Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Faleceu Luis Sepúlveda, escritor chileno aos 70 anos





Através do site da Porto Editora é possível ter uma pequena biografia do falecido autor.
Pode ser consultada aqui

"BIOGRAFIA
Luis Sepúlveda nasceu em Ovalle, no Chile, a 4 de outubro de 1949 e morreu a 16 de abril de 2020 em Oviedo, Espanha. O seu pai era militante do Partido Comunista e proprietário de um restaurante. A mãe era enfermeira e tinha origens mapuche. Cresceu no bairro San Miguel de Santiago e estudou no Instituto Nacional, onde começou a escrever por influência de uma professora de História.
Aos 15 anos ingressou na Juventude Comunista do Chile, da qual foi expulso em 1968. Depois disso, militou no Exército de Libertação Nacional do Partido Socialista. Após os estudos secundários, ingressou na Escola de Teatro da Universidade de Chile, da qual chegou a ser diretor. Anos mais tarde, licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha.
Da sua vasta obra – toda ela traduzida em Portugal –, destacam-se os romances O Velho que Lia Romances de Amor e História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar. Mas todos os seus livros conquistaram em todo o mundo a admiração de milhões de leitores.
Em 2016, recebeu o Prémio Eduardo Lourenço – que visa galardoar personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cooperação e da cultura ibérica –, uma honra de definiu como «uma emoção muito especial».
Para além de romancista, foi realizador, roteirista, jornalista e ativista político. Em 1970 venceu o Prémio Casa das Américas pelo seu primeiro livro, Crónicas de Pedro Nadie, e também uma bolsa de estudo de cinco anos na Universidade Lomonosov de Moscovo. No entanto, só ficaria cinco meses na capital soviética, uma vez que foi expulso da universidade por “atentado à moral proletária”. Membro ativo da Unidade Popular chilena nos anos 70, teve de abandonar o país após o golpe militar de Augusto Pinochet. Viajou e trabalhou no Brasil, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Peru. Viveu no Equador entre os índios Shuar, participando numa missão de estudo da UNESCO. Em 1979 alistou-se nas fileiras sandinistas, na Brigada Internacional Simon Bolívar, que lutava contra a ditadura de Anastácio Somoza. Depois da vitória da revolução sandinista, trabalhou como repórter.
Em 1982 rumou a Hamburgo, movido pela sua paixão pela literatura alemã. Nos 14 anos em que lá viveu, alinhou no movimento ecologista e, enquanto correspondente da Greenpeace, atravessou os mares do mundo, entre 1983 e 1988. Em 1997, instalou-se em Gijón, em Espanha, na companhia da mulher, a poetisa Carmen Yáñez. Nesta cidade fundou e dirigiu o Salão do Livro Ibero-americano, destinado a promover o encontro de escritores, editores e livreiros latino-americanos com os seus homólogos europeus.
Luís Sepúlveda vendeu mais de 18 milhões de exemplares em todo o mundo e as suas obras estão traduzidas em mais de 60 idiomas."


A Fundação José Saramago através das suas várias plataformas de comunicação, divulgou o fax de José Saramago dirigido a Luis Sepúlveda, então à data tratando de assuntos relacionados com ataques que era alvo. Ficou a mensagem de solidariedade. 



sexta-feira, 26 de junho de 2015

Destaque do "Herald Tribune Latin American" na notícia "João Vilhena Brings Photo Chronicle of Saramago to Chile"

(Imagem de João Vilhena em destaque na notícia) 

A notícia pode ser consultada e lida, aqui
em http://www.laht.com/article.asp?ArticleId=2391039&CategoryId=13003

"SANTIAGO – Fifteen years after traveling to the island of Lanzarote to photograph writer Jose Saramago (1922-2010), artist and photographer João Vilhena returned to retrace the steps he and the Nobel laureate took during their earlier strolls around the isle off the African coast.

“To Jose, Lanzarote was the place that allowed him to think about his work and his way of looking at life, and made it possible for him to reconnect with himself,” Vilhena said in an interview with EFE.

The Portuguese artist’s exhibit, “Lanzarote: Jose Saramago’s Window,” recently opened at the Spain Cultural Center in Santiago.

The show includes 29 photographs from both of Vilhena’s visits to the Spanish island, arranged to provide a visual counterpart to the words of Saramago’s diary of his life there, “Cadernos de Lanzarote.”

Portugal’s most prominent man of letters settled on Lanzarote in 1993 with his second wife, Spanish journalist Pilar del Rio.

Vilhena, whose first visit to Lanzarote in 1998 coincided with the announcement of Saramago’s Nobel Prize in Literature, went back to the volcanic island three years after the writer’s death to capture the echoes of the author’s voice in the untamed landscape that inspired him so much.

“This magic island was an adopted homeland that completely transformed Saramago, not only in the way he lived and communicated, but also in the style of his writing,” Vilhena said.

The intense hues of clouds, the whistling of the wind and the sound of steps on volcanic ground led Saramago into a new, more philosophical phase that produced novels such as “Todos os Nomes” (All the Names), “Ensaio sobre a Cegueira” (Blindness) and “O Homen Duplicado” (The Double).

Far from being solemn and distant, on the island of volcanoes Vilhena found a Saramago who was approachable and of “incommensurable sweetness.”

Lanzarote became a second homeland for Saramago, a silent refuge where he could isolate himself from a world he had often denounced as cynical and cowardly."

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

José Saramago recorda a sua visita ao Chile (Nov. 2007) e o massacre de Iquique



"Actuación en vivo del mítico grupo Qilapayún, 
cantando la cantata Santa Maria de Iquique. Año 2006. 
Tema que rememora la matanza de 3600 obreros pampinos, en diciembre de 1907."

Cantata Popular de Santa Maria de Iquique

O presente texto/post foi publicado em 3 de Abril de 2009, no livro/blog "O Caderno 2".
Pode ser consultada a inserção, via página em http://caderno.josesaramago.org/34129.html

"Santa Maria de Iquique"

"Santa Maria é o nome da escola, por isso supõe-se que a santa propriamente dita, a do céu, não interveio no assunto como, em princípio, a estaria obrigando a sua potestade. O nome do lugar é Iquique, um porto de mar então importante no norte do Chile, numa região rica em salitre, essa mistura de nitrato de sódio e nitrato de potássio directamente criada no inferno, como de certeza pensariam os milhares de homens, tanto do Chile como dos países limítrofes, que na sua extracção trabalhavam. Estamos em 1907. Inevitável como o destino porque essa é a lógica soberana do capital, a impiedosa sobre-exploração da força de trabalho dessa pobre gente acabou por atingir extremos insuportáveis. A greve foi a resposta natural. Dos povoados mineiros nas montanhas começaram a descer, primeiro centenas, logo milhares de trabalhadores que se concentraram na escola Santa Maria, em Iquique. Depois de vários dias em que os grevistas tentaram, sem resultado, negociar, as autoridades governamentais, pressionadas pelos capitalistas estrangeiros, decidiram pôr fim de qualquer maneira ao conflito. No dia 21 de Dezembro, mais de 3000 pessoas, não só mineiros, mas também velhos, mulheres e crianças, foram criminosamente chacinadas pelas forças militares convocadas para a repressão. Ao Chile não têm faltado páginas negras. Esta foi uma das mais trágicas, e das mais absurdas também.Décadas mais tarde, o compositor chileno Luis Advis, um músico autodidacta de enorme talento, compõe e escreve a Cantata de Santa Maria de Iquique para o grupo Quilapayun. Apresentada ao público nos primeiros anos de 70, a Cantata de Santa Maria é, ainda hoje, um dos mais altos expoentes da Nova Canção Chilena e de grande parte da América do Sul. Tenho-a aqui em DVD, noventa minutos guiados por esse mágico instrumento que é a flauta andina e pelas magníficas vozes dos componentes do grupo. Também lá apareço. Poucos dias antes da minha entrada no hospital, em Novembro de 2007, vieram aqui para que eu gravasse uma declaração. Aviso já que não sou o José Saramago, mas o seu fantasma. Não há outras imagens tão chocantes de mim nesse período. Quase me apetece pedir que as eliminem, mas o vivido, vivido está e não se deve negar. De todo o modo, ao lado daqueles 3000 mortos, a modéstia aconselha a moderar as expansões de uma pena pessoal. Fiquemos por aqui. 
P.S. Não é fácil encontrar no mercado a Cantata de Santa Maria de Iquique. Se a alguém tiver interessado o que acabei de escrever, ao ponto de querer compartilhar estes sentimentos, dirija-se ao produtor executivo Carlos Belmonte, cuja direcção electrónica é c.belmonte@accionvisual.com. Espero que mo agradeçam."