Ilustração constante da obra "Alabardas" de José Saramago
José Saramago. Uma visão apaixonada, sobre o homem que da Estátua descobriu a Pedra.
Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"
Rui Santos
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sábado, 18 de abril de 2020
quarta-feira, 7 de março de 2018
A ponte entre "A Viagem do Elefante" e a sua última obra, Alabardas
Quando José Saramago remete para outra e futura obra, neste caso por concluir.
(...) "Ali está o herói, disse o alcaide. O pombo ainda tinha a mensagem atada à pata, situação que o proprietário acho conveniente esclarecer, Em geral, retiro a mensagem logo que o pombo pousa e faço-o porque não quero que comece a dar o trabalho por mal empregado, mas neste caso preferi esperar a sua chegada para lhe dar a si uma satisfação completa, Não sei como lho agradeça, senhor alcaide, creia que este é para mim um dia grande, Não duvido, comandante, nem tudo na vida são alabardas, alabardas, espingardas, espingardas." (...)
"A Viagem do Elefante", de José Saramago
Caminho, página 126sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
"Fábrica Braço de Prata. "Esta bomba não rebentará" - de Cristiana Faria Moreira para o "Público" (07/01/2018)
Nuno Nabais recorda para o "Público" um dos momentos mais marcantes da vida do seu espaço das artes na Fábrica de Braço de Prata" aquando da apresentação da obra "Alabardas Alabardas Espingardas Espingardas" de José Saramago.
Reportagem de Cristiana Faria Moreira - "Público" (07/01/2018)
Pode ser consultada e recuperada aqui
"Esta é a história de como um professor de Filosofia transformou um espaço devoluto, desejado por imobiliárias, num centro cultural onde o armamento foi substituído pela arte. E que sobrevive há uma década na ilegalidade."
Nuno Nabais, fundador da Fábrica de Braço de Prata
Fotografia de Nuno Ferreira Santos
"Por que é que nunca houve uma greve numa fábrica de armamento? O que se passa para que a classe operária, tão capaz de lutas, não tenha conseguido entrar nos portões de uma fábrica de armas? As questões levantou-as José Saramago. E quem sabe as respostas a essas dúvidas estejam projectadas nos primeiros três capítulos de um romance que conta a história de amor entre uma pacifista e um trabalhador de uma fábrica de material de guerra.
Deixou-o por acabar, mas o enredo do romance ter-lhe-á surgido após uma conversa com "um velho republicano espanhol" que lhe contou sobre uma bomba que, em plena Guerra Civil, não explodiu. Quando a desarmadilharam, encontraram um bilhete escrito em português onde se podia ler: "Esta bomba não rebentará”.
Para Saramago, poderia até ter sido um operário da Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, a ousar fazê-lo. Quem nos conta esta história de amor, misturada com a sabotagem da guerra, é Nuno Nabais, o professor de Filosofia que, há dez anos, quis tornar parte de um antigo espaço de fabrico de armamento num local em que as armas são a música, a literatura, a pintura ou a escultura.
O livro chama-se Alabardas, foi publicado em 2014, e apresentado, ali, na Fábrica, onde estiveram presentes, “rodeados por guarda-costas”, o juiz espanhol Baltasar Garzón e o escritor e jornalista italiano Roberto Saviano. Diz Nuno Nabais que terá sido o momento mais marcante nestes dez anos de Fábrica Braço de Prata que, segundo conta, foi de facto o cenário da obra do prémio Nobel da Literatura.
É que o escritor tinha ligações ao local por se ter formado como serralheiro mecânico na Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila. "O sonho de qualquer aluno daquela escola, nos anos 40 e 50, era ir trabalhar para a Fábrica Braço de Prata", recorda Nuno. "Saramago não conseguiu, mas vinha muitas vezes encontrar-se com os antigos colegas aqui".
O edifício apalaçado ter-lhe-á ficado na memória, assim como os mosaicos axadrezados do chão, a escadaria, a fachada com o escudo português e as iniciais FBP, os símbolos alusivos ao trabalho e ao produto que ali se fabricava. Este é hoje o cenário de um espaço cultural, que é uma livraria, com salas de concertos, galerias de exposições, e um restaurante que serve bebida e comida, à margem da lei. Que dez anos depois estará "em vias de formalizar um acordo miraculoso” com a câmara de Lisboa para passar a poder vender cervejas sem estar sujeito a multas.
É uma história de resistência e de amor, como veremos, entre um filósofo e uma agente de bandas, com a música, os livros, a dança, a pintura e a escultura. Com a arte.
Viajar pela arte de sala em sala
É fim de tarde de uma terça-feira de Outono quando nos sentamos com Nuno numa das mesas da Fábrica. Está fechada, menos para os alunos da Escola de Música, o seu mais recente projecto, e para os "amigos" que vão chegando, a quem não é negada a entrada.
A Fábrica recebe-nos numa sala ampla, pé direito alto e bar a um canto. Depois, é começar a percorrer as salas que vão desembocando noutras salas, que tomam os nomes de filósofos, como Platão, Nietzsche, Arendt, de escritores como Eduardo Prado Coelho e Saramago ou artistas como Kandinsky. São 13, no total, que não servem para uma coisa só.
Em dez anos, Nuno Nabais diz ter feito mais de 700 exposições de artistas plásticos, sendo que “nenhum artista expôs duas vezes”. Acolhe cerca de 60 concertos, de vários estilos, por mês. Por vezes, há vários na mesma noite e o objectivo é que se circule pela Fábrica, guiados pelas notas que mais cativam, entrando e saindo, ao ritmo e vontade de cada um, sem constrangimentos.
Aberta de quarta a sábado, não se pagam as entradas; dão-se antes "donativos". No total, sublinha, mais de 1,6 milhões de euros passaram “dos bolsos do público para os bolsos dos músicos”. “Todos recebem o mesmo. Não é por banda, é por cabeça”, diz.
Salvador Sobral já ali tocou por várias vezes. A Fábrica serve, inclusive, de pano de fundo ao videoclip de Excuse Me, tema que dá nome ao primeiro álbum do músico. À sexta, ali costuma tocar o pianista e compositor Júlio Resende, que também acompanha Sobral e com quem tem o projecto Alexander Search. O que leva Nuno a dizer, orgulhosamente, que este é um dos melhores locais para se ouvir jazz na capital.
"Há imensos esqueletos nos armários desta fábrica"
Pedimos que nos explique como é que sobreviveu ali, numa zona da cidade que se diz agora na moda, quando, “há dez anos, ninguém ia para o Poço do Bispo”, refém da memória das docas, da Fábrica Militar, da Fábrica Nacional de Sabões, da Tabaqueira, dos fósforos, da borracha, dos armazéns de vinho de Abel Pereira de Fonseca, do frenesim das horas de almoço onde os trabalhadores saíam e preenchiam as ruas de Marvila.
Para isso, voltemos ao início do século XX, quando aquele complexo industrial foi construído, para se dedicar ao fabrico de munições de artilharia, sob a alçada do Arsenal do Exército.
"Há imensos esqueletos nos armários desta Fábrica", desabafa Nuno. A Guerra do Ultramar foi o garante da fábrica, com a produção intensiva de espingardas automáticas, morteiros, metralhadoras, munições, fardamentos e outros artigos que equiparam as Forças Armadas Portuguesas. Chegou a empregar cerca de 12 mil operários, que produziram também armamento para a República Federal da Alemanha.
Já nos anos 90, a Fábrica acabaria por ser desactivada e votada ao abandono, mas rapidamente seria revelado o interesse de construtores imobiliários naqueles terrenos.
A história de Nuno com a fábrica começa à boleia da família. “Somos cinco irmãos. Um deles é engenheiro civil e, em 1997, era membro da administração de uma empresa de construção, a Somague”. Que se tinha associado à Obriverca e criado a empresa Jardins de Braço de Prata. O objectivo era comprar a antiga fábrica de material de guerra para construir aquilo que está, finalmente, duas décadas depois, a ser construído - um empreendimento de apartamentos de luxo, projectado pelo arquitecto italiano Renzo Piano (Prémio Pritzker, co-autor do Centro Georges Pompidou, em Paris) em 1998.
Em 1999, outro irmão, advogado de profissão, “fez um contrato de comodato com a empresa Jardins de Braço de Prata”, conta Nuno, o que lhe permitia ocupar o edifício, sem pagar renda, ficando responsável pela manutenção do edifício. Segundo refere o professor, a autarquia queria que o edifício fosse sua propriedade, o que só aconteceria assim que “o empreendimento estivesse concluído e a câmara tivesse passado as licenças de habitação aos apartamentos”.
Ora, em 2002, a obra acabaria por ser embargada. Foram surgindo outros planos para o local, mas nunca nada avançou. À data, além de dar aulas de Filosofia na universidade tinha, no Bairro Alto, uma livraria especializada em Filosofia e Teatro - a Eterno Retorno -, próxima da Ler Devagar, de José Pinho. Em 2005, livraria de Pinho foi forçada a sair do edifício que ocupava na Rua de São Boaventura. Em “solidariedade”, diz Nuno, também fechou as portas. O plano era partilharem casa, o que ainda veio a acontecer, na Galeria Zé dos Bois e na Rua da Rosa, mas sempre “com o sacrifício da Eterno Retorno”, aponta.
"Uma livraria sem bar não funciona"
A parceria com a Ler Devagar acabou por não dar muito certo e, sem sítio para pôr os livros, acabou por encontrar o espaço de que precisava na Fábrica.
Entretanto outro irmão tinha montado uma galeria de arte num dos salões da Fábrica, quando surge a ideia: “Por que não abrir um espaço das artes na fábrica, com livraria, café e galerias de arte?", recorda o professor, para quem “uma livraria sem bar não funciona”.
A ideia avançou com a ajuda dos alunos da faculdade, de amigos músicos, que pintaram paredes, montaram móveis. Comprou um piano a prestações, transformou casas de banho numa cozinha e o espaço passou de livraria a sala de concertos, galeria de exposições e restaurante. Conta que a Fábrica só está hoje de pé porque fez um crédito de “seis mil euros milagrosos”, numa daquelas bancas à saída do metro.
A partir daí, foi uma corrida contra o tempo. Antes da abertura, reatou a parceria com a Ler Devagar. Era assim apresentada uma nova livraria em Lisboa: Ler Devagar/Eterno Retorno.
Acabou por inaugurar com o pretexto dos Santos Populares. Sem possibilidade de desembolsar “centenas de milhares de euros” para fazer as obras para licenciar o espaço como equipamento cultural, pediu à câmara uma licença para fazer um arraial de Santo António. “Até hoje, é a única licença que eu tenho, para o mês de Junho de 2007. Hoje, é um caso de estudo. Como é que um espaço destes sobrevive dez anos na ilegalidade?”.
“Nuno, aguente-se na ilegalidade”
Em 2008, a obra do empreendimento dos Jardins de Braço de Prata acabaria por ser desembargada. Adivinhava-se o fim daquele espaço, mas um artigo do The New York Times, de Julho, intitulado Lisbon comes alive (Lisboa ganhou vida, em tradução livre), acabaria por “salvar” a Fábrica, acredita Nuno. O texto arrancava com a referência à “fábrica de armas durante os sombrios anos da ditadura em Portugal, com as instalações há muito abandonadas, [que] renasceu para ser o mais recente e ambicioso espaço cultural de Lisboa”.
É uma visita guiada à Fábrica por Nuno, que naquela altura fazia tudo: "Vendia os bilhetes, vendia a cerveja, tudo". O chamariz da noite - e do jornalista - era Michel de Roubaix, artista do sapateado e do acordeão que ali actuava.
Dias depois, numa reunião da assembleia municipal, a deputada Helena Roseta levou uma proposta acompanhada daquele artigo, que consistia em passar o edifício para equipamento cultural, assim que aquelas instalações passassem para propriedade da câmara. E, na gestão do espaço, em nome do município, permaneceria Nuno Nabais."
Em dez anos, Nuno Nabais diz ter recebido mais de 700 exposições
Fotografia Nuno Ferreira Santos
"Nada avançou, a primeira pedra do empreendimento ainda foi lançada, em 2010, 12 anos depois de o projecto ter sido apresentado, visando retomar o processo de regeneração urbana iniciado com a Expo 98. Mas a Obriverca acabaria por abrir falência e a obra foi, mais uma vez, parada.
“Aqui temos estado estes dez anos, vulneráveis a qualquer inspecção. Sempre que cá vem ASAE sou multado", lamenta. "Contesto a contra-ordenação, vou para o tribunal. Em tribunal os juízes percebem que é um acontecimento cultural, absolvem-me ou reduzem-me a multa”, partilha resignado.
"Pagamos tudo, apesar de sermos ilegais. Pagamos IVA, IRC, à Sociedade Portuguesa de Autores, à Inspecção Geral Das Actividades Culturais (IGAC). Não pagamos a renda, mas de resto pagamos tudo”, admite.
Diz que a câmara ainda se meteu nas negociações com os proprietários, sem grandes resultados. Tentou depois fazer um acordo com Nuno que este recusou, por não conseguir pagar a renda que lhe pediam. Mas assegura que a autarquia o tem animado e resistir: “Nuno, aguente-se na ilegalidade”. A solução parece ter chegado.
Um acordo "miraculoso"
Ainda no ano passado, em Fevereiro, no mesmo ano em que comemorou uma década de existência, a câmara propôs-lhe um acordo: passaria a ter um contrato de arrendamento, desde que garantisse a integração da comunidade local nas suas actividades.
“Estamos em vias de formalizar um acordo miraculoso”, diz Nuno, explicando que a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) encarregar-se-ia de montar uma “estrutura no exterior para espectáculos ao ar livre”. “Eles [a EGEAC] usam essa estrutura 60, 70 dias por ano, nos outros usamos nós. E se aceitássemos, não precisávamos de pagar renda”, detalha.
Nuno está responsável por tratar do texto da proposta de protocolo onde deve “incluir um conjunto de contrapartidas” que a fábrica dará à cidade: propinas grátis para a escola de música aos miúdos de Marvila, concertos gratuitos nas escolas da freguesia, sessões de leituras, edição de obras. O PÚBLICO tentou, sem sucesso, obter mais informações junto da autarquia."
O edifício onde funciona a Fábrica, diz Nuno Nabais, terá sido a sede daquele complexo industrial Fotografia Nuno Ferreira Santos
"Depois de assinado o protocolo, terá um contrato de arrendamento. “E finalmente vou pedir alvará para, finalmente, poder vender cervejas sem estar sujeito a multas”.
Neste momento, emprega 14 funcionários. É precisamente a parte da fábrica que não está legal que lhes permite sobreviver: o restaurante e bar. Já que, “100% da bilheteira é para os músicos, 100% do valor das obras de arte que se vendem é para os artistas”.
“Só nos sustentamos - que não sustentamos - porque todos os meses temos que entrar com 500, 1000 euros para o orçamento da fábrica”, diz. “Se eu não continuasse a dar aulas, a Fábrica não existia. Sobrevivi a tudo isto. Já não sinto a fome que sentia naqueles meses. Já não sinto a angústia de ir para tribunal". É tudo parte de "um grande romance" que conta às pessoas quando lhe perguntam porque se meteu nesta embrulhada.
A co-protagonista deste romance rocambolesco é Sílvia, que é a responsável pela produção musical, e a mãe de dois filhos de Nuno, o Gabriel e a Violeta, "100% made in Fábrica Braço de Prata". “Conheci a Sílvia aqui. Ela era agente de uma banda rock. Depois convidei-a para trabalhar comigo e nasceram estes filhos”.
Com a construção do empreendimento de luxo, que se vai estender pela frente ribeirinha, "a malta pobre vai ficar a olhar para uma barreira de betão armado", considera Nuno Nabais. "E nós vamos ficar aqui como um enclave, rodeados de prédios de luxo. Um enclave com memórias do 25 de Abril, com funcionamento ilegal assumido, com 60 concertos por mês, sete exposições, uma livraria”. Como parte de um romance inacabado."
sábado, 23 de dezembro de 2017
"Las bombas pacíficas de José Saramago" crónica sobre a obra inacabada "Alabardas" publicada no "La Verdad" (Murcia Espanha - 30/09/2014)
"Las bombas pacíficas de José Saramago
La novela inconclusa del Nobel luso aborda la industria y el tráfico de armas"
em http://www.laverdad.es/alicante/culturas/libros/201409/30/bombas-pacificas-jose-saramago-20140930015820-v.html
«Esta bomba no explotará». Este sucinto mensaje en portugués apareció escrito en un papel en el interior de una bomba lanzada contra tropas del Frente Popular en Extremadura, durante la 'incivil' guerra española. Desde que el escritor José Saramago tuvo noticia de esta leyenda de un fabricante de bombas tan bondadoso como para sabotear sus mortíferas manufacturas, comenzó a latir en su mente una historia que maduró durante años y que solo la muerte le impediría concluir. Se titula 'Alabardas', llega inconclusa al lector mañana miércoles y es una reflexión sobre la industria y el tráfico de armas que Alfaguara publica cuatro años después de la muerte del Premio Nobel de Literatura portugués.
«Con 'Alabardas' acaba la obra del hombre que no quiso morir sin haberlo dicho todo», apunta Pilar del Río, viuda del escritor, su albacea literaria y responsable de la Fundación Saramago en Lisboa. Asegura la periodista española que no es «una novela sobre la guerra» y sí «un canto al activismo de quienes quieren cambiar lo establecido, lo que se asume como inevitable».
Ilustrada con estremecedores grabados alusivos a los horrores bélicos de otro premio Nobel, el alemán Günter Grass, el relato inacabado de Saramago se completa con textos del italiano Roberto Saviano, autor de 'Gomorra', y del poeta y ensayista Fernando Gómez Aguilera.
'Alabardas' narra la historia de Artur Paz Semedo, un gris trabajador de una fábrica de armamento ligero y municiones fascinado por las piezas de artillería. Felicia, la mujer que fue su esposa y lo abandonó, de fuerte carácter, inteligente y pacifista militante, le incitará a emprender una investigación en su propia empresa.
Tres capítulos
José Saramago, que se preguntó siempre por qué jamás hay huelgas en la industria armamentística, dejó escritos apenas tres capítulos de lo que se ha convertido en su novela póstuma. Esbozó el nudo argumental, perfiló a los dos protagonistas y planteó nuevas preguntas en su permanente y comprometida vocación de agitar conciencias. Era muy consciente de que sería su última ficción, de que la enfermedad que le alejó del ordenador durante ocho meses tras iniciarla le impediría culminar este desafío narrativo. «A este paso tal vez haya libro en 2020», ironizó en su cuaderno en diciembre de 2009, sabedor de que la implacable cuenta atrás estaba en marcha. «Corregí los tres primeros capítulos (es increíble cómo lo que parecía bien lo ha dejado de ser) y aquí hago promesa de trabajar en el nuevo libro con mayor asiduidad. Saldrá al público el próximo año si la vida no me falta», había escrito en el mismo cuaderno en octubre. Llego a anticipar la frase final, «un sonoro 'Vete a a la mierda'» proferido por la mujer de Artur Paz y que para Saramago era «un remate ejemplar».
La evolución del pensamiento del protagonista sirve para reflexionar sobre el lado más sucio de la política internacional, un mundo de intereses ocultos que subyace en la mayor parte de los conflictos bélicos del siglo XX. Abunda en el debate sobre la carrera armamentística y sus fatales consecuencias en un mundo incendiado de nuevo por confrontaciones bélicas un siglo después de la Primera Guerra Mundial.
También sirve de inspiración para que Fernando Gómez Aguilera y Roberto Saviano den continuidad a estas páginas y ofrezcan su particular visión sobre las cuestiones que se plantean en la fábula que el laureado escritor portugués quiso titular 'Alabardadas, alabardas. Espingardas, espingardas', frase de una tragicomedia de Gil Vicente, 'Exortaçao de guerra', escrita hace cinco siglos.
Para Roberto Saviano, estas páginas póstumas de Saramago son «una orquesta de revelaciones» y «un manual de traducción de sonidos, percepciones e indignaciones». De «un Saramago en estado puro hasta la última de sus letras» habla Fernando López Aguilera. Elogia unas palabras «que no pudieron ser escritas en el lugar al que la voluntad las había destinado, pero que aún hoy resuenan desde la libertad de su poderosa conciencia incómoda, irremplazable».
José Saramago (Azinhaga 1922- Lanzarote 2010) fue uno de los escritores portugueses más conocidos y universalmente apreciados en la segunda mitad del siglo XX. La academia sueca le concedió el Nobel de Literatura en 1998 por un carrera que comenzó muy tarde y en la que figuran títulos tan esenciales como 'El año de la muerte de Ricardo Reis', 'El evangelio según Jesucristo', 'Memorial del convento', 'La balsa de piedra', 'Ensayo sobre la ceguera', 'Claraboya' o 'Caín', la última novela que Saramago vería publicada en vida y que establece un fuerte nexo con 'Alabardas'.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
"Saramago na parede" por José Castello - Sobre a obra inacabada “Alabardas, alarbardas, epingardas, espingardas” (25/10/2014)
A artigo pode ser recuperado e consultado aqui
em http://blogs.oglobo.globo.com/jose-castello/post/saramago-na-parede-553229.html
"Saramago na parede", de José Castello (25/10/2014)
em http://blogs.oglobo.globo.com/jose-castello/post/saramago-na-parede-553229.html
"Saramago na parede", de José Castello (25/10/2014)
"Toda ficção tem seus pontos de atrito. Núcleos explosivos, eles, em geral, desvelam grandes impasses. Resumem, assim, aqueles impulsos essenciais que se derramam ao longo de todo o relato. Já no primeiro capítulo de “Alabardas, alarbardas, epingardas, espingardas”, último e inacabado romance de José Saramago (Companhia das Letras, ilustrações de Gunter Grass), encontro aquele ponto de convergência — espécie de caroço — que resume o próprio livro. Funcionário de uma indústria de armamentos, a Belona SA, o protagonista Artur Paz Semedo orgulha-se de seu trabalho. Esse orgulho é, ao mesmo tempo, a causa de sua solidão. Depois de um longo casamento, sua mulher Felícia, uma militante pacifista, não suporta a contradição que traz em sua vida doméstica, e o abandona.
Apaixonado pela perfeição das armas que ajuda a produzir, Semedo é também um admirador dos filmes de guerra. Um dia, assiste a “A esperança”, obra sobre a guerra civil espanhola, rodada no fim dos anos 1930 e inspirada no romance homônimo de André Malraux. Não é um entusiasta da leitura, mas, estimulado pelo filme, decide ler o romance. “Mal sabia ele, pobre coitado, o que o esperava”. Uma brevíssima passagem o detém. “O comissário da nova companhia pôs-se de pé: ‘Aos operários fuzilados em Milão por terem sabotado obuses, hurra’”. Ali, onde não esperava, Semedo prova o gosto áspero do paradoxo. Primeiro é invadido por um incontrolável sentimento de piedade pelos sabotadores fuzilados. Ao mesmo tempo, é devastado pela repulsa à sabotagem, expressa em uma frase que diz sem pensar: “Não se podem queixar, tiveram o que procuraram, quem semeia ventos colhe furacões”. A piedade difusa se transmuta em irritação. É um funcionário “tão afeiçoado a instrumentos bélicos que não podia suportar a simples idéia de que alguém se atrevesse a sabotá-los”.
A cisão vem à tona, áspera ferida, rasgando a precária estabilidade da vida de Artur Semedo. Nesse momento, o personagem de José Saramago se aproxima do humano. Toma a sabotagem como uma ofensa pessoal. Isso se mistura à misericórdia pelos operários. Semedo descobre, nesse momento, que tem dois corações, e pior: que eles, em vez de se complementarem, se negam e repudiam. Também o leitor de Saramago — eu mesmo — nesse momento se vê diante de um impasse. Já não pode se identificar com o personagem, porque não sabe, ao certo, quem ele é. Não pode negá-lo — porque, provavelmente, com ele divide sentimentos parecidos. Mas não pode nele se espelhar — porque a imagem em que se reflete vem despedaçada.
“O sentir humano é uma espécie de caleidoscópio instável”, relata Saramago. “A realidade do que aconteceu na cabeça de Artur Paz Semedo foi diferente, a comiseração, a falta de piedade e a irritação, ainda que centradas em si mesmas, tinham aparecido misturadas”. Alguém se torna humano não quando corresponde, ponto a ponto, aos modelos “naturais”, mas, ao contrário, quando deles se desvia. O caleidoscópio — artefato óptico em que o jogo de imagens se produz por reflexo — resume, de modo preciso, mas ameaçador, a mente humana. A turbulência dos sentimentos o engolfa. “Foram eles que levaram Artur Paz Semedo a não continuar a ler o livro de Malraux”. De nada serve ler ingenuamente. Há sempre o momento em que tropeçamos em um impasse. Momento em que toda esperança de explicação e ordem se desfaz.
O próprio Semedo se encarrega de telefonar para a mulher para admitir que está “com o espírito confuso”. Recorda, então, que, já perto do fim do livro de Malraux, há uma referência a uns operários que foram fuzilados em Milão por terem sabotado obuses. Comenta Felícia que foi um ato justo, “já que estavam contra a guerra”. Com o interior aos frangalhos, Semedo, ainda assim, reage. A mulher reclama de sua “falsa virtude ofendida”. Ele rebate dizendo que “o que faço é defender o meu trabalho”. Não é fácil para um homem admitir que faz aquilo que, embora se orgulhe, também o repugna. Semedo está em um impasse: é contra o fuzilamento, mas também contra a sabotagem. A incoerência de seus pensamentos o asfixia.
Livros são iscas — e, nesse ponto, evocam a realidade, que sempre nos encosta contra a parede. Lembro-me do dia em que Saramago me acompanhou em um passeio pelo parque dos vulcões de Timanfaya, no coração da ilha de Lanzarote, Canárias, onde vivia. O parque, com seu terreno ressecado e cinzento, evoca a face da Lua. Mas não de um satélite morto como o nosso, e sim de uma Lua viva, sobre a qual ardem milhares de pequenos vulcões. Turistas usam algumas dessas bocas de fogo para assar seus churrascos. O ato, banal, não serve para esconder o horror que nelas se guarda. Saramago me disse: “o sentimento mais forte nesse parque é a estranheza”. De fato, a mistura de relaxamento e medo, de acolhimento e ataque, essa incompatibilidade de sensações, é algo inesquecível. Nela o parque se afirma. Ali o real expõe, enfim, sua ferida. Da brutalidade — uma terra em fogo — tira-se não o horror, mas o prazer. E, contudo, a ilha queima e lateja. Aquilo não é só uma ficção.
Também as narrativas, como os escritores, chegam a um momento em que o impasse formal se cristaliza em subjetividade. Em uma antiga entrevista a Ángel Crespo, Saramago nos diz: “O que ocorre é que, talvez, há um momento chave no qual o sujeito se aceita a si mesmo”. E mais para frente, recordando o momento em que se encontrou como escritor: “Eu me dei conta de que o melhor para mim era ser o que era. Foi quando aceitei meus limites, todos os meus limites, e quando compreendi que a única solução que me restava era me aprofundar no espaço de meus limites, e não pensar em ir além”. O ser é não uma soma — uma síntese —, mas, ao contrário, a cristalização de um paradoxo. Não se trata, portanto, de um momento de solução — talvez, ao contrário, seja um momento de dissolução. Decomposição de ideais e de projetos de perfeição. É um momento que também o leitor, desamparado, experimenta. Nele, os sentimentos, em vez de clarear, se obscurecem. As partes, em vez de se completarem, entram em conflito. E o personagem, enfim, deixa de ser uma síntese morta para se tornar vivo."
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Recuperação da entrevista ao "SinEmbargo" do México "Pilar del Río habla de Saramago y del “horror” por los desaparecidos" - (07/12/2014)
Recuperação da entrevista ao "SinEmbargo" do México "Pilar del Río habla de Saramago y del “horror” por los desaparecidos" - (07/12/2014)
Trabalho de Mónica Maristain, pode ser consultado e lido, aqui
em http://www.sinembargo.mx/07-12-2014/1184977
–En este contexto presentas la última novela de José. ¿Cuándo la leíste?
–La iba leyendo mientras la iba escribiendo. Luego de que él murió tardé mucho tiempo en retomarla, me daba prurito, era casi como una intromisión.
–¿Estaba acordado con él que iba a salir Alabardas?
–No. Él murió en junio y en agosto tuvimos una reunión en Lanzarote con todos sus editores y ahí acordamos sacarla, sin prisa. La verdad es que no teníamos prisa. La hemos sacado ahora porque estamos en el centenario de la Segunda Guerra Mundial y esta es una novela cuya acción transcurre en una empresa de armas que existen en México, que existen en otros países y con las que convivimos a diario como si fabricaran golosinas o jabones. Como si fueran una pastelería cuando en realidad son empresas que fabrican máquinas para matar.
–¿Qué aporta la novela de Saramago a este contexto de mundo donde la gente está más preocupada en armarse que en vivir?
–Saramago decía que no había que volver al individualismo, pero sí que había que volver al individuo, destacar la importancia del ser humano. Nosotros sabemos que hay fábricas que hacen armas, que se fabrican armas bajo una cortina legal, que hay trabajadores abocados a la tarea de que esa arma que va a matar al prójimo quede perfecta, sea eficaz. Convivimos a diario con las armas y sólo cuando nos afecta a nosotros nos extrañamos de esa situación. Los mayores conflictos no están representados por las luchas armadas en distintas partes del mundo sino por la muerte individual. ¿Qué podemos hacer ante eso? Creo que necesitamos un stop ya. Frenar. Habrá que buscar otra forma de gobierno y de defensa, pero hay que parar con el armamentismo ya. No podemos volver a la ley de la selva porque nos falta un paso para llegar a la horda.
–La novela llega entonces en el momento adecuado
–Sí. José Saramago tenía esa misión. En el mundo desarrollado, cuando todos parecían felices, él publica Ensayo sobre la ceguera. Publicó Ensayo sobre la lucidez cuando hacía falta reforzar el poder ciudadano.
Trabalho de Mónica Maristain, pode ser consultado e lido, aqui
em http://www.sinembargo.mx/07-12-2014/1184977
(La periodista española, esposa de José Saramago,
visita todos los años la FIL Guadalajara. Foto: FIL)
"Guadalajara, Jalisco (SinEmbargo).– No hacía falta ningún pretexto para que la periodista española Pilar del Río expresara abiertamente su solidaridad con los estudiantes desaparecidos de la escuela Normal Rural de Ayotzinapa, pero la presentación del libro póstumo de su marido José Saramago (1922-2010) fue un ámbito ideal para ello.
Acompañada por la periodista y activista mexicana Lydia Cacho y por la escritora argentina Claudia Piñero, Del Río se refirió a Alabardas, el último regalo del Nobel portugués, inspirado en una anécdota de la Guerra Civil española, cuando una bomba que cayó en Extremadura, en lugar de explotar dejó ver una leyenda que decía “esta bomba no matará a nadie”.
El explosivo había sido “intervenido” por la Resistencia y su historia dio origen al último libro de Saramago, un tratado antiarmas que resulta muy oportuno para el difícil momento político y social que atraviesa nuestro país y que fue presentado este miércoles en la 28 Feria Internacional del Libro en Guadalajara que transcurre aquí hasta el próximo 7 de diciembre.
Alabardas es un libro inconcluso. Está integrado por 20 cuartillas ordenadas por el propio escritor y se completa con textos de Roberto Saviano y Fernando Gómez Aguilera e ilustraciones de Günter Grass. En él, el autor portugués de Memorial del convento y Ensayo sobre la ceguera, entre otros, expresa “su coherencia literaria e ideológica. Está su prosa exquisita, su ideología y en el apartado de notas puedes ver cómo fue construyendo el libro. Es toda una clase de escritura”, según Piñeiro.
“Queda la sensación de que este libro llega inacabado para que nosotros lo terminemos. Vivimos en un momento en el que el gobierno parece empeñado en instalar el miedo. Tendremos que escribir la segunda parte y entregársela a Pilar”, dijo a su tiempo Lydia Cacho.
“ Nos dicen que las armas vienen de Estados Unidos, pero los que estamos investigando por todo el país sabemos que hay armas hechas en Brasil. Es necesario que discutamos lo que estamos haciendo en Latinoamérica con este tema”, agregó la autora de Los demonios del edén.
En la novela, Arthur Paz Semedo descubre una caja de la que es imposible saber qué contiene porque Saramago murió. A partir de este hecho, Claudia Piñeiro leyó un texto en el que creó un paralelismo entre el personaje y los normalistas desaparecidos en Iguala, Guerrero.
“Así como no podemos saber qué contenía la caja porque la muerte sorprendió a Saramago, tampoco podemos saber qué tipo de maestros hubieran sido esos normalistas porque los desaparecieron. No digo la muerte porque vivos se los llevaron y vivos los queremos”, afirmó la autora de Betibú.
La escritora anunció además que la delegación de escritores argentinos había firmado un comunicado en solidaridad con las familias de Ayotzinapa “porque nos parece imposible estar acá y no opinar. Sabemos que hay una ley mexicana que prohíbe que los extranjeros opinen sobre los temas nacionales, pero no nos van a poder llevar a la cárcel porque tantos argentinos juntos en un mismo lugar nadie los soporta”, bromeó, para luego agregar más seria que “la literatura nos hermana, sobre todo en este tema que nos es tan cercano”.
Ya en entrevista con SinEmbargo, Pilar del Río mostró su “nostalgia y satisfacción” porque pese “a que ya no están las figuras tutelares”, ha disfrutado mucho esta edición donde presentó el libro póstumo de José Saramago.
“He visto mucha complicidad entre los autores. No conozco cómo va la parte de los negocios, pero vi a mucha gente en los salones y sobre todo he visto una gran necesidad de la gente para festejarse entre sí. Supongo que tiene que ver con la situación que estamos viviendo en el mundo. Si encontramos una ocasión de ser felices, ¿por qué la vamos a desaprovechar?”, se Del Río en forma retórica.
–José Saramago hubiera sido el primero en manifestarse en solidaridad con los 43 estudiantes desaparecidos, ¿verdad?
–Pues, es muy difícil decir lo que hubiera hecho una persona que ya no está, pero sí podemos ver lo que ha hecho. Él vino a Acteal desde Lanzarote, España, para estar con los sobrevivientes de aquella masacre. Fue a Palestina cuando Ramala estaba rodeado. Fue a Timor cuando Indonesia había rodeado a los habitantes descendientes de portugueses, aunque no sólo a ellos; estuvo con los saharauis… Creo que Saramago estaba con las personas que buscaban la autonomía, la independencia, con los que no querían ser tutelados y, por supuesto, condenaba la violencia.
–¿Qué le daba a él este instinto para estar siempre del lado correcto, por decirlo así?
–Me parece que siempre supo distinguir muy bien quién era su gente y quién no. Solía decir que no conocía los entresijos del poder ni el poder en sí. Sin embargo, en los ’80 escribió un libro como Levantado del suelo (Relata la historia del pueblo de Lavre en el Alentejo portugués desde 1910 hasta 1979, incluyendo la Revolución de los Claveles el 25 de abril de 1974). Y siempre escribió sobre hombres y mujeres que buscaron ser ellos mismos en su memoria, en su identidad, desde la libertad usando la razón y la conciencia.
–Eso te unió mucho a él, ¿verdad? Tú eres alguien muy interesado también en luchas sociales…
–Bueno, nos conocimos porque a mí sus libros me resultaron como un mazazo en la conciencia. Independientemente de hacerme más lectora, no podía entender que se escribiera de esa manera, tan absolutamente deslumbrante, y luego con tanta compasión, tanta belleza y una visión de la historia que compartía. Eso es lo que me llevó a él.
–¿Qué te despierta la situación que se vive en México?
–Primero el horror por los 43 estudiantes desaparecidos, pero después el horror por la cantidad de fosas comunes llenas de cadáveres de personas cuyas desapariciones no fueron denunciadas. No son 43, ni mil, son 100 mil, 150 mil, y eso me aterra. Me resuena el grito de Elena Poniatowska en el sentido de qué se puede esperar de un país que siempre cadáveres por todo su territorio. Si siembras cadáveres recogerás muerte. José Saramago, en una situación similar en Colombia, dijo que Colombia tenía que vomitar a sus , porque si ellos no sabían por qué habían muerto nosotros teníamos que saber por qué habían vivido y por qué habían sido asesinados. Cuáles eran sus nombres, sus señas de identidad. ¿Cómo es posible que un país tan culto como México permita esto?–En este contexto presentas la última novela de José. ¿Cuándo la leíste?
–La iba leyendo mientras la iba escribiendo. Luego de que él murió tardé mucho tiempo en retomarla, me daba prurito, era casi como una intromisión.
–¿Estaba acordado con él que iba a salir Alabardas?
–No. Él murió en junio y en agosto tuvimos una reunión en Lanzarote con todos sus editores y ahí acordamos sacarla, sin prisa. La verdad es que no teníamos prisa. La hemos sacado ahora porque estamos en el centenario de la Segunda Guerra Mundial y esta es una novela cuya acción transcurre en una empresa de armas que existen en México, que existen en otros países y con las que convivimos a diario como si fabricaran golosinas o jabones. Como si fueran una pastelería cuando en realidad son empresas que fabrican máquinas para matar.
–¿Qué aporta la novela de Saramago a este contexto de mundo donde la gente está más preocupada en armarse que en vivir?
–Saramago decía que no había que volver al individualismo, pero sí que había que volver al individuo, destacar la importancia del ser humano. Nosotros sabemos que hay fábricas que hacen armas, que se fabrican armas bajo una cortina legal, que hay trabajadores abocados a la tarea de que esa arma que va a matar al prójimo quede perfecta, sea eficaz. Convivimos a diario con las armas y sólo cuando nos afecta a nosotros nos extrañamos de esa situación. Los mayores conflictos no están representados por las luchas armadas en distintas partes del mundo sino por la muerte individual. ¿Qué podemos hacer ante eso? Creo que necesitamos un stop ya. Frenar. Habrá que buscar otra forma de gobierno y de defensa, pero hay que parar con el armamentismo ya. No podemos volver a la ley de la selva porque nos falta un paso para llegar a la horda.
–La novela llega entonces en el momento adecuado
–Sí. José Saramago tenía esa misión. En el mundo desarrollado, cuando todos parecían felices, él publica Ensayo sobre la ceguera. Publicó Ensayo sobre la lucidez cuando hacía falta reforzar el poder ciudadano.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
"Alabardas, la novela inconclusa de José Saramago" de Antonio Arenas Berrío (Revista Cronopio)
Este artigo foi publicado na página do Facebook da Fundação José Saramago
Pode ser consultado, aqui
em https://www.facebook.com/fjsaramago?fref=nf
Artigo original, aqui
em http://www.revistacronopio.com/?p=16373
Leer hoy esta ficción, Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, no es más que un pliegue en la existencia humana. Es una búsqueda de un sosiego imposible o inalcanzable en esta sociedad inicua y desigual. Para aquellos que nos hablen de guerras o de armas, hay que decirles que se mantienen en el fracaso ético de la humanidad, ya que la paz podría ser un camino posible para romper la esfera de la violencia.Al leer la novela la encontramos inconclusa, y el lector solo encontrará tres capítulos terminados donde los personajes están bien definidos, sobre todo Artur y Felícia, el consejero (ingeniero) su padre, la secretaria, Sesinando, Arsénico, son un agregado a la trama de la novela. El primer capítulo describe a los dos personajes y sus caracteres, las tonterías bélicas de Artur, su pasión por las películas de guerra, el servilismo, su idiotez, y las insistencias de Felícia, para que investigue en «las profundidades del archivo» de la fábrica.La petición de Felicia a su marido es clara : «Que investigues en los archivos de la empresa si en los años treinta y seis y el treinta y nueve fueron vendidas armas a los fascistas por producciones Belona S.A». El segundo capítulo de la novela trata sobre el servilismo y el estudio a profundidad que se realizará en los archivos y el interés especial por los años treinta. El tercer capítulo, es la fábrica, el edificio y su especial descripción y el solemne momento de la autorización para la investigación…
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"Es posible, quién sabe, que quizá pueda escribir otro libro" - Saramago
Para mi madre Irene
José Saramago como novelista no necesita presentación alguna, él es, en el sentir de algunos críticos, un genio de la literatura del siglo XX, donde la conciencia estética y la ética son el centro de su arte. Saramago siempre juzgó mal la indolencia y la apatía moral de la gente. Por eso dijo: «Me he dado cuenta, en los últimos años, que estoy buscando una formulación ética: quiero expresar, a través de mis libros, un sentimiento ético de la existencia y quiero expresarlo literariamente». Entre todas las obras de Saramago, son respetables sobre todo: El año de la muerte de Ricardo Reis, El evangelio según Jesucristo, Ensayo sobre la ceguera, Todos los nombres, La caverna, Ensayo sobre la lucidez, Las intermitencias de la muerte, Caín, El viaje del elefante, Manual de caligrafía y pintura, y su última novela inconclusa, Alabardas. Ahora bien, quien quiera formarse una opinión realmente especializada deberá estudiar su obra. En la conciencia del escritor existe la experiencia ética que es el ejemplo de toda experiencia humana. Para Saramago, la novela es un ejercicio intelectual y un vehículo para reflexionar y pensar. Saramago, al igual que el filósofo Spinoza, buscó una formulación de una ética y trató de expresar a través de sus novelas el sentimiento profundo de la existencia e igualmente pretendió edificar sobre la banalidad del mal y denunciar sobre todo la irracionalidad y la deshumanización que azotan el mundo y nublan nuestro destino.
En el ensayo sobre la Ceguera describe con plasticidad el asunto de la irracionalidad y en El ensayo sobre la Lucidez, muestra los extravíos de la democracia. No obstante, Saramago expresó alguna vez que escribía porque tenía ideas y las ideas le aparecían cuando le eran necesarias e indispensables para expresar ciertos puntos críticos sobre la vida y los sentimientos de los seres humanos. Meses antes de su muerte le surgió una idea que le permitió reflexionar sobre la guerra y la violencia que se ejerce sobre las personas y las sociedades. «Una antigua preocupación (por qué nunca se ha producido una huelga en una fábrica de armas) ha dado paso a una idea complementaria que, precisamente, permitirá el tratamiento novelado del asunto». Una idea sobre la industria de las armas y de la responsabilidad de los individuos frente a la violencia y la destrucción. La literatura sirve para deliberar, ella registra un trozo de la vida que se manifiesta a sí misma, la literatura se utiliza para tener pensamientos diversos.
En la novela Alabardas, una novela incompleta, se señala el conflicto ético de Artur Paz Semedo, que no es más que un burócrata débil, admirador de las armas bélicas y adulador de su jefe, que sufre un gran delirio por las películas de guerra. Felícia (Berta) es una nueva imagen femenina de la paz. Ella lo incita a que investigue sobre el sabotaje de una bomba durante la guerra civil española. Artur investigará sobre los oscuros enredos de una época trémula, pero además, lo hará con miedo, acatamiento y obcecación. La falta de responsabilidad ética, frente a la actuación de la compañía en la guerra y la venta de armas sería su peso y su mordedura de consciencia.
Porque «la pesquisa a fondo se centraría en las relaciones que producciones Belona S.A, había mantenido en las guerras acontecidas en la década de los treinta del pasado siglo». Guerras inútiles y apoyadas por los fascistas. La novela Alabardas, que inicialmente se llamó Belona, es una narración que recuerda la guerra de los años treinta. Luego la novela se llamó Belona S.A, que nos da la idea de una compañía o fábrica de armas, mas pronto se volvió a cambiar de titulo por Productos Belona S.A, que proporcionaba la idea de una fábrica de productos agrícolas y aparatos sofisticados de guerra. El último cambio finalmente bueno, fue Alabardas, Alabardas, espingardas, espingardadas que proporciona el sentido de lanzas y armas de fuego, sacado de la tragicomedia de Vicente Gil. «Exortaçao da guerra».
La apuesta de Saramago, era construir una historia humana creíble, donde a través de dos personajes antagónicos, Felícia y Artur Paz Semedo, se recapacitara y se planteara un compromiso moral sobre la guerra y el negocio lucrativo de las armas en el mundo. Obreros, sabotaje, fusilamientos, son los elementos claves de esta novela imperfecta y de solo tres capítulos. Saramago, se plantea la idea de si es improbable pensar si los artefactos bélicos puedan ser objeto de sabotaje en una fábrica de armas. ¿Es posible una huelga en una fábrica de armas y por qué no se sabe nada de esto? En la novela se reflexiona sobre el disparate y la deshumanización de los individuos, puesto que su personaje, Artur, señala que: «Desde el principio del mundo había armas y por eso no moría mas gente, morían quienes debían morir, nada más». Adviértase aquí la ironía del asunto y la idoneidad frente a las armas y los muertos. Morían quienes debían morir, lo demás no importa, lo fundamental es el negocio de las armas, no interesan los muertos sino las ganancias que estas armas producen.
También, aparece en la ficción una bella perla sobre la bomba nuclear, veamos: «Una bomba nuclear por lo menos tiene la ventaja de abreviar un conflicto que de otra manera se podría arrastrar indefinidamente, como sucedió antiguamente, en la guerra de los treinta años y en la otra de los cien, cuando ya nadie esperaba que alguna vez pudiera instaurarse la paz». Semejante exabrupto no cabe sino en la mentalidad de los comerciantes de armas, la irracionalidad llega a tal punto que la bomba nuclear solo sirve para abreviar el conflicto, no cuenta el desastre, la destrucción, ni la pérdida de vidas humanas. Lo inadmisible llega a su punto más alto, que la ética personal se pierde y el mundo entra en caos. Saramago creía que no se podía renunciar al pensamiento, a las ideas y a una existencia ética porque: «Si la ética no gobierna la razón, la razón despreciará a la ética». Problema esencial para toda la sociedad y los individuos frente a los grandes conflictos bélicos. No pensar la guerra, no cuestionar a los gobiernos y a los comerciantes de armas, ni discutir la guerra se constituye en la mayor perturbación del ser humano. Toda guerra está sujeta al tiempo y a los intereses de unos pocos y a las descomunales ganancias económicas de los más ricos y poderosos del mundo. Las personas ante la guerra no son más que unos parias, desplazados o exiliados. La guerra puede ser la peor peste de la humanidad. En las guerras quienes pierden son los niños, las niñas, las mujeres y los ancianos. La ficción última Alabardas de Saramago, es una evasiva, una destreza literaria para meditar sobre las armas y el negocio lucrativo de los aparatos bélicos.
La guerra se cristaliza en una complicada situación que supone cierta complejidad para las personas, porque la desorientación y la violencia se trenzan hasta el punto de resultar insuperables. Violencia, destrucción, muerte, es lo que queda después de una guerra.
Leer hoy esta ficción, Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, no es más que un pliegue en la existencia humana. Es una búsqueda de un sosiego imposible o inalcanzable en esta sociedad inicua y desigual. Para aquellos que nos hablen de guerras o de armas, hay que decirles que se mantienen en el fracaso ético de la humanidad, ya que la paz podría ser un camino posible para romper la esfera de la violencia.Al leer la novela la encontramos inconclusa, y el lector solo encontrará tres capítulos terminados donde los personajes están bien definidos, sobre todo Artur y Felícia, el consejero (ingeniero) su padre, la secretaria, Sesinando, Arsénico, son un agregado a la trama de la novela. El primer capítulo describe a los dos personajes y sus caracteres, las tonterías bélicas de Artur, su pasión por las películas de guerra, el servilismo, su idiotez, y las insistencias de Felícia, para que investigue en «las profundidades del archivo» de la fábrica.La petición de Felicia a su marido es clara : «Que investigues en los archivos de la empresa si en los años treinta y seis y el treinta y nueve fueron vendidas armas a los fascistas por producciones Belona S.A». El segundo capítulo de la novela trata sobre el servilismo y el estudio a profundidad que se realizará en los archivos y el interés especial por los años treinta. El tercer capítulo, es la fábrica, el edificio y su especial descripción y el solemne momento de la autorización para la investigación…
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Post "Armas.... Alabardas..." no livro/Blog "O Caderno 2" (26/05/2009)
O presente post pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/43247.html
Sinopse da obra inacabada "Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas"
Via Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/alabardas-alabardas-espingardas-espingardas/
"Armas"
em http://caderno.josesaramago.org/43247.html
(Montagem cénica)
Sinopse da obra inacabada "Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas"
Via Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/alabardas-alabardas-espingardas-espingardas/
"Aquando do seu falecimento, em 2010, José Saramago deixou escritas trinta páginas daquele que seria o seu próximo romance; trinta páginas onde estava já esboçado o fio argumental, perfilados os dois protagonistas e, sobretudo, colocadas as perguntas que interessavam à sua permanente e comprometida vocação de agitar consciências.Saramago escreve a história de Artur Paz Semedo, um homem fascinado por peças de artilharia, empregado numa fábrica de armamento, que leva a cabo uma investigação na sua própria empresa, incitado pela ex-mulher, uma mulher com carácter, pacifista e inteligente. A evolução do pensamento do protagonista permite-nos refletir sobre o lado mais sujo da política internacional, um mundo de interesses ocultos que subjaz à maior parte dos conflitos bélicos do século xx. Dois outros textos – de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano – situam e comentam as últimas palavras do Prémio Nobel português, cuja força as ilustrações de um outro Nobel, Günter Grass, sublinham.
2014 (com textos de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano, capa e ilustrações de Günter Grass)"
(Ilustração da obra mencionada)
"Armas"
"O negócio das armas, sujeito à legalidade mais ou menos flexível de cada país ou de simples e descarado contrabando, não está em crise. Quer dizer, a tão falada e sofrida crise que vem destroçando física e moralmente a população do planeta não toca a todos. Por toda a parte, aqui, além, os sem trabalho contam-se por milhões, todos os dias milhares de empresas declaram-se em falência e fecham as portas, mas não consta que um único operário de uma fábrica de armamento tenha sido despedido. Trabalhar numa fábrica de armas é um seguro de vida. Já sabemos que os exércitos precisam de armar-se, substituir por armas novas e mais mortíferas (disso se trata) os antigos arsenais que fizeram a sua época mas já não satisfazem as necessidades da vida moderna. Parece portanto evidente que os governos dos países exportadores deveriam controlar severamente a produção e a comercialização das armas que fabricam. Simplesmente, uns não o fazem e outros olham para o lado. Falo de governos porque é difícil crer que, a exemplo das instalações industriais mais ou menos ocultas que abastecem o narcotráfico, existam no mundo fábricas clandestinas de armamento. Logo, não há uma pistola que, por assim dizer, não vá tacitamente certificada pelo respectivo, ainda que invisível, selo oficial. Quando num continente como o sul-americano, por exemplo, se calcula que há mais de 80 milhões de armas, é impossível não pensar na cumplicidade mal disfarçada dos governos, tanto dos exportadores como dos importadores. Que a culpa, pelo menos em parte, é do contrabando em grande escala, diz-se, esquecendo que para fazer contrabando de algo é condição sine qua non que esse algo exista. O nada não é contrabandeável.Toda a vida tenho estado à espera de ver uma greve de braços caídos numa fábrica de armamento, inutilmente esperei, porque tal prodígio nunca aconteceu nem acontecerá. E era essa a minha pobre e única esperança de que a humanidade ainda fosse capaz de mudar de caminho, de rumo, de destino."
(26 de Maio de 2009)
(Ilustração da obra mencionada)
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Resenha da obra "Alabardas, Alabardas, Espingadas, Espingardas" no blog "Literar"
Via página do Facebook da Fundação José Saramago, aqui
em https://www.facebook.com/fjsaramago?fref=nf
Link do blog "Literar" (Brasil), aqui em http://www.literar.com.br/
Link da resenha da obra, via blog "Literar", aqui para consulta e leitura
em http://www.literar.com.br/alabardas-alabardas/
em https://www.facebook.com/fjsaramago?fref=nf
«Uma crítica a "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas" publicada pelo blog Literar, do Brasil: "Pode parecer estranho publicar um livro incompleto, mas essa é justamente a graça de toda a obra de Saramago: o futuro está aí para ser escrito, todos os dias, o tempo todo."»
Link do blog "Literar" (Brasil), aqui em http://www.literar.com.br/
Link da resenha da obra, via blog "Literar", aqui para consulta e leitura
em http://www.literar.com.br/alabardas-alabardas/
«Na minha cabeça, algumas pessoas são imortais. Eu sei, eu sei: a vida tem etapas, e morrer faz parte desse processo natural. Racionalmente, eu sei (mas vai dizer isso para aquela parte de mim que espera que Manuel Bandeira, Ariano Suassuna e Gabriel García Marquez estejam sempre por aqui). Para minha felicidade completa, minha teoria às vezes se prova certa. Mais de três anos após deixar milhares de órfãos pelo mundo, José Saramago volta a bater na minha porta com Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas. O que eu poderia fazer senão tirar a tranca do portão e convidá-lo para um chá com bolachas?
Alabardas, Alabardas… é o último romance escrito por Saramago, com um porém: o escritor se foi antes que pudesse terminá-lo. Na verdade, o que temos nas páginas publicadas pela Companhia das Letras são os três capítulos iniciais da obra, acompanhados de anotações feitas por José sobre o caminho que pretendia seguir daí para frente. Parece pouco, né? E em certo ponto, é mesmo. É pouco porque as palavras de Saramago tem o efeito de te abraçar com força logo nos primeiros parágrafos. Depois de conhecer seus personagens, é difícil aceitar que não vamos acompanhá-los até o final de suas jornadas. Por outro lado, o romance cumpre o papel essencial de um livro: colocar a imaginação para trabalhar a todo vapor. Se não há final, há páginas e páginas em branco para que novos destinos surjam na cabeça de quem lê.
O livro nos introduz a Artur Paz Semedo, trabalhador de uma indústria armamentista e defensor da arte da guerra, e sua ex-mulher Felícia, uma pacifista convicta que acabou rompendo seu casamento por não acreditar na ideologia do marido. Em um livro sobre a Guerra Civil Espanhola, Artur lê um trecho que lhe chama a atenção: em determinado local, funcionários do setor de armas sabotaram materiais que seriam usados na guerra. Impulsionado por esse fato, ele decide pesquisar, dentro da empresa que trabalha, os históricos referentes a essa época e tentar descobrir se algo similar se passou também por lá.
Além dos três capítulos, o livro traz ilustrações incríveis de Günter Grass, alemão ganhador do Nobel de literatura, e três ensaios sobre a obra de Saramago. Escritos por Fernando Gómez Aguilera, Luiz Eduardo Soares e Roberto Saviano, os textos formam um complemento importante para entender a importância dessas últimas páginas de um dos maiores escritores que o mundo conheceu. Pode parecer estranho publicar um livro incompleto, mas essa é justamente a graça de toda a obra de Saramago: o futuro está aí para ser escrito, todos os dias, o tempo todo.
Se eu precisasse tirar uma única lição de toda a obra de José Saramago, seria: o mundo é feito de pessoas. Pessoas que pensam, se relacionam e comunicam. Pessoas que não tem ideia de todo o potencial que se esconde por trás de seus dia-a-dia monótonos. Pessoas que desconhecem a mágica por trás de suas histórias mundanas e seus relacionamentos. Por isso, não, eu não acho estranho ler seu último livro e nunca saber como ele termina. Afinal, Saramago me ensinou a ver além, a enxergar mais do que se vê.
Com Alabardas, Alabardas… Saramago entrou na minha casa, deixou o casaco no cabineiro, provou do chá e pediu por uma colher de açúcar, mas teve que ir embora antes dos biscoitos saírem do forno. Fica tranquilo, Saramago, seu lugar na mesa vai estar sempre separado – e eu mando fazer um pacote especial com as guloseimas ainda quentinhas. Palavra de amigo. ;)»
Luiz Marcatto
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domingo, 10 de maio de 2015
"O último tiro" publicado em "Rascunho jornal de literatura do Brasil" sobre a obra "Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas"
"O último tiro" de Ovídio Poli Junior
Pode ser consultado e lido, aqui
em http://rascunho.gazetadopovo.com.br/o-ultimo-tiro/
Pode ser consultado e lido, aqui
em http://rascunho.gazetadopovo.com.br/o-ultimo-tiro/
"Em seu inacabado e póstumo romance,
José Saramago combate o universo sombrio da indústria armamentista"
"O silêncio é a mais poderosa das armas, parece insinuar o narrador criado por José Saramago a propósito de Felícia, ativista com ideais pacifistas e ex-mulher de Artur Paz Semedo, funcionário de uma indústria de armas. Esse é o núcleo em torno do qual o autor constrói a última narrativa que nos deixou — Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas.
Artur Paz Semedo é um homem comum, cumpridor de suas obrigações na chefia do setor de contabilidade de armas leves e munições da Belona S. A. Igual a meu pai, que foi contador em uma pequena indústria têxtil, ele passa os dias encenando a rotina universal da profissão: a organização meticulosa, o cálculo das faturas, a precisão dos apontamentos, o rame-rame dos papéis, a regularidade dos registros, a segurança fria e confortável proporcionada pelos números.
O protagonista é uma espécie de Bartleby, o escrivão de Herman Melville, só que possuidor de alguma determinação e iniciativa. Não questiona os seus superiores e tem certo orgulho do renome da empresa e de trabalhar em seu ofício. É discretamente ambicioso e sonha em chefiar o setor de armamentos pesados da empresa:
Os efeitos psicológicos desta entranhada e não satisfeita ambição intensificam-se até à ansiedade nas ocasiões em que a administração da fábrica apresenta novos modelos e leva os empregados a visitar o campo de provas, herança de uma época em que o alcance das armas era muito menor e agora impraticável para qualquer exercício de tiro. Contemplar aquelas reluzentes peças de artilharia de variados calibres, aqueles canhões antiaéreos, aquelas metralhadoras pesadas, aqueles morteiros de goela aberta para o céu, aqueles torpedos, aquelas cargas de profundidade, aquelas lançadeiras de mísseis (…), era o maior prazer que a vida lhe podia oferecer.
Em seu último romance, inacabado e publicado postumamente, Saramago nos leva a refletir sobre os descaminhos do mundo moderno escarafunchando o universo sombrio da indústria armamentista. Mais que isso, nos leva a refletir sobre a microfísica do poder, o dever de consciência escondido sob a capa da indiferença e do conformismo burocrático.
O título da obra, extraído de uma tragicomédia de Gil Vicente (Exortação da guerra), soa como uma espécie de reverberação a demarcar a insistência humana na destruição sempre renovada dos semelhantes e na construção de instrumentos letais: alabardas, alabardas, espingardas, espingardas. Soa também de forma irônica, pois sabemos que nas guerras modernas não se matam homens como antigamente, os mísseis e obuses tornando a morte cada vez mais distante e impessoal, quase científica em sua pretensão cirúrgica.
Indústria da morte
Nos três capítulos que Saramago nos deixou, não há cenas de combate e a guerra não aparece em sua face mais cruel. O que o escritor quer mostrar são os bastidores dessa indústria da morte, ou, mais precisamente, a responsabilidade humana no interior desse universo: o administrador que herdou o empreendimento familiar, a secretária que de forma calculada estende o tempo de espera dos que procuram a direção da empresa, os funcionários do arquivo vivendo como toupeiras nos subterrâneos da Belona S. A.
Mais que isso, Saramago mostra como os personagens se desvencilham dos dramas de consciência que o seu trabalho poderia desencadear. A naturalidade desse processo é aterradora: “Nada que outra pessoa não pudesse fazer”, diz Artur Paz Semedo ao administrador. É nesse terreno insípido que nasce a indiferença e se assentam os pilares sobre os quais o nazismo, o fascismo, o stalinismo e as ditaduras de toda espécie se sustentam.
Contra esse silêncio se insurge Saramago em seu derradeiro escrito, a palavra e o pensamento fazendo frente à barbárie perpetrada pelas guerras. A certa altura da narrativa, incomodado ao assistir a um filme dos anos 30 e saber que operários de Milão haviam sido fuzilados por terem sabotado obuses, Artur Paz Semedo é autorizado a investigar os arquivos da Belona S. A. relativos ao período da guerra civil espanhola.
Vale destacar a forma pela qual o narrador retrata os subterrâneos em que se localiza o arquivo da fábrica onde está enterrado o passado ignoto da empresa. É magistral a caracterização dos personagens que vivem na cave: Arsénio e Sesinando, chefe e assistente, passam os dias em meio a prateleiras carregadas de caixas de papelão cultivando uma relação de distanciamento respeitoso, feito de pequenos gestos e códigos, vicejando entre os dois uma fina e precisa hierarquia, sempre presente, minúscula, indelével. Saramago parece pagar um tributo a Kafka nesse capítulo, compondo um cenário a um só tempo sufocante e respeitoso não bastasse o jogo onomástico contido na designação do chefe da seção (arsênio | arsenal).
Há no livro algumas anotações de trabalho feitas por Saramago durante a escritura da narrativa, que indicam possíveis caminhos para a trama. Como se trata de obra inconclusa, ficamos a nos perguntar se o personagem ficará ou não angustiado ao questionar a finalidade dos artefatos produzidos pela fábrica, se sofrerá consequências ao tomar contato com alguma informação mais contundente que comprometa a empresa ou seus dirigentes ou se vai aquietar-se diante daquilo que porventura descobrir.
O livro vem acompanhado de três ensaios que abordam aspectos da narrativa interrompida e da obra de Saramago.
O primeiro ensaio, do escritor espanhol Fernando Gómez Aguilera, explora a habilidade do autor português em refletir sobre a banalização do mal.
O escritor e jornalista italiano Roberto Saviano (autor de Gomorra) explora correlações entre a encruzilhada em que parece meter-se o pacato personagem de Saramago e casos de perseguição a jornalistas em várias partes do mundo por investigarem o tráfico de drogas e o comércio de armas.
Já o antropólogo e cientista político brasileiro Luiz Eduardo Soares mostra como a interrupção da redação da narrativa pela morte do autor instaura uma espécie de jogo de espelhos durante a leitura:
Eis o autor diante de nós, imprescindível, evocando, involuntariamente, sua falta por meio do narrador que se esquiva, mas acena e promete, e de novo põe-se a retirar-se, estendendo ainda um pouco o fio de voz, numa emocionante e hipnótica coreografia em espiral, até o abismo.
As ilustrações são do escritor Günter Graas e foram extraídas de uma obra publicada em 2013 na Alemanha — os traços negros e cinzas instauram um diálogo intenso com a narrativa, a paisagem sombria e desolada devastada pela guerra.
Ao que parece as gravuras do romancista alemão não foram feitas especialmente para o livro, mas isso não tem importância: poderiam muito bem retratar o morticínio atual em que o mundo se lança na África, no Oriente Médio e em outras latitudes."
"Ovídio Poli Junior, é escritor e doutor em literatura brasileira pela USP. Ministra oficinas de criação literária e mora em Paraty (RJ). É curador da Off Flip das Letras e editor do Selo Off Flip."
segunda-feira, 13 de abril de 2015
No dia da morte de Gunter Grass, fica a memória das imagens e palavras...
Günter Grass, cujo último trabalho foi provavelmente
a colaboração com a edição de "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas",
num manifesto pela paz, morreu hoje aos 87 anos.
As suas palavras, as suas imagens continuam vivas!
(Mensagem de homenagem publicada pela Fundação José Saramago)
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Das "Armas" em "O Caderno 2" (26/05/2009), até às "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas"
A 26 de Maio de 2009, José Saramago apresenta no seu blog, o texto "Armas", cuja inserção no livro "O Caderno 2", acontece com a compilação de todos os "posts", compreendidos entre Setembro de 2008 e Novembro de 2009.
Este texto - "Armas" - será a demonstração de um pensamento crítico e constante, que antecedeu a "fermentação" da ideia na qual surgiria a obra inacabada "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas".
As fábricas em laboração contínua, as negociatas com as convenientes complacências dos "estados e seus governantes"... quem se indigna é porque não suporta, seguramente viverá agoniado, com o triste espectáculo que é este mundo...
(Capa da edição italiana, pela editora Feltrinelli)
Texto publicado no blob/livro "O Caderno 2", pode ser lido e consultado
em http://caderno.josesaramago.org/43247.html
"Armas"
"O negócio das armas, sujeito à legalidade mais ou menos flexível de cada país ou de simples e descarado contrabando, não está em crise. Quer dizer, a tão falada e sofrida crise que vem destroçando física e moralmente a população do planeta não toca a todos. Por toda a parte, aqui, além, os sem trabalho contam-se por milhões, todos os dias milhares de empresas declaram-se em falência e fecham as portas, mas não consta que um único operário de uma fábrica de armamento tenha sido despedido. Trabalhar numa fábrica de armas é um seguro de vida. Já sabemos que os exércitos precisam de armar-se, substituir por armas novas e mais mortíferas (disso se trata) os antigos arsenais que fizeram a sua época mas já não satisfazem as necessidades da vida moderna. Parece portanto evidente que os governos dos países exportadores deveriam controlar severamente a produção e a comercialização das armas que fabricam. Simplesmente, uns não o fazem e outros olham para o lado. Falo de governos porque é difícil crer que, a exemplo das instalações industriais mais ou menos ocultas que abastecem o narcotráfico, existam no mundo fábricas clandestinas de armamento. Logo, não há uma pistola que, por assim dizer, não vá tacitamente certificada pelo respectivo, ainda que invisível, selo oficial. Quando num continente como o sul-americano, por exemplo, se calcula que há mais de 80 milhões de armas, é impossível não pensar na cumplicidade mal disfarçada dos governos, tanto dos exportadores como dos importadores. Que a culpa, pelo menos em parte, é do contrabando em grande escala, diz-se, esquecendo que para fazer contrabando de algo é condição sine qua non que esse algo exista. O nada não é contrabandeável. Toda a vida tenho estado à espera de ver uma greve de braços caídos numa fábrica de armamento, inutilmente esperei, porque tal prodígio nunca aconteceu nem acontecerá. E era essa a minha pobre e única esperança de que a humanidade ainda fosse capaz de mudar de caminho, de rumo, de destino." (26/05/2009)
(Ilustrações de Gunter Grass , Porto Editora, páginas 124/125)
Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas - Porto Editora, 2014
(com textos de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano, capa e ilustrações de Günter Grass)
Sinopse, via página da Fundação José Saramago, para ser consultada,
"Aquando do seu falecimento, em 2010, José Saramago deixou escritas trinta páginas daquele que seria o seu próximo romance; trinta páginas onde estava já esboçado o fio argumental, perfilados os dois protagonistas e, sobretudo, colocadas as perguntas que interessavam à sua permanente e comprometida vocação de agitar consciências.Saramago escreve a história de Artur Paz Semedo, um homem fascinado por peças de artilharia, empregado numa fábrica de armamento, que leva a cabo uma investigação na sua própria empresa, incitado pela ex-mulher, uma mulher com carácter, pacifista e inteligente. A evolução do pensamento do protagonista permite-nos refletir sobre o lado mais sujo da política internacional, um mundo de interesses ocultos que subjaz à maior parte dos conflitos bélicos do século xx. Dois outros textos – de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano – situam e comentam as últimas palavras do Prémio Nobel português, cuja força as ilustrações de um outro Nobel, Günter Grass, sublinham."
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