Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"Os Poemas Possíveis" a lista de poemas inseridos na compilação

Sinopse de apresentação da obra pode ser consultada na página da Fundação José Saramago aqui em http://www.josesaramago.org/os-poemas-possiveis-1966/

"A caligrafia da capa é da autoria do escritor Almeida Faria

«Este mundo não presta, venha outro. / Já por tempo de mais aqui andamos / A fingir de razões suficientes. / Sejamos cães do cão: sabemos tudo / De morder os mais fracos se mandamos, / E de lamber as mãos, se dependentes.»

Na primeira obra poética de José Saramago descobre-se uma poesia de liberdade, de fraternidade e de luta. Uma luta disfarçada, por dentro das palavras. Pelo interior labiríntico de respiração que habitam todos estes poemas, publicados pela primeira vez em 1966. Digamos que eram os «poemas possíveis» da altura, quando a censura espiava a alma dos escritores. E no entanto, as convicções profundas de Saramago já são bem visíveis em poemas como «Criação»: «Deus não existe ainda, nem sei quando / Sequer o esboço, a cor se afirmará / No desenho confuso da passagem / De gerações inúmeras nesta esfera. / Nenhum gesto se perde, nenhum traço, / Que o sentido da vida é este só: / Fazer da Terra um Deus que nos mereça, / E dar ao Universo o Deus que espera.»

Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998"

ATÉ AO SABUGO
Até ao sabugo
Arte poética
Processo
Programa
«Se não tenho outra voz...»
Balança
«Recorto a minha sombra...»
Acidente de viação
Taxidermia, ou poeticamente hipócrita
Signo do Escorpião
No coração, talvez
Dia não
Destino
Ritual
Epitáfio para Luís de Camões
Jogo das forças
Vertigem
Lugar-comum do quadragenário
Outro lugar-comum
Passado, presente, futuro 
Passeio
Psicanálise
Mais psicanálise
«Não diremos mortais palavras...»
Poema seco
Do como e do quando
Fábula do grifo
Meias-solas
Um zumbido, apenas
Ciclo
Circo
Obstinação
«Há-de haver...»
Sala de baile
Oceanografia
Hibernação
«As palavras são novas...»
Questão de palavras
Pequeno cosmos
«De mim à estrela...» 
Retrato do poeta quando jovem
O tanque
Science-fiction I
Science-fiction II
Carta de José a José
Aniversário
Testamento romântico
Premonição

POEMA A BOCA FECHADA
Poema a boca fechada
Os inquiridores
Mãos limpas
Salmo 136
Ouvindo Beethoven
Demissão
Fraternidade
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

MITOLOGIA
Mitologia
Natal
Aprendamos o rito
Criação
Quando os homens morrerem
Aos deuses sem fiéis
«Não das águas do mar...»
A um Cristo velho
Judas
Sé Velha de Coimbra
Nave
«Barro direis que sou...»
Invenção de Marte
«Não há mais horizonte...»

O AMOR DOS OUTROS
Orgulho de D. João no inferno
Lamento de D. João no inferno
Sarcasmo de D. João no inferno
Até ao fim do mundo
Dulcineia
D. Quixote
Sancho
Julieta a Romeu
Romeu a Julieta
West Side Story

NESTA ESQUINA DO TEMPO
Contracanto
Fuzil e pederneira
Enigma
Negócio
Virgindade
Regra
Outono
Adivinha
Receita
«Não me peçam razões...»
«Nesta secreta guerra...»
Craveira
«A ti regresso, mar...»
«Água que à água torna...»
Medusas
História antiga
«Não escrevas poemas de amor»
«Nesta esquina do tempo...»
«De violetas se cobre...»
Labirinto
Espaço curvo e finito
Pesadelo
Afrodite
Estudo de nu
De paz e de guerra
Em violino fado
No silêncio dos olhos
Compensação
Declaração
«Uma só prece...»
Química
Física
Intimidade
Inventário
Praia
Arte de amar
Aspa
Corpo-mundo
Balada
Jogo do lenço
Lembrança de João Roiz de Castel’Branco
Prestidigitação
Analogia
Soneto atrasado
Exercício militar
Opção
Baralho
Exílio
Cantiga de sapo
Outra vez frutos, rosas outra vez
Re-iniciação
Fim e recomeço
Metáfora
Amanhecer
Aproximação
Poente
Integral
Eloquência
«Aprendamos, amor...»
Diz tu por mim, silêncio
«Num repente, não ando...»
Corpo
Caminho
«Ergo uma rosa...»
«Pois o tempo não pára...»
Ainda que seja
Canção

"Nota da 2.ª edição
Aparece esta edição de Os Poemas Possíveis dezasseis anos depois da primeira. Não é assim tanto, comparando com os dezasseis séculos que sinto ter juntado à minha idade de então. Pode-se perguntar se estes versos (palavra hoje pouco usada, mas competente para o caso) merecem segunda oportunidade, ou se a não ficaram devendo a porventura mais cabais demonstrações do autor no território da ficção. Se, enfim, estaremos observando um simples e nada raro fenómeno de aproveitamento editorial, mera estratégia daquilo a que cos tuma chamar-se política de autores, ou se, pelo contrário, foi a constante poética do trabalho deste que legitimou a res suscitação do livro, porque nele teriam começado a definir-se nexos, temas e obsessões que viriam a ser a coluna vertebral, estruturalmente invariável, de um corpo literário em mudança. Aceitemos a última hipótese, única que poderá tornar plausível, primeiro, e justificar, depois, este regresso poético.
Poesia datada? Sem dúvida. Toda a criação cultural há-de ter logo a sua data, a que lhe é imposta pelo tempo que a produz. Mas outras datas leva sempre também, anteriores, as dos materiais herdados — quantas vezes importunamente dominantes —, e, de longe em longe, aquela impalpável data ainda pode vir, aquele sentir, aquele ver e experimentar só futuro ainda. Porém, essas entrevisões são coisa apenas para génios, e, obviamente, não é deles que se trata aqui.
Poesia do dia passado, da hora tarda, poesia não futurante. E contra isto não haveria remédio. Salvo tentar trazê-la até ao seu autor, hoje, por cima de dezasseis anos e dezasseis séculos. Assim foi feito, e esta edição aparece não só revista, mas emendada também. Quase tudo nela é dito de maneira diferente, diferente é muito do que por outra maneira se diz, e não faltaram ocasiões para contrariar radicalmente o que antes fora escrito. Mas nenhum poema foi retirado, nenhum acrescentado.
É então outro!"     


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

"Circo" poema de José Saramago cantado por Fernando Tordo (Os Poemas Possíveis)

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

"Fernando Tordo na Sociedad General de Autores y Editores aquando da edição do disco "Tributo aos Laureados Nobel - Tordo Canta". José Saramago assiste emocionado na plateia. Canção "Circo", poema de José Saramago, arranjos e direcção musical de Josep Mas (Kitflus). Canta Fernando Tordo"

"Circo"
"Poeta não é gente, é bicho coiso 
Que da jaula ou gaiola vadiou 
E anda pelo mundo às cambalhotas, 
Recordadas do circo que inventou. 

Estende no chão a capa que o destapa, 
Faz do peito tambor, e rufa, salta, 
É urso bailarino, mono sábio, 
Ave torta de bico e pernalta 

Ao fim toca a charanga do poema, 
Caixa, fagote, notas arranhadas, 
E porque bicho é, bicho lá fica, 
A cantar às estrelas apagadas."

JOSÉ SARAMAGO 
In, "Os Poemas Possíveis", 1.ª edição de 1966 
1.ª edição da Porto Editora de 2014


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Luis Pastor e Esperanza Fernández interpretam o verso "Nesta esquina do tempo" inserido na obra de José Saramago "Os Poemas Possíveis" (1966)

"Nesta esquina do tempo"
Actuación Homenaje a José Saramago en el Auditorio Pilar Bardem. Rivas Vacíamadrid
Letra: José Saramago. Música: Luis Pastor
Voz: Luis Pastor
Piano: Luis Fernández
Cavaquinho: Sérgio Tannus
Guitarra: Pedro Pastor
Coros: Lourdes Guerra
Pode ser visualizado via Youtube, aqui

"Nesta esquina do tempo"

"Nesta esquina do tempo é que te encontro, 
Ó nocturna ribeira de aguas vivas 
Onde os lírios abertos adormecem 
A mordência das horas corrosivas 

Entre as margens dos braços navegando 
Os olhos nas estrelas do teu peito, 
Dobro a esquina do tempo que ressurge 
Da corrente do corpo em que me deito 

Na secreta matriz que te modela, 
Um peixe de cristal solta delírios 
E como um outro sol paira, brilhando, 
Sobre as águas, as margens e os lírios"

In, "Os Poemas Possíveis", 1966 

Pode ser visualizado via Youtube, aqui

Esperanza Fernández 
Álbum "Mi voz em tu palabra"
"En esta esquina del tiempo"
Música: Luis Pastor. Arreglos Dorantes y poesía de José Saramago.
Grabado en teatro Lope de Vega de Sevilla. 
CD editado por Discmedi 2013 
Canal de Vídeos de Esperanza Fernández


sábado, 3 de setembro de 2016

"Julieta a Romeu" e "Romeu a Julieta" Poemas de José Saramago - "Os Poemas Possíveis"

"Julieta a Romeu"
"É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade."
in, "Os Poemas Possíveis" 
Edição Porto Editora, página 104

"Romeu a Julieta"
"Eu vou amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna."
in, "Os Poemas Possíveis" 
Edição Porto Editora, página 105

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sobre a fome no mundo ou o grito recorrente e constante de José Saramago - "Cadernos de Lanzarote Diário IV" e "Os Poemas Possíveis"

17 de Novembro (de 1996)
"Novas notícias da fome, desta vez muito mais animadoras. A Conferência da FAO, reunida em Roma nestes dias, acaba de aprovar uma resolução no sentido de que sejam reduzidos para metade, até ao ano 2015, os 800 milhões de famintos que existem actualmente... 
Espera-se que os restantes 400 milhões possam morrer daqui até lá: ficaria resolvido dessa maneira o problema da fome no mundo."
in, "Cadernos de Lanzarote - Diário IV"
Caminho, página 255

Pode ser visualizado, via YouTube aqui

Poema "Fala do Velho do Restelo ao astronauta"

Aqui, na Terra, a fome continua, 
A miséria, o luto, e outra vez a fome. 

Acendemos cigarros em fogos de napalme 
E dizemos amor sem saber o que seja. 
Mas fizemos de ti a prova da riqueza, 
E também da pobreza, e da fome outra vez. 
E pusemos em ti sei lá bem que desejo 
De mais alto que nós, e melhor e mais puro. 

No jornal, de olhos tensos, soletramos 
As vertigens do espaço e maravilhas: 
Oceanos salgados que circundam 
Ilhas mortas de sede, onde não chove. 

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa 
Onde come, brincando, só a fome, 
Só a fome, astronauta, só a fome, 
E são brinquedos as bombas de napalme.

in, "Os Poemas Possíveis" (1966)

terça-feira, 10 de maio de 2016

"Há-de haver..." poema de José Saramago musicado por Luis Cilia em 1969

https://www.youtube.com/watch?v=OLBSeTJrto0


"O seu segundo disco da triologia "la poesie portugaise de nos jours et de toujours" 
começa com este poema de José Saramago. Estávamos em 1969."

"Há-de haver..."
Um juntar de palavras escondido,
Há-de haver uma chave para abrir
A porta deste muro desmedido.

Há-de haver uma ilha mais ao sul.
Uma corda mais tensa e ressoante, 
Outro mar que nade noutro azul, 
Outra altura de voz que melhor cante. 

Poesia tardia que não chegas 
A dizer nem metade do que sabes: 
Não calas, quando podes, nem renegas 
Este corpo de acaso em que não cabes."

Original de José Saramago
"Os Poemas Possíveis"
Portugália Editora (1996)
Reedição Porto Editora, página 49

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Poema "Inventário" de José Saramago ("Os Poemas Possíveis") musicado por João Afonso para o CD "Nesta Esquina do Tempo"

Via YouTube, aqui

"Inventário"
"De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas."

In, "Os Poemas Possíveis"

domingo, 3 de abril de 2016

Manuel Freire "Retrato do poeta quando jovem" poema de José Saramago


"Retrato do poeta quando jovem"

"Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Leves ondas se furtam para o lado
Com o rumor de seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
Na hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Uma ânsia de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu dessa memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que narra do retrato a velha história."

in, "Os Poemas Possíveis"
Publicado em 1966 pela Portugália Editora
Porto Editora, página 57 (2014)

sábado, 5 de março de 2016

Luís Cília (Viola) e Manuel Freire (Voz) interpretam poema "Dia Não" de José Saramago

O poema pode ser ouvido, aqui via YouTube,


Dia Não
"De paisagens mentirosas
de luar e alvoradas
de perfumes e de rosas
de vertigens disfarçadas.

Que o poema se desnude
de tais roupas emprestadas
seja seco, seja rude
como pedras calcinadas

Que não fale em coração
nem de coisas delicadas
que diga não quando não
que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
se as faces tiver molhadas
para seus gritos escolha
as orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
em palavras amargadas
que o poema seja assim
portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
nestas quadras desoladas."

in, "Os Poemas Possíveis" - 1966

quinta-feira, 3 de março de 2016

"Jogo do Lenço" Poema de José Saramago declamado por Maria do Céu Guerra ("Os Poemas Possíveis", 1966)

Pode ser visualizado, via YouTube, aqui

"Poema do Livro "Provavelmente Alegria" de José Saramago, dito por Maria do Céu Guerra, incluido na homenagem que o PCP lhe fez por ocasião do 10.º aniversário da atribuição do Prémio Nobel da Literatura."

"Jogo do Lenço"

"Trago no bolso do peito 
Um lenço de seda fina, 
Dobrado de certo jeito. 
Não sei quem tanto lhe ensina 
Que quanto faz é bem feito. 

Acena nas despedidas, 
Quando a voz já lá não chega 
Por distâncias desmedidas. 
Depois, no bolso aconchega 
As saudades permitidas. 

Também o suor salgado, 
Às vezes, enxugo a medo, 
Que o lenço é mal empregado. 
E quando me feri um dedo, 
Com ele o trouxe ligado. 

Nunca mais chegava ao fim 
Se as graças todas dissesse 
Deste meu lenço e de mim, 
Mas uma coisa acontece 
De que não sei porque sim: 

Quando os meus olhos molhados 
Pedem auxílio do lenço, 
São pedidos escusados. 
E é bem por isso que penso 
Que os meus olhos, se molhados, 
Só se enxugam no teu lenço."


José Saramago, 
in, "Os Poemas Possíveis", 1966 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Helder Macedo e os poemas sobre o libertino Dom João (que remete para a obra "Os Poemas Possíveis" de 1966)

"Os Caminhos do amor: Dom João a Caim"

(...) "Ao representar as mulheres - simultaneamente idealizadas e realisticamente caracterizadas - como agentes ativos correspondentes ao princípio do desassossego na análise social marxista, Saramago recupera o conceito originário de «liberdade» para o entendimento de um «libertino» que não seja apenas um amador de mulheres mas também, por amor delas, um amante da humana liberdade a todos devida. Foi dessa perspetiva libertária que escreveu três poemas (não menos transpostamente autobiográficos do que várias passagens dos seus romances) na persona do arquetipal libertino Dom João. Os poemas intitulam-se «Orgulho de D. João no Inferno»«Lamento de D. João no Inferno» e «Sarcasmo de D. João no Inferno»

"Orgulho de D. João no inferno"

"Bem sei que para sempre: onde caí
Não há perdão ou letra de resgate.
Mas fui, quando vivi, o sal da terra,
A flor azul, o cetro de escarlate.
Aqui, se condenado, não esqueci,
Nem morto estou sequer: torno a ser eu
No sangue da mulher que, acesa, pede
Aquele modo de amar que foi o meu."
in, "Os poemas possíveis"
A 1.ª edição foi publicada em 1966, pela Portugália Editora
Porto Editora, 1994, página 97

--*--

«Lamento de D. João no Inferno» 

"Das ameaças do céu me não temi
Quando da terra as leis desafiei:
O lugar dos castigos é aqui,
Do céu nada conheço, nada sei.
O cilício do Diabo não me cinge,
Ném a mercê de Deus aqui me segue:
A chama mais ardente é a que finge
Este cheiro de mulher que me persegue."
in, "Os poemas possíveis"
A 1.ª edição foi publicada em 1966, pela Portugália Editora
Porto Editora, 1994, página 98

--*--

«Sarcasmo de D. João no Inferno»

"Contra mim, D. João, que pode o inferno,
Que pode o céu e todo o mais que houver?
Nem Deus nem o Diabo amaram nunca
Desse amor que junta o homem e a mulher:
De pura inveja premeiam ou castigam,
Acredite, no resto, quem quiser."
in, "Os poemas possíveis"
A 1.ª edição foi publicada em 1966, pela Portugália Editora
Porto Editora, 1994, página 99

(Nota de edição: 
Os presentes versos são referidos pelo autor do texto, 
e aqui junto para acompanhamento da leitura)

No primeiro, D. João celebra o seu modo de amar perenemente renovado «no sangue da mulher». No segundo, caracteriza a ausência física da mulher como sendo «a chama mais ardente» do inferno por ser um fingimento que o persegue. No terceiro, afirmando que «nem Deus nem o Diabo amaram nunca / desse amor que junta homem a mulher», conclui que só por isso «de pura inveja premeiam ou castigam». São poemas que recuperam a velha tradição do «inferno dos namorados», derivada de Dante e patente, por exemplo, no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Mas, partindo de uma perspetiva autoral não-teológica, caracterizam o inferno como a carência da sexualidade que torna a humanidade humana, numa aliás característica transposição de metáforas religiosas para a significação laica que lhes subjaz. Saramago, leitor de Camões, também desejaria que o «amor ardente» vivido na terra pudesse perpetuar-se no «assento etéreo» (ou não assim tão etéreo) que houvesse depois da morte." (...)

de Helder Macedo
Texto "Os Caminhos do amor: Dom João a Caim"


Inserido na obra de Óscar Aranda
"Aprende, aprende o meu corpo. Sobre o amor na obra de José Saramago"
Fundação José Saramago, páginas 13 e 14

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Pedro Barroso canta José Saramago - "Nasce Afrodite amor, nasce o teu corpo" (Os Poemas Possíveis)

Pode ser visualizado, aqui, via YouTube 

Do DVD de Pedro Barroso 40 anos de música e palavras - Afrodite - 
Poema de José Saramago e Música de Pedro Barroso


Afrodite 
"Ao princípio, é nada. Um sopro apenas, 
Um arrepio de escamas, o perpassar da sombra 
Como nuvem marinha que se esgarça 
Nos radiais tentáculos da medusa. 
Não se dirá que o mar se comoveu 
E que a onda vai formar-se deste frémito. 
No embalo do mar oscilam peixes 
E os braços das algas, serpentinos, 
À corrente se dobram, como ao vento 
As searas da terra, as crinas dos cavalos. 
Entre dois infinitos de azul avança a onda, 
Toda de sol coberta, rebrilhando, 
Líquido corpo, instável, de água cega. 
De longe acorre o vento, transportando 
O pólen das flores e os mais perfumes 
Da terra confrontada, escura e verde. 
Trovejando, a vaga rola, e fecundada 
Se lança para o vento à sua espera 
No leito de rochas negras que se encrespam
De agudas unhas e vidas fervilhantes, 
Ainda alto as águas se suspendem
No instante final da gestação sem par.
E quando, num rapto de vida que começa,
A onda se despedaça e rasga no rochedo,
O envolve, cinge, aperta e por ele escorre
- Da espuma branca, do sol, do vento que soprou,
Dos peixes, das flores e do seu pólen,
Das algas trémulas, do trigo, dos braços da medusa,
Das crinas dos cavalos, do mar, da vida toda
Afrodite  nasceu, nasceu o teu corpo."

in, "Os Poemas Possíveis"
Porto Editora, 2014, páginas 131 e 132
Publicado originalmente em 1966 pela "Portugália Editora"

domingo, 11 de outubro de 2015

"Jogo do lenço" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor

"Jogo do lenço" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor

Pode ser visualizado e ouvido, via YouTube

Jogo do Lenço

"Trago no bolso do peito 
Um lenço de seda fina, 
Dobrado de certo jeito. 
Não sei quem tanto lhe ensina 
Que quanto faz é bem feito.

Acena nas despedidas, 
Quando a voz já lá não chega 
Por distâncias desmedidas. 
Depois, no bolso aconchega 
As saudades permitidas.

Também o suor salgado, 
Às vezes, enxugo a medo, 
Que o lenço é mal empregado. 
E quando me feri um dedo, 
Com ele o trouxe ligado.

Nunca mais chegava ao fim 
Se as graças todas dissesse 
Deste meu lenço e de mim, 
Mas uma coisa acontece 
De que não sei porque sim:

Quando os meus olhos molhados 
Pedem auxílio do lenço, 
São pedidos escusados. 
E é bem por isso que penso 
Que os meus olhos, se molhados, 
Só se enxugam no teu lenço."

José Saramago, In Os Poemas Possíveis

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Carlos do Carmo canta poema de José Saramago - "Aprendamos o rito" in "Os Poemas Possíveis"


Pode ser visualizado, aqui via YouTube


"Aprendamos o rito"
Põe na mesa a toalha adamascada,
Traz as rosas mais frescas do jardim,
Deita o vinho no copo, corta o pão,
Com a faca de prata e de marfim.
Alguém se veio sentar à tua mesa,
Alguém a quem não vês, mas que pressentes.
Cruza as mãos no regaço, não perguntes:
Nas perguntas que fazes é que mentes.
Prova depois o vinho, come o pão,
Rasga a palma da mão no caule agudo,
Leva as rosas à fronte, cobre os olhos,
Cumpriste o ritual e sabes tudo.

In "Os Poemas Possíveis", Editorial Caminho, 3.ª ed., p. 81

domingo, 6 de setembro de 2015

Poema "Ouvindo Beethoven" musicado por Manuel Freire - "Os Poemas Possíveis" de 1966

Pode ser visualizado e ouvido, via YouTube, aqui em

"OUVINDO BEETHOVEN"
Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem noutra arte
Que a prosa de registo, o verso data.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

"Os Poemas Possíveis", 1966

domingo, 31 de maio de 2015

"Inventário" a poesia de José Saramago cantada por João Afonso


"Inventário"

"De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas."

José Saramago
em, "Os Poemas Possíveis"
Porto Editora, página 143

sábado, 7 de março de 2015

Luis Pastor na iniciativa "Visitantes da Casa dos Bicos lêem José Saramago" #51

(Luis Pastor lê "Nessa Esquina do Tempo" em espanhol)


"Nesta esquina do tempo"

"Nesta esquina do tempo é que te encontro,

Ó nocturna ribeira de águas vivas

Onde os lírios abertos adormecem

A mordência das horas corrosivas.



Entre as margens dos braços navegando,

Os olhos nas estrelas do meu peito,

Dobro a esquina do tempo que ressurge

Da corrente do corpo em que me deito



Na secreta matriz que te modela,

Um peixe de cristal solta delírios

E como um outro sol paira, brilhando

Sobre as águas , as margens e os lírios."


Os Poemas Possíveis, 2ª edição, Editorial Caminho, Lisboa, 1982

domingo, 1 de março de 2015

"As Canções Possíveis" - Manuel Freire canta José Saramago 1999 (baseado em "Os Poemas Possíveis")


Baseado e extraídos das obras "Os Poemas Possíveis" e "Provavelmente Alegria"
Música de Manuel Freire e de Luís Cília (este na faixa 11)

PA - Provavelmente Alegria - Caminho, 3.ª edição (1970/1987)
PP - Os Poemas Possíveis - Porto Editora, 1.ª edição da Porto Editora (1966/2014)

Faixa 1 - Circo (PP, pág. 47)
Faixa 2 - Nem sempre a mesma rima (PA, pág. 58)
Faixa 3 - Tenho a alma queimada (PA, pág. 69)
Faixa 4 - Ouvindo Beethoven (PP, pág. 73)
Faixa 5 - Retrato do poeta quando jovem (PP, pág. 57)
Faixa 6 - Jogo do lenço (PP, pág. 150)
Faixa 7 - Tenho um irmão siamês (PA, pág. 41)
Faixa 8 - «Dispostos em cruz» (PA, pág. 90)
Faixa 9 - Fala do Velho do Restelo ao Astronauta (PP, pág. 76)
Faixa 10 - A ponte (PA, pág. 79)
Faixa 11 - Dia não (PP, pág. 28)
Faixa 12 - É tão fundo o silêncio (PA, pág. 34)




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

"Ouvindo Beethoven" poema de José Saramago (em "Os Poemas Possíveis") cantado por Manuel Freire

Via YouTube, para ser ouvido em https://www.youtube.com/watch?v=lZkUwF5wf6c

"Ouvindo Beethoven" 

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.

In "Os Poemas Possíveis", 1966

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

"Adivinha" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor (disco/livro "Nesta esquina do Tempo")



"Adivinha" a poesia de José Saramago 
Cantada por Luis Pastor 
(disco/livro) - "Nesta esquina do Tempo"

"Adivinha"

"Quem se dá quem se recusa 
Quem procura quem alcança 
Quem defende quem acusa 
Quem se gasta quem descansa 

Quem faz nós quem os desata 
Quem morre quem ressuscita 
Quem dá a vida quem mata 
Quem duvida e acredita 

Quem afirma quem desdiz 
Quem se arrepende quem não 
Quem é feliz infeliz 
Quem é quem é coração"

em, "Os Poemas Possíveis" / 1966