Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

"Terra" (1997) de Sebastião Salgado com prefácio de José Saramago e musicas de Chico Buarque


Apresentação da obra via Companhia das Letras, aqui

"Apresentação
Se existe alguém que merece o título de Cidadão do Mundo, essa pessoa é o fotógrafo Sebastião Salgado. Cidadão porque seu talento tem a marca da generosidade, da luta incansável por uma melhor compreensão do homem; do Mundo porque sua lente solidária ignora preconceitos e fronteiras. "Fotografia militante": essa definição do próprio Salgado sobre seu trabalho - simples, precisa - está em Terra, assim como estava em Trabalhadores, também lançado pela Companhia das Letras. Em ambos, um profundo senso ético alimenta uma estética requintada. Mas enquanto naquele retratava-se o trabalho braçal em mais de vinte países, as cem fotos deste, todas em preto e branco, foram feitas no Brasil, entre 1980 e 1996. São imagens de pessoas de algum modo desterradas: trabalhadores rurais, mendigos urbanos, presos, garimpeiros, crianças de rua - gente vagando entre o sonho e o desespero, como escreve José Saramago no prefácio. Nessas fotos, a luminosidade bicromática reflete paisagens humanas onde pode faltar tudo, a começar pelo espaço mínimo para assentar a vida. Um CD com quatro canções de Chico Buarque (uma delas em parceria com Milton Nascimento) acompanha o livro, que teve lançamento simultâneo em quatro países: Brasil, França, Inglaterra e Portugal."



 Prefácio de José Saramago

"Oxalá não venha nunca à sublime cabeça de Deus a idéia de viajar um dia a estas paragens para certificar-se de que as pessoas que por aqui mal vivem, e pior vão morrendo, estão a cumprir de modo satisfatório o castigo que por ele foi aplicado, no começo do mundo, ao nosso primeiro pai e à nossa primeira mãe, os quais, pela simples e honesta curiosidade de quererem saber a razão por que tinham sido feitos, foram sentenciados, ela, a parir com esforço e dor, ele, a ganhar o pão da família com o suor do seu rosto, tendo como destino final a mesma terra donde, por um capricho divino, haviam sido tirados, pó que foi pó, e pó tornará a ser. Dos dois criminosos, digamo-lo já, quem veio a suportar a carga pior foi ela e as que depois dela vieram, pois tendo de sofrer e suar tanto para parir, conforme havia sido determinado pela sempre misericordiosa vontade de Deus, tiveram também de suar e sofrer trabalhando ao lado dos seus homens, tiveram também de esforçar-se o mesmo ou mais do que eles, que a vida, durante muitos milénios, não estava para a senhora ficar em casa, de perna estendida, qual rainha das abelhas, sem outra obrigação que a de desovar de tempos a tempos, não fosse ficar o mundo deserto e depois não ter Deus em quem mandar.

Se, porém, o dito Deus, não fazendo caso de recomendações e conselhos, persistisse no propósito de vir até aqui, sem dúvida acabaria por reconhecer como, afinal, é tão pouca coisa ser-se um Deus, quando, apesar dos famosos atributos de omnisciência e omnipotência, mil vezes exaltados em todas as línguas e dialectos, foram cometidos, no projecto da criação da humanidade, tantos e tão grosseiros erros de previsão, como foi aquele, a todas as luzes imperdoável, de apetrechar as pessoas com glândulas sudoríparas, para depois lhes recusar o trabalho que as faria funcionar -  as glândulas e as pessoas. Ao pé disto, cabe perguntar se não teria merecido mais prémio que castigo a puríssima inocência que levou a nossa primeira mãe e o nosso primeiro pai a provarem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A verdade, digam o que disserem autoridades, tanto as teológicas como as outras, civis e militares, é que, propriamente falando, não o chegaram a comer, só o morderam, por isso estamos nós como estamos, sabendo tanto do mal, e do bem tão pouco.

Envergonhar-se e arrepender-se dos erros cometidos é o que se espera de qualquer pessoa bem nascida e de sólida formação moral, e Deus, tendo indiscutivelmente nascido de Si mesmo, está claro que nasceu do melhor que havia no seu tempo. Por estas razões, as de origem e as adquiridas, após ter visto e percebido o que aqui se passa, não teve mais remédio que clamar mea culpa, mea maxima culpa, e reconhecer a excessiva dimensão dos enganos em que tinha caído. É certo que, a seu crédito, e para que isto não seja só um contínuo dizer mal do Criador, subsiste o facto irrespondível de que, quando Deus se decidiu a expulsar do paraíso terreal, por desobediência, o nosso primeiro pai e a nossa primeira mãe, eles, apesar da imprudente falta, iriam ter ao seu dispor a terra toda, para nela suarem e trabalharem à vontade. Contudo, e por desgraça, um outro erro nas previsões divinas não demoraria a manifestar-se, e esse muito mais grave do que tudo quanto até aí havia acontecido.

Foi o caso que estando já a terra assaz povoada de filhos, filhos de filhos e filhos de netos da nossa primeira mãe e do nosso primeiro pai, uns quantos desses, esquecidos de que sendo a morte de todos, a vida também o deveria ser, puseram-se a traçar uns riscos no chão, a espetar umas estacas, a levantar uns muros de pedra, depois do que anunciaram que, a partir desse momento, estava proibida (palavra nova) a entrada nos terrenos que assim ficavam delimitados, sob pena de um castigo, que segundo os tempos e os costumes, poderia vir a ser de morte, ou de prisão, ou de multa, ou novamente de morte. Sem que até hoje se tivesse sabido porquê, e não falta quem afirme que disto não poderão ser atiradas as responsabilidades para as costas de Deus, aqueles nossos antigos parentes que por ali andavam, tendo presenciado a espoliação e escutado o inaudito aviso, não só não protestaram contra o abuso com que fora tornado particular o que até então havia sido de todos, como acreditaram que era essa a irrefragável ordem natural das coisas de que se tinha começado a falar por aquelas alturas. Diziam eles que se o cordeiro veio ao mundo para ser comido pelo lobo, conforme se podia concluir da simples verificação dos factos da vida pastoril, então é porque a natureza quer que haja servos e haja senhores, que estes mandem e aqueles obedeçam, e que tudo quanto assim não for será chamado subversão.

Posto diante de todos estes homens reunidos, de todas estas mulheres, de todas estas crianças (sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra, assim lhes fora mandado), cujo suor não nascia do trabalho que não tinham, mas da agonia insuportável de não o ter, Deus arrependeu-se dos males que havia feito e permitido, a um ponto tal que, num arrebato de contrição, quis mudar o seu nome para um outro mais humano. Falando à multidão, anunciou: “A partir de hoje chamar-me-eis Justiça.” E a multidão respondeu-lhe: “Justiça, já nós a temos, e não nos atende. Disse Deus: “Sendo assim, tomarei o nome de Direito.” E a multidão tornou a responder-lhe: “Direito, já nós o temos, e não nos conhece." E Deus: "Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito.” Disse a multidão: “Não necessitamos caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite.” Então, Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julgara ser seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando as mulheres, os homens e as crianças, e, humilhado, retirou-se para a eternidade. A penúltima imagem que ainda viu foi a de espingardas apontadas à multidão, o penúltimo som que ainda ouviu foi o dos disparos, mas na última imagem já havia corpos caídos sangrando, e o último som estava cheio de gritos e de lágrimas.

No dia 17 de Abril de 1996, no estado brasileiro do Pará, perto de uma povoação chamada Eldorado dos Carajás (Eldorado: como pode ser sarcástico o destino de certas palavras...), 155 soldados da polícia militarizada, armados de espingardas e metralhadoras, abriram fogo contra uma manifestação de camponeses que bloqueavam a estrada em acção de protesto pelo atraso dos procedimentos legais de expropriação de terras, como parte do esboço ou simulacro de uma suposta reforma agrária na qual, entre avanços mínimos e dramáticos recuos, se gastaram já cinqüenta anos, sem que alguma vez tivesse sido dada suficiente satisfação aos gravíssimos problemas de subsistência (seria mais rigoroso dizer sobrevivência) dos trabalhadores do campo. Naquele dia, no chão de Eldorado dos Carajás ficaram 19 mortos, além de umas quantas dezenas de pessoas feridas. Passados três meses sobre este sangrento acontecimento, a polícia do estado do Pará, arvorando-se a si mesma em juiz numa causa em que, obviamente, só poderia ser a parte acusada, veio a público declarar inocentes de qualquer culpa os seus 155 soldados, alegando que tinham agido em legítima defesa, e, como se isto lhe parecesse pouco, reclamou processamento judicial contra três dos camponeses, por desacato, lesões e detenção ilegal de armas. O arsenal bélico dos manifestantes era constituído por três pistolas, pedras e instrumentos de lavoura mais ou menos manejáveis. Demasiado sabemos que, muito antes da invenção das primeiras armas de fogo, já as pedras, as foices e os chuços haviam sido considerados ilegais nas mãos daqueles que, obrigados pela necessidade a reclamar pão para comer e terra para trabalhar, encontraram pela frente a polícia militarizada do tempo, armada de espadas, lanças e alabardas. Ao contrário do que geralmente se pretende fazer acreditar, não há nada mais fácil de compreender que a história do mundo, que muita gente ilustrada ainda teima em afirmar ser complicada demais para o entendimento rude do povo.

Pelas três horas da madrugada do dia 9 de Agosto de 1995, em Corumbiara, no estado de Rondônia, 600 famílias de camponeses sem terra, que se encontravam acampadas na Fazenda Santa Elina, foram atacadas por tropas da polícia militarizada. Durante o cerco, que durou todo o resto da noite, os camponeses resistiram com espingardas de caça. Quando amanheceu, a polícia, fardada e encapuçada, de cara pintada de preto, e com o apoio de grupos de assassinos profissionais a soldo de um latifundiário da região, invadiu o acampamento. varrendo-o a tiro, derrubando e incendiando as barracas onde os sem-terra viviam. Foram mortos 10 camponeses, entre eles uma menina de 7 anos, atingida pelas costas quando fugia. Dois polícias morreram também na luta.

A superfície do Brasil, incluindo lagos, rios e montanhas, é de 850 milhões de hectares. Mais ou menos metade desta superfície, uns 400 milhões de hectares, é geralmente considerada apropriada ao uso e ao desenvolvimento agrícolas. Ora, actualmente, apenas 60 milhões desses hectares estão a ser utilizados na cultura regular de grãos. O restante, salvo as áreas que têm vindo a ser ocupadas por explorações de pecuária extensiva (que, ao contrário do que um primeiro e apressado exame possa levar a pensar, significam, na realidade, um aproveitamento insuficiente da terra), encontra-se em estado de improdutividade, de abandono. sem fruto.

Povoando dramaticamente esta paisagem e esta realidade social e económica, vagando entre o sonho e o desespero, existem 4 800 000 famílias de rurais sem terras. A terra está ali, diante dos olhos e dos braços, uma imensa metade de um país imenso, mas aquela gente (quantas pessoas ao todo? 15 milhões? mais ainda?) não pode lá entrar para trabalhar, para viver com a dignidade simples que só o trabalho pode conferir, porque os voracíssimos descendentes daqueles homens que primeiro haviam dito: “Esta terra é minha”, e encontraram semelhantes seus bastante ingénuos para acreditar que era suficiente tê-lo dito, esses rodearam a terra de leis que os protegem, de polícias que os guardam, de governos que os representam e defendem, de pistoleiros pagos para matar. Os 19 mortos de Eldorado dos Carajás e os 10 de Corumbiara foram apenas a última gota de sangue do longo calvário que tem sido a perseguição sofrida pelos trabalhadores do campo, uma perseguição contínua, sistemática, desapiedada, que, só entre 1964 e 1995, causou 1 635 vítimas mortais, cobrindo de luto a miséria dos camponeses de todos os estados do Brasil. com mais evidência para Bahia, Maranhão. Mato Grosso, Pará e Pernambuco, que contam, só eles, mais de mil assassinados.

E a Reforma Agrária, a reforma da terra brasileira aproveitável, em laboriosa e acidentada gestação, alternando as esperanças e os desânimos, desde que a Constituição de 1946, na seqüência do movimento de redemocratização que varreu o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, acolheu o preceito do interesse social como fundamento para a desapropriação de terras? Em que ponto se encontra hoje essa maravilha humanitária que haveria de assombrar o mundo, essa obra de taumaturgos tantas vezes prometida, essa bandeira de eleições, essa negaça de votos, esse engano de desesperados? Sem ir mais longe que as quatro últimas presidências da República, será suficiente relembrar que o presidente José Sarney prometeu assentar 1.400.000 famílias de trabalhadores rurais e que, decorridos os cinco anos do seu mandato, nem sequer 140.000 tinham sido instaladas; será suficiente recordar que o presidente Fernando Collor de Mello fez a promessa de assentar 500.000 famílias, e nem uma só o foi; será suficiente lembrar que o presidente Itamar Franco garantiu que faria assentar 100.000 famílias, e só ficou por 20.000; será suficiente dizer, enfim, que o actual presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, estabeleceu que a Reforma Agrária irá contemplar 280.000 famílias em quatro anos, o que significará, se tão modesto objectivo for cumprido e o mesmo programa se repetir no futuro, que irão ser necessários, segundo uma operação aritmética elementar, setenta anos para assentar os quase 5.000.000 de famílias de trabalhadores rurais que precisam de terra e não a têm, terra que para eles é condição de vida, vida que já não poderá esperar mais. Entretanto, a polícia absolve-se a si mesma e condena aqueles a quem assassinou.

O Cristo do Corcovado desapareceu, levou-o Deus quando se retirou para a eternidade, porque não tinha servido de nada pô-lo ali. Agora, no lugar dele, fala-se em colocar quatro enormes painéis virados às quatro direcções do Brasil e do mundo, e todos, em grandes letras, dizendo o mesmo: 
UM DIREITO QUE RESPEITE, UMA JUSTIÇA QUE CUMPRA."

José Saramago


quinta-feira, 19 de maio de 2016

"Prefácio para um livro" - "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (03/10/1996)

3 de Outubro (de 1996)
Prefácio para um livro: 
Antes de construir o primeiro barco, o homem sentou-se na praia a olhar o mar. Ali esteve todo um dia e toda uma noite, a ver como subia e baixava a maré, a ver levantarem-se ao largo as ondas, a ouvir o fragor delas quando se desfaziam na linha de rebentação, e depois o suspiro delicado da espuma ao ser sorvida pela areia. A necessidade o trouxera. O alimento que a terra tantas vezes lhe negou, pródiga de secas, pestes e dilúvios, o mar lho oferecia sem medida, não pedindo, em troca, mais do que a simples moeda da coragem. E também o dom da invenção e a aventura do conhecimento. Juntar umas tábuas, tecer uma rede, moldar um anzol, impelir o barco para a água, de pouco iria servir-lhe sem a lição das correntes e dos ventos, das mudanças do céu, do passo das nuvens, do estremecimento dos cardumes. Para tanto, um homem sozinho não bastaria. Outros homens chegaram, e mulheres, e crianças, o estrondo contínuo das vagas e os silvos do ar amedrontaram a alguns e fizeram-nos recuar para as terras do interior, mas esses, um dia, vindo olhar de cima das falésias a aldeia que se formara na franja de areia, deram com o mesmo mar, sereno agora, brilhando ao sol como uma dança de cristais, as ondas apenas sussurrando sob o voo das gaivotas. Então desceram. Fugir da morte pode tornar-se num modo de fugir da vida. 
As personagens que povoam José, o romance de Armando Palacio Valdés, são descendentes daqueles homens que diante do mar temeram e ousaram, aqueles que fizeram o barco e lançaram a rede, que arrancaram o peixe às sombras submarinas, que quantas vezes se afundaram nelas, de olhos abertos e com os pulmões cheios de água. Então o pranto humano teve de soar mais forte na natureza que todos os tufões nascidos dela, simplesmente porque o homem é o único animal capaz de chorar. E de sorrir. É diante do mar - do mar de Rodillero, do mar do mundo - que o riso e a lágrima assumem uma importância absoluta. Dir-se-á que mais profundamente a assumiriam diante do universo, mas esse, digo eu, está demasiado longe, fora do alcance duma compreensão comum. O mar é o universo perto de nós. 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, página 230 e 231 (03/10/1996)

domingo, 8 de maio de 2016

"Não sei o que tenho em Beja" prefácio para livro da Camara Municipal de Beja a pedido de José Manuel Mendes ("Cadernos de Lanzarote Diário IV - 10/08/1996)

10 de Agosto (de 1996)
"Há tempos, José Manuel Mendes pediu-me que escrevesse algo sobre Beja, destinado a um livro que a Câmara Municipal tinha na ideia publicar, com textos dos escritores que passaram pela sua Biblioteca. Embora a Viagem a Portugal pareça estar aí a demonstrar o contrário, nunca me sinto à vontade de cada vez que tenho de produzir este tipo de prosas, mas, vindo de quem vinha o pedido, não tive mais remédio que fazer do aperto decisão e espremer a cabecinha, a ver o que sairia. O que saiu apareceu-me agora em letra impressa: o livro estava à minha espera quando regressei de El Escorial. A releitura foi quase novidade, tão mal me lembrava do que havia escrito. Aqui deixo, portanto, este Não sei o que tenho em Beja, como se tivesse acabado de sair do estaleiro: 
«Isto de cidades, no fundo, é como as pessoas. Damos com elas no caminho e na vida, umas vezes paramos a ver, a conversar, outras vezes, ou porque levávamos pressa, ou porque nos mostraram cara fechada, encontro pode ser que tenha havido, se encontro era, mas conhecimento a sério é que não. Durante muitos anos não fui nada viajeiro, levava a vida apertada, os carros eléctricos, ainda que isto pareça invenção minha de agora, consumiam-me em metade do mês a verba para transportes, e se é certo que sempre me restava o recurso natural de fazer a pé o caminho entre a casa e o trabalho, e volta, está claro que não me iria pôr a andar por esse Alentejo fora, para ir saber o que tinha em Beja. E não é que eu não tivesse sido, em tempos que evidentemente já lá vão, um andarim de mais que razoáveis dotes: cinquenta quilómetros com a mochila às costas para ir acampar nas margens da lagoa de Albufeira, além na península de Setúbal, fazia-os eu sem mais ajudas que os pés com que nasci e sem olhar para trás. Mas ir a Beja, está-se a ver, seria outra maratona. Imagine-se: à torreira do sol, por esses descampados, ainda por cima tendo de resistir à tentação de umas aldeias, vilas e cidades que me sairiam ao caminho a oferecer, consoante os casos, o simples refrigério de uma sombra e de um copo de vinho, um caldo, uma talhada de melão, ou, no caso de me picar a curiosidade das artes, que já então me entravam desses arrebatos, a penumbra silenciosa de um museu com figuras antigas a olhar para mim. O mais certo era não conseguir chegar a Beja. 
«O tempo, como sabemos, tanto muda como não. Vezes sem conta dá-lhe para ficar sentado, sabemo-lo quando as pessoas, se lhes perguntamos como vai a vida, respondem encolhendo os ombros: «Sempre na mesma, sempre na mesma.» De repente, o diabo do tempo, não se sabe o que lhe deu, levanta-se, mexe-se, corre, pula, tira os nossos bens donde os tínhamos e arruma-os pela ordem que lhe apetece, fecha, tranca e condena umas portas, abre outras de par em par, recorta uma janela onde havia uma parede cega, é, como já ficou dito, um vivo demónio. Foi assim que comecei a fazer umas quantas viagens, poucas, modestas, primeiro pelos arredores, depois mais adiante, por aí fora, na direcção dos três pontos cardeais, no outro estava o mar, aí nem com botas de cortiça, até que cheguei a Beja. 
«Se dessa vez tinha lá alguma coisa, não dei por isso. Andava com tanta literatura na cabeça que todo o meu afã foi assomar-me ao janelão donde, como se conta, a freira Mariana, às escondidas das colegas ciumentas, fazia sinais de lenço ao cavaleiro de Chamilly. O que eu queria perceber era se semelhantes manejos de sentimentaria, com seu quê de ridículo, poderiam objectivamente compaginar-se com as febris palpitações de um coração feminino que ousara trocar o Senhor por um bigode francês. Concluí que não. Ou bem que ela acenava com o lenço, ou bem que se retorcia nas ânsias de um amor culpado e pecador. Decidi esquecer a freira e o cavaleiro e ater-me apenas às cartas, à literatura, o que foi erro rematado. Ainda me faltava comer muito pão e muito sal, ainda tinha muito que viver antes de compreender que o espírito nunca está na letra, está sempre na pessoa que a escreveu, mesmo quando a pessoa se resignou a parecer menos que a sua própria letra. 
«Passaram os anos, e eu sem saber o que tinha em Beja. Voltei lá uma vez, outra vez, vi o dentro e o fora, o baixo e o alto, pisei o chão e respirei o ar, andei por praças, ruas, igrejas e museus, disse e ouvi, perguntei-me se a colina onde está seria colina de verdade, se não foi a inúmera gente que ali viveu - romanos, visigodos, sarracenos, cristãos, e, antes de todos, aqueles primeiros de quem não sei o nome nem a história -, se não teriam sido eles que, construindo incessantemente sobre ruínas e demolições, foram levantando sobre a planície rasa a enorme mamoa prenhe de restos, de detritos, de fragmentos, de colunas, de pórticos, de umbrais, de pedras do lar, de ecos de palavras, de gritos de dor, de risos, de morte, de vida. Imaginei um poço que desces-se por ali verticalmente, através de todos aqueles mundos, pondo à vista a composição e a espessura da felicidade e da desgraça, da fome e da fartura, do certo e do errado de cada dia, até alcançar o nível da planície, onde ainda estão as cinzas da primeira fogueira e o sinal de um pé descalço. Pensei que provavelmente era isto o que eu tinha em Beja, o mesmo que em qualquer outro lugar por onde tivesse a humanidade passado. 
«Depois veio o tempo em que a planície e as colinas alentejanas se puseram a estremecer de um gozo novo, quando abrir a terra para depor a semente se tornou em acto sacral, quando os homens e as mulheres repetiam os gestos antigos e os encontravam novos. Andei por lá, mas não por Beja, a escrever um livro, a levantá-lo do chão, como quem recolhe as cinzas de uma fogueira e o desenho de um passo. Foi por essa altura que um amigo, tão honrado de vida como de nome, me disse com expressão risonhamente repreensiva: «Vocês ficam todos lá por Évora...» A partir desse dia, comecei a suspeitar de que o que eu tinha em Beja, afinal, era uma dívida, não uma conta que tivesse deixado por pagar, não um empréstimo vencido e não liquidado, uma dívida como assim, aparentemente sem quê nem porquê, mas essas, se calhar, são as piores, as que mais custam a levar, as dívidas que não têm por trás o rosto de um credor. Quem depois me viu caminhar por aquelas ruas, becos e travessas, espreitando aos portais, farejando às esquinas, como quem anda à procura de algo que nem sequer conhece, não podia imaginar que pesos eu ia carregando na consciência. Soubera, finalmente, o que tinha em Beja, mas o que tinha em Beja não era nada que pudesse apagar de mim. E assim vivemos, ela e eu, até há mais ou menos um ano. 
«Convidaram-me a falar em Beja sobre intolerâncias antigas e modernas, e eu lá fui, apesar de cansado doutras andanças semelhantes. A conferência era na Biblioteca Municipal, um edifício novo, funcional, de organização excelente, apenas com o senão de uma escadaria de acesso perigosamente empinada, como se de súbito ao arquitecto tivesse faltado o terreno ou como se deliberadamente a tivesse ali posto para avisar os leitores de que os caminhos do conhecimento tudo podem ser, menos caminhos de facilidade. Fizeram-me visitar a Biblioteca, secção por secção, quase livro por livro, e eu não precisei de fingir nem o sentimento nem as palavras para felicitar quem tinha a responsabilidade do seu governo. Para terminar, levaram-me a ver a secção infantil, ampla, desafogada, com pequenas cadeiras e pequenas mesas, almofadas coloridas, o paraíso da leitura, pensei eu, lembrando-me dos duros assentos daquela outra biblioteca municipal onde fiz, adolescente, as minhas primeiras aprendizagens literárias. 
«Nisto estava, crendo não ter mais para ver, quando o meu guia me fez entrar numa espécie de caverna armada a um lado do grande salão de leitura. «E isto?», perguntei. «Os miúdos gostam de vir ler para aqui», responderam-me, enquanto entrávamos curvados. Não duvidei, na verdade eu próprio tive vontade de pedir um livro e estender-me naqueles coxins, como se estivesse dentro de um ovo, com um céu de pano por cima da cabeça, esquecido da conferência, resolvido a começar a aprender tudo outra vez, desde o princípio. Imaginei uma criança a entrar ali com o tesouro de um livro na mão, e sair de lá com esse outro tesouro maior que é o livro lido. Senti-me subitamente em paz, não devia já nada a Beja, o que eu tinha agora em Beja não era uma dívida, mas uma esperança. A esperança de que uma daquelas crianças, saídas da gruta de Ali-Babá e as Quarenta Lições, venha a escrever um dia, sobre Beja, o livro que eu não escrevi.» 

in "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 196 a 200 (10/08/1996)