Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 13 de dezembro de 2015

"Portugal pela Clarabóia" - Entrevista a Maria do Céu Guerra - Encenadora da peça de teatro "A Claraboia" Teatro A Barraca (Visão - 11/12/2015)

"Portugal pela Clarabóia" - Entrevista a Maria do Céu Guerra
Encenadora da peça de teatro "A Clarabóia" Teatro A Barraca (Visão - 11/12/2015)

A entrevista pode ser consultada e lida, via revista Visão, aqui
em http://visao.sapo.pt/jornaldeletras/teatroedanca/2015-12-11-Maria-do-Ceu-Guerra---Portugal-pela-Claraboia

Fotografias de Luís Rocha - Movimento de Expressão Fotográfica
Mais informação em http://www.mef.pt/mef/ 


"Um 'fresco' Portugal nos anos 50, visto através da Claraboia, o romance de José Saramago no palco de A Barraca estreou na quinta-feira, dia 10, no Cinearte, em Lisboa. Um espetáculo encenado por Maria do Céu Guerra, que abre um ciclo que a companhia vai dedicar ao Nobel da Literatura."

"O teatro em tempos de “austeritarismo” encolheu os atos e os “sonhos”. A Barraca quase acabou, com os cortes e os 40 mil euros de subsídio anual a que viu reduzida a existência. Farta de tanto aperto e míngua, Maria do Céu Guerra não quer poupar mais na “ousadia” de “fazer um espetáculo em grande”. Sentiu essa ânsia crescer página a página, capítulo a capítulo do livro de José Saramago que agora arrisca levar à cena: Claraboia, o romance póstumo do escritor, embora tivesse sido escrito em 1953. E atreveu-se a encená-lo, mesmo tendo que poupar em tudo menos em esforços e imaginação. Essa nunca é “pobrezinha”, como garante a atriz e encenadora."

"No palco, um prédio com seis casas dentro, um “mosaico” de quotidianos familiares, nos anos pardacentos do fascismo, e subterrâneo o conflito, as pulsões da condição humana. São 16 atores para dar corpo à narrativa de Saramago tornada diálogo, com a adaptação de João Paulo Guerra. Para a reconstituição desse tempo, o cenário criado por Costa Reis. Um espetáculo para ‘virar a página’ da austeridade. “Um pontapé na sorte”, diz Maria do Céu Guerra, consciente do risco da aposta. E sabe-se que a sorte protege os audazes."

Jornal de Letras: Que possibilidades teatrais descobriu neste romance de Saramago?
Maria do Céu Guerra: Foi Pilar del Río quem me ofereceu Claraboia, que sabia que tinha tido uma história editorial complicada. Quando o comecei a ler fiquei logo interessada no retrato que José Saramago faz das casas, das famílias, da vida naqueles anos pesados, mesquinhos, do Estado Novo.

Um retrato quotidiano do fascismo?
E sem nunca falar de repressão, de polícia ou mesmo aparentemente de política, a não ser pela boca de uma personagem, assumidamente oposicionista. Saramago consegue dar uma narração do fascismo branco. Isso entusiasmou-me e comecei a imaginar como seria possível pôr um prédio em cena, com seis famílias em simultâneo. A partir do meio, o livro começou a desafiar-me para o palco. E cada vez me apaixonava mais pela própria dificuldade desse exercício.

Fotografias de Luís Rocha - Movimento de Expressão Fotográfica

Que aguçou o engenho?
Estes anos de austeritarismo, como lhe chamo, dificultaram tanto a vida d’A Barraca que andamos a fazer reposições, um Tartufo muito austero, sempre a contar os tostões. Há dois anos estivemos mesmo para acabar. Só não aconteceu porque tivemos sempre a solidariedade do nosso público e houve uma petição entregue e aprovada na Assembleia da República reconhecendo o nosso trabalho, o que não nos trouxe mais dinheiro mas nos deu ânimo. Pensei muitas vezes que não me apetecia fazer mais nada, continuar a pensar só em coisas baratinhas, pequeninas. E sei que o público também gosta de qualquer coisa de espetáculo, o que é caro. Claraboia fez-me sentir vontade de correr esse risco.

É uma grande produção, com 17 personagens. Como foi possível?
A Pilar del Río ajudou-nos, não economicamente mas a abrir alguns caminhos, a chegar por exemplo ao Fundo de Fomento Cultural e a entreabrir algumas portas. Claro que foi uma dívida enorme que A Barraca contraiu e que só será capaz de pagar se o público vier ver a peça.

Uma ‘ousadia’ nos tempos que correm?
Foi um rasgo e avancei, apesar desses perigos. E teve o condão de me entusiasmar e apaixonar de novo. E sair da mediania. Já tenho esta idade e ainda muitos sonhos que quero realizar. A ousadia muitas vezes ajuda a dar um salto em frente. E é preciso.

Além das questões orçamentais, encenar Claraboia foi um quebra-cabeças?
Se foi. São muitas famílias, personagens, cenas, feitas ao mesmo tempo… E que têm que o ser em estilos diversos, porque são mesmo diferentes. Cada casa é uma casa, com o seu décor, as suas formas de relacionamento, pessoas que se cruzam nas escadas, que se veem e ouvem, uma que transporta o desgosto de ter perdido uma filha, duas irmãs com o amor pela música e pela rádio, um linotipista do Diário de Notícias sórdido, uma rapariga por conta e o seu protetor, um casal infeliz, com uma galega nostálgica e muito divertida… Foi obra não os deixar contagiar pelos ritmos uns dos outros.

E a narrativa de Saramago não levantou problemas especiais na transposição para o palco?
Não. É um romance com um fio ficcional ténue, a história surge naquele painel de vidas remediadas. No teatro, esse fresco é dado, mas o conflito vai-se insinuando como um réptil, através da calúnia, da mentira, dos defeitos dominantes daquele tempo, talvez de todos os tempos. Tudo o que vemos naquele prédio se calhar não está tão longe de nós.

É isso que procura sublinhar a sua encenação?
Interessou-me trabalhar precisamente esse lado dos conflitos das famílias, as histórias silenciosas das casas, aquilo que acontece portas adentro. Por isso, fazemos uma espécie de corte naquela casa maravilhosa, criada pelo Costa Reis, inspirado na casa onde nasceu, e convocamos os espetadores a serem voyeurs desses universos fechados. Gostei muito de fazer esta dramaturgia. Aliás, agrada-me muito a passagem da escrita narrativa para a dramática.

Porquê?
Já adaptámos muitos romances e seduz-me esse exercício de tornar as descrições didascálias, o narrativo ativo. E desta vez, sem recorrer a narrador, o que acontecia numa outra adaptação, A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, uma peça de que gostei muito. E sem ninguém a narrar é mais difícil. São seis casas ativas na frente do público, como a espreitar pela claraboia, o verdadeiro olho de Deus, para o interior daquelas vidas. E vão ajudar-nos as roupas, os hábitos, o que se comia, como se vivia.

Fizeram uma verdadeira ‘reconstituição’?
Sim. E foi muito divertido recuar no tempo. E tenho a aspiração de que o público faça essa viagem connosco. Estamos muito contentes com o espetáculo. Por outro lado, o Hélder [Costa] há muito queria encenar O Ano da Morte de Ricardo Reis e decidimos fazer um ciclo José Saramago, que se prolonga pelo primeiro semestre do próximo ano.

Haverá mais textos de Saramago?
O Conto da Ilha Desconhecida, que vamos fazer em reposição. E gostaria muito que Claraboia ainda estivesse em cena quando A Barraca fizer 40 anos, a 4 de março

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Resignação... falta ao povo a mente "Desassossegada"

(Ilustração na obra "A Maior Flor do Mundo - Conto Infantil)

Revista Visão
José Carlos de Vasconcelos
16 de Janeiro de 2003

(...)
Não farás mais política, segues as coisas, e pelos vistos com tristeza.
Com imensa tristeza. Eu pergunto-me todos ou quase todos os dias: o que se passa com os portugueses? A imagem que eu tenho, e que me é dada pela comunicação social, é de haver uma dominante tão pequena, tão baixa, tão reles! Então, para não dizerem que não sou patriota, todos os dias me lembro da célebre frase do Almeida Garrett: « A terra é pequena e a gente que nela vive também não é grande». E porque não somos grandes? Porque não somos maiores do que aquiloo que - tirando alguns momentos em que fazemos coisas notáveis, que não estavam no 'programa' - parece ser o  nosso destino histórico?
Porque nos resignamos tanto? Porque estamos nesta coisa do «quem vier atrás que feche a porta«? Ou, para usar a linguagem mais grosseira: «Pelo tempo que hei-de estar no convento, cago-lhe e mijo-lhe dentro». E o convento é isto - a vida, o País, a relação social. (...)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A causa "Chiapas" pelo seu punho

José Saramago recusava a postura do escritor de secretária, que com toques e artifícios de génio publicava os seus "escritos". Saramago não se acomodou à secretária, vivia o mundo, viajava pelos cantos mais diversos deste planeta, experenciava várias influências que o mantinham sensível tanto ao ideal nacional e ibérico, como não descurava a luta dos povos deste mundo que se mantinham subjugados a governos, ou a grupos de interesses que condicionam os governos para seu interesse.
Saramago era isto.

"Uma Longa Viagem com José Saramago"
de João Céu e Silva
Porto Editora, páginas 28 e 29

(...) "José Saramago não pára de viajar pelo mundo e de se integrar nas causas que defende e que sente que necessitam do apoio de um Prémio Nobel como mais um dos seus defensores. Com pedidos vindo de toda a parte do planeta, os últimos anos do escritor têm sido repletos de deslocações constantes, de presenças em manifestações e em apresentações dos seus livros e de outros em vários países, de discursos em palanques e palcos, de participações em debates, de entrevistas, de assinaturas em manifestos e de inaugurações de exposições, seja sozinho ou ao lado dos líderes políticos mais importantes do mundo, seja com as Mães de Maio na Argentina seja com os palestinos ou com os índios Chiapas. (...)

Aqui também pelo seu testemunho.

Revista Visão
José Carlos de Vasconcelos
16 de Janeiro de 2003

(...)
Uma das várias batalhas, na América Latina, em que tiveste intervenção activa foi a de Chiapas, de que agora não se tem falado. O que sucedeu?
A Latino-América tem muitos e muito graves problemas. Mas tem um «especial», que é o problema indígena. E às vezes parece haver a convicção de que ele se resolve com o tempo. Houve um longo e lento genocídio dos indígenas: nuns casos foi a eliminação física, noutros foi a entrega o abandono dessas populações à sua (má) sorte. Um exemplo, entre outros, é o da Guatemala, onde essa população representa 50% do total.
Em Chiapas, o que houve foi uma guerrilha armada, zapatista, que não durou muito. Parte desse exército refugiou-se na selva. E através de meios como a internet, conseguiu dar dimensão internacional à sua luta. Depois dos acontecimentos conhecidos que tiveram repercussão mundial, como a longa marcha até à Cidade do México, o comandante Marcos esteve muitos meses calado. Recentemente escreveu uma carta, a propósito da ETA, que foi um erro político. Chiapas é muito rica - em petróleo, água, café, cacau, aquilo, aqueloutro - e a sua situação está num beco sem saída. O que parece é que toda a gente está à espera que as populações se afundem, se dissolvam, desapareçam, não se sabe porque artes mágicas, para caírem em cima daquilo e se apropriarem de tudo.

A situação é particularmente difícil na América Central...
A situação é dramática. E se os EUA se comportam como se comportam em relação ao resto do mundo, então ali, que se consideraram um seu feudo, imagine-se! (...)




Aqui o texto publicado, em http://caderno.josesaramago.org/58506.html

"O sangue em Chiapas"

Todo o sangue tem a sua história. Corre sem descanso no interior labiríntico do corpo e não perde o rumo nem o sentido, enrubesce de súbito o rosto e empalidece-o fugindo dele, irrompe bruscamente de um rasgão da pele, torna-se capa protectora de uma ferida, encharca campos de batalha e lugares de tortura, transforma-se em rio sobre o asfalto de uma estrada. O sangue nos guia, o sangue nos levanta, com o sangue dormimos e com o sangue despertamos, com o sangue nos perdemos e salvamos, com o sangue vivemos, com o sangue morremos. Torna-se leite e alimenta as crianças ao colo das mães, torna-se lágrima e chora sobre os assassinados, torna-se revolta e levanta um punho fechado e uma arma. O sangue serve-se dos olhos para ver, entender e julgar, serve-se das mãos para o trabalho e para o afago, serve-se dos pés para ir aonde o dever o mandou. O sangue é homem e é mulher, cobre-se de luto ou de festa, põe uma flor na cintura, e quando toma nomes que não são os seus é porque esses nomes pertencem a todos os que são do mesmo sangue. O sangue sabe muito, o sangue sabe o sangue que tem. Às vezes o sangue monta a cavalo e fuma cachimbo, às vezes olha com olhos secos porque a dor lhos secou, às vezes sorri com uma boca de longe e um sorriso de perto, às vezes esconde a cara mas deixa que a alma se mostre, às vezes implora a misericórdia de um muro mudo e cego, às vezes é um menino sangrando que vai levado em braços, às vezes desenha figuras vigilantes nas paredes das casas, às vezes é o olhar fixo dessas figuras, às vezes atam-no, às vezes desata-se, às vezes faz-se gigante para subir às muralhas, às vezes ferve, às vezes acalma-se, às vezes é como um incêndio que tudo abrasa, às vezes é uma luz quase suave, um suspiro, um sonho, um descansar a cabeça no ombro do sangue que está ao lado. Há sangues que até quando estão frios queimam. Esses sangues são eternos como a esperança.


Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009



Todos somos Chiapas

Artículo escrito en primera persona por José Saramago, resultado de sus impresiones recogidas durante su viaje a Chiapas, con motivo de los disturbios que enfrentaron a la población indígena con el gobierno mexicano, y publicado en La Revista del diario español El Mundo. 

"He visto el horror. No el que hemos observado en lugares como Bosnia o Argelia. No. Éste es otro tipo de horror. Estuve en Acteal, en el mismo lugar de la matanza... escuchando a los supervivientes. Es difícil expresar lo que se siente cuando uno sabe que se encuentra con los pies sobre el mismo lugar donde hace tres meses asesinaron a estas personas. 

Me imaginaba la escena... La gente tratando de escapar... los paramilitares disparando a discreción... las mujeres y los niños gritando, huyendo entre la maleza... el lamento de los heridos... 

En Chiapas se vive una situación de guerra o una ocupación militar, que al final es casi lo mismo. No es una guerra en el sentido común, con un frente y dos partes confrontadas. Yo nada más he visto una parte confrontada: el Ejército y los paramilitares. La otra parte, las comunidades indígenas, no están enfrentándolos, no tienen medios. Están rodeados, no tienen comida ni agua... Viven en condiciones infrahumanas. Son casi campos de concentración. No los reunieron allí a la fuerza, es cierto, pero cuando huyeron a esos lugares (se refiere a los campos de refugiados) los rodearon los paramilitares y el Ejército. Entonces esos campamentos se convirtieron en una especie de campo de concentración. 

Si alguna vez hubo en la historia de la humanidad una guerra desigual, no la hubo nunca como ésta. Es una guerra de desprecio, de desprecio hacia los indígenas. El Gobierno esperaba que con el tiempo se ¡acabaran! todos, simplemente eso. 

Pero ellos sobreviven, alimentándose de su propia dignidad. No tienen nada, pero lo son todo. Enfrentan la guerra con ese estoicismo que me impresionó tanto, un estoicismo casi sobrehumano que no aprendieron en la universidad, que consiguieron tras siglos de humillación. Han sufrido como ninguno y mantienen esa fuerza interior, una fuerza que se expresa con la mirada... La mirada de ese niño al que le han destrozado para siempre la vida... (Saramago conoció al pequeño de cuatro años Gerónimo Vázquez al que los paramilitares amputaron cuatro dedos en Acteal) Es algo que no se me borrará jamás de la memoria... Las miradas serias, severas, recogidas de las mujeres, de los hombres... son algo que está por encima de todo. Los indígenas no tienen nada, pero lo son todo. ¿Cómo es posible que después de tanto sufrimiento ese mundo indio mantenga una esperanza? ¿Cómo puede sonreír ese hombre de Polhó que nos acaba de decir "mañana puede que nos maten a todos, pero bueno, aquí estamos"? Es algo que no alcanzo a entender.

En Chiapas encontré un mundo que no comprendo. El mundo indio es un mundo donde el europeo no puede entrar fácilmente. Es como si me asomara a una ventana que da a otro mundo y, aunque lo tengo enfrente, no lo puedo entender. 

También descubrí otra realidad, la de un territorio ocupado militarmente. Un territorio donde los paramilitares y el Ejército son la uña y la carne juntas. Por una razón muy sencilla: de no ser así, los paramilitares no podrían haber hecho lo que hicieron y lo que siguen haciendo. Yo vi camiones del Ejército transportando a civiles que seguro no viajaban allí por la amabilidad de los militares. Minutos después de que abandonáramos Acteal hubo un acto de intimidación e hicieron hasta 30 disparos al aire. Esto sólo puede ocurrir si el Ejército da su bendición. Nada más fácil para el Ejército que identificar a los paramilitares y desarmarlos. 

Me parece esquizofrénico que el Congreso pueda estar debatiendo una ley (el Proyecto de Ley sobre Autonomía Indígena propuesto por el ejecutivo) supuestamente para resolver los problemas de las comunidades indígenas, como si fuera una ley normal, en situaciones normales para objetivos consensuados, cuando al mismo tiempo hay miles de desplazados que no pueden volver a sus tierras, con miedo a ser asesinados, mientras hay una ocupación militar clara en el territorio de Chiapas. Y mientras los paramilitares se pasean tranquilamente y hacen lo que quieren. 

¿Cómo es que no se empieza por pacificar la situación para después discutir una ley donde participen todos los sectores y todas las comunidades? 

Todo se ha hecho sometiendo a los indios de Chiapas a una presión incalificable y esto no puede llamarse humanidad. 

El pueblo de México tiene que reclamar a su Gobierno una paz justa y digna. Yo no puedo, sólo soy un escritor extranjero acusado de injerencia. El pueblo mexicano no puede quedarse parado, dejando que los gobernantes lo decidan todo, hay que bajar a la calle... no estoy pidiendo un levantamiento sino simplemente que las conciencias se manifiesten... estoy pidiendo una insurrección moral, desarmada, étnica... 

Acteal es un lugar de la memoria que no puede de ninguna manera desaparecer. Sabemos lo que ocurrió y no lo queremos olvidar. Chiapas es el cuerpo de México. La sociedad civil debería admirar no sólo a los indios sino a los que se levantaron para defender a esos mismos indígenas. 

De Chiapas me llevo no sólo el recuerdo, me llevo la palabra misma... Chiapas... La palabra Chiapas no faltará ni un solo día de mi vida. Si tenemos conciencia pero no la usamos para acercarnos al sufrimiento ¿de qué nos sirve la conciencia? Volveré a Chiapas, volveré". 

Transcripción de Javier Espinosa 

(Declaraciones concedidas a LA REVISTA por José Saramago (Portugal, 1922) en México DF tras su viaje a Chiapas el 14 y 15 de marzo. En su visita conversó con los supervivientes de la matanza de Acteal en el lugar de la masacre, recorrió después el campo de refugiados de Polhó y hasta se acercó al campamento militar de Majomut, sito en las inmediaciones del asentamiento indígena). 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Em 2003, Saramago perguntava sobre Portugal

Imaginar hoje o que Saramago se fosse vivo, poderia pensar sobre estes dias de Portugal.
Imaginar o seu pensamento, é recuar no tempo e procurar as suas perguntas, as suas questões.
Em 2003, perguntava "Onde está uma ideia de futuro para Portugal?"
Em 2014, estamos no futuro próximo, vivido, para responder à Saramago.
Cada vez mais, a ideia, o pensamento, o elementar princípio da ideia unificadora de Portugal - Não existe.



em, Revista Visão
José Carlos de Vasconcelos
16/01/2003

(...) Estávamos (com Mário Saramago) na sala a conversar sobre tudo isto e perguntei-lhe se tinha a certeza de que Portugal daqui a 50 anos ainda existiria - e ele disse-me que não...

Por passar a estar integrado nos Estados Unidos da Europa?
Porque não temos um projecto de País, um futuro próprio. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. Não há um querer próprio, as pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto! Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência e nada por trás.
Onde estão as ideias? 
Onde está uma ideia de futuro para Portugal? 
Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa?
Parece que ninguém quer pensar nisto, os governos todos navegam à vista da costa. Falta ousar ir mais além. (...)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

José Saramago e a temática da morte com uma referência a Célest Albaret "Monsieur Proust"



A morte.
O encontro com a morte.
O sentido da morte e como a enfrentar... sabendo que não é possível vencê-la.

Esta é uma pequena reflexão deixada, como legado para o futuro, para a interpretação da sua visão da morte.
"As Intermitências da Morte" é lançado por altura desta entrevista, de onde o fio da obra percorre a várias velocidades e tempos, circula desde... "e no dia seguinte ninguém morreu", até à morte que se deita e ama o Violoncelista...

Mas Saramago deixa a sua visão sobre este assunto (uma das...)

Revista Visão
3 de Novembro de 2005
José Carlos de Vasconcelos

(...) Não falo da energia ou rebeldia que esteja no livro, falo da que posso reconhecer em mim próprio. Dá-me muita alegria ter podido escrevê-lo já não com 81, mas quase 83 anos. O que exige um certo tipo de juventude (não digo juventude, essa não volta) e uma certa atitude mental perante a vida, já tão perto da morte...

Uma atitude diferente perante a vida e perante a morte.
Sim, sim. Eu passei pelo medo da morte entre os 17/18 anos, uma coisa terrível. Não talvez medo da morte, mas a consciência de poder morrer. Ia na rua e, de repente, parava como que fulminado por essa ideia: terás de morrer. Ficava frio.

O que é que te despertou? Estiveste numa daquelas situações de que se diz ter visto a morte à frente?
Não sei. Foi uma coisa da adolescência. Passou e nunca mais voltou. Tive situações complicadas, mas nunca, até hoje, vi a morte à frente.

Pode, como no romance, ter estado a teu lado sem dares por ela...
Isso sim. Nós viajamos com a nossa própria morte, se é que não a levamos dentro. E, curiosamente, quando estava a escrever este romance, li o livro de Céleste Albaret, Monsieur Proust, no qual refere que quando ele já estava muito doente dizia que tinha visto no quarto uma mulher gorda vestida de preto. E por falar em Proust, o meu título é muito proustiano, porque em À la recherche du temps perdu fala-se das «intermitências do amor». O título apareceu-me autonomamente, logo no princípio do livro, mas há uma ligação óbvia, através de um eco longínquo, embora quando ele me surgiu eu não tivesse consciência disso. (fim da entrevista)



Céleste Albaret, née sous le nom Augustine Célestine Gineste le 17 mai 1891 à Auxillac (Lozère) et décédée le 25 avril 1984 à Montfort-l'Amaury, était la servante dévouée de Marcel Proust.
Le 28 mars 1913, Céleste Gineste épouse Odilon Albaret, chauffeur de taxi dont Marcel Proust est un client régulier. En 1914, par l'entremise de son mari, elle devient la toute jeune servante de l'écrivain.
Accompagnant ses horaires étranges, ses lubies vestimentaires, alimentaires et sociales, son épuisement physique, elle lui reste fidèle jusqu'à sa mort, en 1922.
Dans l'après-guerre, Proust vit de plus en plus reclus. À sa manière, Céleste participe, en rédigeant sous sa dictée, en rassemblant et vérifiant ses informations, en assurant une part de ses contacts avec le monde extérieur ou en lui inspirant certains traits de caractère, à l'achèvement de son œuvre romanesque.
À la mort de Proust, Céleste ouvre avec son mari l'hôtel Alsace Lorraine, rebaptisé hôtel La Perle, situé 14, rue des Canettes, dans le VIe arrondissement de Paris, puis elle est chargée, de 1954 à 1970, de la garde du Belvédère, la maison de Maurice Ravel à Montfort-l'Amaury. Oubliée de tous, elle survit à la quasi-totalité des personnages célèbres qui, grâce à Proust, avaient entouré sa jeunesse. Elle est « redécouverte » dans les années 1960, notamment par Roger Stéphane, à l'occasion de l'émission Marcel Proust, portrait-souvenir (1962), et par le célèbre collectionneur et bibliophile Jacques Guérin. Sur les conseils de celui-ci, elle livre ses souvenirs, qui sont mis en forme dans Monsieur Proust1. À la même époque, elle vend à Jacques Guérin plusieurs ouvrages que Proust lui avait offerts et qui figurent aujourd'hui parmi les trésors les plus recherchés des bibliophiles français.
Par son dévouement à l'homme et par son respect pour le créateur, Céleste Albaret est considérée comme le modèle des auxiliaires de l'écrivain. Peu avant sa mort d'ailleurs, en hommage à une personnalité qui a participé intimement à l'histoire de la littérature et qui a grandement contribué à la préservation de ses textes, Céleste Albaret est faite commandeur de l'ordre des Arts et des Lettres.
Dans sa Recherche du temps perdu, Marcel Proust a immortalisé sa gouvernante sous le nom de Françoise. Dans Sodome et Gomorrhe, un personnage porte le nom de Céleste Albaret.



Interesse pela Astrofísica - Referência a David Christian

No compêndio de entrevistas realizadas por José Carlos de Vasconcelos, tal como em outros bastantes exemplos, muitas questões são deixadas em aberto. O caminho e evolução da sociedade. O homem que influi na sociedade através das suas dúvidas e questões. As fantasias dos dogmas das religiões. E fundamentalmente, a pergunta que aqui deixo neste pequeno trecho da entrevista - Quem diabo somos nós?
Este gosto pela Astrofísica, em forma aqui de confidência, mais do que enquadrar-se nas constantes interrogações de José Saramago, é uma extensão de si próprio - procurar respostas para..., e mesmo que não sejam encontradas (as respostas), que o individuo possa através dos tempos procurá-las e acima de tudo sempre questionar.




Revista Visão
3 de Novembro de 2005
José Carlos de Vasconcelos

(...)
Mas há outras perguntas... Alias, revelaste-me que te interessas cada vez mais pela Astrofísica.
Há desde logo outra pergunta: onde é que estamos no Universo? Já é possível desenhá-lo, sobretudo desenhar a nossa galáxia, já se sabe mais ou menos onde se encontra o centro de mil milhões de estrelas que a compõem e onde está o nosso sistema solar, a 20 milhões de anos-luz do centro da galáxia. Tenho aqui este livro do David Christian, Mapas do Tempo, que é uma obra notável (como a História de um Átomo), começamos a ter ideias, mas mesmo que amanhã encontremos uma explicação definitiva para a formação do Universo, enquanto tivermos um cérebro as certezas serão sempre poucas. E a pergunta manter-se-á: quem diabo somos nós? (...)




http://www.ted.com
Backed by stunning illustrations, David Christian narrates a complete history of the universe, from the Big Bang to the Internet, in a riveting 18 minutes. This is "Big History": an enlightening, wide-angle look at complexity, life and humanity, set against our slim share of the cosmic timeline.

http://www.ted.com/talks/david_christian_big_history


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Referência a Rainer Marie Rilke na génese de "As Intermitências da Morte"


Revista Visão
3 de Novembro de 2005
José Carlos de Vasconcelos

(...)
Começando pelo principio, os teus livros têm «nascido» de uma ideia central, base de tudo que vai acontecer,  que te surge subitamente, sem razão aparente, como uma espécie de iluminação. Como foi desta vez?
Estava a ler, já não pela primeira vez, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, de Rainer Marie Rilke, que tem páginas extraordinárias em que ele descreve a morte do pai. A certa altura interrompi a leitura, virei o livro, li a contracapa. E foi a referência mínima à morte, no texto do editor, que fez saltar a ideia: a morte passa a anunciar às pessoas que elas vão morrer. Assim nasceu este livro. No dia 1 de Novembro, véspera do Dia de Finados, de 2004. (...)


(O violoncelista e a morte)

Quem foi Rainer Marie Rilke

Informação via Wikipédia, aqui http://pt.wikipedia.org/wiki/Rainer_Maria_Rilke

Rainer Maria Rilke, por vezes também Rainer Maria von Rilke (Praga, Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca, 4 de dezembro de 1875 — Valmont, Suíça, 29 de dezembro de 1926) foi um poeta de língua alemã do século XX. Escreveu também poemas em francês.
Nasceu em Praga, na Boémia, (actual República Checa), então pertencente ao Império Austro-Húngaro, e mudou seu nome, originalmente René, para Rainer.
Rilke fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Em 1894 fez sua primeira publicação, uma coleção de versos de amor, intitulados Vida e canções (Leben und Lieder). Não exerceu nenhuma profissão, tendo vivido, sempre, à custa de amigas nobres.
Alguns anos depois, em 1899, Rilke viajou para a Rússia a convite de Lou Andreas-Salomé, a escritora e depois psicanalista, filha de um general russo, e que foi sua amante por longos anos. Sua passagem pela Rússia imprimiu uma inspiração religiosa em seus poemas. Rilke passou a enxergar a natureza, dadas as dimensões e exuberância das paisagens russas, como manifestação divina presente em todas as coisas. Sobre este aspecto publicou em 1900 a coleção Histórias do bom Deus.
Em 1901 casou com Clara Westhoff, da qual logo se separou. O século XX trouxe para a poesia de Rilke um afastamento do lirismo e dos simbolistas franceses com os quais ele se identificara. Em 1905, publicou O Livro das Horas de grande repercussão à época. Nesta obra, seus poemas já apresentavam um estilo concreto, bem característico desta sua fase.
Em 1902 foi para Paris, onde trabalhou como secretário do escultor Auguste Rodin entre 1905 a 1906. Rodin exerceu grande influência sobre o poema de Rilke, que se reflete em suas publicações de 1907 a 1908.
Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke morava em Munique e lá permaneceu durante todo o conflito. Antes de se mudar para Munique, ele viveu na região do Trieste e publicou, em 1913, a A vida de Maria (Das Merien Leben) e iniciou a redação de Elegias de Duíno (Duineser Elegien), texto que só viria a ser publicado em 1923. Duíno era um castelo na região de Trieste, Itália, onde Rilke morou por dois anos antes da Guerra, a convite da princesa Maria von Thurn und Taxis. Após o conflito na Europa, Rilke mudou-se para a Suíça, a última de suas pátrias de eleição, onde viveu seus últimos anos.
Rilke possui uma obra original, marcada pelo tratamento da forma e pelas imagens inesperadas. Celebra a união transcendental do mundo e do homem, numa espécie de "espaço cósmico interior".
Sua poesia provocava a reflexão existencialista e instigava os leitores a se defrontarem com questões próprias do desencantamento da primeira metade do século XX.
Sua obra foi influenciada pelo Expressionismo e influenciou muitos autores e intelectuais de diversas partes do mundo.


"Ser amado é consumir-se na chama. Amar, é luzir com uma luz inesgotável. Ser amado é passar; amar é durar."
Fonte - Cadernos de Malte Laurids Brigge


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Uma reflexão sobre o "homem" - o seu caminho provável


José Saramago tinha uma característica, muitas vezes considerada incómoda.
Pensar. Reflectir. Ir buscar ao passado de... recuperá-lo, para um presente, e alertar com algum pessimismo e muito cepticismo o futuro.


 Revista Visão
16 de Janeiro de 2003
José Carlos de Vasconcelos

O ser humano... de forma global

(...)
Enfim, como é o retrato do poeta enquanto jovem, aos 80 anos?
(risos) Em primeiro lugar, acho que sou uma boa pessoa (aliás, estou casado com uma mulher que não me permitiria que não o fosse...). Em segundo lugar, creio que o trabalho que estou a fazer tem  uma qualidade, que não desmerece do que fiz antes: estou ainda com capacidade e O Homem Duplicado de alguma maneira o demonstra.
Sou uma pessoa feliz e ao mesmo tempo infeliz, ou pelo menos não tão feliz assim. Porque vivo neste mundo, vivemos todos, num mundo que não devia ser o que é. Não só injusto, mas cruel. Não percebo como é que após séculos e séculos, milénios até, de estudo, cultura, ciência, arte, filosofia, de todas as maravilhas que ficaram por aí, somos esta espécie absolutamente desprezível. Neste sentido, desprezo-me a mim mesmo por lhe pertencer. Ah!, tem gente maravilhosa, tem heróis, santos... Tem, mas como não são eles que governam o mundo... A bondade de hoje é alguma coisa que dá vontade de rir! E isso (basta-me pegar num jornal, saber o que se passa pelo mundo) dá-me um mal-estar todos os dias...
Por isso podemos dizer que esta casa é uma pequena ilha de harmonia onde vivem pessoas que estão bem e de bem uma com a outra; mas o mundo lá fora... Há quem vá vivendo conformado, ou dizendo que não pode fazer nada; outros, porém, em que, quase dá vontade de dizer: desgraçadamente, me incluo, não se conformam.

Quer dizer que hoje não és um homem de esperança, pelo menos com esperança?
Não. Não tenho nenhum motivo para ter esperança. No plano estritamente pessoal, podemos ter razões para isso. Mas se falarmos numa esperança que nos envolva a todos, ela não é possível num mundo como este. Como será daqui a 50 ou cem anos? Estamos no fim de uma civilização e não temos ideia nenhuma do que vem aí.
Nem sabemos se no futuro o ser humano terá alguma coisa a ver com o actual, ou se será outra coisa que deva passar a chamar-se de forma diferente. (...)

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Saramago e a força que sentia do seu público - "Sou uma pessoa amada"

Muitas vezes me questionei:
Qual seria a sensação que Saramago experimentava, ao receber do seu público, o reconhecimento. Como é que a mensagem era recepcionada e intuída?
Saramago, autor tardio dizem muitos, para mim, escritor que chegou até ao povo quando teria de ter chegado. Da entrevista dada à revista Visão (16/01/2003, com José Carlos de Vasconcelos), extrai-se este sentimento "Sou uma pessoa amada, tenho a certeza absoluta".
A atribuição do prémio Nobel, trouxe muitos leitores, mais internacionalização da obra, mas livros traduzidos em mais línguas, mais solicitações, mais exaustão pessoal, mais respostas às mesmas perguntas.
Lê-se na entrevista as recepções por este mundo fora, com centenas e milhares de pessoas para o ouvirem, verem, pedirem um autógrafo, o tal que seja especial - lembro-me de estar em longas filas nos idos tempos de noventas, na feira do livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII... realmente o povo tinha por ele uma enorme gratidão pela obra e pelas palavras.
Hoje, nos fins de 2014, do vários cantos deste planeta chegam relatos e memórias, evocações e lembranças.
Os Saramaguianos e as Saramaguianas, encetaram em si um desígnio muito especial - o homem morreu mas a obra tem descententes.




Entrevista de José Carlos de Vasconcelos para a revista Visão em 16/01/2003
(…)
E andaste aí pelo mundo, quase de uma ponta a outra. Como é que resististe, até fisicamente?
Bom, não foi fácil. E continua. Ainda no ano passado, só nos Estados Unidos estivemos, eu e a Pilar, quase um mês, percorrendo-os de uma costa a outra. Em meados de Dezembro chegámos de uma volta de mais um mês, por Portugal, Espanha, Itália. E os convites não param.

Isso tudo, além de muito cansativo, não é, a partir de certa altura, muito chato? Ou os momentos gratificantes fazem com que valha a pena?
A atitude com que vou para essas coisas é muito parecida com a que te referi quanto às entrevistas. Vou contrariado, mas à terceira palavra já estou onde tenho de estar. E essas coisas dão-me muitas alegrias. A maior, perdoe-se-me a vaidade ou presunção, é saber que para centenas ou milhares de pessoas que estão ali, o que lhes vou dizer tem importância. Podem estar enganadas, ou iludidas, mas tem importância para elas. Quando vou a Bogotá e me encontro com um teatro repleto, com 1700 pessoas lá dentro para ouvir falar de livros, e cerca de mil pessoas cá fora a protestarem por não conseguirem entrar; quando na grande praça de Cidade do México apresento um livro (A Caverna) para dez mil pessoas; quando em La Antigua, na Guatemala, havia mais de mil pessoas; quando vou dar uma conferência e me encontro com uma fila de gente que dava a volta toda a um quarteirão para entrar numa sala que já estava cheia; quando em Buenos Aires, a autografar livros na Livraria Ateneo, havia cá fora, sob chuva intensa, dezenas de pessoas à espera de conseguirem entrar – então, sem nenhuma vaidade, tenho de concluir que sou uma pessoa amada. Não é estimada – é amada. Se há alguma coisa de que tenho a certeza absoluta é deste afecto especial que liga muito dos meus leitores, apetecia-me dizer quase todos, em relação ao escritor, mas sobretudo em relação à pessoa. E isso, que acontece também em Espanha, na Itália, no Brasil, em toda a parte, dá-me a maior alegria.

A que o atribuis, dado haver escritores também muito lidos e famosos com que isso não acontece? Ao próprio tema dos livros e às tais opiniões que neles também dás?
Julgo que sim. Essas pessoas não me conhecem, não vieram aqui a casa ver como eu era. Devem é ter encontrado nos livros uma voz e assuntos que lhes interessavam. E um certo tom, a minha tal presença nos romances que escrevo, a implicação constante em cada página, em cada linha, em cada palavra. Eu há muito digo que todos os livros, e já agora em particular os meus, deviam levar uma cinta com estas palavras: atenção, este livro leva uma pessoa dentro. É isto no fundo: os meus leitores encontram nos meus livros a pessoa que eu sou e gostam. Que queres que eu te faça (risos) e que queres te diga mais? Sou um homem de sorte, até nisso sou um homem de sorte.

Há algum caso, alguma história, que te tenha marcado mais?
É muito difícil. Tenho conversado com Pilar sobre isto: as Obras Completas estão incompletas porque lhes falta o outro lado, ou como agora se diz a recepção dos leitores. Gostaria, depois de já cá não estar, que a Pilar organizasse, para publicar, cartas absolutamente extraordinárias, muitas vezes de pessoas sem qualquer preparação académica, de uma emoção raras, que me chegam de toda a parte. E que juntasse aos 30 e tal volumes que eu deixe escritos um ou dois com essas cartas.