Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
Mostrar mensagens com a etiqueta nesta esquina do tempo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta nesta esquina do tempo. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 21 de abril de 2020

Sobre a interpretação e poema "Nesta esquina do tempo" de José Saramago no canal RTP2 (18/11/2013)

"Magazine literário, com apresentação de Teresa Sampaio, dedicado ao livro "Nesta esquina do Tempo", poemas de José Saramago musicados por Luís Pastor, em edição bilingue (português e espanhol), comentado pelo canto-autor Luís Pastor e por Pilar del Río, com recurso à memória fílmica de uma inesquecível reunião de amigos, e pessoas improváveis, que festejaram a obra de Saramago no dia da inauguração da sua Biblioteca, em Lanzarote.

Nome do Programa: Ler+, Ler Melhor
Personalidades: Teresa Sampaio, Luís Pastor, Pilar del Río
Temas: Artes e Cultura
Canal: RTP 2
Apresentação e produção: Teresa Sampaio Realização: António Pinto

Pode ser recuperado e visualizado aqui
em https://arquivos.rtp.pt/conteudos/a-jose-saramago-nesta-esquina-do-tempo/


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Luis Pastor e Esperanza Fernández interpretam o verso "Nesta esquina do tempo" inserido na obra de José Saramago "Os Poemas Possíveis" (1966)

"Nesta esquina do tempo"
Actuación Homenaje a José Saramago en el Auditorio Pilar Bardem. Rivas Vacíamadrid
Letra: José Saramago. Música: Luis Pastor
Voz: Luis Pastor
Piano: Luis Fernández
Cavaquinho: Sérgio Tannus
Guitarra: Pedro Pastor
Coros: Lourdes Guerra
Pode ser visualizado via Youtube, aqui

"Nesta esquina do tempo"

"Nesta esquina do tempo é que te encontro, 
Ó nocturna ribeira de aguas vivas 
Onde os lírios abertos adormecem 
A mordência das horas corrosivas 

Entre as margens dos braços navegando 
Os olhos nas estrelas do teu peito, 
Dobro a esquina do tempo que ressurge 
Da corrente do corpo em que me deito 

Na secreta matriz que te modela, 
Um peixe de cristal solta delírios 
E como um outro sol paira, brilhando, 
Sobre as águas, as margens e os lírios"

In, "Os Poemas Possíveis", 1966 

Pode ser visualizado via Youtube, aqui

Esperanza Fernández 
Álbum "Mi voz em tu palabra"
"En esta esquina del tiempo"
Música: Luis Pastor. Arreglos Dorantes y poesía de José Saramago.
Grabado en teatro Lope de Vega de Sevilla. 
CD editado por Discmedi 2013 
Canal de Vídeos de Esperanza Fernández


terça-feira, 14 de junho de 2016

"Catorze de Junho" poema declamado e inserido na obra de Luis Pastor "Nesta Esquina do Tempo"

Pode ser escutado, aqui via YouTube, pela voz de José Saramago

Catorze de Junho

"Cerremos esta porta.
Devagar. devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos,
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como num barco no mar, ou o pão na mesa,
Ou rumuroso leito.
Não se afastou o temo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo." 

(in Poesia Completa, Alfaguara, pág. 636-637)

O poema "Catorze de Junho" é declamado nesta obra de Luis Pastor

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Poema "Inventário" de José Saramago ("Os Poemas Possíveis") musicado por João Afonso para o CD "Nesta Esquina do Tempo"

Via YouTube, aqui

"Inventário"
"De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas."

In, "Os Poemas Possíveis"

segunda-feira, 21 de março de 2016

"Inventário" a poesia de José Saramago cantada por João Afonso - Integra a obra "Nesta esquina do Tempo" (Disco/Livro)

O poema pode ser ouvido, via YouTube, aqui

"Inventário" 

De que sedas se fizeram os teus dedos,       - De qué sedas están hechos tus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,   - de qué marfil tus muslos lisos,
De que alturas chegou ao teu andar - de qué alturas llegó a tu andar
A graça da camurça com que pisas.        - la gracia de gamuza con que pisas.

De que amoras maduras se espremeu    - De qué moras maduras se extrajo
O gosto acidulado do teu seio,         - el sabor acidulado de tu seno,
De que Índias o bambu da tua cinta,            - de qué Indias el bambú de tu cintura.
O oiro dos teus olhos, donde veio.         - el oro de tus ojos, de dónde vino.

A que balanço de onda vais buscar - A qué mecer de ola vas a buscar
A linha serpentina dos quadris,         - la línea serpentina de tus caderas,
Onde nasce a frescura dessa fonte              - de dónde nace la frescura de esa fuente
Que sai da tua boca quando ris.      - que sale de tu boca cuando ríes.

De que bosques marinhos se soltou - De qué bosques marinos se soltó
A folha de coral das tuas portas,  - la hoja de coral de tus puertas,
Que perfume te anuncia quando vens       - qué perfume te anuncia cuando vienes
Cercar-me de desejo a horas mortas.         - a rodearme de deseo las horas muertas.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" 
Reedição Porto Editora, página 143

domingo, 11 de outubro de 2015

"Jogo do lenço" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor

"Jogo do lenço" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor

Pode ser visualizado e ouvido, via YouTube

Jogo do Lenço

"Trago no bolso do peito 
Um lenço de seda fina, 
Dobrado de certo jeito. 
Não sei quem tanto lhe ensina 
Que quanto faz é bem feito.

Acena nas despedidas, 
Quando a voz já lá não chega 
Por distâncias desmedidas. 
Depois, no bolso aconchega 
As saudades permitidas.

Também o suor salgado, 
Às vezes, enxugo a medo, 
Que o lenço é mal empregado. 
E quando me feri um dedo, 
Com ele o trouxe ligado.

Nunca mais chegava ao fim 
Se as graças todas dissesse 
Deste meu lenço e de mim, 
Mas uma coisa acontece 
De que não sei porque sim:

Quando os meus olhos molhados 
Pedem auxílio do lenço, 
São pedidos escusados. 
E é bem por isso que penso 
Que os meus olhos, se molhados, 
Só se enxugam no teu lenço."

José Saramago, In Os Poemas Possíveis

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Luis Pastor "Con Saramago en la voz" - entrevista à Revista Ñ Clarín (Irene Amuchastegui 23/09/2015)


(Foto de Luis Pastor que acompanha a entrevista)

A entrevista pode ser consultada aqui, 

De Irene Amuchastegui, 23/09/2015

"En su comentario para el álbum En esta esquina del tiempo , José Saramago compara la voz del español Luis Pastor, “áspera y al mismo tiempo suave”, con las de “los grandes trovadores del siglo pasado”. Y formula una invitación de la concisión más contundente: “Oigámoslo”. El disco reúne poemas del escritor portugués, musicalizados e interpretados por Pastor. El texto de presentación sentencia: “El tiempo cabe todo en la duración de un disco”. Este se publicó en edición bilingüe en 2006, en Europa, y acaba de aparecer en español en la Argentina, donde Luis Pastor nunca había actuado, hasta ahora. En su primera visita a Buenos Aires, también estrena su primer tango y su propia cuenta de Facebook. La cuenta acaba de crearla su hijo Pedro, también músico, en la computadora del lobby del hotel, y debuta en la red con un anacrónico: “Nos modernizamos”, lleno de irónico encanto para un cantautor de los de la vieja guardia. En cuanto al tango, “Uno de mayo”, es un poema de Luis García Montero, granadino de su misma generación, a quien conoció por un libro que le regaló Joaquín Sabina. “Me va a acompañar mi hijo, que toca mejor que yo. Yo no sé tocar un tango. Yo estoy en la frontera de todas las músicas: hago mornas de Cabo Verde sin haber estado allí, hago fados de Portugal y ahora he dejado fluir la copla, que está en mi origen, y de la que había escapado para convertirme en el cantautor que quería ser. Entre España, Cabo Verde y Lisboa, vienen y van las músicas que hago, Atlántico por medio. A veces, tocan también estas costas, porque más allá de todas mis influencias portuguesas y africanas, tengo algo muy latino. Cuando tenía 16, como era un ‘niño de copla’ que tenía que aprender a ser otro cantante, además de los nuestros, como Paco Ibáñez, o de los portugueses, como José Afonso, yo cantaba “A desalambrar” de Viglietti y escuchaba a Mercedes Sosa, a Atahualpa, a los grandes. Yo siempre he estado ahí”.

–Es curioso, entonces, que no hayas venido antes.
–Lo explica mi propia trayectoria: soy un cantautor que viene de una tradición de finales de los años 60 y de los 70, donde la canción no era una vía para volverse famoso, ganar dinero, dar “el salto”. He viajado sólo cuando me han llamado: a Nicaragua en los 80, con mi banda, a Chile, a Brasil… Pero nunca me había planteado hacer una gira. No soy ambicioso. Nunca me he fiado de oficinas ni representantes… Mi primer manager ha sido un cura obrero. El anti-manager. Por otro lado, en los 90 sentía que había mucha gente que me tenía que descubrir en España misma, porque las nuevas generaciones no se paraban a escuchar. El cantautor había quedado estigmatizado como un tipo aburrido, un matraquero, un panfletero… un coñazo.

–En “¿Qué fue de los cantautores?” hablás de aquellos que aún resisten “en sus trincheras”. ¿Recuperaron espacio?
–En la España de fines de los 70, el cantautor empieza a ser denostado, como un tipo que, muerto Franco, no tenía razón de ser. Yo lo sufrí en mi persona, cuando me retiré tres años en el 79 y volví en el 81 con disco nuevo: aquella misma gente que antes había hablado bien de mí en las radios y en los medios, de pronto me negaba el pan y la sal. Pero a mí me ha salvado que soy, sobre todo, un ser musical: más allá de toda mi historia política y de barrio, de trabajador, de obrero y de militante, fui un niño que a los 7 años cantaba a Joselito. Me transformé en el cantautor que quería ser y he persistido en ese camino. En los 90 hice la obra más bonita posible. Yo creo que ahí está por fin mi triunfo: haber aprendido con los años a contarme en canciones. Porque yo era un niño sin estudios. Fui un trabajador desde los 9 años, sólo estuve en la escuela 4 años.

–¿Te faltaban herramientas para lograr la expresión a la que aspirabas?
–No me faltaban porque descubrí a los poetas y fui a por ellos, buscando lo que yo quería decir y ellos decían mejor que yo. Me prohibieron el primer disco, cuando tenía 20 años: de once canciones, me prohibieron diez. Mi primer single fue “Con dos años”, de Miguel Hernández, y un poema de Pablo Neruda que se llamaba “La huelga” y para pasar la censura tuve que rebautizar “La huelga del ocio”. Claro, el hecho de musicar a grandes poetas a mí me puso el listón muy alto y me he exigido siempre cierto nivel en mis letras. La vida a veces es circular: en los últimos diez años, desde el disco de Saramago, siento que vuelvo al punto de partida. He vuelto a musicar poetas y escribo menos yo. Aunque las letras del último disco ( ¿Qué fue de los cantautores?) son todas mías y tengo otras cosas esperando por ahí, he vuelto a los poetas. Cuando terminé En esta esquina del tiempo me puse a leer a los poetas canarios y encontré todo un mundo. Luego, hace unos años fue el centenario del nacimiento de Miguel Hernández. Yo no lo leía desde el 79. Lo releí y descubrí a otro Miguel: cuando era joven, yo iba buscando la lucha, la cárcel, la guerra y ahora encontré a un Miguel pletórico de imágenes de una fuerza que ningún poeta ha sabido expresar. Miraba los versos y decía: esto es una copla, esto es flamenco… He musicado de una pegada veinte poemas y se los he regalado a Carmen Linares, la más grande cantaora de flamenco, que montó un espectáculo en el que la mitad del repertorio es ese. Al grupo Jarcha le di otros nueve poemas musicados de Miguel. Yo nunca los grabé, pero quiero hacerlo.

–¿Cómo surgió el proyecto de En esta esquina del tiempo?
–Con Saramago nos conocimos en un programa de televisión y quedamos amigos para siempre. Cada vez que íbamos a cantar a Lanzarote con Lourdes, mi mujer, lo visitábamos. Uno de esos días me ha regalado su poesía completa. Al despedirme le he dicho: “Te voy a musicar”. Y él me ha dicho: “A ver si es verdad”. Ahí arrancó todo. Cuando monté en el avión y vi esos poemas, que tienen 45 años, pues él no volvió a escribir poesía, sentí que me estaban esperando. Eran para mí. Al leerlos me parecía que ya la música estaba puesta. Ha surgido sin pretenderlo. Al llegar a casa, he compuesto 18 temas en tres días de una semana: lunes, miércoles y viernes.

–¿Cómo reaccionó Saramago al escuchar por primera vez el material?
–Estábamos en mi casa con José, Pilar del Río, Miguel Ríos y su mujer. Yo había grabado una maqueta en una hora. Nos sentamos a escuchar, pongo la primera canción y Miguel dice: “Qué bonita música”. La segunda y Miguel comenta: “Qué música más bonita”. Ya a la tercera, José le retruca: “Bueno, las letras tampoco están mal…”

–Volviste a trabajar sobre poemas de Saramago para una versión teatral de El viaje del elefante. ¿Cómo fue eso?
–Vino un director de teatro a pedirme que hiciera las músicas y las letras para esa obra. Y yo le he dicho: “No, Saramago apunta en sus poemas lo que luego desarrolla en sus novelas. Verás cómo para cada escena vamos a encontrar dos o tres poemas”. Y así fue. Es maravilloso el encuentro de una novela convertida en obra de teatro que a su vez se nutre de su poesía… José hubiera flipado."

quinta-feira, 28 de maio de 2015

"Dispostos em cruz" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor


Musicado por Luis Pastor, do álbum "Nesta Esquina do Tempo"

Poema de José Saramago, em "Provavelmente Alegria"
Caminho, 3.ª Edição, páginas 90 e 91

«Dispostos em cruz»

Dispostos em cruz desfeitos em cruz
em cada caminho três portas fechadas
um vento de faca um resto de luz
o espanto da morte nas águas cortadas

Um corpo estendido um ramo de frutos
um travo na boca da boca do outro
o branco dos olhos o negro dos lutos
o grito o relincho e o dente do potro

As feridas do vento as portas abertas
os cantos da boda no ventre macio
as notas do canto nas linhas incertas
e o lago do sangue ao largo do rio

O céu descoberto da nuvem da chuva
e o grande arco-íris na gota de esperma
o espelho e a espada o dedo e a luva
e a rosa florida na borda na berma

E a luz que se expande no pino do Verão
e o corpo encontrado no corpo disperso
e a força do punho na palma da mão
e o espanto da vida na forma do verso

sábado, 7 de março de 2015

Luis Pastor na iniciativa "Visitantes da Casa dos Bicos lêem José Saramago" #51

(Luis Pastor lê "Nessa Esquina do Tempo" em espanhol)


"Nesta esquina do tempo"

"Nesta esquina do tempo é que te encontro,

Ó nocturna ribeira de águas vivas

Onde os lírios abertos adormecem

A mordência das horas corrosivas.



Entre as margens dos braços navegando,

Os olhos nas estrelas do meu peito,

Dobro a esquina do tempo que ressurge

Da corrente do corpo em que me deito



Na secreta matriz que te modela,

Um peixe de cristal solta delírios

E como um outro sol paira, brilhando

Sobre as águas , as margens e os lírios."


Os Poemas Possíveis, 2ª edição, Editorial Caminho, Lisboa, 1982

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

"Adivinha" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor (disco/livro "Nesta esquina do Tempo")



"Adivinha" a poesia de José Saramago 
Cantada por Luis Pastor 
(disco/livro) - "Nesta esquina do Tempo"

"Adivinha"

"Quem se dá quem se recusa 
Quem procura quem alcança 
Quem defende quem acusa 
Quem se gasta quem descansa 

Quem faz nós quem os desata 
Quem morre quem ressuscita 
Quem dá a vida quem mata 
Quem duvida e acredita 

Quem afirma quem desdiz 
Quem se arrepende quem não 
Quem é feliz infeliz 
Quem é quem é coração"

em, "Os Poemas Possíveis" / 1966

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Poema "Catorze de Junho" na voz de José Saramago


(este poema declamado por Saramago, pode ser encontrado, 
no álbum "Nesta Esquina do Tempo", de Luis Pastor)


"Catorze de Junho"

Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Luis pastor "Nesta Esquina do Tempo" - poema "Digo Pedra"


Luis Pastor canta poemas de José Saramago
Álbum "Nesta Esquina do Tempo"
Musica "Digo Pedra"

«Que seja eu o autor das poesias aqui interpretadas,
em português e também em castelhano, é apenas
uma feliz coincidência. O que é importante é a
música. E a voz, essa inconfundível voz de Luis
Pastor, áspera e ao mesmo tempo suave, tal como
as vozes dos grandes trovadores do século passado.
Oiçamos»
José Saramago

(alguma palavras sobre Luis Pastor)

Nesta esquina do tempo pode explicar-se de uma
forma simples: Luís Pastor compõe a música e
canta os poemas de José Saramago, Prémio Nobel
de Literatura em 1998. Mas as obras excepcionais
costumam habitar em mundos modestos e Nesta
esquina do tempo é uma obra maior, que também
nasceu de uma maneira natural, espontânea
e sincera. Pilar del Rio, esposa de Saramago e
tradutora da sua obra para espanhol referiu: «Um
dia, não há muito tempo, José Saramago e Luís
Pastor encontraram-se. Mais tarde partilharam
tribuna para dizer com força que não queriam
guerras canalhas, que as únicas ofensivas morais e
necessárias eram as que deveriam combater a fome
e a falta de cultura. Luís Pastor foi ousado e deu o
passo seguinte quando, dirigindo- se a Saramago,
disse-lhe que ia escrever a música para os seus
poemas e, mais ainda, que ia cantar em português.
Saramago achou piada, riu e disse: “oxalá”. De certo,
pensou que a loucura dos músicos é quase tão
grande como a dos sábios. Esqueceu o assunto e
começou a escrever As intermitências da Morte.
Luís Pastor continua a história de Nesta esquina do
tempo «Surgiu de um encontro, por acaso» refere
o cantor. «Em Maio de 2005 viajei até Lanzarote
com Moncho Armendáriz para apresentar o
documentário Unidades Móviles. Tomámos um café
com José Saramago, que me ofereceu um livro das
Obras Completas de Poesia e eu disse-lhe meio a
sério, meio a brincar: – vou musicar os seus poemas.
No avião de regresso para Madrid, comecei a
trabalhar, e em casa ia cantando os poemas só
com a voz, sem instrumentos. Passados três dias
compus todas as músicas mas, por acidente, foram
apagadas do minidisc. Comecei de novo, com a
certeza de que não ia ter problemas. Depois passei
à harmonia e gravei umas maquetes, que José 
Saramago e Pilar del Rio ouviram em Outubro
de 2005. Só questionaram a minha pronúncia do
português. Tomei nota, comecei a estudar e fui
aprendendo ao ouvir Saramago a declamar os
seus próprios poemas, numas cassetes que tinha
gravado para mim. Foi fundamental gravar metade
do disco em Portugal, com a produção de João
Lucas e a ajuda de João Afonso».
«Estava predestinado a fazer este disco pela minha
paixão por Portugal, pela música e a língua», diz
Luís Pastor. «Em português, antes só tinha musicado
um poema de Fernando Pessoa, mas sempre
admirei e fui amigo de José “Zeca” Afonso e do seu
sobrinho João, do Fausto, de Sérgio Godinho... Ao
deparar-me com a obra de José Saramago senti
a musicalidade e a importância da temática. No
álbum há poemas de amor, alguns mais surrealistas,
outros sociais... São poemas grandes, belíssimos,
nunca banais». Pilar del Rio escreveu: «apesar dos
conselhos dos bem-pensantes, é como se José
Saramago e Luís Pastor gostassem de brincar.
Transgrediram as normas e a idade, cada um
acarretando os seus muitos e jovens anos de uma
vida entre poemas e canções, com a pele nua,
sentindo e desfrutando. Mais do que um disco é
um milagre».
Ninguém melhor do que Saramago para resumir
este feliz encontro da música e da palavra Nesta
esquina do tempo: «Que seja eu o autor das poesias
aqui interpretadas, em português e em espanhol,
é só uma feliz coincidência. O que mais importa é
a música. E a voz, essa inconfundível voz de Luís
Pastor, áspera e ao mesmo tempo suave, como o
foram as vozes dos grandes trovadores do século
passado. Ouçamo-lo.
O tempo cabe todo na duração de um disco»