Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 24 de janeiro de 2015

José Saramago "A Difícil Conversa" - escrito em 13/03/1986 para a revista Status (Brasil) enviado por telex

Por ocasião e assinalando o primeiro aniversário da abertura ao público, a Fundação José Saramago, colocou online este texto - A Difícil Conversa - agora com quase 30 anos.


A alusão ao progresso e à evolução das tecnologias, da escrita até à publicação de textos, no blog "Caderno", passando pela famosa "velha Hermes", máquina de escrever que pode ser apreciada na exposição da FJS.
O texto, que se transcreve, fala também, e muito, de relações e humanidades, deixa as suas preocupações e perguntas.  


Via Fundação José Saramago

"A Fundação José Saramago abriu-se ao público na Casa dos Bicos exatamente há um ano. Para assinalar este aniversário, as entradas são hoje gratuitas e a Casa fica aberta até às 20h00.
E para todos, em particular para os que não podem vir até a este novo espaço cultural da Lisboa histórica, aqui fica um texto de José Saramago, escrito em 13 de março de 1986 e enviado para a revista brasileira Status. Enviado por telex, tecnologia que na altura era muito avançada!"

(Imagem de telex escrito em 13 de Março de 1986 e enviado para a revista Status - Brasil)

"O progresso, dizia-me aquele amigo entusiasta, é o melhor que há. Estás, por exemplo, em Lisboa, e queres fazer chegar um recado a alguém que vive em São Paulo, Brasil. Se fosse aqui há duzentos anos terias de escrever trabalhosamente uma carta que atravessaria o Atlântico num barco à vela, metida em escuro porão, com risco de naufrágio, e então se perderia o negócio, ou a amada desesperaria por falta de notícias. Hoje é diferente: pairam na atmosfera uns mágicos objetos, chamados satélites, de cujo funcionamento não entendes, mas que por ares e ventos te transportam as palavras, entre telefone e telefone, em poucos minutos ficaste rico de dólares ou reforçado de sentimentos. E se, pela extensão do discurso ou sua complexidade, dúvidas que haja, embaraços na receção, tens ao teu alcance esse outro invento, o telex, que alinhará no destino, e por claro, ordens, projetos e afetos, como se os teus próprios dedos, invisíveis, fossem datilografar a mensagem a oito mil quilómetros de distância. Graças ao progresso, remata o meu amigo, a comunicação é fácil, imediata, instantânea.

Será? A pergunta exprime algum ceticismo, leva aquele trejeito de lábios de quem, por já ter vivido tanto, está de entusiasmo arrefecido, o que, apresso-me a acrescentar, não significa uma descrença radical nas virtudes da comunicação, apenas consciência do relativismo de todas as coisas, a começar por essa. Vejamos: que tem a dizer, com utilidade suficiente, um escritor português aos leitores brasileiros, separados, ele e eles, por um mar oceano e por mil acrescentadas dificuldades de navegação que não encontram compensação na comum língua e no seu aparente manejo comum? E quando aqui se escreve leitor brasileiro, que leitor é esse e de que Brasil? E se o escritor português falar do seu próprio país, da vida do povo a que pertence, da cultura que herdou e deseja ajudar, até que ponto interessa tudo isso a potenciais leitores que vivem num certo lugar do Brasil, pertencem a uma certa camada social e possuem um certo grau de instrução e educação? Mais ainda: tem o tal escritor português o direito de dirigir-se a esses leitores, se deles tão pouco ou mesmo nada sabe, como nada ou pouquíssimo nada da vida profunda da terra brasileira, provavelmente insondável para os seus próprios naturais? Porque, em verdade, que conhece do Brasil o escritor português, este? Esteve em São Paulo, para onde o recado vai, no Rio de Janeiro, em Santos e Campinas, em Belo Horizonte e Ouro Preto, a volta ao mundo. E a quem conhece? A outros escritores, a jornalistas, a professores universitários. Porém, não conhece o povo brasileiro, nem sequer a pequena parte dele que compra revistas e as folheia, que compra livros e os estima. Em Portugal, mais ou menos, o escritor conhece os leitores que tem. Dos leitores que no Brasil tiver ignora tudo.

Esta conversa é, pois, difícil. Porque uma outra questão não pode ser ocultada: para muitos brasileiros Portugal é um país do passado, e os portugueses, mesmo de novíssima geração, são todos bisavós e trisavós, talvez enternecedores, mas a quem não se deve levar muito a sério, porque com a idade vão treslendo e não compreendem o mundo em que ainda vivem. Claro que não se levam às costas oito séculos sem que os joelhos verguem um pouco, mas essa ideia de um Portugal reserva histórica e museu da língua não favorece o encontro nem o diálogo, numa palavra, não serve a comunicação que a tecnologia totalizou e globalizou. Quer dizer, não é por muito comunicar que melhor se comunica, ou então, diz-me o que comunicaste e eu te direi se vale a pena.

Do futuro destas crónicas serão julgadores e sentenciadores os que as lerem, mais ainda do que eu que as escrevo e de quem me convidou a escrevê-las. Convite e aceitação dele são, de certa maneira, questões de patrão e empregado, primeiro e segundo tempos de uma ação. O que realmente conta e importa é o que virá depois: o leitor e o seu juízo. O autor destas linhas não se decidiria a escrever numa publicação brasileira por motivos apenas materiais ou, se posso autorizar-me a palavra, de prestígio. De vozes que pregaram no deserto encheu-se a transbordar a história das relações entre Brasil e Portugal. Não é possível reprimir um sentimento de melancolia quando damos balanço aos mal-entendidos, aos equívocos, às atitudes intempestivas, às incongruências, e também aos oportunismos, aos truques e habilidades com que, de um lado e doutro, se tem tecido a capa rota dessas relações.

Mas também não se pode esquecer o que ainda existe de fé verdadeira, de amizade sem portas falsas entre tantos portugueses e brasileiros que conservam a esperança de uma fraternidade assente no conhecimento leal, na mútua compreensão, na vontade sincera de viver juntos vivendo cada um em sua casa. É a esse conhecimento, a essa compreensão, a essa vontade que estas crónicas querem servir. Pelo tempo e mérito da sua utilidade. Nem um segundo mais, nem uma palavra a mais."

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

José Saramago - dos manuscritos... da velha Hermes, até ao portátil

Do seu punho, escrito desde os idos tempos em que os primeiros rascunhos dificilmente teriam a sorte de serem bafejados com a luz do dia; passando aos dias em que usava uma muito comentada "velha máquina Hermes", onde deverá ter rezado a paz à sua alma, como se uma máquina a pudesse ter, com o final do trabalhoso dactilografar de "O Ano da Morte de Ricardo Reis". E por fim, o computador e o portátil de secretária.
Não me é difícil de imaginar o homem, saltando estas etapas, criando condições para que o fluir das duas linhas fossem tão compatíveis com o andamento com que escrevia. Referia ele, que era escritor de poucas rasuras... soube acompanhar os dias...





23 de Junho de 2009, por ocasião do lançamento de "O Caderno" - João Céu e Silva apresenta esta crónica no DN

"José Saramago mais virtual do que nunca"

"Ao Nobel já não faltam muitas experiências de vida. Desta vez, quem dispensar a  razão física da existência pode assistir à apresentação de 'O Caderno' em qualquer parte do planeta.
Da velha máquina de escrever Hermes, em que ainda dactilografou O Ano da Morte de Ricardo Reis, até ao moderno computador portátil em que já escreveu A Viagem do Elefante, foi um longo caminho para José Saramago, que se diz ser pouco dado às tecnologias. Mas essa sua afirmação parece ser quase tão etérea quanto o espaço virtual onde se iniciou quase diariamente, por imposição da mulher, Pilar del Río, e cuja produção bloguista já resulta em livros, como o que esta quinta-feira será lançado oficialmente em Lisboa.



O Caderno de José Saramago reúne textos que o escritor vai colocando, por norma, entre segundas e sextas-feiras no seu blogue - e que o DN reproduz em simultâneo - e trata de temas tão diversos como a reconstituição do percurso do seu último romance, o comentário à oferta que Hugo Chávez fez a Obama, um exemplar do livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, e que tanta polémica provocou ou a entrada intitulada A Coisa Berlusconi, que ainda mais celeuma gerou.
Os textos de O Caderno não são um género novo no Nobel, que já o cultivou nos cinco volumes de Cadernos de Lanzarote, mas desta vez tem o picante de nascerem na Internet e de as reacções serem em tempo real. São estas implicações na literatura e do comentário sobre a sociedade que o escritor irá eleger na apresentação do volume que reúne algumas dezenas de posts, numa sessão que conta com a participação de dois bloguistas assumidos, a Ciberescritas Isabel Coutinho e o Bibliotecáriodebabel José Mário Silva, e que irão comentar o meio ano de vida do Blogjosesaramago.
Antes mesmo da sessão, já se sabe um pouco da opinião do escritor sobre a actividade dos blogues. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, Saramago contesta a ligeireza com que muitos escrevem neste espaço: "A prática do blogue levou muitas pessoas que antes pouco ou nada escreviam a escrever. Pena que muitas delas pensem que não vale a pena se preocupar com a qualidade do que se escreve." E acrescentou: "Pessoalmente cuido tanto do texto de um blogue como de uma página de romance."