Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Pilar del Río entrevistada por Daniel Benevides - "A musa veemente" (Revista Brasileiros 14/01/2014)

"A musa veemente"

"Pilar del Río, viúva de Saramago, fala sobre sua carreira de 40 anos de jornalismo e da vida ao lado do escritor"

Por Daniel Benevides (14/01/2014)

Pilar del Río... nas suas palavras

Recuperação da entrevista, respeitando o conteúdo existente no site brasileiros.com.br

Link original da entrevista,

"Pilar não poderia ser nome mais apropriado. Magra, alta, elegante, é ela quem sustenta, com disposição inabalável, a Fundação Saramago, em Lisboa. Antes, a espanhola de sobrenome Del Río (também apropriado, pois é muito fluente na fala e no raciocínio, rápido e certeiro como uma flecha) era o apoio imprescindível do marido, José, escritor de obras-primas, como Ensaio sobre a Cegueira e tantas outras, Prêmio Nobel em 1998.
Somados o senso de humor, a inteligência e a integridade de ambos, formavam um casal mítico, de um glamour romântico-intelectual comparável a Sartre e Beauvoir. Um casal de filme. Tanto que realmente o foram, pelas mãos sensíveis do diretor português Miguel Gonçalves Mendes. José e Pilar mostra a intimidade e o cotidiano de ambos em um período de dois anos, entre viagens e o refúgio na ilha de Lanzarote, para onde se mudaram em 1993.

“Eu quis assassinar o Miguel”, diz Pilar, ao lembrar uma das cenas em que ela não sabia que estava sendo filmada. Famosa pela veemência com que dá suas opiniões (mesmo brincando), Pilar sempre militou pelos oprimidos: seduzida pela igreja progressista, foi monja teresiana ao mesmo tempo que lia Marx. Lutou contra a ditadura de Franco em programas de rádio e TV, tendo participado ativamente do período de transição democrática na Espanha. Feminista ferrenha, ecologista e vegetariana, também defende com forte convicção causas polêmicas, como a legalização das drogas e a eutanásia.

Dividia as convicções de esquerda com Saramago, cuidava de sua agenda, montou sua biblioteca e traduzia suas obras para o espanhol. Eram diferentes em muitos aspectos, mas não no essencial; quando Saramago falava da mulher, poderia estar definindo-se a si mesmo: “A Pilar tem uma consciência muito clara sobre o mundo em que vive. (…) A injustiça, a indignidade, a falta de escrúpulos, a hipocrisia põem-na completamente fora de si”. Ao que completava, com a convicção de eterno apaixonado: “Tenho muitas razões para acreditar que o grande acontecimento da minha vida foi tê-la conhecido”.

De fato, quem conhece María del Pilar del Río Sánchez, nascida em Granada em 1950, fica impressionado com sua força. É assim por onde passa nas dezenas de seminários, feiras e conferências a que vai todo ano para divulgar a obra e as ideias de Saramago. E foi assim na Fliporto, em Olinda, onde ela conversou generosamente com a Brasileiros.

Brasileiros – Sabendo tudo o que você faz e sempre com tão boa disposição, fica inevitável perguntar: de onde tira tanta energia?

Pilar Del Río – É o meu jeito, sou assim, não paro nunca. Sou a mais velha de 15 irmãos, então sou muito ativa desde pequena. E detesto essa coisa que muita gente faz de dizer “não sei…”. Como não sabe? Se você quer algo da vida tem de saber tudo o que se passa a seu redor. Conheço jovens que dizem estar cansados com 20 anos… Como podem? Precisam dar a volta ao mundo três vezes para ficarem cansados. Durmo quatro horas por noite. É o suficiente.

Brasileiros – Você não é muito exigente consigo mesma?

P.D.R. – Sou e, ainda assim, não consigo ser a pessoa que eu deveria ser.

Brasileiros – E quem você deveria ser?

P.D.R. – Uma pessoa mais capaz, mais completa, mais útil. Não consigo. Tenho uma responsabilidade e um trabalho muito grandes, de ajudar a abrir portas para a obra de Saramago. Mas mesmo com todo o tempo que dedico à Fundação, sinto que meu papel é ínfimo. Meu grande pavor é que a dimensão fabulosa de Saramago – e não digo isso por adoração, mas por acreditar mesmo que sua obra é universal, admirável e necessária – se perca ou fique relegada a um espaço pequeno.

Brasileiros – E o que, para você, torna a obra de Saramago tão necessária?

P.D.R. – Acho que Saramago tinha um grande respeito pelo leitor, de forma que quem o lê se sente um ser humano mais inteligente.

Brasileiros – Não foi exatamente isso que você disse para ele quando o conheceu?

P.D.R. – Sim, e é verdade, ele desperta ideias e sensações que te fazem parar e dizer: por que não me ocorreu isso antes? Em sua obra está construída a possibilidade de um mundo que não precisa de poder e riqueza, um mundo que se faz simplesmente com honestidade e inteligência. Mas abdicamos disso todos os dias e não nos damos conta. Esvaziamos o edifício democrático. Nós, cidadãos, somos muito frágeis. E não nos damos conta de que se os governos são corruptos, é porque a sociedade é corrupta. Se um governo é indiferente, é porque a sociedade é indiferente. Os governos nascem da sociedade, não vêm de Marte

Brasileiros – Muita gente diz não ver mais distinção entre esquerda e direita, como é isso para você?

P.D.R. – Acho que as políticas econômicas de governos de esquerda e direita não se distinguem muito. Mas quero que haja governos de esquerda. Para mim, há muita diferença, por exemplo, que no Chile governe a Bachelet, e não o Piñera. Na Espanha, não é o mesmo para mim que governe o Partido Socialista ou o Partido Popular. Para os radicais de esquerda, é tudo a mesma merda. Para mim, não. Se as políticas econômicas não são distintas, há diferenças importantes nas políticas sociais.

Brasileiros – Conta um pouco da sua trajetória em rádio e TV.

P.D.R. – Comecei no rádio, e logo fui para a TV, sempre colaborando com a imprensa escrita. Era basicamente jornalismo político disfarçado de informação cultural, para enganar a censura. Fui crescendo até ganhar espaço nacional. Todas as ocasiões eram boas para colocar em evidência que existiam outras pessoas além dos franquistas, e outras formas de entender a vida. Fiz algumas reportagens que hoje me surpreendem: era ousada e não sabia…

Brasileiros – E fez também grandes entrevistas. Lembra de algumas?

P.D.R. – Entrevistei pessoas que nem podiam crer que existissem. Claro, sabia quem eram, mas descobria nelas mundos impressionantes. A verdade é que éramos militantes de uma forma de estar no mundo, tanto nós jornalistas, como artistas, políticos na clandestinidade, escritores… Sentíamos que estávamos criando um mundo distinto. Não havia objetividade jornalística, se tratava de abrir caminhos. Lembro da entrevista com (Miguel Ángel) Astúrias em Sevilha, e de haver contado como tinha sido a seu filho, que estava na guerrilha. Lembro de ter tido problemas por dizer que Neruda era comunista; lembro da gentileza de um escritor que colocou seu paletó em meus ombros e disse, com delicadeza, que minha blusa estava manchada com leite; lembro de subir ao trem que trazia Rafael Alberti do exílio, convidada pelo sindicato de ferroviários… Enfim, lembro de mil batalhas de quem já tem 40 anos de profissão. E nomes preciosos, como o escritor Manuel Vázquez Montalbán, cuja morte prematura dói todo dia. E claro, entrevistei escritores universais e magníficos como José Saramago e políticos interessantíssimos, de esquerda e direita, como Aldo Moro…

Brasileiros – Você falou também com admiração de Pilar Manjón e uma comandante zapatista…

P.D.R. – A comandante zapatista e Pilar Manjón, mãe de um jovem assassinado em um ato terrorista, falaram aos parlamentos do México e da Espanha, e as duas foram deslumbrantes, fizeram emudecer seus países, falaram com emoção e simplicidade dos assuntos mais importantes. Deram lições de dignidade, que nem quero nem posso esquecer nunca. Tampouco a alguns políticos da transição espanhola que entrevistei e dos que, em certos casos – Adolfo Suárez, Santiago Carrillo –, recebi confidências extraordinárias, como, por exemplo, o que intimamente haviam sentido diante da tentativa de golpe de Estado, ou quando o Partido Comunista foi legalizado. Creio que essas confidências justificam uma vida de jornalista.

Brasileiros – Lembra do período de monja teresiana? Do “ver, ouvir e não calar”? Como era a sua atuação?

P.D.R. – Fui teresiana porque sentia a urgência de ser útil. Conheci o funcionamento da Igreja, vivi o Vaticano II com expectativa que não correspondia à minha idade, aprendi sobre Santa Teresa, mas um dia me disseram que eu estava empenhada em viver de uma forma que não me deixava feliz. Pode-se dizer que me recomendaram a felicidade; acho que ninguém jamais foi despedido com tanta elegância. Anos mais tarde me dei conta de que tinham razão.

Brasileiros – Você participa ativamente na escolha dos vencedores do Prêmio Saramago?

P.D.R. – Participo como os outros jurados, lendo os livros que chegam e tendo de optar por um, o que é terrível, pois vários merecem o prêmio… Sei o quanto é importante ganhar esse prêmio para os autores, pois dá a eles nome e prestígio. Me dá muito orgulho ver como a literatura em português está se renovando e que José Saramago está por trás disso tudo, com sua generosidade sem limites.

Brasileiros – Em linhas gerais, de que livros é composta a Biblioteca Saramago?

P.D.R. – A biblioteca geral está em Lanzarote, na Espanha. Em Lisboa, só há uma seleção que José Saramago deixou em seu escritório pessoal, quando se construiu o edifício que abrigaria a biblioteca na ilha. Tem de tudo: as leituras de uma vida – ou de duas vidas, porque estão meus livros em espanhol –, os livros que os amigos iam mandando, os comprados com dificuldade por causa da censura ou da falta de recursos e os mais recentes, os utilizados para pesquisa, os dicionários, os livros de História e Filosofia, os de entretenimento, os lidos várias vezes e os que nunca foram abertos… Não é uma biblioteca valiosa do ponto de vista acadêmico, simplesmente está cheia de vida porque José Saramago dizia que cada livro traz dentro de si uma pessoa, portanto é uma reunião de gente, que eu quis preservar assim para que quem a visite ouça as vozes desses autores que nos chamam.

Brasileiros – Você já declarou que escreve para “queimar a página”. É uma mulher de paixões fortes, a quem muitos atribuem qualificativos como firme, veemente, inflexível, corajosa e com senso de humor agudo. Nunca teve momentos em que fraquejou ou viu-se perdida em dúvidas?

P.D.R. – Não passa um dia que eu não tenha dúvidas sobre tudo. E são dúvidas tão profundas que não se podem resolver, eu nem sequer comento com ninguém. A segurança que eu aparento vem de saber que tenho de terminar um projeto que tem a ver com uma cultura, uma língua e um país. E que esse projeto foi encomendado a quem não pertence a essa cultura nem a essa língua – ao país sim, pois pedi a nacionalidade portuguesa. Sei o que é a solidão do corredor de maratona. Quanto ao humor… Sobretudo, rio de mim mesma o dia inteiro. E isso ajuda muito!

Brasileiros – Para você, não havia diferença entre o Saramago sujeito e sua obra. Como tradutora, você se põe na margem oposta, invisível.

P.D.R. – Que o autor queira ou pretenda ser invisível é algo em que não acredito. Os autores estão sempre presentes em suas obras. Não é que contem suas vidas, muitas vezes anódina, mas são a matéria central de seu trabalho, seja narrando adultérios, viagens à Lua ou desmistificando os livros sagrados. Quem tem de estar invisível, ainda que tenha de entregar-se ao texto 100% é o tradutor, que será sempre um alquimista desconhecido e sofredor, pois sabe que nunca conseguirá transformar ouro em ouro, no máximo em prata…

Brasileiros – E como começou a traduzir Saramago?

P.D.R. – Eu havia traduzido várias edições de Os Cadernos de Lanzarote, conferências, O Conto da Ilha Desconhecida, cartas e teatro. Comecei a traduzir os romances porque o tradutor Basilio Losada teve um problema com a vista, enquanto traduzia Ensaio sobre a Cegueira. E não deixei escapar a ocasião. (Leia comentários sobre as traduções ao lado.)

Brasileiros – Qual, afinal, é a cena do filme José e Pilar que você detesta tanto? A da cozinha?

P.D.R. – Essa cena me dá tanta raiva que não quero nem comentar, mas não é a da cozinha. Tenho raiva de mim mesma de não ter colocado limites… Consequências da liberdade.

Brasileiros – O que espera da Fundação para os próximos anos?

P.D.R. – Fazer com que a sede, a Casa dos Bicos, decole como um foguete. Chegar a todos os leitores do mundo, com os livros de Saramago e também com a revista eletrônica Blimunda, que editamos. Conseguir convencê-los de que ou assumimos nossos deveres como seres humanos ou perderemos os direitos, que temos o dever de exigir os direitos. Quero convencer os investidores do Brasil que apoiar a cultura e o conhecimento é também lucrativo e espero que me chamem. Quero que a Fundação, tanto em Lisboa como a Casa de José Saramago, em Lanzarote, construa pontes. Quero ver, da Fundação, como se espalha a generosidade de José Saramago, que compartilhava tudo."


TRADUÇÕES COMENTADAS

TODOS OS NOMES
“Primeiro impacto. Vivi a tradução em estado de medo permanente. Perdi 30 páginas que não pude recuperar. A estupidez cometida me deprimiu tanto que até saí de Lanzarote para esquecer e fiquei com minha mãe em seu povoado. Quando voltei a traduzir, me dei conta de que continuava com as mesmas dúvidas. O lançamento em 
Madri ficou a cargo de um grande jornalista, que elogiou o trabalho, à parte considerar o romance um monumento. Nesse dia, consegui respirar depois de um ano sufocada.”

ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ 
“O livro de minha militância, o épico de quem, nesses dias, não se resigna. Um livro para ser lido nas faculdades e nas fábricas. Um livro indispensável para saber que nós, cidadãos, somos o centro do mundo. Um orgulho tê-lo traduzido.”

CLARABOIA
“Esperei até o 12 de dezembro de 2010, à meia-noite, para traduzir a última página. Fiquei o resto de minha vida acompanhada pela voz de José Saramago. Esse era seu primeiro livro, mas também nossas últimas conversas. Quem disse que a sensibilidade não se prolonga depois da morte? Nunca deixei de sentir essa companhia.”

CAIM
“Também um grito: José Saramago não queria morrer sem ter dito tudo. Disse aqui o que pensa das organizações religiosas e dos que utilizam o medo dos seres humanos para dominá-los. Quando assinei a tradução, estava também assinando o grito e a rebeldia de José Saramago.”

VIAGEM DO ELEFANTE 
“José Saramago havia escapado da morte. Escrever esse livro era um sinal de vida. E a tradução, uma celebração dessa vida: cada linha, cada palavra era um grito de triunfo: sim, conseguimos, estamos aqui, vivos, pensando, compartilhando.”

(Todos os livros são da Companhia das Letras.)

"Uma inesgotável esperança" - Obra conjunta de José Saramago e Antoni Tàpies para Elkarri

"Presentación de la obra conjunta de José Saramago y Antoni Tàpies para Elkarri"
Barcelona, 12 de marzo de 2005

José Saramago e Antoni Tápies

Artigo para consulta, via Elkarri


 Introducción

«Por la irreversibilidad»

"Elkarri ha presentado hoy en el Museo de Arte Contemporáneo de Barcelona una obra conjunta de José Saramago y Antoni Tàpies cuyo motivo es apoyar la lucha de la sociedad vasca por hacer irreversible un tiempo de paz, diálogo y soluciones Elkarri ha presentado hoy en el Convent dels Àngels del Museo de Arte Contemporáneo de Barcelona una obra conjunta de José Saramago y Antoni Tàpies con la presencia de los dos creadores y de un amplio abanico de personalidades políticas y del ámbito socio cultural, entre las que cabe destacar el Conseller en cap, Josep Bargalló; el Lehendakari, Juan José Ibarretxe; el President del Parlament, Ernest Benach; el Conseller de relaciones institucionales, Joan Saura; la vicepresidenta del PSC, Manuela de Madre; el vicepresidente segundo de la Mesa del Congreso de los Diputados de CiU, Jordi Vilajoana; el secretario general de ERC, Josep-Lluís Carod-Rovira; y el senador y vicepresidente de ICV, Jordi Guillot.
El acto, que ha sido presentado por Anna Sallés, Profesora de Historia Contemporánea de la Universidad Autónoma de Barcelona y mujer de Manuel Vázquez Montalbán, escritor fallecido y gran colaborador de Elkarri, ha contado con las intervenciones del coordinador general de este movimiento social, Jonan Fernandez, y del Premio Nobel de Literatura, José Saramago, así como con los saludos institucionales del President del Parlament, del Conseller en cap y del Lehendakari.
En octubre del pasado año, Elkarri propuso a Antoni Tàpies y José Saramago que prestasen, el primero, una obra gráfica y, el segundo, un breve texto para participar en esta iniciativa. Los dos autores respondieron positivamente y ofrecieron su aportación artística para colaborar con el trabajo de este movimiento social. El título de la obra conjunta de José Saramago y Antoni Tàpies es «Por la irreversibilidad» y su motivo es apoyar la lucha de la sociedad vasca por hacer irreversible un tiempo de paz, diálogo y soluciones. Es un homenaje a su exigencia y a su esperanza.
La edición de esta obra constituye una única iniciativa pero está compuesta de dos proyectos diferenciados. Por un lado, la edición limitada, que se ha presentado hoy, de dos láminas serigrafiadas, una con la obra de Tàpies y otra con la de Saramago. Por otro lado, la edición popular y masiva de un cartel que integrará las obras de ambos artistas y que se presentará y divulgará a partir de mayo.
La edición limitada está compuesta de 60+XV copias de dos láminas serigrafiadas, numeradas y firmadas por los autores, que reproducen un texto de José Saramago (Esperanza inagotable, 2004) y una obra gráfica de Antoni Tàpies (sin título, 2004). Las obras se han serigrafiado mediante técnica manual en el Taller de serigrafía de Arteleku por Nerea Zapirain y se presentan en una carpeta diseñada por Zut. La estampación se ha realizado en papel artesanal de 300 grs/m2, hecho a medida por Eskulan. La composición del papel es de 90% algodón y 10% lino. Su tamaño es de 544x444mm. Esta carpeta se ha editado en febrero de 2005 por Elkarri y ha contado con la estrecha colaboración técnica de la Fundació Antoni Tàpies y del Centro Arteleku de la Diputación Foral de Gipuzkoa.
A través de esta iniciativa, Elkarri se propone alcanzar dos objetivos. Con la edición limitada, obtener fondos para impulsar los proyectos por el diálogo y la paz de este movimiento social. Con la edición popular y mediante una iniciativa de gran impacto cultural y creativo, difundir masivamente ese mensaje concreto de nuestra sociedad que exige hacer irreversible un tiempo de paz, diálogo y soluciones. En definitiva, difundir cultura de paz mediante dos obras de arte. Intervención de Jonan Fernandez, Coordinador de Elkarri «Nuestra sociedad está exigiendo un compromiso irreversible, irrevocable, definitivo, inmediato... con un nuevo tiempo de no violencia, diálogo y soluciones»."

As artes de Antoni Tàpies e José Saramago, patentes na Fundação José Saramago

"Uma inesgotável esperança"
"É certo que existe uma terrível desigualdade entre as forças materiais que proclamam a necessidade da guerra e as forças morais que defendem o direito à paz, mas também é certo que, em toda a História, só pela vontade dos homens a vontade doutros homens pôde ser vencida. Não é com forças transcendentes que teremos de confrontar-nos, mas sim, e apenas, com outros homens. Trata-se, portanto, de tornar mais forte a vontade de paz que a vontade de guerra. Trata-se de participar na mobilização geral da luta pela paz: é a vida da Humanidade que assim estaremos defendendo, esta de hoje e a de amanhã, que talvez se perca se não começarmos a defendê-la agora mesmo. A Humanidade não é uma abstracção retórica, é carne sofredora e espírito ansioso, e é também uma inesgotável esperança. A paz é possível se nos mobilizarmos para ela. Nas consciências e nas ruas."
José Saramago


Serigrafia de Antoni Tàpies

Link para a Fundació Antoni Tàpies, em http://www.fundaciotapies.org/site/spip.php?rubrique65


Texto de José Saramago

domingo, 28 de dezembro de 2014

José Saramago e as suas entrevistas... documentos para o presente e o futuro...

Pergunto-me. 
Quantas entrevistas, conferências, "mesas redondas", tertúlias públicas, debates, manifestações, intervenções... quantos destes actos, de exposição das suas ideias e palavras, terá José Saramago participado?
Há diversos relatos de salas com milhares de pessoas, acotovelando-se para o ouvir. Relatos de filas intermináveis para recolher o seu autógrafo, como se de uma estrela de cinema se tratasse. 
José Saramago, foi um homem extremamente cuidadoso nas respostas que dava, quando entrevistado, mas essa ponderação, não o impedia de tocar "na ferida" dos assuntos, ou, não evitava o confronto sincero. Era disto que as pessoas, leitores ou não, nele admiravam. A resposta era dada, uma vezes com luva branca, outras vezes, dada com a intensidade de uma dor enorme.
Respondia, sempre com preocupações e anseios, dúvidas, raras certezas, com o confronto e a ironia, e devolvendo outras perguntas.

E agora...

Nestas suas palavras, denota-se a preocupação latente: - será que ajudei? será que fui útil? 

(Sebastião Salgado, Betinho e José Saramago - Rio de Janeiro, 1997)

"Creio que me fizeram todas as perguntas possíveis. Eu próprio, se fosse jornalista, não saberia o que perguntar-me. O mal está nas inúmeras entrevistas que tenho dado. Em todo o caso, tenho o cuidado de responder seriamente ao que se me pergunta, o que me dá o direito de protestar contra a frivolidade de certos jornalistas a quem só interessa o escândalo ou a polémica gratuita."
José Saramago, 2009

"José Saramago nas Suas Palavras"
Caminho, edição de Fernando Gómes Aguilera
Página 13



Catalão José Luis Sampedro com José Saramago
Link para inserção no blog, em 24 de Outubro de 2008,



"86 anos"
"Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado. Ou pior, amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. E porque haveriam de tê-la? Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei, próprias de quem cumpre 86 anos. Ou talvez não tão ociosas assim se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando porque sabia que não voltaria a vê-las. A lição é boa. Abraço-me pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a escrita no ponto em que tinha parado. Não há outra resposta."

"O Caderno"
Caminho, 2.ª edição
Páginas 115 e 116 (16 de Novembro de 2008)


"A Caverna" a moldagem, criação das peças e pintura... depois as suas sortes

Imagem encenada para recriação de um momento vivida na Olaria Algor, em "A Caverna"
Imagem cénica, criada por Odin Santos, com elaboração de peças de gesso, secagem e pintura.
Homenagem a Cipriano da Olaria Algor, à sua filha Marta de esperanças 
e a Marçal, que também ele desceu à caverna.

(...) "No segundo dia o oleiro viajou à cidade para comprar o gesso cerâmico destinado aos moldes, mais o carbonato de sódio, que foi o que encontrou como desfloculante, as tintas, uns quantos baldes de plástico, teques novos de madeira e de arame, espátulas, vazadores. A questão das tintas havia sido objecto de vivo debate durante e depois do jantar do dito primeiro dia, e o ponto controverso foi se as peças deveriam ser levadas ao forno depois de pintadas, ou se, pelo contrário, eram pintadas depois de cozidas e ao forno não voltavam mais. Num caso, as tintas tenham de ser umas, no outro, as tintas teriam de ser outras, portanto: a decisão tinha de ser tomada imediatamente, não podia ficar para a última hora, já de pincel na mão, É uma questão de estética, defendia Marta, É uma questão de tempo, opunha Cipriano Algor, e de segurança, Pintar e levar ao forno dará mais qualidade e brilho à execução, insistia ela, Mas se pintarmos a frio evitaremos surpresas desagradáveis, a cor que usarmos, é a que permanecerá, não estaremos dependentes da acção do calor sobre os pigmentos, tanto mais que o forno às vezes é caprichoso. Prevaleceu a opinião de Cipriano Algor, as tintas a comprar iriam ser, portanto, as que se conhecem no mercado da especialidade pelo nome de esmalte para louças, de aplicação fácil e secagem rápida, com uma grande variedade de coloridos, e quanto ao diluente, indispensável porque a espessura original da tinta é, normalmente, excessiva, se não se quiser usar um diluente sintético, serve mesmo o petróleo de iluminação, ou de candeeiro. Marta voltou a abrir o livro da arte, procurou o capítulo sobre a pintura a frio e leu, Aplica -se sobre Peças Já cozidas, a peça será lixada com lixa fina, de modo a eliminar qualquer rebarba ou outro defeito de acabamento, tornando a sua superfície mais uniforme e permitindo uma melhor adesão de tinta nas zonas em que a peça tenha ficado excessivamente cozida, Lixar mil e duzentos bonecos vai ser o cabo dos trabalhos, Terminada esta operação, continuou Marta a ler, há que eliminar todos os vestígios do pó produzido pela lixagem, usando um compressor, Não temos compressor, interrompeu Cipriano Algor, Ou, embora mais moroso, mas preferível, uma trincha de pêlo duro, Os velhos processos ainda têm as suas vantagens, Nem sempre, corrigiu Marta, e prosseguiu, Como sucede com quase todas as tintas do género, o esmalte para louças não se mantém homogéneo dentro da lata por muito tempo, por isso há que mexê-lo bem antes da aplicação, Isso é elementar, toda a gente sabe, passa adiante, As cores poderão ser aplicadas directamente sobre a peça, mas a sua aderência melhorará se se começar por aplicar uma subcapa, normalmente de branco fosco, Não tínhamos pensado nisso, é difícil pensar quando não se sabe, Discordo, pensa-se precisamente porque não se sabe, Deixe essa apaixonante questão para outra altura, e ouça-me, Não faço outra coisa, A base de subcapa pode ser dada a pincel, mas poderá haver vantagem em aplicá-la à pistola a fim de se conseguir uma camada mais lisa, Não temos pistola, Ou por meio de mergulho, Essa é a maneira clássica, de toda a vida, portanto mergulharemos, Todo o processo se desenrolará a frio, Muito bem, Uma vez pintada e seca, a peça não deve nem pode ser sujeita a qualquer tipo de cozedura, Era o que eu te dizia, o tempo que se poupa, Ainda traz outras recomendações, mas a mais importante é de que se deve deixar secar bem uma cor antes de aplicar a seguinte, salvo se se desejarem efeitos de sobreposição e mistura, Não queremos efeitos nem transparências, queremos rapidez, isto não é pintura a óleo, Em todo o caso, a cabaia do mandarim mereceria um tratamento mais cuidado, lembrou Marta, repare que o próprio desenho obriga a maior diversidade e riqueza de cores, Simplificaremos. Esta palavra fechou o debate, mas esteve presente no espírito de Cipriano Algor enquanto fazia as suas compras, a prova é que adquiriu à última hora uma pistola de pintar." (...)

"A Caverna"
Caminho, páginas 154 a 155

sábado, 27 de dezembro de 2014

A Visita... alguns momentos...

"Não subiu às estrelas se à terra pertencia.
E aos leitores."
"Está escrito que onde haja um sol terá que haver uma lua,
e que só a presença conjunta e harmoniosa de um
e do outro tornará habitável, pelo amor, a terra."


"Olharei a tua sombra se 
não quiseres que te olhe a ti."

"Eu não invento nada. Limito-me a pôr à vista.
Levanto as pedras e mostro o que está por baixo.
Nós somos o outro do outro."
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome
essa coisa é o que somos."
"Com a mesma veemência e a mesma força com que 
reivindicamos os nossos direitos,
reivindiquemos o dever dos nossos deveres."
"Além da conversa das mulheres,
são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita."
"Teve bons mestres nas longas horas nocturnas
que passou em bibliotecas públicas, lendo ao acaso,
com o mesmo assombro criador do navegante
que vai inventando cada lugar que descobre."
"90 anos: Quem podia lá faltar,
neste dia levantado e principal."
 Uma tarde passada
em visita à
Fundação José Saramago
 26 de Dezembro de 2014
 Detalhe das escadas que nos transportam,
auxiliados pelas palavras
subimos e conhecemos...


Fotografias tiradas em 9 de Julho de 2011
A Oliveira, o banco e as palavras...

"Quando for crescido quero ser como Rita" José Saramago sobre Rita Levi-Montalcinia (Prémio Nobel de Medicina em 1986)

(Foto: Rita Levi Montalcini retratada junto a Marie Curie por Sofía Gandarias. 
A foto foi tirada no estúdio da pintora, em Madrid)


"Quando for crescido quero ser como Rita", afirmou José Saramago sobre Rita Levi-Montalcini. A neurologista, vencedora do Prémio Nobel de Medicina em 1986.


Em "O Caderno", dia 27 de Outubro de 2008
Caminho, 2.ª edição, páginas 90 a 92
"Quando for crescido quero ser como Rita" - José Saramago

"Esta Rita a quem quero parecer-me quando for crescido é Rita Levi-Montalcini, ganhadora do Prémio Nobel de Medicina em 1986 pelas suas investigações sobre o desenvolvimento das células neurológicas. Ora, Prémio Nobel é coisa que já tenho, logo não seria por ambição dessa grande ou pequena glória, as opiniões dos entendidos divergem, que estou disposto a deixar de ser quem tenho sido para tornar-me em Rita. De mais a mais estando eu numa idade em que qualquer mudança, mesmo quando prometedora, sempre se nos afigura um sacrifício das rotinas em que, mais ou menos, acabámos por nos acomodar.
E por que quero eu parecer-me a Rita? É simples. No acto do seu investimento como Doutora “Honoris Causa” na aula magna da Universidade Complutense, de Madrid, esta mulher, que em Abril completará cem anos, fez umas quantas declarações (pena que não tenhamos conseguido a transcrição completa do seu improvisado discurso) que me deixaram ora assombrado, ora agradecido, posto que não é fácil imaginar juntos e unidos estes dois sentimentos extremos. Disse ela: “Nunca pensei em mim mesma. Viver ou morrer é a mesma coisa. Porque, naturalmente, a vida não está neste pequeno corpo. O importante é a maneira como vivemos e a mensagem que deixamos. Isso é o que nos sobrevive. Isso é a imortalidade”. E disse mais: “É ridícula a obsessão do envelhecimento. O meu cérebro é melhor agora do que foi quando eu era jovem. É verdade que vejo mal e oiço pior, mas a minha cabeça sempre funcionou bem. O fundamental é manter activo o cérebro, tentar ajudar os outros e conservar a curiosidade pelo mundo”. E estas palavras que me fizeram sentir que havia encontrado uma alma gémea: “ Sou contra a reforma ou outro qualquer outro tipo de subsídio. Vivo sem isso. Em 2001 não cobrava nada e tive problemas económicos até que o presidente Ciampi me nomeou senadora vitalícia”.
Nem toda a gente estará de acordo com este radicalismo. Mas aposto que muitos dos que me lêem vão também querer ser como Rita quando crescerem. Que assim seja. Se o fizerem tenhamos a certeza de que o mundo mudará logo para melhor. Não é isso o que andamos a dizer que queremos? Rita é o caminho."



Mais algumas informações, via Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Rita_Levi-Montalcini

"Rita Levi-Montalcini (Turim, 22 de Abril de 1909 — Roma, 30 de Dezembro de 2012) foi uma médica neurologista italiana.
Foi agraciada com o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1986 pela descoberta de uma substância do corpo que estimula e influencia o crescimento de células nervosas, possibilitando ampliar os conhecimentos sobre o mal de Alzheimer e a doença de Huntington. Desde 24 de Junho de 1974 era membro da Pontifícia Academia das Ciências.
Rita Levi-Montalcini foi designada em 1 de Agosto de 2001, directamente pelo presidente Carlo Azeglio Ciampi, senadora vitalícia da República Italiana , sendo a segunda mulher a ocupar este cargo, depois de Camilla Cederna.
Além do prémio Nobel, recebeu o título de doutora honoris causa de várias instituições universitárias: Universidade de Uppsala (Suécia), do Instituto Weizmann da Ciência (Israel), da McGill University do Canadá, da Universidade Complutense de Madrid, da Universidade Luigi Bocconi (Milão), da Universidade de Trieste e do Instituto Politécnico de Turim, na Itália, entre outras.
Recebeu o Prémio internacional Saint-Vincent, o prémio Feltrinelli e o prémio "Albert Lasker de Pesquisa Médica Básica". Em 22 de Janeiro de 2008 foi-lhe concedido o doutoramento "honoris causa" em biotecnologia industrial junto à Università Bicocca, de Milão.
Em 2009, ao completar 100 anos de idade, tornou-se a primeira vencedora do Prémio Nobel a alcançar um século de vida e também a mais idosa senadora vitalícia em actividade na história da República Italiana. Em 30 de Setembro de 2009, pelos seus estudos do sistema nervoso, recebeu o Wendell Krieg Lifetime Achievement Award, prémio instituído pela mais antiga associação norte-americana de neurociência - o Cajal Club."


Escultura de César Molina em homenagem a José Saramago - Pontedera, Itália (XIX Festival Sete Sóis Sete Luas)


Escultura do andaluz César Molina, em homenagem a José Saramago
Pontedera, Itália (XIX Festival Sete Sóis Sete Luas)


Reportagem do jornal Público, em

"A inauguração de uma passarola em Pontedera (Itália,) em homenagem a José Saramago, presidente honorário do Festival Sete Sóis Sete Luas, constitui um dos pontos altos da XIX edição do certame, que começa na quarta-feira, em Lisboa.
A iniciativa foi hoje anunciada em Lisboa pelo director do festival, Marco Abbondanza, numa conferência de imprensa para apresentação do certame, cuja abertura decorre na quarta-feira com um concerto da cantora italiana Pietra Montecorvino, a realizar no Instituto Italiano de Cultura.

Em declarações à Lusa, Marco Abbondanza acrescentou que a inauguração do monumento, do escultor andaluz César Molina, - que qualificou como “um símbolo iluminista à semelhança de Saramago que mostrou que podemos construir o nosso próprio destino” - está marcado para 16 de Julho frente ao Centrum Sete Sóis Sete Luas em Pontedera, uma comuna italiana da região da Toscana, na província de Pisa. 
“Ao longo dos mais de 20 anos de relacionamento que manteve connosco, José Saramago deu-nos uma lição de vida e foi a primeira pessoa a aderir a este festival, um certame que pretende dar ênfase às manifestações artísticas e culturais mediterrânicas e dos países lusófonos”, afirmou. 
O monumento fica situado no pátio do Centrum, numa praça que em 2012, por ocasião da 20ª edição do festival, passará a chamar-se “Piazza José Saramago”, acrescentou o director do festival. 

À inauguração do monumento sucede a estreia em Itália do documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, que será exibido em todas as localidades italianas que aderem à rede do festival Sete Sóis Sete Luas, incluindo na casa do embaixador português em Roma, numa iniciativa que conta com o apoio do Instituto Camões. 
A rede do festival integra 25 cidades de 10 países da bacia do Mediterrâneo e mundo lusófono (Cabo Verde, Croácia, Espanha, França, Grécia, Israel, Itália, Marrocos, Portugal e Brasil). 
Capri (Itália) e Ceuta (Espanha) são duas das novas cidades que este ano aderiram ao Sete Sóis Sete Luas, enquanto Vila Real e Azinhaga do Ribatejo - terra natal de Saramago - não participam nesta edição do festival devido a cortes financeiros, explicou à Lusa Marco Abbondanza. 
Ponte de Sor, Alfândega da Fé, Reguengos de Monsaraz, Castro Verde, Odemira e Oeiras são as localidades portuguesas onde decorrerá o festival, sendo nesta última vila que decorre a maioria dos concertos de música que, este ano, terão entradas pagas pela primeira vez devido às dificuldades financeiras que as autarquias atravessam, acrescentou o director do certame. 
Sebastião Antunes (Itália e Cabo Verde), Ronda dos Quatro Caminhos (França) Galandum Galundaina (Ceuta), José Barros na voz e direcção da 7Sóis, Med.Kriol.Orkestra (que actuará em todas as cidades italianas aderentes) e Pedro Mestre (viola campaniça) que actuará na Croácia, França e em Espanha são os artistas portugueses que participam na edição deste ano do festival. 
Já em Portugal far-se-ão ouvir artistas como os Tenores de Neoneli (Sardenha), os grupos espanhóis Toma Castaña, Orkestra Chekara Flamenca, Zoobazar, Dos Orillas e Sinetiketa, os italianos Tinturia e Flokabbestia, o croata Franko Krajkar e a israleita Esta."

(a incansável disponibilidade de Pilar del Río) 


Link da Antena1 com referência à reportagem do "Festival 7 Sóis, 7 Luas - 2011" http://www.rtp.pt/antena1/?t=Apoio-A1-Festival-7-Sois-7-Luas-2011.rtp&article=3840&visual=10&tm=11&headline=14

"A inauguração de um monumento em Pontedera, Itália, em homenagem ao escritor José Saramago, constitui um dos pontos altos do XIX Festival Sete Sóis Sete Luas, anunciou, ontem, em Lisboa, em conferência de imprensa, o seu director. Marco Abbondanza disse que a inauguração do monumento – “um símbolo iluminista, à semelhança de Saramago, que mostrou que podemos construir o nosso próprio destino” –, do escultor andaluz César Molina, é no dia 16 de Julho. “Ao longo dos mais de 20 anos de relacionamento que manteve connosco, José Saramago deu-nos uma lição de vida e foi a primeira pessoa a aderir a este festival, que pretende dar ênfase às manifestações artísticas e culturais mediterrânicas e dos países lusófonos”, frisou o responsável. O monumento fica no pátio do Centrum, numa praça que, em 2012, por ocasião da 20ª edição do festival, passa a chamar-se “Piazza José Saramago”, referiu. À inauguração do monumento sucede à estreia, em Itália, do documentário “José e Pilar”, da autoria do cineasta Miguel Gonçalves Mendes, que vai ser apresentado em todas as localidades italianas que aderiram à rede do festival Sete Sóis Sete Luas. A rede do festival é constituída por 25 cidades de dez países da bacia do Mediterrâneo e por Cabo Verde, Croácia, Espanha, França, Grécia, Israel, Itália, Marrocos, Portugal e Brasil. Capri, Itália, e Ceuta, Espanha, são duas das novas cidades que aderiram, este ano, ao festival Sete Sóis Sete Luas, enquanto Vila Real e Azinhaga do Ribatejo – terra natal de Saramago – não participam devido a cortes financeiros, disse Marco Abbondanza."
(Notícia do site Jornal de Angola, 28 de Junho de 2011)

Link do site oficial do Festival, em http://www.festival7sois.eu/pt-pt/

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A Trilogia Completa de "A Viagem do Elefante"

Por estes dias... completou-se uma trilogia... 
Salomão adoptado por José Saramago, também corre mundo, com as pranchas de João Amaral, 
nos poemas musicado por Luis Pastor, e na encenação do Trigo Limpo teatro Acert.

"A Viagem do Elefante"
(Uma produção Trigo Limpo teatro ACERT, em co-produção musical com Flor de Jara, 
e com parceria da Fundação José Saramago. 
Imagens recolhidas em São Pedro do Sul a 20-09-2014.)


...a minha trilogia, agora completa...
"A Viagem do Elefante" original de José Saramago
com a edição em BD de João Amaral
e Livro/CD produção Trigo Limpo teatro ACERT com musicas de Luis Pastor

"Deus como problema" em O Caderno (16/10/2008)... ou a possibilidade da paz na humanidade

"Ataque a escola em Peshawar causou 141 mortos, foi o mais sangrento no Paquistão"


"Peshawar, Paquistão, (16/12/2014) - O exército paquistanês informou que 141 pessoas, 132 das quais crianças, foram mortas hoje no ataque de um comando talibã a uma escola para filhos de militares em Peshawar, o mais sangrento ataque terrorista da história do Paquistão.
O pior até agora tinha sido um atentado que causou 139 mortos em Carachi (sul) em 2007 aquando do regresso ao país da antiga primeira-ministra Benazir Bhutto.
O porta-voz do exército paquistanês, general Asim Bajwa, disse ainda, numa conferência de imprensa, que 124 pessoas, entre as quais 121 crianças, ficaram feridas no ataque que durou mais de seis horas e que terminou com a morte dos seis elementos do comando talibã."

Uma pequena notícia, o mundo ocidental por breves instantes, ficou horrorizado com a matança. 
Não foi um acidente.
Foi um massacre.
Foi uma execução em massa.
Em nome de um "deus".
No blog "O Caderno", Saramago coloca a questão central:

"Deus como problema, 
Deus como pedra no meio do caminho, 
Deus como pretexto para o ódio, 
Deus como agente de desunião"




Extracto de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"
Jesus descobre os prazeres da carne com Maria de Magdala

(...) "A cama não é aquela rústica esteira estendida no chão, com um lençol pardo lançado por cima, que Jesus viu sempre em casa dos pais enquanto lá viveu, esta é um verdadeiro leito como o outro de que alguém disse, Adornei a minha cama com cobertas, com colchas bordadas de linho do Egipto, perfumei o meu leito com mirra, aloés e cinamomo. Maria de Magdala conduziu Jesus até junto do forno, onde o chão era de ladrilhos de tijolo, e ali, recusando o auxílio dele, por suas mãos o despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e aqui, e aqui, com as pontas dos dedos, beijando-o de leve no peito e nas ancas, de um lado e do outro. Estes roces delicados faziam estremecer Jesus, as unhas da mulher arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele, Não tenhas medo, disse Maria de Magdala. Enxugou-o e levou-o pela mão até à cama, Deita-te, eu volto já. Fez correr um pano numa corda, novos rumores de águas se ouviram, depois uma pausa, o ar de repente tornou-se perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua. Nu estava também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela descobrira teria sido como uma ofensa. Maria parou -ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse, És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando, Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios são como dois filhinhos gémeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo. Jesus olhava as suas próprias mãos, que Maria segurava, e desejava tê-las soltas para que pudessem ir buscar, livres, cada uma daquelas partes, mas ela continuava, uma vez mais, outra ainda, e dizia, Aprende o meu corpo, aprende o meu corpo.. Jesus respirava precipitadamente, mas houve um momento em que pareceu sufocar, e isso foi quando as mãos dela, a esquerda colocada sobre a testa, a direita sobre os tornozelos, principiaram uma lenta carícia, na direcção uma da outra, ambas atraídas ao mesmo ponto central, onde, quando chegadas, não se detiveram mais do que um instante, para regressarem com a mesma lentidão ao ponto de partida, donde recomeçaram o movimento. Não aprendeste nada, vai-te, dissera Pastor, e quiçá quisesse dizer que ele não aprendera a defender a vida. Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, Aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia, Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando, impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito." (...)

"Evangelho Segundo Jesus Cristo"
Caminho, 1991
Páginas 281 a 283



Original para ser consultado em http://caderno.josesaramago.org/6909.html

Leitura em "O Caderno" (Caminho, 2.ª edição)
16 de Outubro de 2008, páginas 71 a 76

"Deus como problema"
"Entre todas as coisas improváveis do mundo, ocupa um dos primeiros lugares a hipótese de que o cardeal Rouco Varela venha a ler este blog. Em todo o caso, uma vez que a Igreja Católica continua a afirmar que os milagres existem, a ela e a eles me confio para que, sob os olhos do ilustre, instruído e simpático purpurado, caiam um dia as linhas que se seguem. Há muitos mais problemas que o laicismo, considerado por sua eminência responsável do nazismo e do comunismo, e é precisamente de um deles que se fala aqui. Leia, senhor cardeal, leia. Ponha o seu espírito a fazer ginástica.

"Deus como problema"

Não tenho dúvidas de que este arrazoado, logo a começar pelo título, irá obrar o prodígio de pôr de acordo, ao menos por esta vez, os dois irredutíveis irmãos inimigos que se chamam Islamismo e Cristianismo, particularmente na vertente universal (isto é, católica) a que o primeiro aspira e em que o segundo, ilusoriamente, ainda continua a imaginar-se. Na mais benévola das hipóteses de reacção possíveis, clamarão os bem-pensantes que se trata de uma provocação inadmissível, de uma indesculpável ofensa ao sentimento religioso dos crentes de ambos os partidos, e, na pior delas (supondo que pior não haja), acusar-me-ão de impiedade, de sacrilégio, de blasfémia, de profanação, de desacato, de quantos outros delitos mais, de calibre idêntico, sejam capazes de descobrir, e portanto, quem sabe, merecedor de um castigo que me sirva de escarmento para o resto da vida. Se eu próprio pertencesse ao grémio cristão, o catolicismo vaticano teria de interromper os espectáculos estilo cecil b. de mille em que agora se compraz para dar-se ao trabalho de me excomungar, porém, cumprida essa obrigação disciplinária, veria caírem-se-lhe os braços. Já lhe escasseiam as forças para proezas mais atrevidas, uma vez que os rios de lágrimas choradas pelas suas vítimas empaparam, esperemos que para sempre, a lenha dos arsenais tecnológicos da primeira inquisição. Quanto ao islamismo, na sua moderna versão fundamentalista e violenta (tão violenta e fundamentalista como foi o catolicismo na sua versão imperial), a palavra de ordem por excelência, todos os dias insanamente proclamada, é “morte aos infiéis”, ou, em tradução livre, se não crês em Alá, não passas de imunda barata que, não obstante ser também ela uma criatura nascida do Fiat divino, qualquer muçulmano cultivador dos métodos expeditivos terá o sagrado direito e o sacrossanto dever de esmagar sob o chinelo com que entrará no paraíso de Maomé para ser recebido no voluptuoso seio das huris. Permita-se-me portanto que torne a dizer que Deus, sendo desde sempre um problema, é, agora, o problema.Como qualquer outra pessoa a quem a lastimável situação do mundo em que vive não é de todo indiferente, tenho lido alguma coisa do que se tem escrito por aí sobre os motivos de natureza política, económica, social, psicológica, estratégica, e até moral, em que se presume terem ganho raízes os movimentos islamistas agressivos que estão lançando sobre o denominado mundo ocidental (mas não só ele) a desorientação, o medo, o mais extremo terror. Foram suficientes, aqui e além, umas quantas bombas de relativa baixa potência (recordemos que quase sempre foram transportadas em mochila ao lugar dos atentados) para que os alicerces da nossa tão luminosa civilização estremecessem e abrissem fendas, e ruíssem aparatosamente as afinal precárias estruturas da segurança colectiva com tanto trabalho e despesa levantadas e mantidas. Os nossos pés, que críamos fundidos no mais resistente dos aços, eram, afinal, de barro.É o choque das civilizações, dir-se-á. Será, mas a mim não me parece. Os mais de sete mil milhões de habitantes deste planeta, todos eles, vivem no que seria mais exacto chamarmos a civilização mundial do petróleo, e a tal ponto que nem sequer estão fora dela (vivendo, claro está, a sua falta) aqueles que se encontram privados do precioso “ouro negro”. Esta civilização do petróleo cria e satisfaz (de maneira desigual, já sabemos) múltiplas necessidades que não só reúnem ao redor do mesmo poço os gregos e os troianos da citação clássica, mas também os árabes e os não árabes, os cristãos e os muçulmanos, sem falar naqueles que, não sendo uma coisa nem outra, têm, onde quer que se encontrem, um automóvel para conduzir, uma escavadora para pôr a trabalhar, um isqueiro para acender. Evidentemente, isto não significa que por baixo dessa civilização a todos comum não sejam discerníveis os rasgos (mais do que simples rasgos em certos casos) de civilizações e culturas antigas que agora se encontram imersas em um processo tecnológico de ocidentalização a marchas forçadas, o qual, não obstante, só com muita dificuldade tem logrado penetrar no miolo substancial das mentalidades pessoais e colectivas correspondentes. Por alguma razão se diz que o hábito não faz o monge…

Uma aliança de civilizações poderá representar, no caso de vir a concretizar-se, um passo importante no caminho da diminuição das tensões mundiais de que cada vez parecemos estar mais longe, porém, seria de todos os pontos de vista insuficiente, ou mesmo totalmente inoperante, se não incluísse, como item fundamental, um diálogo inter-religiões, já que neste caso está excluída qualquer remota possibilidade de uma aliança… Como não há motivos para temer que chineses, japoneses e indianos, por exemplo, estejam a preparar planos de conquista do mundo, difundindo as suas diversas crenças (confucionismo, budismo, taoísmo, hinduísmo) por via pacífica ou violenta, é mais do que óbvio que quando se fala de aliança das civilizações se está a pensar, especialmente, em cristãos e muçulmanos, esses irmãos inimigos que vêm alternando, ao longo da história, ora um, ora outro, os seus trágicos e pelos vistos intermináveis papéis de verdugo e de vítima.Portanto, quer se queira, quer não, Deus como problema, Deus como pedra no meio do caminho, Deus como pretexto para o ódio, Deus como agente de desunião. Mas desta evidência palmar não se ousa falar em nenhuma das múltiplas análises da questão, sejam elas de tipo político, económico, sociológico, psicológico ou utilitariamente estratégico. É como se uma espécie de temor reverencial ou a resignação ao “politicamente correcto e estabelecido” impedissem o analista de perceber algo que está presente nas malhas da rede e as converte num entramado labiríntico de que não tem havido maneira de sairmos, isto é, Deus. Se eu dissesse a um cristão ou a um muçulmano que no universo há mais de 400 mil milhões de galáxias e que cada uma delas contém mais de 400 mil milhões de estrelas, e que Deus, seja ele Alá ou o outro, não poderia ter feito isto, melhor ainda, não teria nenhum motivo para fazê-lo, responder-me-iam indignados que a Deus, seja ele Alá ou o outro, nada é impossível. Excepto, pelos vistos, diria eu, fazer a paz entre o islão e o cristianismo, e, de caminho, conciliar a mais desgraçada das espécies animais que se diz terem nascido da sua vontade (e à sua semelhança), a espécie humana, precisamente.

Não há amor nem justiça no universo físico. Tão-pouco há crueldade. Nenhum poder preside aos 400 mil milhões de galáxias e aos 400 mil milhões de estrelas existentes em cada uma. Ninguém faz nascer o Sol cada dia e a Lua cada noite, mesmo que não seja visível no céu. Postos aqui sem sabermos porquê nem para quê, tivemos de inventar tudo. Também inventámos Deus, mas esse não saiu das nossas cabeças, ficou lá dentro como factor de vida algumas vezes, como instrumento de morte quase sempre. Podemos dizer “Aqui está o arado que inventámos”, não podemos dizer “Aqui está o Deus que inventou o homem que inventou o arado”. A esse Deus não podemos arrancá-lo de dentro das nossas cabeças, não o podem fazer nem mesmo os próprios ateus, entre os quais me incluo. Mas ao menos discutamo-lo. Já nada adianta dizer que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino. Para os que matam em nome de Deus, Deus não é só o juiz que os absolverá, é o Pai poderoso que dentro das suas cabeças juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e ordena colocar a bomba. Discutamos essa invenção, resolvamos esse problema, reconheçamos ao menos que ele existe. Antes que nos tornemos todos loucos. E daí, quem sabe? Talvez fosse a maneira de não continuarmos a matar-nos uns aos outros."

"Não sou niilista, sou simplesmente relativista." - da filosofia de base em José Saramago

"Simplesmente relativista"

Publicado no blog , em http://caderno.josesaramago.org/90390.html
Publicado no livro "José Saramago Nas Suas Palavras" - (Caminho, pág. 55)

"Não sou niilista, sou simplesmente relativista. André Compte-Sponville, no seu Dicionário Filosófico, coloca as coisas no seu lugar: o niilismo é a filosofia da preguiça ou do nada, o relativismo é a filosofia do desejo e da acção. Os que dizem que sou um niilista não sabem ler ou, se o sabem, não entendem o que lêem."
“Soy un relativista”, Vistazo, Guayaquil, 19 de Fevereiro de 2004



Via Wikipédia, informação sobre o filósofo, 
"André Comte-Sponville (Paris, 12 de março de 1952) é um filósofo materialista francês.
Ex-aluno da École normale supérieure da rue d'Ulm, foi amigo de Louis Althusser.
Por muito tempo foi maître de conférences da Universidade de Paris I: Panthéon Sorbonne, da qual se demitiu em 1998 para dedicar-se completamente a escrever e proferir conferrências fora do circuito universitário.
Desde 2008 é membro do Comité consultatif national d'éthique (Comitê Consultivo Nacional de Ética) do seu país.
Comte-Sponville utiliza o referencial de Jean Paul Sartre, que já havia dito que "todos somos responsáveis por todos" e de Dostoievsky, "somos todos responsáveis por tudo, diante de todos".
Em sua obra O capitalismo é moral?, que é a transcrição de uma conferência, tenta demonstrar a amoralidade do capitalismo, já que como técnica, a economia é exterior a toda preocupação moral. Comte-Sponville define então quatro ordens, no sentido pascaliano do termo :
1. ordem económico-tecno-científica
2. ordem político-jurídica
3. ordem da moral
4. ordem da ética ou ordem do amor
Considera a possibilidade de existência de uma quinta ordem, a ordem do divino, mas, sendo ateu, pensa que seja dispensável. Mas ele acredita na possibilidade e na necessidade de uma espiritualidade ainda no ateísmo. De fato, Comte-Sponville encontra no ateísmo uma fonte mais legítima da Ética, da adocção de valores humanos já não apesar de não acreditar na existência do divino, senão justamente por ser o humano possuidor de consciência e de valores que nao dependem da fé em divindade nenhuma."

Conferência na Cátedra Alfonso Reyes - "José Saramago - Una perspectiva en final del milenio"

José Saramago - "Una perspectiva en final del milenio"

Link do vídeo, via Youtube - https://www.youtube.com/watch?v=FCxNjBjGV7s

"Cátedra Alfonso Reyes" - Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Monterrey - México
"Un espacio de encuentro y reflexión con las voces más influyentes del pensamiento humanista contemporáneo.
Acerca de la Cátedra Alfonso Reyes del Tecnológico de Monterrey.
El Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Monterrey crea la Cátedra Alfonso Reyes como una respuesta a la necesidad de fortalecer las humanidades en la formación de sus profesores, estudiantes y la comunidad en general.
La misión del Tecnológico de Monterrey es formar personas íntegras, éticas, con una visión humanista y competitivas internacionalmente en su campo profesional, que al mismo tiempo sean ciudadanos comprometidos con el desarrollo económico, político, social y cultural de su comunidad y con el uso sostenible de los recursos naturales. Esto implica promover en sus alumnos valores y actividades como la responsabilidad, el liderazgo y la conciencia clara de las necesidades de su país. Lo anterior requiere de un proceso donde se refuerce una visión integral del mundo; es decir, formar a la personas tanto en el plano humano como en el profesional, sin limitarnos a transmitir una serie de conocimientos, sino instar a que, desde una perspectiva humanista, cada uno aporte lo mejor de sí mismo a su profesión.
Con este programa se rinde tributo al escritor regiomontano Alfonso Reyes, siguiendo el espíritu humanista de una de las figuras capitales del pensamiento del siglo XX.
A través de la Universidad TecVirtual, la Cátedra está presente en todos los campus y sedes del Sistema en México y América Latina, generando así un pensamiento sin fronteras."

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Um conto de Natal de José Saramago - "História de um muro branco e de uma neve preta"


(Ilustração de Nancy Ekholm Burkert)

"Este conto (se o é) tem a sua origem em duas crónicas, “Um Natal Há Cem Anos” e “A Neve Preta”, publicadas no jornal A Capital no final dos anos 60 e que hoje podem ser lidas mais comodamente no volume Deste Mundo e do Outro. A junção delas (que de certa maneira é também fusão) aconteceu em 1995 e teve como destino uma revista espanhola entretanto desaparecida. Relidas hoje, novamente refeitas, estas velhas crónicas perguntam se o muro branco ainda lá está e se ainda há quem tenha de continuar a pintar a neve com tinta preta. Por mim, acho que sim. Quem dera que sejam muitos os que tenham razões para pensar que não.

(Coord. Vasco Graça Moura, Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal, col. Mil Folhas, Público)

Publicado na página do Facebook - "Jose Saramago a Liberdade Do Pensamento"
https://www.facebook.com/pages/Jose-Saramago-a-Liberdade-Do-Pensamento/234845926606634

(Árvore de natal - Fundação José Saramago)


Um conto de Natal de José Saramago - "História de um muro branco e de uma neve preta"

Não haveria nada mais fácil no mundo das histórias que escrever um conto de Natal com Menino Jesus ou sem ele, se não fosse dar-se o caso de que uma criança que nasce está sempre nascendo. O nosso grande erro, esquecidos como em geral andamos das infâncias que vivemos, foi pensar que as crianças nascem uma única vez e que depois de nascidas se limitam a ficar à espera de que o tempo passe e as transforme em adultos, os quais, como deveríamos saber, constituem uma espécie diferente de seres humanos. A criança começa por nascer uma vez, que é a de vir ao mundo, e depois continua a nascer para compreendê-lo: não tem outro remédio nem há outra maneira. Como se verá pelas duas breves histórias que se seguem, ambas autênticas, ambas verdadeiras. 

A terra, àquela hora, cobria-se de uma noite tão escura que parecia impossível que dela pudesse nascer o Sol. Não tem chovido, as tempestades andam por longe, o rio descansa da sua primeira cheia de Inverno, os charcos são de mercúrio. O ar está frio, parado, e estala quando respiramos, como se nele se suspendesse uma ténue rede de cristais de gelo. Há uma casa e luz lá dentro. E gente: a Família. Na lareira ardem grossos troncos de lenha de donde se desprendem, lentas, as brasas. Quando à fogueira se lhes juntam gravetos, ramos secos, um punhado de palha, a labareda cresce, divide-se em trémulas línguas, sobe pela chaminé encarvoada de fuligem, ilumina os rostos da família e logo volta a quebrar-se. Ouve-se o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas redondas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves baixas do telhado e nas roupas húmidas. São talvez nove horas, a modesta mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação, e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro.

Não tarda que saiam todos para o quintal. Vai ser lançado ao ar o foguete de três respostas, esse que, cumprindo a tradição, anunciará aos vizinhos que naquela casa já a última filhó saiu do tacho, a escorrer, e foi cair no alguidar profundo onde aguardará o retoque final da canela e da calda de açúcar. Entre portas, a Criança vê a Família a sorrir fazendo e desfazendo grupos em torno do avô, que sopra um tição trazido da lareira e o aproxima do cartucho de pólvora amarrado ao caniço. Tinha pedido que o deixassem ajudar, mas responderam-lhe como das outras vezes: “Ainda és muito pequeno, para o ano que vem”. A Família tem razão: é preciso ter cuidado com as crianças.

A pólvora inflama-se bruscamente, lança um jacto de fagulhas vivíssimas, silva como uma serpente, e logo é um dragão rugindo que sobe para o ar gelado, corta-o como uma espada de fogo, e lá muito no alto, quase tocando as primeiras estrelas, estala, estraleja, cobrindo os ecos de outro foguete distante. O caniço desce com uma luz mortiça que desmaia, e vai cair longe, nos olivais que rodeiam a casa, sobre as ervas cobertas de geada. Com este tempo não há perigo de que pegue fogo às árvores. De súbito, a Família diz que está frio e volta para casa, levando entre os braços, entre os anéis, entre os tentáculos, a Criança a quem não deixaram ajudar a lançar o foguete. Tinham deixado a porta aberta, o interior da cozinha arrefecera. A Avó acode a espalhar na fogueira uma mão-cheia de aparas, desgalha um ramo seco de oliveira, parte-o com as mãos calejadas, mas é com suavidade que depois chega os troços à chama, como se estivesse a alimentá-la. O lume hesita, escolhe o lado mais acessível da lenha, e depois, indiferente, alheado, a pensar noutra coisa, recomeça o seu eterno ofício de fabricante de cinzas.

A Família gira em redor da mesa, arruma-se nas poucas cadeiras que há, trazidas algumas de outras casas, uns quantos escabelos pouco firmes, um caixote velho posto em pé. Os rostos estão sorridentes e corados, e têm nomes e apelidos, mas, para a Criança, são, antes de tudo, os Pais, os Avós, os Tios, os Primos, um enorme e complicado corpo de animal que lhe lembra a história da Bicha-de-Sete-Cabeças ou o Dragão-Que-Não-Dorme. Sobre a mesa trava-se uma gesticulação ruidosa de facas e garfos, de mãos, de dentes, uma contínua mastigação que deforma os rostos e engordura as bocas. Contam-se casos, anedotas, todos riem. O frio está lá fora, e a geada, e a noite impenetrável. A Criança anima-se, já esqueceu a decepção, para o ano talvez a deixem lançar o foguete sozinha. Também tem uma história para contar, só está à espera duma pausa, dum momento mágico em que todos se calem, acaso emudecidos por um anjo que passou deixando apenas a imagem de um dedo imperioso sobre os lábios cerrados. O momento está a chegar por fim, uma a uma calam-se as bocas da Família, é agora ou nunca, a Criança inspira fundo, rompe o silêncio, começa a falar. A Família olha surpreendida, dá alguma atenção, mas não muita nem por muito tempo, não dura, não pode durar, as vozes regressam do silêncio, e é o Pai que lhe corta a narrativa com uma frase que faz rir toda a gente. Uma frase que vai fazer chorar a Criança. Porque o Menino, a Criança é um menino, levanta-se da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus de pedra que conduzem ao mundo. Ali adiante há um muro caiado, baixo, com uma varanda dando para terras ignotas. A Criança vai debruçar-se sobre o muro, deixa cair a cabeça sobre os braços cruzados, e o terrível nó das lágrimas desata-se dentro de si. Da casa vêm risos e vozes, alguém fala muito alto, e depois ressoam gargalhadas. Ninguém está pensando na Criança.

Faz muito frio. Visto daqui, o céu parece estar feito de veludo negro. E há as estrelas. Duras, nítidas, implacáveis, quase ferozes. A Criança levanta os olhos. Lá estão elas a brilhar. Olhadas através das lágrimas, as estrelas são diferentes. Mundo estranho, estranho mundo, este. Sob os passos da criança, o chão duro e gelado range, E, em frente, as árvores negras, misteriosas, onde à noite os grandes medos se vão esconder, tomam o ar confidencial de quem conhece todos os segredos futuros, a hora e o lugar onde acontecerá o terceiro nascimento e o quarto, e o quinto, todos os aqueles que ainda esperam a esta Criança, até mesmo quando de havê-lo sido já não lhe restar memória.

As Crianças estão sempre a nascer. Às vezes nascem de explosivas alegrias, de achados incríveis, de deslumbramentos únicos, mas o mais frequente, uma vez após outra, é nascerem de cada tristeza sofrida em silêncio, de cada desgosto padecido, de cada frustração imerecida. Há que ter muito cuidado com as Crianças, nunca me cansarei de o dizer. Um dia uma Professora teve uma ideia de Professora e mandou os seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Claro está que não empregou esta linguagem, o que disse foi: “Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira”. Uns com lápis, outros com aguarelas, outros com papel recortado, alguns pintando com os dedos, todos cumpriram o melhor que puderam. Apareceu tudo quanto é costume nestes casos: o presépio, os reis magos, os pastores, São José, a Virgem e, inevitavelmente, o Menino Jesus. Bem feitos uns, mal feitos outros, toscos ou esmerados, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da Professora. Ali mesmo ela os viu e lhes pôs nota. Ia marcando “bom”, “mau”, “suficiente”, como se com esses juízos os marcasse para a eternidade. De repente. Ah, quantas vezes ainda teremos de dizer que é preciso muito cuidado com as crianças! A Professora segura um desenho nas mãos, um desenho que não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está confusa, perturbada: o desenho mostra a invariável manjedoura, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena já sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
“Porquê?”, perguntou
a a Professora à Menina que fez o desenho. A Menina não responde. Talvez mais nervosa do que quereria mostrar, a Professora insiste. Há na sala os risos cruéis e os murmúrios de troça que sempre aparecem em ocasiões destas. A Menina está de pé, muito séria, um pouco trémula. E responde, por fim: “Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu”. Fez-se silêncio e a Professora pensou, assim o veio a contar mais tarde: “À Lua já chegámos, mas quando e como conseguiremos chegar ao espírito duma criança que pintou a neve preta porque a mãe lhe morreu?”.

Muitos anos depois destas histórias terem acontecido, contei-as a uma outra Menina, que me perguntou: “E eles ainda estão tristes?”. Nessa altura disse-lhe que sim, que há tristezas que o tempo não consegue apagar, mas hoje conforta-me a ideia de que talvez o Menino do Muro Branco e a Menina da Neve Negra se tenham encontrado na vida, e que talvez por causa deles o mundo já esteja a mudar sem que nós tenhamos dado por isso.