Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Comemorações do 15.º aniversário da Biblioteca Municipal José Saramago (Loures)

A notícia do evento pode ser recuperada e consultada aqui 
em http://www.cm-loures.pt/Conteudo.aspx?DisplayId=2515

"Dando início às comemorações do 15.º aniversário da BMJS, o vice-presidente da Câmara Municipal de Loures, Paulo Piteira, começou por ler uma carta de Fundação José Saramago, que se demonstrou reconhecida pelo nome do escritor estar associado a esta Biblioteca.
Paulo Piteira afirmou ser “um dia muito feliz para quem trabalha nesta casa da cultura que pertence à população” e “que tem prestado um grande serviço à comunidade”, sendo “um espaço de literacia” que “possibilita o acesso à cultura, ao lazer e ao saber”.
O vice-presidente destacou o trabalho desenvolvido ao longo de 15 anos, evidenciando a vertente social, com o “trabalho muito estreito com as crianças” e “em que temos procurado apoiar as atividades de outras bibliotecas e coletividades”.



“Este ano é particularmente feliz porque inaugurámos a Biblioteca Municipal Ary dos Santos, que passou a servir toda a área oriental do concelho” e “hoje podemos sentir-nos orgulhosos do percurso que temos feito no Município”, afirmou Paulo Piteira, que realçou a “importância que o poder local tem no país, na altura em que festejamos 40 anos de democracia autárquica”.
Com a leitura de um excerto de Levantado do Chão, uma das obras fundamentais de José Saramago, Paulo Piteira, terminou a sua intervenção dedicada aos 15 anos de existência da BMJS.
Cerca de uma centena de pessoas assistiu à inauguração da exposição de artes plásticas Units of Order, de Mónica Capucho, que explicou ter optado “por materiais de construção que se integrassem no espaço da biblioteca” e na qual utilizou “jogos de linguagem”. A exposição está patente até 28 de janeiro de 2017, nos espaços da biblioteca.

Carlos Marques e o "Grupo Algures Colectivo de Criação"

"Seguiu-se, na sala Multiusos, o concerto-teatral Levantei-me do Chão, baseado nas obras de José Saramago, interpretado por Carlos Marques, do grupo Algures, Coletivo de Criação. As comemorações do aniversário terminaram com os elementos do Entrelinhas, comunidade que utiliza a biblioteca como espaço de convívio e trabalho, a lerem um poema e a cantarem os parabéns à BMJS."

quinta-feira, 21 de abril de 2016

"Levantei-me do Chão" de Carlos Marques baseado na obra de José Saramago (via revista Blimunda #46 - Março 2016)


A revista Blimunda, edição #46 de Março de 2016, apresenta em detalhe a sequência do espectáculo. Pode ser consultado e recuperado (download gratuito), aqui
em https://pt.scribd.com/doc/305720205/Blimunda-46-marco-de-2016

"Levantei-me do chão é um projecto de Carlos Marques/Algures, co-financiado pela Dgartes e pela autarquia de Montemor-o-Novo. Após andar por onde as personagens do Levantado do Chão de José Saramago andaram a sobreviver, o projecto chega finalmente a Lisboa, ao Auditório da Fundação José Saramago no dia 30 de março, sob a forma de concerto teatral em torno das palavras de Saramago. Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro. A partir de Levantado do Chão de José Saramago e outros textos: "Fall Collection" de Rui Pina Coelho; "O Medo de Existir" do José Gil, "A paisagem e as palavras que lá estão" de Fernanda Cunha, do discurso de Pilar Del Río aquando da sessão comemorativa dos 30 anos da obra, inspirado pelos filmes Network de Sidney Lumet e Asas do Desejo de Wim Wenders e Peter Handke; pela música de Gilberto Gil, Man Man, Zeca, Zé Mário, Fausto, Sérgio Godinho... entre tantos outros."

Fotografia e disposição cénica do palco

Dois repórteres, ouvem-se estrondos, bombas gritos.
Repórter 1 - Um enorme estrondo. Não se sabe de onde vem. Milhares de pessoas na rua.
Repórter 2 - Um enorme estrondo. Milhares de pessoas na rua. Uma enorme manifestação. Polícia nas ruas. Milhares.
Repórter 1 - Um estrondo. Este foi o maior. Estilhaços por todo o lado.
Repórter 2 - Há um cão imóvel. Um cão no meio da praça, parado.
Repórter 1 - Toda a gente na rua. Uma confusão enorme. Uma explosão. Um estrondo. Todos correm de um lado para o outro. Há uma massa enorme de gente que ocupou a praça principal da cidade e que – Ouve-se um novo estrondo  –Atenção, um novo estrondo. Há uma massa enorme de gente que ocupou a praça principal da cidade e que – Ouve-se um novo estrondo  – Mais um estrondo. Montras partidas. Há vidros por todo o lado.
Repórter 2 - Atenção. Há um homem na praça.
Repórter 1 - É um homem que perdeu o emprego e que veio para o meio da praça.
Repórter 2 - Parado? No meio da confusão. Toda a gente corre. Menos ele. É isso? Não sai dali há horas. Está ali parado há horas. No mesmo sítio.
Repórter 1 - Acho que mexeu uma mão.
Repórter 2 - Deve ser um marxiano, do planeta Marx. Do vermelho planeta Marx. O homem desempregado.
Repórter 1 - A praça encheu-se de gente. Toda a gente foge, de um lado para o outro.
Repórter 2 - O homem desempregado continua pregado no meio da praça – ESTRONDO
Repórter 1 - Outro estrondo, o maior, Há roupa, madeira, mobília – ESTRONDO 
Estilhaços por todo o lado, É impossível dizer o que se está a passar. Um estrondo.
Repórter 1 - O fumo dissipa-se, Há pouco ouviu-se mais uma explosão, Um estrondo. Deve ser um marxiano, do planeta Marx. Do vermelho planeta Marx.
Repórter 2 - O fumo dissipa-se, Tudo assenta, mais tarde ou mais cedo.
Repórter 1 - O que é que ele tem na mão?
Repórter 2 - Os estilhaços, Os pensamentos.
Repórter 1 - É um homem que perdeu o emprego e que veio para o meio da praça.
Repórter 2 - Com cartas de amor na mão?! Aquilo não são cartas de amor. Aquilo são… -
Repórter 1 - Não consigo ver. Parece um livro...
Repórter 2 - Parecem notas antigas ... que saíram de circulação.
Repórter 1 - Não consigo ver. Seguramente São papéis, mas não percebo bem o que...
Outro estrondo enorme.Um homem atravessa o palco coberto de panos brancos que escondem mobiliário. Levanta um muro ao fundo. Por baixo dos panos estão instrumentos, microfones, um enorme aparato do que antes foi um estúdio ou um palco de um concerto. Ele começa a tocar.

Canção 1 - "Luta pelo pão"
"Luta por trinta e três escudos
Luta pelas oito horas
Contra o medo da morte 
Luta por amanhã
Medo de fuzilamentos,
Contra a manipulação.
Luta por eleições livres
Luta por amanhã
Luta p´lo pão, 
Luta p´lo pão 
Luta, luta, luta, luto.
Contestação, Contradição, Reclamação
Impugnação, oposição, indignação 
Morreu a proletária ditadura
A ditadura do mercado já nasceu há muito 
Encurralados, crucificados
Nos malabarismos dos mercados
Luta por 40 horas
não à privatização luta pela água fresca
Luta pela alimentação"


"Canção 2 – Tanta palavra"
"Primeira Geração: Tempo do silêncio e da resignação 
Segunda Geração: Tempo das perguntas, levantem-me do  chão 
Terceira Geração: Tempo da resistência, levantem-se do  chão 
Quarta Geração: Tempo de liberdade, Levantados do chão 
Quatro Gerações, terríveis condições
mudança ao longo dos tempos
Muitas privações, efabulações, uma só família Mau Tempo 
Domingos e Sara casaram 5 filhos tiveram
O mais velho é João que casou com Faustina
Três filhos tiveram: António, Amélia e Gracinda
Amores e paixões no meio de contradições.
Tanta palavra, tanta página, tanto verso, tanto dizer 
O homem com que mais aprendi não sabia ler nem escrever 
António é narrador, Amélia vai pra Lisboa, Gracinda se enamorou
O coração disparou por Manuel Espada e mais tarde se casou
Um rebento tiveram, filha da liberdade Seu nome Maria Adelaide e acabou-se a austeridade 
Gente, solta e miúda, que veio com a terra
Mas que não está registada na mesa da escritura
Tanta palavra, tanta página, tanto verso, tanto dizer 
O homem com que mais aprendi não sabia ler nem escrever 
Cantemos ainda Lambertos, Norbertos, Latifundibertos, Etctribertos
Gente de origem germânica que não muda de nome,nascidos uns dos outros
Os donos da terra, que serão sempre os mesmos
Papões, comilões registados na escritura
Com o sangue nas mãos são martelos para os cães....
Aí está a terra, seus donos, o pão e o trabalho"

Após o espectáculo, Carlos Marques falou com o público, 
num momento em que todos sentiram fazer parte desta arte de palco

"Memória da Maria Adelaide"
"O que mais há na terra é paisagem, por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou. A paisagem é sem dúvida anterior ao homem. Não faltam cores a esta paisagem... tanta paisagem.
Um homem pode andar por cá uma vida inteira e nunca se achar, se já nasceu perdido. E tanto lhe fará morrer chegada a hora. É sabido que as paisagens morrem porque as matam, não porque se suicidem. Mas isto são histórias que levam séculos a contar.
Há livros que não têm pressa de ser lidos.
Há livros que não têm pressa de ser lidos.
Há uns anos atrás deram-me um livro que não conseguia ler. Lia uma página, duas e não conseguia passar dali. 
Não percebia nada, era confuso, não conseguia passar da segunda página.
Se calhar não tivemos nem poesia suficiente, nem teatro suficiente, nem música suficiente, arte suficiente, nem educação alargada que nos desse alguma coisa diferente disto tudo.
Opá, lê em voz alta – Então, li em voz alta.
Escutei as palavras, como se me pertencessem, como se fizessem parte da minha história. Mas até parece que é proibido consumir poesia... pode haver um perigo de contaminação! “Quando a palavra da poesia não convier à política, é a política que deve ser corrigida” disse a Sophia."



Canção 3 – "Song Train ou o Princípio"
"Chamo-me Domingos Mau-Tempo e sou sapateiro – Mau tempo trouxe vossemecê. É assim que começa a saga desta família. Numa carroça, Domingos, bêbado, sua mulher oprimida Sara e o filhote João de olhos azuis. 
De terra em terra Sara vai engravidando e totaliza cinco filhos e Domingos, na errância dos caminhos acabará por se enforcar. Sara acabará louca.
Com o suicídio do pai, é chegada a vez de João Mau Tempo de ser o novo homem da casa. Dono de coisa nenhuma, pois nem merenda leva quando cava.

Todos os dias levanta-se ainda noite fechada, caminha meio a dormir com o estômago frouxo até ao lugar do trabalho e “ós depois”, até o sol posto, para tornar a casa, outra vez de noite morto de fadiga, se não é já transe de morte.

Passa o tempo dá-se a Primeira Grande Guerra... e muito comia a guerra. À guerra vão os heróis, mas João não tem corpo de herói. Está crescido o rapaz! Mas não tem corpo.
Não tem corpo, mas apaixona-se. E quem é que nunca se apaixonou? Conhece o seu grande amor, Faustina, começam a namorar e decidem casar, porém como a família da donzela é contra, fogem, em pleno inverno, levando um pedaço de pão com chouriço para comer pelo caminho: de mãos dadas os dedos tremiam, e talvez rendidos pelo medo, pelo frio e pelo cansaço acharam-se deitados. Os olhos fecharam-se, o cérebro tentou parar o tempo, e o coração disparou.
E em pouco tempo perdeu Faustina a sua donzelia, e, quando terminaram, lembrou-se João do pão com chouriço, e como marido e mulher o repartiram.

Faustina minha mulher que comigo repartiste o pão com chouriço numa noite de inverno e ficaste com a saia molhada, tantas saudades. Isto dirá João quando morrer.
É bonita esta história, não é?
Três filhos tiveram: António, Amélia e Gracinda.
Enquanto isto o povo continua a viver oprimido pelos latifundibertos. É bom, dizia o “papãoberto” no seu jantar de aniversário, que eles nada saibam, nem ler nem escrever nem contar nem pensar, que considerem e aceitem que o mundo não pode ser mudado, que este mundo é o único possível, tal como está, que só depois de morrer haverá paraíso, que só o trabalho dá dignidade e dinheiro.

Uns porém já se começam a levantar, naquele singular sentido que é acordar em pleno meio dia e descobrir que um minuto antes ainda era noite.

O tempo passa, os miúdos cresceram, e António, o filho mais velho, já começou a trabalhar, trabalhar, trabalhar..."



Canção 4 – "Oh minha mãe dos trabalhos"
"Ceifar, gadanhar, debulhar | malhar o centeio, tapar o palheiro,
Lavrar, enfardar, semear | espalhar o adubo, enxertar as vinhas
Podar, argolar, montear | abrir as covatas,
Cavar, varejar, ensacar | trabalhar, trabalhar, trabalhar

Oh minha mãe dos trabalhos, oh minha mãe dos trabalhos
Para que trabalho eu, ioai para quem trabalho eu
Trabalho mato o meu corpo, trabalho mato o meu corpo
Não tenho nada de meu, para quem trabalho eu

Diz-me lá patrão Alberto, Diz-me lá patrão Lamberto
Que triste pensar o teu, Que triste pensar o teu
Se não mudares de sentido, Se não mudares de sentido,
Morres tu e morro eu, Que triste pensar o teu…

Ó minha mãe tenho sede, Dê-me "auga", quero beber.
Tenho sede e tenho fome, Ninguém de mim quer saber.
O que aí vai, santo deus, de palavras tão bonitas, tão de enriquecer os léxicos, bem aventurados dos que trabalham. 

Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.

Salazar já havia assumido o poder. Entre os trabalhadores começa a haver burburinhos, reuniões clandestinas. Mas os patrões não são estúpidos. NÃO!!!

Sabem lá eles o que são greves, são rapaziada
mas quatro vão presos duma assentada e quando soltos:
Rapazes, tenham cuidado, nunca mais voltem a fazer terrorismo e não se iludam com doutrinas falsas.
E de repente a vida vira-te do avesso e descobres que o avesso é o teu lado certo.
Um jovem idealista, chamado Manuel Espada se destaca, por ser revolucionário."



Canção 5 – "Quotidiano"
Um homem olha para cima, desesperado outro tropeça
Um cantor estica a cara, uma criança chora na rua
Um homem tem uma pedra em cada mão
Outro grita à carga no meio da confusão
Que mundo é este em que vivemos? Tudo falha podes sempre chorar

Para te fazeres entender tens de por a música a tocar
Manuel Espada acabará por se apaixonar por Gracinda Mau Tempo, irmã de António que será grande contador de Histórias. E quem é que nunca se apaixonou?
Gostava de namorar contigo.
Ela respondeu, apenas olhando, foi quanto bastou. Mais tarde irão casar!
Vão ter filhos, vão ser felizes para sempre. Para sempre mesmo, porque já vivem numa sociedade justa. Livre. Que se questiona, que se organiza. Com igualdade de oportunidades. Homens e mulheres com os mesmos salários. Possibilidade de escolha.

A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Liberdade. A sério. 
E vivem da riqueza que produzem. Podia ter sido isto que aconteceu, mas não. Não foi nada disso que aconteceu. Mas podia ter sido. Brecht explica isto bem melhor que eu.

É o mesmo que acontece no romance com o Zé Gato. Um herói que não é bem um herói, mas podia ser ou então é-o em sonhos... nem sei bem. Eu gosto de pensar que é.O Zé Gato passava o tempo a roubar os ricos, nunca roubou os pobres. Roubava animais, hortaliças, as espingardas dos feitores, roubava tudo e claro está dinheiro. E nunca era apanhado... era assim tal como no faroeste: um justiceiro da série Bonanza.
Só anos mais tarde é que foi pilhado em Vendas Novas. Estava amantizado com uma mulher que vendia hortaliça. Dizem que foi ela que o denunciou, após uma acesa discussão, mas isso não sei. Dizem que o enviaram para Lisboa e depois foi para as colónias como polícia do estado... custa-me a crer, dizem também que o mataram em Lisboa. Dizem tantas coisas. Tinha coisas boas este Zé Gato... uma vez encontrou uma mulher a chorar que lhe contou que o Parrilhas (um da sua quadrilha) lhe tinha roubado o aviozito. O Zé Gato não esteve de modas, foi direito ao Parrilhas, parecia uma flecha, deu-lhe a maior sova da sua vida. Coitado do Parrilhas, mas foi bem feito! Dizem que só se meteu naquela vida de ladrão, porque não ganhava para comer no trabalho.

E depois vem aquele capítulo, mesmo no meio, na terceira geração, no tempo da resistência.
Germano Santos Vidigal por inteiro. Um livro composto páginas e páginas e páginas, reuniões clandestinas, torturas, ameaças, agitações políticas. Por 33 capítulos. No 17.º – praticamente a meio – levam--no dois guardas, levam-no da praça, à saída da porta juntam-se mais dois, parece mesmo de propósito, é tudo a subir, para o posto, como se estivesse a ver um filme sobre Cristo ou outro mártir qualquer. E já na sala vemos através daqueles olhinhos compostos, são dois olhinhos e cada olhinho é feito de mil olhinhos pequeninos naquele carreirinho – até parece que vemos cada punhada com a força de mil murros, e o sangue é um mar latifúndio.



Canção 6 – "Zé Gato"
"Sigismundo Canastro andava à caça, ele nem era nada desajeitado a caçar, não senhor. Nessa altura andava sempre com um canito que havia ensinado para andar nas caçadas. E num dia no meio do mato alevanta-se uma perdiz e ela vai como um raio. O Sigismundo mete a espingarda à cara e BUM ... mas nem com um bago de chumbo acertou no bicho. Mas o Constante, era assim o nome do canito, corre em direção à perdiz e sumiu-se-lhe. Por mais que o dono chamasse, assobiasse, o animal não aparecia.
Passados dois anos calhou ir para aqueles lados e de repente o que é que ele vê? O esqueleto do cão, ali de pé, a marrar o esqueleto da perdiz, e estavam naquilo há dois anos, cada qual na sua firmeza.Parece que estou a ver, o “Cãostante”, com o focinho esticado, a pata alevantada, não houve vento, nem chuva que lhe soltasse os ossos.

Não houve vento, ou chuva que lhe tirasse a firmeza. Qual coluna vertebral, erguida, firme, fiel.
Devia ter lido mais. Saber mais. Mais Constante. Devia ter contado mais histórias. Repetido a cassete mais vezes. Há uns anos atrás contava histórias para mudar o mundo,Hoje repito a cassete para que o mundo não me mude a mim. Para não me contentar com isto.

Devem achar que sou um marxiano, que acabei de aterrar do Planeta Marx, do vermelho planeta Marx e que venho aqui para os conquistar, para os colonizar.Passaram-se mais de 40 anos sobre a “madrugada que eu esperava. O dia inicial inteiro e limpo”. Gracinda casa-se com Manuel Espada terão uma menina – Maria Adelaide – é ela que assiste ao fim da ditadura. Não! É ela que assiste à festa de Abril."

Memória de Maria Adelaide
É como se tivesse vivido sempre com os olhos fechados e agora, enfim, os tivesse ‘abrido'.


Canção 7 – "Sou mulher de trabalho" a partir de “Canção Sem Maneiras” dos GAC
"Senhores, sou mulher de trabalho,
e falo com poucas maneiras, porque as maneiras,
são como a luva que calça o ladrão.
Às vezes, eu ponho-me a pensar,
na vida das trabalhadeiras, e nas canseiras,
com que ganhamos a fome e o pão.
Há tanta gente como eu, tantos que pensam como eu, 
Sou mulher de trabalho.
enquanto não formos nós a mandar, O fascismo que vai regressar.
Sou mulher de trabalho

A menina cresceu e cedo percebeu que não foi criada para ser princesa, mas tem sonhos. Quem não os tem?Maria Adelaide sonhou com uma senhora empunhando uma bandeira com as maminhas ao léu. Sonhou que fazia parte de uma democracici. Que tinha voz activa numa democracra... onde se discutia tudo até a própria demomomomo... e reparou que a senhora das maminhas ao léu era a própria dededede... e que estava junto de uma outra senhora que segurava um archote na mão e que lhe dizia “vai correr tudo bem”.

Às vezes, cheguei a acreditar,
que a nova democracia, acabaria, 
com o fascismo e a exploração.

Senhores, sou mulher de trabalho,
estou farta dessas brincadeiras,
E digo às minhas companheiras
Um mundo novo está para chegar.

E então a ocupação das terras alastra-se como os malmequeres:
Somos trabalhadores, não viemos roubar."


Canção 8 – "Medley interventivo" 
"Canta o Sérgio Godinho
 Já estou velho e cansado pela vida que eu passei 
Tantas vezes eu penei e por vezes maltratado 
Tudo o que por mim passou tudo o que por mim passou
Coisas que o tempo levou e não tornam a voltar 
Quem eu era já não sou


Canta o Fausto
Quando a CEE chegou
havia pilim por todo o lado e aí está o resultado do mal que nos causou
assim que a magana entrou
começou logo a correr mal desapareceu o capital foi dinheiro, 
foi o ouro ficaste sem teu tesouro 
Ó meu lindo Portugal Etc e tal.

Canta o José Mário Branco
Tudo quando é ruim Já nem sei o que vem a seguir (E7, Am7)
Até já mandaram vir Para cá o FMI (Dm, G, D)
Agora o Pobre que chore No meio desta trapalhada D, G, C, C dim)
Neste país moribundo Só há conversa fiada
Conversa fiada

Vamos dar emprego a toda a gente
Agora vai ser tudo diferente
Vamos votar para o bem da nação
Vamos levantar-nos do chão

Canta o Zeca Afonso
Meus Avós eram de cá Meus tios viveram aqui 
Os montes para mim É terra do melhor que há
Vá eu para onde vá
Nunca os esquecerei Tantas vezes os visitei 
Dos montes sempre gostei 

E por aí fora...
Parecia que a luta tinha acabado ali e que a democracicici resolveria tudo. Mas a verdade é que ninguém sabia muito bem para onde ir. O livro termina com o cão Constante
neste dia levantado e principal. E se Maria Adelaide começar a chorar não se admirem.

Ela teve o primeiro filho em 78...
Ela dizia-me – A crise surgiu por causa dos políticos Então, para acabar com a crise, dizia eu, os países deviam juntar-se e fazer dinheiro falso. Ela ria-se. Sabes, é complicado inventar uma máquina de fazer dinheiro.
Então não deveria haver países.
É isso, abolir as pátrias. Quero ser apátrida. Quero ser daqui, dali e de todos os lugares. Estou cansado de continentes, de federações, de uniões, de países. Farto defronteiras. Do norte do sul. De linhas imaginárias que nada imaginam senão ganância. Estou farto de tanto arame farpado. De tão altos muros. De tão curtas vistas.
Quero que se lixem as fronteiras, os passaportes e os cartões de cidadão.
Quero um mapa mundi do tamanho do horizonte, sem interrupções que não sejam as geográficas. Dos rios, serras, mares e oceanos. “Tanta paisagem”. E neste mapa sem muros, desejo ser apenas um ponto no território.Um ponto de fuga. Um ponto em movimento constante em direcção a lugar nenhum. Apaguem definitivamente o meu código postal. Quero ser Apátrida!

I wanna be a rock star.

Depois veio a adolescência... essa parte foi complicada, é melhor nem falar disso, mas lembro-me de pensar que gostaria de ser dono de um banco – acho que seria muito
bom a acumular dinheiro alheio."


Canção 9 – "I wanna be a rock star" 
"I wanna be a rock star.
Arreganhar os dentes na BRAVO, ou na “Super Som”.
Comprar uma Fender Stratocaster e um amplificador bem grande.
Fazer uma banda punk sei lá,Fazer um LP com a capa do muro de Berlim a cair.

Nevermind! O Grunge morreu e foi aí que comecei a ler... “Opá, lê em voz alta” – disse ela, agora vais para a Universidade.
Uau. Letras. Livros, jornais, música, teatro a potes, cultura... sai da toca moço. Adeus mãe. Naquele tempo o André, o Luís, o Nuno, o Marco.. a Patrícia. Parecia que podíamos mudar o mundo, sei lá!

Foi na faculdade que aprendi algumas palavras “importantes” por exemplo: Acordo, Barba, Boina, Crença, Contubérnio, Pernóstico, Verfremdungseffekt esta foi difícil. Foi o senhor Brecht quem me ensinou e outras, que agora não me lembro.
Quem cede nas palavras, cede nas ideias. Disse ela!
Depois veio a primeira entrevista – nem penses em ir de calças de ganga.
Está bem Maria Adelaide.
Porque é que me deviam contratar?
O que procuro com este trabalho?
Quanto penso receber com este trabalho?
Falar um pouco sobre mim?! – Então, gosto muito de correr, não. Eu gosto de ler, ir à praia... tenho um cão.O meu emprego de sonho? – De horário flexível e com boas – sabiam que na Noruega o horário de trabalho começa no momento em que apanhas o comboio para ires trabalhar.
Se sou uma pessoa versátil? Acho que sim... Acham que me vão perguntar coisas destas? Eu acho que eles tiram a pinta de um gajo e pronto, ou então já está tudo acertado antes. Querem lá saber. Quando muito perguntam-me se não me importo de ser fodido todos os dias e de ganhar uma merda.

Sabedoria popular:
Qual é coisa qual é ela: A mais constante de todas as medidas.

É um eixo para que determina os dias e as noites do Homem
Estes giram, giram, giram, quando o ganham só consomem
O que é?
Trabalhar, consumir e o medo de perder o emprego.
Mas que emprego?
Eu apenas tenho medo de perder a voz. Ou de ficar gago...Vai correr tudo bem. Respira."


Canção 10 – "Respira "
"Respira... vamos na luz da manhã
Vamos partir, sem ninguém saber.
Não há mais nada a fazer, nada a fazer, nada a fazer
Mas sabemos quem são, e onde estão,
Sabemos onde vivem por mais que se escondam
Temos coisas a dizer, não podem continuar a fugir de nós.Tens de encontrar o que deixaste lá no passado e te enfureceu
Estás de braços caídos, goela apertada, mas vai correr tudo bem.
Respira vamos na luz da manhã, vamos partir sem ninguém saber...

Os mortos acompanham-nos nesta caminhada, vamos todos, os vivos e os mortos e temos nome: Maus Tempo! Ter nome é ter condição política. Ter nome é assinar um fazer e o fazer é inscrever o nome. Inscrever o nome é ter coragem. É saber de que lado da trincheira se está. Sem nome temos o silêncio. Assinar com letra maiúscula é ser herói. Vivemos de convenções. É como a pontuação. Puras convenções. Porque é que não posso falar com a Maiúscula que me pertence?... Eu estou a falar em maiúsculas.Os homens “não nascem para morrer, mas para começar”. Cada nascimento é uma possibilidade de acontecer aquele acontecimento único que rompe o ciclo “natural” da história. Não há um único morto pela liberdade em cujo túmulo não cresça uma sementinha de liberdade, dando sementes também. Heróis, Ainda há heróis? Para fazer uma revolução? Não de cravos, nem de espingardas... mas de nomes. A revolução dos nomes. Não serão os heróis – os verdadeiros – heróis improváveis?

Eu não vos tenho que dizer que as coisas estão mal. Toda a gente sabe que estão. É uma depressão. Sabemos que o ar está a ficar irrespirável e que aquilo que comemosé só lixo.
Sentamo-nos em frente aos pêcês, ou têvês, ou vê-é-le-cês ou dabliu-cês, ou éle-éssedêss... tanto faz onde, enquanto a caixinha nos diz “é a vida! vemo-nos amanhã”

Mortos palestinianos e israelitas
Um novo grupo de formigas que foi solto num campo de trabalho,
O auto denominado estado islâmico pode estar a preparar um novo ataque,
Descobertas centenas de vítimas em contentores no Afeganistão,
Maus tempo que saltam muros na fronteira da Grécia
Maus-tempo que atravessam o mediterrâneo em frágeis barquinhos
Maus Tempo que esperam em filas nos hospitaisUm grupo de Maus Tempo que perdeu o emprego num despedimento colectivo 
Números de refugiados, números que nunca batem certo – dependendo do ponto de vista, é claro - e no fim surge uma notícia como que uma luz divina, que redime:

Nasceu um bebé panda no zoo de Pequim
É a vida, vemo-nos amanha

E um grande sorriso do pivot
Pelo meio ainda tiveste a oportunidade de ver um anúncio para te convencer a seres voluntário de uma mega empresa a troco de um livre trânsito num festival qualquer da moda, que ela própria patrocina – mas atenção tens de saber, pelo menos, três línguas, ter carta de condução e boa aparência, claro. E um tempo de antena para o qual já ninguém tem pachorra. E tudo isto é normal... como se fosse normal. Devia ter lido mais. Ser mais constante. (pausa)

Uivemos disse o cão. Não sei o que dizer desta crise, do preço das coisas, da mão de obra barata, dos combustíveis, dos impostos, da inflação, dos bancos, dos plafonamentos, dos números, défice... só sei que antes de tudo, temos que nos enfurecer. Arreganhar os dentes.

Levantar a cabeça como os cães e dizer: a minha vida tem valor. Porra (pausa) bom... peço-vos que se levantem das vossas cadeiras e que gritem comigo: estou raivoso e não vou aguentar mais esta merda! e só depois é que podemos falar sobre a inflação, a depressão, o emprego, a crise... mas primeiro temos que nos levantar das cadeiras e ficar raivosos.

Pausa

Eu gostaria de voltar a ser criança. 
Recriançar-me...Não consigo discutir em espaços públicos.
Cantar só com efeitos, desafino para caraças.Nunca escrevi uma música

Tenho horror a que descubram a fraude farfalhuda que sou
O meu maior medo? Perder a voz... ficar gago
Quando tusso olho para a mão a ver se não cuspi sangue
Não estou assim tão doente
Mas às vezes gosto de pensar que tenho uma costelinha de Tchekov...Brecht, está a ficar lá atrás!Não tenho história nenhuma a contar, já disse o que tinha a dizer.

Mais vale ter de levantar do chão do que nunca cair."



Canção 11 – "Constante" 
"Constante, Invariável firmeza, provém do lobo cinzento
Noventa e nove porcento, e já lhe cheirou a comida
Bom caçador, Vigoroso corredor, avança com máscaras de gás
Tu nem sabes do que é capaz e já ouviu da terra um tremor

Que dizia
Não vamos a lado nenhum, somos a ameaça preguiçosa
Não vamos a lado nenhum, Também não vamos pedir esmola
Não vamos aparecer nos escritórios, nem nas fábricas ou escolas
Nem tão-pouco às oficinas, muito menos aos estaleiros
Não vamos aos mercados, nem aparecer na TV,
Vamos ficar à espera e cair como um martelo"

Fim

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mais datas - "Levantei-me do Chão" a partir da obra de José Saramago "Levantado do Chão" Criação de Carlos Marques

Mais informação, aqui

"A partir de Levantado do Chão de José Saramago
Criação de Carlos Marques"

AGENDA 2016 
– 24 de Abril | Montemor-o-Novo 22:30 (Biblioteca Municipal, comemorações 25 de abril)
– 26 e 27 Abril | Montemor-o-Novo (Biblioteca Municipal, Serviço Educativo)
– 29 de Abril | Cabrela 21:30 (Casa do Povo)
– 30 de Abril | Cortiçadas de Lavre 21:30 (Centro Cultural)
– 17 e 18 Junho | Évora 21:30 Teatro Garcia de Resende (CENDREV)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

"Levantei-me do Chão" de Carlos Marques (Projecto Rise Up) - Teatro Meridional - 7 a 17 de Abril

Todas as informações aqui, 


Flyer de apresentação dos espectáculos


Informação constante na página do Teatro Meridional, aqui

"LEVANTEI-ME DO CHÃO 
a partir de Levantado do Chão de José Saramago

SINOPSE
Levantamos o pó dos tempos, levantamos um livro bem lá no alto, levantamos ainda cabeça e o corpo, e acima de tudo tentamos levantar-nos como comunidade. Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro – Serão necessárias novas músicas de intervenção? – Numa conversa franca com o espectador vamos descobrindo a musicalidade nas palavras e nas ideias de Saramago. Aqui reflete-se sobre a democracia – que mundo queremos afinal? E tudo isto num concerto. Um solo de um contador de histórias carregado da memória afectiva da leitura e da importância dos conhecedores da obra do Nobel, ou um músico de canções avulsas oriundas das palavras de saramago e, ainda, um actor submerso num texto inédito e assumidamente fragmentado. Um espectáculo baseado no livro onde se diz – à laia de mito –  que o autor descobriu o estilo saramaguiano de narrar.

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA
CRIAÇÃO, DRAMATURGIA, COMPOSIÇÃO MUSICAL E INTERPRETAÇÃO Carlos Marques APOIO À CRIAÇÃO Susana Cecílio  
DISPOSITIVO CÉNICO Nuno Borda de Água 
COMPOSIÇÃO MUSICAL João Bastos 
VÍDEO Rodolfo Pimenta 
DESIGNER GRÁFICA Susana Malhão 
FOTOGRAFICA DE CENA Município de Montemor-o-Novo 
PRODUÇÃO NA CRIAÇÃO Candela Varas 
RESIDENCIA ARTÍSTICA Espaço do Tempo 
PRODUÇÃO ALGURES COLECTIVO DE CRIAÇÃO APOIOS Secretaria de Estado da Cultura - Direcção Geral das Artes; Município de Montemor-o-Novo, Fundação José Saramago.


terça-feira, 15 de março de 2016

Espectáculo "Levantei-me do Chão" A partir de Levantado do Chão de José Saramago - Criação de Carlos Marques

Toda a informação pode ser consultada, através do site 

O projecto de Carlos Marques, também se encontra disponível via Facebook, aqui

(Capa do trabalho)

Agenda 2016 
– 10 Março | Coimbra – TAGV
– 30 Março | Lisboa “Levantei-me do chão – Lado B” Lançamento do CD “Levantei-me do Chão, Vínil) Fundação José Saramago
– de 7 a 17 Abril | Lisboa (Quarta a Sábado 21:30 e Domingos às 16) Teatro Meridional
– 17 e 18 Junho  | Évora  – Teatro Garcia de Resende (CENDREV)

Equipa Artística
Carlos Marques Criador, Composição Músical e Actor
Susana Cecílio Apoio à criação
Nuno Borda de Água Dispositivo cénico
João Bastos Composição Músical
Rodolfo Pimenta Vídeo
Susana Malhão Designer Gráfica
Produção durante o processo de criação Candela Varas
ALGURES, Colectivo de Criação 

"Este espectáculo é um manifesto poético e efémero sobre o “Levantado do Chão”, um solo fragmentado, portátil e maleável (capaz de se adaptar a vários espaços e públicos).

Levantamos o pó dos tempos, levantamos um livro bem lá no alto, levantamos ainda cabeça e o corpo, e acima de tudo tentamos levantar-nos como comunidade.

Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro – Serão necessárias novas músicas de intervenção? – Numa conversa franca com o espectador vamos descobrindo a musicalidade nas palavras e nas ideias de Saramago. Aqui reflete-se sobre a democracia – que mundo queremos afinal? E tudo isto num concerto.

Um solo de um contador de histórias carregado da memória afectiva da leitura e da importância dos conhecedores da obra do Nobel, ou um músico de canções avulsas oriundas das palavras de saramago e, ainda, um actor submerso num texto inédito e assumidamente fragmentado.

Um espectáculo baseado no livro onde se diz – à laia de mito –  que o autor descobriu o estilo saramaguiano de narrar."

Promo #1 - aqui via YouTube

"Se no primeiro espectáculo em torno da obra, reflectimos sobre o estado da nossa democracia, neste reflectiremos sobre a condição humana. A metáfora da pedra e da estátua que Saramago usou para descrever as duas fases da sua criação literária adapta-se na perfeição ao que será agora o nosso objecto artístico: se na primeira fase enquanto escritor, na qual se inclui “Levantado do Chão”, o autor descreve a superfície da pedra, numa segunda fase após “Evangelho Segundo Jesus Cristo” há uma tentativa de descrever o interior da pedra, ou seja existe a ambição de alcançar um entendimento do interior do ser humano, filosoficamente falando.

O propósito é levar estas reflexões em torno das palavras de Saramago a muitos lugares, conseguir criar um objecto que comunique com as diversas comunidades onde se inscreve.

Saramago um dia afirmou, numa entrevista conduzida por Ernesto Sampaio, que se imaginava “a contar este Levantado do Chão a um grupo de pessoas, lá no Alentejo, ou aqui em Lisboa, ou em qualquer outro lugar, a contar em voz alta, voltando atrás quando apetecesse, metendo pelo meio coisas da sabedoria popular, ditados (…) e se entre essas pessoas houver analfabetos, essa será a grande prova. É maior dever do narrador contar e bem claro. Amanhã, noutro lugar contaria a mesma história, mas diferente, sempre diferente, outros ditos, outras voltas, outros caminhos. Haveria de ter sua graça experimentar, mas, não podendo ser, aí fica o livro em sua forma de livro e aparente invariabilidade.” Levantado do chão é um livro para ser contado e cantado em voz alta, bem alta!!

Este é um solo de um contador de histórias que gosta de estar ali. Um solo de um músico de intervenção. Um solo de actor que se inquieta com o estado das coisas. Este é um trabalho de uma equipa séria e divertida.

Este é um regresso a uma casa onde tudo foi intenso. Uma casa que foi abandonada e que está fechada apanhando pó. Uma casa cheia de utopias – até parece uma palavra distante. Quando era miúdo agarrava na guitarra e tocava as músicas do Zeca, do Fausto e do Godinho com aquele desejo ter vivido aqueles tempos. E questionava-me se naquela altura eu teria tido a lucidez para me aperceber para saber de que lado da trincheira devia estar."

Promo #2 - aqui via YouTube

"E agora? Falemos do agora. Será que entretanto entaiparam a casa que não tinha muros no jardim? Será que em cada instante sabemos de que lado da trincheira estamos. Será que conseguimos sempre pensar pela nossa cabeça? Será que estamos sempre certos e centrados nas nossas opções? Será que existe esse questionamento, ou essa vontade?

Em situações delicadas politicamente vamos sempre lá atrás buscar os hits das lutas passadas para tentar galvanizar uma massa (conformada) que não tem curiosidade de saber para onde nos estão a puxar. Trazemos para o presente essas músicas porque nos identificamos ou, talvez, porque já são património de uma união em épocas difíceis/vitoriosas – é mais fácil assim, dirão uns.

Mas dessa forma não se banalizarão as épocas, a luta e a própria música? E será que as lutas de hoje são as mesmas de então? Seremos nós como os nossos pais?

Serão precisas novas músicas e mais do que isso novos heróis artistas nestes tempos confusos. Não que queira inscrever o meu nome como herói – talvez em sonhos gostasse dessa ideia, mas não fui talhado para isso -, apenas vou fazendo a minha parte. Porém, talvez a arte devesse ter essa função. Essa inscrição! Talvez seja necessário que ela perca tudo… que ela passe por uma carestia! Talvez para sermos heróis tenhamos de estar ainda mais F**** já me faltam as palavras. Primeiro temos de fazer o que não queremos para depois fazermos o que realmente queremos? Que mundo queremos afinal?

Parafraseando Fausto Bordalo Dias “a ditadura proletária já morreu, mas nasceu a ditadura dos mercados.” E se eu tivesse a oportunidade de conhecer estes tais senhores dos mercados apenas lhes poderia dizer: A MINHA GUITARRA É CONSTANTE E ROSNA! É tempo de levantar do chão!"

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

"RISE UP II – LEVANTEI-ME DO CHÃO" a partir de "Levantado do Chão de José Saramago" - Criação de Carlos Marques



Toda a informação cedida por Carlos Marques e consultada, aqui 
em https://riseupprojecto.wordpress.com/rise-up-ii-levantei-me-do-chao/

"RISE UP II – LEVANTEI-ME DO CHÃO"
a partir de "Levantado do Chão de José Saramago"  
Criação de Carlos Marques

Na 4ª edição do Festival de Teatro de Montemor o novo:

Estreia 1 de Outubro de 2015 no Festival de Teatro de Montemor-o-Novo

1 e 2 Outubro – Montemor-o-Novo (Cine Teatro Curvo Semedo)
9 Outubro – Lavre
10 Outubro – Ciborro
16 Outubro – São Cristovão
6, 13, 20, 27 Janeiro 2016 – Lisboa Fundação José Saramago

(Imagem de cena)

Sinopse 
"Levantamos o pó dos tempos, levantamos um livro bem lá no alto, levantamos ainda cabeça e o corpo, e acima de tudo tentamos levantar-nos como comunidade. Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro - Serão necessárias novas músicas de intervenção? - Numa conversa franca com o espectador vamos descobrindo a musicalidade nas palavras e nas ideias de Saramago. Aqui reflete-se sobre a democracia - que mundo queremos afinal? E tudo isto num concerto. Um solo de um contador de histórias carregado da memória afectiva da leitura e da importância dos conhecedores da obra do Nobel, ou um músico de canções avulsas oriundas das palavras de Saramago e, ainda, um actor submerso num texto inédito e assumidamente fragmentado Um espectáculo baseado no livro onde se diz - à laia de mito - que o autor descobriu o estilo saramaguiano de narrar.


Equipa Artística
Carlos Marques Criador, músico e actor
Susana Cecílio Apoio à criação
Nuno Borda de Água Dispositivo cénico
João Bastos Apoio técnico e musical
Rodolfo Pimenta Video
Susana Malhão Designer Gráfica
Candela Varas Produçao
ALGURES, colectivo de criação

Reservas - Telefone: +351 266 898 103
Horário: 9h30 - 13h / 14h30 - 18h
Informações - riseup.projecto@gmail.com

Co-Produção
TRIMAGISTO, cooperativa de experimentação teatral
ALGURES, colectivo de criação artística

Apoios
Fundação José Saramago, Câmara Municipal de Montemor-o-Novo
O Espaço do Tempo

Projecto Financiado pela Secretaria de Estado da Cultura / Direcção Geral das Artes

(Capa da edição inicial da obra "Levantado do Chão")


Este espectáculo é um manifesto poético e efémero sobre o “Levantado do Chão”, um solo fragmentado, portátil e maleável (capaz de se adaptar a vários espaços e públicos).

Levantamos o pó dos tempos, levantamos um livro bem lá no alto, levantamos ainda cabeça e o corpo, e acima de tudo tentamos levantar-nos como comunidade.

Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro – Serão necessárias novas músicas de intervenção? – Numa conversa franca com o espectador vamos descobrindo a musicalidade nas palavras e nas ideias de Saramago. Aqui reflete-se sobre a democracia – que mundo queremos afinal? E tudo isto num concerto.

Um solo de um contador de histórias carregado da memória afectiva da leitura e da importância dos conhecedores da obra do Nobel, ou um músico de canções avulsas oriundas das palavras de saramago e, ainda, um actor submerso num texto inédito e assumidamente fragmentado.

Um espectáculo baseado no livro onde se diz – à laia de mito –  que o autor descobriu o estilo saramaguiano de narrar.

foto4Se no primeiro espectáculo em torno da obra, reflectimos sobre o estado da nossa democracia, neste reflectiremos sobre a condição humana. A metáfora da pedra e da estátua que Saramago usou para descrever as duas fases da sua criação literária adapta-se na perfeição ao que sera agora o nosso objecto artístico: se na primeira fase enquanto escritor, na qual se inclui “Levantado do Chão”, o autor descreve a superfície da pedra, numa segunda fase após “Evangelho Segundo Jesus Cristo” há uma tentativa de descrever o interior da pedra, ou seja existe a ambição de alcançar um entendimento do interior do ser humano, filosoficamente falando.

O propósito é levar estas reflexões em torno das palavras de Saramago a muitos lugares, conseguir criar um objecto que comunique com as diversas comunidades onde se inscreve.

 estudos poster 5-04

Saramago um dia afirmou, numa entrevista conduzida por Ernesto Sampaio, que se imaginava “a contar este Levantado do Chão a um grupo de pessoas, lá no Alentejo, ou aqui em Lisboa, ou em qualquer outro lugar, a contar em voz alta, voltando atrás quando apetecesse, metendo pelo meio coisas da sabedoria popular, ditados (…) e se entre essas pessoas houver analfabetos, essa será a grande prova. É maior dever do narrador contar e bem claro. Amanhã, noutro lugar contaria a mesma história, mas diferente, sempre diferente, outros ditos, outras voltas, outros caminhos. Haveria de ter sua graça experimentar, mas, não podendo ser, aí fica o livro em sua forma de livro e aparente invariabilidade.” Levantado do chão é um livro para ser contado e cantado em voz alta, bem alta!!

Este é um solo de um contador de histórias que gosta de estar ali. Um solo de um músico de intervenção. Um solo de actor que se inquieta com o estado das coisas. Este é um trabalho de uma equipa séria e divertida.

Este é um regresso a uma casa onde tudo foi intenso. Uma casa que foi abandonada e que está fechada apanhando pó. Uma casa cheia de utopias – até parece uma palavra distante. Quando era miúdo agarrava na guitarra e tocava as músicas do Zeca, do Fausto e do Godinho com aquele desejo ter vivido aqueles tempos. E questionava-me se naquela altura eu teria tido a lucidez para me aperceber para saber de que lado da trincheira devia estar.

E agora? Falemos do agora. Será que entretanto entaiparam a casa que não tinha muros no jardim? Será que em cada instante sabemos de que lado da trincheira estamos. Será que conseguimos sempre pensar pela nossa cabeça? Será que estamos sempre certos e centrados nas nossas opções? Será que existe esse questionamento, ou essa vontade?

Em situações delicadas politicamente vamos sempre lá atrás buscar os hits das lutas passadas para tentar galvanizar uma massa (conformada) que não tem curiosidade de saber para onde nos estão a puxar. Trazemos para o presente essas músicas porque nos identificamos ou, talvez, porque já são património de uma união em épocas difíceis/vitoriosas – é mais fácil assim, dirão uns.

Mas dessa forma não se banalizarão as épocas, a luta e a própria música? E será que as lutas de hoje são as mesmas de então? Seremos nós como os nossos pais?

foto8Serão precisas novas músicas e mais do que isso novos heróis artistas nestes tempos confusos. Não que queira inscrever o meu nome como herói – talvez em sonhos gostasse dessa ideia, mas não fui talhado para isso -, apenas vou fazendo a minha parte. Porém, talvez a arte devesse ter essa função. Essa inscrição! Talvez seja necessário que ela perca tudo… que ela passe por uma carestia! Talvez para sermos heróis tenhamos de estar ainda mais F**** já me faltam as palavras. Primeiro temos de fazer o que não queremos para depois fazermos o que realmente queremos? Que mundo queremos afinal?

Parafraseando Fausto Bordalo Dias “a ditadura proletária já morreu, mas nasceu a ditadura dos mercados.” E se eu tivesse a oportunidade de conhecer estes tais senhores dos mercados apenas lhes poderia dizer: A MINHA GUITARRA É CONSTANTE E ROSNA! É tempo de levantar do chão!