Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"Doação do espólio de José Saramago à Biblioteca Nacional de Portugal" - Comunicado da Fundação José Saramago


Comunicado oficial emitido pela Fundação José Saramago, e que pode ser recuperado aqui
em http://www.josesaramago.org/doacao-do-espolio-jose-saramago-biblioteca-nacional-portugal/

"No dia 10 de Dezembro, quando passam 18 anos da entrega do Prémio Nobel a José Saramago, terá lugar na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) um acto formal de entrega do Espólio de José Saramago à BNP. Desta forma, dá-se seguimento à vontade do escritor quando, antes e depois do Prémio Nobel, entregou à BNP alguns documentos, entre eles o original de O Ano da Morte de Ricardo Reis e o Diploma do Nobel.

«Para aqueles a quem cabe continuar José Saramago, família e fundação, esta era a sua 
vontade e será respeitada» – Pilar del Río, presidenta da FJS

Trata-se de uma doação sem contrapartidas financeiras. O espólio podia ter sido vendido a instituições privadas, mas fica em Portugal tornando os portugueses, de alguma forma, seus herdeiros.  A BNP assegurará o tratamento, conservação e disponibilização para investigadores e sempre em colaboração com a Fundação José Saramago.

Serão doados originais – manuscritos e datilografados – de romances do escritor, assim como correspondência trocada com amigos e outros escritores e cadernos de notas preparatórias para os livros, materiais que constituem a oficina de um escritor.

Por enquanto não há previsão de prazos para a conclusão da entrega dos materiais."

quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Rever, repensar, reescrever." - Manuscrito de página de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984)

"Rever, repensar, reescrever."
“O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984)


"Saramago, José, 1922-2010
O ano da morte de Ricardo Reis : romance / José Saramago
1983; [4], 365 f. ; 30 x 21 cm;

Dactiloscrito a preto com emendas autógrafas a esferográfica azul e preta. - No canto superior direito da 1.ª folha do texto, uma nota autógrafa, riscada: «Rever, repensar, reescrever». - Tem como suporte folhas lisas A4, com numeração de [1] a 365 (correspondentes ao número de páginas do romance); inclui mais três folhas: folha de rosto, tábua de publicações e epígrafes; nos versos das folhas 39 e 341, fragmentos de texto dactiloscrito, um deles riscado e, no verso da folha 216, cálculos aritméticos. - Versão muito próxima da editada (Caminho, 1984), embora esta última não contemple todas as emendas deste documento e introduza outras alterações. (BNP N45/11)"

Pode ser consultado aqui, via página da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sobre o arquivo da Biblioteca Nacional de Portugal - Texto “Depois de Ein­stein já não há por aí quem ouse”

“Na ver­dade, ninguém sabe para o que nasce. Nem as pes­soas, nem os livros”
Última frase que pode ser lida na imagem digitalizada

José Saramago doou algum do seu espólio à BPN, e que pode ser consultada nos links que se indica.


Esta crónica de Isabel Coutinho do jornal Público, foi publicada no suple­mento Ípsilon, do dia 2 de Julho de 2010, e pode ser aqui consultada através do link, 

"Numa carta de 22 de Março de 1994, José Sara­m­ago escrevia: “Um dia destes, com vagar, vou dar uma volta aos meus des­or­de­na­dos arquivos. Há car­tas, papéis, man­u­scritos que não tenho o dire­ito de con­ser­var como coisa minha, pois na ver­dade per­tencem a todos.” E pouco depois, entre­gou à Bib­lioteca Nacional de Por­tu­gal (BNP) a primeira parte da doc­u­men­tação que faz agora parte do fundo da BNP e que foi aumen­tada em anos posteriores.

Quem conta esta história é Fátima Lopes, do Arquivo de Cul­tura Por­tuguesa Con­tem­porânea, na nota explica­tiva que se pode ler na secção Colecção José Sara­m­ago da Bib­lioteca Nacional Dig­i­tal, no “site” da BNP. Foi por causa da exposição “José Sara­m­ago: a con­sistên­cia dos son­hos”, que esteve no Palá­cio Nacional da Ajuda, em 2008, que foi cri­ado o espaço ded­i­cado ao escritor.

A BNP con­siderou que con­tribuiria, com­ple­men­tar­mente, para a divul­gação dos méto­dos de tra­balho de José Sara­m­ago através da dig­i­tal­iza­ção dos man­u­scritos de sua auto­ria exis­tentes no Arquivo de Cul­tura Por­tuguesa Con­tem­porânea, escreve, por sua vez, o direc­tor da Bib­lioteca Nacional, Jorge Couto. “Neste con­junto destaca-se ‘O ano da morte de Ricardo Reis’ (edi­tado em 1984) quer pela importân­cia do livro no con­texto da pro­dução literária sara­m­aguiana, quer porque os mate­ri­ais preparatórios, incluindo uma agenda de 1983 adap­tada ao ano de 1936, per­mitem anal­isar a metodolo­gia adop­tada na elab­o­ração dos seus romances, bem como as cor­recções e aper­feiçoa­men­tos que intro­duzia nos dac­tilo­scritos, ao tempo em que ainda uti­lizava máquina de escr­ever”, acrescenta.

Esta agenda tem uma capa azul e foi escrita por Sara­m­ago a tinta azul, com risca­dos e sub­lin­hados a mar­cador verde. É de 1983 mas os dias da sem­ana foram emen­da­dos pelo autor para a fazer cor­re­spon­der a uma agenda de 1936.
Mas avisa a Bib­lioteca Nacional: “Con­tém ano­tações diárias reti­radas da leitura da imprensa da época, sobre a vida quo­tid­i­ana e política: boletins mete­o­rológi­cos, venci­men­tos de escrit­urários ou con­tín­uos, a falta de carne em Lis­boa, nomes de sabonetes e de pro­du­tos de cos­mética, falec­i­men­tos de fig­uras da cul­tura por­tuguesa ou estrangeira, espec­tácu­los de teatro ou musi­cais, com locais e preços, numerosas refer­ên­cias aos prin­ci­pais acon­tec­i­men­tos históri­cos ocor­ri­dos em Por­tu­gal, Espanha e tam­bém na restante Europa durante o ano de 1936, período em que decorre a acção do romance.”

No “site” os leitores podem per­cor­rer a agenda página a página (em PDF ou JPG). Estão lá tam­bém os apon­ta­men­tos de Sara­m­ago para a escrita do romance (onde se percebe como o livro era arqui­tec­tado pelo autor), uma “Biografia de Ricardo Reis” (onde se lê: “Não casou. Se teve amantes no Brasil, não as chega a ter depois de regres­sar a Por­tu­gal”); uma “Sín­tese (absurda, idiota, necessária) das odes de RR” e apon­ta­men­tos históri­cos de 1936. Está tam­bém disponível para con­sulta “O Embargo I e II” (dac­tilo­scrito com emen­das) e “As opiniões que o D.L. teve / José Sara­m­ago”, com­pi­lação de alguns dos tex­tos que ao longo de quase dois anos, 1972–73, foram pub­li­ca­dos por Sara­m­ago, anon­i­ma­mente, no “Diário de Lis­boa”. E ainda o autó­grafo assi­nado “Depois de Ein­stein já não há por aí quem ouse”, que ter­mina com a frase: “Na ver­dade, ninguém sabe para o que nasce. Nem as pes­soas, nem os livros”. Pois é.

Colecção José Sara­m­ago na BNP