Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sexta-feira, 24 de abril de 2020

"Emergência climática e feminismo são as chaves para o tempo em que vivemos" Entrevista a Pilar del Río à revista "Marie Claire" Brasil 15/03/2020

"Pilar del Río: "Emergência climática e feminismo são as chaves para o tempo em que vivemos"

Jornalista, tradutora, presidenta da Fundação José Saramago e herdeira do legado do escritor português, de quem foi companheira por 22 anos, Pilar del Río fala em entrevista exclusiva à Marie Claire sobre envelhecimento, feminismo, trabalho, os principais desafios para o mundo e, sobretudo, para as mulheres nesta nova década

A entrevista pode ser consultada e recuperada aqui
em https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2020/03/pilar-del-rio-emergencia-climatica-e-feminismo-sao-chaves-para-o-tempo-em-que-vivemos.html

De Mariana Pontual (Lisboa, 15.3.20)


"Nascida na cidade de Castril, na Espanha, em 15 de março de 1950, Pilar del Rio completa 70 anos como uma verdadeira potência da natureza, reunindo "todas as forças do mundo". Faz questão de ir de metrô ao trabalho, viaja pelo mundo representando a Fundação José Saramago, é ativa e engajada no Twitter, tudo isso ao mesmo tempo em que preza por conversar e tirar fotos com os fãs de Saramago pelas ruas de Lisboa. De onde ela tira toda essa energia? Da lucidez e consciência de uma vida bem vivida.

Marie Claire. Você acaba de completar 70 anos. Essa marca lhe surpreende de alguma forma? Como vê o passar do tempo?
Pilar Del Río. Da maturidade à senilidade, dizia um sábio brasileiro. Vemos como o nosso corpo muda, como se perde agilidade e diminui-se as expectativas que criamos, ao mesmo tempo que aumenta a consciência que temos de nós mesmos. É que cada dia acumulamos mais experiências e memória, por isso podemos dizer “eu” sem tanta inseguranças e medos. E sem egoísmo, com a certeza de estar viva sabendo que o final não está tão longe.


No livro "José e Pilar" (2011), de Miguel Gonçalves Mendes, você afirma "viver todos os dias como se fosse o primeiro e como se fosse o último. Isso eu tenho muito claro toda manhã quando me levanto, que se for o último não vão ficar coisas por fazer, e que vou vivê-lo com a mesma ilusão do primeiro." O que move e confere toda essa energia a Pilar?
Saber que sou uma privilegiada, que recebi muito. Fazemos a conta? Nasci num tempo em que tínhamos água quente e numa casa onde havia comida todos os dias. Fui à escola, pude aprender a ler e continuei lendo. Nunca tive que andar muitos quilômetros para ir trabalhar, recebi salários confortáveis, tenho amigas e amigos, uma família que festeja a vida diariamente, tive encontros sentimentais surpreendentes... Nessa situação, como não vou ter forças? Tenho todas as forças do mundo. Desistir seria não restituir à vida tudo o que ela me deu, seria cometer uma injustiça.


Como encara o desafio de levar adiante o rico legado de José Saramago, mantendo vivas as suas ideias e obra? Quais as maiores dificuldades e as maiores recompensas?
Fernando Pessoa, através do heterônimo Ricardo Reis, disse: "Põe quanto és no mínimo que fazes". É o que procuro fazer para encarar o desafio, coloco tudo o que sou e tenho. E trabalho todos os dias consciente de que, não sendo o escritor, tenho a responsabilidade de continuá-lo.

As maiores dificuldades nascem da constatação dos limites: observar que a dimensão do escritor é outra e que por muito que tente, não chego ao seu nível. As maiores recompensas chegam dos leitores: quando sinto que o livro ou o espaço em que se trabalha - a Fundação, em Lisboa, ou A Casa, em Lanzarote - é incorporado por pessoas distintas, que chegam até nós para nos agradecer. Receber essas respostas compensa o esforço, e muito.

Graças aos avanços da medicina, as pessoas estão vivendo mais e a expectativa de vida aumenta a cada ano. No entanto, nossa sociedade cultua fortemente a juventude, especialmente entre as mulheres. Acha que nós, mulheres, "sofremos" mais com o envelhecer que os homens? Como você percebe e lida com essas questões?
Os chamados “valores triunfantes” da sociedade de consumo me importam muito pouco, entre outros motivos porque são claramente falsos: valora-se a juventude, dizem, mas quando um jovem se apresenta, por exemplo, a um cargo político ou um posto de responsabilidade ele é descartado por ser inexperiente. Sejamos claros, a velhice me chateia porque gostava mais da imagem que o espelho me devolvia no passado e, além disso, enxergava melhor, sem necessidade de óculos, mas não sofro por isso. Claro que os homens são “maduros” e nós somos “velhas”, isso é verdade. Mas os homens maduros são mais feios que as mulheres velhas, sobretudo são muito feios os que sustentam essa besteira que vincula beleza à juventude delas enquanto eles são obscenamente arrogantes.


Entramos em 2020 e anunciamos uma nova década. Na sua opinião, quais serão as questões mais urgentes para a humanidade nos próximos dez anos?
A irrupção das mulheres na direção da sociedade de mudanças em que agora vivemos. Os valores até agora defendidos pelo patriarcado, com os seus heróis, guerras, beligerâncias variadas, fronteiras, bandeiras, domínios e submissões, devem ser substituídos por políticas diferentes: somos uma sociedade global, existe a consciência de que temos que caber todos ou o planeta explode. Por isso, meio ambiente ou emergência climática, e feminismo são as chaves para o tempo em que vivemos. No mundo todo será assim, o novo no lugar dos discursos de prepotência social e de gênero que já não são aceitáveis.



Se fizermos uma retrospectiva para a década em que nasceu, 1950, você acha que essas questões mudaram muito? Percebe de alguma forma que estejamos talvez "regredindo" em algumas delas?
De um modo geral, progredimos. Embora as resistências, vamos avançando. Quando eu nasci, nos anos 50, Espanha e Portugal viviam em ditadura, as pessoas não tinham direito a voto e, além disso, as mulheres tinham status de obediência ao marido, e as relações estavam governadas pela religião. Na Espanha o nacional-catolicismo imperava, tudo era pecado, dogmas, religião sem espírito, nos inoculavam que fôssemos submissas e que não chamássemos atenção. Depois, nos anos 60, começaram a chegar exemplos de revoltas em outros lugares. Por muito tempo que eu viva não seria capaz de agradecer o devido ao Maio de 1968 francês, que para mim foi definitivo. Foi a liberdade, deixar atrás uma sociedade sem alegria, descobrir tantas coisas. 


E para as mulheres, quais as lutas mais urgentes nessa nova década? O que mais lhe preocupa hoje e quais os caminhos possíveis para o feminismo?
Preocupa-me que se usem as facilidades da comunicação global para vender novos tipos de escravidão e submissão. Tomara que as e os feministas saibam explicar que a igualdade é liberação para todas e todos. Precisamos de base cultural para que não nos façam de mercancia e é imprescindível a educação e o humanismo para que isso seja construído sem dogmas, a partir da cidadania. Este é o tempo da ética da responsabilidade e, no quesito responsabilidade, somos campeãs. Mesmo quando só servíamos para parir e servir, o mundo só se sustentou porque nós, mulheres, o mantivemos em pé.

É muito diferente ser feminista hoje do que nos anos 1970 na Espanha Franquista?
É muito diferente, claro que sim. Naqueles tempos não havia luz, hoje em dia conquistamos a rua, temos voz e palavra. Somos aquilo que queremos ser no trabalho, no amor e na sociedade. Isso sim, mas não podemos esquecer que muitas mulheres ainda não estão incorporadas no fabuloso mundo da política eleitoral.

O que a Pilar de 70 anos falaria para a Pilar de 20?
Que resista. Que para chegar aos 70 com força, sonhos, desejos e vitalidade é preciso ter combatido e aguentado muito. Mas é possível, se vamos juntas, claro, se consegue."

quinta-feira, 8 de março de 2018

Entrevista de Pilar del Río à revista "marie claire" da Globo (02/09/2017)

Entrevista de Adriana Ferreira Silva da revista "marie claire" (Globo Brasil), publicada em 02/09/2017 e que pode ser consultada e recuperada aqui

Pilar del Rio: "Nunca fui 'esposa de José Saramago', muito menos seria 'viúva de'. 
É uma palavra horripilante"

Companheira do escritor português José Saramago, Pilar del Río fala sobre o dia a dia com o Nobel de Literatura em entrevista exclusiva à Marie Claire. Ela também conta detalhes da amizade entre ele e o brasileiro Jorge Amado, que resultou numa troca de correspondências reunida no livro "Com o Mar por Meio - A Amizade de Jorge Amado e José Saramago em Cartas"


Madrid / 2009 

Não há nada que ofenda mais a jornalista Pilar del Río do que ser chamada de “a viúva de Saramago”. “Nunca fui ‘esposa de’, muito menos seria a ‘viúva de’, diz à Marie Claire. “Além disso, é uma palavra horripilante.” A história de amor da espanhola de 67 anos com o único Prêmio Nobel em língua portuguesa, morto em 2010, é, por si só, digna de um livro. Ela conheceu Saramago quando tinha 36 e ele, 64. Procurou-o para dizer o quanto era apaixonada pela obra O Ano da Morte de Ricardo Reis – e, assim, ele se apaixonou por ela. Dois anos depois, estavam casados e nunca mais se desgrudaram. Faziam todas as turnês juntos e ela se tornou sua tradutora para o espanhol e a primeira leitora de todos os livros que vieram a seguir.

Em uma viagem à Alemanha, conheceram o casal Jorge Amado e Zélia Gattai. Começava ali uma amizade que seguiria até a morte do baiano, em 2001. Os detalhes dessa parceria surgem agora em Com o Mar por Meio – A Amizade de Jorge Amado e José Saramago em Cartas (Cia. das Letras, 120 págs., R$ 59,90), que reúne a correspondência trocada entre os dois (com interferências carinhosas de Pilar e Zélia). A obra traz preciosidades, como o texto que o português escreveu quando soube da partida do amigo. Nesta entrevista, Pilar, que preside a Fundação José Saramago, fala sobre a convivência entre os dois e também sobre seu relacionamento com o companheiro de vida. 

MC Como conheceram Jorge Amado?
PR O encontro pessoal foi tardio, na década de 80. O literário, muito anterior. Creio que a primeira vez que nos vimos foi na Alemanha: Jorge Amado estava rodeado de gente e houve um breve intercâmbio de cumprimentos. Depois, em Lisboa, começou o tratamento entre camaradas. Viajaram juntos por diversos países, partilharam iniciativas e conversas.

MC Como era o relacionamento com Jorge e Zélia?
PR Quando nos encontrávamos, era como se o tempo não passasse. Um continuar de uma conversa começada meses antes. Isso é amizade, não é? Sem cerimônias e protocolos.

MC Que boas lembranças tem dos encontros com o casal de amigos?
PR De histórias engraçadas e brincadeiras. Lembro dos sofás que Jorge tinha na casa de Paris: ele dizia que um era primeira classe e o outro, classe turística. Dormi uma siesta uma vez no business. Lembro também da definição que um menino fez de Jorge Amado uma vez, sem saber que ele estava no grupo que caminhava no Pelourinho, em direção à Fundação Jorge Amado. O garoto falou que, naquela casa, tinha vivido um escritor “muito famoso do século 15”, e Jorge disse que isso, sim, era a imortalidade.

MC Como Saramago recebeu a notícia da morte de Amado?
PR José tinha aceitado a ideia de viver num tempo em que Jorge não estivesse, pois ele esteve doente vários anos, e isso fez com que os amigos se habituassem à sua ausência. Mas a notícia foi um golpe. José escreveu sobre ele considerando-o vivo. Preferia pensar que, um dia, o fax, àquela altura pouco usado, voltaria a imprimir uma nota manuscrita com a festiva letra de Jorge Amado.

MC Você viveu mais de 20 anos com Saramago. Como foi recriar a rotina sem ele?
PR Não tenho rotina. Desde o momento em que começamos a vida em comum, sabíamos que, por lei natural, ele morreria antes. Vivemos sempre com a consciência de que cada dia era único. Insisto, sem rotina. Com o que aprendi vivendo assim continuo a viver depois de sua morte: são muitos anos de recordações acumuladas.

MC O que guarda da convivência com ele?
PR A naturalidade da vida sem preconceitos, sem normas que invariavelmente podam a liberdade e os melhores valores da gente.

MC Você não gosta de ser chamada de “a viúva de Saramago”. Acha que, se fosse a senhora a escritora famosa, ele seria “o viúvo de Pilar”? Ou isso é reflexo do machismo?
PR Obviamente é reflexo do machismo e do patriarcado asfixiante em que vivemos. Claro que os homens não são os “viúvos de...”. Mas, além disso, nunca fui “esposa de”, muito menos seria “viúva de”. É uma palavra horripilante. Cada um de nós é o que é, nos definimos por nossas opções, não pela pessoa com quem partilhamos a casa. Essa preguiça mental de reduzir as pessoas ou situá-las de maneira mais fácil é indigna e indignante.