Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 3 de outubro de 2020

"Preparação do programa comemorativo do centenário de Saramago arrancou hoje" (via RTP 02/10/2020)

Pilar del Río no momento da apresentação
Notícia que pode ser recuperada aqui,

em https://www.rtp.pt/noticias/cultura/preparacao-do-programa-comemorativo-do-centenario-de-saramago-arrancou-hoje_n1263553

"O Ministério da Cultura e a Fundação José Saramago assinaram hoje um acordo para prepararem conjuntamente um programa comemorativo do centenário do escritor, para 2022, que celebre e homenageie a sua vida e obra, e simultaneamente promova a leitura.

O memorando de entendimento foi assinado hoje à tarde pela ministra Graça Fonseca, e pela presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Rio, à sombra da oliveira que guarda as cinzas do escritor, em frente à Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago (FJS).

O objetivo deste acordo é preparar um programa comemorativo do centenário do escritor português, vencedor do Nobel da Literatura, que celebre a sua vida e obra, nas dimensões de escritor e de pensador; que reforce a sua presença na história cultural e literária; que promova o estudo e a difusão tanto da obra como do pensamento do autor; que estimule, através da sua obra, o conhecimento e o interesse pela literatura portuguesa e pelo património cultural português.

Segundo Graça Fonseca, o Ministério da Cultura terá um papel central no programa comemorativo, através das suas diversas instituições, mas o objetivo é que esta seja "uma iniciativa aberta a todos aqueles que queiram dar o seu contributo às comemorações".

"Festejar José Saramago é celebrar uma obra ímpar e transversal", mas é também "festejar Portugal e a língua portuguesa, num dos seus mais intensos e brilhantes cultores", assim como um dos mais significativos momentos da história recente, a atribuição do Nobel da Literatura a um português.

Para a ministra, esta será "uma oportunidade privilegiada para celebrar a obra de José Saramago, mas também para homenagear a sua figura de cidadão".

"Promover a leitura, em articulação com os setores públicos e privado, é uma missão estrutural do Ministério da Cultura, e é, como não poderia deixar de ser, um dos eixos centrais deste centenário", afirmou, sublinhando que esta promoção da leitura se reveste de um sentido mais amplo, que se estenda para lá da comunidade de leitores de José Saramago.

Neste mesmo sentido, Pilar del Rio assinalou que "este centenário vai ativar a memória" e que serão recordados temas inerentes às obras de Saramago, como a reconstrução do Convento de Mafra, ou temas políticos, como "a noite levantada de 25 de Abril, assim como se recordará Luis de Camões, Padre António Vieira, ou Gil Vicente, "que perguntou pelas alabardas e espingardas, e que José Saramago lembrou no seu último livro".

"Reviveremos momentos únicos que os livros nos proporcionam", afirmou, sublinhando que irão trabalhar para que as comemorações do centenário -- que começaram a ser preparadas em tempos de pandemia -- sejam "um acontecimento na vida cultural portuguesa".

O comissário para a celebração do centenário, Carlos Reis, destacou que este entendimento com o Ministério da Cultura é "fundamental", porque muito do que se pretende fazer "é feito ou dinamizado por organismos sob a tutela do Ministério da Cultura.

"O centenário será um momento decisivo para consolidar o escritor como referência cultural e para celebrar a literatura, que nunca foi tão importante como neste momento de angústia e medo que estamos a viver".

O centenário do nascimento de José Saramago assinala-se a 16 de novembro de 2022.


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Pilar del Río: «Seremos libres si ejercemos nuestro poder cívico» - Publicado no LaMarea (07/05/2020)

Entrevista de Olivia Carballar publicado no LaMarea em 07/05/2020 e que pode ser recuperada e consultada aqui
em https://www.lamarea.com/2020/05/07/pilar-del-rio-seremos-libres-si-ejercemos-nuestro-poder-civico/

"Entrevista a la periodista y presidenta de la Fundación José Saramago 
sobre el concepto libertad en estos días de confinamiento."

"La literatura es un lugar al que siempre volvemos. Cuando empezó todo esto, corrimos a nuestras estanterías a buscar La Peste, de Albert Camus. Buscamos 1984, de George Orwell. Y buscamos, cómo no, Ensayo sobre la ceguera, de José Saramago. Quizá es buen momento también para leer, como adultos, La flor más grande del mundo, escrito por el Nobel portugués.

“Ese cuento lanza una pregunta: ¿y si los mayores tratáramos de aprender lo que venimos enseñando desde hace tanto tiempo? ¿En qué momento nos olvidamos de los valores y el respeto que nos debemos los unos a los otros? El respeto por la naturaleza, el deber de cuidado está ahí, en ese libro de una docena escasa de páginas”, reflexiona la periodista y presidenta de la Fundación José Saramago, Pilar del Río.

Antes de responder, una frase de la Carta Universal de los Deberes y Obligaciones de las Personas propuesta por el escritor: “Mientras los derechos resaltan la libertad, los deberes expresan la dignidad con la que se ejerce la libertad”. Del Río insiste: “La ciudadanía implica deberes. La Declaración de Deberes Humanos, simetría de la de Derechos, existe. Mi trabajo es difundirla como un instrumento más contra el liberticidio”.

¿Qué es para usted la libertad?
Un derecho fundamental, como la igualdad y la solidaridad. Insisto: igualdad y solidaridad junto a libertad. 

¿Cree que en esta pandemia estamos siendo todos igual de libres –o de no libres–? 
En esta pandemia hay quien se está dando cuenta de que hay valores por encima de los intereses. Y que esforzarse, trabajar por el bien común, compensa. Para disfrutar luego más. 

¿Seremos menos libres cuando acabe todo esto, si es que acaba de alguna forma?
No si seguimos ejerciendo nuestro poder cívico: el que hoy nos hace estar en casa y mañana salir a la calle en caso de que algún poder extraño y ajeno quiera conculcar derechos. La sanidad pública, por ejemplo.  

¿Le asusta que la seguridad se imponga a la libertad? ¿Ha sentido angustia en lo que llevamos de confinamiento?
No me asusta que la seguridad se imponga a la libertad, simplemente no lo permitiré. ¿Cómo? Votando. Ejerciendo mi poder. No quiero Estados policiales; quiero, sí, Estados responsables que expliquen argumentando y sin sacar fantasmas para dar miedo. El confinamiento lo llevo bien porque sé que estoy contribuyendo al bien común, aparte de a mi propia salud.

¿Qué papel debe ejercer el Estado en la libertad de todo ser humano? Hay mucha gente enamorada ahora mismo de Portugal…
El Estado debe garantizar la libertad de todos los ciudadanos ya sea en estado de emergencia o en la normalidad, así como el acceso a los bienes comunes de que los ciudadanos conscientes se han dotado y han dotado a la sociedad. De Portugal no te digo nada: desde la Revolución del 25 de Abril hasta ahora los portugueses dan ejemplos permanentemente. Otra cosa es que no los veamos. 

¿Nos acostumbramos a no ser libres con las políticas austericidas tras la crisis de 2008?
No nos acostumbramos. De hecho, se salió a las calles y la política en España cambió, pero el poder económico, ese que no nos representa porque no se presenta a las elecciones, trazó un modelo de ser ciudadano, que ahora volverán a proponer: nos quieren indiferentes, resignados o con miedo. Con ciudadanos así el sistema vive más cómodo y hace más negocios.

¿Nos cambiará el concepto de libertad esta pandemia o volveremos a nuestra individualidad?
Espero que hayamos reflexionado. Y que nuestros sentimientos se asienten en las reflexiones de los intelectuales de este tiempo, esas voces morales que estamos necesitando oír.

¿El ser humano ha sido libre alguna vez? Otro día hablamos de las mujeres…
Seres humanos libres en sociedades que esclavizan, puede ser, sí los hay. Seres humanos libres compartiendo techo con seres humanos no libres, como las mujeres, eso no lo veo. O con los pobres. O los diferentes… En fin, la libertad, sin la igualdad, me parece algo extraño. Por eso apuesto a que la libertad, junto a la igualdad y la fraternidad son derechos, bienes, que hay que conseguir ejerciéndolos cada día. No encuentro otra."

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Pilar del Río "O último livro de José Saramago é um abraço aos leitores” - Revista Estante da FNAC (24.09.2018)

"Último Caderno de Lanzarote" - Porto Editora

"O livro que Pilar del Río descreve como um abraço de José Saramago 
aos leitores foi escrito há precisamente 20 anos mas ficou esquecido até agora 
no computador do autor português. O sexto e último volume do diário de José Saramago relata as suas experiências no ano em que conquistou o Nobel." (FNAC)

Pilar del Río "O último livro de José Saramago é um abraço aos leitores”
Revista Estante da FNAC (24.09.2018) por Tiago Matos
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

Pode ser recuperado e consultado aqui  

Nasceu em Espanha e por lá se fez jornalista, mas haveria de chamar casa também a Portugal. Tudo porque um dia, depois de ler O Ano da Morte de Ricardo Reis, decidiu visitar Lisboa e acabou por se encontrar com o seu autor. O homem com quem casou. E junto de quem permaneceu até ao fim. Vinte anos após a conquista do Nobel da Literatura por parte de José Saramago, conversámos com a mulher que preside a fundação criada em seu nome. A mulher que o continua. Pilar del Río.


O livro que Pilar del Río descreve como um abraço de José Saramago aos leitores foi escrito há precisamente 20 anos mas ficou esquecido até agora no computador do autor português. O sexto e último volume do diário de José Saramago relata as suas experiências no ano em que conquistou o Nobel. Chega em outubro às lojas FNAC.

Oito anos após a morte de José Saramago, o autor ainda se mantém presente na nossa sociedade, tanto através da literatura como das ideias que apresentava. Acha que Saramago é hoje um autor mais consensual do que quando era vivo?
José Saramago era, e é, um autor lido e amado em Portugal. E também fora de Portugal. Lê-lo provoca na experiência de leitura um antes e um depois, produz aquele corte de respiração que as grandes obras proporcionam. Não há porque ser consensual, os leitores são múltiplos, com gostos e educação distinta, mas o valor literário é inquestionável. Assim como o orgulho de tantos portugueses que viram como a obra cresceu, livro a livro, e hoje faz parte do que somos, pessoal e coletivamente. Enfim, um orgulho e privilégio de que fomos testemunha.


Na sua opinião, o que torna a obra e personalidade de Saramago tão marcantes?
O estilo literário. A honestidade intelectual. A valentia pessoal. A sua potência criadora. A capacidade para criar personagens inesquecíveis. A sua força transgressora. Talvez seja necessária ainda mais perspetiva temporal para vermos a dimensão desta pessoa com quem nos cruzámos na rua, que era igual a nós e que, no entanto, tinha o dom, a extraordinária capacidade de contar o mundo. Além disso, ao contá-lo levanta-o do chão porque nos faz a todos mais lúcidos e sábios. A sua obra literária é uma constante meditação que nos enriquece.

Foi em 1986, depois de ler O Ano da Morte de Ricardo Reis, que decidiu procurar e conhecer José Saramago.
A minha reação não foi singular: como tantos outros leitores, senti novas necessidades ao ler os seus livros. Com O Ano da Morte de Ricardo Reis soube que tinha de vir a Lisboa para incorporar esta cidade ao meu mapa pessoal. Conheço muitas pessoas que fizeram o mesmo. Insisto que a característica fundamental na obra de José Saramago é não deixar os leitores indiferentes. Depois de ler o seu livro, de uma forma ou de outra continuamos a procura dentro e fora de nós. José Saramago pedia, reclamava “leitores desassossegados”. É disso que se trata.

Será isso prova do poder que a literatura tem para mudar efetivamente a vida das pessoas?
A literatura não muda o mundo. Se assim fosse, com o tanto e de tanta qualidade que se produziu desde os gregos até hoje, o mundo seria outro. Não muda o mundo, dizia, mas a grande literatura intervém, sim, na maneira das pessoas estarem na vida. A forma de olhar e analisar o contexto e o mundo influencia, de maneira categórica, os projetos pessoais: quantas pessoas não decidiram estudar ou mudar de profissão movidas por uma leitura que fizeram de um autor? Não muda o mundo mas dá mais consciência aos leitores.

Saramago acreditava nos livros enquanto instrumento ativo de mudança?
José Saramago repetia até à saciedade que ninguém está obrigado a ler, ainda que acrescentasse, com bom humor, que “ler é bom para a saúde”. A esta frase poderíamos acrescentar outra declaração sua: “Querem-nos amedrontados, resignados ou indiferentes.” Pois a leitura faz-nos capazes de pensar e de enfrentar os lugares-comuns com que o poder – económico, social, religioso – trata de nos adormecer. Sim, ler é bom para a saúde da sociedade e também para a pessoal.

"Os prémios literários são um reconhecimento e agradecem-se. 
E, no dia seguinte, continua-se a trabalhar."

Como vê o momento atual da literatura portuguesa?
Acho que a literatura portuguesa e em português goza de boa saúde. Tenho a certeza de que a participação de Portugal como país convidado da Feira do Livro de Guadalajara, no México, servirá muito bem para se mostrar ao mundo – e também a nós – o valor e a personalidade do que hoje se está a fazer aqui.

Escrever é algo solitário, publicar é uma aventura, estar na livraria é um ato heroico, e estas três lutas podem fazer com que percamos o valor do conjunto, uma plêiade de escritores que estão a dar sentido e personalidade ao momento em que vivemos. Poderiam dizer o mesmo de todas as partes, é possível. O que sei é que aqui é certo e magnífico.

Qual foi o último livro que leu?
De literatura portuguesa, o último que li foi Estuário, da Lídia Jorge. Um livro absolutamente recomendável, um romance ambicioso e profundo que resume o mundo. Também li, há dias, ensaios de vários autores: Revolução, Meu Amor, de Maria Antónia Palla, O Mundo Não Vai Acabar, de Tatiana Salem Levy, e Filhos da América, de Nélida Piñon. Curioso, são todas mulheres…

Saramago apontou um dia Gonçalo M. Tavares como um potencial futuro vencedor do Nobel da Literatura. Na sua opinião, a literatura portuguesa – ou pelo menos a lusófona – pode ter um novo Nobel nos próximos anos?
Pois é, José Saramago apontou Gonçalo M. Tavares como escritor com obra para merecer o Prémio Nobel. Também falou de Mia Couto, tão imprescindível, e de outros escritores de língua portuguesa, mas o mais importante, prémios à parte, é saber que a literatura está viva, que é feita pelos escritores e mantida por nós, leitores.

O reconhecimento de uns e outros, escritores e leitores, é o que nos distingue e fortalece. A literatura é a memória dos países. Oxalá também nós, leitores, sejamos capazes de entender esta responsabilidade e não deixemos de estar interessados naqueles que, cada um com o seu estilo e sensibilidade, nos contam.

Foi há precisamente 20 anos que Saramago foi distinguido com o Nobel. Como é que a Pilar reagiu à notícia?
Com alegria e emoção, como tanta gente no mundo. Agora será publicado um livro (Um País Levantado em Alegria) onde Ricardo Viel, da Fundação, conta as reações que o prémio suscitou em tantos lugares e leitores. Vai ser importante que nos encontremos nessas páginas. E poderemos encontrar até nomes e apelidos, porque serão publicadas reações de notáveis e também cartas de leitores que quiseram marcar presença.

O que mudou na vida de Saramago a partir da distinção?
A vida de José Saramago continuou a ser a que era, o que mudou foi a receção dos seus livros e das suas declarações. De repente o foco sobre si aumentou de maneira impressionante. Insisto: não a responsabilidade, que era um sentido que José Saramago possuía num grau máximo, mas a difusão do que dizia. E não por ser Prémio Nobel, mas sim por ser “esse” Prémio Nobel. Antes e depois outros autores foram galardoados sem que essa repercussão acontecesse.

Digo mais: o que é normal é ser notícia apenas por um dia e ponto final. José Saramago continua a ser um referente deste tempo e o Prémio Nobel reconheceu-o na sua declaração.

Se Saramago não tivesse sido distinguido com o Nobel acha que continuaria a ser tido atualmente como um dos expoentes da literatura portuguesa?
Os prémios não fazem as literaturas, os prémios reconhecem – ou não, se são negligentes – as que existem. Sem o Nobel, José Saramago continuaria a ser o autor de Memorial do Convento, de As Intermitências da Morte, de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Ensaio sobre a Cegueira, para citar alguns títulos. E continuaria a ser, de forma absoluta, literatura universal.

"Os prémios não fazem as literaturas, os prémios 
reconhecem as que existem. 
Sem o Nobel, José Saramago continuaria a ser, de forma absoluta, literatura universal."

Como vê a decisão da Academia Sueca de suspender a atribuição do Nobel da Literatura por tempo indeterminado?
Às vezes é preciso tomar decisões fortes. O famoso “quanto pior, melhor”. Os académicos forçaram uma situação para que se mude o regulamento. Era preciso fazê-lo. Adotaram uma estratégia corajosa.

Qual é, para si, a importância dos prémios literários em geral?
São um reconhecimento e agradecem-se. E, no dia seguinte, continua-se a trabalhar.

De que forma será celebrado o 20.º aniversário da conquista do Nobel por parte da Fundação José Saramago?
A Fundação, e aqueles que a nós se associaram, decidiu celebrar os leitores. Para isso será publicado o diário do ano do Nobel, esse original que poderemos ler 20 anos depois e que parece quase uma brincadeira de José Saramago, um gesto inesperado que entendo como um abraço. Também para os leitores aparecerá Um País Levantado em Alegria, que explica como vivemos aqueles dias.

Também haverá sessões literárias na Fundação, homenagens à língua portuguesa, uma sinfonia, as obras de teatro, programas de televisão, os diversos encontros em todo o país e fora de Portugal. Enfim, não queremos que a literatura e os leitores deixem de ser notícia desde o dia 8 de outubro, quando abre o Congresso Internacional sobre José Saramago organizado pelo Professor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra.

Tal como refere, em outubro chegará às livrarias um inédito de Saramago, o sexto – e aparentemente último – Caderno de Lanzarote. Como descobriu este volume esquecido?
Descobri-o no disco rígido do computador de Lanzarote. Estava ali, escondido, à espera. Não estava à procura, encontrei-o porque havia chegado a hora de partilhá-lo.

O que podemos esperar?
Ali encontramo-nos com o homem prévio à notícia do Nobel, com o que era a sua vida e o que nela fazia, e o que aconteceu naqueles dias de outubro a dezembro de 1998. Manifestar-se-á, de forma rotunda, a austeridade, que era uma característica de José Saramago, a sua forma de ver o mundo naqueles dias em que, por decisão própria, viveu para os outros, sem guardar nada. Porque era o seu prémio, eram os seus livros, mas sem os leitores nada poderia ter acontecido. Este último livro de José Saramago é um abraço aos leitores.

Por: Tiago Matos
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

sexta-feira, 24 de abril de 2020

"Emergência climática e feminismo são as chaves para o tempo em que vivemos" Entrevista a Pilar del Río à revista "Marie Claire" Brasil 15/03/2020

"Pilar del Río: "Emergência climática e feminismo são as chaves para o tempo em que vivemos"

Jornalista, tradutora, presidenta da Fundação José Saramago e herdeira do legado do escritor português, de quem foi companheira por 22 anos, Pilar del Río fala em entrevista exclusiva à Marie Claire sobre envelhecimento, feminismo, trabalho, os principais desafios para o mundo e, sobretudo, para as mulheres nesta nova década

A entrevista pode ser consultada e recuperada aqui
em https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2020/03/pilar-del-rio-emergencia-climatica-e-feminismo-sao-chaves-para-o-tempo-em-que-vivemos.html

De Mariana Pontual (Lisboa, 15.3.20)


"Nascida na cidade de Castril, na Espanha, em 15 de março de 1950, Pilar del Rio completa 70 anos como uma verdadeira potência da natureza, reunindo "todas as forças do mundo". Faz questão de ir de metrô ao trabalho, viaja pelo mundo representando a Fundação José Saramago, é ativa e engajada no Twitter, tudo isso ao mesmo tempo em que preza por conversar e tirar fotos com os fãs de Saramago pelas ruas de Lisboa. De onde ela tira toda essa energia? Da lucidez e consciência de uma vida bem vivida.

Marie Claire. Você acaba de completar 70 anos. Essa marca lhe surpreende de alguma forma? Como vê o passar do tempo?
Pilar Del Río. Da maturidade à senilidade, dizia um sábio brasileiro. Vemos como o nosso corpo muda, como se perde agilidade e diminui-se as expectativas que criamos, ao mesmo tempo que aumenta a consciência que temos de nós mesmos. É que cada dia acumulamos mais experiências e memória, por isso podemos dizer “eu” sem tanta inseguranças e medos. E sem egoísmo, com a certeza de estar viva sabendo que o final não está tão longe.


No livro "José e Pilar" (2011), de Miguel Gonçalves Mendes, você afirma "viver todos os dias como se fosse o primeiro e como se fosse o último. Isso eu tenho muito claro toda manhã quando me levanto, que se for o último não vão ficar coisas por fazer, e que vou vivê-lo com a mesma ilusão do primeiro." O que move e confere toda essa energia a Pilar?
Saber que sou uma privilegiada, que recebi muito. Fazemos a conta? Nasci num tempo em que tínhamos água quente e numa casa onde havia comida todos os dias. Fui à escola, pude aprender a ler e continuei lendo. Nunca tive que andar muitos quilômetros para ir trabalhar, recebi salários confortáveis, tenho amigas e amigos, uma família que festeja a vida diariamente, tive encontros sentimentais surpreendentes... Nessa situação, como não vou ter forças? Tenho todas as forças do mundo. Desistir seria não restituir à vida tudo o que ela me deu, seria cometer uma injustiça.


Como encara o desafio de levar adiante o rico legado de José Saramago, mantendo vivas as suas ideias e obra? Quais as maiores dificuldades e as maiores recompensas?
Fernando Pessoa, através do heterônimo Ricardo Reis, disse: "Põe quanto és no mínimo que fazes". É o que procuro fazer para encarar o desafio, coloco tudo o que sou e tenho. E trabalho todos os dias consciente de que, não sendo o escritor, tenho a responsabilidade de continuá-lo.

As maiores dificuldades nascem da constatação dos limites: observar que a dimensão do escritor é outra e que por muito que tente, não chego ao seu nível. As maiores recompensas chegam dos leitores: quando sinto que o livro ou o espaço em que se trabalha - a Fundação, em Lisboa, ou A Casa, em Lanzarote - é incorporado por pessoas distintas, que chegam até nós para nos agradecer. Receber essas respostas compensa o esforço, e muito.

Graças aos avanços da medicina, as pessoas estão vivendo mais e a expectativa de vida aumenta a cada ano. No entanto, nossa sociedade cultua fortemente a juventude, especialmente entre as mulheres. Acha que nós, mulheres, "sofremos" mais com o envelhecer que os homens? Como você percebe e lida com essas questões?
Os chamados “valores triunfantes” da sociedade de consumo me importam muito pouco, entre outros motivos porque são claramente falsos: valora-se a juventude, dizem, mas quando um jovem se apresenta, por exemplo, a um cargo político ou um posto de responsabilidade ele é descartado por ser inexperiente. Sejamos claros, a velhice me chateia porque gostava mais da imagem que o espelho me devolvia no passado e, além disso, enxergava melhor, sem necessidade de óculos, mas não sofro por isso. Claro que os homens são “maduros” e nós somos “velhas”, isso é verdade. Mas os homens maduros são mais feios que as mulheres velhas, sobretudo são muito feios os que sustentam essa besteira que vincula beleza à juventude delas enquanto eles são obscenamente arrogantes.


Entramos em 2020 e anunciamos uma nova década. Na sua opinião, quais serão as questões mais urgentes para a humanidade nos próximos dez anos?
A irrupção das mulheres na direção da sociedade de mudanças em que agora vivemos. Os valores até agora defendidos pelo patriarcado, com os seus heróis, guerras, beligerâncias variadas, fronteiras, bandeiras, domínios e submissões, devem ser substituídos por políticas diferentes: somos uma sociedade global, existe a consciência de que temos que caber todos ou o planeta explode. Por isso, meio ambiente ou emergência climática, e feminismo são as chaves para o tempo em que vivemos. No mundo todo será assim, o novo no lugar dos discursos de prepotência social e de gênero que já não são aceitáveis.



Se fizermos uma retrospectiva para a década em que nasceu, 1950, você acha que essas questões mudaram muito? Percebe de alguma forma que estejamos talvez "regredindo" em algumas delas?
De um modo geral, progredimos. Embora as resistências, vamos avançando. Quando eu nasci, nos anos 50, Espanha e Portugal viviam em ditadura, as pessoas não tinham direito a voto e, além disso, as mulheres tinham status de obediência ao marido, e as relações estavam governadas pela religião. Na Espanha o nacional-catolicismo imperava, tudo era pecado, dogmas, religião sem espírito, nos inoculavam que fôssemos submissas e que não chamássemos atenção. Depois, nos anos 60, começaram a chegar exemplos de revoltas em outros lugares. Por muito tempo que eu viva não seria capaz de agradecer o devido ao Maio de 1968 francês, que para mim foi definitivo. Foi a liberdade, deixar atrás uma sociedade sem alegria, descobrir tantas coisas. 


E para as mulheres, quais as lutas mais urgentes nessa nova década? O que mais lhe preocupa hoje e quais os caminhos possíveis para o feminismo?
Preocupa-me que se usem as facilidades da comunicação global para vender novos tipos de escravidão e submissão. Tomara que as e os feministas saibam explicar que a igualdade é liberação para todas e todos. Precisamos de base cultural para que não nos façam de mercancia e é imprescindível a educação e o humanismo para que isso seja construído sem dogmas, a partir da cidadania. Este é o tempo da ética da responsabilidade e, no quesito responsabilidade, somos campeãs. Mesmo quando só servíamos para parir e servir, o mundo só se sustentou porque nós, mulheres, o mantivemos em pé.

É muito diferente ser feminista hoje do que nos anos 1970 na Espanha Franquista?
É muito diferente, claro que sim. Naqueles tempos não havia luz, hoje em dia conquistamos a rua, temos voz e palavra. Somos aquilo que queremos ser no trabalho, no amor e na sociedade. Isso sim, mas não podemos esquecer que muitas mulheres ainda não estão incorporadas no fabuloso mundo da política eleitoral.

O que a Pilar de 70 anos falaria para a Pilar de 20?
Que resista. Que para chegar aos 70 com força, sonhos, desejos e vitalidade é preciso ter combatido e aguentado muito. Mas é possível, se vamos juntas, claro, se consegue."

terça-feira, 21 de abril de 2020

Sobre a interpretação e poema "Nesta esquina do tempo" de José Saramago no canal RTP2 (18/11/2013)

"Magazine literário, com apresentação de Teresa Sampaio, dedicado ao livro "Nesta esquina do Tempo", poemas de José Saramago musicados por Luís Pastor, em edição bilingue (português e espanhol), comentado pelo canto-autor Luís Pastor e por Pilar del Río, com recurso à memória fílmica de uma inesquecível reunião de amigos, e pessoas improváveis, que festejaram a obra de Saramago no dia da inauguração da sua Biblioteca, em Lanzarote.

Nome do Programa: Ler+, Ler Melhor
Personalidades: Teresa Sampaio, Luís Pastor, Pilar del Río
Temas: Artes e Cultura
Canal: RTP 2
Apresentação e produção: Teresa Sampaio Realização: António Pinto

Pode ser recuperado e visualizado aqui
em https://arquivos.rtp.pt/conteudos/a-jose-saramago-nesta-esquina-do-tempo/


terça-feira, 24 de março de 2020

“Palavras para uma cidade” de José Saramago e voz de Pilar del Río

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

“Palavras para uma cidade” de José Saramago

"Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses…Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas.Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que frequentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.Talvez não seja possível falar de uma cidade sem citar umas quantas datas notáveis da sua existência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o pecado de glorificação… Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de auto-complacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria.Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. Mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: “Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam” – e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto… Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um “dia da raça”, e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje.Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “…cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada – sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.

José Saramago
Folhas Políticas 1976-1998, Caminho, 1999, pp 178 – 182

sábado, 4 de janeiro de 2020

"Pura leitura" de Pilar del Río sobre a obra "Autobiografia" de José Luís Peixoto

Publicado no blog de José Luís Peixoto
Pode ser aqui recuperado 
Capa da obra "Autobiografia" da Quetzal

"Com o ambicioso pretexto de escrever sobre outro autor, 
José Luís Peixoto entras pelos infernos da criação literária" 
Pilar del Río




quinta-feira, 13 de setembro de 2018

FOLIO Festival Literário 2018 - 27/09 - "Saramago – Os 20 anos da atribuição do prémio Nobel"

27 de Setembro - 19h00 \\\ FOLIO
Saramago – Os 20 anos da atribuição do prémio Nobel
Conversa com Anabela Mota Ribeiro e Pilar del Rio 
a propósito do lançamento do livro 
Último Caderno de Lanzarote,  (o último volume dos seus diários)
Edição Porto Editora
\\\ Casa José Saramago - Óbidos



Site Óbidos Vila Literária http://obidosvilaliteraria.com/

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Apresentação do livro "Diálogos con José Saramago" do Professor Carlos Reis na Feira do Livro de Madrid (via Real Academia Española, 05/06/2018)


A presente informação pode ser consultada e recuperada aqui



"Diálogos con José Saramago en la Feria del Libro de Madrid
Participó el director de la RAE, Darío Villanueva
Ayer se presentó en la Biblioteca Eugenio Trías el libro Diálogos con José Saramago, del ensayista y catedrático de Literatura de la Universidad de Coimbra (Portugal) Carlos Reis.

En el acto, enmarcado en las celebraciones por la Feria del Libro de Madrid, participaron, además del autor de la obra, Darío Villanueva, director de la RAE; Tomás Albaladejo, catedrático de Teoría de la Literatura y Literatura Comparada de la Universidad Autónoma de Madrid; Filipa Soares, del Instituto Camões, y la periodista y viuda del nobel de literatura portugués, Pilar del Río. 

Tal y como señaló la propia Pilar del Río, «esta obra sirvió para que Saramago recuperara de la memoria sus primeros escritos». Una obra que la editorial La Umbría y la Solana acaba de publicar en español, con traducción de Susana Gil. 


NARRADOR DE IDEAS

Darío Villanueva quiso resaltar de José Saramago que «era un gran creador», ya que tenía una conciencia de la literatura «como un sistema de relaciones insertadas en la sociedad en la que intervienen diferentes agentes. Toda esta suma es la que forma ese sistema de la literatura del que formaba parte Saramago». 

Este sistema literario, continuó Villanueva, parte de un juego entre escritor y lector. Entre uno y otro intervienen otros factores, como el editor, la censura en algunos casos, el agente literario. «Pero la obra existe en cuanto que es leída. Esta idea —añadió el director de la RAE— está muy presente en Saramago, quien reconoció que nunca se sintió escritor hasta que no tuvo muchos lectores». Un libro, añadió Villanueva, que, siendo de conversaciones, «incluye un tratado sobre literatura y nos deja una huella imborrable de quién fue José Saramago». 

Darío Villanueva también quiso referirse al nobel portugués como «un gran narrador de ideas [...]. La función extraordinaria del escritor que plantea en su obra preguntas es una cualidad de Saramago, algo que Carlos Reis ha sabido plasmar muy bien en este libro». 


DIÁLOGOS CON SARAMAGO

Si bien han pasado casi veinte años desde que «iniciamos estas conversaciones», tal y como apuntó Carlos Reis, «Saramago seguirá estando presente con nosotros siempre porque es un gran escritor».

Diálogos con José Saramago nació en Lanzarote, donde residía el nobel portugués y a donde se trasladó Reis. Se recogen en él más de siete horas de conversaciones sobre el oficio de escribir, la trayectoria personal y profesional de Saramago y su opinión sobre otros escritores que le precedieron, sobre su obra y su influencia. Tres días de trabajo en los que ambos, Saramago y Reis, hablaron sobre el lenguaje de la narración, de la inspiración y del trabajo diario, pero también sobre la vida y la condición del escritor, de sus primeras novelas y lecturas, de cómo se eligen los títulos o estos eligen al autor.


LECTURA FASCINANTE

El profesor Tomás Albaladejo recordó que la lectura de este libro tiene, como muchas obras de Saramago, «el sabor de la oralidad». Albaladejo añadió que en la obra de Saramago se hallan todas las preguntas y respuestas, así como los asuntos y problemas más importantes de la literatura. 

Diálogos con José Saramago es, como concluyó Filipa Soares, «un libro fascinante que ofrece la oportunidad a los lectores de reconocer el interior de Saramago»."




quinta-feira, 19 de abril de 2018

"20/04: Lola Dueñas e Pilar del Río apresentam «O Lagarto», em Madrid" Via Fundação José Saramago

Informação aqui 
em https://www.josesaramago.org/20-04-lola-duenas-e-pilar-del-rio-apresentam-o-lagarto-em-madrid/

"Na sexta-feira (20), às 18h, na Livraria Alberti, em Madrid, será apresentada a edição espanhola do livro «O Lagarto», que une as palavras de José Saramago e as ilustrações do artista brasileiro J.Borges.

Publicado em Espanha pela Editorial Lumen, «El Lagarto» será apresentado por Pilar del Río, autora da tradução do conto para o espanhol, e pela atriz espanhola Lola Dueñas."


quinta-feira, 29 de março de 2018

Pilar del Río: "Cultura e feminismo são indissociáveis" ao "Portal Vermelho" (São Paulo - Brasil, 12/03/2018)

A entrevista de Verônica Lugarini para o "Portal Vermelho" (São Paulo - Brasil) de 12/03/2018 a Pilar del Río, pode ser recuperada e consultada aqui

"Companheira de anos do escritor português José Saramago, a jornalista, tradutora e presidenta da Fundação Saramago, Pilar Del Río conversou com o Portal Vermelho em sua passagem por São Paulo. Com opiniões fortes, Pilar falou sobre sua relação com a literatura: “Sou admiradora da generosidade sem limites que têm os escritores e as escritoras porque compartilham sua intimidade com os leitores”. E foi por essa admiração entre leitor e escritor que conheceu Saramago."

Pilar del Río: "Cultura e feminismo são indissociáveis"
Fotografia de Eduardo Zappia

"A presença de Pilar del Río no Tucarena em São Paulo tomou o espaço. Quando Pilar se levantou para falar, o silêncio e admiração se fizeram presentes. O evento aconteceu nesta última sexta-feira, 8 de março no Dia das Mulheres.

A voz suave e aveludada da companheira do já falecido escritor José Saramago (1922 – 2010) contrasta com as palavras fortes que carregam um discurso tanto político quanto poético. 

Com bom humor, começou dizendo o motivo pelo qual opta por falar apenas em espanhol, apesar de ter a tradução como ofício e ter vivido durante 22 anos com um português.

“Sou tradutora de português para espanhol, mas há uma maldição: os falantes de português nunca falarão espanhol e os falantes de espanhol nunca vão falar português. É impossível porque somos muito próximos e, portanto, sendo duas línguas tão próximas, é melhor que falemos nossas próprias línguas”, explicou Pilar.

Muitas vezes tratada como “viúva de Saramago” por jornalistas, Pilar é incisiva ao falar que viúva é uma palavra horripilante e que "não vivia com Saramago, vivia com o José".

A forma como Pilar e José se conheceram está à altura de romances, onde a escrita une dois amores que apenas esperavam pelo momento do encontro. 

A vida do casal rendeu o documentário intitulado José e Pilar (2010), onde Saramago conta: “Um dia de junho de 1986 telefona para minha casa em Lisboa, onde eu então vivia, uma senhora que dizia chamar-se Pilar del Río, de profissão jornalista, leitora minha e que queria, uma vez que viajaria a Lisboa, gostaria, se eu tivesse tempo, de conhecer-me. E eu disse que sim senhor".

Pilar o procurou porque gostava muito do livro O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) e queria agradecer o prazer da leitura. Entre um café e uma visita ao túmulo de Fernando Pessoa a conexão estava feita e ela não seria rompida até a morte do escritor. Ainda hoje o vínculo é forte, pois Pilar preside a Fundação Saramago, mantendo a obra e as lembranças do escritor para a posteridade. 

Este ato de agradecimento que a fez conhecer Saramago é característico da tradutora e foi lembrado durante a entrevista ao Portal Vermelho quando questionada sobre sua ligação com a literatura. 

“Na literatura o que sou é leitora e admiradora. Sou uma pessoa que toda manhã quando acordo sempre digo: ‘Cinco razões para ver’. Preciso encontrar razões para ir além. Como leitora sou admiradora da generosidade sem limites que têm os escritores e as escritoras porque compartilham sua intimidade com os leitores. Me situo como leitora simplesmente, não sou uma produtora de literatura”, afirmou.

Indissociável da vida do escritor desde que se conheceram, Pilar sempre esteve conectada a vida e obra de Saramago. Pilar traduziu os livros do autor do português para o espanhol e neles, Saramago sempre se referiu a Pilar forma carinhosa, deixando claro que a aguardava para “sentir a quarta dimensão do amor”. 

Em sua dedicatória do livro As Pequenas Memórias (2006), por exemplo, ele escreveu: " A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”.

Desde 1986, ano em que se conheceram, Saramago publicou 10 romances durante sua vida e em mais da metade deles as dedicatórias são para Pilar. Em A viagem do elefante (2008) ele diz: “A Pilar, que não deixou que eu morresse” e em Caim, último livro publicado em vida (2010), ele escreve: “A Pilar, como se dissesse água”.

"Imagem do documentário "José e Pilar", 
do diretor Miguel Gonçalves Mendes (2010)"

Espanhola nascida em Sevilha em 1950, Pilar é feminista, comunista e ateia e se expressou com fervor em uma data que representa as mulheres e a luta por igualdade de direitos.

“Se nós mulheres pararmos, o mundo para. Para seguir sua órbita, o mundo precisa da força das mulheres(...). Queria dizer que precisamos do feminismo, precisamos de educação e precisamos de cultura porque é isso que somos. Somos uma voz que não se pode silenciar porque estamos estudando e porque sabemos que nossas armas não são os tanques, os fuzis, ou as armas, mas a cultura. Pois, com a cultura podemos ir mais longe”, disse aos ouvintes. 

Ao Vermelho Pilar explicou mais sobre essa reflexão:

“Todos nós, e todas as mulheres, sabemos que temos a obrigação e o dever de nos instruir, pois uma pessoa instruída é menos manipulável. E nós, mulheres, não fabricamos filhos para a guerra, nem para morrer. Queremos filhos que tenham cada vez mais capacidade de defesa. Por isso, acredito que a cultura e o feminismo são indissociáveis”. 

Questionada sobre como vê o papel da escritora nesse ambiente cultural de empoderamento feminino que levou ao aumento de publicação de livros de mulheres, Pilar citou Virginia Woolf (1882 – 1941), escritora inglesa que trabalhou questões políticas, sociais e feministas em suas obras.

“Virginia Woolf escreveu uma conferência, já publicada, que nos ensina: ‘Se a mulher não tiver um quarto próprio [em referência ao livro Um teto todo seu], dificilmente poderá escrever’. Porque a história da literatura passada não é uma história que respeitou as mulheres. As mulheres não podiam escrever, ou seja, a escrita não era feita para elas, assim como a música, a pintura, a escultura e não nos era permitido pensar e também não éramos filósofas”. 

“Ultimamente, nós mulheres, estamos ocupando o espaço. Efetivamente, a literatura é algo que se faz entre o papel e a pessoa, logo [as mulheres] têm muito mais dificuldade para publicar e quando publicam, a crítica faz muito menos caso. As escritoras estão piores colocadas e isso não é uma opinião, isso é um dado constatado. Ainda assim, nós mulheres, estamos ocupando um espaço, estamos escrevendo considerações e reflexões. E eu acho isso fantástico porque faz com que saibamos que vamos navegando contra a corrente. Ser mulher continua sendo muito difícil, mas a cada dia [estamos] mais conscientes de quem somos e nos movemos mais”.

Ainda no universo da literatura, Pilar citou escritoras que admira e novamente apareceu o nome de Virginia Woolf.

“Virginia Woolf, que citei agora mesmo, por exemplo. Outro livro é Americanah que é absolutamente maravilhoso [da autora Chimamanda Ngozi Adichie] e estão aparecendo muitas mulheres portuguesas como Lídia Jorge e Agustina Bessa-Luís. Também gosto de Lygia Fagundes Teles. Há escritoras mulheres que são muito interessantes porque têm sempre uma perspectiva distinta”.

Política 

Ainda em seu discurso para o público, na maioria mulheres, Pilar destacou o papel das mulheres latino americanas.

"Pilar del Río durante seu discurso no Tucarena em 8 de março de 2018"

“Uma coisa que se repetia na manifestação e na passeata era: A América Latina será feminista. Por que até agora, as mulheres participaram pouco na construção deste continente e, talvez por isso, esse continente esteja mal. (...) Está tão mal porque sempre houveram elites que governavam (...), elites que não deixaram as mulheres governarem”.

E citou mulheres que hoje estão na política como Michelle Bachelet, presidenta do Chile e Cristina Kirchner, ex-presidenta da Argentina e Dilma Rousseff, ex-presidenta do Brasil que sofreu um impeachment, que chegou ao poder com a proposta de dar continuidade à eficácia do serviço público. Entretanto, ser mulher e ter características femininas pesaram na hora do impeachment.

“Minhas queridas, somos o futuro e temos direitos, todos, mas também temos uma obrigação que é salvar os nossos países porque temos que salvar a humanidade e precisa ser agora, não depois de amanhã. Vamos acabar já com o poder patriarcal”. 


quarta-feira, 21 de março de 2018

Pilar del Río: “El mayor defecto de Saramago era una virtud, no transigir ante el poder, su honestidad” Entrevista de José Antequera a Pilar del Río (La Crónica del Pajarito, 29/10/2017)

A entrevista de José Antequera a Pilar del Río (La Crónica del Pajarito, 29/10/2017) pode ser recuperada e consultada, aqui

Pilar del Río: “El mayor defecto de Saramago era una virtud, 
no transigir ante el poder, su honestidad”

“Nunca he tenido miedo a ser engullida ni por el ser humano ni por el genio. Conviví con un ser humano de igual a igual, como no puede ser de otra manera en las relaciones de pareja”

"Pilar del Río, presidenta de la Fundación José Saramago
(Foto: Joao Lima/Expresso)"

"Todos los relojes siguen parados a las cuatro en punto de la tarde. Todos y cada uno de ellos. Como si se tratara de una de las asfixiantes y terroríficas alegorías noveladas del genial escritor portugués. A esa hora, justo a las cuatro en punto, se conocieron José y Pilar, y así han quedado las manecillas de los relojes que él coleccionaba, apuntando para siempre hacia ese norte amoroso que marcó la relación entre ambos. “Sí, es verdad, siguen marcando las cuatro de la tarde, cómo iba a interferir yo en un acto poético de esa magnitud”, asegura Pilar del Río (Castril, 1950). Hace ya siete años de aquel odioso 18 de junio en que la maquinaria biológica, el reloj cardiaco de José Saramago, dejó de funcionar. Siete años sin la voz luminosa de la humanidad, siete años huérfanos de Saramago. Desde que él nos dejó, el mundo parece un lugar mucho más negro y oscuro de lo que ya era. Cómo hemos podido seguir viviendo sin él. Hoy Pilar, su esposa, que no su viuda porque ella “muerde” cuando le cuelgan ese funesto cartel, sigue presidiendo en Lisboa la fundación que lleva el nombre del premio Nobel. “No, nunca he tenido miedo a ser engullida ni por el ser humano ni por el genio. Conviví con un ser humano de igual a igual, como no puede ser de otra manera en las relaciones de pareja. En cuanto a escritor e intelectual, lo admiré y admiro tal como hacen miles de personas en el mundo. Y trabajar en su obra es un privilegio, no una merma”. En sus conferencias y charlas por todo el mundo, la periodista y traductora no para de recitar páginas enteras de Saramago en una especie de ofrenda literaria póstuma tan hermosa como extenuante. Su voz es el instrumento que pone música a la letra inmortal del escritor. Un párrafo de una novela o un artículo de prensa aquí, una cita o un pensamiento allí… Para que no se nos olviden las verdades que nos dejó de puño y letra y que ya no queremos escuchar. Y así, mientras Pilar sigue hablándonos de Saramago, él se mantiene vivo en nuestra memoria.

¿Cómo fue el momento mágico? Quiero decir, ¿cómo conociste a José Saramago?
El momento mágico lo sitúo en la librería Repiso de Sevilla, un lunes por la tarde. En un estante del fondo a la izquierda vi un libro de un autor para mí desconocido que me llamó la atención por el título. Se trataba de Memorial del convento. Leí el primer párrafo, me quedé admirada, lo leí en voz alta para las amigas con las que estaba, a cada una le regalé el libro y me fui a casa para seguir leyendo. Eso ocurrió en 1986. Desde entonces no he parado de leer a José Saramago…

Tengo entendido que él decidió detener su colección de relojes a las cuatro en punto, como símbolo de amor hacia ti, ya que os conocisteis a esa hora. ¿Y así siguen los relojes, parados a esa hora?
Siguen marcando las cuatro de la tarde, cómo iba a interferir en un acto poético de esa magnitud…

De alguna manera te enamoraste de un hombre inmortal. ¿Tuviste miedo en algún momento a ser engullida por el genio, a quedar anulada como profesional o incluso como persona?
No, nunca he tenido miedo a ser engullida ni por el ser humano ni por el genio. Conviví con un ser humano de igual a igual, como no puede ser de otra manera en las relaciones de pareja. En cuanto a escritor e intelectual, lo admiré y admiro tal como hacen miles de personas en el mundo. Y trabajar en su obra es un privilegio, no una merma.

Pero renunciaste a buena parte de tu vida por él… ¿Qué te dio Saramago y qué te arrebató?
Dejé de trabajar en periodismo para dedicarme a otras actividades, simplemente. Y José Saramago me aportó lucidez, como a todos sus lectores, y además un idioma, el portugués, y una cultura de la que sabía muy poco y ahora conozco bastante mejor.

La literatura os unía de alguna manera, ¿compartíais gustos por los mismos autores o en eso seguíais caminos diferentes?
Unas veces sí, otras no. Él tenía una especial predilección por Kafka que yo no compartía. Tampoco él era tan perdido de amores por Joyce como lo soy yo, aunque claro que lo leía e incluso fuimos a Dublín a vivir un Bloomsday. Él leía mucha poesía, también ciencia ficción, yo seguía otros caminos.

Pero supongo que habría intercambios encendidos de opiniones, discusiones literarias (y de las otras más domésticas) como en cualquier otra pareja…
Muchas discusiones y muchas risas. Vivíamos en un estado permanente de libertad de expresión y de discusión como estrategia para no caer en el conformismo o en el lugar común. Es importante estimularse intelectualmente y nada mejor que el contraste de pareceres, nunca considerar que no merece la pena discutir: eso es falta de respeto y ahí, caer en la falta de respeto, es de miserables. Bendito sea el debate.

Como traductora y correctora de sus obras al español, ¿te dejaba él libertad para interpretar sus textos o era un jefe inflexible en ese aspecto?
Tener al autor cerca no da libertad a la hora de traducir, siempre le decía que si volviera a nacer querría traducir a un autor de un idioma lejano, el japonés, por ejemplo, y de cinco siglos atrás, para que no me preguntara por qué tomaba determinadas decisiones… Bromas aparte, él no interfería nunca, pero es verdad que yo tampoco me sentía como pez en el agua. He traducido en estado de emoción permanente y eso puede ser una sobrecarga para el lector.

¿Era un hombre con el que resultaba fácil convivir o al contrario tenía esas típicas manías de genio?
Era muy fácil convivir con José Saramago y no tenía esas manías que suelen tener otros escritores, al menos cuando los vemos representados en cine o son retratados… En ese aspecto carecía de aura o “romanticismo”: escribir era un trabajo que hacía con dedicación, cuidado y esmero y punto, sin dramas, ansiedades o angustias.

¿Cuál era su principal virtud?
La honestidad.

¿Y su defecto más notable?
Era una virtud: No transigir ante el poder. Es decir, la honestidad…

¿Con qué se entretenía cuando no estaba escribiendo? ¿Le gustaba el cine, la música, veía algo de televisión?
Adoraba el cine, veía televisión, se reunía con amigos, le encantaba que vinieran amigos a casa, a Lanzarote, se organizaban muchas cenas en nuestra cocina, que está preparada para convivir y para la tertulia. Un paraíso.

Compartiendo tantas cosas como vosotros imagino que también le servirías como fuente de inspiración, ¿cuántas novelas de Saramago están atravesadas por la sombra de Pilar del Río?
Lo que ocurre a lo largo de la vida, las personas que conocemos, las lecturas, los viajes, las distintas experiencias, todo influye en lo que somos y hacemos, pero nunca me convertiría en detective para ver qué hay de mí en la obra de José Saramago.

¿Cuál de todas sus obras sientes más tuya, más influenciada por ti?
No siento ninguna influenciada por mí, sé que desde La balsa de piedra escribió viviendo en compañía de alguien que aparentemente no formaba parte de su entorno: otro país, otro idioma, otra edad. Y esas circunstancias, todas ellas, no parece que fueran negativas, podemos decir viéndolo ahora en retrospectiva.

Los últimos años de su vida sufrió mucho a causa de una larga enfermedad y tú estuviste a su lado hasta el último momento. ¿Qué era lo que más te dolía de verlo así? 
Aunque te parezca duro lo que te voy a decir, no iba sufriendo, simplemente sabía, lo sabíamos los dos, que la naturaleza tiene leyes que son imbatibles. Lo bueno fue que nunca tuvo dolores, escribió hasta meses antes de morir, hizo la vida posible. Ninguno de los dos queríamos cosas imposibles, no perdimos el tiempo en lamentaciones, tratamos de ser eficaces ante la adversidad y punto. Vivimos los dos la vida y la muerte como decidimos hacerlo, sin dar cuentas ni explicaciones.

Pero estuvo escribiendo hasta el final, de hecho preparaba una última novela cuando le sorprendió la muerte. ¿Veremos algún día una nueva novela de Saramago o ya está todo publicado?
Ya está publicada: se titula Alabardas y es un portento de lucidez. Trata de la fabricación de armas, del negocio de las armas, pero no visto desde el fabricante que quiere ganar dinero y para eso se pone de acuerdo con el gobernante, a veces también con el traficante, para organizar guerras y poder seguir experimentando y fabricando armas nuevas de tal manera que unos amplíen beneficios económicos y otro áreas de poder. No, José Saramago dice algo más importante que esto de la fabricación y comercio, se fija en el honesto ciudadano que trabaja en la fábrica de armas y vota a quien le asegure que mantendrá su puesto de trabajo porque se seguirán creando zonas de conflicto en el mundo. Esta novela no fue acabada, pero no importa, el planteamiento está ahí, la reflexión y la historia. Es una novela imprescindible, tanto que a veces pienso que se trata de ocultar del panorama. La portada de Alabardas es un dibujo antibélico de Gunter Grass, que colaboró de esa manera –además del dibujo de la portada hay otros en el interior– con el proyecto del amigo ya muerto. También Roberto Saviano escribe en este libro último de José Saramago.

Hoy presides la Fundación José Saramago y luchas por los derechos humanos. ¿Hemos avanzando o retrocedido en los últimos años en la defensa de los valores humanistas?
Hoy sabemos que hay derechos, aunque no se cumplan. Hoy sabemos que no se puede presumir de tener esclavos aunque haya gente condenada a la esclavitud. En eso hemos avanzado, pero hemos retrocedido porque, disponiendo de tecnología para hacer más agradable la vida de muchos, permitimos que haya continentes enteros sufriendo las consecuencias del desarrollo de algunos. Tenemos derechos, sí, también tenemos deberes. En la Fundación trabajamos en esta segunda parte, los deberes, como si todo dependiera de nosotros. Es un mandato que asumimos a partir del discurso del Nobel.

Las novelas de Saramago son profundamente filosóficas, le gustaba provocar la reacción del lector tocando grandes temas existenciales. ¿Es ese el problema de la humanidad, nos hemos olvidado de la filosofía?
No sé si nos hemos olvidado o simplemente nos hemos dejado embrutecer. Gobernar a consumidores conformistas es mejor que tratar con seres libres, que discuten, reivindican, plantean exigencias, avanzan.

Y con las redes sociales nos hemos hecho quizá más egoístas y superficiales. ¿Qué pensaba Saramago del mundo virtual, de internet?
Los caminos, y las redes son caminos, no nos hacen mejores ni peores. Saramago usaba internet, escribió un blog que también luego se publicó en formato libro, los titulados Cuaderno de Saramago 1 y 2, se comunicaba con amigas y amigos de todo el mundo a través de email. Saramago nunca desistió de usar un medio que le facilitaba la vida. Lo entendía como un instrumento y sabía usarlo.

¿Qué hubiera dicho (o escrito) Saramago sobre esta oleada de terror suicida que se extiende por todo el mundo?
Nunca me permitiría el lujo de decir qué habría hecho o qué haría Saramago, sé lo que hizo y dijo. Escribió Ensayo sobre la ceguera primero y luego Ensayo sobre la lucidez. Creo que ahí está todo dicho, el terror suicida, sus causas lejanas, sus consecuencias atroces en los países y en las personas. En Caín reflexionó con amargura acerca del papel de las religiones, del factor Dios, en tantos conflictos de la historia de la humanidad.

El sistema económico que aplasta al hombre, la sociedad de consumo, la pérdida de identidad del individuo son grandes asuntos en la obra de Saramago. ¿Crees que hay esperanza para los que nada tienen o todo irá a peor?
Lo de tener confianza en el presente y en el futuro es asunto a decidir entre todos. Si queremos una sociedad de consumidores excluiremos a quienes no puedan consumir, en la esperanza de que no nos toque a nosotros. Si optamos por ser ciudadanos, tendremos que ser protagonistas de nuestro tiempo, pensar, intervenir, cuestionar, asumir responsabilidades… Eso da trabajo, pero también satisfacciones.

Porque además parece que los ciudadanos seguimos estando un tanto adormecidos…
Adormecidos nos quieren. Resignados, indiferentes o temerosos: ese es el plan. En nuestras manos está contradecir este proyecto.

¿Por qué ni siquiera un movimiento ciudadano tan brutal como el 15M ha conseguido esa revolución social tan necesaria?
Creo que el 15M consiguió mucho, cambió paradigmas en España. Ver la sociedad política de hoy y la de hace unos años es ver la diferencia que existe entre el día y la noche. Desde la jefatura de Estado a la gente en la calle han cambiado muchas cosas, hay representantes de la sociedad en ayuntamientos y parlamentos de manera que era impensable hace 10 años. Y a estos cambios se les tiene miedo: basta ver la inquina con la que los medios de comunicación tratan lo nuevo que ha surgido en España para entender que le teme, que piensan que si lo nuevo avanza con firmeza ellos van a perder privilegios que creían suyos. Se necesita tiempo para avanzar, pero este país salió con el 15M de cierta modorra y ahora está tratando de avanzar de acuerdo con criterios que son propios, intentando vencer las normas que imponen los “elegidos” de arriba. Costará, pero el pasado es pasado y hemos entrado en otra era.

Saramago siempre mostró un gran compromiso político y social con los más desfavorecidos. ¿Ha perdido la literatura de hoy ese compromiso?
En absoluto: la literatura no tiene por objetivo cambiar el mundo, sí llegar a los lectores y eso cada autor lo hace como considera conveniente. José Saramago decía que escribía para desasosegar. En estos momentos estoy leyendo El cuento de las criadas, de Margaret Atwood, que recomiendo vivamente. Hay muchos escritores contemporáneos que nos hacen más humanos y más grandes al leerlos, y esto es importante no solo para cada uno de nosotros, que lo es, también es importante para las sociedades.

¿Y el periodismo? Tampoco parece atravesar por su mejor momento…
Hay muchos medios que están intentado sobrevivir al poder de los grandes grupos hegemónicos,  a pensamiento –y verdad– únicos. La sociedad digital nos ayuda a lectores y a  profesionales en el intento de combatir las hegemonías del pasado. Como decía García Márquez, ahora podemos hacer periódicos –o radios, o televisión– desde el valor de contar, actuando como si esta profesión de verdad fuera la más bonita del mundo, sin necesidad de pasar por los filtros e intereses de los grandes grupos multimedia.

¿Le perjudicó a José su condición de comunista y ateo? ¿Fue un hándicap en su carrera literaria?
No, por favor. Para quienes eso fuera un impedimento es que ya estaban antes fuera del tiempo y del universo de la literatura.

La izquierda en España, y también en Europa, vive momentos de crisis. ¿A qué crees que es debido?
A que ha faltado reflexión. No a la izquierda política, que esa gestionaba, digo a la izquierda social, a la universidad como foro que lanza ideas, a los centros de cultura, a los profesionales… Creo que hubo una cierta retirada de los espacios públicos, que fueron de nuevo tomados por la tradición y los grupos conservadores, de modo que llegó un día en que la izquierda progresista y libre se encontró sin lugar, perpleja, preguntándose cómo ha sucedido esto. La izquierda se tiene que reconstruir desde la ideas y también desde las movilizaciones. Los seres humanos somos razón y conciencia, que no se nos olvide.

Has decidido nacionalizarte portuguesa, ¿qué te empujó a hacerlo? ¿tan harta has acabado de España?
Solicité la nacionalidad portuguesa por romanticismo y también por una razón práctica: pagar en Portugal los impuestos que podría generar la obra de José Saramago en el mundo. Él era portugués, pagar los impuestos en su país era, para él, insisto, una regla de obligado cumplimiento, y yo no quise abandonar esta práctica, así que me hice portuguesa. O también portuguesa. Ya me queda menos para cumplir mi sueño, que es tener tantas nacionalidades como amigos en el mundo…

Saramago apostaba por una Unión Ibérica entre España y Portugal, ¿estás de acuerdo con esa idea utópica?
Estoy de acuerdo en la necesidad de entendimiento entre los pueblos y las sociedades, y parece que en eso estamos, basta ver la gente que va y viene de un extremo a otro de la península, recorriéndola… En cuanto a los estados, prefiero el federalismo a otra cosa, pero la verdad es que el discurso de las banderas y las patrias no me emociona, como decía la canción que cantábamos contra Franco, la música militar no me hace levantar…

Ahora que se aproxima el referéndum en Cataluña no sería tan mala idea…
Pues sí, sería bueno que los catalanes y los otros pueblos de la península se pudieran expresar acerca de si quieren formar parte de un estado federal o confederal atendiendo a la geografía y a las razones históricas… Pero esto no va a pasar, el poder político es conservador, en el caso de España lo de “una, grande y libre” está muy arraigado, parece, según se oye, que tendremos estas fronteras hasta el final de los tiempos, cueste lo que cueste, dicen algunos… Y será así hasta que las sociedades consigan argumentar en todos los foros, expresándose con razones y diciendo claro si quieren ser plurales y plurinacionales. Yo prefiero ser plural e igual a otros que cobijarme en discursos excluyentes, que detesto.

Lo cierto es que en España pasan cosas extrañas, como ese fiscal anticorrupción que tenía una cuenta en Panamá. ¿Eso también pasa en Portugal?
Sí pasa: la corrupción está en los seres humanos y en todas partes. Luego, como ciudadanos, tenemos que votar y vigilar para que haya leyes justas. Ese es nuestro trabajo.

Libertad, igualdad, fraternidad… qué lejos parecen quedar esos nobles ideales ¿no?
Intentemos hacerlos posibles. Lo lejano se acerca si nos acercamos.

Siempre has sido una feminista convencida. Con Trump en el poder, ¿es el feminismo más necesario que nunca?
Trump es una anécdota, terrible, sí, pero anécdota. El feminismo es necesario porque es una teoría de igualdad entre hombres y mujeres. Sin esta igualdad no puede haber justicia. Somos diversos pero iguales. Los movimientos feministas estamos tratando de vencer inercias, prácticas y teorías históricas para hacer del planeta un lugar en que nacer y vivir como mujer no sea una condena o un hándicap. El feminismo es dignidad. Por cierto, esta tesis de dignidad está presente en todos los libros de José Saramago, no necesitaba teorizar para atribuir a las mujeres el papel de coprotagonistas que la historia y el patriarcado que dicta los comportamientos vienen negando desde siempre, aunque, ya lo sabemos, enfrentando al sentido común.

En tus conferencias vas intercalando párrafos de la obra de Saramago, como tratando de mantener viva su voz. ¿Te preocupa que esa voz se pueda perder algún día?
No me preocupa y no creo que suceda: es demasiado limpia, inteligente, lúcida, compasiva y solidaria esa voz como para perderse. José Saramago, y lo sabemos millones de lectores, es nuestro mejor yo, no lo vamos a perder.

¿Te molesta que te sigan conociendo como “la viuda de Saramago”?
Me molesta mucho porque nunca me he definido a mí misma por mis vinculaciones familiares o afectivas, por ser hija, madre o esposa, mucho menos por haber sido algo de eso… Y me molesta que los compañeros me llamen así porque demuestran un alto nivel de pereza intelectual, es tirar por lo obvio, lo más fácil. Definir a una persona en base a las relaciones que tiene con otra es faltarle el respeto: somos lo que hacemos de nosotros mismos, no lo que dicta el entorno que tenemos, sea el que sea. O sea, muerdo si oigo lo de “viuda de”. Puestos a simplificar, se puede decir que trabajo en el “proyecto Saramago”.  Por lo menos da qué pensar.