Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

"Claraboia" retrato de um Portugal dos anos 50

"No começo, já longínquo, dos anos 50 do século XX Saramago escreveu aquele que era o seu segundo romance. Chamou-lhe CLARABOIA, e um amigo se encarregou de o enviar para um editor. Como resposta obteve o silêncio. Depois de encontrado o original e de se ter editado em livro, em 2011, vem agora a público a edição fac-similada com as 245 folhas do original, datilografadas e com as enumeras anotações manuscritas de José Saramago. Será comercializado em pack de caixa luxuosa e com a oferta da edição normal."


"– Vivemos entre os homens, ajudemos os homens.- E que faz o senhor para isso?
– Conserto-lhes os sapatos, já que nada mais posso fazer agora.
«Claraboia é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser.» José Saramago
Claraboia, cuja redação José Saramago terminou a 5 de Janeiro de 1953, consiste num datiloscrito de 319 páginas, assinado com o pseudónimo de «Honorato». A presente edição reproduz fielmente o original."
Via página da Fundação José Saramago, em Bibliografia Activa,aqui


Pode ser visualizado via YouTube, aqui

'Claraboya', el libro perdido de José Saramago. Donde todo comenzó.

"Saramago terminó de escribir Claraboya a los treinta y un años y entregó el manuscrito a una editorial de la que solo obtuvo respuesta cuarenta años más tarde, cuando era un escritor consagrado. La escritura minuciosa y paciente retrata con maestría una época marcada por la desesperanza. Claraboya anticipa de un modo deslumbrante los elementos del universo Saramago, así́ como las virtudes que serán el germen de tantas obras maestras. En el texto se oye la voz de José Saramago, se reconocen sus personajes, se identifican la lucidez y la compasión que según la Academia Sueca distinguen su obra.

«Una novela entrañable, escrita por un hombre con una sensibilidad y una capacidad de ver y de entender que están muy por encima de lo que en general vemos y entendemos los comunes mortales.» Héctor Abad Faciolince.

«No tenía dudas de que estaba con Saramago mientras leía Claraboya.» Claudia Piñeiro."

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Critica "O livro perdido de José Saramago chegou ao teatro 3 dias atrás" Por Ana Rita Caldeira - Via Ardinas

Texto de Ana Rita Caldeira, que pode ser consultado aqui, 
em http://www.ardinas.pt/index.php/2015/12/21/o-livro-perdido-de-jose-saramago-chega-ao-teatro/

"O livro perdido de José Saramago, publicado seis décadas depois de ter sido escrito, é agora adaptado pelo teatro A Barraca, de uma forma, no mínimo, brilhante.

Com destaque para o cenário, que se funde à personalidade de cada personagem, e para a interpretação rigorosa dos textos de Saramago, “Claraboia” é uma peça obrigatória, não só para quem leu o livro que a inspira, mas também para quem quer conhecer a origem da genialidade de Saramago. A adaptação está em cena pelo menos até Janeiro e não merece tantas cadeiras vazias.

 (Fotografia de Luis Rocha)

Ao longo das três horas da peça, que passam a voar, Pílar del Rio assiste compenetrada, sozinha, isolada numa das filas da plateia. O seu riso ouve-se mais do que o dos outros quando chegam a palco certas passagens do livro, certamente gravadas na memória de Pílar, que traduziu “Claraboia” para espanhol. Pílar sorri emocionada em vários momentos da peça, momentos que a transportam para um lugar no tempo em que ainda não conhecia José Saramago. O livro, que agora é adaptado ao teatro, foi escrito em 1953, quando Saramago tinha 31 anos. Ainda com a pontuação e parágrafos convencionais, “Claraboia” foi enviado para uma editora que nunca respondeu. Saramago não escreveu durante 20 anos, depois disso. 40 anos depois, quando já não era um jovem escritor desconhecido, acabado de publicar “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, o escritor foi convidado a publicar “Claraboia”, cujo manuscrito teria sido encontrado na editora. O futuro nobel da literatura não leu o livro e disse que nunca seria publicado enquanto vivesse. 60 anos depois de ter sido escrito e um ano depois da morte de Saramago, “Claraboia” foi editado e publicado, em 2011, com o consentimento de Pílar.


Agora, a ex-mulher do escritor reconhece neste romance pequenos fragmentos daquilo que viria a ser a identidade literária de Saramago. Há a valorização do ser humano, sem que entre nos textos a palavra política, há discussões em que participam poemas de Fernando Pessoa, há sinfonias de Beethoven, há a recusa da resignação (presente em “Levantado do Chão”) ou os debates sobre lucidez (mais tarde, presentes em “Ensaio sobre a Lucidez”). “Claraboia” é um marco fundamental na escrita de Saramago. Ainda que sem o estilo formal que lhe é associado, ainda que tenha diálogos paragrafados de forma convencional, marca a origem das preocupações de Saramago enquanto escritor, as preocupações que, anos depois, de uma forma mais madura, se transpuseram para outros romances, mais aclamados.

Quem lê o livro, e depois toma conhecimento da sua adaptação para o teatro, pensa imediatamente na dificuldade que terão tido os cenógrafos. A história do romance “Claraboia” passa-se num prédio da Lisboa dos anos 50, com 3 andares e seis apartamentos. O espaço é absolutamente essencial na leitura do livro, assim como as divisões dos apartamentos, descritas com a maior precisão. Surpreendentemente, José Costa Reis, responsável pela cenografia, conseguiu meter um prédio dentro da sala 1 d’A Barraca. O palco ganha três andares, divididos por dois lances de escada, e observados pela grande claraboia, que é azul ou amarela, para nos dizer quando é de noite e de dia. Também o som do amolador pela manhã e uma música clássica de embalar pela noite nos dizem em que altura do dia as personagens se encontram. O trabalho de sonoplastia, que se encarrega dos sons de portas a fechar ou das campainhas, é do mesmo modo irrepreensível. Mas é o desempenho dos atores, que debitam as palavras de Saramago, que dá brilho à adaptação. João Maria Pinto, que interpreta o papel do sapateiro Silvestre, ou Maria do Céu Guerra, que é Amélia e também a mãe de Lídia, deixariam José Saramago com um brilho nos olhos.

Ao todo, são 18 personagens que vivem num prédio tipicamente lisboeta dos anos 50, em pleno Estado Novo. No rés-do-chão vive o sapateiro Silvestre e a mulher Mariana, que alugam um dos quartos a um viajante misterioso, e, ainda, um casal problemático, que já é conhecido pelos vizinhos pelas discussões acesas. No primeiro direito mora Lídia, uma mulher sensual e promíscua, que recebe visitas de um gordo empresário todas as noites. Uma mulher atormentada pela morte da filha e pela indiferença do marido vive no primeiro esquerdo, passando grande parte dos dias a observar o retrato da menina. O último andar divide-se no apartamento de uma família de quatro mulheres costureiras e um casal com uma filha libertina.

Ao contrário do que se esperava, há ação a decorrer em todos os andares, em quase todos os momentos da peça. A intensidade das luzes guia-nos para o diálogo que merece destaque, para o apartamento em que se desenrola uma ação importante. Enquanto isso, nos outros andares, as famílias jantam, deitam-se, conversam, o sapateiro trabalha. O trabalho de encenação e dramaturgia, a cargo da atriz Maria do Céu Guerra, conseguiu dar movimento às personagens de “Claraboia”, que têm tanto de fantásticas como de corriqueiras. São pessoas atormentadas pela censura dos pensamentos, e não só das ações, pelas dificuldades financeiras, pelas consequências que os seus atos podem ter no julgamento dos outros, neste caso, dos vizinhos. Nenhuma delas ganha protagonismo na peça, ainda que os diálogos entre o sapateiro Silvestre e o seu hóspede, Abel, sejam o fio condutor do romance. Naqueles apartamentos, decorados com tempo, enfeitados com pratos de porcelana trabalhada, molduras com fotografias esbatidas e cómodas sem espaço livre, os dias daquelas pessoas esgotam-se na relação com os vizinhos.

Pílar del Rio vê nesta adaptação de “Claraboia” um milagre, o milagre de conseguir reproduzir a simultaneidade das cenas, a passagem das conversas entre as irmãs Isaura e Adriana para as discussões entre Carmen e Emílio, por exemplo. Através da variação da intensidade das luzes, que não saem de projetores sóbrios, mas sim de candeeiros protegidos por abajures de todos os feitios. Estes pormenores, como o som do fechar e abrir de portas, fundem todas as histórias que se passam dentro do prédio. “La Barraca le ha puesto cuerpo” foi o elogio final de Pílar a toda a equipa que pôs em cena “Claraboia”. Trata-se de uma adaptação genial, que não se esgota no desempenho dos atores, e que merece ficar n’ A Barraca depois de Janeiro. É um trabalho que honra o nascimento da genialidade de José Saramago, e também o nascimento das suas preocupações e prioridades enquanto escritor e enquanto homem. A peça está em cena de quinta a sábado às 21h30 e às 16h30 de sábado e domingo."


domingo, 13 de dezembro de 2015

"Portugal pela Clarabóia" - Entrevista a Maria do Céu Guerra - Encenadora da peça de teatro "A Claraboia" Teatro A Barraca (Visão - 11/12/2015)

"Portugal pela Clarabóia" - Entrevista a Maria do Céu Guerra
Encenadora da peça de teatro "A Clarabóia" Teatro A Barraca (Visão - 11/12/2015)

A entrevista pode ser consultada e lida, via revista Visão, aqui
em http://visao.sapo.pt/jornaldeletras/teatroedanca/2015-12-11-Maria-do-Ceu-Guerra---Portugal-pela-Claraboia

Fotografias de Luís Rocha - Movimento de Expressão Fotográfica
Mais informação em http://www.mef.pt/mef/ 


"Um 'fresco' Portugal nos anos 50, visto através da Claraboia, o romance de José Saramago no palco de A Barraca estreou na quinta-feira, dia 10, no Cinearte, em Lisboa. Um espetáculo encenado por Maria do Céu Guerra, que abre um ciclo que a companhia vai dedicar ao Nobel da Literatura."

"O teatro em tempos de “austeritarismo” encolheu os atos e os “sonhos”. A Barraca quase acabou, com os cortes e os 40 mil euros de subsídio anual a que viu reduzida a existência. Farta de tanto aperto e míngua, Maria do Céu Guerra não quer poupar mais na “ousadia” de “fazer um espetáculo em grande”. Sentiu essa ânsia crescer página a página, capítulo a capítulo do livro de José Saramago que agora arrisca levar à cena: Claraboia, o romance póstumo do escritor, embora tivesse sido escrito em 1953. E atreveu-se a encená-lo, mesmo tendo que poupar em tudo menos em esforços e imaginação. Essa nunca é “pobrezinha”, como garante a atriz e encenadora."

"No palco, um prédio com seis casas dentro, um “mosaico” de quotidianos familiares, nos anos pardacentos do fascismo, e subterrâneo o conflito, as pulsões da condição humana. São 16 atores para dar corpo à narrativa de Saramago tornada diálogo, com a adaptação de João Paulo Guerra. Para a reconstituição desse tempo, o cenário criado por Costa Reis. Um espetáculo para ‘virar a página’ da austeridade. “Um pontapé na sorte”, diz Maria do Céu Guerra, consciente do risco da aposta. E sabe-se que a sorte protege os audazes."

Jornal de Letras: Que possibilidades teatrais descobriu neste romance de Saramago?
Maria do Céu Guerra: Foi Pilar del Río quem me ofereceu Claraboia, que sabia que tinha tido uma história editorial complicada. Quando o comecei a ler fiquei logo interessada no retrato que José Saramago faz das casas, das famílias, da vida naqueles anos pesados, mesquinhos, do Estado Novo.

Um retrato quotidiano do fascismo?
E sem nunca falar de repressão, de polícia ou mesmo aparentemente de política, a não ser pela boca de uma personagem, assumidamente oposicionista. Saramago consegue dar uma narração do fascismo branco. Isso entusiasmou-me e comecei a imaginar como seria possível pôr um prédio em cena, com seis famílias em simultâneo. A partir do meio, o livro começou a desafiar-me para o palco. E cada vez me apaixonava mais pela própria dificuldade desse exercício.

Fotografias de Luís Rocha - Movimento de Expressão Fotográfica

Que aguçou o engenho?
Estes anos de austeritarismo, como lhe chamo, dificultaram tanto a vida d’A Barraca que andamos a fazer reposições, um Tartufo muito austero, sempre a contar os tostões. Há dois anos estivemos mesmo para acabar. Só não aconteceu porque tivemos sempre a solidariedade do nosso público e houve uma petição entregue e aprovada na Assembleia da República reconhecendo o nosso trabalho, o que não nos trouxe mais dinheiro mas nos deu ânimo. Pensei muitas vezes que não me apetecia fazer mais nada, continuar a pensar só em coisas baratinhas, pequeninas. E sei que o público também gosta de qualquer coisa de espetáculo, o que é caro. Claraboia fez-me sentir vontade de correr esse risco.

É uma grande produção, com 17 personagens. Como foi possível?
A Pilar del Río ajudou-nos, não economicamente mas a abrir alguns caminhos, a chegar por exemplo ao Fundo de Fomento Cultural e a entreabrir algumas portas. Claro que foi uma dívida enorme que A Barraca contraiu e que só será capaz de pagar se o público vier ver a peça.

Uma ‘ousadia’ nos tempos que correm?
Foi um rasgo e avancei, apesar desses perigos. E teve o condão de me entusiasmar e apaixonar de novo. E sair da mediania. Já tenho esta idade e ainda muitos sonhos que quero realizar. A ousadia muitas vezes ajuda a dar um salto em frente. E é preciso.

Além das questões orçamentais, encenar Claraboia foi um quebra-cabeças?
Se foi. São muitas famílias, personagens, cenas, feitas ao mesmo tempo… E que têm que o ser em estilos diversos, porque são mesmo diferentes. Cada casa é uma casa, com o seu décor, as suas formas de relacionamento, pessoas que se cruzam nas escadas, que se veem e ouvem, uma que transporta o desgosto de ter perdido uma filha, duas irmãs com o amor pela música e pela rádio, um linotipista do Diário de Notícias sórdido, uma rapariga por conta e o seu protetor, um casal infeliz, com uma galega nostálgica e muito divertida… Foi obra não os deixar contagiar pelos ritmos uns dos outros.

E a narrativa de Saramago não levantou problemas especiais na transposição para o palco?
Não. É um romance com um fio ficcional ténue, a história surge naquele painel de vidas remediadas. No teatro, esse fresco é dado, mas o conflito vai-se insinuando como um réptil, através da calúnia, da mentira, dos defeitos dominantes daquele tempo, talvez de todos os tempos. Tudo o que vemos naquele prédio se calhar não está tão longe de nós.

É isso que procura sublinhar a sua encenação?
Interessou-me trabalhar precisamente esse lado dos conflitos das famílias, as histórias silenciosas das casas, aquilo que acontece portas adentro. Por isso, fazemos uma espécie de corte naquela casa maravilhosa, criada pelo Costa Reis, inspirado na casa onde nasceu, e convocamos os espetadores a serem voyeurs desses universos fechados. Gostei muito de fazer esta dramaturgia. Aliás, agrada-me muito a passagem da escrita narrativa para a dramática.

Porquê?
Já adaptámos muitos romances e seduz-me esse exercício de tornar as descrições didascálias, o narrativo ativo. E desta vez, sem recorrer a narrador, o que acontecia numa outra adaptação, A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, uma peça de que gostei muito. E sem ninguém a narrar é mais difícil. São seis casas ativas na frente do público, como a espreitar pela claraboia, o verdadeiro olho de Deus, para o interior daquelas vidas. E vão ajudar-nos as roupas, os hábitos, o que se comia, como se vivia.

Fizeram uma verdadeira ‘reconstituição’?
Sim. E foi muito divertido recuar no tempo. E tenho a aspiração de que o público faça essa viagem connosco. Estamos muito contentes com o espetáculo. Por outro lado, o Hélder [Costa] há muito queria encenar O Ano da Morte de Ricardo Reis e decidimos fazer um ciclo José Saramago, que se prolonga pelo primeiro semestre do próximo ano.

Haverá mais textos de Saramago?
O Conto da Ilha Desconhecida, que vamos fazer em reposição. E gostaria muito que Claraboia ainda estivesse em cena quando A Barraca fizer 40 anos, a 4 de março

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Clarabóia em cena na A Barraca - "Neste prédio imaginado por Saramago está Portugal inteiro"

O artigo de Maria João Caetano, pode ser visualizado e lido, na página do Diário de Notícias, aquiem http://www.dn.pt/artes/interior/neste-predio-imaginado-por-saramago-esta-portugal-inteiro-4920882.html

(Imagem do manuscrito original)


"A Barraca adaptou "Claraboia", romance que nos coloca num prédio lisboeta em pleno Estado Novo"
"No 1º esquerdo mora uma mulher infeliz, que perdeu a filha para a doença e atura um marido marialva e um pouco violento. No rés-do-chão direito mora um casal com problemas de comunicação, e não tem nada a ver com o facto de ele ser português e ela espanhola. Há uma família quase feliz no 2º direito, mesmo se a jovem Claudinha provoca cabelos brancos nos pais. No 2º esquerdo quatro mulheres entre tias, irmãs e sobrinhas, dedicam-se à costura e gostam de ouvir música clássica. No 1º direito, Lídia é uma mulher que dá nas vistas e que recebe muitas visitas do senhor Paulino. No rés-do-chão esquerdo é a oficina do sapateiro Silvestre, com porta para a rua, e que, um dia, em conversa com a mulher Mariana decide alugar um dos quartos para fazer frente às dificuldades financeiras. É assim que aparece Abel, o hóspede. Todas as casas dão para o patamar das escadas e é aí que fica a claraboia.
O prédio lisboeta é o cenário do romance de José Saramago, Claraboia, e é também o cenário da peça com o mesmo nome que o Teatro Barraca estreia amanhã. E é no prédio que reparamos assim que entramos na sala e o espetáculo ainda não começou. Nas mobílias que podiam ser dos nossos avós, nas louças, nas panelas, nos naperons, nas molduras douradas, na máquina de costura Singer com pedal.
Lisboa, 1952
"Assim que li o romance achei que seria delicioso criar esta história dentro de um prédio verdadeiro", conta a encenadora e atriz Maria do Céu Guerra. "Andei por Lisboa a ver prédios que pudessem ser usados, vi várias casas desabitadas mas depois caí na realidade e percebi que nunca nos iriam dar autorização, por razões de segurança, para fazer uma coisa dessas. Então, o cenógrafo José Manuel Costa Reis disse-me: a Barraca tem um teatro, tens que fazer isto no teatro, eu arranjo uma maneira." E arranjou. "Consegue dar-nos realmente a vida de um prédio, do qual vemos partes, vemos um prédio cortado e somos voyeurs, somos espias de um prédio de Lisboa de 1952. Conseguimos ver a vida de seus casas, seis famílias completamente distintas mas que nos dão aquela realidade que era a vida no Estado Novo."
O jornalista João Paulo Guerra, que fez a adaptação do romance de Saramago para teatro, explica que apesar de o autor não dizer exatamente onde ficava aquele prédio, é fácil imaginá-lo na zona de Santos, onde fica o teatro da Barraca:"Diz que da janela vê-se o rio e ouvem-se barcos. Além disso, sabemos que o José Saramago viveu na rua da Esperança, aqui na Madragoa". Mas seja em que bairro for, este é "um prédio classe baixa ou média-baixa, como, aliás, era a esmagadora maioria da população de Lisboa."

 Maria do Céu também interpreta uma das personagens
(Sara Matos/Global Imagens)

"Meia dúzia depois da Segunda Guerra Mundial, estamos em pleno Estado Novo", acrescenta Maria do Céu Guerra. "O Saramago, como José Cardoso Pires ou Lobo Antunes, escrevem sobre o fascismo branco. Não aparece a polícia, não aparece diretamente a repressão, nada que acuse o Estado Novo ou algum processo político, mas a gente sente que é insuportável viver aqui, é sufocante, e é isso que eu acho que o José Saramago nos dá muito bem."
João Maria Pinto, o ator que interpreta o sapateiro Silvestre, era um miúdo de seis anos em 1952 mas lembra-se bem desse modo de vida: "O livro é extremamente elucidativo sobre a época, dá-nos as famílias endurecidas pelo fascismo, cinzentas, partas, sem horizontes de vida. Estão espartilhadas. Vão uma vez ao cinema, quando há algumas economias, fazem uma refeição melhor ao domingo, dão um passeio e não fazem mais nada. Era assim que vivíamos."
Contrariar a crise
Apesar de haver quem possa ver semelhanças entre o mundo de Claraboia e o de filmes como O Pátio das Cantigas, Maria do Céu Guerra diz que as diferenças são muitas. Esta será uma "comédia negra": "Não tem nada a ver com a chamada comédia portuguesa, que era uma coisa demasiado apologética, simpática e ao mesmo tempo nostálgica de um tempo que não foi assim tão festivo. O que o Saramago nos dá é uma espécie de avesso da pueril e feliz comédia portuguesa. Aqui, todas as famílias tem a sua infelicidade e a sua luta pela vida, que era algo muito real."
Abel (Rúben Garcia) e o sapateiro Silvestre (João Maria Pinto)
(Sara Matos/Global Imagens)

"A vida no prédio é perturbada pela chegada do hóspede, um jovem que tem uma vida errante e pensamentos libertários. O papel de Abel é interpretado por Rúben Garcia e no vasto elenco encontramos ainda Paula Guedes, Lucinda Loureiro, Hélder Costa, Paula Sousa, Rita Lello, Carolina Parreira, Paula Bárcia, Adérito Lopes, entre outros. Trata-se, assume, a encenadora (que interpreta dois papéis), de uma "aposta muito grande" para a companhia. "Passámos os últimos anos numa situação muito difícil na barraca, quando começou a austeridade e se acentuaram os cortes e nós ficámos reduzidos a não poder fazer nada do que queríamos. Desta vez decidimos arriscar. Vamos fazer mesmo que a gente sofra as consequências disto. Não vamos continuar nesta apagada e vil tristeza de fazer peças com dois personagens e sem cenário. Vamos dar um pontapé na lua."

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Texto de Pedro Fernandes - "Temas, formas e obsessões em Claraboia, de José Saramago" Revista de Estudos Saramaguianos

Recuperação do texto de Pedro Fernandes, na data em que a obra é encenada pela companhia de teatro A Barraca.
Mais info, ver posts anteriores

Link geral das edições http://www.estudossaramaguianos.com/


Informação consultada, via Facebook na página "Revista Estudos Saramaguianos", aqui

O estudo pode ser descarregado em português, aqui 


«“Claraboia”, apesar de publicado em 2011, é o segundo romance de José #Saramago. A obra ainda não traz o peculiar jeito saramaguiano de escrita – que só se apresentará a partir de “Levantado do chão”. Mas, o leitor atento não deixará de perceber aí a presença quase integral dos principais temas que deram forma a toda sua obra literária; este é um motivo definidor do texto de Pedro Fernandes que recupera a necessidade da suficiência para considerarmos este um livro essencial e uma das peças fundamentais para a compreensão mais ampla sobre a escrita saramaguiana.» 
Texto de Pedro Fernandes O. Neto



domingo, 6 de dezembro de 2015

"A adaptação de Claraboia, pelo grupo A Barraca, estreia a 10 de dezembro


Informação via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/claraboia-a-barraca-estreia-no-dia-10-de-dezembro-obra-a-partir-do-romance-de-jose-saramago/

"A adaptação de Claraboia, pelo grupo A Barraca, estreia a 10 de dezembro

Nos anos 50, José Saramago escreveu um romance. Enviou-o a uma editora e nunca obteve qualquer resposta. Muitos anos depois, resgatado do esquecimento, o manuscrito foi entregue ao autor, que decidiu que o livro a ser publicado, o deveria ser apenas a sua morte.
Em 2011, Claraboia finalmente chegou aos leitores.
Agora, a história de seis famílias que habitam um prédio de Lisboa e vivem sob a nuvem do Salazarismo, ganha uma adaptação pelas mãos do grupo de teatro A Barraca. Num trabalho de adaptação de Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra, 17 atores sobem ao palco para encenar essa peça.

A obra estreia no dia 10 de dezembro, data em que se comemora o 17.º aniversário da entrega do Prémio Nobel de Literatura a José Saramago.  Para informações sobre horários e preçário aceda a:" http://www.abarraca.com

Imagem da apresentação e ensaio da peça na Fundação José Saramago, 
enquadrado no programa "Dias do Desassossego"

Pode ser consultada informação, na página do teatro A Barraca, aqui 

"A Barraca tem no seu historial inúmeras obras de ficção transformadas em escrita dramática, a partir das quais se produziram inesquecíveis espectáculos. É aliás esta uma das suas principais vocações. Viagens de Gulliver, de Swifft, O Diabinho da mão furada, de António José da Silva, Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, A Relíquia, de Eça de Queiroz, Gente da Terceira Classe, de José Rodrigues Miguéis, Os Emigrantes, de Ferreira de Castro, A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, são apenas algumas dessas obras.

Neste sentido, A Claraboia, de José Saramago, constitui para A Barraca um desafio enorme. São dezassete personagens distribuídas em seis apartamentos num bairro de gente "remediada" na Lisboa dos anos 50. As suas necessidades, aspirações, quezílias, transgressões, mentiras são a principal matéria/desafio para um grande espectáculo de Teatro a acontecer. Tudo encerrado num espaço onde a ausência de amor é a parede mestra de cada casa e onde o fascismo à portuguesa, é vivido até ao mínimo pormenor com a policia à espreita dentro de cada um.

O entusiasmo de A Barraca e a  anuência da Fundação José Saramago levaram-nos a tentar dar cumprimento ao nosso sonho e programarmos este espectáculo para o segundo semestre de 2015.

Temos a certeza que este espectáculo honrará as instituições culturais envolvidas e não menos o seu autor." - Maria do Céu Guerra

Sinopse
"A ação do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respetiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respetivo filho - nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respetiva mulher e uma "mulher por conta" no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respetiva filha no início da idade adulta.

O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.

O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate - debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis - com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante?"


Ficha Artística e Técnica
Texto - José Saramago
Adaptação do Texto - João Paulo Guerra
Dramaturgia - Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra
Encenação - Maria do Céu Guerra
Cenografia e Corrdenação de Guarda Roupa - José Manuel Costa Reis
Banda sonora - João Paulo Guerra
Assistência Geral do Espectáculo - Adérito Lopes e Sérgio Moras
Apoio à Direcção de Actores - Lucinda Loureiro
Elenco
Adérito Lopes - Carolina Parreira - Carlos Sebastião - Fernando Belo - Guilherme Lopes - Hélder Costa - Henrique Abrantes - João Maria Pinto - Lucinda Loureiro - Maria do Céu Guerra - Paula Bárcia - Paula Guedes - Paula Sousa - Rita Lello - Rita Soares - Rúben Garcia - Sérgio Moras - Sónia Barradas - Teresa Sampaio
Sonoplastia - Ricardo Santos
Iluminação - Paulo Vargues
Relações Públicas e Produção - Paula Coelho, Inês Costa
Cartaz/ Design Gráfico - Arnaldo Costeira
Fotografias - Movimento de Expressão Fotográfica:
Luis Rocha, Amélia Monteiro, Isabel Correia, Janica Nunes, José Fontinha Vieira, José Guerreiro, Ricardo Amoedo e Rui Viegas
Agradecimentos
EPC, Fundação Saramago, Pilar del Rio




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

"Claraboia" uma nova vida depois de esquecido...

cla·ra·bói·a |clà| 
substantivo feminino
1. Parte envidraçada de um telhado para entrar claridade.Ver imagem
2. Fresta ou óculo numa parede para passagem da claridade ou do ar.
3. Poço para ventilação de mina, túnel, etc.

"claraboia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/claraboia 



"Skylight" de José Saramago
Traduzido por Margaret Jull Costa
Editora, Houghton Mifflin Harcourt, 299 páginas



No site www.bustle.com, é apresentada uma elogiosa critica ao livro "Skylight" - tradução do original "Claraboia", obra datada de 1953. 
A "Claraboia", fica marcado pelo seu "tardio nascimento", publicada a titulo póstumo - em 2011, contrapondo, com a data da realização, em 1953. 
Após a publicação de "Terra do Pecado" em 1947, que inicialmente foi apresentado ao editor com o titulo "A Viúva"; esta segunda obra ficou marcada pelo silêncio da editora, perdido o rasto... esquicida, supostamente para sempre. 
Sob o nome de "Honorato", pseudónimo de José Saramago, terá sido entregue por um amigo, que tentou a sua publicação, através de conhecidos, na editora ENP (Empresa Nacional de Publicidade), de onde, mergulhado num silêncio profundo e num esquecimento de décadas - conhecemos agora a sua história - virá a renascer do pó das catacumbas de um qualquer depósito, quando na década de 80, José Saramago, recebe por parte do Diário de Notícias, a informação da descoberta e recuperação do original, com um pretensioso convite à sua publicação.
A carga simbólica destes acontecimentos, e a nobre decisão tomada pelos herdeiros de José Saramago, no que toca à sua publicação, coloca esta obra no seu devido lugar, que a ordem cronológica da bibliografia assim o obriga, e que, nós os leitores, temos a obrigação de lhe dar a vida que durante décadas não teve.
A vida e a luz do livro, analogia com o titulo, "Claraboia", enquanto elemento concebido para deixar passar a luz, o sol, o que está para lá de, o pulsar do outro lado, merece todo o destaque. Recuperado e cheio de vitalidade, há que desfrutá-lo... 


Laura Creste, neste apontamento, escolhe seis obras para serem lidas "ao lado de uma lareira".

Aqui, fica o link para o artigo completo, em http://www.bustle.com/articles/50632-december-2014s-best-books-6-titles-perfect-for-you-to-read-right-next-to-the-fireplace

"December is an ideal time for settling in with a thick read. A well-picked book is essential whether you’re in for a long plane ride home for the holidays and you need a distraction, or your extended family has gotten into a political debate after a few glasses of wine, and you need to exit to the living room to read by the light of the Christmas tree to avoid them. (No, just me? Moving on.)
There are quite a few good books released this month — things for fans of history, for instance, plus a new Murakami (!) — but if I have to play favorites, I’d say I’m most excited about Ali Smith’s How to Be Both. It’s actually two books in one (a double-gift if you want to give it!) in a complicated genre-bending sort of way. 
Early December is also a time to worry about finding the perfect gift. I’m sure you’ll be gifting books, but make sure you don’t forget about giving something to yourself, too, to keep you entertained throughout the dreary winter. The ones on this list are a great place to start.
Here’s a reading list that’ll get you through the holidays:

"Skylight" by José Saramago (translated by Margaret Jull Costa)

There’s a great story associated with the creation of this book, Portugusese novelist José Saramago’s first. The book was nearly lost forever when the author sent it to a publishing house in Lisbon in 1953 and never heard back. When the publishing house was changing offices more than three decades later, they found the manuscript of Skylight in a drawer. At this point, Saramago was well-established in the Lisbon literati and he proudly refused their belated offer to publish it. After his death, however, his estate felt that the public deserved a chanced to read the book.
Saramago’s Skylight is an artful depiction of the every day, and the unknown interiors of the people with whom we live. In the novel, husband and wife are miserable mysteries to each other more often than not, and sisterly love is fraught with unsaid drama. A kept woman entertains her patron, though she’s tired of him; a woman married to a cheating husband wins their battle of wills with her absolute scorn; an aunt endeavors to find out what secrets her nieces are keeping from her. With an omniscient narrator presiding over the neighbors in a small apartment building, the reader catches a glimpse into the surprising ways our lives are interwoven with the people around us. Saramago makes a convincing case for the power of proximity as the strongest force in a relationship.
This first book is understandably less polished than Saramago’s later works, but it’s fascinating to see the germ of his theories about love and how people should, above all, be decent to one another here in their earliest forms. He was compelled by the same themes his entire life, and now Saramago fans can discover Skylight like an entryway to the past."


O San Francisco Gate, apresenta a menção ao livro, acompanhando uma pequena biografia de José Saramago

Aqui, o link, 

"Skylight" by José Saramago: review
By Porter Shreve

"After the Portuguese writer José Saramago published his first novel, “Land of Sin,” in 1947, he spent the next several years working on a new book, “Skylight.” But when he delivered his only copy of the manuscript in 1953, his publisher failed to get back to him. Dispirited by this seeming rejection, Saramago dedicated most of his 30s and early 40s to journalism and didn’t write another novel until the 1970s. He brought out a book every year or two thereafter, breaking through with the international best-seller “Baltasar and Blimunda.”
In 1989, the publisher that had held on to “Skylight” for decades contacted the now-famous writer, saying they had unearthed the manuscript after losing it in a move and wanted to publish it. Still not over the slight, Saramago retrieved the novel but refused the offer. He won a Nobel Prize in Literature in 1998 and died in 2010, and only now has his widow, Pilar del Río, decided to publish “the book lost and found in time.”
“Skylight” is a masterwork of characterization, place and point of view. As del Río notes in her preface, it anticipates the complex female characters and many of the prototypes that would appear in Saramago’s later work, “that whole tribe of silent men, free, solitary beings who need to find love in order, however briefly, to break out of their focused, introverted way of being in the world.” The place is an apartment block in a middle-class Lisbon neighborhood soon after World War II during the Salazar dictatorship. The book falls into the small but vibrant category of fiction set in urban buildings whose inhabitants form a cross section of society, a category that includes Emile Zola’s “Pot Luck,” Gloria Naylor’s “The Women of Brewster Place,” Manil Suri’s “The Death of Vishnu” and Alaa Al Aswani’s “The Yacoubian Building.”
At first, the point of view moves like a camera, beginning in the ground-floor apartment of the cobbler Silvestre and his wife, Mariana, on a day they realize they’ll need to take in a boarder to make ends meet. We drift up to the second floor to the seamstress Isaura, who, along with her sister Adriana, barely manages to pay rent on the flat they share with their mother and aunt. Another downstairs neighbor, Justina, appears at their door to complain about the clacking of the sewing machine because it’s interrupting the sleep of her husband, Caetano, an irascible second-shift Linotype operator. On the way back to her apartment, Justina overhears other neighbors, Anselmo and Rosália.
We move to Rosália’s flat, where she’s arguing with her 19-year-old daughter, Claudhina, who has decided to stay home from work on account of a headache. We follow Claudhina downstairs to borrow the phone of the one well-off resident of the block, Dona Lídia, a kept woman who spends her days reading novels and awaiting the thrice-weekly arrival of Paulino Morais. “She knew that the only thing that bound him to her was her body, and so she took every opportunity to show it off, especially now, when her body was still young and shapely.”
Having established each character’s situation, Saramago limits the point of view of the rest of the chapters to individual apartments and the private crises taking place within them. As the focus tightens, the drama intensifies: Silvestre and Mariana’s boarder, Abel, has misled them about his past and turns out to be a mysterious drifter. One insomniac night, repressed, love-starved Isaura finds herself making an advance on her own sister. Caetano’s wandering eye leads Justina to confront him about the women whose photos he carries in his wallet, igniting a series of increasingly unsettling events. And Dona Lídia will live to regret introducing younger, prettier Claudhina to her lover, the man who pays her rent.
The events that fill “Skylight” — adultery, incest, physical, sexual and emotional abuse — are shocking on reflection but within the pages emerge so clearly out of the characters’ loneliness, frustration, longing and misery as to seem inevitable. Perhaps Saramago’s early publisher shelved the manuscript out of fear that Portugal under fascism wasn’t ready for it. But just as he writes toward the end, “At last the day had come when all secrets would be revealed,” it was only a matter of time before a work of such extraordinary honesty and perception would make its way into the world.
Porter Shreve’s fourth novel, “The End of the Book,” was published earlier this year. E-mail: books@sfchronicle.com
Skylight
By José Saramago; translated from the Portuguese by Margaret Jull Costa"



sábado, 29 de novembro de 2014

Será "Honorato" o início da metamorfose?

Será o pseudónimo de "Honorato", o início do processo da metamorfose, do qual resultou e gerou o escritor José Saramago?
Primeiro com o romance "A Viúva", publicado em 1947, sob o nome alterado pelo editor para "Terra do Pecado", este que antecede a "construção" da obra - "Claraboia", já a década de 50 estava perfeitamente em curso (1953). 
Este livro transporta consigo a curiosa introdução da assinatura sob pseudónimo - Honorato. 
Diz a história dos acontecimentos, que o resultado final foi enviado para apreciação do editor, e que terá ficado esquecido numa gaveta. Em 2011, sessenta anos depois, ganhou nova alma e saído de um lugar esquecido, vê a luz do dia, sendo publicado a título póstumo.
A "Terra do Pecado", que ficará para outro post, e a "Claraboia", são o início de um caminho. O tal "caminho que se faz caminhando", caminho da escrita publicada, que ficou pendurada ou suspensa, entre chavetas ou parênteses da vida, talvez demasiados anos até que a constante publicação literária ganhasse vida e cadência própria. Considero, que o sustento da vida quotidiana, do homem e da sua família, obrigou como é natural a concentrar toda a atenção no trabalho minimamente remunerado, atrasando o germinar do futuro escritor, com a marca de obra tardia.
Em a "Claraboia", a história, a gestão das personagens e seu compasso de "vida" estão presentes, conjuntamente com a consciência e problemática social - o "eu e os outros", porém, o estilo da escrita e pontuação, tal como o temos subentendido quando falamos em (ou de) José Saramago, não existe em 1953. Ainda não existia. Saramago, reconhece que só na criação da obra "Levantado do Chão", às paginas 22 ou 23, se fez um "milagre" (dito por si, com a dúvida sobre o criador do milagre).
Quero com isto afirmar, que a leitura da "Claraboia" deverá ser realizada com os olhos no romance mas com o pensamento numa afirmação pessoal, que ocorre nos anos idos da década de 50 do século passado.
Boa leitura!
Miguel de Azevedo   



Referência, via Biblioteca Activa, da Fundação José Saramago,
aqui, em http://www.josesaramago.org/claraboia-2011/

"- Vivemos entre os homens, ajudemos os homens.
- E que faz o senhor para isso?
- Conserto-lhes os sapatos, já que nada mais posso fazer agora."

«Claraboia é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser.» José Saramago

"Claraboia, cuja redação José Saramago terminou a 5 de Janeiro de 1953, consiste num datiloscrito de 319 páginas, assinado com o pseudónimo de «Honorato»."