Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

domingo, 10 de janeiro de 2021

"O veto ao Evangelho de Saramago, 25 anos depois" Publicado em 25/04/2017 no Observador


Publicado aqui

via https://observador.pt/especiais/o-veto-ao-evangelho-de-saramago-25-anos-depois/

De Joana Stichini Vilela (25 abr 2017)

"Em 1992, o subsecretário de Estado da Cultura afasta José Saramago de um prémio literário. Magoado, o escritor deixará Portugal e anos depois ganhará o Nobel. Sousa Lara diz ter rezado por ele.

– “Quer que lhe conte o que se passou? Normalmente, é publicado errado.”

– “Quando quiser. Está a gravar.”

António Sousa Lara, 65 anos, senta-se na primeira fila do pequeno auditório da Academia de Letras e Artes, no Monte Estoril, instituição a que preside e que funciona “por caturreira” há 30 anos. Porte aristocrático, chapéu de feltro na cabeça, anel com brasão no mindinho, prepara-se para recuar a 1992. O ano é o da morte da sua carreira política e o de uma viragem radical na vida e obra do Nobel José Saramago. Provocador experiente, o ex-subsecretário de Estado da Cultura levanta o queixo, semicerra os olhos, contempla o horizonte e arranca: “Vamos lá ver. Estamos num Governo de Cavaco Silva…”


A vida pública desta história começa de forma tímida, numa altura em que ninguém intui nem o impacto nem a longevidade e muito menos as repercussões que terá. Nas palavras de Lara, “três meses de xivarri”.


“Este livro não, porque ofende”

A 25 de Abril de 1992, faz agora 25 anos, uma notícia remetida para o terço inferior de uma das páginas da secção de Cultura do jornal Público avança, “Sousa Lara corta nome de Saramago”. Antetítulo: “Prémio Literário Europeu” (PLE). Em causa está O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o sexto romance do autor depois de, em 1980, com Levantado do Chão, ter saltado das notas de rodapé para um papel de destaque na história da literatura portuguesa. “Não representa Portugal”, justifica Sousa Lara ao jornalista do Público. “Não me pediram um julgamento sobre a obra inteira de Saramago, mas sobre este livro. Ora, há questões pessoais que me modelam, às quais não me oponho por questões de consciência pessoal.”


A capa da edição de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” 
que está atualmente nas livrarias (Porto Editora)

Saramago escusa-se a comentar. Só sabe da notícia pelo próprio jornalista. “O Torcato [Sepúlveda] ligou-nos para casa e o José ao princípio disse, ‘Palavra? Nah, não é possível’. Estava quase divertido”, conta a viúva, Pilar del Río, 67 anos. “[Quando se confirmou] Ficou tão dececionado e tão magoado… Não por causa do prémio. Mas porque o Governo do seu país tinha feito uma coisa de que ele tinha vergonha. Dizer, ‘este livro não, porque ofende’.”

O Evangelho Segundo Jesus Cristo “era um romance de grande ousadia”, lembra o editor de Saramago na Caminho, Zeferino Coelho. “O ateísmo militante de Saramago já era conhecido. Agora, pegar em Deus, em Cristo, e transformá-los em personagens de romance, ainda por cima um romance negativo, isso foi uma grande ousadia.” Na sua opinião, Saramago tinha noção do efeito que o livro causaria e terá sido essa uma das razões por que o escreveu. O autor gostava de provocar o debate. Só não contava com a censura.

A administração interna, explica Sousa Lara, “tinha tudo a ver” com o seu perfil. “A minha tese de doutoramento é sobre subversão do Estado.” Quanto à cultura, ainda mais a “dos vivos”, olhava para ela “como um lúdico”.

No Monte Estoril, Sousa Lara afirma não gostar de polémica. “Mas não fujo”, assegura. “E não cedo.” Há 25 anos, declarava: “A tutela cultural não deve assinar de cruz as sugestões dos seus serviços.” Referia-se com isto ao processo de seleção das obras, ou seja à parte inicial desta história, os bastidores.

A 14 de Abril, avançará o jornal O Independente, Sousa Lara recebe do Instituto Português do Livro e da Leitura (IPLL) um ofício com a sugestão de três nomes para candidatos ao PLE: Saramago, Pedro Támen e Fiama Hasse Pais Brandão. A lista fora elaborada depois de consultados a Associação Portuguesa de Escritores, o Pen Club e o Centro Português de Escritores Literários. Artur Anselmo, então presidente do IPLL, informa Lara de que também obtiveram o apoio dos Escritores Literários os nomes de Hélia Correia, com A Casa Eterna, e de Sophia de Mello Breyner, pelo Obra Poética – Volume II. Dois dias depois, Lara assina um primeiro despacho com a sua escolha: Fiama, Támen e Sophia. A 20 de Abril, Artur Anselmo responde, “proponho, a título pessoal, o Vale Abraão, de Agustina Bessa-Luís”. Lara junta o nome de Agustina ao despacho. Nem Pedro Santana Lopes, secretário de Estado da Cultura, nem Maria José Nogueira Pinto, secretária de Estado Adjunta, estariam a par destas movimentações.

O artigo publicado no Público a 25 de abril de 1992

Sousa Lara recorda este capítulo de forma um pouco diferente, na sua versão a história começa ainda antes, com a sua nomeação para subsecretário de Estado da Cultura.

O convite original para secretário de Estado da Administração Interna fora do amigo Dias Loureiro. E Lara aceitara. Só que pouco depois viu o seu passe transferido para outro Ministério. Melhor dizendo, secretaria de Estado. “Domingo à noite, liga-me o Dias Loureiro a dizer que o Santana dizia que ficava ofendido, porque eu tinha criado o Instituto de Estudos Políticos com ele”, conta. “E eu lembro-me de ter respondido por telefone, ‘Olha, Manuel, não te agradeço. Já estou…’ E depois disse um palavrão que equivale a ‘lixado’ mas começa por ‘f’. Sic.” A administração interna, explica, “tinha tudo a ver” com o seu perfil. “A minha tese de doutoramento é sobre subversão do Estado.” Quanto à cultura, ainda mais a “dos vivos”, olhava para ela “como um lúdico”.

“Parece que há um problema com o Saramago”
De perfil harmonioso, barba branca bem aparada e bigode de pontas arrebitadas, Sousa Lara mantém o rosto a que Saramago chamou “suave” numa entrevista de 10 de Maio de 1992 ao Público (para depois acrescentar que quer em Portugal quer em Espanha, “os retratos dos inquisidores apresentam semelhanças [com Lara], numa espécie de ar de família”). Professor universitário, o ex-subsecretário de Estado tem jeito para as palavras. Verbo certeiro, ágil, informal. As narrativas surgem com frequência em discurso direto, pontuadas por termos coloridos. E também por uma ideia recorrente: a alegada omissão deliberada por parte dos média de determinados aspetos deste episódio.

Como quando Artur Anselmo lhe apresentou a lista e lhe transmitiu que teria de ser a tutela a indicar os candidatos. “Eu disse, ‘acho muito mal. Posso estar aqui como gestor e não perceber nada de literatura’. Sic. Este facto é sempre omitido.” Lara continua: “E, depois, quem é que fabricou a short-list? Aquilo era uma lista ‘esquerdosa’.” E ainda: “Eu digo ao Anselmo, ‘Com esta porcaria, o Saramago não vai, nem por cima do meu cadáver’.” Solução: “’Nem li o livro da Sophia, mas não me interessa – vai esse. Tudo o que ela faz é bom’.”

Parêntesis: Se está a perguntar-se se Lara tinha lido o Evangelho Segundo Jesus Cristo, a resposta é “não”. Ou melhor, “uma parte”. Porquê? “Porque houve alguém que leu e disse, ‘este gajo é um pulha, já viste o que ele diz de Deus?’ E fui ler aquele bocado. E era ofensivo.” Parêntesis dentro do parêntesis: hoje, não só já leu como tem várias edições. Tornou-se uma piada entre os amigos que, volta e meia, lhe oferecem um exemplar.

Lara defende que a lista estava “cozinhada” para Saramago fazer parte dela. Insiste que a cultura “é um ninho de vespas da esquerda”. E que houve “má fé”. Acabaria por tomar uma decisão pessoal em nome do Estado. “É a minha maneira de fazer política”, assume sem hesitar. “A minha conceção de democracia – e agora entra outra parte que ninguém publica – é que a democracia não é o consenso nem a bissetriz. É a direita contra a esquerda e a esquerda contra a direita. Tenho uma lógica de luta, de combate, de cruzada, de porrada.”

Santana Lopes só sabe do veto na véspera da notícia do Público. Sousa Lara argumentaria que se tratava de uma “competência delegada”. De acordo com O Independente, na estreia do filme “Aqui D’El Rei”, Maria José Nogueira Pinto terá comentado com o secretário de Estado: “Parece que há um problema com o Saramago”.


Francisco Sousa Tavares pede a demissão do subsecretário de Estado, alegando que este está “agarrado à cadeira do poder” e alerta para a repercussão internacional: “Lançou de novo sobre nós os estigmas tradicionais da intolerância religiosa e do repúdio da abertura espiritual”. O escritor João de Melo sintetiza, “Saramago neste momento somos todos nós.”
Índice
“Este livro não, porque ofende”
“Parece que há um problema com o Saramago”
“Tony, que Deus te guie”
“Ingrato e repugnante”
“O Inferno está cheio. Não se ria”
Quatro dias depois o caso vai parar à Assembleia da República durante o debate parlamentar sobre a Cultura. A intervenção de Lara ficará para a história. Se por boas ou más razões, depende da perspetiva. O subsecretário de Estado começa por argumentar que o caso não devia ter sido tornado público. Depois, alega que “a obra ataca o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, divide-os.”

No Público, Torcato Sepúlveda comenta, “tal raciocínio evoca, com efeito, o Tribunal do Santo Ofício”. Sucedem-se as acusações de censura. A palavra “inquisição” nas suas várias declinações, enunciada pelas mais variadas personalidades literárias e da cultura, propaga-se pelas páginas dos jornais. Promovida a escândalo, a polémica internacionaliza-se. Surgem relatos e reações nos jornais espanhóis ABC, El País e El Mundo, nos franceses Libération e Le Monde, no italiano La Stampa, e na Folha de São Paulo. Até o ministro da cultura francês se manifesta. Para Jack Lang a censura de que o “Evangelho” foi alvo é “inaceitável”.

Entretanto, o eurodeputado socialista João Cravinho tenta levar o caso ao Parlamento Europeu. A 9 de Maio, o Expresso noticia: “O Presidente do Parlamento Europeu, Egon Klepsch, envia carta a Jacques Delors [presidente da Comissão Europeia] pedindo explicações sobre o afastamento de Saramago à candidatura ao PLE.”

Um fax enviado por Agustina Bessa-Luís para a Sociedade Portuguesa de Autores, 
um pedido para José Saramago não desistisse da candidatura ao Prémio Europeu de Literatura

Por cá, Támen e Fiama recusam a candidatura ao PLE. Já o poeta David Mourão Ferreira é dos mais vocais. Numa mensagem escrita defende que o primeiro-ministro devia “ter pedido desculpas públicas” ao escritor e que é Cavaco Silva “quem deve ser responsabilizado pelo estado novo a que chegou o grotesco e tenebroso processo das candidaturas portuguesas”. Já Francisco Sousa Tavares pede a demissão do subsecretário de Estado, alegando que este está “agarrado à cadeira do poder” e alerta para a repercussão internacional: “Lançou de novo sobre nós os estigmas tradicionais da intolerância religiosa e do repúdio da abertura espiritual”. O escritor João de Melo sintetiza, “Saramago neste momento somos todos nós.”

Entretanto, uma sondagem do jornal Público indica que 63,3 por cento dos habitantes de Lisboa e Porto acham que o “Evangelho” devia fazer parte da lista de candidatos ao PLE. O Expresso também consulta o cidadão comum e divulga resultados que apontam para um equilíbrio maior na sociedade portuguesa: 57 por cento dos inquiridos está contra a exclusão.

“Tony, que Deus te guie”
Por esta altura já Santana Lopes chamou a si o caso, revogou a decisão de Sousa Lara e afastou o subsecretário de Estado. Santana anuncia a criação de novo júri para escolher nova lista de candidatos. Saramago avisa logo que não estará disponível e pede para não ser considerado sequer. Santana ignora o repto, alegando que essa decisão cabe ao júri internacional.

Se Sousa Lara começou por agir sem informar ninguém, agora é ele próprio quem se queixa de ter sido mantido na ignorância. A quem? Ao primeiro-ministro. “O Cavaco apoiou-me sempre”, diz. “Ele é uma pessoa hierática.” Como prova disso, depois do veto, Cavaco tê-lo-á convidado para ir à estreia de “qualquer coisa do La Féria” [“Maldita Cocaína”]. Lara conta que recusou dizendo que a sua presença monopolizaria as atenções e neutralizaria a imagem que o primeiro-ministro queria dar, que era a de pessoa atenta à cultura. “E então não fui. Porque não preciso. Porque se o Cavaco estivesse contra, eu diria a mesma coisa. Aqui não há negociação possível. É risco no chão. Ninguém percebeu. Não há negociação possível!”

Na sequência da decisão de Santana, o subsecretário de Estado acabaria por pedir a demissão ao primeiro-ministro. Sem sucesso. Conta que Cavaco lhe respondeu: “’Isso não pode ser. Seria uma atitude de fraqueza’”. Conclusão: “Estive lá a ‘abobrar’. Só saí em novembro, quando o Deus Pinheiro foi à vida. Perguntaram, ‘Quer ir agora?’ ‘Quero, quero’. Ala!” De facto, Lara só abandona o Governo a 13 de novembro de 1992, altura em que o então ministro dos Negócios Estrangeiros também sai, apesar de, entretanto, ter havido duas outras remodelações, uma em junho e outra em agosto.

Ao longo destas semanas, José Saramago desdobra-se em entrevistas e declarações. A sua casa, um pequeno T1+1 na Rua dos Ferreiros à Estrela, em Lisboa, converte-se em central telefónica. “Um inferno”, resume Pilar del Río. “Não só por causa deste caso mas também porque Saramago era a pessoa mais conhecida de Portugal tirando os futebolistas.”
Índice
“Este livro não, porque ofende”
“Parece que há um problema com o Saramago”
“Tony, que Deus te guie”
“Ingrato e repugnante”
“O Inferno está cheio. Não se ria”
Novo parêntesis. Em junho, um jantar de “homenagem ao Prof. Doutor António de Sousa Lara (…) pela coerência e verticalidade” reunirá 250 pessoas no restaurante Muchaxo, no Guincho. Entre elas incluem-se D. Duarte Pio de Bragança, que não presta declarações mas que horas antes tinha dito à TSF que o livro de Saramago era “uma grande merda” e o presidente da Câmara de Cascais, Georges Dargent, que fala num “combate às forças do mal”. Enviam mensagens de apoio Cavaco Silva, os ministros Couto dos Santos, João de Deus Pinheiro e Marques Mendes, bem como os diretores dos jornais O Diabo (Vera Lagoa), O Título e A Zona. A dada altura, um dos membros da organização lança o repto, “Tony, que Deus te guie”.

Mesmo com Sousa Lara fora do caminho, não há maneira de Santana conseguir nova lista de candidatos. Parte dos jurados vai-se revelando indisponível até que o presidente do IPLL, que anunciara a formação do júri, decide acabar com ele. “A polémica tinha atingido tal grau de insanidade e envenenamento que o Dr. Óscar Lopes [presidente do júri] diz que não há condições políticas, ecológicas, ambientais para o júri se reunir.”, lembra Artur Anselmo, hoje presidente da Academia das Ciências. “E a coisa ficou por aí.”

Na opinião de Artur Anselmo, tudo não passou de uma “lamentável intromissão da esfera política na esfera cultural. E não teve só a ver com Portugal. Teve a ver com todos os países que faziam parte da então CEE.” Este é capaz de ser o único ponto em que há acordo entre todos os intervenientes: ao contrário do previsto no regulamento do prémio, a decisão não devia ser política – embora os dois anteriores governantes por quem passaram listas da mesma natureza, em 1990 e 1991, se tivessem limitado a dar o seu aval às sugestões das entidades consultadas. Quanto a 1992, com o fim do júri, volta tudo ao início: Támen, Fiama… e Saramago.

Ao longo destas semanas, José Saramago desdobra-se em entrevistas e declarações. A sua casa, um pequeno T1+1 na Rua dos Ferreiros à Estrela, em Lisboa, converte-se em central telefónica. “Um inferno”, resume Pilar del Río. “Não só por causa deste caso mas também porque Saramago era a pessoa mais conhecida de Portugal tirando os futebolistas.”

Nos jornais, há sobretudo declarações de solidariedade, mas também se desenterram acusações de censura. Recorda-se o Verão Quente de 1975, altura em que o militante comunista esteve à frente do Diário de Notícias: “Pessoalmente, quero servir a construção do socialismo. E o DN vai ser um instrumento nas mãos do povo português para a construção dessa linha já adotada pelo Conselho Superior de Revolução…” O diretor do Expresso, José António Saraiva, cria um cenário em que o PCP subiu ao Governo e Saramago é secretário de Estado da Cultura para provocar: “Na hipótese de um livro, mesmo notável – mas crítico em relação ao comunismo –, ser indigitado para um prémio, Saramago dar-lhe-ia ou não o seu apoio? Muito provavelmente não.”

Reportagem no jantar de apoio a Sousa Lara; no canto superior direito 
é reproduzido o convite do evento (Público)

Ao mesmo tempo, as vendas do romance disparam. A 21 de maio, já vai nos 135 mil exemplares, só em Portugal. Pouco depois, torna-se um dos mais procurados na Feira do Livro de Madrid e entra para o Top 10 espanhol. Pilar del Río diz desconhecer quantos livros se venderam ao todo. Remete para a Caminho, que por sua vez passa a bola para a Porto Editora, que detém atualmente os direitos da obra do Nobel mas declara não poder avançar essa informação. Adianta, porém que o “Evangelho” continua a vender-se “todas as semanas”, longe, porém, dos números do principal best-seller de Saramago, “Memorial do Convento”.

Saramago diz precisar de tranquilidade. Já há bastante tempo que o casal procurava uma casa para comprar nos arredores de Lisboa. Mafra, por exemplo, lembra Zeferino Coelho. Por coincidência, a 1 de maio, uma semana apenas depois de estalar a polémica, vão visitar a irmã de Pilar a Lanzarote, em Espanha. “Descobrimos o princípio do mundo”, lembra Pilar. “E aí fui eu que disse, ‘por que não nos mudamos para Lanzarote?’ Todos os criadores dizem a dada altura, ‘iria viver para uma ilha deserta’. Pois alguns o dizem e o fazem.”

A notícia cai com estrondo em Portugal: Saramago abandonaria o país na sequência do veto de Sousa Lara. Em entrevista ao Público, o escritor tenta clarificar: “Há uma coincidência que eu não busquei”. Pilar começa por admitir que foi em parte por causa desta questão que resolveram mudar-se – “foi muito duro para um escritor a polémica que se montou, ter de responder ao mundo” –, para depois desvalorizar: “Coincidiu”.

“Ingrato e repugnante”
Na Fundação Saramago, em Lisboa, a Presidenta – como insiste em formular a palavra – limpa distraída um retrato a óleo do escritor com um lenço de papel. As obras do Terminal de Cruzeiros, mesmo em frente à Casa dos Bicos, enchem tudo de pó. Conversa rodeada de artefactos da vida e obra do Nobel, incluindo um top 10 da Bertrand da década de 1990 em que apenas dois livros não são dele: Vai Onde te Leva o Coração, em 7º, e Aparição, em 10º. Há alguma acidez no discurso, mas sobretudo amargura: “Este episódio é ingrato e repugnante”; “Não significou nada para Saramago”; “’Desilusão’? Não. Para nos desiludirmos temos de ter estado iludidos”; “Saramago está a anos de luz de toda esta situação e de toda esta gente. Pensam que Saramago estava preso a uma decisão de um Governo que já não existia, que tinha membros presos? Por amor de Deus. Saramago tinha seguido navegando pelo mundo e os outros continuavam por aí.”



Seja qual for a interpretação, a verdade é que o “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, que coincide com a mudança para Lanzarote, assinala um ponto de viragem na obra do escritor. “Ele dizia que até ao ‘Evangelho’ escrevia sobre a estátua”, explica Zeferino Coelho. “A partir do ‘Evangelho’ passou a escrever sobre a pedra.” A primeira é a superfície; a segunda o seu interior. “Já não é o homem em determinada circunstância. O que lhe importa é a alma humana no que ela tem de universal.”

Saramago explica esta evolução em 1998, na Universidade de Turim, numa palestra mais tarde publicada em livro e intitulada “Da Estátua à Pedra” (em que afirma ainda e de forma taxativa que o Evangelho Segundo Jesus Cristo é não só o seu romance que “gerou mais polémica” mas também “a causa de ter mudado a minha residência de Lisboa para Lanzarote”).

O primeiro romance desta nova fase chama-se Ensaio Sobre a Cegueira. “Que eu acho”, prossegue Zeferino Coelho, “e até lho disse várias vezes – ele não concordava – que é o melhor romance dele.”

Entre um e outro livro passam quatro anos. O interregno é atípico, mas a vida do escritor está cada vez mais cheia. Além de que a matéria ficcional que agora o ocupa é de uma dureza inusitada. “A certa altura cheguei a dizer: ‘Não sei se consigo sobreviver a este livro.’”, contaria ao Expresso em 1995. “Foi como se tivesse dentro de mim uma coisa feia, horrível, e tivesse de sacá-la. Mas não saiu, está no livro e está dentro de mim.”

Saramago era um pessimista. Para ele, a irracionalidade estava a tomar conta de um mundo contemporâneo ao serviço do lucro e do mercado. Na opinião do autor de Biografia – José Saramago (Guerra & Paz), João Marques Lopes, “os efeitos da polémica e do veto poderão ter contribuído para o aprofundamento do pessimismo”, afirma por email, “mas creio que são secundários face às mudanças geo-políticas e ideológicas do ‘mal-chamado’ socialismo real em 1989-1991.” Quanto a Lanzarote? “Há quem relacione a ‘secagem’ do estilo barroco com a orografia desprovida de vegetação e de arvoredo. Acho que pode estar correto.” Pilar concorda: “Talvez a austeridade de Lanzarote [tenha sido uma influência]”.

“Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma Sousa Lara. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer cota-parte nessa causa.”
Índice
“Este livro não, porque ofende”
“Parece que há um problema com o Saramago”
“Tony, que Deus te guie”
“Ingrato e repugnante”
“O Inferno está cheio. Não se ria”
Adaptado ao cinema em 2008 pelo brasileiro Fernando Meirelles, Ensaio Sobre a Cegueira é porventura o livro mais importante no percurso internacional de Saramago. A edição americana sai em 1998 e é recebida com entusiasmo pela imprensa. “Lembro-me de uma recensão publicada no Los Angeles Times que o classificava como um romance sinfónico”, conta Zeferino Coelho. “Isto em Agosto, Setembro. Em Outubro dão-lhe o Prémio Nobel. Pode ter empurrado um bocadinho.” O romance aparece em destaque no texto de atribuição, “Um dos romances destes últimos anos aumenta consideravelmente a estatura literária de Saramago. É publicado em 1995 e tem como título ‘Ensaio Sobre a Cegueira’.”

“O Inferno está cheio. Não se ria”
Uma das histórias que Sousa Lara gosta de contar tem a ver com um momento de epifania na sua vida. Antes do 25 de Abril, um artigo seu sobre o LSD publicado num jornal monárquico foi censurado pela PIDE. Indignado com a situação, foi falar com o director, Jacinto Ferreira. “Eu tinha 18, 19 anos”, conta. “Disseram-me: ‘És muito miúdo. Não sabes que há verdades que não se podem dizer?’ Fez-se clique. Olhei para o gajo e disse assim: ‘Mas comigo é que não’.”

Não deixa de ser curioso que o homem que aponta um episódio de censura como um dos mais transformadores da sua vida se tenha tornado infame por causa de uma acusação de censura. Hoje, Sousa Lara diz-se “proscrito”: “Escovaram-me da política”. Ainda assim, voltaria a vetar a candidatura. “Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer quota-parte nessa causa.”

Quando no ano passado Cavaco Silva condecorou Sousa Lara com a Ordem do Infante D. Henrique, destinada a “quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no país e no estrangeiro”, o colunista João Pereira Coutinho aproveitou para atiçar o lume: “Se a esquerda fosse verdadeiramente grata, já teria erguido uma estátua ao homem por serviços prestados à causa.” Para provocador, provocador e meio. O gesto de Lara foi “pacóvio”, escreveu no Correio da Manhã, e “ridículo” avançou ao Observador por email, mas “sem Sousa Lara, jamais Saramago teria optado pelo ‘exílio’ em Lanzarote; sem esse ‘exílio’, jamais Saramago teria sido o escritor ‘maldito’ (ou ‘perseguido’) que ele passou a usar na lapela; e sem o ‘exílio’ e a ‘perseguição’, não haveria Prémio Nobel para ninguém.” Mais: “a repercussão internacional foi imensa – e é justo extrapolar que aumentou a visibilidade de Saramago.” Como Lara gosta de dizer, “os argumentos são subjetivos”.

O editor de Saramago acredita que hoje o “Evangelho” voltaria a causar alvoroço. “Para mim, o direito à blasfémia é a medida da liberdade do pensamento. Mas a opinião dominante lida mal com isto.” Um exemplo recente é o da Bíblia de Frederico Lourenço (Quetzal). Traduzida do grego, faz opções semânticas que põem em causa dogmas da Igreja. Lourenço, Prémio Pessoa 2016, chegou a ser acusado de ignorante. Mas não por Sousa Lara, ressalve-se. O ex-subsecretário de Estado da Cultura é fã. “Tenho cinco versões da bíblia na minha mesa de cabeceira. Desde que saiu, que só leio essa”, conta. “É mais consentânea com o que terá sido. O gajo é um erudito. Aquilo dá gosto. Só que tem perigos, rasteiras.”

Lara diz viver em oração permanente. Tem uma fé inabalável, permanente, impositiva: “Preenche o oxigénio dos meus dias.” Pela primeira vez, parece ter algum receio de ser mal interpretado. “Dizer isto parece mal.” Da mesma forma, garante não guardar rancores. Nem um ao longo da vida.

– E quando disse, ‘vou rezar pelo Saramago’, rezei. Não acho que valha a pena porque ele deve estar no Inferno.
– Acredita no Inferno, portanto?
– Ah, claro. E acredito que está cheio. Não se ria.
– E quando chegar a sua vez?
– Espero passar no exame.

Contactados pelo Observador, nem Aníbal Cavaco Silva nem Pedro Santana Lopes se mostraram disponíveis para comentar este caso. Em 1992, ganharia o Prémio Literário Europeu e os correspondentes 20 mil ecus o espanhol Manuel Vázquez Montalbán.





terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Visita à Delegação da Fundação José Saramago na Azinhaga - Golegã

Visita à Delegação da Fundação José Saramago na Azinhaga - Golegã

Delegação de Azinhaga
Largo das Divisões
Azinhaga
2150-008 Golegã
azinhaga@josesaramago.org
Tel. ( 351) 249 957 032








 

sábado, 2 de janeiro de 2021

Projecto página Facebook "Viagem pelos Cadernos de Saramago"

Revisitar os dias vencidos e plasmados na diarística dos cinco "Cadernos de Lanzarote" e "Último caderno de Lanzarote", que compreendem os anos de 1993 a 1998, e que com o findar deste ano em que criámos esta página, se juntam "O Caderno" I e II, com os textos escritos para o blog https://caderno.josesaramago.org/

Revisitemos esses dias passados pela memória escrita de José #Saramago

#ContinuarSaramago

https://www.facebook.com/viagempeloscadernosdesaramago





Faleceu Carlos do Carmo

Carlos do Carmo emprestou a sua Caligrafia na reedição da obra de José Saramago 

"O que farei com este livro?"

Faleceu aos 81 anos 🥀 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

"José Saramago, uma vida de resistência" documentário da BBC (2002)

"Documentário sobre José Saramago, da série "BBC Profiles", por Julian Evans, em 2002."

"On the eve of publication of The Cave- Saramago's first novel since winning the Nobel Prize for Literature - the writer discusses his life and career.

Director: Christopher Bruce
Writer: Julian Evans
Stars: Hélia Correia, Maria da Piedade Damiao, Julian Evans"



Pode ser consultado e visualizado via Youtube, aqui

 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Entrega do Prémio Cidade de Lisboa (01/06/1982)


 Entrega do prémio Cidade de Lisboa, ao escritor José Saramago pelo livro Levantado do Chão. A esta cerimónia presidiu o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Nuno Abecasis (01/06/1982)

Pode ser consultada via Arquivo Municipal, aqui 

sábado, 3 de outubro de 2020

"Preparação do programa comemorativo do centenário de Saramago arrancou hoje" (via RTP 02/10/2020)

Pilar del Río no momento da apresentação
Notícia que pode ser recuperada aqui,

em https://www.rtp.pt/noticias/cultura/preparacao-do-programa-comemorativo-do-centenario-de-saramago-arrancou-hoje_n1263553

"O Ministério da Cultura e a Fundação José Saramago assinaram hoje um acordo para prepararem conjuntamente um programa comemorativo do centenário do escritor, para 2022, que celebre e homenageie a sua vida e obra, e simultaneamente promova a leitura.

O memorando de entendimento foi assinado hoje à tarde pela ministra Graça Fonseca, e pela presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Rio, à sombra da oliveira que guarda as cinzas do escritor, em frente à Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago (FJS).

O objetivo deste acordo é preparar um programa comemorativo do centenário do escritor português, vencedor do Nobel da Literatura, que celebre a sua vida e obra, nas dimensões de escritor e de pensador; que reforce a sua presença na história cultural e literária; que promova o estudo e a difusão tanto da obra como do pensamento do autor; que estimule, através da sua obra, o conhecimento e o interesse pela literatura portuguesa e pelo património cultural português.

Segundo Graça Fonseca, o Ministério da Cultura terá um papel central no programa comemorativo, através das suas diversas instituições, mas o objetivo é que esta seja "uma iniciativa aberta a todos aqueles que queiram dar o seu contributo às comemorações".

"Festejar José Saramago é celebrar uma obra ímpar e transversal", mas é também "festejar Portugal e a língua portuguesa, num dos seus mais intensos e brilhantes cultores", assim como um dos mais significativos momentos da história recente, a atribuição do Nobel da Literatura a um português.

Para a ministra, esta será "uma oportunidade privilegiada para celebrar a obra de José Saramago, mas também para homenagear a sua figura de cidadão".

"Promover a leitura, em articulação com os setores públicos e privado, é uma missão estrutural do Ministério da Cultura, e é, como não poderia deixar de ser, um dos eixos centrais deste centenário", afirmou, sublinhando que esta promoção da leitura se reveste de um sentido mais amplo, que se estenda para lá da comunidade de leitores de José Saramago.

Neste mesmo sentido, Pilar del Rio assinalou que "este centenário vai ativar a memória" e que serão recordados temas inerentes às obras de Saramago, como a reconstrução do Convento de Mafra, ou temas políticos, como "a noite levantada de 25 de Abril, assim como se recordará Luis de Camões, Padre António Vieira, ou Gil Vicente, "que perguntou pelas alabardas e espingardas, e que José Saramago lembrou no seu último livro".

"Reviveremos momentos únicos que os livros nos proporcionam", afirmou, sublinhando que irão trabalhar para que as comemorações do centenário -- que começaram a ser preparadas em tempos de pandemia -- sejam "um acontecimento na vida cultural portuguesa".

O comissário para a celebração do centenário, Carlos Reis, destacou que este entendimento com o Ministério da Cultura é "fundamental", porque muito do que se pretende fazer "é feito ou dinamizado por organismos sob a tutela do Ministério da Cultura.

"O centenário será um momento decisivo para consolidar o escritor como referência cultural e para celebrar a literatura, que nunca foi tão importante como neste momento de angústia e medo que estamos a viver".

O centenário do nascimento de José Saramago assinala-se a 16 de novembro de 2022.


quinta-feira, 14 de maio de 2020

"Still a street-fighting man" Entrevista de Stephanie Merritt a José Saramago para o "The Guardian" (30/04/2006)

A entrevista de Stephanie Merritt publicada no "The Guardian" em 30/04/2006 pode ser recuperada e consultada aqui,
em https://www.theguardian.com/books/2006/apr/30/fiction.features1?fbclid=IwAR0pf74nS8G1oYS0G4xytiJ9zM0YJYrU_lECn1oWJunC1mTJKEF6Eeivsjc

"Still a street-fighting man"

"In his first interview with an English newspaper, 83-year-old Portuguese novelist José Saramago reveals that his famed radicalism is undiminished"

"The architecture of José Saramago's purpose-built library, as it rises from a parched hillside on his adopted island of Lanzarote, creates the impression of a modern cathedral. Sunlight splinters through high, narrow windows of opaque glass that stretch the full two storeys; the clean, white walls and cool flagstones contribute to a sense of hushed reverence in the presence of so many volumes, ancient and modern, in so many languages. Here is a shrine to literature, an alternative religion for a Portuguese Nobel laureate, who left his homeland 14 years ago in protest at the government's censorship of his novel, The Gospel According to Jesus Christ (it vetoed its submission for the European Literature Prize on the grounds that it was offensive to Catholics).

It takes some effort to believe that Saramago is about to turn 84 - not just because of his vivid physical presence, his barely-lined face and the quickness of his eyes and hands when he talks, but also because of his extraordinary productivity.

Although Seeing is published this week in English translation, he has produced another book in the meantime; Las Intermitencias de la Muerte was published last autumn in Portugal, Spain and Latin America (his Spanish wife, Pilar del Rio, translates his books as he goes along so that they can be published simultaneously for his large Spanish readership), and he is now working on an autobiography entitled Peque?Memorias (Little Memories), about his childhood in rural Portugal.

But the image of the venerable novelist shut away in his island retreat, disengaged from the world, could not be further from the truth. Saramago is about to leave Lanzarote for two months of travelling, as he does most years, in part to promote the new novel, but mainly to speak at conferences and presentations on politics and sociology. 'Most of it doesn't have much to do with literature,' he explains, 'but this is a part of my life that I consider very important, not to limit myself to literary work; I try to be involved in the world to the best of my strengths and abilities.' Still a member of the Communist party, Saramago is a vocal opponent of globalisation and many of his best known novels have taken the form of political allegory. Does he believe that the artist is obliged to take on a political role? 'It isn't a role,' he says, almost sharply.

'The painter paints, the musician makes music, the novelist writes novels. But I believe that we all have some influence, not because of the fact that one is an artist, but because we are citizens. As citizens, we all have an obligation to intervene and become involved, it's the citizen who changes things. I can't imagine myself outside any kind of social or political involvement. Yes, I'm a writer, but I live in this world and my writing doesn't exist on a separate level. And if people know who I am and read my books, well, good; that way, if I have something more to say, then everyone benefits.'

Seeing evolved into a kind of sequel to his 1995 novel, Blindness, in which the inhabitants of a republic that may or may not be Portugal are struck by a temporary epidemic of blindness and quickly revert to barbarism. Seeing revisits the same country four years later as it experiences another unprecedented phenomenon: despite the high turnout for the municipal election, when the votes are counted, more than 80 per cent have been returned blank. This wholesale vote of no confidence in any of the political parties makes a farce of the democratic process and the leaders are forced to declare a state of emergency.

'I was giving a talk about my novel, The Double, in Barcelona,' Saramago remembers. 'I have this habit of only talking about my books for a few minutes, then I prefer to spend the time talking about the world in which we find ourselves, a world which is a disaster, and usually I end up talking about the problem of democracy, whether we truly have a democratic system, and I believe that we don't. And in Barcelona, someone asked me, well then, what do you propose? Because I was saying that, in reality, the world is governed by institutions that are not democratic - the World Bank, the IMF, the WTO. People live with the illusion that we have a democratic system, but it's only the outward form of one. In reality we live in a plutocracy, a government of the rich.'

So what was his solution?

'I answered that I didn't have a solution, except that we, as citizens, do have the power of the vote, but we always use it to vote for one or other of the parties on off er. But there is another possibility, which is to cast a blank vote.' He leans forward and points a stern finger. 'And this is not at all the same as abstention. Abstention means you stayed at home or went to the beach. By casting a blank vote, you're saying that you understand your responsibility, you have a political conscience and you came to vote, but you don't agree with any of the existing parties and this is the only way you have of saying so.

'Then I thought about what would happen if the blank votes went up to 50 or more per cent. It would be a way of saying society has to change but the political powers we have at the moment are not enough to effect this change. The whole democratic system would have to be rethought.' He speaks Spanish with a heavy Portuguese inflection, each sentence composed with precision, not at all like the rather breathless, digressive narrative style that has become a hallmark of his novels. Expounding these theories, he comes across as grave and wise, though when he talks about the problems of poverty in Africa or the volatility of most employment, there flares a passionate anger that has fuelled his lifelong commitment to leftist politics.

But there's a twinkle of humour, too, in his mock sternness with his dog as she scuffles around our feet, and a warmth in his exchanges with his wife, who comes in to offer us coffee; as she turns to leave, he impulsively clutches her hand and gives it an affectionate squeeze. I point out that, for all the brave intentions of the blank voters in Seeing, the novel has a bleak end - the authorities simply revert to force, though the protest has been as peaceful as a protest could be; in the end, it seems to have been in vain. I tell him it reminded me of the anti-war demonstrations in London.

'Yes, it all ends badly, because things are not mature,' he says sadly. 'Here in Spain, 90 per cent of the population was against the war and nobody in power was interested. But look what just happened with the employment law in France - the law was withdrawn because the people marched in the streets. I think what we need is a global protest movement of people who won't give up, who won't leave the streets. In Madrid and London, we marched, we did our duty, then we went home and those in power did nothing.

'But we have to keep on demonstrating and demonstrating and demonstrating' - here he breaks into a rich, throaty laugh - 'there's no solution but to say we do not want to live in a world like this, with wars, inequality, injustice, the daily humiliation of millions of people who have no hope that life is worth anything. We have to express it with vehemence and spend days on the street if we have to, until those in power recognise that the people are not happy.'

In a lifetime of political activism, Saramago has witnessed the struggle from various angles. He grew up as the son of landless peasant labourers in a village north east of Lisbon and, although he published his first novel, Land of Sin, at the age of 23, it was another 30 years until he attempted another. In the meantime, he worked successively as a mechanic, civil servant, metalworker, production manager at a publishing house and a newspaper managing editor, until the politico-military coup of 1975 made it impossible for someone of his political colours to find work.

He turned to writing full time, publishing his second novel, Manual of Painting and Calligraphy, in 1976, and producing plays, poetry, essays and newspaper columns until his 1982 historical novel, Baltasar and Blimunda, brought him international recognition. His most successful novels were all written when he was in his sixties and he won the Nobel Prize in 1998, at the age of 76. Why, after so many years and excursions into different genres, did he decide that the novel was the best form for the ideas he wanted to express?

'I think the novel is not so much a literary genre, but a literary space, like a sea that is filled by many rivers. The novel receives streams of science, philosophy, poetry and contains all of these; it's not simply telling a story.' Saramago is often described as a pessimistic writer. I ask if he feels genuinely pessimistic about the future or if he thinks there could be hope for the left?

'We're not short of movements proclaiming that a different world is possible,' he says, heavily, 'but unless we can co-ordinate them into an organic international movement, capitalism just laughs at all these little organisations that do no damage. The problem is that the right doesn't need any ideas to govern, but the left can't govern without ideas. It's very difficult.

'At 83, I don't hope for much, but you are young, you have to keep a perspective. I don't think this novel is going to change the world, but look - those in power are there because we put them there. If they don't get it right, then out! And let others try. There are plenty of reasons not to put up with the world as it is, and if the book has any kind of message, I suppose that's it."

domingo, 10 de maio de 2020

"A separação ibérica idealizada por José Saramago" - por João Céu e Silva (DN/1864 (01/02/2020)

"Trinta anos antes do referendo do Brexit, o escritor separou a Península Ibérica do continente europeu. Um sonho que a Inglaterra persegue, apesar de já ser uma ilha, ao querer afastar-se da União Europeia após o voto popular de 2016."



"Trinta anos antes do referendo do Brexit, 
José Saramago separou a Península Ibérica do 
continente europeu no livro A Jangada de Pedra."

"A separação ibérica idealizada por José Saramago" - por João Céu e Silva (DN/1864 (01/02/2020)
Pode ser recuperada e consultada aqui
em https://www.dn.pt/1864/a-separacao-iberica-idealizada-por-jose-saramago-11763278.html

"Não é o cão Constante o protagonista de José Saramago que tem mais importância no romance A Jangada de Pedra, mas até o animal é um símbolo do ceticismo do escritor perante a ideia da integração dos dois países ibéricos na Comunidade Económica Europeia (CEE) - a atual União Europeia. Quem dá início à cena fantástica que separa a península do restante continente europeu é Joana Carda, ao riscar com uma vara de negrilho o chão espanhol perto da fronteira com a França, um gesto que separa a terra ibérica e a empurra para uma viagem em direção aos mares atlânticos do Sul.

O cão Constante é, no entanto, o ser ibérico que hesita entre as terras de Espanha e as de França ao sentir a fenda abrir-se com o gesto de Joana Carda e que pula para o lado de cá, colocando-se do lado da opção saramaguiana de quem vive na Península Ibérica e é contra o esquecimento atávico dos poderosos da Europa."

"A Jangada de Pedra é o romance publicado em 1986, exatamente 
quando Portugal e Espanha aderem à CEE numa cerimónia cheia 
de significado ao usar o claustro do Mosteiros dos Jerónimos para 
assinar o processo. Saramago é contra por considerar que essa adesão 
não irá retirar os dois povos de um esquecimento de há muito e de 
uma falta de identificação com o continente além-Pirenéus."

"A Jangada de Pedra é o romance publicado em 1986, exatamente quando Portugal e Espanha aderem à CEE numa cerimónia cheia de significado ao usar o claustro do Mosteiros dos Jerónimos para assinar o processo. Saramago é contra por considerar que essa adesão não irá retirar os dois povos de um esquecimento de há muito e de uma falta de identificação com o continente além-Pirenéus. Na boca das personagens Joana Carda, Maria Guavaira, Joaquim Sassa e José Anainço, além desse cão com um papel preponderante - não é o único cão importante na sua obra - vão-se contando as grandes objeções a essa espécie de unificação europeia e dados exemplos dos desfasamentos entre as culturas e as realidades sociais das duas partes.

Pode-se dizer que A Jangada de Pedra é um argumento que agora se concretiza quando se observa a Inglaterra apostada na efetivação do Brexit, uma ideia para um romance que alguns escritores portugueses consideram genial, apesar de ser unânime que o romance sofre de um grande problema, um início fulgurante e a ausência de matéria-prima para se manter ao mesmo nível literário. Essa questão não escapou ao próprio autor, que como recorda o seu antigo editor, Zeferino Coelho, ouviu Saramago referir que "é um romance em que o clímax está no princípio"."


"A Jangada de Pedra, livro de José Saramago, foi publicado em 1986, 
no mesmo ano em que Portugal e Espanha aderem à CEE."

"A comparação entre A Jangada de Pedra e o Brexit desejado pela Inglaterra salta à vista trinta anos depois, mesmo que esta saída do Reino Unido tenha protagonistas e situações bem diferentes das de José Saramago. No romance, os protagonistas não são tão inventivos como os políticos britânicos e o tremor que leva à separação é feito de simbologias pouco reais: uma meia de lã azul que se desfaz sem um fim, uma pedra lançada ao mar que viaja uma distância impossível ou uma revoada de estorninhos. Mas o ceticismo de Saramago e de algumas das suas personagens em relação à futura União Europeia é replicado no Brexit. Segundo o ex-ministro da Cultura o poeta Luís Filipe Castro Mendes "não foi preciso arrancar a ilha [a Inglaterra] do seu lugar porque já está separada fisicamente do continente", no entanto pode imaginar-se a Inglaterra como a península de Saramago "numa deslocação política rumo aos Estados Unidos". É, no seu entender, "uma perfeita analogia entre uma península que sai da Europa rumo à América Latina e uma Inglaterra que sai rumo à América". Ou seja, conclui: "Um movimento que José Saramago antecipou."

Na base da separação de A Jangada de Pedra está o ceticismo de Saramago. Para Castro Mendes, o "escritor participa de um ceticismo de esquerda, em que vê na Europa uma manifestação do poder do capitalismo, daí não simpatizar com a ideia europeia porque esta tem servido para aprofundar o fosso entre os países com diferentes níveis de desenvolvimento económico dentro da [futura] União Europeia - isso viu-se durante a troika, através de uma clivagem entre credores e devedores que é contra o ideário de solidariedade e de coesão -, que provocou uma evolução negativa nos últimos anos e o consequente crescimento do euroceticismo"."

"Para Zeferino Coelho, tudo tem que ver com a maneira como 
José Saramago vê a Europa e dá uma versão sobre como nasce 
o romance: “ele ia num comboio entre paris e Bruxelas com 
mais gente e conversavam. Então, Saramago propôs às pessoas 
adivinharem as nacionalidades de cada uma e nenhuma delas falou 
em Portugal.”© Global Imagens"

"Para Zeferino Coelho, tudo tem que ver com a maneira como José Saramago vê a Europa e dá uma versão sobre como nasce o romance: "Ele ia num comboio entre Paris e Bruxelas com mais gente e conversavam. Então, Saramago propôs às pessoas adivinharem as nacionalidades de cada uma e nenhuma delas falou em Portugal." Será este esquecimento que há na Europa em relação a Portugal que está na origem do romance, além de que todo o processo da União Europeia do ponto de vista do escritor "depende do grande capital europeu". Portanto, "achava que a utopia de haver uma fuga para esta realidade nos povos ibéricos só resultaria se pudessem ter uma vizinhança com os povos africanos e sul-americanos, que sofrem a mesma opressão da parte do grande capital europeu e americano. Era isto que ele tinha na cabeça e daí a ideia daquela rutura [terrestre], que é uma ideia mágica".

É o potencial da metáfora inicial de Saramago na construção d'A Jangada de Pedra que mais surpreende os leitores. O seu antigo editor considera que essa criação "acontece muito na obra do Saramago, como no Ensaio sobre a Cegueira, em que as pessoas cegam sem se saber porquê, e assemelha-se ao que se faz na geometria: lança-se um conjunto de dois ou três princípios e deduz-se a partir daí. Foi isso que ele também fez nesse romance."

Magia premonitória
A escritora Lídia Jorge considera que "na altura achou o livro interessante e, passado todo este tempo, ainda o vê tão forte e premonitório. Ultrapassa uma visão comum portuguesa, é internacional". Para a autora, que recentemente recordou o romance por necessidade de escrever um texto sobre a questão da Europa, o que Saramago faz "numa forma um pouco irónica é intuir o que nós todos só hoje percebemos. Que os países quando não são ilhas gostariam de o ser". No caso da Grã-Bretanha e do Brexit, a Inglaterra já "tem a grande vantagem de ser uma ilha, mas a Alemanha bem gostaria de ter sido uma ilha, tal como a França, e o mesmo se passa com Portugal, que também gostaria de se ter deslocado do seu sítio afastando-se de Espanha." Acrescenta: "A história dos países que são tomados de ideias de grandeza porque têm uma história que é única começam a funcionar no imaginário como ilhas. José Saramago percebeu isto muito bem em 1986, transformando a península nessa jangada porque não é vista pelos outros europeus como um espaço geopolítico importante. O que ele demonstra é que se a Península Ibérica fosse deslocada, tornar-se-ia tão incómoda que toda a gente nela iria reparar."

"Também o escritor Mário Cláudio acha a tese de 
A Jangada de Pedra muito interessante: "A metáfora 
que José Saramago escolheu é um achado e qualquer
 autor europeu gostaria de a encontrar, mas a verdade 
é que só nós é que a poderíamos ter por razões de 
ordem geográfica e histórica e estaríamos em condições 
de levar avante um livro destes."© Rui Oliveira /Global Imagens"

"Também o escritor Mário Cláudio acha a tese de A Jangada de Pedra muito interessante: "A metáfora que José Saramago escolheu é um achado e qualquer autor europeu gostaria de a encontrar, mas a verdade é que só nós é que a poderíamos ter por razões de ordem geográfica e histórica e estaríamos em condições de levar avante um livro destes." Já se fosse um autor inglês, diz, "não faria a sua ilha deslocar-se para o mar da América do Sul, antes rumar à Irlanda, por exemplo, porque a Inglaterra não tem um imaginário comum tão forte como nós com a América Latina". Para Mário Cláudio, este romance tem características políticas muito especiais. Nada que estranhe: "Os meus livros são políticos também, mesmo que passados noutras épocas. É o caso da reedição recente de As Batalhas do Caia, que aborda a questão ibérica sempre recorrente da anexação de Portugal pelo país vizinho. Coincidentemente, ambos tratam de questões ibéricas."

"A escritora Lídia Jorge considera que “na altura achou o livro 
interessante e, passado todo este tempo, ainda o vê tão forte e 
premonitório. Ultrapassa uma visão comum portuguesa, 
é internacional”.© DIANA QUINTELA / GLOBAL IMAGENS"

"Lídia Jorge alerta ainda para o facto de na altura o romance "ter sido olhado de forma depreciativa porque a ideia que estava na base de José Saramago era a de ser contra a integração de Portugal e de Espanha na CEE. Aparece como um livro ilustrativo de uma ideia antieuropeísta, só que passado este tempo todo essa raiz desaparece para ficar a ideia pura, que é a criação de uma nova geografia. E o desejo que os países têm de uma nova geografia é muito forte, veja-se que no Brexit existe o aproveitamento absoluto dessa ideia e, no momento em que esse país está em crise, pensa que tal situação vem das vizinhanças e quer tornar-se uma ilha. Como já o são, aproveitam isso da forma que estamos a observar".

Zeferino Coelho não se surpreendeu como a temática quando recebeu o original: "Nada daquilo é estranho na forma como Saramago via a Europa e as questões do mundo. Tem um pouco de realismo mágico, porque é um livro que começa com uma coisa fantástica - a separação do continente europeu - e segue-se um conjunto de coisas também fantásticas que vão acontecendo como surgem na vida, só que irão ter uma importância grande."

"Segundo o ex-ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes, 
“não foi preciso arrancar a ilha [a Inglaterra] do seu lugar 
porque já está separada fisicamente do continente”, no entanto 
pode imaginar-se a Inglaterra como a península de Saramago 
“numa deslocação política rumo aos Estados Unidos”.© Global Imagens"

"Para o escritor Mário Cláudio, A Jangada de Pedra tem apenas o óbice do seu tamanho após a impactante metáfora inicial: "O livro aproveitaria se fosse um pouco mais curto porque haveria uma poupança de prosa benéfica." Já para Luís Filipe Castro Mendes, o romance "é feito com a coerência que José Saramago sabia pôr no seu trabalho e nas alegorias que desenhava". Explica: "Ele constrói o romance a partir de uma suspensão da credibilidade e aproveita esse arrastar telúrico da península pelos mares para criar uma verosimilhança que lhe é habitual. O leitor avança na leitura com aquele pressuposto e dentro dele constrói uma realidade verosímil - essa é a grande força da ficção e do grande romancista - dentro de um pressuposto de total inverosimilhança. Nesse aspeto é magnificamente construído, mas as ideias dos romances de Saramago são sempre grandes."

sábado, 9 de maio de 2020

"Uma pessoa da família" publicado em 1986 na revista "Status" e agora recuperada na edição #75 da revista "Blimunda" (Agosto de 2018)

O presente texto pode ser consultado e recuperado aqui

"Em 1986, a extinta revista brasileira Status publicou um texto de José Saramago sobre a relação de Portugal com a literatura brasileira e vice-versa. Naquela altura o escritor mantinha na mencionada publicação uma coluna intitulada Notas do Ultramar. Em 1998, dias após José Saramago ser proclamado Prémio Nobel de Literatura, a também brasileira revista Bravo! recuperou a citada crónica e publicou-a. Agora, 20 anos após essa segunda vida do texto cujo título é «Uma pessoa da família», chegou a vez da Blimunda divulgá-lo."

Revista Blimunda - Capa da edição # 75 - Agosto de 2018

"Dizia-me aquele português em São Paulo, ou, por maior rigor, de São Paulo, pois aí vive e trabalha e daí não pensar retirar-se, dizia-me ele sorrindo com a amizade que guarda e a ironia que ao acaso lhe parecia adequada. “Sabe você como já chama os brasileiro a Fernando Pessoa?”. Levantei um sobrolho perplexo e inquisitivo, esperei o fim da pausa retórica que, pelos vistos, o meu amigo queria prolongar, enfim acedi a entrar no jogo: “Chamam-lhe Fernando Pessoa, suponho”. O tom provocador que eu dera à resposta não lhe apagou o sorriso, e as palavras seguintes vieram tocadas por um certo ar de comiseração que ainda mais afiava a ironia: “Chamam-lhe grande poeta da língua portuguesa, pois então”. Compreendi onde ele queria chegar: “Não dizem grande poeta português?” E ele, empurrando a faquinha: “Cada vez se vai dizendo menos”.
Confesso que não gostei. O meu patriotismo literário ofendia-se com a ligeireza, a sem-cerimónia dos irmão brasis, ou primos, que, não pensando, obviamente, em discutir ou ignorar a grandeza do poeta, decidem escamotear-lhe a nacionalidade, tomando como fundamental, quem sabe, a própria sentença de Pessoa: “A minha pátria é a língua portuguesa”. Disse ao amigo que a atitude configurava forte abuso, que realmente o Brasil sofria de vertigem imperial e que, por esse andar, acabariam por levar-nos o próprio Luís de Camões, ou o Eça de Queiroz, e a Deus, graças por dos mais escritores portugueses conhecerem tão pouco. Exprimi um mau humor nacionalista porventura louvável, mas, logo o percebi, culturalmente pueril.
As coisas são o que são, serem-no é a sua irrefragável força, e a nós cabe-nos tentar compreendê-las, ajeitá-las, se possível, à oportunidade e ao interesse da ocasião, mas respeitando-as sempre, evitando sobretudo cair na tentação da avestruz, o que, na circunstância, seria fingir que as coisas, afinal, são outra coisa. Não estou a brincar com as palavras, pelo menos não mais do que o gosto de ordená-las ao longo de um pensamento para tentar exprimi-lo com a maior clareza possível. Se os brasileiros chamam a Fernando Pessoa de grande poeta da língua portuguesa é porque o admiram e respeitam, porque o desejariam seu. Bom proveito, então, lhes faça tanto mais que Fernando Pessoa é bastante grande para satisfazer dois países e povos, e ainda sobejar Pessoa. também eu desejaria que Manuel Bandeira fosse meu como igualmente desejaria que o fosse Antonio Machado, nascido aqui ao lado, em Espanha, e esse, provavelmente, é o único caso em que uma coisa dividida se tornará tanto maior quanto mais dividida estiver. Tomem pois os brasileiros, para si, a Fernando Pessoa, que não ficaremos mais pobres por isso. Pelo contrário. A cultura a que Fernando Pessoa pertence é a cultura da fala e da escrita portuguesa, aquela pátria única que ele, em palavras brevíssimas e lapidares, como convinha, definiu de uma vez para sempre.
Mas seria mais útil que nos entendêssemos quanto ao resto. Essa cultura de que a língua portuguesa é o veículo e o instrumento não principiou no dia 7 de setembro de 1822, quando a independência do Brasil foi proclamada. Para trás não ficavam o caos, o tempo das trevas, a brutalidade da ignorância. Para trás ficava, sim, um formigueiro cultural com quase 700 anos de trabalho miúdo e algumas grandes empresas. Usando a metáfora mais luminosa, de ar livre e céu aberto, a parte visível da cultura que diremos brasileira emerge e assenta, como parte visível de um iceberg, sobre a massa profunda da história e da cultura portuguesa. 
A cultura brasileira tem uma pré-história, e essa, dêem-lhe as voltas que entenderem é, e não pode deixar de ser, a cultura portuguesa. Levem-nos o Fernando Pessoa, mas não julguem que levam tudo com ele. Compete aos brasileiros, claro está, responder se proclamaram o nascimento de sua cultura na mesma data em que proclamaram a independência nacional, ou se reconhecem como também seu aquele remoto ano em que uma palavra se descobriu portuguesa, para, sendo história, começar a ser cultura.
Tranquilizai-vos, porém. Cuido saber dos fatos da vida o suficiente para não ceder à ingenuidade, senão à estupidez, de considerar as culturas brasileira e portuguesa como meramente e mutuamente complementares de um só corpo cultural, o que, por caminho tão vicioso, equivaleria a querer meter num saco de conflitos todas as culturas de língua portuguesa, a pretexto de uma história em parte comum, ainda que sombria e sangrenta, como tantas vezes o foi. Sou pouco de impérios, velhos ou novos. O Brasil e Portugal vão, cada um por seu pé, aonde tiverem de ir, chegarão onde puderem chegar, felizes ou apenas resignados. E não creio que, nas horas más, um possa ajudar o outro: hoje ninguém ajuda ninguém. Mas somos gente de uma imensa família, de uma mesma língua, de uma cultura que é, embora diferentemente, mesma. Se os brasileiros se recusam a aceitar essa evidência, se o dia 6 de setembro de 1822 é, para eles, anterior à criação do mundo, então façam o favor de nos devolver Fernando Pessoas."



sexta-feira, 8 de maio de 2020

"Monstro da intolerância voltou" Entrevista ao Folha de São Paulo (12/01/1994)

A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/1/12/ilustrada/2.html

"Monstro da intolerância voltou, diz Saramago" por Bob Fernandes

"Auto-exilado nas Ilhas Canárias desde que o governo português, numa manifestação de intolerância, renegou a inscrição de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" na disputa do Prêmio Europeu de Literatura, José Saramago, 71, escreve "Ensaio sobre a Cegueira". Sobre o romance, com lançamento previsto para este ano, o escritor português guarda silêncio. "Ainda está em gestação", diz. Mas, em entrevista à Folha, fala sobre a intolerância, o Brasil e os brasileiros, o amor, a cidadania, e o processo de escrever."

"Folha - O sr. está escrevendo "Ensaio sobre a Cegueira", que deve ser lançado este ano. A intolerância será, novamente, o seu tema?
Saramago - Talvez em sentido muito amplo, mas, sendo um romance, do ponto de vista da técnica narrativa difere bastante do trabalho que tenho feito até aqui. Mas eu não gostaria de ir mais longe porque eu não posso nem devo falar sobre uma coisa que ainda está em gestação.

Folha - A intolerância é uma condição inerente ao homem?
Saramago - Provavelmente é. Mas é também a consequência de uma luta pelo domínio sobre o outro. Seja qual for a natureza do domínio, seja na relação do colonizador com o colonizado, na própria estrutura de classes, isto está sempre presente no comportamento das pessoas. Mesmo que esta não seja uma intolerância ativa como é a outra, mais radical, a intolerância racial, étnica.

Folha - Como esta que a Europa começa a reviver?
Saramago - É. Nós supúnhamos que, depois da última Grande Guerra, dos campos de concentração, tivesse ficado claro até que extremos a intolerância pode levar. Mas nós não nos curamos deste mal, este é um monstro que deita outra vez as garras de fora.

Folha - Onde está o monstro? Na Rússia de Jirinovski, na França de Le Pen, na Alemanha, na ex-Iugoslávia?
Saramago - Não do mesmo modo, mas em quase toda a Europa. Não com a mesma gravidade há o problema dos ciganos na Espanha, há problemas também em Portugal.

Folha - A questão dos brasileiros em Portugal tem o tamanho que a mídia dá?
Saramago - Eu creio que não, embora seja óbvio que existam contradições. Mas não são insuperáveis. Pelo que sei, estou um pouco longe, desde a questão muito debatida dos dentistas não há um outro contencioso. Se deixarem as pessoas falarem umas às outras, sobretudo no caso de brasileiros e portugueses, as pessoas acabam se entendendo.

Folha - E as piadas de português?
Saramago - Podem estar certos os brasileiros de que os portugueses também contam anedotas sobre os brasileiros.

Folha - O sr. tem proposto o regresso do autor, a existência também do cidadão e não apenas do escritor. É isso?
Saramago - O cidadão que o escritor é não pode ocultar-se por trás da obra. Ela, mesmo importante, não pode servir de esconderijo para o autor, dar-lhe uma espécie de boa consciência graças à qual ele poderia dizer que está ocupado e não tem tempo para intervir na vida do país.

Folha - Sem tempo para ser cidadão.
Saramago - Exatamente. Embora eu não queira dizer com isto que o escritor deva se considerar, ou ser considerado, um guia espiritual.

Folha - Nem o sr. imagina a volta da arte engajada, não?
Saramago - Realmente não. O que eu digo é que eu tenho, como cidadão, um compromisso com o meu tempo, com o meu país, com as circunstancias, digamos, do mundo. Eu não posso virar as costas a tudo isso e ficar a contemplar minha obra. O futuro irá julgar a obra do autor, mas o presente tem o direito de fazer um juízo sobre o autor, o que ele é.

Folha - O que sobrou, o que é herança da velha história de Portugal e Brasil?
Saramago - Há uma coisa que é o bem comum, a língua, que é a coisa mais importante que nós deixamos no Brasil. A língua, que foi um elemento de unidade neste país imenso. A questão é saber se os portugueses e os brasileiros têm consciência deste bem comum num mundo como este em que vivemos, que é o mundo da competição, da concorrência, um mundo que luta por dominar. Temos consciência de que esta língua é a quarta ou quinta mais falada no mundo? Eu suspeito que não. Eu sinto que falta quase tudo para potencializar esta realidade. Dá até a impressão de que, uma vez que falamos a mesma língua, não precisamos dialogar.

Folha - O que falta?
Saramago - No mínimo um verdadeiro circuito de comunicação interna e, sobretudo, trabalho em comum de brasileiros, portugueses, e africanos de expressão portuguesa.

Folha - Como estamos falando em bem comum, herança cultural, como o sr. vê este processo brasileiro, hoje, de decomposição e recomposição?
Saramago - Para falar com franqueza, ou o povo brasileiro intervém na sua própria vida –o povo, não os segmentos políticos que o representam – torna isto uma prática quotidiana, ou tudo continuará como sempre foi antes. O povo brasileiro mostrou que, em circunstâncias especiais, é capaz de intervir de uma maneira extraordinária no processo.

Folha - O sr. se refere a que momento?
Saramago - A substituição de Collor de Mello, à campanha pelas eleições diretas. Nós sabemos que a carne é fraca, e os políticos são feitos de carne. O que eu me refiro é à ausência de cidadania, do uso da capacidade que cada cidadão tem de intervir na vida do seu país. A partir do momento em que o cidadão renuncia a esta intervenção, o poder real escapa-lhe das mãos.

Folha - Nos seus livros o amor sempre se realiza plenamente, ao contrário da maioria dos autores modernos. É nisto que o sr. acredita?
Saramago - Sim. Se eu não acreditasse nisto povoaria meus romances de pessoas infelizes, casamentos maus. Sei que a vida toda não é um mar de rosas, sei que há quem escreva coisas contrárias ao que acredita mas, para mim, isto é impossível.

Folha - Pessoas de 20, 18 anos. O sr. consegue entender, acompanhar, como são, hoje, as relações amorosas entre elas?
Saramago - Eu tenho dificuldades em compreender exatamente. Penso que há alguma coisa, ligada a movimentos recentes, que levam a mulher para uma posição um pouco mais próxima do lar.

Folha - O sr. pede que, no Brasil, seus livros sejam editados com a mesma grafia dos editados em Portugal. Por quê?
Saramago - Eu sou capaz de entender um livro de um autor brasileiro com sua grafia, modos e sintaxe próprios. E sei que os brasileiros também compreendem o que é escrito à maneira de Portugal. Se eu admitisse a mudança, estaria negando a identidade da língua portuguesa."