Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

"Meditação sobre uma Jangada" publicado originalmente no jornal "Libération"

"Meditação sobre uma Jangada" publicado originalmente no jornal francês "Libération" é publicado em português na edição #55 (Dez.2016) da revista digital "Blimunda" e pode ser descarregada gratuitamente aqui em http://www.josesaramago.org/blimunda-55-dezembro-2016/

"Algumas vezes este romancista, confundido nas malhas da ficção que ia tecendo, chegou a imaginar-se transportado na fantástica jangada de pedra em que transformara a Península Ibérica, flutuando sobre o mar atlântico, a caminho do Sul e da utopia. A peculiaridade da alegoria era transparente: embora prolongando algumas semelhanças com os motivos do mais comum dos emigrantes, que parte para outras terras e busca a vida, prevalecia, neste caso, uma diferença assaz substancial, a de também comigo viajarem, em tão inaudita migração, o meu próprio País, todo ele, e, sem que aos espanhóis tivesse pedido antes a devida licença, portanto sem procuração nem autorização, a Espanha. Ora, embalado nestas minhas imaginações, notava eu que nelas não entrava qualquer sentimento de pesar, de tristeza, de aflição mais ou menos pânica, nem sequer, para tudo dizer na inevitável e tópica palavra portuguesa – saudade. Compreender-se-á já porquê. É certo que, e pelos vistos irremediavelmente, me ia afastando da Europa, mas os tecidos vitais da barca imensa que me levava continuavam a alimentar as raízes da minha identidade mais profunda e da minha pertença colectiva: logo, não encontrava em mim razões para chorar um bem perdido, se realmente assim podia ser designado o que antes ganho não tinha sido, mesmo tendo tão pouco de bem.
Para não cairmos nos cansados braços da banalidade e da redundância não nos tentaremos a repetir aqui o catálogo longuíssimo das maravilhas europeias, desde os gregos e os latinos até aos felizes dias de hoje. Por demais sabemos que a Europa foi madre ubérrima de culturas, farol inapagável de civilização, lugar onde, com o passar do tempo, haveria de instituir-se o modelo humano que, seguramente, mais próximo está do projecto que Deus tinha em mente quando colocou no paraíso o primeiro exemplar da espécie. Pelo menos, é desta maneira idealizada que os europeus costumam ver-se no espelho de si mesmos, e essa é a servil resposta que a si mesmos invariavelmente vêm dando: «Sou eu o que de mais belo, de mais inteligente e de mais culto a Terra produziu até hoje.» Dito o que seria a altura de começar a redigir a decerto não menos longa acta dos desastres e horrores europeus, que acabaria por levar-nos à conclusão deprimente de que a famosa batalha que celeste, afinal, não foi ganha por Jeová mas por Lucifer, e que o único habitante do paraíso teria sido a serpente, encarnação tangível do mal e seu emblema gráfico, que não precisou de macho, ou de fêmea, se macho era, para proliferar em número e qualidade. Não faremos pois a acta, como não fizemos o catálogo. Antes cobriremos piedosamente o espelho para que não venha a ser pronunciada, sequer, a primeira palavra da resposta.
E agora basta de escatologias e ficções. De um ponto de vista ético abstracto, a Europa não tem mais culpas no cartório da história que outra qualquer parte do mundo onde, hoje e ontem, por todos os meios, se tenham disputado o poder e a hegemonia. Mas a ética, exercendo-se, como no-lo está dizendo o senso comum, sobre o concreto social, é porventura a menos abstracta de todas as coisas que, ainda que variável no tempo e no espaço, permanece como uma presença calada e rigorosa que, com o seu olhar fixo, nos pede contas todos os dias. Suponho que estamos vivendo o tempo em que a
Europa deveria apresentar a juízo o balanço da sua gestão, se não pretende prolongar, com o requinte de processos que os modernos meios de comunicação de massa permitem, o seu pecado ou vício maior, que é a existência de duas Europas, a central e a periférica, mais o consequente lastro histórico de injustiças, discriminações e ressentimentos. Já não falo das guerras, das invasões, dos genocídios, das eliminações selectivas, falo sim da ofensa grosseira que é, além dessa espécie de deformação congénita denominada eurocentrismo, aquele outro comportamento aberrante que consiste em ser a Europa, por assim dizer, eurocêntrica em relação a si mesma. Para os estados europeus ricos e, segundo a opinião narcísica em que se comprazem, culturalmente superiores, o resto da Europa é algo vago e difuso, um pouco exótico, um pouco pitoresco, merecedor, quando muito, da atenção da antropologia e da arqueologia, mas onde, apesar de tudo, contando com as adequadas colaborações locais, ainda se podem fazer alguns bons negócios. 
Ora, não haverá no futuro próximo uma nova Europa se esta não instituir frontalmente como entidade moral, e também não a haverá se não for abolido, mais do que os egoísmos nacionais, que quantas vezes não passam de meros reflexos defensivos, o preconceito da prevalência ou da subordinação das culturas. Tenho obviamente presente a importância dos factores económicos, militares e políticos na formação das estratégias continentais e seu enquadramento nas geoestratégias globais, mas, sendo por fortuna ou desfortuna homem de livros e de letras, considero meu urgente dever lembrar que as hegemonias culturais de hoje resultam, fundamentalmente, de um processo duplo e cumulativo de evidenciação do próprio e de ocultação do alheio que teve a habilidade de impor-se como inelutável, favorecido, quase sempre, pela resignação, quando não pela cumplicidade das próprias vítimas. Nenhum país, por mais rico e poderoso que seja, deveria arrogar-se uma voz mais alta. E, já que de culturas venho falando, também nenhum país ou grupo de países, tratado ou pacto, deveria propor-se como mentor ou guia dos restantes. As culturas, é tempo de começar a entendê-lo Europa, e entendida tente ficar de uma vez para sempre, não são melhores nem piores umas que as outras, não são mais ricas nem mais pobres. Pelo destino, valem-se e equivalem-se, e pela diferença, assumida e aprofundada, é que se justificam. Não há, e esperemos que não venha a haver nunca, uma cultura una e universal. A Terra, sim, é única, mas o ser humano não o é. Cada cultura criada pelos homens deverá ser, em si mesma, um universo comunicante: o espaço que as separa umas das outras é o mesmo espaço que as liga, tal como o mar, aqui na Terra, separa e liga os continentes.
Esse romance - «Le radeau de Pierre» - em que arranco a Península Ibérica à Europa, não seria necessário dizê-lo, é o efeito, talvez último, de um ressentimento histórico. Provavelmente, só um português poderia ter escrito tal livro. Mas o seu autor, este autor, declara que estaria pronto a fazer regressar do mar a errante jangada, depois de alguma coisa ter aprendido de vitalmente necessário durante a sua navegação, se a Europa, reconhecendo-se, de facto, incompleta sem a Península Ibérica, viesse a fazer pública confi ssão dos erros cometidos, das injustiças e dos desprezos com que durante tantos anos tratou dois povos a quem deve muito mais do que aquilo que tem querido reconhecer. Porque, enfi m, se de mim se espera que ame a Europa como à minha própria mãe, o mínimo que devo exigir-lhe é que ame a todos os seus fi lhos por igual e, sobretudo, que por igual os
respeite a todos. Texto publicado originalmente no jornal Libération"

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"A Jangada de Pedra" por António Sáez Delgado (Revista Blimunda #54 11/2016)

Sobre os 30 anos da publicação de "A Jangada de Pedra"


O presente texto de Antonio Sáez Delgado está publicado na edição #54 (Novembro de 2016) na revista digital "Blimunda" e pode ser consultada através da página da Fundação José Saramago aqui, em http://www.josesaramago.org/blimunda-54-novembro-2016/

Páginas 100 a 107

A primeira vez que li José Saramago fi -lo em espanhol. Convém dizê-lo já, na primeira linha. Começava os meus estudos universitários e Saramago desembarcara em força nas mesas das novidades com O Ano da Morte de Ricardo Reis, o primeiro livro seu que me caiu nas mãos. Acerquei-me dele, como tantos outros leitores, atraído pelo eco de Pessoa, que havido lido muito pouco tempo antes e também em espanhol. Comprei o exemplar de Pessoa numa feira da que era então a minha cidade, Cáceres, e a leitura de Álvaro de Campos foi como um tiro. Assim, quando vi a capa do livro de Saramago numa pequena livraria dessa mesma cidade, não hesitei.
Se bem me lembro A Jangada de Pedra foi o segundo livro de Saramago que adquiri. Li-o, como ao primeiro, através das palavras de Basilio Losada, do mesmo modo que li depois muitos outros graças
às de Pilar del Río. Também aquele primeiro Fernando Pessoa me chegou filtrado por um tradutor, José Luis García Martín. Disse Saramago: os autores fazem as literaturas nacionais, os tradutores a universal. Passaram três décadas desde então, montanhas de livros e bastantes de Saramago, já na sua língua de origem. Mas hoje gosto de recordar, impelido precisamente pel'A Jangada de Pedra, que tomei contacto pela primeira vez com Saramago e Pessoa em espanhol, na língua dos meus pais.
Li A Jangada em três ocasiões: a primeira, enquanto universitário, em fi nais dos anos oitenta, por prazer; a segunda, já em português, em meados dos anos noventa, recém-chegado à Universidade de Évora como Leitor de Espanhol, por obrigação moral (eu também sentia que algo na minha vida se havia fendido e que começava a viver num território que jamais me seria alheio); a terceira, curiosamente, o verão passado, no meio de uma planície da Extremadura contígua à fronteira portuguesa, sem saber muito bem porquê, desfrutando como nunca cada palavra.
Da leitura do livro nos anos oitenta recordo vivamente o fascínio que o tema me provocou, a estória daquela península separada do continente e à deriva pelo oceano. Da leitura do livro nos anos noventa recordo uma sintonia complacentemente biográfica, deixando-me levar e sentindo-me como mais um dos personagens que protagonizavam a aventura narrada (não por acaso, soube-o depois, eu começava a construir em Évora a minha própria jangada de pedra, a que me levaria, mais à força de remos do que à mercê do vento, a construir o meu próprio espaço vital). Da leitura do livro no verão passado lembro, sobretudo, o desfrutar da brisa da tarde nas azinheiras e o pôr do sol por detrás das páginas na serra de São Mamede, ao longe. E também a perplexidade de pensar que em 1986, faz agora trinta anos, coincidindo com a publicação do livro, Portugal e Espanha entravam lado a lado na União Europeia, apenas uns meses antes – a 14 de junho desse mesmo ano, às quatro da tarde em ponto – de Saramago conhecer Pilar, o seu pilar (a sua pedra), com quem começou a navegar uma nova vida que os levaria, num caminho eterno de ida e volta através do mundo, a Lanzarote, outra jangada de pedra. 
Hoje já não consigo ler o livro sem que estes elementos se aglutinem na minha cabeça. Trinta anos depois, é um facto, A Jangada de Pedra eiva-se de uma atualidade especial do ponto de vista europeísta. É impossível lê-lo e não pronunciar em voz baixa palavras como fronteira, jangada, humano, não nos lembrarmos dessas outras jangadas que chegam do sul carregadas de seres humanos que sonham com o paraíso europeu. Poderia falar da ironia inteligente da obra, dos referentes literários de que transborda, da importância da paisagem, do sólido (o pétreo) e do líquido... mas não estaria de modo algum a ser fi el à leitura que faço hoje em dia. Os livros mudam-nos com o passar dos anos. Acontece-me algo semelhante, ressalvando as devidas distâncias, com O Ano da Morte de Ricardo Reis, a que também voltei este verão, também à sombra da mesma azinheira. A primeira vez que o li, foi Pessoa o protagonista; nesta última leitura, ganhou nas páginas desse mesmo livro um protagonismo extraordinário o ambiente pré-bélico e bélico da Guerra Civil espanhola. Novamente as mesmas palavras (fronteira, humano) ressoando-me na cabeça.
Poucos escritores portugueses do século XX oferecem tantas referências a Espanha e à sua cultura (ou se preferirmos à Ibéria e à sua cultura) como Saramago. Poucos souberam como ele, a partir desse ceticismo irónico que se entranha até à medula no leitor, aproximar-se de alguns dos tópicos mais profundos da cultura vizinha. Confesso que a última vez que li A Jangada de Pedra, este verão, fi-lo sob a influência de uma procura, como quem tenta encontrar respostas para uma pergunta que não se consegue formular corretamente. Conhecia algumas das palavras fundamentais dessa pesquisa, estava seguro de que o conceito essencial era o de distância. Não seria complicado, mas sim quixotescamente triste e divertido ao mesmo tempo, fazer uma pequena antologia de textos de escritores ibéricos do século XX que se referem à distância entre Portugal e Espanha, entre Espanha e Portugal. Vou reunindo pouco a pouco esses fragmentos e vou-os guardando numa pasta do meu computador. É uma pasta, digamo-lo assim, sem adjetivos , onde se acumulam queixas de escritores que cruzam o século XX resmungando por não conseguirem percorrer os quilómetros simbólicos e míticos que separaram os dois países.
Aligeirei a perplexidade dessas leituras com A Jangada de Pedra, já o disse, como quem procura uma resposta. Embrenhei-me de novo nas suas páginas sem me deixar cegar pelo brilho da ideia genial que serve de ponto de partida e sem me permitir ser mais um no grupo que percorre a península para encontrar as suas respostas particulares. Intuía, isso sim, que a distância que me interessava, e que penetrou o mais profundamente possível no imaginário cultural das relações entre os dois países, estaria presente de uma forma ou de outra no livro. E não me enganei. 
Porque muitas vezes pensamos nessa distância olhando só dentro de nós, e é necessário fazê-lo de fora, por fora. Essa distância a que me refiro é a que fez, por exemplo, com que os dois poetas portugueses mais conhecidos e divulgados em Espanha durante o século XX, o hoje esquecido Eugénio de Castro (na primeira parte) e Fernando Pessoa (na segunda), tivessem que recorrer a uma imensa viagem atlântica para atravessar a tão próxima fronteira luso-espanhola. Castro, que viveu em Coimbra, chegou ao país de Cervantes através do magistério do nicaraguense Rubén Darío, que chamou a atenção para a poesia simbolista do português; Pessoa, nos princípios dos anos sessenta, alcançou um lugar privilegiado entre as referências dos escritores espanhóis graças ao trabalho do mexicano Octavio Paz, que soube conceder à poesia do autor dos heterónimos o lugar que merecia. Ambos, Castro e Pessoa, compatibilizaram essa distância espetral que separava Portugal e Espanha através de uma imensa viagem pelo oceano Atlântico.
E que tem isto que ver com A Jangada de Pedra, com a estória de uns personagens que veem separar-se a península de uma Europa que em 1986 era ainda um sonho? Tem que ver porque talvez o importante da obra não seja (ou não seja só) que a península se separe da Europa, mas que tome, no percurso fi nal, um rumo que a conduza até à América do Sul, até esse continente imprescindível, desdobramento natural da Península em matéria cultural, que ajudou os espanhóis a lerem Castro e Pessoa e que Saramago nos pede, num piscar cúmplice de olho, que não esqueçamos.
Por isso, creio que A Jangada de Pedra está plenamente atual e mais viva do que nunca trinta anos depois, recordando-nos que o mundo é vasto e amplo e que o Iberismo de que tantas vezes falamos ao referirmo-nos a Saramago deve de facto ser, nos nossos dias, Transiberismo, pois conta como elemento fundamental, muito para lá dos referentes europeus, com o diálogo cultural com os países iberoamericanos. Um diálogo que parece uma resposta visionária do autor no contexto daquele 1986 em que os dois países integraram a União Europeia, e que, passados trinta anos, se torna mais necessário do que nunca recordar."

Breve informação sobre o autor do texto, aqui
"Antonio Sáez Delgado. Concluiu Filologia Hispânica - Universidad de Extremadura em 1999. É da Universidade de Évora. Publicou 22 artigos em revistas especializadas e 5 trabalhos em actas de eventos, possui 16 capítulos de livros e 20 livros publicados. Recebeu 1 prémio e/ou homenagem. Actua na área de Humanidades com ênfase em Línguas e Literaturas. Nas suas actividades profissionais interagiu com 32 colaboradores em co-autorias de trabalhos científicos. No seu curriculum DeGóis os termos mais frequentes na contextualização da produção científica, tecnológica e artístico-cultural são: Literatura, Literatura comparada, Portugal, Modernismo, Espanha, Traducción, España, Fernando Pessoa, Literatura portuguesa e Literatura espanhola."


domingo, 18 de dezembro de 2016

"A crónica como aprendizagem: uma experiência pessoal" - texto ensaístico de José Saramago

O presente texto, faz parte da exposição permanente da Fundação José Saramago e pode ser recuperada aqui em http://www.josesaramago.org/a-cronica-como-aprendizagem-uma-experiencia-pessoal/

Detalhe do texto emoldurado ladeado por duas fotografas de José Saramago


"A crónica como aprendizagem: uma experiência pessoal"

"Algumas vezes, nestes acasos da escrita e de reflexão sobre ela, me tenho interrogado sobre a relação que haja entre o saber e os seus repositórios enciclopédicos e dicionarísticos. Refiro-me àquilo a que costumamos chamar «saber comum», não aos grandes temas que, pela sua complexidade e extensão, reclamam um tipo de tratamento informativo que pressupõe, por sua vez, da parte do leitor, um conhecimento básico relativamente desenvolvido. Não se passam assim as coisas com o «saber comum», em geral recolhido nessas obras de consulta de um modo que diríamos indiferente, não crítico, ao ponto de se tornar legítimo duvidar, afinal, se é para informar segundo critérios científicos que certas enciclopédias existem ou para instalar opiniões e juízos sumários nos espíritos curiosos que a elas recorrem.
Estas palavras de abertura, que seguramente comportam algum exagero e não pouca injustiça, ocorrem-me com toda a naturalidade a propósito do tema que aqui nos reuniu; «A crónica como género literário». É que, a acreditar na informação recebida agora mesmo de uma das enciclopédias com que me tenho ajudado para orientar-me neste vasto mundo, a crónica de que aqui falamos não pode ser classificada de género, porquanto não passa de um subgénero, e muito menos terá cabimento na literatura, sendo, como se afirma também, mero jornalismo e mera quotidianidade. Exceptua-se da redutora definição, claro está, a outra crónica, aquela, antiga, dos reinados, das dinastias e das instituições, durante muito tempo simples registo de acontecimentos, em anais e décadas, e, no caso português, a partir do século xv, acedendo, com Fernão Lopes, a um nível literário superior. Porém, a realidade é sempre mais forte do que as definições com que pretendemos discipliná-la, e este Encontro, embora pecando por uma aparente adesão aos critérios judicativos da enciclopédia (a ninguém ocorreria, por exemplo, propor a debate o tema «O romance como género literário»), virá homologar, sem dúvida, o que a mesma realidade nos mostra todos os dias e em todos os lugares do mundo; que a crónica, não só tem o seu lugar na literatura como é, em muitos casos, uma das suas mais completas e acabadas expressões.
Buscando uma definição mais adequada e simultaneamente mais ampla e específica da crónica, diríamos que ela corresponde, em geral, a um texto curto, consequência quer de uma inspiração imediata e não necessariamente aprofundada quer de um diálogo deliberado com o quotidiano ocasional, mas sempre exigindo do escritor, num caso como no outro, capacidade de medida e de concentração, a par de sensibilidade a estímulos que à primeira impressão poderão parecer de pouca relevância, mas que virão a ser, porventura, os que mais fundo hão-de penetrar no espírito do leitor. Dentro de um molde tão flexível, escusado seria dizê-lo, cabem todos os diversos modos e tons pelos quais se expressam habitualmente os cronistas do nosso planeta, desde o lírico ao patético, desde o sério ao irónico, desde a mais rigorosa preocupação objectivista ao abandono às subjectividades mais íntimas. E, quiçá tanto quanto o poema, a crónica será o género literário em que mais produtivamente é possível criar uma atmosfera propícia ao que denominaríamos, na falta doutra expressão mais rigorosa, a sempre activa tentação confessional do autor.
Feitas estas considerações gerais, evidentemente desprovidas de qualquer pretensão de originalidade, porém necessárias como introdução à abordagem pessoal do tema, a que estamos obrigados pelo próprio título desta comunicação – A crónica como aprendizagem: uma experiência pessoal –, e não obstante a dificuldade intransponível que representa o facto de nos referirmos a textos desconhecidos de quem nos escuta, é a altura de declarar que a nossa prática da crónica, exercida grosso modo ao longo de cinco anos, entre 1968 e 1972, veio a demonstrar-se factor decisivo na definição de uma das nossas actividades subsequentes – a de romancista. Seria tentador, mas sem dúvida especioso, imaginar agora que romances poderíamos haver escrito se durante todo aquele tempo não tivéssemos, regularmente, às vezes em dias sucessivos, composto, nas poucas folhas de papel convencionadas, um pequeno enredo, um comentário, uma reflexão, reconstituindo memórias, procurando o sentido último de um acontecimento, ou, para tudo resumir em três acções concomitantes, fixando o tempo, situando o sujeito, recriando a palavra. Porém, já sabemos que o único itinerário permitido é aquele que parte do que foi para o que veio a ser: a viagem para o que poderia ter sido é impossível. Com excepções, como veremos adiante…
É pois verdade que, interrogados sobre o significado e a importância que essas crónicas tiveram no nosso trabalho de romancista, mais de uma vez respondemos: «Tudo o que está nos romances pode ser encontrado nas crónicas.» E à pergunta, ingénua mas inevitável, de se ao escrever aqueles textos breves nos estávamos preparando, conscientemente, para o romance, a única resposta honesta que podíamos dar, e temos dado, foi a de que, então, nos encontrávamos tão longe da simples ideia de um dia virmos a escrever histórias de trezentas ou quatrocentas páginas como longe da Terra está hoje a sonda Voyager. De todo o modo, os factos estão à vista: entre a primeira linha da primeira crónica e a última linha do último romance, parece ser discernível um fio contínuo ligando tudo, ao mesmo tempo que se identifica uma lógica condutora que em tudo reconhece um sentido.
Vários pontos, nessas crónicas, poderão ser retidos se se quiser caracterizar, no seu autor, tanto uma forma de escrever como um modo de sentir: em primeiro lugar, certa coincidência de atitude entre a crónica e o poema lírico (articulação com o momento presente, brevidade do texto, possibilidade de captação das ressonâncias evocativas do seu sentido); em segundo lugar, a prática constante de uma prosa medida, susceptível de criar no escritor um treino dos recursos estilísticos em função da densidade e da economia expressivas; em terceiro lugar, o hábito de colocar em conjunção de interesses a dinâmica do tempo que se vive, a sensibilidade do sujeito que o vive e as potencialidades verbais susceptíveis de definirem essa mesma expressão.
É a partir destes pontos, por assim dizer fundadores, que se vão orientar as manifestações mais explícitas da actividade do cronista, não só no que diz respeito à temática: a relação identidade/alteridade, a articulação entre o homem e a terra, o projecto humano e a sua transposição ou transcendência, a concepção do homo viatora e a sua incidência temporal; não só também no que diz respeito à constelação de motivos preferenciais ou tendenciais que preenchem essa temática: a água, a embarcação, a estreia, o silêncio, a pedra, o rumor – mas também nas atitudes dominantes: um cepticismo radical, no limite do desengano, mas apesar de tudo permeável à esperança; uma frase que se quer tensa, mas que não se fecha à irrupção lírica; uma mordacidade que não exclui a ternura, uma ironia quase sempre cúmplice dessa outra que o cronista dirige contra si mesmo.
Diversíssimas foram as áreas cobertas por estas crónicas, dependentes das naturais sugestões do quotidiano e da vida interior, mas também, não o esqueçamos, condicionadas na sua comunicação essencial e formal por uma situação de censura, de diminuição da liberdade de expressão. É a partir dessa múltipla teia de factores, ora restritivos ora estimulantes, que se articulam, adicionam e potencializam as áreas de observação e de evocação que, numa derradeira análise, definem esses textos. Neles tem lugar a actualidade (parte-se por vezes duma notícia de jornal), a memória (regressa-se à infância, suas marcas, suas recordações, suas nostalgias), o ambiente (evoca-se a cidade, outras cidades conhecidas, o campo, os vários tipos de ruralidade), a tipologia humana (o amola-tesouras, o sapateiro, o cego do harmónio, os frequentadores de café, etc.), a sugestão frásica e vocabular (um verso, uma frase), a cultura (domínios da arte, vultos de escritores, leituras, etc.), e, finalmente, certas efabulações de tipo onírico, maravilhoso ou fantástico que mais tarde virão a concretizar-se na obra ficcional do cronista.
Do ponto de vista estrutural, parece possível identificar quase sempre nestes textos a presença de duas partes distintas: uma primeira parte de tratamento genérico do tema, sucedendo-se a sua especificação parcelar – sendo esta divisão submetida a variantes, que podem revestir as seguintes formas: enunciado de um tema/derivação para um tema afim; enunciado de um tema/derivação para um tema contrário ou contraditório; narração de um caso, ou fábula, ou história/considerações moralizantes (ou por ordem inversa); e outras. Quase sempre a arquitectura discursiva se bipolariza, mantendo como resultado uma tensão ideológica, ou a sua conversão através da ironia ou da conclusão (ou abertura) claramente moralizante. Esta construção dual do texto aponta igualmente para uma oscilação de soluções, para um compromisso incómodo, para a necessidade de escolha, e outras atitudes humanas definidas pela tensão, pela incerteza, ou mesmo pela incompatibilidade.
Chegado a esta altura da nossa exposição, eis que nos enfrentamos com a já mencionada dificuldade (se impossibilidade não é a palavra mais exacta) de falar de obras que são desconhecidas da grande maioria dos que nos escutam. Referimo-nos, precisamente, a esses romances para os quais a crónica foi insciente aprendizagem, que sem ela não teriam existido, ou teriam existido de outra maneira, para nós inimaginável. No entanto, cremos ser possível tornar evidente a todos vós essa espécie de indirecta relação de causa e efeito, se pusermos em paralelo o que antes apontámos (oscilação de soluções, compromisso incómodo, necessidade de escolha, tensão, incerteza, incompatibilidade) e os temas de dois ou três dos nossos romances, escritos nos anos mais recentes.
Vejamos, por exemplo, O Ano da Morte de Ricardo Reis, cujo protagonista é aquele heterónimo de Fernando Pessoa que tem o mesmo nome, e que fomos buscar ao imaginário exílio no Rio de Janeiro para o fazer regressar a Portugal depois da morte do seu criador, em 1935, e mostrar-lhe, a ele que um dia escrevera; «Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo» – mostrar-lhe esse mundo nas vésperas dos anos trágicos, ao mesmo tempo que fazíamos ressuscitar, não em fantasma, mas em corpo carnal e em espírito lúcido, o próprio Fernando Pessoa, para um impossível diálogo entre o que já não existe (Fernando Pessoa) e o que não existira nunca (Ricardo Reis).
Vejamos igualmente História do Cerco de Lisboa, um falso romance histórico, situado duplamente nos nossos dias e no século xii, e no qual simultaneamente se reconstituem e negam as circunstâncias de uma batalha e de uma conquista – a de Lisboa, no ano de 1147, quando, com o auxílio de cruzados que navegavam para a Terra Santa, os portugueses tomaram a cidade, depois de um assédio de cinco meses. O protagonista, um revisor de imprensa, ao fazer a correcção tipográfica de um livro que igualmente se intitula História do Cerco de Lisboa e que é obra de um historiador, introduz uma palavra no texto, a palavra «não», invertendo assim a verdade histórica e passando o livro a dizer que os cruzados não ajudaram os portugueses a cercar e tomar Lisboa. No lugar do sim o não, no lugar do não o talvez.
E finalmente A Jangada de Pedra, essa Península Ibérica que se separa da Europa e sobre as águas do Atlântico voga para o Sul, a caminho do sonho ainda possível, de um novo encontro com a história, de uma esperança e de um projecto para um humanismo recuperado. Sim, não, talvez…
Deveria terminar pedindo desculpa de ter ocupado tanto do vosso tempo, e mais ainda por havê-lo ocupado tão egoistamente, falando de mim e do que tenho escrito. Mas o aviso estava feito desde o princípio; uma experiência pessoal. Deixo-vo-la por aquilo que valha: sim, não, talvez…"
José Saramago

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

"Do canto ao romance, do romance ao canto" - Texto ensaístico

Pode ser consultado e recuperado aqui
em http://www.josesaramago.org/do-canto-ao-romance-do-romance-ao-canto/

"Do canto ao romance, do romance ao canto"

"É conhecido o caso de um moço, habilidoso de nascença, que, sem nunca ter recebido lições de belas-artes nem aprendido de mestres particulares, e não dispondo de outra ferramenta que um canivete, era capaz de transformar em pouco tempo um toco de madeira bruta no mais perfeito e acabado urso de que rezariam histórias da escultura se o objectivo delas fosse ocuparem-se de talentos místicos. Invariavelmente, a gente da terra maravilhava-se com a  rapidez e o jeito apurado, e, também invariavelmente, o rapaz respondia às curiosidades: «Não tem nenhuma dificuldade. Agarro no bocado de madeira e fico a olhar para ele até ver o urso. Depois, é só tirar o que está a mais.»

O nosso escultor dava-nos assim, de uma vez só, duas lições magníficas: a da modéstia e a da generosidade. Revelava-nos sem disfarce nem engano o seu segredo de oficina e ensinava-nos como deveríamos proceder para criar um urso: olhar para onde ele não está e, apenas com o olhar, obrigá-lo a aparecer.

Mas, ai de mim, não há perversidade  pior que a dos ingénuos. Este amável moço, tão prestante em explicar-nos  como fez, não permite que lhe saia da boca uma única palavra sobre  como se faz. Não duvidamos de que o urso ali esteja, mas entre a figura do animal e as nossas inábeis mãos existe uma muralha de madeira fechada, com nós duríssimos, veios intratáveis, traiçoeiras maciezas da fibra: é por de mais evidente que se necessitará muito engenho e muita  arte para abrir um caminho e fazer dele avenida por onde possa alongar-se, enfim comprazido, um olhar fruidor. A arte, afinal de contas, não é fácil, o rapaz dos ursos esteve a divertir-se à nossa custa.

Contudo, imprudente seria o céptico que se atrevesse a jurar que no interior de ada bocado de madeira não se encontra um urso à nossa espera. Está ali, e sempre há-de estar. Ainda que não consigamos vê-lo distintamente, pelo menos seremos capazes de adivinhá-lo, de intuí-lo, aparece-nos ao longe como  uma luz instável e lenta, um vago luzeiro que, por assim dizer, não chegasse a iluminar-se a si mesmo.

E é aqui, num súbito relance, que descubro que não é de ursos que se trata, mas de um tema, exactamente este que vos trouxe: «Do canto ao romance, do romance ao canto». Creio distinguir-lhe e identificar-lhe os contornos, tornar-se-lhe nítido e preciso o vulto, chego a acreditar que me bastará estender a mão e agarrá-lo, mas no momento em que vou exclamar, triunfante: «Minhas senhoras e meus senhores, eis o urso», verifico que tudo não foi mais que ilusão e ludíbrio, e apenas tenho para mostrar isto que vêem aqui, um tronco cortado, um cepo, uma raiz torta, um assunto à procura da sua porta de entrada. E outra vez a luz recomeça a pulsar, como um coração implorando: «Tirem-me daqui.»

Disse: «Do canto ao romance» – e esse percurso, essa viagem por espaços, mundos e tempos, desde os poemas homéricos a Marcel Proust, ou James Joyce, ou Franz Kafka, passando pelas Mil e Uma Noites, pelas epopeias indianas, pelas parábolas dos livros sagrados, pelo Cântico dos Cânticos, pelas fábulas milésicas, pelo Asno de Ouro, pelas canções de gesta, pelas sagas islandesas, pelos ciclos de Roldão, da Demanda do Graal, de Alexandre, de Robin Hood, pelo Roman de la rose e pelo Roman de Renart, por Gargântua, pelo Decameron, por Amadis de Gaula, por Don Quixote, e também por Gulliver e Robinson, Werther e Tom Jones, por Ivanhoe, Cinq-Mars e Os Três Mosqueteiros, pela Nossa Senhora de Paris, pela Comédia Humana, pelas Almas Monas, pela Guerra e Paz, pelos Irmãos Karamazov, pela Cartuxa de Parma, pela Montanha Mágica, até aqui, até aos dias de hoje, essa viagem relata-se e explica-se por si mesma, começou um dia, em voz e em grito, à sombra de uma árvore, ou no interior  de uma gruta, ou num acampamento de nómadas à luz das estrelas, ou na praça pública, ou no mercado, e depois houve alguém que escreveu, e a seguir alguém que escreveu sobre o que antes tinha sido escrito, infinitamente repetindo, infinitamente variando, escrevendo, lendo, escrevendo, lendo…

Pouco importará a mais do que provável incoincidência com a realidade histórica entre esta visão lírica de narrativas entoadas em melopeia e uma escritura organizada e disciplinada, respeitadora de regras, preceitos e normas, e, fatalmente, de sistemas convencionais que nunca o são menos pelo facto inelutável de serem transitórios  e portanto substituíveis por outros sistemas, estes, por sua vez, condenados, mais cedo ou mais tarde, a idênticos processos de mudança. A evocação que aí deixei serviu-me somente para ilustrar, do modo mais persuasivo de que fui capaz, a primeira parte do título que dei a estas breves linhas: «Do canto ao romance», e, para os fins que tenho em vista, tão bem servia esta como outra qualquer. A dificuldade viria sempre depois. Precisamente agora.

Digo: «Do romance ao canto» – e nesta  altura deveria demonstrar, ou pelo menos propor-vos como uma hipótese plausível, que o género literário a que damos o nome de romance, havendo chegado na nossa época ao final do arco de círculo que, tal imaginário pêndulo, traçou através dos tempos, estaria regressando pelo caminho por onde veio, até reencontrar o canto primordial, donde recomeçaria a viagem, porventura com um novo impulso que lhe  permitiria galgar, em direcção ao futuro, mais uns quantos séculos ou milénios. Algo como dois passos para trás e três para diante…

Não sou tão desprovido de senso comum.  Dinâmica e cinética são programas de diferente foro do conhecimento, e a literatura, se repete infinitamente, como já foi dito, também infinitamente varia, como foi dito  já. Posto o que, chegados a este ponto, é irresistível recordar aquele célebre Pierre Menard, autor de um Quixote  idêntico ao de Cervantes, segundo nos explica Jorge Luis Borges nas suas  Ficciones,  o qual Pierre Menard, tendo repetido, palavra por palavra, a obra do imortal «Manco de Lepanto» (assim designam a Cervantes quando não se quer repetir-lhe o nome, destino a que Camões escapou, pois ninguém, até hoje, se atreveu a chamar-lhe «Zarolho de Ceuta»), muitas vezes está a dizer coisas diferentes, não mais que por serem diferentes os modos de as entender neste século XXI em que estamos e naquele século XVII em que nunca estaremos. Porém, este mesmo exemplo nos mostra, derradeiramente, que qualquer repetição exacta é impossível. Naquela sua viagem de retorno às origens, ao outro extremo do arco de círculo, o pêndulo iria supostamente reencontrando e reconhecendo, passo a passo, a identidade  romanesca perceptível nas narrações que conhecemos do passado, ao mesmo tempo que iria deixando atrás de si o rasto de uma alteridade coincidente, se uma tão grosseira contradição em termos (se é alteridade, não é coincidente) pudesse ser admitida. É claro que foi pelos meus próprios passos que me meti no beco sem saída em que de repente me encontro. De facto, se ao romance não é permitido fazer nenhum percurso inverso, se Pierre Menard, quando fiel e escrupulosamente copiou o Quixote, acabou por escrever outro livro, como conseguiríamos nós alcançar novamente o anto, o desejado canto, e, se sim lá chegássemos, de que canto seriam capazes as nossas bocas de hoje, ainda que as palavras fossem iguais e igual a música? Os homéridas já não têm lugar neste mundo, o  tempo é, de todas as coisas, a única que não é recuperável. Que nos resta, então? Como iremos inventar o canto novo, esse a que me está obrigando a segunda parte do meu título? E com que direito me proporia eu, se é de facto essa a minha intenção, anunciar o advento de uma nova era, literariamente falando, claro está, sem cuidar de saber se isso agradaria a quem tivesse de vivê-la? Trazer Homero aos nossos dias, homerizar o romance, terá algum sentido?

Estas perguntas, em si mesmas, e pela ordem por que as apresentei, não são inocentes. Permitem-me, enfim, trocar o geral pelo particular, penetrando no único universo de que posso falar com a legitimidade que dá um conhecimento de causa, isto é, o meu próprio e pequeno universo, o do romance que faço, o seu porquê, o seu como e o seu para quê.

Em primeiro lugar, consideremos a relação do autor com o tempo. Não este em que agora estamos, não aquele outro que foi o do escritor enquanto trabalhou no seu livro, mas sim o tempo contido e encerrado no romance, e que também não é o das horas e dias que levará a ser lido, ou uma referência temporal implícita no discurso ficcional, e menos ainda o tempo explicitado fora da narrativa, por exemplo, no título que ela recebeu, casos de Cem Anos de Solidão ou de Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher.  Falo, sim, de um tempo poético, feito  de ritmos, de suspensões, um tempo simultaneamente linear e labiríntico, instável, movediço, um tempo dotado de leis próprias, um fluxo verbal que transporta uma duração e que uma duração por sua vez transporta, fluindo e refluindo como uma maré entre dois continentes. Este, repito, é o tempo poético, pertence à recitação e ao canto, aproveita todas as possibilidades expressivas do andamento, do compasso, da coloratura, é melismático ou silábico, longo, breve, instantâneo. De um tempo assim percebido foi meu desejo e minha ambição que se alimentassem as ficções que inventei, consciente de que vou querendo, mais e mais, aproximar-me da estrutura de um poema que, sendo pura expansão, se mantivesse fisicamente coerente.

Afirmam músicos e musicólogos que uma  sinfonia, hoje, é algo impossível, como, na mesma linha de ideias, o seria  também esculpir um capitel coríntio. Obviamente, qualquer pessoa, se dotada de suficiente habilidade, poderá contrariar tal interdição de princípio, compondo, de facto, a sinfonia,  ou esculpindo, de facto, o capitel: o que dificilmente poderá é levar-nos a acreditar que, ao fazê-lo, esteve a responder a uma necessidade autêntica, tanto no plano da criação como no plano da fruição. Ora, quem sabe se não teremos  também nós de enfrentar a gravíssima responsabilidade de aplicar ao romance uma  sentença igual, afirmando, por exemplo, que também ele se tornou impossível nas suas formas paradigmáticas, prolongadas até hoje com mínimas variações, só raramente  radicais e sempre assimiladas e integradas no corpo tópico, o que tem permitido, com a graça de Deus e a bênção dos editores, que continuemos, muitos de nós, a escrever romances como comporíamos sinfonias brahmsianas ou talharíamos capitéis coríntios.
Mas este mesmo romance, que assim parecia estar condenando, contém já em si, nos seus diversos e actuais avatares, a possibilidade de se transformar num espaço literário (propositadamente digo espaço, e não género) capaz de acolher, como um grande, convulso e sonoro mar, os afluentes torrenciais da poesia, do drama, do ensaio, e também da ciência e da filosofia, tornando-se expressão de um conhecimento, de uma
sabedoria, de uma cosmovisão, como o  foram, no seu tempo, os poemas da antiguidade clássica.

Porventura estarei caindo em erro, se recordarmos a crescente e parece que irreversível especialização, já quase microscópica, do homem. Porém, não é impossível que essa mesma especialização, por força de algum mecanismo interior de compensação, e talvez por uma instintiva necessidade de sobrevivência e equilíbrio psicológico, nos leve a procurar uma nova vertigem do geral em oposição às aparentes seguranças do particular. Literariamente, porque só de literatura estamos falando aqui, talvez o romance possa restituir-nos essa suprema vertigem, o alto e extático canto de uma humanidade que ainda não foi capaz, até hoje, de conciliar-se com a sua própria face.

E assim concluo. Manejando o meu canivete rombo, aparei e escavei o bocado de madeira que aqui vos trouxe. Juro-vos que via o urso antes, via-o perfeitamente. Juro-vos que continuo a vê-lo agora. Mas não tenho a certeza – culpa minha – de que o vejais vós. O mais provável foi ter-me  saído um ornitorrinco, esse mamífero desajeitado, com bico de pato, feito de peças soltas doutros animais, desconforme, bicho fantástico – ainda que não tanto  como o ser humano. Este que nós somos quando escrevemos romances, ou os lemos. Interminavelmente."

José Saramago