Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 12 de janeiro de 2020

11 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

"Carlos Câmara Leme, do Público, pediu-me, a propósito da próxima publicação duma edição crítica dos poemas de Ricardo Reis, umas palavras que recordassem as circunstâncias em que os li pela primeira vez." (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago


Carlos Câmara Leme

Aqui pode ser recuperado um post com entrevista de José Saramago ao jornalista do Público
http://desaramago.blogspot.com/2017/01/o-presente-e-uma-linha-tenue.html
"O presente é uma linha ténue" Recuperação da entrevista de Carlos Câmara Leme a José Saramago (Público, 25/10/1997)

A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/todosOsNomes.htm

"Público" de 25 de Outubro de 1997
"O presente é uma linha ténue"
Por Carlos Câmara Leme

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

"Uma festa para Saramago" no "Público" - notícia recuperada de 26/02/2000 (por Carlos Câmara Leme)

A crónica do "Público" pode ser consultada e recuperada, aqui
em https://www.publico.pt/2000/02/26/jornal/uma-festa-para-saramago-140578

"Uma festa para Saramago" de Carlos Câmara Leme (26/02/2000)

Capa da edição - Colóquio Letras #151/152 - "José Saramago: O Ano de 1998"


"Pela primeira vez, um número da "Colóquio/Letras" é dedicado a um autor vivo. O volume sobre José Saramago é uma festa para os olhos e para o espírito.

1. Agosto de 1996. Quando soube que a Universidade de Massachusetts, Amherst, EUA, iria realizar o I Colóquio Internacional sobre a sua obra, José Saramago causticamente afirmou: "É, de facto, uma ironia que vem confirmar mais uma vez algo que já é muito antigo, ou seja que o nosso mundo universitário na nossa querida terra não presta muita atenção aos escritores vivos."Ao fim de dois dias de colóquio, e dois anos antes da atribuição do Nobel, depois de ouvir duas dezenas de comunicações na sua maior parte oriundas de universitários portugueses, o escritor emendou a mão e confessou: "Um bombardeamento destes nunca me tinha acontecido. Afinal, ando a fazer muito mais coisas do que aquelas que julgava andar a fazer." (ver PÚBLICO de 22/9/1998.) 

2. Fevereiro de 2000. A revista "Colóquio/Letras", com coordenação científica de Maria Alzira de Seixo, lançava um número duplo, um volumoso tijolo de 500 páginas que, sob o título "José Saramago: o Ano de 1998", é o primeiro tomo da publicação editada pela Fundação Calouste Gulbenkian dedicado a um escritor português vivo. Se é certo que, após a atribuição do Nobel da Literatura o interesse em torno da sua obra cresceu, a primeira constatação digna de registo é clara: o mundo universitário português, afinal, não só presta atenção aos seus escritores vivos como, no caso em apreço, a bagagem ensaística saramaguiana está de boa saúde e recomenda-se. Saramago não tem razões para se queixar. Justiça seja feita: no dia do lançamento (ver PÚBLICO de 18/2/2000), o romancista não se fez rogado e, à imagem das palavras que pronunciou em Estocolmo, reconheceu que não tinha nascido para ter direito a este número da "Colóquio/Letras". Não é verdade. Tem - como outros romancistas vivos (de Agustina Bessa-Luís a António Lobo Antunes) ou que desapareceram recentemente (José Cardoso Pires é, de todos, o caso mais gritante!!!). Mas isso é outra história...

3. Fevereiro de 1997. Durante a longa conserva que manteve com Carlos Reis em Lanzarote ("Diálogos com José Saramago", ed. Caminho), o entrevistado a certa altura afirma: "Leituras que tivessem levado directamente àquilo a que estamos a chamar 'o meu estilo', não há. E sobretudo se tivermos em conta as condições em que ele nasceu, ele é tudo menos premeditado. Agora, o que está claríssimo é que ele não pode nascer do nada, embora seja curioso que, mesmo em textos antigos (...) se é certo que o estilo não é tão claramente aquilo que veio a ser depois, em todo o caso já se anuncia aí uma certa vibração, uma espécie de necessidade de não ocupar só o espaço em que está, de se abrir e de abranger o que está ao lado." E remata: "Só que graficamente isso não é imediatamente visível."Pois bem, agora já o é. Este dado é, sem dúvida, a primeira grande qualidade deste número da "Colóquio/Letras". A partir de agora há um marco incontornável - do teatro à poesia, desta à crónica, do romance ao conto ou ao diário - para se estudar e aprofundar a obra de Saramago. Cada núcleo destes dava para uma recensão crítica... 

4. Tendo-se estreado em 1947 com "Terra do Pecado", é pela via da poesia que o nome e a obra de Saramago começam por se afirmar, primeiro com "Poemas Possíveis" (1966), depois com "Provavelmente Alegria" (1970), o primeiro porto de reflexão da revista. Reflexão que revela que, mais tarde, quando Saramago apostou definitivamente no romance, a veia poética foi absolutamente decisiva (ao contrário do que o próprio escritor várias vezes desvalorizou). Num e noutro livro, nota Maria de Lourdes Cidraes, "o poder das palavras e a dificuldade em conhecer o seu peso exacto, o rigor de uma temporalidade inelutável e o breve fulgor do instante, a urgência do amor, a pouquidade do existir e o sem sentido da vida" são obsessões que perpassarão e enformarão a obra posterior de Saramago. O que também acontece com as técnicas literárias da crónica, onde Isabel Moutinho encontra - num dos textos mais interessantes do volume - pistas para uma das questões centrais que paira ao longo dos múltiplos ensaios do volume: a pós-modernidade, ou não, da escrita do autor de "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Se é um dado adquirido que romances como "Ensaio sobre a Cegueira" ou "Todos os Nomes" são, em sentido literal, romances pós-modernos (cf. os artigos de Douwe Fokkema, Wladimir Krysinski, Jean Bessière ou Isabel Pires de Lima), os denominados históricos - a começar por "Levantado do Chão" até "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" - prenunciam, se é que já não são, obras de pendor pós-moderno. Os textos mais significativos, e incontornáveis a este respeito, são de dois especialistas saramaguianos: Horácio Costa e Teresa Cristina Cerdeira da Silva (ambos de leitura obrigatória).Peça igualmente importante para esta questão é a separata do caderno que esteve na origem de "A Jangada de Pedra", magnificamente iluminada por Alzira Seixo: porque se por um lado dá a conhecer o laborioso e difícil trabalho da oficina do escritor, por outro, revela a consciência que o romancista tem das dominantes paródica e desconstrutiva da História que a atravessam, as quais, como é sabido, constituem elementos cruciais da mundivência pós-moderna.

5. No lançamento da revista, a coordenadora classificou-o "como uma festa da literatura". Aos contributos ensaísticos propriamente ditos - a que faltam talvez nomes como os de Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva ou Óscar Lopes... - esta "Colóquio/Letras" é uma festa para os olhos. As ilustrações especialmente encomendadas a Bartolomeu Cid dos Santos são belíssimas, assim como as fotografias de Lisboa, de Mariano Piçarra. Os documentos, alguns deles inéditos, como é o conto "Natal", o texto que (quem saberia?) Saramago escreveu para o jornal do Sport Lisboa e Benfica (!) e, o divertíssimo conta-corrente de imagens e "flashes" de Pilar del Río, à volta dos dias estonteantes aquando da entrega do Nobel da Literatura, fazem desta "Colóquio/Letras" um marco histórico na vida literária portuguesa.Para ler. Para pensar. Para ver. E, certamente, para mais tarde recordar..."

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

"Fábrica Braço de Prata. "Esta bomba não rebentará" - de Cristiana Faria Moreira para o "Público" (07/01/2018)

Nuno Nabais recorda para o "Público" um dos momentos mais marcantes da vida do seu espaço das artes na Fábrica de Braço de Prata" aquando da apresentação da obra "Alabardas Alabardas Espingardas Espingardas" de José Saramago.
Reportagem de Cristiana Faria Moreira - "Público" (07/01/2018)
Pode ser consultada e recuperada aqui 

"Esta é a história de como um professor de Filosofia transformou um espaço devoluto, desejado por imobiliárias, num centro cultural onde o armamento foi substituído pela arte. E que sobrevive há uma década na ilegalidade."

Nuno Nabais, fundador da Fábrica de Braço de Prata 
Fotografia de Nuno Ferreira Santos

"Por que é que nunca houve uma greve numa fábrica de armamento? O que se passa para que a classe operária, tão capaz de lutas, não tenha conseguido entrar nos portões de uma fábrica de armas? As questões levantou-as José Saramago. E quem sabe as respostas a essas dúvidas estejam projectadas nos primeiros três capítulos de um romance que conta a história de amor entre uma pacifista e um trabalhador de uma fábrica de material de guerra.

Deixou-o por acabar, mas o enredo do romance ter-lhe-á surgido após uma conversa com "um velho republicano espanhol" que lhe contou sobre uma bomba que, em plena Guerra Civil, não explodiu. Quando a desarmadilharam, encontraram um bilhete escrito em português onde se podia ler: "Esta bomba não rebentará”.

Para Saramago, poderia até ter sido um operário da Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, a ousar fazê-lo. Quem nos conta esta história de amor, misturada com a sabotagem da guerra, é Nuno Nabais, o professor de Filosofia que, há dez anos, quis tornar parte de um antigo espaço de fabrico de armamento num local em que as armas são a música, a literatura, a pintura ou a escultura.

O livro chama-se Alabardas, foi publicado em 2014, e apresentado, ali, na Fábrica, onde estiveram presentes, “rodeados por guarda-costas”, o juiz espanhol Baltasar Garzón e o escritor e jornalista italiano Roberto Saviano. Diz Nuno Nabais que terá sido o momento mais marcante nestes dez anos de Fábrica Braço de Prata que, segundo conta, foi de facto o cenário da obra do prémio Nobel da Literatura.

É que o escritor tinha ligações ao local por se ter formado como serralheiro mecânico na Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila. "O sonho de qualquer aluno daquela escola, nos anos 40 e 50, era ir trabalhar para a Fábrica Braço de Prata", recorda Nuno. "Saramago não conseguiu, mas vinha muitas vezes encontrar-se com os antigos colegas aqui".

O edifício apalaçado ter-lhe-á ficado na memória, assim como os mosaicos axadrezados do chão, a escadaria, a fachada com o escudo português e as iniciais FBP, os símbolos alusivos ao trabalho e ao produto que ali se fabricava. Este é hoje o cenário de um espaço cultural, que é uma livraria, com salas de concertos, galerias de exposições, e um restaurante que serve bebida e comida, à margem da lei. Que dez anos depois estará "em vias de formalizar um acordo miraculoso” com a câmara de Lisboa para passar a poder vender cervejas sem estar sujeito a multas.

É uma história de resistência e de amor, como veremos, entre um filósofo e uma agente de bandas, com a música, os livros, a dança, a pintura e a escultura. Com a arte. 

Viajar pela arte de sala em sala
É fim de tarde de uma terça-feira de Outono quando nos sentamos com Nuno numa das mesas da Fábrica. Está fechada, menos para os alunos da Escola de Música, o seu mais recente projecto, e para os "amigos" que vão chegando, a quem não é negada a entrada. 

A Fábrica recebe-nos numa sala ampla, pé direito alto e bar a um canto. Depois, é começar a percorrer as salas que vão desembocando noutras salas, que tomam os nomes de filósofos, como Platão, Nietzsche, Arendt, de escritores como Eduardo Prado Coelho e Saramago ou artistas como Kandinsky. São 13, no total, que não servem para uma coisa só. 

Em dez anos, Nuno Nabais diz ter feito mais de 700 exposições de artistas plásticos, sendo que “nenhum artista expôs duas vezes”. Acolhe cerca de 60 concertos, de vários estilos, por mês. Por vezes, há vários na mesma noite e o objectivo é que se circule pela Fábrica, guiados pelas notas que mais cativam, entrando e saindo, ao ritmo e vontade de cada um, sem constrangimentos.

Aberta de quarta a sábado, não se pagam as entradas; dão-se antes "donativos". No total, sublinha, mais de 1,6 milhões de euros passaram “dos bolsos do público para os bolsos dos músicos”. “Todos recebem o mesmo. Não é por banda, é por cabeça”, diz.

Salvador Sobral já ali tocou por várias vezes. A Fábrica serve, inclusive, de pano de fundo ao videoclip de Excuse Me, tema que dá nome ao primeiro álbum do músico. À sexta, ali costuma tocar o pianista e compositor Júlio Resende, que também acompanha Sobral e com quem tem o projecto Alexander Search. O que leva Nuno a dizer, orgulhosamente, que este é um dos melhores locais para se ouvir jazz na capital.

"Há imensos esqueletos nos armários desta fábrica"
Pedimos que nos explique como é que sobreviveu ali, numa zona da cidade que se diz agora na moda, quando, “há dez anos, ninguém ia para o Poço do Bispo”, refém da memória das docas, da Fábrica Militar, da Fábrica Nacional de Sabões, da Tabaqueira, dos fósforos, da borracha, dos armazéns de vinho de Abel Pereira de Fonseca, do frenesim das horas de almoço onde os trabalhadores saíam e preenchiam as ruas de Marvila.

Para isso, voltemos ao início do século XX, quando aquele complexo industrial foi construído, para se dedicar ao fabrico de munições de artilharia, sob a alçada do Arsenal do Exército. 

"Há imensos esqueletos nos armários desta Fábrica", desabafa Nuno. A Guerra do Ultramar foi o garante da fábrica, com a produção intensiva de espingardas automáticas, morteiros, metralhadoras, munições, fardamentos e outros artigos que equiparam as Forças Armadas Portuguesas. Chegou a empregar cerca de 12 mil operários, que produziram também armamento para a República Federal da Alemanha.

Já nos anos 90, a Fábrica acabaria por ser desactivada e votada ao abandono, mas rapidamente seria revelado o interesse de construtores imobiliários naqueles terrenos.

A história de Nuno com a fábrica começa à boleia da família. “Somos cinco irmãos. Um deles é engenheiro civil e, em 1997, era membro da administração de uma empresa de construção, a Somague”. Que se tinha associado à Obriverca e criado a empresa Jardins de Braço de Prata. O objectivo era comprar a antiga fábrica de material de guerra para construir aquilo que está, finalmente, duas décadas depois, a ser construído - um empreendimento de apartamentos de luxo, projectado pelo arquitecto italiano Renzo Piano (Prémio Pritzker, co-autor do Centro Georges Pompidou, em Paris) em 1998.

Em 1999, outro irmão, advogado de profissão, “fez um contrato de comodato com a empresa Jardins de Braço de Prata”, conta Nuno, o que lhe permitia ocupar o edifício, sem pagar renda, ficando responsável pela manutenção do edifício. Segundo refere o professor, a autarquia queria que o edifício fosse sua propriedade, o que só aconteceria assim que “o empreendimento estivesse concluído e a câmara tivesse passado as licenças de habitação aos apartamentos”.

Ora, em 2002, a obra acabaria por ser embargada. Foram surgindo outros planos para o local, mas nunca nada avançou. À data, além de dar aulas de Filosofia na universidade tinha, no Bairro Alto, uma livraria especializada em Filosofia e Teatro - a Eterno Retorno -, próxima da Ler Devagar, de José Pinho. Em 2005, livraria de Pinho foi forçada a sair do edifício que ocupava na Rua de São Boaventura. Em “solidariedade”, diz Nuno, também fechou as portas. O plano era partilharem casa, o que ainda veio a acontecer, na Galeria Zé dos Bois e na Rua da Rosa, mas sempre “com o sacrifício da Eterno Retorno”, aponta.


"Uma livraria sem bar não funciona"

A parceria com a Ler Devagar acabou por não dar muito certo e, sem sítio para pôr os livros, acabou por encontrar o espaço de que precisava na Fábrica.

Entretanto outro irmão tinha montado uma galeria de arte num dos salões da Fábrica, quando surge a ideia: “Por que não abrir um espaço das artes na fábrica, com livraria, café e galerias de arte?", recorda o professor, para quem “uma livraria sem bar não funciona”.

A ideia avançou com a ajuda dos alunos da faculdade, de amigos músicos, que pintaram paredes, montaram móveis. Comprou um piano a prestações, transformou casas de banho numa cozinha e o espaço passou de livraria a sala de concertos, galeria de exposições e restaurante. Conta que a Fábrica só está hoje de pé porque fez um crédito de “seis mil euros milagrosos”, numa daquelas bancas à saída do metro.

A partir daí, foi uma corrida contra o tempo. Antes da abertura, reatou a parceria com a Ler Devagar. Era assim apresentada uma nova livraria em Lisboa: Ler Devagar/Eterno Retorno.

Acabou por inaugurar com o pretexto dos Santos Populares. Sem possibilidade de desembolsar “centenas de milhares de euros” para fazer as obras para licenciar o espaço como equipamento cultural, pediu à câmara uma licença para fazer um arraial de Santo António. “Até hoje, é a única licença que eu tenho, para o mês de Junho de 2007. Hoje, é um caso de estudo. Como é que um espaço destes sobrevive dez anos na ilegalidade?”.

“Nuno, aguente-se na ilegalidade”
Em 2008, a obra do empreendimento dos Jardins de Braço de Prata acabaria por ser desembargada. Adivinhava-se o fim daquele espaço, mas um artigo do The New York Times, de Julho, intitulado Lisbon comes alive (Lisboa ganhou vida, em tradução livre), acabaria por “salvar” a Fábrica, acredita Nuno. O texto arrancava com a referência à “fábrica de armas durante os sombrios anos da ditadura em Portugal, com as instalações há muito abandonadas, [que] renasceu para ser o mais recente e ambicioso espaço cultural de Lisboa”.

É uma visita guiada à Fábrica por Nuno, que naquela altura fazia tudo: "Vendia os bilhetes, vendia a cerveja, tudo". O chamariz da noite - e do jornalista - era Michel de Roubaix, artista do sapateado e do acordeão que ali actuava.

Dias depois, numa reunião da assembleia municipal, a deputada Helena Roseta levou uma proposta acompanhada daquele artigo, que consistia em passar o edifício para equipamento cultural, assim que aquelas instalações passassem para propriedade da câmara. E, na gestão do espaço, em nome do município, permaneceria Nuno Nabais."

Em dez anos, Nuno Nabais diz ter recebido mais de 700 exposições 
Fotografia Nuno Ferreira Santos

"Nada avançou, a primeira pedra do empreendimento ainda foi lançada, em 2010, 12 anos depois de o projecto ter sido apresentado, visando retomar o processo de regeneração urbana iniciado com a Expo 98. Mas a Obriverca acabaria por abrir falência e a obra foi, mais uma vez, parada.

“Aqui temos estado estes dez anos, vulneráveis a qualquer inspecção. Sempre que cá vem ASAE sou multado", lamenta. "Contesto a contra-ordenação, vou para o tribunal. Em tribunal os juízes percebem que é um acontecimento cultural, absolvem-me ou reduzem-me a multa”, partilha resignado.

"Pagamos tudo, apesar de sermos ilegais. Pagamos IVA, IRC, à Sociedade Portuguesa de Autores, à Inspecção Geral Das Actividades Culturais (IGAC). Não pagamos a renda, mas de resto pagamos tudo”, admite. 

Diz que a câmara ainda se meteu nas negociações com os proprietários, sem grandes resultados. Tentou depois fazer um acordo com Nuno que este recusou, por não conseguir pagar a renda que lhe pediam. Mas assegura que a autarquia o tem animado e resistir: “Nuno, aguente-se na ilegalidade”. A solução parece ter chegado.

Um acordo "miraculoso"
Ainda no ano passado, em Fevereiro, no mesmo ano em que comemorou uma década de existência, a câmara propôs-lhe um acordo: passaria a ter um contrato de arrendamento, desde que garantisse a integração da comunidade local nas suas actividades.

“Estamos em vias de formalizar um acordo miraculoso”, diz Nuno, explicando que a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) encarregar-se-ia de montar uma “estrutura no exterior para espectáculos ao ar livre”. “Eles [a EGEAC] usam essa estrutura 60, 70 dias por ano, nos outros usamos nós. E se aceitássemos, não precisávamos de pagar renda”, detalha.

Nuno está responsável por tratar do texto da proposta de protocolo onde deve “incluir um conjunto de contrapartidas” que a fábrica dará à cidade: propinas grátis para a escola de música aos miúdos de Marvila, concertos gratuitos nas escolas da freguesia, sessões de leituras, edição de obras. O PÚBLICO tentou, sem sucesso, obter mais informações junto da autarquia."

O edifício onde funciona a Fábrica, diz Nuno Nabais, terá sido a sede daquele complexo industrial Fotografia Nuno Ferreira Santos

"Depois de assinado o protocolo, terá um contrato de arrendamento. “E finalmente vou pedir alvará para, finalmente, poder vender cervejas sem estar sujeito a multas”.

Neste momento, emprega 14 funcionários. É precisamente a parte da fábrica que não está legal que lhes permite sobreviver: o restaurante e bar. Já que, “100% da bilheteira é para os músicos, 100% do valor das obras de arte que se vendem é para os artistas”.

“Só nos sustentamos - que não sustentamos - porque todos os meses temos que entrar com 500, 1000 euros para o orçamento da fábrica”, diz. “Se eu não continuasse a dar aulas, a Fábrica não existia. Sobrevivi a tudo isto. Já não sinto a fome que sentia naqueles meses. Já não sinto a angústia de ir para tribunal". É tudo parte de "um grande romance" que conta às pessoas quando lhe perguntam porque se meteu nesta embrulhada.

A co-protagonista deste romance rocambolesco é Sílvia, que é a responsável pela produção musical, e a mãe de dois filhos de Nuno, o Gabriel e a Violeta, "100% made in Fábrica Braço de Prata". “Conheci a Sílvia aqui. Ela era agente de uma banda rock. Depois convidei-a para trabalhar comigo e nasceram estes filhos”.

Com a construção do empreendimento de luxo, que se vai estender pela frente ribeirinha, "a malta pobre vai ficar a olhar para uma barreira de betão armado", considera Nuno Nabais. "E nós vamos ficar aqui como um enclave, rodeados de prédios de luxo. Um enclave com memórias do 25 de Abril, com funcionamento ilegal assumido, com 60 concertos por mês, sete exposições, uma livraria”. Como parte de um romance inacabado."

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Aquisições de última hora

Suplemento do jornal Público Mil Folhas de 17/11/2006 
"Saramago memórias da infância e juventude"

Público de 19/06/2010 
"Saramago Memorial de um país"

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Antevisão de "Blimunda" Por Maria João Avillez (publicado no Público em 09/05/1991)

Pode ser consultado e recuperado aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/antevisaoBlimunda.htm

Antevisão de "Blimunda", por Maria João Avillez
(Público, 09/05/1991)

"Um dia longínquo de l984, José Saramago recebe em casa uma carta que o deixa perplexo: a editora italiana Suvini Zerboni escreve-lhe para o informar que o compositor Azio Corghi está interessado em fazer uma ópera a partir do "Memorial do Convento". O escritor relê a carta, continua a achá-la "insólita", não responde. E passa o caso à Sociedade Portuguesa de Autores, para que aprofundasse aquela sugestão singular.
"A verdade é que eu fiquei um pouco céptico... Transformar um romance português numa ópera italiana?", recorda ele, sorrindo.
A editora reincide, o compositor não desarma. Quase um ano depois, José Saramago tem em Roma o seu primeiro encontro com Azio Corghi, de quem entretanto ouvira já alguns discos e "muito boas referências" artísticas e profissionais.
"O 'Gargantua' de Rabelais fora, por exemplo, um excelente trabalho do Azio... Mas porventura o que contou mais foi o facto de eu ter gostado dele", diz José Saramago. "É um homem de grande lhaneza, muito simples e dono de uma grande competência técnica. Mas é alguém de tal forma simples e discreto que enquanto não se ouve a sua música temos que adivinhá-la... Descobri um compositor apaixonado pelo 'Memorial do Convento', pela história, pelos valores do livro. Meses depois, voltámos a encontrar-nos em Milão, e estas duas conversas deixaram as coisas claras... Foi um encontro feliz."
E assim nasceu "Blimunda"... Numa noite de Maio de 1990 e num berço de ouro, o Scala de Milão. Um ano depois, "Blimunda" tem para si outro palco de ouro, o do São Carlos, enquanto aguarda o de Turim e ainda outras chamadas de prestígio, que a irão levar, se tudo se concretizar, a Toronto, Los Angeles, São Francisco, ao Met de Nova Iorque. E palcos primeiros da Europa manifestaram já a intenção de produzir novas encenações deste libreto.
Hoje, José Saramago ainda se confessa um autor quase involuntário desta ópera. Encontro-o, camisola verde-escuro, camisa às riscas verde e branco, na casa onde mora, um pequeno andar debruçado sobre uma rua "de silêncio e de paz", que mais parece uma aldeia em plena Lapa. Bebemos um café que vem "ali de baixo", conversamos, o telefone nunca parará de tocar.
"O libreto da 'Blimunda' vem com dois nomes, o meu e o do Azio Corghi, mas o trabalho essencial é dele... A minha contribuição foi mais uma troca de impressões, uma discussão de proposta de soluções, um trabalho de acompanhamento, muito mais do que um fazer real. Mas ele insistiu com grande delicadeza em que o libreto contivesse os nossos dois nomes..."
Daqui a quatro dias, sentado na plateia do Teatro de São Carlos, José Saramago terá provavelmente dificuldade em dizer o sentimento com que viveu essa noite. E lembrar-se-á, com certeza, dessa outra noite de Maio, quando, há um ano, sentado no Scala, viu pela primeira vez surgir a "sua" Blimunda. Já uma Blimunda outra, que não lhe pertencendo continuava a ser sua.
Por dentro do escritor vive um homem pudico que não se molda a explicitar sentimentos ou a publicitar emoções. As suas mãos desenham incessantemente gestos e círculos no ar e, de vez em quando, a sua ligeira gaguez tornar-se-á mais lenta. E será sempre num registo contido que hoje olhará para trás e se recordará dessa outra noite fria de Primavera, em Itália.
"É difícil... Foi sobretudo emocionante. É que nunca posso separar-me daquela ideia de que sou um português de Portugal. Há uma ligação profundíssima, uma raiz e tudo o que tem a ver com ela. Lembro-me de mim e da minha emoção ali sentado, diante daqueles actores, dos cenários, a ouvir uma história que eu escrevera... Tive por vezes a garganta apertada. Era como se eu, sabendo que parte daquilo era meu, não tivesse ao mesmo tempo a certeza de o merecer. Senti-me orgulhoso mas também muito humilde. E houve um sentimento de responsabilidade. Sabe... (sorri), não é um sentimento fácil... ou simples. Será talvez ingénua esta ideia de se ser responsável pelo país a que se pertence... Enfim, não tenho que dizer senão isto."
No S. Carlos, entretanto, vive-se também a azáfama - e que azáfama! - dos grandes momentos, e a contagem do tempo, tal como ali perto, no Teatro Nacional, inverteu já o seu ritmo: a partir de agora a contagem do tempo é descrescente. Há rostos ansiosos, uma atmosfera de tensão, no ar cruzam-se várias línguas numa algaraviada indescritível, o chão está juncado de mil fios, uma sofisticadíssima aparelhagem de mistura de som ocupa uma parte da plateia, fazem-se ensaios de luzes. A confusão tem aquela marca inconfundível da véspera das estreias.
"Houve aqui dois cavaleiros que muito se bateram pela 'Blimunda'. O José Ribeiro da Fonte e o Manuel José Vaz, directores deste teatro. Gosto de dizer e de reconhecer isso", afirma José Saramago, na penumbra da plateia.
No palco, vão lentamente nascendo os cenários de Michel Le Bois, a sala é envolvida pelas vozes de Blimunda e Baltasar - Kathia Lytting e William Lewis -, os figurinos de Jacques Schmidt cruzam a cena. A orquestra vai tomando o seu lugar e os cantores Fernando Serafim, Marina Ferreira e Jorge Brás de Carvalho também já se encontram prontos para um dos últimos ensaios. Pelos bastidores, na plateia, em cena, agitam-se centenas de pessoas - assistentes, técnicos, cantores, actores, elementos do coro, uma leva de figurantes. Daqui a algumas horas chegará ainda o octeto vocal madrigalista Swingle Singers.
Todo este espectáculo - à sua maneira também ele uma superprodução -, assente numa carpintaria forte e em efeitos cénicos que prendem o olhar, foi produzido - e cronometrado - pela imaginação de Jerôme Savary, o encenador que Lisboa descobriu com a "Zazou", em recente noite de pompa, circunstância e espectáculo.
Saramago:
"O livro é o livro, a música é a música, mas há o... encenador. E eu achei a encenação magnífica! Se o livro abre caminhos para soluções cénicas, o Savary explorou esses caminhos com efeitos cénicos deslumbrantes. Um dos factores do êxito da ópera em Milão foi certamente esta encenação... "
O escritor olha Kathia Lytting no palco e emociona-se: "Ela tem o temperamento e a voz duma diva... É uma wagneriana..."
A soprano é bela e jovem e sedutora. Há um ano, quando pela primeira vez cantou "Blimunda", estava grávida. Viveu com tanta intensidade o seu personagem que disse a si própria que se lhe nascesse uma filha teria o mesmo nome.
"Assim foi, assim é: nasceu uma menina, chama-se Blimunda...", recorda, sorrindo, José Saramago.
Blimunda-mulher, heroína desse fresco memorável que é o "Memorial do Convento". Hoje, passados que são já alguns anos sobre o momento e o acto da escrita, ainda a ama, como então, o escritor?
Pausa.
"Essa senhora fez-se a si própria. Nunca a projectei para ser assim ou assim... Foi no processo da escrita que a personagem se foi formando. E ela surge, surgiu-me, com uma força que a partir de certa altura me limitei a... acompanhar. Aquele sentimento pleno da personagem que se faz a si mesma é a Blimunda. Mas, é curioso, só no fim me apercebi de que tinha escrito uma história de amor sem palavras de amor... Eles, o Baltasar e a Blimunda, não precisaram afinal de as dizer... E no entanto, o leitor percebe que aquele é um amor de entranhas... Julgo que isso resulta da personagem feminina. É ela que impõe as regras do jogo... Porquê? (sorriso) Porque é assim na vida... A mulher é o motor do homem. (Pausa) Se você vir, os meus personagens masculinos são mais débeis, são homens que têm duvidas, são personagens masculinos com complexos... As mulheres, não."
José Saramago tem hoje os seus seis romances traduzidos em vinte e seis línguas. O escritor ri: "Do finlandês ao hebreu, do grego ao búlgaro..." E depois: "Tenho uma reduzida capacidade de acompanhar tudo isso. Há certos tradutores que têm o escrúpulo de pedir esclarecimentos, de apresentar duvidas. Mas (suspiro), há outros que não perguntam nada. Há um ou outro caso em que faço uma revisão aqui, em Portugal. Mas claro que se trata, no geral, de uma verificação que me escapa. "
A fama, o sucesso, o dinheiro, a invulgar notoriedade que hoje rodeia a sua assinatura, parecem não impedir a sua aparente serenidade ou contenção. Está-lhe no carácter essa forma de respirar perante os outros. Mas nas entrelinhas resvalam muitas vezes palavras reveladoras da vaidade, e sobre elas, não raro, desliza a sombra do orgulho.
"Essa espuma é lisonjeira, todos gostam de ser estimados... E eu acredito na sinceridade disso... Às vezes, todas estas solicitações ou este barulho podem ser opressivos, porque me roubam tempo e disponibilidade. Sobre o dinheiro, gostaria apenas de dizer que vivo do meu trabalho. Desejaria que isso fosse para os outros um direito e uma possibilidade. Mas gostava de voltar a isso da responsabilidade, porque no fundo, o sentimento principal é esse... Não é por importância, mas por verificar - através das reacções e das atitudes em Portugal ou lá fora, no estrangeiro - que transporto comigo uma certa responsabilidade... Eu quase diria que sou representante da língua que falamos, da nossa cultura... E não evito esta impressão de levar o meu país comigo..."

sábado, 28 de janeiro de 2017

"O presente é uma linha ténue" Recuperação da entrevista de Carlos Câmara Leme a José Saramago (Público, 25/10/1997)

A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/todosOsNomes.htm

"Público" de 25 de Outubro de 1997
"O presente é uma linha ténue"
Por Carlos Câmara Leme

Epigrafe da obra 
"Conheces o nome que te deram, não o nome que tens" 
do "Livro das Evidências"

"Todos os Nomes", o último livro de José Saramago, é um ensaio sobre a existência, com contornos policiais. Um ensaio pessimista. "Nada no mundo tem sentido", diz a personagem central do romance. A única que tem nome: José.

O novo romance de José Saramago mistura muitas coisas: uma história, um ensaio - de foro filosófico - e algo de novo na sua obra. Saramago está cada vez mais descrente do futuro da humanidade, e do homem. Ou seja, mais pessimista. Os lugares centrais do livro passam por uma Conservatória Geral e por um cemitério, onde todos nós, mortos e vivos, se confundem. Resta-nos viver o presente... É pouco. Se calhar é a única coisa que nos resta. A obra é lançada pela Caminho nos próximos dias e será apresentada a 3 de Novembro, em Lisboa, por Eduardo Lourenço. O PÚBLICO já leu o livro e entrevistou o autor de "O Ano da Morte de Ricardo Reis".

O que é "Todos os Nomes"? Um romance com muitos traços de um policial? Mais um ensaio sobre a existência? Sobre a procura da identidade?
Para haver romance policial são precisos, pelo menos, um criminoso e um polícia. Nada disso existe em "Todos os Nomes". Mas é verdade que o livro descreve uma procura, uma busca, que há nele uma investigação. A grande e decisiva diferença está no facto de que a pessoa procurada não sabe que a procuram e a pessoa que procura não tem a certeza de querer encontrar o objecto da sua busca. Que este romance possa ser entendido como um ensaio sobre a existência - talvez. Julgo que todos os livros o são, que escrevemos para saber o que significa "viver", e não já para tentar encontrar resposta às famosas perguntas: quem somos? Donde vimos? Para onde vamos? 
Que o livro possa ser visto como uma indagação sobre a identidade, sim, mas não sobre a identidade própria. O que aqui se procura é o "outro".

O Sr. José - a personagem central do livro - é uma daquelas pessoas que levam a vida a coleccionar coisas, diz-se no início do livro - "talvez por não conseguirem suportar a ideia do caos como regedor único do universo". O Sr. José não se identifica desta maneira com o romancista José Saramago enquanto criador de mundos aos quais procura imprimir um sentido?
Não sou o Sr. José, embora lhe tenha dado o meu nome. E não me reconheço em nenhum dos seus comportamentos e características. Não temos o mesmo "modo de ser". Salvo essa ideia de que talvez seja possível pôr alguma ordem no que a não tem, ou, por outras palavras, resignar-se ao caos desde que seja possível traçar nele ao menos uma linha que una dois pontos. O que faço como romancista é tentar atar uns quantos fios soltos, deixar atrás de mim um pouco de sentido. Mesmo que não seja mais que o tão caluniado sentido comum...

"Não há nada que mais canse uma pessoa", diz o narrador, "que ter que lutar com o próprio espírito, com uma abstracção." Esse também é o trabalho do escritor? Como é que surgiu esta ideia de baralhar a vida dos mortos com a vida dos vivos? É a procura da natureza da fronteira que separa a vida da morte? Afinal, como se discute no último capítulo do livro, o que é mais sagrado: a vida ou a morte?
Todo o romance precisa de uma "história", mas um romance que não se tenha proposto mais que contar "essa história" interessa-me pouco. A explicação disto, provavelmente, encontra-se numa declaração que algumas vezes tenho feito, a de ser em ensaísta falhado que escreve romances porque não teve quem lhe ensinasse a escrever ensaios... Precisei sempre, para trabalhar, de uma ideia forte, ou de uma abstracção, se se quiser chamar-lhe assim. Mas as ideias, sejam elas fortes ou fracas, só da realidade é que podem nascer, os dados da imaginação são também dados de realidade. "Todos os Nomes" não existiria se eu não tivesse tido que procurar, investigar, como fui relatando ao longo dos "Cadernos de Lanzarote - IV", as circunstâncias do falecimento do meu irmão Francisco, em 1924. Nada dessa busca passou para o romance, mas o livro alimenta-se da minha própria vivência de Sr. José durante os meses que levei a procurar um garotinho que morreu com quatro anos no hospital de Lisboa. 
Quanto ao que é mais sagrado, se a morte, se a vida, respondo que a vida. Mas nem toda a gente estará de acordo: a prova é que dar um pontapé a um vivo não suscitará qualquer advertência sobre o sagrado da vida, ao passo que tê-lo dado a um morto provocaria logo o protesto: "Tenha vergonha! A morte é sagrada!..."

Essa questão coloca-nos, de novo, perante a questão da identidade. Todos os nomes podem ser um só? O do Sr. José, perseguindo o destino de uma mulher e o seu próprio, não se confunde connosco? Com todos os josés do mundo?
Remeto para o "Ensaio sobre a Cegueira". Em certa altura a rapariga dos óculos escuros diz: "Há dentro de nós uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos." Comentando esta frase, escrevi há tempo: "Talvez o desejo mais profundo do ser humano seja poder dar-se a si mesmo o nome que lhe falta." Portanto todos somos uma espécie de senhores josés a quem anda a faltar o resto do nome.

Na epígrafe do livro lê-se: "Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens." Quem diz o nome não pode dizer a vida? "Em rigor", diz de novo o narrador, "não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós." O acaso tem uma força imensa...
Torno à rapariga dos óculos escuros. A frase dita por ela e a epígrafe deste romance são complementares, encaixam perfeitamente uma na outra. Isto mostra, ao menos, que há alguma coerência nas ideias do autor... Quanto à "vida", não me parece que possa ocupar aqui o lugar do "nome". Quem sou eu? Um "ser humano" a quem deram o nome de "José Saramago". E isso que significa? Que significa ser-se "ser humano"? Que significa ser-se "José Saramago"? São apenas nomes que "me deram", não são o nome "que tenho". Também damos o nome de "acaso" a algo que nos dicionários se define assim: "Efeito resultante de um grande número de pequenas causas, independentes entre si, e funções de leis ignoradas ou mal conhecidas." Por outras palavras: o acaso não existe...

O ser no tempo

Reunir, como faz o chefe da conservatória, os papéis da vida e da morte não é demasiado borgiano? Não será esse o tema central do romance e a essência da busca do Sr. José?
Nunca nada será demasiado borgiano. Creio que os três escritores que melhor definem este século são Kafka, Pessoa e Borges, o que quer dizer que também nunca nada será "demasiado" pessoano ou kafkiano... O tema central do romance, como disse antes, é a procura do "outro", independentemente de estar vivo ou morto. Por isso o Sr. José continuará a "procurar" a mulher desconhecida, mesmo depois de saber que já não a poderá encontrar. Juntar os papéis dos vivos e dos mortos significa juntar toda a humanidade. Nada mais. Ou tudo isso.

À imagem do que acontece na esmagadora maioria dos seus livros, o problema do tempo, dos tempos, está também presente em "Todos os Nomes". Porquê essa obsessão?
Porque todas as outras obsessões não passam de meros afluentes desse mar.

Qual é o principal objecto da sua ficção: o tempo ou o ser? "O mais importante", lê-se, "era precisamente isso, o que o tempo faz mudar, e não o nome, que nunca varia"...
Não o ser por si só, não o tempo por si só, mas o ser no tempo. Parece uma frase de filósofo, peço perdão pelo atrevimento... Mas às vezes penso que o direito à filosofia deveria ser incluído entre os direitos humanos...

Ao contrário do que acontece com outras personagens femininas que criou - as mulheres fantásticas de "Memorial do Convento", de "Jangada de Pedra" ou de "Ensaio sobre a Cegueira" -, em "Todos os Nomes" não parece ser reconhecida à mulher e ao amor uma força tão excepcional. Porquê? Mas ainda há aqui, veladamente, uma história de amor?
É uma história de amor, ou melhor, uma história que poderia vir a ser de amor. A ansiedade do Sr. José é já uma ansiedade amorosa, embora ele não saiba ao princípio. Quanto à força, a tal força feminina que de facto está patente em outros romances, creio que ela também se encontra em "Todos os Nomes", na senhora do rés-do-chão direito. A diferença é que, desta vez, não se trata duma mulher nova, mas duma mulher de 70 anos. As outras mulheres são, de certo modo, "sobre-humanas", esta é "humana" simplesmente. A força, porém, está lá...

Um dos aspectos mais interessantes da obra é a existência de várias vozes que aqui e ali vão aparecendo. Uma delas chega a ser o tecto que dá conselhos ao Sr. José (como noutras obras eram os misteriosos cães que iam dando uns palpites). Qual é a importância dessas vozes? Até que ponto a sua introdução não é sinal de uma alteração na sua técnica narrativa? 
Isso a que chama "vozes" já vem de "Levantado do Chão". São como projecções da consciência, ecos de um dizer ou de um pensar que se tornaram dialécticos ao expressar-se, neste caso ainda mais justificados pelo facto de o Sr. José ser um homem só. "Falar com as paredes" é uma expressão coloquial corrente, portanto o Sr. José não inventou nada quando fez do tecto da sua casa um interlocutor.

Além da conservatória, há um outro espaço fundamental e similar, em "Todos os Nomes": o do Cemitério Geral; espaços onde a vida e a morte se confundem. Porquê essa similitude? O narrador diz que o Cemitério Geral é "um catálogo perfeito, um mostruário (...) um inventário de todos os modos de ver, estar e habitar existentes até hoje", "o próprio coração do tempo". Porquê? 
Uma conservatória única e um cemitério único, como são os deste romance, contêm logicamente, por essa mesma unicidade, todos os nomes. Quando cito aquela frase de Croce que diz que "toda a História é História contemporânea", quero dizer, à minha maneira, que tudo o que sucedeu está a suceder, que todos os mortos estão vivos, que não somos nada sem eles. O presente é uma linha ténue que se desloca ininterruptamente para o que chamamos futuro, ou talvez um "eixo" móvel sobre o qual o tempo vai rolando, segundo a segundo. Ou página a página.

Se, como escreve, "contra a morte não se pode fazer nada", por que é que "um Cemitério é como uma espécie de biblioteca onde o lugar dos livros se encontrasse ocupado por pessoas enterradas"?
É certo que, objectivamente, nada podemos contra a morte. Mas a memória, a memória "sobrevivente", faz pairar, sobre a morte, a vida. Muitas vezes se chamou a uma biblioteca não consultada cemitério de livros. É a primeira vez, suponho, que alguém teve a ideia de chamar a um cemitério biblioteca de pessoas. Tudo está em consultar ou não a biblioteca, qualquer que ela seja. A memória, quero dizer.

Por que razão o Sr. José escolhe "a verdade pela mentira", quando troca a tabuleta da mulher desconhecida por uma outra? Na vida, como na morte, tudo é relativo? Não há fio de Ariadne que nos norteie?
Quando o Sr. José troca a tabuleta, ela já tinha sido trocada antes. Talvez a nova troca tenha recolocado a tabuleta no seu lugar, talvez não. De todo o modo ele não o saberá. O importante não é perguntar "Onde estás?", mas sim "Quem foste?".

"Todos os Nomes" é uma busca ontológica? Ou é uma subversão das fronteiras entre verdade e mentira, vida e morte? Nada no mundo tem sentido, como murmura, no final do livro, o Sr. José?
Busca ontológica, sim. Mas sem mais pretensão que chegar aonde alcançasse, nesses domínios, o meu curto braço. Quanto ao sentido que a vida tenha, já não seria pouco que conseguíssemos ser, cada um de nós, o nosso próprio fio de Ariadne... 

sábado, 19 de novembro de 2016

"Paulo Coelho e Saramago são os mais traduzidos" via Público (de Luís Miguel Queirós, 15/11/2016)

A notícia (Jornal Público, em 15/11/2016 - Luís Miguel Queirós), pode ser recuperada e consultada, aqui em, https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/paulo-coelho-e-saramago-sao-os-mais-traduzidos-1751172

"O espanhol é a língua com mais traduções do português."

"Exposição com as traduções dos livros de José Saramago" 
Fotografia de RG Rui Gaudêncio

"Nas línguas para as quais mais se traduz, o português está em oitavo, e é a 18.ª língua mais traduzida para outros idiomas. Dados da UNESCO relativos ao período que vai de 1979 a 2015 permitiram ainda aos autores do Novo Atlas da Língua Portuguesa, que esta terça-feira é apresentado em Lisboa, incluir informação mais detalhada, como a lista das línguas e países para os quais o português é mais traduzidos, e ainda os autores lusófonos mais traduzidos no mundo.

O espanhol é a língua com mais traduções do português, seguido do inglês, do francês, do alemão e do italiano. Já o inglês é de longe a língua com mais traduções para português, numa lista cujos 7.º e 8.º lugar são ocupados pelo latim e pelo grego antigo.

No top five dos autores de língua portuguesa mais traduzidos, a maior surpresa é talvez a presença, em 5.º lugar, do teólogo Leonardo Boff, a grande figura da Teologia da Libertação no Brasil. A lista é encabeçada por outro brasileiro, o ficcionista Paulo Coelho, e seguem-se José Saramago, Jorge Amado e Fernando Pessoa.

Se olharmos para as línguas e países para os quais estes cinco autores são mais traduzidos, o que se afasta mais do padrão é Paulo Coelho. Em todos os casos, a língua de destino mais usual é o espanhol, mas enquanto nos outros quatro escritores, os dois lugares seguintes são ocupados por combinações de francês, inglês ou alemão, o autor de O Alquimista goza de particular sucesso em húngaro e sérvio. E se Saramago, Amado, Pessoa e Boff são muito traduzidos em Espanha e na Alemanha, a lista de Paulo Coelho é novamente a que menos tem a ver com as restantes: o país que mais o traduz é a Rússia, seguida da Suíça e da Croácia.

A lista dos dez autores lusófonos mais traduzidos completa-se com dois portugueses - Eça de Queirós e António Lobo Antunes - e três brasileiros: José Mauro de Vasconcelos, Clarice Lispector e Machado de Assis."

Nota Blog
Segundo a notícia, a obra de José Saramago tem 541 traduções em 38 línguas (espanhol, alemão, inglês, catalão e francês) de 50 países (Espanha, Alemanha, Noruega, França e Itália). 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Vhils desenha José Saramago, "alguém que admirava", em Madrid - Público (por Vítor Belanciano, 08/11/2016)

A reportagem pode ser recuperada e consultada, através do site do jornal Público, aqui 
em https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/vhils-desenha-jose-saramago-na-fachada-da-universidade-carlos-iii-de-madrid-1750354

Público (por Vítor Belanciano, 08/11/2016)

"O trabalho do artista faz parte da 14ª. Mostra Cultura Portugal, organizada pela embaixada portuguesa na capital espanhola.

O artista português Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, vai criar um mural em Madrid com o rosto de José Saramago. O trabalho será efectuado a partir desta terça-feira e, se tudo correr como planeado, estará ultimado na próxima quinta-feira. O rosto do Nobel português da literatura, José Saramago, passará a estar na fachada da Universidade Carlos III de Madrid.

De partida para Madrid, Alexandre Farto disse ao PÚBLICO, que o convite para a feitura da obra partiu da Embaixada de Portugal na capital espanhola. "É um convite que me orgulha e que me faz sentido até pela ligação privilegiada que José Saramago teve com Espanha", disse. A intervenção artística num espaço público onde passam diariamente milhares de pessoas, faz parte da programação da mostra de cultura portuguesa que decorre em Espanha até ao fim do ano."



"O José Saramago era alguém que muito admirava pelo corpo da sua obra, pela integridade e pelas posições políticas", afirmou Alexandre Farto que adiantou que o mural terá uma dimensão considerável. "O seu rosto será destacado mas também haverá elementos alusivos à sua vida e obra" disse o artista que trabalha com uma técnica singular onde explora as camadas do espaço urbano.

O actor Diogo Infante e o músico Rodrigo Leão estão entre os vários artistas portugueses presentes na 14ª. Mostra Cultura Portugal, organizada pela embaixada de Portugal em Madrid. Alexandre Farto nasceu em Lisboa, em 1987, terminou os seus estudos de Arte em 2008, em Londres, tendo iniciado a actividade como artista  em 1998, com a pintura de muros e comboios, na margem sul do rio Tejo. Nos últimos dez anos deixou o seu trabalho inscrito por todos os continentes, transformando-se num dos artistas portugueses de maior circulação internacional.

A par das intervenções urbanas integra também o circuito expositivo convencional. A sua última grande exposição esteve patente em Honk Kong em Abril deste ano. Esta segunda-feira um vídeo produzido por si e pela agência Solid Dogma – da qual faz parte – foi exibido na abertura do Web Summit, numa encomenda da agência Invest Lisboa. com Lusa"




domingo, 23 de outubro de 2016

De Violante Saramago Matos "A memória do meu pai, o Nobel" via Público (Márcio Berenguer - 16/10/2016)

A reportagem pode ser recuperada e consultada, aqui

Publicada pelo jornalista Márcio Berenguer - 16/10/2016


"Violante Saramago Matos viajou ao passado até 8 de Outubro de 1998, dia em que se soube da distinção máxima da Academia Sueca para o seu pai, o escritor José Saramago. Sobre Bob Dylan diz: “Penso que foi uma forma da Academia reconhecer que a literatura não é feita apenas de romances"

A certa altura deixamos de falar sobre isso. Naquele ano de 1998 o Nobel não era um tema tabu. Simplesmente não era um tema. Não povoava as nossas conversas. Há muito que não. Antes conversávamos muito sobre ele. Ciclicamente, claro. Já era tempo de a Academia Sueca olhar para a língua portuguesa. Seria este ano o ano? Mas o reconhecimento ia sempre para outro lugar, para outro nome, que não este.

Naquele ano de 1998 já não falávamos sobre isso. É verdade.

Antes, tentávamos descodificar os sinais políticos — há sempre uma componente política nestas coisas —, olhar para quem tinha recebido antes e para quem poderia ser galardoado depois. Demorávamo-nos a discorrer sobre a actualidade, numa tentativa de antecipar o que poderia ou não vir. Percorrer os nobelizáveis e os outros, que não sendo, podiam vir a ser. Mas naquele ano não. Falávamos de outras coisas. De livros. De nós.

Era de manhã. A meio da manhã. É aí que me situo na memória daquele dia. Estava numa reunião na Câmara do Funchal. Era vereadora, na altura. Eleita como independente pelo Partido Socialista. Estava no meio de uma discussão com o Ricardo Silva, do PSD, responsável pelo urbanismo da cidade. Foi o [André] Escórcio que bateu à porta — ou melhor, entrou esbaforido pela sala adentro, chamando o meu nome. “Espera, espera”, disse eu com um gesto de enfado. Insistiu o Escórcio. Insistiu muito. Uma, duas, três vezes: “Violante, Violante, Violante.” A minha resposta sempre a mesma. Sempre a gesticular, cada vez mais exaltada. “Agora não. Agora não, já disse!” Insistiu: “O teu pai. É sobre o teu pai.” Parei de imediato. Já tinha toda a minha atenção. Gelei. Olhei-o de frente. “O meu pai? O que aconteceu ao meu pai?” “Estão a dizer que ganhou o Nobel.” A reunião terminou aí.     

Ele estava em Frankfurt, na Feira do Livro, e eu na Madeira. Em 1998, era como se ele estivesse no outro lado do mundo, numa ilha deserta. Não existiam as ligações rápidas, instantâneas, como agora. Era outra velocidade. Parece outro século. Era mesmo. Outro século, outro tempo. Liguei várias vezes. Perdi a conta de quantas. Ele deve ter feito o mesmo. Não sei. Sei que só a meio da tarde é que conseguimos falar. Foi ele que ligou, de um número que não era o dele. Não sei de quem era. Não perguntei. Importa? O que falámos? O que eu disse? Parabéns. Um beijo. Muitos. Mil beijinhos. Eu sei lá o que disse. Um amor que não se descreve, nem escreve. Um desejo imenso de o abraçar. Foi isso.

Tive de esperar. Um dia, dois. Foi uma semana de loucos. Nunca estamos realmente preparados para estas grandes coisas. Para as grandes emoções que nos assaltam assim, sem pedirem licença para entrar. Não conseguia reagir. Só o vi em Lisboa, quando chegou vindo de Lanzarote. Era eu entre muitos que o esperavam. Um Nobel português, num ano de Expo. É um pouco como agora, com a selecção na Europa e Guterres na ONU. Havia muito entusiasmo. Muita portugalidade. Um mar de personalidades no aeroporto. Senti, naquele momento, que todos ali tinham mais que ver com ele do que eu. Foi estranho sentir-me assim. Eu era a filha, a única filha. Só queria dar-lhe um beijinho, mas tive de esperar. Digo isto sem qualquer animosidade. Mas eu era a filha... não é?

Toda a minha vida cresci com este sentimento. Ainda o guardo. O de ser filha de. Durante anos fui filha de. É coisa boa quando a herança do nome dos pais nos enche o coração, mas é coisa difícil quando o tamanho do nome dos pais nos abafa o ser. Então é preciso saber emergir das águas daqueles dois caudais de talento, saber quem somos para além da grandeza deles, saber em que cruzamento — das duas ruas por onde correm dois nomes maiores da nossa cultura — fica a nossa esquina.

E ali estava eu agora. Naquela esquina do aeroporto. Ao olhar aquele homem, no meio da multidão, onde tantos viam frieza, distanciamento e má disposição, eu encontrava os afectos que transbordavam dos seus livros e das relações humanas, familiares. Um homem extremamente tímido, reservado, que vestia uma couraça para se proteger dessa timidez espantosa. E ele ali, no centro daquela celebração, e eu do outro lado do muro de pessoas. Tão próxima. Tão distante. A observar. Com um orgulho imenso no peito que levaria comigo — ainda o trago — para Estocolmo.

Não era só o prémio, o Nobel. Foram os fundamentos — “com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia” — da Academia Sueca para distinguir José Saramago. O ser maior do que um escritor. Um filósofo, como o meu filho, ainda pequeno, um dia disse. Só esses fundamentos bastavam-me. Mas havia mais. Quanto orgulho consegue segurar uma pessoa?

No banquete, na câmara de Estocolmo, onde o meu pai se sentou ao lado da rainha, encontrei mais razões para vibrar por aquele homem que era meu pai. Há uma espécie de hierarquia naquela cerimónia. Uma hierarquia mal disfarçada. Os laureados são dispostos no salão obedecendo a uma qualquer ordem de importância. E eu estava ali, com ele, a Pilar e a minha filha (cada um dos premiados só tem direito a levar três pessoas) na mesa de honra. O Danilo [o marido] e o meu filho ficaram em cima, na plateia.

A gente abala quando vive um momento daqueles. Abana quando ouve aquele discurso. Aquelas palavras imensas. Ainda hoje as guardo. Os Discursos de Estocolmo e o Ensaio sobre a Cegueira continuam à minha cabeceira, vou regressando a eles amiúde.  

É uma maneira de celebrar José Saramago escritor. O país ainda o celebra. Festeja, mesmo. Deixa-me feliz saber isso — que depois de tantos anos ainda o lemos. Penso que ele também ficaria — ter presenciado, ter vivido a reconciliação com um país onde nasceu e cresceu foi importante para ele. Eu vi isso. Conversámos sobre isso —para lá dos Sousas Laras daquele Portugal pequeno, do Cavaco, com quem ele nunca mais falou. O que aconteceu com o Evangelho segundo Jesus Cristo deixou-o sentido. Triste, até. Quem não ficaria? Mas tudo isso foi ultrapassado.

Lê-lo é a maior homenagem. Continuar a mergulhar nos livros é festejar um autor, um homem, um pai que mais do que intransigente, que o era em questões de princípios, era essencialmente muito exigente. Basta ler com atenção a obra que deixou, que transcende a simples literatura. Se é que podemos falar de literatura simples.

Ele também era tudo menos simples. Recusava as respostas prontas. O sim e o não ficavam de fora das nossas questões. Queria que pensássemos. Era assim que ele era como pai, como escritor e como cidadão interventivo. Não existiam vários Saramagos. O que ele foi, o que ele era está ali, na obra que deixou. Estar a ler o meu pai é como estar a ouvi-lo falar, porque ele escrevia como falava. Não era um homem de sim e não, era um homem que respondia, procurando sempre uma explicação.

É assim que recordo o meu pai. É assim que guardo aquele ano de 1998, em que já não falávamos do Nobel e ele apareceu.

Depoimento recolhido pelo jornalista Márcio Berenguer"

domingo, 24 de julho de 2016

"Uma casa portuguesa na FLIP de Paraty?" de Isabel Coutinho (jornal Público - 22/07/2016)

"Uma casa portuguesa na FLIP de Paraty?" - de Isabel Coutinho (jornal Público, 22/07/2016)

"Na sessão Depois da Flip – uma conversa sobre a festa literária de Paraty, 
com os portugueses que estiveram na última edição, lançaram-se ideias para o futuro."

O artigo de Isabel Coutinho, publicado no jornal Público, pode ser recuperado e consultado aqui em https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/uma-casa-portuguesa-na-flip-de-paraty-1739162

A sessão na FLIP em que participou Ricardo Araújo Pereira
Fotografia: Walter Craveiro / FLIP

"A ideia de propor que o escritor homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) seja, no próximo ano, o Prémio Nobel português José Saramago (1922- 2010) ou, caso isso não seja concretizável, conseguir pelo menos que haja uma Casa Portuguesa José Saramago durante o evento em Paraty, foi anunciada na sessão Depois da Flip – uma conversa sobre a festa literária de Paraty, que no final da tarde de quinta-feira decorreu na Fundação José Saramago, em Lisboa, e reuniu alguns dos portugueses que estiveram na 14.ª edição do festival, no final de Junho.

“Era bom até que ao mais alto nível se montasse uma estratégia para se ter uma embaixada na FLIP e ali apresentarmos a nossa cultura”, lançou Paulo Ferreira, consultor editorial da Booktailors, que pediu permissão a Pilar del Río, da Fundação Saramago, para revelar ali a ideia que tinham tido em Paraty, onde estiveram pela primeira vez na festa literária que é a referência nos festivais de língua portuguesa e não só. “Uma casa José Saramago que sirva de montra do que se faz na literatura portuguesa" e que ajude à relação entre os dois países, acrescentou Tito Couto, também da Booktailors.

José Saramago nunca participou na FLIP,  apesar de ter sido convidado para ir a Paraty. Mais tarde, no ano em que morreu, em 2010, a festa literária brasileira homenageou-o numa das suas mesas, apresentando em estreia excertos do documentário José & Pilar e uma conversa com o realizador Miguel Gonçalves Mendes. Nessa altura Pilar voltou a ser convidada mas considerou que “era demasiado cedo” e não foi.

Este ano a presidente da Fundação Saramago participou na programação paralela da FLIP a convite da Casa Cais, da cantora e produtora brasileira Luana Carvalho. Tal como participaram a jornalista Anabela Mota Ribeiro e o escritor José Eduardo Agualusa, que estiveram no evento na condição de curadores do Folio- Festival Literário Internacional de Óbidos, que vai ter a sua segunda edição de 22* de Setembro a 2 de Outubro. O festival português estabeleceu uma relação com a Casa Cais que virá depois ao Folio com uma embaixada que trará Luana Carvalho e ainda a poeta carioca Alice Sant'Anna, o músico Pedro Sá e uma exposição do músico e artista visual Domenico Lancellotti que estava na casa em Paraty.

"Foi estupendo ter ido este ano", disse Pilar del Río que mesmo antes de partir já entendia a FLIP como algo muito português, não só pela cobertura na imprensa, como pelos relatos das pessoas que por lá passavam. " Paraty parecia profundamente português, embora estivesse do outro lado do Oceano. Era como se fosse algo nosso." No entanto foi uma surpresa. "Por um lado reúnem-se milhares de pessoas por causa da literatura. Por outro, é um projecto económico, cultural, um projecto de moda" com o qual podemos  aprender muito e ver como promover literatura ou produtos culturais em Portugal.

A editora da Tinta-da-China Bárbara Bulhosa, que já assistiu a cinco edições da festa, todos os anos contrata algum autor que descobriu em Paraty. A editora, que está também a publicar no Brasil, acaba de lançar especialmente para aquele país a colecção Grandes Escritores Portugueses, que se iniciou com Os Passos em Volta, de Herberto Helder, Breviário do Brasil, de Agustina Bessa-Luís, e Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, de Antero de Quental. E outros autores, como Eduardo Lourenço, se seguirão. O projecto é financiado pelo Instituto Camões, pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, e pelo Turismo de Portugal, o que lhe permite não perder dinheiro. 

“Enquanto editora, foi fundamental a ida à FLIP, porque no primeiro ano em que abri a Tinta-da-China Brasil a Dulce Maria Cardoso foi a autora portuguesa convidada. Vendemos muitos livros e foi muito importante para a editora”, explica. Seguiram-se Almeida Faria, Alexandra Lucas Coelho, Matilde Campilho (que no Brasil tem outra editora) e, este ano, Ricardo Araújo Pereira. Apesar de a festa concentrar naqueles dias grande parte da elite intelectual brasileira, Bárbara lembrou que é composta de "público que lê" e de "público que sabe que há ali uma festa". “A organização não é elitista” e “somos sempre muito bem recebidos”.

Tito Couto lembrou que “falamos da FLIP como se fosse um festival”, mas na realidade “são 15 festivais”, além “da programação oficial com espaço próprio, a Tenda dos Autores, com centenas largas de pessoas e cá fora outras tantas a assistir pelos ecrãs”, e “na própria cidade há umas quinze casas” geridas por editoras, jornais ou associações de editoras que também têm programação de manhã à noite, com debates sucessivos. “As casas estão cheias com plateias de 40 a 50 pessoas, é-se completamente submerso em ofertas de debates do mais variado tipo. A própria atitude de quem vai para a FLIP está mais próxima do ambiente dos Santos [populares] do que de um festival literário.”

Ricardo Araújo Pereira como convidado deste ano, entre a Prémio Nobel da Literatura, Svetlana Alexievich e o norueguês que vendeu milhões de livros, Karl Ove Knausgård, achou que é bizarro estar lá ao lado deles. Apesar de Anabela Mota Ribeiro que moderava a conversa ter dito que o humorista português “deu show de bola”, como diriam os brasileiros, este sentiu-se como se estivesse num daqueles puzzles que na Rua Sésamo se costumava apresentar às crianças com uma banana, uma laranja, um sapato e a pergunta: “O que está mal aqui?”: “A minha experiência é ser o sapato em todos os sítios em que estou”, fez rir a plateia Ricardo Araújo Pereira.

Mas é isso que atrai em Paraty, além de aquele lugar ser extraordinariamente bonito. “Há também uma coisa em Paraty que não encontrei em mais nenhum sítio, a expectativa de que as mesas, mais do que uma conversa entre autores que estão a falar das coisas que escrevem, seja uma performance: há a expectativa, no público e até nos jornalistas, de no fim se decidir quem é que cortou duas orelhas e um rabo, quem saiu vitorioso de uma espécie de contenda", diz o humorista.

 “Os brasileiros estão interessados na literatura portuguesa, sentimos isso também com as vendas que conseguimos”, diz Tito Couto. A empresa, que organiza acontecimentos literários, faz agenciamento de escritores e tem uma área de consultadoria para editores, está há cerca de um ano e meio com a estratégia de colocar os seus autores no mercado brasileiro, tendo conseguido a publicação de 13 autores portugueses naquele país, num total de 25 obras já lançadas ou a lançar durante o ano de 2017.

Na Companhia das Letras será publicado o Prémio José Saramago 2015, Bruno Vieira Amaral, com o romance As Primeiras Coisas bem como uma nova tradução de Frederico Lourenço - sabe-se apenas que se trata de uma das mais importantes obras da História - que será anunciada em breve, saindo primeiro em Portugal e depois no Brasil. Também Teolinda Gersão vai ver A Cidade de Ulisses e Os Anjos, na editora carioca Oficina Raquel, que já publicou Maria Teresa Horta, e onde Mário Cláudio irá também editar Retrato de Rapaz e O Fotógrafo e a Rapariga. Luís Aguilar, com Mourinho Rockstar, na Grande Área, e Jogada Ilegal, na Gryphus, editora que tem publicado vários livros de José Eduardo Agualusa. E Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida, na Rovelle. Noutras editoras serão publicadas ainda obras de Ana Cristina Silva, Maria Conceição Caleiro, Miguel Real, Joel Neto, Miguel Miranda e Pedro Vieira.

Corrigidas as datas em que se vai realizar o Folio, é a 22 de Setembro que se inicia o festival e não a 28"

terça-feira, 14 de junho de 2016

"Nem preciso de Deus" - Entrevista de Alexandra Lucas Coelho publicada no suplemento Mil Folhas (jornal Público - 11/11/2000)

A fotografia da capa desta edição, foi posta em destaque na página do Facebook da Fundação José Saramago, aqui em https://www.facebook.com/fjsaramago/?fref=nf

"A capa do saudoso suplemento Mil Folhas do jornal Público de 11 de novembro de 2000, onde se publicava uma entrevista dada por José Saramago a Alexandra Lucas Coelho por altura da publicação de "A Caverna".
A ilustração da capa é de André Letria." - Fundação José Saramago

A entrevista pode ser consultada e recuperada, aqui
Publicada no suplemento Mil Folhas (jornal Público - 11/11/2000)

"Nem preciso de Deus" - Alexandra Lucas Coelho

"O primeiro romance de Saramago pós-Nobel não chega a ter matéria de incómodo. Talvez no próximo, "A Viagem do Elefante", regresse à insurreição com que fala, por exemplo, de Deus.

Só por ordem médica o Nobel José Saramago desistiria de viajar. E como aos quase 78 anos (cumpridos no próximo dia 16) continua seco e saudável, entre Nova Iorque e Santiago do Chile deu um pulo a Lisboa esta semana. Os 50 mil exemplares do seu novo romance acabavam de ser impressos, a tempo de chegarem dia 15 às livrarias, e havia que acertar os pormenores do lançamento nacional e internacional - directos pela Internet, digressões por Espanha, etc. 
Sendo que a ideia de "A Caverna" já vem de antes do Nobel, ao fim de três anos e de umas tantas voltas ao mundo, eis finalmente o romance - afinal escrito em apenas seis meses, os primeiros de 2000. Um recorde pessoal de quem queria mesmo acabar antes do fim do século. "A única pressão era essa, escrevi-o no mesmo estado de espírito dos anteriores. Não tinha que provar que era capaz de fazer outro livro." 
De resto, o próximo, entre uma digressão e outra - "não consigo dizer que não" - já tem nome: "A Viagem do Elefante", a ser escrito logo que Saramago termine duas encomendas menos morosas: uma história policial, para o Brasil, e o prefácio de um volume da Bíblia, a sair em Itália. 
Na Alegoria da Caverna segundo Saramago, uma família de oleiros representa o exterior humano e artesanal de um Centro (nunca se escreve comercial, mas o autor tem-lo dito) com muralhas altas e janelas que não se podem abrir (para evitar suicídios incómodos). 
Estamos longe da intensidade (e da ideia) de um "Ensaio Sobre a Cegueira", a obra que abre, diz o autor, a "trilogia involuntária" que "A Caverna" vem fechar - no meio está "Todos os Nomes" -, constituindo uma "espécie de visão do estado da humanidade". 

PÚBLICO - "A Caverna" não é propriamente uma descida aos infernos. Em relação ao "Ensaio Sobre a Cegueira", em que o autor nos coloca dentro do horror, aqui estamos sempre de fora, e quando entramos, saímos logo, como os protagonistas, aliás. 
JOSÉ SARAMAGO - Saiem, mas sabem que o que faziam [a olaria] já não serve a ninguém e que o futuro é incerto. Essa saída faz-se pelo amor, duplamente, o de Marçal e Marta, o de Cipriano e Isaura. O amor construído a pouco e pouco, que tem medo de ser. Mas é efectivamente um livro cheio de ternura.

Que tempo e lugar tinha na cabeça?
Pode ser o nosso tempo. Não houve nenhuma catástrofe nuclear nem ecológica. Aquele rio está podre, mas não faltam rios podres... o lugar concreto que tinha na cabeça é a minha própria aldeia [Azinhaga, concelho da Golegã], o rio da minha aldeia que cheira mal que tresanda... com as fábricas que despejam todas as imundíces. E há esse mundo que se extingue, que tem como paradigma a olaria.

Em vez do Centro, da Caverna, o autor opta por detalhar aquela vida artesanal, aquela humanidade arcaica.
Foi talvez a própria história que o determinou. Dei-me conta que havia qualquer coisa ali que se destingue do "Ensaio...", de "Todos os Nomes".

Como se a sua visão amarga e pessimista se tivesse suavizado?
Não, não penso melhor do mundo do que quando escrevi o "Ensaio...", nem haveria razões para isso. Digamos que aquela gente merecia outro tratamento. É uma espécie de piedade, que não é auto-comiseração, mas piedade pelo ser humano, que é tão frágil. Mas o autor tem a consciência de que nunca vivemos tanto na Caverna de Platão como agora. Acho que o Platão escreveu o livro sétimo da "República" para nós. É que as pessoas estão tão contentes de ser aquilo que são... E sem querer chocar ninguém, estão a ser tão pouca coisa que não creio que seja "A Caverna" que os vai iluminar, provavelmente necessitariam de um choque mais violento, um choque com os seus próprios interesses. Vivemos em plena egonia, é o egonismo não só dos que têm, mas dos que fazem de conta que são ricos. Andamos no fingimento.

Na disputa de poder interno, o PCP é um partido como os outros

A ilusão da Caverna. E qual é a alternativa?
O caminho da participação, da indignação, uma insurreição ética. Os partidos políticos, particularmente os de esquerda, deveriam meter os seus programas numa gaveta e pôr na mesa e na prática uma coisa tão simples como a carta dos direitos humanos.

Nessa lista incluía o PCP?
Evidentemente.

É o seu partido, ultimamente rasgado por debates internos que têm a ver com liberdades tão básicas como a de expressão.
O que está em debate no PCP é que há uns que se anunciam assim e outros que se anunciam assado e, como é normal em qualquer partido, uns pretendem retirar os outros para ocuparem o seu lugar. Nesse plano, o da disputa do poder interno, o PCP é um partido como outro qualquer. Mas não está a acontecer nada de extraordinário, tudo isto se passou noutros partidos comunistas. As coisas vivem, têm um tempo, corrompem-se, fragmentam-se. O unanismo não é possível. Costumo dizer que não deixo o meu partido sobre a condição de que o meu partido não me deixe a mim.

O partido deixá-lo significa o quê?
Deixar o partido de ser o que é, aquilo que me fez entrar nele. Mas não vejo outro onde pudesse estar. Se o partido me deixar, não vale a pena virem-me com cantos de sereia. Se houver essa mudança, que pode acontecer, não me verão noutro. O PCP nem sempre me tratou bem, mas não vale a pena levantar agora a crosta das feridas.

Porque estão saradas?
Saradas estão, mas esquecidas não.

Há uma pergunta, que calculo que para si seja particularmente incómoda, que tem a ver com o livro de Carlos Brito.
Qual livro de Carlos Brito?

O livro que a sua editora, a Caminho, recusou e que foi publicado agora na Campo das Letras.
Nada a dizer. Não sei nada. Não conheço a história.

Sente-se longe, Portugal não é a sua casa?
Não é a minha casa mas é o meu país. Sinto-me um português... pago os meus impostos aqui, se isso interessa a alguém... o que me dói é que esta terra tenha deixado de sonhar.

Imagina-se a voltar?
Creio que não. Mas mesmo lá [em Lanzarote], as coisas não são tão fáceis. Agora estão a chegar às Canárias clandestinos de África, e desenvolvem-se movimentos racistas, xenófobos, contra os quais protestei. E no outro dia, em Las Palmas, houve uma manifestação em que se gritava: "Saramago vai-te embora!".

E o senhor vai?
Não. Mas eu venho cá quase todos os meses, e sou apenas um dos muitos que vivem longe... o Jorge de Sena estava longe, o Rodrigues Miguéis também, o Eduardo Lourenço está longe, e alguns eventualmente não estão longe porque não podem, ou não encontraram razão para isso. Eu não faço tanta falta, e a que faço satisfaço-a escrevendo, em português.

O que está a escrever?
Vou escrever um prefácio para um dos livros da Bíblia, uma edição italiana, em volumes. Para uma colecção da Companhia das Letras, brasileira, vou fazer uma história policial com uma figura literária, escolhi o Alexandre Dumas. Há ainda "O Livro das Recordações", que afinal se chamará "O Livro da Lembrança", tenho que voltar aos "Cadernos de Lanzarote", que só interrompi para que não fosse um relato contínuo de viagens. E nestes últimos dias, em Lanzarote, apareceu-me uma ideia para um romance, "A Viagem do Elefante". Não quero dizer mais que o título.

"Não tenho nenhuma relação com Deus"

A propósito da Bíblia, a sua relação com Deus...
Não tenho nenhuma relação com Deus! Tenho uma relação com um texto que se chama Bíblia.

A sua tranquilidade é tanta que consiga dizer isso assim?
Total, total. Vivo tão tranquilamente com a Bíblia, como vivo com o Corão, com os Vedas, com o Talmude... são obras humanas! A Bíblia levou quatro mil anos a escrever! Se se considera legítimo, não havendo provas, que se diga que Deus existe, também se deve considerar legítimo que se diga que não. Há coisas que para mim são básicas: as religiões nunca serviram para aproximar as pessoas, pelo contrário; matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino, e assim se tem feito; se há guerras absurdas são as religiosas; se amanhã um Deus - porque se houver Deus é um único - tiver que chamar toda esta gente para lhe pedir contas, vai encontrar-se com milhares de religiões, sub-religiões, seitas, etc. E o que é que ele vai fazer? Premiar uns quantos que sejam católicos e islamistas e castigar os outros? Tudo quanto se passe em nome de Deus é pura farsa, puro engano, pura mentira, ninguém pode falar em nome de Deus, se Deus existe, não disse a ninguém nada. Não disse. Para mim não existe Deus.

E como é que se pensa na morte?
É enquanto estamos vivos que devemos pensar na morte. Qual é a diferença de pensar na morte crendo ou não crendo?

Para um crente a morte não é o fim.
Mas porque é que a morte não é o fim, se tudo tem que ter um fim? Tem algum sentido, numa galáxia tão imensa, que Deus tenha posta a sua suprema obra aqui?!!! Num planeta que tem uma história, que tem uma bola de fogo, que tem ainda fogo dentro? A vida é uma operação química de todos os dias e foi assim que começou. O milagre, a coisa genial, é que fomos capazes de inventar tudo. Até fomos capazes de inventar Deus. O que é que há fora da minha cabeça? Na minha cabeça pode estar Deus, pode estar o Diabo. Aqui [aponta para a cabeça] é que está o bem, o mal, a justiça, conceitos que transporto, aqui! E note que não sou má pessoa, nem preciso de Deus para ser boa pessoa, tentar, pelo menos. E não me tenho dado mal."