia “frustra todas as suas expectativas”[27], a personagem não tem nada a ver com a homónima que Reis cantava e imaginava nos seus poemas. A personagem é “só” uma arrumadeira de quartos de hotel, de outra classe social, não “pode” ser amada por alguém como ele, ele nem admite a possibilidade de poder apaixonar-se por ela ou amá-la porque é só uma criada. Não é aquilo que ele esperava. Não é passiva, não guarda o silêncio sábio, antes pergunta e quer conversar sobre diferentes temas, sobretudo os da actualidade; é conhecedora daquilo que se está a passar. Ao contrário da figura poética, a criada de hotel não crê no amor platónico e vive o amor que sente por Reis, oferecendo-se ao deleite corporal. Lídia é a vida, a ligação de Reis à vida, é por ela e através dela que ele se vê unido ao mundo, ela abre-lhe o caminho para a sua independência. 

Com ela, tal como Teseu pelas mãos de Ariadne, poderia passar da alienação à participação, de heterónimo a personagem, de persona a pessoa, da ode ao romance, da morte à vida. [28] 

Lídia é o fio que fixa Ricardo Reis à vida quotidiana. Esta personagem, ao longo do romance, torna-se cada vez mais independente e substantiva. Lídia, como muito bem sabe Ricardo Reis, tem uma voz e um corpo, ao contrário de Marcenda. 

(...) colocou uma das mãos sobre a mão de Lídia, fechou os olhos, se não for mais que estas duas lágrimas poderei retê-las assim, como retinha aquela mão castigada de trabalhos, áspera, quase bruta, tão diferente das mãos de Cloe, Neera e a outra Lídia, dos afuselados dedos, das cuidadas unhas, das macias palmas de Marcenda (...)[29] 

Lídia tem de percorrer o caminho da musa de papel de Ricardo Reis para uma pessoa real, quando o poeta quer o contrário, ou seja, trazê-la da realidade para a poesia. Ela é vida.  

Deita-se com Reis e protege-o, é materna e submissa; no hotel e na casa nova serve, criada que é, mas é servida também no gozo e na paixão, na liberdade que se dá de amar, de ter ciúmes da musa Marcenda que entre os dois se interpõe, mas sobretudo de ter um filho e de assumi-lo sozinha como consequência de um acto só seu. Não sonha com igualdade, casamento ou família porque são outros os seus valores. Contenta-se com o prazer conquistado dia a dia, misturado ao serviço que desempenha de criada/mulher.[30] 

Lídia é feliz com aquilo que tem, contenta-se com aquilo que exige da vida. Não pretende conquistar o amor de Ricardo Reis, nem casar com ele, e chega a dizer-lhe que não deve perfilhar o filho de ambos se não quer. Lídia limita-se ao que pensa ter direito e é, ainda assim, uma mulher muito corajosa dentro dos limites sociais de então. 

Lídia sente-se feliz, mulher que com tanto gosto se deita não tem ouvidos, que as vozes maldigam sobre os saguões e quintais, a ela não lhe podem tocar, nem os maus-olhados, quando na escada encontra as vizinhas virtuosas e hipócritas.[31] 

Lídia despreza as más-línguas e aceita o que lhe é dado, não se deixando tolher pelas opiniões dos outros. “São os acasos da vida, É o destino, Acreditas no destino, Não há nada mais certo que o destino, A morte ainda é mais certa, A morte também faz parte do destino”[32], eis um dialogo bem intrigante entre Lídia e Ricardo Reis.

“Lídia tem essa lucidez benfazeja que diz sempre mais do que se espera dela, que está sempre um passo além do limite comum da sua classe, da sua instrução.”[33] A personagem, nas suas conversas com Ricardo Reis, passa de um tema corriqueiro para um assunto profundo com facilidade.   

(...) singular rapariga esta Lídia, diz as coisas mais simples e parece que as diz como se apenas mostrasse a pele doutras palavras profundas que não pode ou não quer pronunciar (...)[34] 

É isto que pensa Ricardo Reis depois de uma das conversas com Lídia que o surpreende, porque não presta muita atenção às suas palavras e actos. O protagonista vive noutro mundo, um mundo, como já foi dito, que é mais parecido com o mundo de Marcenda. Lídia é uma pessoa muito mais equilibrada e humana do que os outros dois. Ela sabe enfrentar o mundo e a vida e não tem medo disso. “Sem dúvida, Lídia tem a seu favor a voz do narrador que se expõe sempre no intuito de favorecer – ao menos no nível do desejo – os oprimidos.”[35] Isso também se nota ao ler o romance. Esta mulher é lutadora no seu dia-a-dia, assume as responsabilidades e as consequências dos seus actos. Lídia surpreende com a sua atitude quando conta a Ricardo Reis que está grávida.  

Vou deixar vir o menino. (...) Lídia aconchegou-se melhor, quer que ele a abrace com força, por nada, só pelo bem que sabe, e diz as incríveis palavras, simplesmente, sem nenhuma ênfase particular, Se não quiser perfilhar o menino, não faz mal, fica sendo filho de pai incógnito, como eu. Os olhos de Ricardo Reis encheram-se de lágrimas, umas de vergonha, outras de piedade.[36]

Ao filho ainda esperam tempos difíceis porque nascerá em 1937 e quando crescer haverá uma guerra em que, em princípio, terá de participar. O menino anuncia o futuro da nação portuguesa nos anos violentos dos meados do século XX. A guerra colonial começa em 1961, quando o filho de Lídia terá 24 anos, a idade apropriada para ser enviado a essa guerra. Quem sabe qual será o seu destino. O filho de Lídia é como um futuro mártir e a sua mãe “abençoada seja Lídia entre as mulheres”[37], citação bíblica que eleva a criada de hotel à altura da mãe de Deus. De repente, Lídia não é só uma criada qualquer, insignificante e sem importância. Ela torna-se símbolo da mulher e da mãe portuguesas e o seu filho, o símbolo dos filhos portugueses, dos jovens portugueses e, por conseguinte, do futuro da nação. Como lemos no romance, a frase provavelmente dita por um arcebispo de Mitilene, que é um dos coadjutores do patriarca de Lisboa, “Portugal é Cristo e Cristo é Portugal”[38], é um exagero, pois, quando Ricardo Reis a disse a Fernando Pessoa, este largou a rir, mas faz sentido se tivermos em conta o filho de Lídia e da História que está por vir, porque ele é o menino, qual Cristo, que representa Portugal, a juventude portuguesa e o seu futuro. 

Lembra-se de que Lídia está grávida, de um menino, (...), e esse menino crescerá e irá para as guerras que se preparam, repito, há sempre um depois para a guerra seguinte, façamos as contas, virá ao mundo lá para Março do ano que vem, se lhe pusermos a idade aproximada em que à guerra se vai, vinte e três, vinte e quatro anos, que guerra teremos nós em mil novecentos e sessenta e um, e onde, e porquê, em que abandonados plainos, com os olhos da imaginação, mas não sua, vê-o Ricardo Reis, de balas trespassado, moreno e pálido como é seu pai, menino só de sua mãe porque o mesmo pai não o perfilhará.[39]  

Essas são as palavras do narrador que sabe do destino do filho da Lídia, ao contrário dela que o ignora. Lídia é a única deste romance que vive o e no presente. A personagem chora unicamente pelo destino actual do irmão, pela Badajoz invadida por causa da situação política em que se encontra Espanha nesse momento, contudo, o que ela chora na última parte da obra estudada é o seu próprio destino – ela é uma mulher de outra classe diferente da do “senhor doutor” e por isso menosprezada, a sentir-se menos, a sentir-se nada! Por isso ainda não é tão amada ou nem é amada, como devesse ser como mulher, sem ter em consideração a classe social a que pertence.  

Lídia já não chora, diz, Foram mortos dois mil, e tem os olhos secos, mas os lábios tremem-lhe, as maçãs do rosto são labaredas. Ricardo Reis vai para consolá-la, segurar-lhe o braço, foi esse o seu primeiro gesto, lembram-se, mas ela furta-se, não o faz por rancor, apenas porque hoje não poderia suportá-lo. Depois, na cozinha, enquanto lava a louça suja aculumada, desatam-se-lhe lágrimas, pela primeira vez pergunta a si mesma o que vem fazer a esta casa, ser a criada do senhor doutor, a mulher-a-dias, nem sequer a amante porque há igualdade nesta palavra, amante, amante, tanto faz macho como fêmea, e eles não são iguais, e então já não sabe se chora pelos mortos de Badajoz, se por esta morte sua que é sentir-se nada.[40] 

Lídia, finalmente, admite que sofre pela divisão das classes e que o seu amor seria diferente se ela não pertencesse a uma classe social mais baixa. “Reconhece-se dividida e sabe que deve optar. Entre a sua verdade individual e a verdade do seu tempo, sente-se visceralmente unida e feitora deste último.”[41] Lídia é uma mulher que vive o presente e que opta pela vida. Mesmo reconhecendo que a sua situação é desfavorável, ela opta pela vida e, no final, não segue Ricardo Reis ao cemitério, à morte.  

Seguisse Ricardo Reis, que optara pelos “Prazeres”, e ei-la, talvez, de volta ao livro, à placidez dos campos, enfeitiçada, musa, a Lídia cantada. Segue, no entanto, Daniel, despede-se de Reis e deixa branca a página de um livro em que se não quis inscrever, para preencher um outro que lhe abrira a possibilidade de fazer-se sem ser feita, de escolher como sujeito e, não de ser escolhida como objecto. Sabe que o irmão, e com ele o sonho da revolta, está acabado, mas fica porque “a terra espera” e Daniel é a vítima fecunda de um espectáculo que tem que continuar.[42]  

Se Lídia seguisse Ricardo Reis até à morte poderia voltar às odes, deixar a vida e ganhar a forma de uma musa, de um objecto incorpóreo, de um fantasma, cantada, mas insubstancial, impessoal, só um nome cantado por um poeta, ele também um fantasma, já que não conseguiu existir como pessoa humana. Ela opta pelo caminho mais difícil, mais exigente, que é o da vida normal, quotidiana, com todas as suas amarguras e os seus desafios, obstáculos e preocupações. Contudo, Lídia fá-lo-á sozinha, será ela que escreverá as páginas do livro da sua vida e não outras pessoas. Será ela a autora do seu próprio destino. O seu irmão é vítima daquela situação histórica, mas está entre aqueles que se revoltaram. Não fica sozinho nessa luta. A sua morte é fecunda, a terra espera por outros que continuarão o seu percurso e que assegurarão um futuro melhor às gerações por vir.  

É nesse impasse entre o mar e a terra, entre o passado e o presente, entre a utopia ou o sonho ou a irrealidade ou o mito e a História, que o romance se finda. Fernando Pessoa tem o seu tempo encerrado e já não vagueia pelo mundo. Será para sempre uma voz lida pelos outros e que se não pode mais transformar. Ricardo Reis percebe também a sua própria encruzilhada: com Lídia mergulharia no mundo, no tempo e na História, mas sofre a sua própria incapacidade de segui-la.[43] 

“O mar se acabou”[44], Ricardo Reis já não regressa ao Brasil, nem à vida. Ricardo Reis perdeu a oportunidade de ser alguém no presente e entre nós. Lídia era a sua ligação com o mundo, com a vida real, mas Reis não soube aproveitar essa oportunidade, não teve bastante força para ficar e ser uma pessoa independente, esse sonho continuou um sonho, uma utopia. A irrealidade e o ambiente tão fantasmagórico são mais fortes e mais presentes nesta obra do que aquilo que existe. Todos, à excepção de Lídia, são mais parecidos com os fantasmas do que com pessoas de carne e osso. É precisamente Lídia que, ao parecer sozinha naquela sua dura vida quotidiana, carrega as esperanças de vida melhor no país. É ela que, ao estar grávida, leva em si a esperança de um futuro melhor, é ela a fecundidade e o futuro. A criada de hotel lembra as duas mulheres grávidas que desencadeiam uma verdadeira “epidemia” da gravidez no romance de José Saramago Jangada de pedra e que têm o mesmo significado, a mesma simbologia. A História é só o narrador que a conhece, as personagens do livro não. O narrador está do lado dela e tem confiança nas pessoas lutadoras e simples, porque são elas, não os fantasmas, que constroem o país, a humanidade. Os mortos não podem construir o mundo de hoje, o país actual. Saramago aposta nos “vivos” que, como Lídia, levam o futuro em si."



Barbara Juršič, Eslovénia

  BIBLIOGRAFIA
 
O Ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11ª edição, 1995.

«O mundo de Saramago», entrevista por José Carlos de Vasconcelos, Visão, no. 515, Janeiro de 2003.

«O labirinto de Ricardo Reis», entrevista com José Saramago por ocasião do relançamento de O Ano da morte de Ricardo Reis por Adelino Gomes, O Público, 29 de Maio de 2002.

Odes, Publicações Europa-América, 4a edição, 1994.

«José Saramago visto por quem o conhece», entrevista por Pilar del Río, Atlantis, TAP Air Portugal, no.1, Janeiro, Fevereiro de 1999.

ARNAUT, Ana Paula, José Saramago, Lisboa, Edições 70, 2008.

BASTOS, Baptista, Saramago: Aproximação a um retrato, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1996.

BERRINI, Beatriz, Ler Saramago: o romance, Lisboa, Caminho, 2a edição, 1998.

BLOOM, Harold, The Varieties of José Saramago, Lisboa, Fundação Luso-Americana, 2002.

CERDEIRA, da Silva, Teresa Cristina, José Saramago: entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa, Dom Quixote, 1989.

SEIXO, Maria Alzira, Lugares da ficção em José Saramago: o essencial e outros ensaios, Lisboa, Imprensa nacional-Casa da moeda, 1999.

BUENO, Aparecida de Fátima, O poeta no labirinto: a construção do personagem em O ano da morte de Ricardo Reis, mestrado em Teoria e História Literária, Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, Brasil, 1994.

CERDEIRA, da Silva, Teresa Cristina, De Pessoa a Saramago, as metáforas de Ricardo Reis, Actas do IV. congresso internacional de estudos pessoanos II, Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1991, pp. 385-391.

DE SOUSA, Rebelo, Luís, O ano da morte de Ricardo Reis, Colóquio/Letras, no. 88, Novembro 1985, pp. 144-148

MARTINHO, José, Pessoa e a psicanálise, Coimbra, Almedina, Novembro 2001.

ARNAUT, Ana Paula, Post-modernismo no romance português contemporâneo, Coimbra, Almedina, 2002.

BARTHES, Roland, «L’effet de réel», Communications, no.11, Paris, Seuil, 1968.

BORGES, Jorge Luís, Izmišljije, Ljubljana, Cankarjeva založba, 1984.

FREUD, Sigmund, Metapsihološki spisi, Ljubljana, ŠKUC, Znanstveni inštitut Filozofske fakultete, 1987.

LÉVI-STRAUSS, Claude, Anthropologie structurale, Paris, Plon, 1958.

LOURENÇO, Eduardo, O labirinto da saudade, Lisboa, Gradiva, 4ª edição, 2005.

MATHIAS, Mercello Duarte, A Memórias dos outros, Lisboa, Gótica, 2001.

PEZOLDT, Peter, The Supernatural in Fiction, London, Peter Nevill, 1952.

SANCHES, de Baêna, Miguel, Loução, Paulo Alexandre, Grandes enigmas da história de Portugal, Vol. I, Lisboa, Ésquilo, 2008.

SANTOS, Bartolomeu dos, Lopes, Teresa Rita, Reminiscências sobre Fernando Pessoa, Coração de ninguém, Instituto de Arte Contemporânea, Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, 1998.

SARAIVA, António José, Lopes, Óscar, História da literatura portuguesa, Porto Editora, 16ª edição, 1992.

SARTRE, Jean-Paul, L’être et le néant, Essai d’ontologie phénoménologique, Paris, Gallimard, 1943.

TODOROV, Tsvetan, Introdução à literatura fantástica, São Paulo, Editora Perspectiva, 3a edição, 2004.

   
 
[1] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 344

[2] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 183

[3] Idem, p. 183

[4] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 98

[5] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 287

[6] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 184

[7] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 407

[8] Idem, p. 102

[9] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 184

[10] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 123

[11] Idem, p. 125

[12] Idem, p. 176

[13] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 284

[14] Idem, p. 251

[15] Idem, p. 325

[16] Idem, p. 258

[17] Idem, p. 284

[18] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 287

[19] Idem, p. 300

[20] Idem, p. 289

[21] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 184

[22] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 45

[23] Idem, p. 104

[24] Idem, p. 46

[25] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 185

[26] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 114

[27] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 185

[28] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 186

[29] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 164

[30] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 186

[31] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 295

[32] Idem, p. 296

[33] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 187

[34] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 296

[35] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 188

[36] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, pp. 347, 348

[37] Idem, p. 349

[38] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 273

[39] Idem, p. 382

[40] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 383

[41] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 189

[42] Idem, p. 189

[43] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 190

[44] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 407
 
Biografia
"Barbara Jursic 20 de Junho de 1971, Liubliana, Eslovénia)
É mestre em Literatura portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tradutora literária (traduziu Saramago, Lobo Antunes, Pessoa, Sá-Carneiro, Couto, M. Tavares, Sophia, Nuno Júdice, e outros), escreve artigos para revistas e jornais eslovenos e portugueses sobre autores lusófonos e eslovenos, cultura eslovena e portuguesa, temas actuais, faz programas para a Rádio e TV nacional, escreve textos críticos e prefácios para obras literárias, é intérprete (esloveno, português, francês e espanhol) e vice-presidente e responsável pelas relações internacionais da Associação eslovena de tradutores literários, membro do Comité organizativo para Liubliana, capital do livro mundial (2010-11), em 2005 foi condecorada com o 
Prémio Nacional de Melhor Tradutor Jovem.
E-mail: ajsi.disi@gmail.com, barbara.jursic@gov.si "

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Citador #27 ... Pessoa e Reis num hipotético diálogo envolto em inquietude...

30 de Novembro, data em que se assinalam os 81 anos da morte de Fernando Pessoa

Citador #27
em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição, página 144

(...) Se um morto se inquieta tanto, a morte não é um sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de a não ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre, não de doença, e é por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte, Meu caro Fernando Pessoa, você treslê, Meu caro Ricardo Reis, eu já não leio. Duas vezes improvável, esta conversação fica registada como se tivesse acontecido, não havia outra maneira de torná-a plausível. (...)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

"1936, o Ano da morte de Ricardo Reis" baseado na obra de José Saramago em cena no teatro A Barraca

Aqui mais informações,

"Este belo e profundo romance convida a uma reflexão dramatúrgica muito entusiasmante.
Começa pela invenção do encontro entre Fernando Pessoa já falecido e o heterónimo Ricardo Reis, com casos reais de sexo e paixão, também de ambiente surdo, falso e pesado, e porque fala com humor da relação criador / “obra / figura/personagem”.
Além disso, define como protagonista principal da obra, o ANO em que a trama se desenvolve.

E que ANO!!??

1936! Alguns dados... Comemoração dos 10 anos do golpe militar de 28 de Maio de 1926 que foi o pontapé de saída para o início do fascismo, especialização da polícia política com o apoio da Gestapo, fundação da Mocidade Portuguesa, Legião Portuguesa e campo de concentração do Tarrafal… Mussolini invade a Etiópia com o silêncio cúmplice das casas Reais Europeias, Hitler intensifica o ataque aos judeus, começo da guerra civil de Espanha…
Nos tempos de hoje, de frágil memória, menoridade cívica e ética, fundamentalismos, militarismos, imperialismo financeiro gerando miséria e horror Universais, renascendo a tenebrosa fénix nazi-fascista, aqui está uma obra que demonstra que as convulsões sociais nunca - infelizmente - , passaram a “coisa” datada e de dispensável interesse arqueológico."

de Hélder Mateus da Costa

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

"1936, o Ano da morte de Ricardo Reis"
a partir do romance de José Saramago
um espectáculo de Hélder Mateus da Costa

com
ADÉRITO LOPES - Ricardo Reis
CAROLINA PARREIRA – Marcenda
JOÃO MARIA PINTO – Dr. Sampaio / Espanhol Franquista / Ceguinho viola
RUBEN GARCIA – Fernando Pessoa /Carregador da mala
SAMUEL MOURA – Salvador
SÉRGIO MORAS – Vitor/ Recrutador/ Saramago
SÓNIA BARRADAS – Lídia

domingo, 23 de outubro de 2016

"Os 12 Melhores Livros Portugueses dos Últimos 100 anos" - pela Revista Estante (FNAC - Outubro 2016)

"OS 12 MELHORES LIVROS PORTUGUESES DOS ÚLTIMOS 100 ANOS"

"A Estante convidou um júri de cinco elementos, composto pela jornalista Clara Ferreira Alves, o crítico Pedro Mexia, o professor catedrático Carlos Reis, o editor Manuel Alberto Valente e a jornalista Isabel Lucas, para eleger os 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos. Este é o resultado.

Por: Catarina Sousa | Ilustração: Gonçalo Viana | Fotografias: Bruno Colaço/4SEE"



AO LONGO DE DEZ EDIÇÕES a revista Estante tem vindo a entrevistar muitos autores portugueses, explorando várias temáticas nas quais a língua portuguesa surge como pano de fundo. Tínhamos desde o início uma vontade que transformámos em desafio e materializámos em iniciativa: eleger os melhores livros portugueses.

Não procurávamos uma lista demasiado extensa. Queríamos que os decisores fossem pessoas dos mais variados quadrantes, mas personalidades respeitadas e conhecedoras do mundo da literatura em Portugal. Cinco pessoas aceitaram o nosso convite: o professor e ensaísta Carlos Reis; a jornalista e escritora Clara Ferreira Alves; a jornalista Isabel Lucas; o editor da Porto Editora, Manuel Alberto Valente; e o crítico literário e assessor cultural do Presidente da República, Pedro Mexia.

O desafio não se adivinhava fácil: escolher os melhores livros portugueses dos últimos 100 anos. Contudo, reunidos à volta de uma mesa, a escolha foi até bastante rápida.

O júri selecionou os melhores livros portugueses dos últimos 100 anos, restringindo a escolha a obras de ficção narrativa publicadas entre 1 de janeiro de 1916 e 1 de janeiro de 2016. A eleição recaiu sobre os 12 livros que se apresentam abaixo, sem qualquer ordem a não ser a alfabética.

Curiosamente, entre os autores dos livros selecionados apenas dois estão vivos: António Lobo Antunes e Agustina Bessa-Luís. Deixamos mais informação sobre cada um destes livros que ajudam não só a justificar a escolha do júri, mas a enquadrar a importância de cada uma das obras na literatura portuguesa dos últimos 100 anos.

A equipa da Estante estabeleceu alguns critérios que considerou pertinentes para a seleção dos melhores livros portugueses.
1. Os livros devem ter sido originalmente publicados a partir do dia 1 de janeiro de 1916.
2. Os autores devem ser de nacionalidade portuguesa.
3. As obras em causa devem ser de ficção.
4. Podem ser incluídas edições de autor."


"O Ano da Morte de Ricardo Reis" - José Saramago
A obra de José Saramago (1922-2010) é tão singular que lhe valeu o Prémio Nobel de Literatura – o único que Portugal recebeu até hoje nesta área.
O Ano da Morte de Ricardo Reis é não só peculiar como faz por questionar tudo o que nos rodeia. Quem somos? O que nos acontece quando morremos? Somos únicos ou, como Fernando Pessoa, somos vários?

O livro conta a história do regresso a Portugal, vindo do Brasil, de Ricardo Reis, o heterónimo de Pessoa, quando confrontado com a morte do seu criador. É um livro denso mas vai envolvendo o leitor do início ao fim, fazendo também uma viagem pela história de Portugal.

AS PRIMEIRAS FRASES
“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas do barro, há cheia nas lezírias.”

SOBRE O AUTOR
“Falava e escrevia com o desassombro e com a clareza que a alguns desagradava, mas que para ele eram uma forma inalienável de respiração intelectual.”
Carlos Reis


A compilação das 12 obras escolhidas