José Saramago.
Uma visão apaixonada, sobre o homem que da Estátua descobriu a Pedra.
Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"
(Imagem da capa da obra realizada por Kjell Espmark,
sobre a atribuição dos prémios Nobel da literatura - 2012)
"Todos os nomes"
"A dedicar exemplares de “A Viagem do Elefante” na editora durante uma boa parte da manhã. Na sua maioria irão ficar em Portugal como um recado para os amigos e companheiros de ofício dispersos nas lusitanas paragens, mas outros viajarão a terras distantes, como sejam o Brasil, a França, a Itália, a Espanha, a Hungria, a Roménia, a Suécia. Neste último caso, os destinatários foram Amadeu Batel, nosso compatriota e professor de literatura portuguesa na Universidade de Estocolmo, e o poeta e romancista Kjell Espmark, membro da Academia Sueca. Enquanto dedicava o livro para Espmark recordei o que ele nos contou, a Pilar e a mim, sobre os bastidores do prémio que me foi atribuído. O “Ensaio sobre a Cegueira”, já então traduzido ao sueco, havia causado boa impressão nos académicos, tão boa que ficou praticamente decidido entre eles que o Nobel desse ano, 1998, seria para mim. Acontece, porém, que no ano anterior tinha publicado outro livro, “Todos os Nomes”, o que, obviamente, em princípio, não deveria constituir obstáculo à decisão tomada, a não ser uma pergunta nascida dos escrúpulos dos meus juízes: “E se este novo livro é mau?” Da resposta a dar encarregou-se Kjell Espmark, em quem os colegas depositaram a responsabilidade de proceder à leitura do livro no seu idioma original. Espmark, que tem certa familiaridade com a nossa língua, cumpriu disciplinadamente a missão. Com o auxílio de um dicionário, em pleno mês de Agosto, quando mais apeteceria ir navegar entre as ilhas que enxameiam o mar sueco, leu, palavra a palavra. a história do funcionário Sr. José e da mulher a quem ele amou sem nunca a ter visto. Passei o exame, afinal o livrinho não ficava nada atrás do “Ensaio sobre a Cegueira”. Uf."
em "O Caderno 2"
Caminho, 19 de Novembro de 2008
(Kjell Espmark, no momento do
discurso de apresentação)
A apresentação do Prémio Nobel, na cerimónia de entrega, lida por Kjell Espmark, pode ser consultado e lido, aqui
"Your Majesties, Your Royal Highness, Ladies and Gentlemen,"
"There is one type of writer who, like a bird of prey, circles time and again over the same territory. Book succeeds book, in progress towards a coherent picture of the world. José Saramago belongs to the opposite category, writers who repeatedly seem to want to invent both a world and a style that is new. In his novel The Stone Raft, he makes the Iberian peninsula separate and drift out into the Atlantic, an opening that provides a wealth of possibilities for a satirical description of society. But in his next book, The History of the Siege of Lisbon, no trace of this geological catastrophe is to be found. In Blindness: a Novel, the epidemic that deprives people of their sight is confined between the covers of the work. In his next novel All the Names, at the Population Registration Office nothing has been heard of any rampant spread of blindness, nor in previous works has there been anything to suggest the existence of this chillingly all-embracing agency. It is not Saramago's ambition to portray a coherent universe. On the contrary, he seems every time to be trying out a new model to apprehend an evasive reality, fully aware that each model is a crude approximation that could permit other approximate values, indeed one that requires them. He explicitly condemns anything that claims to be "the only version"; it is merely "another version among many". There is no overriding truth. Saramago's apparently contradictory images of the world have to be placed alongside each other to provide their own alternative accounts of an existence that is fundamentally protean and unfathomable.
In each and every one of these versions, the rules of common sense are suspended in some way. This is not uncommon in recent fiction. But here we are dealing with something different from narrative in which anything can happen - and does so all the time. Saramago has adopted a demanding artistic discipline which allows the laws of nature or common sense to be violated in one decisive respect only, and which then follows the consequences of this irrationality with all the logical rationality and exact observation it is capable of. In his novel The Year of the Death of Ricardo Reis, he makes a flesh and blood character of a figure that has only existed in the imaginary world, one of the guises adopted by the poet Pessoa. But this miracle gives rise to a masterfully realistic picture of Lisbon in the 1930s. Again, the severance of the Iberian peninsula that allows it to drift off into the Atlantic is a one-off violation of the natural order; what follows is a hilariously precise description of the consequences of this absurd aberration. In The History of the Siege of Lisbon the accepted order of things is subverted more discreetly. A proof-reader introduces a "not" into a book about the war of liberation against the Moors, thus altering the course of history. As penance he is made to write an alternative history that delineates the consequences of his amendment; this is once again a version that denies any claim to be the only valid one. In the same spirit, Saramago has also published a new, wonderful version of the narrative of the gospels, a version in which the contravention of the expected order is to be found in God's petty hunger for power so that the role of Jesus is redefined as one of defiance. Perhaps the greatest scope allowed to the fantastic is in Baltasar and Blimunda where the clairvoyant heroine gathers up the wills of the dying - energy that makes the aerial voyage in the book possible. But she too and her love are placed in an objectively described historical process, in this case the construction of the convent at Mafra that cost so much human suffering.
This rich work, with its constantly shifting perspectives and constantly renewed images of the world, is held together by a narrator whose voice is with us all the time. Apparently he is a story-teller of the old-fashioned omniscient variety, a master of ceremonies standing on the stage next to his creations, commenting on them, guiding their steps and sometimes winking at us across the footlights. But Saramago uses these traditional techniques with amused distance. The narrator is also adept in the contemporary devices of the absurd and develops a modern scepticism when faced with the omniscient claim to be able to say how things stand.The result is literature characterised at one and the same time by sagacious reflection and by insight into the limitations of sagacity, by the fantastic and by precise realism, by cautious empathy and by critical acuity, by warmth and by irony. This is Saramago's unique amalgam.
Dear José Saramago,
Anybody who tries in a few minutes to portray your work will end up articulating a series of paradoxes. You have created a cosmos that does not want to be a coherent universe. You have given us ingenious versions of a history that will not allow itself to be taken captive. You have taken the stage as the kind of narrator we feel we have long been familiar with - but with all of our contemporary liberties at your fingertips and imbued with contemporary scepticism about definite knowledge.Your distinguishing mark is irony coupled with discerning empathy, distance without distance. It is my hope that this award will attract many people to your rich and complex world. I would like to express the warm congratulations of the Swedish Academy as I now request you to receive this year's Nobel Prize for Literature from the hands of His Majesty the King."
10 de Dezembro de 1998
Versão portuguesa, publicada no Diário de Notícias, a 11/12/1998
"Há escritores tipo ave predadora, que descrevem círculos repetidos sobre o mesmo território, de livro para livro, buscando um retrato coerente do mundo". (...) "[Saramago] pertence a uma categoria contrária, a dos escritores que parecem querer sempre inventar um mundo e um estilo novos". [Assim, se a Península Ibérica fica à deriva em A Jangada de Pedra, não há traços dessa catástrofe geológica na História do Cerco de Lisboa; tal como a epidemia que é descrita em Ensaio sobre a Cegueira não deixa traços em Todos os Nomes.]
"[Na realidade], a ambição de Saramago não é retratar um universo coerente. Pelo contrário, parece, de cada vez, tentar criar um novo modelo de apreensão de uma realidade evasiva, consciente de que cada modelo é uma aproximação crua que pode admitir outros valores aproximados, na realidade um que os exige a todos. Ele condena explicitamente tudo que proclame ser "a única versão", é apenas "uma versão entre muitas".
"Em cada uma destas versões, as regras do senso comum estão suspensas de alguma forma. Isto não é invulgar na ficção recente. Mas aqui estamos a lidar com algo diferente da narrativa em que tudo pode acontecer - e acontece constantemente. Saramago adoptou uma exigente disciplina artística que autoriza as leis da natureza e do senso comum a serem violadas apenas num aspecto decisivo e que então segue as consequências desta irracionalidade com toda a racionalidade lógica e observação exacta de que é capaz." [A propósito, Espmark citou os casos de O Ano da Morte de Ricardo Reis, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho segundo Jesus Cristo e Memorial do Convento.]
"Esta obra rica, com as suas perspectivas constantemente mutáveis e renovadas imagens do mundo, recebe a sua unidade de um narrador cuja voz está sempre connosco. Aparentemente é um contador de histórias da velha espécie omnisciente, um mestre de cerimónias de pé no palco, comentando-as, guiando os seus passos. Mas Saramago usa esta técnica tradicional com divertida distância. O narrador desenvolve um moderno cepticismo quando confrontado com a omnisciente proclamação de ser capaz de dizer em que pé estão as coisas. O resultado é uma literatura caracterizada, simultaneamente, por uma sagaz reflexão e por uma visão interior dos limites da sagacidade, pelo fantástico e por um realismo preciso, por uma empatia cautelosa e por uma acuidade crítica, pelo calor e pela ironia. Essa é a amálgama, única, de Saramago."
[Dirigindo-se directamente ao laureado, e usando o português] "Caro José Saramago, quem tentar, em poucos minutos, retratar a sua obra acaba por articular uma série de paradoxos. Criou um cosmos que não quer ser um universo coerente. Deu-nos versões engenhosas de uma história que não se deixa aprisionar. Entrou no palco como o género de narrador com que há muito nos familiarizámos - mas com todas as nossas liberdades contemporâneas nos seus dedos e imbuído de um cepticismo actual acerca do conhecimento definitivo. A sua marca distinta é a ironia associada a uma simpatia, distância sem distanciação. Espero que este prémio atraia muitas pessoas para o seu mundo rico e complexo. Desejo exprimir as felicitações da Academia Sueca ao mesmo tempo que lhe peço que receba o Prémio Nobel da Literatura das mãos de Sua Majestade o Rei."
Professor Kjell Espmark, membro da Academia Sueca e presidente do Comité Nobel
Nesta esquina do tempo, onde o tempo é um "espaço físico", se une o passado como um acto que foi, e um futuro que será. O presente, esse não existe, é uma passagem, porque não podemos parar os momentos.
«Entendo o tempo como uma grande tela, uma tela imensa, onde os acontecimentos se projectam todos, desde os primeiros até aos de agora mesmo. Nessa tela, tudo está ao lado de tudo, numa espécie de caos, como se o tempo comprimido e além de comprimido espalmado, sobre essa superfície; é como se os acontecimentos, os factos, as pessoas, tudo isso aparecesse ali não diacronicamente arrumado, nas numa outra «arrumação caótica», na qual depois seria preciso encontrar um sentido.
Isto tem muito que ver com uma ideia que é a da não existência do presente. A única coisa que efectivamente há é passado e o presente não existe; é qualquer coisa que se joga continuamente, que não pode ser captada, apreendida, que não pode ser detida no seu curso; e portanto, uma vez que não pode ser detida, em momento nenhum eu posso intersecta-la.»
em Diálogos com José Saramago de Carlos Reis (Pág. 84)
Aqui projectamos uma imensa tela. Uma tela que paira sobre as nossas cabeças como se estivéssemos a observar uma carta celeste.
Nesta esquina do tempo, neste momento, damos lógica á teoria de que «o caos é uma ordem por decifrar».
Quem nos poderia ajudar a decifrar o caos?
Quem poderia dar justificação a este acto?
Eis então que fizemos uma lista de convidados.
Aqui está o elefante Salomão e seu cornaca Subhru, que partindo de Lisboa seguiram a passo pela Europa fora, até às longínquas terras da Áustria. (A Viagem do Elefante)
Da Olaria Algor, vieram o oleiro Cipriano Algor, sua filha Marta e o genro Marçal Gacho, sobreviventes do demoníaco Centro Comercial. (A Caverna)
Enviámos o mesmo convite para dois iguais. Não são gémeos mas são duplicado um do outro sem se perceber qual o original. Tertuliano Máximo Afonso, o professor de História e o actor Daniel Santa-Clara. (O Homem Duplicado)
Da União Ibérica viram sentir o pulsar da terra de Lisboa. Pedro Orce e o cão Ardant, Joaquim Sassa e José Anaiço. Joana Carda e Maria Guavaira. A península Ibérica separou-se pelos Pirinéus e viajámos pelo Atlântico. (A Jangada de Pedra)
Mandámos convidar Luis de Camões, que tendo escrito “Os Lusíadas” muito penou nas cortes de Lisboa para ter a possibilidade de imprimir e publicar o seu livro. Sem dinheiro para tal ofereceu o manuscrito à tipografia de António Gonçalves. (Que Farei com Este Livro?)
Da noite de 24 de Abril de 1974, estão presentes o redactor Torres e a estagiária Cláudia. Eles que garantiram uma revolução dentro da redação de um jornal alinhado com os poderes podres. (A Noite)
Do nosso Alentejo, vem a carne da luta e a terra de quem a trabalha. Chegaram Manuel Espada e Gracinda. (Levantado do Chão)
Foi preciso convidar alguém que nos levasse pelos céus e tivesse o dom de querer voar. Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, acompanham o padre Bartolomeu Lourenço, na sua “passarola” fugido das inquisições. (Memorial do Convento)
Raimundo Silva, ilustre revisor de textos, que com a palavra «Não», deu uma nova interpretação ao sentido da história, está presente com Maria Sara, mulher que o fez renascer, e que, com quem numa janela virada para as muralhas do Castelo de São Jorge, descobriram o amor entre Mogueime e Ouruana. (História do Cerco de Lisboa)
Mesmo a tempo, atracou em Lisboa, perto da Casa dos Bicos, o navio Highland Brigade, vem de Buenos Aires com destino a Londres. A escala em Lisboa, serve para nos fazer chegar Ricardo Reis e seu mui nobre amigo Fernando Pessoa. (O Ano da Morte de Ricardo Reis)
Abel e Caim, entretanto de pazes feitas, irmãos de sangue que a história não devia tê-los feito desavindos (Caim), acompanham Maria de Magdala. Mulher que ensinou as artes da vida terrena a Jesus (O Evangelho Segundo Jesus Cristo)
Todos são bem-vindos. Mas a presença da Mulher do Médico e do Cão das Lágrimas, são motivo de enorme orgulho. Ela porque não estando cega fez-se passar por tal, para acompanhar o seu marido, e viveu das piores experiências que alguém pode presenciar. O Cão das Lágrimas, porque num momento de desespero desta sua companheira, teve o poder de a reconfortar ao lamber-lhe as lágrimas que caiam pela face. (Ensaio sobre a Cegueira)
Um olá especial, a Artur Paz Semedo, que mesmo não lhe conhecendo o fim da sua história, sabemos o início através de uma pergunta. Porque é que as fábricas de armamento nunca fazem greves? (Alabardas Alabardas Espingardas Espingardas)
Convidámos também uma senhora que tempos idos, andou a distribuir uns envelopes de cor violeta. Essa senhora chama-se morte. Apaixonou-se pelo violoncelista que a acompanha, e tornou-se numa linda mulher que descobriu o amor. (As Intermitências da Morte)
Enigmático este casal, ele chama-se H e ela M. Um retratista que abandona as telas e se torna escritor. Uma mulher revolucionária que vê nascer a esperança na madrugada de 25 de Abril de 1974. (Manual de Pintura e Caligrafia)
E um agradecimento especial, ao solitário funcionário da Conservatória Geral do Registo Civil, o senhor José, que através de um simples verbete, de uma mulher desconhecida, faz a absurda busca para descobrir o seu paradeiro. (Todos os Nomes)
E por fim. O viajante. Aqui está o viajante. O homem que percorreu Portugal e o Mundo. Disse muitas coisas. Escreveu outras tantas coisas. E tal como o tempo é composto de passado que foi e futuro que virá a ser, a história deste viajante foi a celebração da vida.
«O Viajante volta já. (…) A viagem não acaba nunca. (…) O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.»
em “Viagem a Portugal” página 387.
Mas não subiu aos céus, se à terra pertencia.
Texto realizado para assinalar o acto de Casamento Civil
Rui Santos e Helena Mesquita
15/06/2015
Leitura final de encerramento, por Ódin Santos
Amar
Ter amor, afeição, devoção
Viver
Querer Bem
Ter vida
Estimar
Durar com vida
Morrer, deixar de viver, gostar, desejar muito, não chegar a concluir-se
“As festas em geral põe-me melancólico mas no regresso dei por mim a dizer a Pilar
– «Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de te conhecer,
morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora».
José Saramago com Umberto Eco, no Mosteiro de Yuste (1998/Reuters)
"Dias felizes"
"O excelente artigo de Umberto Eco intitulado “Um blogger chamado Saramago” que havia sido publicado há alguns dias no “La Repubblica”, apareceu hoje no “El País” e aparecerá amanhã nas páginas do “Diário de Notícias”. Esse conjunto de textos breves, baptizado por mim para a edição em livro com o nome discreto de “O Caderno”, nasceu com sorte. Passado já ao castelhano, ao catalão e ao italiano, encontrou agora o melhor dos valedores possíveis na pessoa de Umberto Eco, cuja perspicaz análise vem sabiamente temperada pela graça da escrita e pela subtileza do humor. Não tenho o direito de alongar-me, muito menos comentar o que Eco escreveu. Basta-me a felicidade que sinto. Ao correr de todos estes anos, outros livros meus foram acolhidos com generosidade e simpatia, mas nenhum como este. Sou, neste momento, o mais grato dos escritores."
José Saramago, 6 de Outubro de 2009
em "O Caderno 2" - Caminho
"Curiosa personagem, este Saramago. Tem oitenta e sete anos e (diz ele) alguns achaques, ganhou o Nobel, distinção que lhe permitiria nunca mais produzir nada porque seja como for já tem no Panteão o seu lugar garantido (o avaríssimo Harold Bloom definiu-o "o romancista mais dotado de talento ainda em vida… um dos últimos titãs de um género literário em vias de extinção"), eis que aparece a manter um blog onde se mete um pouco com toda a gente, atraindo sobre a sua pessoa polémicas e excomunhões vindas de muitos lados - mais frequentemente não por dizer coisas que não deve dizer mas porque não perde tempo a medir as palavras - e talvez o faça mesmo de propósito.
O quê, ele? Ele que cuida da pontuação ao ponto de a fazer desaparecer, que na sua crítica moral e social nunca leva o problema a peito, mas poeticamente o contorna nos modos do fantástico e do alegórico, de modo que o seu leitor (embora suspeitando que de te fabula narratur) terá de pôr muito de si para compreender até onde vai parar o apólogo - como no seu Ensaio sobre a Cegueira -, faz viajar o leitor numa névoa leitosa em que nem sequer os nomes próprios, de que é bastante parco, dão um sinal claramente reconhecível, ele que no Ensaio sobre a Lucidez faz uma opção política decidida com base em enigmáticos votos em branco? E este escritor fantasioso e metafórico vem dizer-nos despreocupadamente que Bush é de "uma ignorância abissal, e uma expressão verbal confusa perenemente atraída pela irresistível tentação do puro despropósito", cowboy que confundiu o mundo com uma manada de vacas, que não sabemos sequer se pensa (no sentido nobre da palavra), robot mal programado que constantemente mistura mensagens que tem registadas lá dentro, mentiroso compulsivo, corifeu de todos os outros mentirosos que o aplaudiram e serviram nos últimos anos? E este delicado tecelão de parábolas usa palavras que não deixam margem para dúvidas quando define o dono da editora que o publica? E este ateu manifesto, para quem Deus é "o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a este silêncio", repõe Deus em cena para se interrogar sobre o que pensa Ratzinger? E, militante comunista (ainda tenazmente), põe-se a gritar que "a esquerda não tem uma puta ideia do mundo em que vive", e ainda por cima se queixa de não ter tido resposta (sei lá, uma expulsão, uma excomunhão ao menos)? E arrisca-se à acusação de anti-semitismo por ter criticado a política do Governo de Israel simplesmente esquecendo-se, na sua irada participação nas desventuras palestinas, de se lembrar - como uma equilibrada análise pretenderia - que há quem negue o direito à existência de Israel? Mas ninguém leva em conta que quando fala de Israel Saramago pensa em Jahvé, "Deus feroz e rancoroso", e neste sentido não é mais anti-semita do que é antiariano e certamente anticristão, dado que para todas as religiões procura ajustar contas com Deus - que evidentemente, chame-se como se chamar nas várias línguas, não cessa de o importunar. E ser importunado por Deus é certamente motivo de ira furibunda contra todos os que dele fazem armadura.
Se tivesse sempre em conta os prós e os contras, Saramago também saberia que há inventivas e inventivas. Cito (de cor) Borges, que citava (talvez de cor) o doutor Johnson, que citava o facto daquele tal que insultava assim o seu adversário: "Senhor, a vossa mulher, com a desculpa de ter um bordel, vende tecidos de contrabando." E afinal Saramago não faz cerimónias, ou seja, não o manda dizer por outro e, na sua actividade de comentador diário da realidade que o rodeia, tira a desforra sobre toda a imprecisão sinistra das suas fábulas.
Tem-se falado muito do ateísmo militante de Saramago. Com efeito, a sua polémica não é contra Deus: uma vez admitindo que "a sua eternidade é só a de um eterno não-ser", Saramago poderia estar sossegado. A sua aversão é contra as religiões (e é por isso que o atacam de vários lados, negar Deus é concedido a todos, enquanto polemizar com as religiões põe em causa as estruturas sociais).
Uma vez, precisamente estimulado por uma das intervenções anti-religiosas de Saramago, reflecti sobre a célebre definição de Marx, para quem a religião é o ópio dos povos. Mas é verdade que as religiões têm sempre todas esta virtude soporífera? Saramago várias vezes tem atacado as religiões como fontes de conflito: "As religiões, todas elas, sem excepção, nunca servirão para aproximar e reconciliar os homens; pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos indescritíveis, de chacinas, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da mísera história humana" (La Repubblica, 20 de Setembro de 2001).
Saramago concluía algures que "se fôssemos todos ateus viveríamos numa sociedade mais pacífica". Não tenho a certeza de que tivesse razão, e parece que indirectamente lhe teria respondido o papa Ratzinger na sua encíclica Spe salvi, em que dizia que é o ateísmo dos séculos XIX e XX, se bem que se tenha apresentado como protesto contra as injustiças do mundo e da história universal, que fez que "de tal premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça".
Talvez Ratzinger pensasse naqueles sandeus de Lenine e Estaline, mas esquecia-se que nas bandeiras nazis estava escrito "Gott mit uns" (que significa "Deus está connosco"), que falanges de capelães militares benzeram os arruaceiros fascistas, que inspirado em princípios religiosíssimos e apoiado por Guerrilheiros do Cristo-Rei era o massacrador Francisco Franco (independentemente dos crimes dos adversários, foi sempre ele que começou), que religiosíssimos eram os Vandeanos contra os Republicanos, que até tinham inventado uma Deusa Razão, que católicos e protestantes se massacraram alegremente durante anos e anos, que tanto os Cruzados como os seus inimigos eram impelidos por motivações religiosas, que para defender a religião romana se puseram os leões a comer os cristãos, que por razões religiosas se acenderam inúmeras fogueiras, que religiosíssimos são os fundamentalistas muçulmanos, os autores do atentado das Twin Towers, Osama e os talibãs que bombardearam os Budas, que por razões religiosas se opõem a Índia e o Paquistão, e por fim que foi a invocar God Bless America que Bush invadiu o Iraque.
Por isso me punha a reflectir que talvez (se por vezes a religião é ou foi o ópio dos povos) com maior frequência tem sido a sua cocaína. Creio que esta é também a opinião de Saramago e ofereço-lhe a definição - e a sua responsabilidade. Saramago blogger é um zangado. Mas haverá realmente um hiato entre esta prática de indignação diária sobre o transeunte e a actividade de escrita de "opúsculos morais" válidos tanto para os tempos passados como para os futuros? Escrevo este prefácio porque sinto ter alguma experiência em comum com o amigo Saramago, que é a de escrever livros (por um lado) e por outro a de nos ocuparmos de crítica de costumes num semanário. Sendo o segundo tipo de escrita mais claro e divulgador que o outro, muita gente me tem perguntado se eu não despejaria nas pequenas peças periódicas reflexões mais amplas feitas nos livros maiores. Não, respondo eu, ensina-me a experiência (mas creio que o ensina a todos os que se encontrarem em situação análoga) que é o impulso de irritação, a dica satírica, a chicotada crítica escrita à pressa, que fornecerá a seguir o material para uma reflexão ensaística ou narrativa mais desenvolvida. É a escrita diária que inspira as obras de maior empenho, e não o contrário.
E pronto, eu diria que nestes breves escritos Saramago continua a fazer a experiência do mundo tal como desgraçadamente ele é, para depois o rever a uma distância mais serena, sob a forma de moralidade poética (e às vezes pior do que é - embora pareça impossível ir mais longe).
Mas depois, estará realmente sempre assim tão zangado este mestre da filípica e da catilinária? Parece-me que além da gente que ele odeia também existe a gente que ele ama, e eis as peças afectuosas dedicadas a Pessoa (não se é português em vão) ou a Jorge Amado, a Carlos Fuentes, a Federico Mayor, a Chico Buarque de Hollanda, que nos mostram que este escritor é pouco invejoso dos colegas e sabe tecer-lhes delicadas e ternas miniaturas.
Para não falar (e eis o retorno aos grandes temas da sua narrativa) de quando da análise do quotidiano salta para os grandes problemas metafísicos, para a realidade e a aparência, para a natureza da esperança, para como são as coisas quando não estamos a olhar para elas..
Então volta à cena o Saramago filósofo-narrador, já não zangado mas meditativo e incerto. Contudo não nos desagrada mesmo quando se enfurece. É simpático."
Umberto Eco
em "Diário de Notícias", a 7 de Outubro de 2009
Citador #39
... os conflitos e irregularidades do Sr. José da Conservatória Geral
"Todos os Nomes"
Caminho, página 34
(...) "Não se mexeria do seu canto, não entraria na Conservatória nem que lhe viessem prometer a fortuna inaudita de descobrir o documento que mais procurado tem sido desde que o mundo é mundo, nem mais nem menos que o registo oficial do nascimento de Deus. O sábio é sábio consoante o grau de prudência que o exorne, diz-se, e, ainda que desoladoramente imprecisa e indefinível, há que reconhecer no Sr. José, não obstante as irregularidades que vem cometendo nos últimos tempos, a existência de uma espécie de sabedoria involuntária, daquelas que parecem ter entrado no corpo por via respiratória ou por dar o sol na cabeça, e por isso não são consideradas dignas de particular aplauso." (...)
(Fotografia, após chegada de Álvaro Cunhal, do exílio a Portugal)
"Álvaro Cunhal"
"Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Greene disse a Eduardo Lourenço: “O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal”. O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta."
José Saramago
em "O Caderno 2"
(31 de Julho de 2009)
El mundo de la música, tan propenso como cualquier otro a dejarse seducir por los cantos de sirena de los que manejan los hilos, tiene entre sus más insignes integrantes a un artista que ha sabido -y ha querido- realizar el conjunto de su obra alejado del entramado que rodea a la industria musical, donde casi siempre, inevitablemente, el precio es la libertad, la creativa y quizás también la otra.
Ese empeño de Luis Pastor (Berzocana, Cáceres. 1952) por no dejarse “domesticar”, ha estado ligado siempre a su compromiso con los que engrosan la inmensa balsa pétrea de los olvidados; voz necesaria siempre, es en tiempos como estos donde su palabra se hace imprescindible.
Con una trayectoria profesional de más de 40 años, entre sus composiciones se encuentran algunas de las más hermosas canciones escritas en lengua castellana. Infatigable en la búsqueda de nuevas experiencias, ha buceado en la música popular de África o América.
“El viaje del elefante” es el proyecto que acaba de presentar, donde pone música a 14 poemas de José Saramago para el espectáculo creado por la compañía “Trigo Limpio Teatro ACERT” sobre la historia homónima del autor portugués. El fado, la morna y la chula, Portugal y Cabo Verde... la fusión, en definitiva, musical y sentimental que desde su comienzos ha estado íntimamente ligada a la trayectoria de Luis Pastor.
¿Cómo surge la posibilidad de poner música a “El viaje del elefante”?
Mi relación con el grupo de teatro ACERT, de Tondela viene de muchos años atrás. Ellos hacen un festival de músicas del mundo y desde el año 1996, con “Diario de a bordo”, he tenido presencia en ese lugar. Es un grupo de teatro que lleva 38 años existiendo en un pueblo de diez mil habitantes que tiene un centro cultural impresionante.
Yo había musicado a José Saramago en el disco-libro “En esta esquina del tiempo”; cuando nació la idea en el grupo de teatro de asumir la novela de Saramago como una obra de teatro de calle, el director vino un verano a casa para proponerme que hiciese las músicas de “El viaje del elefante”. En un principio, yo planteo que en lugar de hacer letra y música para esa obra de teatro, ya dentro de la obra poética de José existían temáticas que tenían que ver con las escenas que habían elegido para la obra. En Tondela, con “A cor da lingua” (la sección de músicos de ACERT), montamos las canciones. Este es el tercer verano que hacemos el espectáculo en distintas ciudades de Portugal. En cada ciudad hay cien voluntarios que participan como actores en la obra, ayudados durante esa semana por los miembros de la compañía.
¿Qué ha supuesto en tu obra y en tu vida José Saramago?
El haber compartido ratos, días y momentos con José ha sido un placer. Diez años antes de grabar “En esta esquina del tiempo” ya nos conocíamos personalmente. Cada vez que iba a Lanzarote a presentar un disco, al día siguiente iba a su casa a tomar café. Habíamos tenido participación conjunta en las movilizaciones del “No a la guerra”, en la primera manifestación que se hizo en Lanzarote a nivel mundial en 2003. La noche antes compuse “No a la guerra” y él dio un discurso al final de la manifestación.
Ha supuesto sobre todo la llegada personal a un puerto que tiene que ver con la música y la lengua portuguesa, que siempre ha estado presente en mi música, desde que a los diecisiete años descubrí a José Afonso, a Fausto, a Sergio Godinho, a José Mario Branco. A tanto cantautor portugués con los que compartimos esperanzas y luchas en aquellos años, que llevaron a mi música por un mundo por el que siempre quise transitar, y que me hizo pensar que acabaría grabando un disco en portugués. Creí que sería un disco con canciones de Jose Afonso, porque he cantado toda la vida sus canciones, le he hecho homenajes cuando él estaba enfermo. En el año 1987 cantaba todos los lunes sus canciones en el “Elígeme” de Madrid para mandarle a él y a su familia dinero. Pero el día que José me regaló el libro con su poesía completa -que se iba a publicar a la semana siguiente- y de broma le dije que le iba a musicar sus poemas. Cuando me subí al avión y empecé a leer esa poesía escrita cuarenta años atrás, parecía que me estaba esperando; tenía tanto que ver con el mundo poético, surrealista y al mismo tiempo crítico y social de las canciones y la poesía de Jose Afonso.
Pensé que iba a ser una vez solo, pero con la llegada de este maravilloso proyecto de “El viaje del elefante”, ahora mismo tengo veintiocho canciones en mi repertorio con sus poemas. Once de ellas arregladas para orquesta sinfónica, que se han interpretado en el Festival de la Guitarra de Córdoba, con la sinfónica de Cordoba; en Lisboa con la Metropolitana, y en Rivas-Vaciamadrid con la orquesta Athanor, formada por los alumnos y profesores de la escuela de música del barrio.
Contaba Saramago que su abuelo, instantes antes de morir, se abrazó uno por uno a los árboles de su huerto para despedirse de ellos. Ese maravilloso gesto parece dejar entrever la gratitud por una vida plena...”Por la luna de tu cuerpo”, “Luna abril”, “Amanecer”...¿cuáles son tus árboles más queridos?
El árbol más querido -cuando uno tiene una edad- es la infancia. En mi caso me remite a la naturaleza, al campo, al huerto, a los olores y a los sabores; a las imágenes que por más tiempo que haya vivido uno en la ciudad siempre lo devuelven a la aldea.
Hay una cercanía en la imágenes de las fotografías en blanco y negro de las generaciones de nuestros padres y abuelos (tanto en Portugal como en España), que pasa por la miseria, que pasa por la incultura, por el campo y los jornaleros; por un mundo que supo retratar tan bien José Saramago en “Levantado del suelo”.
Es verdad que en mi mundo de la infancia existen los árboles físicos que pueblan mi memoria, pero también los árboles de la ternura, los árboles de los recuerdos; los rostros que nunca más van a estar pero que te acompañarán siempre. La imagen de tu abuelo sastre y sacristán que se emborrachaba todas las noches; el corral, las gallinas, el huerto...Todo lo que cuento en alguna de las canciones posiblemente más bonitas que haya escrito. La primera fue “Flor de Jara” en los años ochenta, y posteriormente la canción “Soy”, que es mi biografía. Si me tuviera que agarrar a algún árbol sería a “Soy”.
En tu anterior trabajo te preguntabas sobre el destino de los cantautores de tu generación. Desde tu implicación directa en la lucha por las libertades durante la transición, ¿Crees que es necesario acometer un proceso sereno de reflexión sobre ese periodo fundamental de nuestra historia reciente?
Hay una cultura que ha formado mi manera de ser como persona y como cantante que tiene que ver con las raíces obreras, las raíces vecinales y las cristiano-marxistas. Con el mundo que vivimos una generación que fue capaz de ser valiente, de luchar contra la dictadura y creer en la fuerza de la colectividad; ése es nuestro bagaje y nuestras señas de identidad.
Esa reflexión yo la vengo haciendo en mis poemas y canciones y, evidentemente, en “¿Qué fue de los cantautores?”, mi anterior trabajo. Si hoy día hay una reflexión sintetizada de cuarenta años de historia de este país, creo que es ése poema, que además es inatacable desde la propia derecha.
¿Qué fue de los cantautores?” es la verdad de alguien que no ha jugado a la ambición, que no ha jugado al poder ni al dinero, que ha sido coherente con lo que aprendió en su juventud y que ha podido vivir de algo tan maravilloso como es cantar.
La renuncia a la 3ª república, la aceptación de la monarquía por parte del Partido Comunista, el abandono de las doctrinas marxistas del Partido Socialista, la entrada en la OTAN... ¿Mereció la pena la los años de resistencia franquista y la lucha por las libertades?
Los análisis históricos, una vez pasado el tiempo, demuestran que podía haber sido otra la realidad. El primer desencanto de mi generación y de gente como yo, que nos lo creíamos, llegó después de las primeras elecciones.
En mi caso personal me llevó a dejar de cantar. En el año 79 decido bajarme de un caballo triunfador, con mi tercer disco en la calle y dando recitales en todos los teatros de España. Como consecuencia de un programa de televisión que nos dio Suárez (donde saqué el barrio de Vallecas y una bandera republicana en un mitin del PSP), dieron lugar a situaciones muy agresivas y violentas en los recitales: amenaza de bomba en el Teatro Alcalá con los policías entrando con los perros en el intermedio; amenaza de incendio en Santander y amenazas de la extrema derecha a los teatros para que no se celebraran mis conciertos...
¿A qué nos habría llevado en ese momento la ruptura con lo anterior? Posiblemente a un enfrentamiento de las dos Españas de siempre, o quizás a haber hecho justicia, que no se hizo.
El primer desengaño lo vivimos en ese momento, además, esa farsa de golpe de estado hizo a todo el mundo virar hacia el PSOE, otorgar mayoría absoluta a Felipe González y es verdad que ahí hay una realidad que empieza a cambiar. El fascismo esconde las orejas, les da vergüenza asumir quiénes son (hoy ya no les da, y vuelven a sacar sus banderas y sus insignias). Sí, hubo un momento en que una mayoría social de este país supo arrinconar a los eternos vencedores de la historia de España.
A toro pasado podía haber sido de otra manera, es verdad. Pero es la nueva generación de jóvenes, golpeados por una realidad que vuelve a ser parecida a la de mi juventud, o incluso más dura porque hoy no se ven perspectivas de futuro, los que tienen la palabra.
Y volvemos a ser “los otros” que yo anunciaba al final del siglo pasado. Para que nos pusiéramos en el lugar de los que estaban viviendo lo que ahora volvemos a ser, mano de obra barata, excluidos de nuestros derechos, robados, marginados en una sociedad que no entiende de humanidad.
El capitalismo triunfante desde la caída del muro no necesita justificarse ni ser generoso con los trabajadores. Está imponiendo una guerra desde hace años que nos ha llevado a esto que ellos llaman crisis y que en el fondo es un engaño.
Creo que gente como yo seguimos siendo resistentes, todavía tenemos capacidad de ilusión, de contagio, de entusiasmo; seguimos creyendo en la bondad, porque si no, evidentemente, habríamos arrojado la toalla.
“Creo en el hombre...” así comienza “Fidelidad” de Blas de Otero, inmenso poema que musicaste en el disco del mismo título. En una sociedad -en su mayoría- indolente y resignada, ¿Se puede seguir creyendo en el hombre?
Creo que es lo único en lo que podemos creer. Saramago decía que si hay una revolución en la que cree es la de la bondad, y en eso entra, por supuesto, el ser humano.
Cuando yo tenía dieciocho años, lo que aprendía no era solo que íbamos a hacer la revolución sino que íbamos a ser capaces de cambiar al hombre, de desaprender lo que nos habían obligado a ser. Desde todo lo que representaba a nivel represivo la enseñanza de la religión (que influía en nuestro pensamiento, en nuestra sexualidad, en nuestras vidas), hasta la libertad de pensamiento y la libertad de palabra. Es la única esperanza que tenemos.
Es en los peores momentos cuando más clara se ve la capacidad del ser humano de sacar lo mejor de sí. En estos años de crisis vemos cómo son los propios ciudadanos los que crean redes de ayuda alimentaria, de solidaridad con el que va a ser desahuciado; son los ciudadanos los que toman la calle en mareas de todo tipo para que no nos aplasten.
Creo que es en eso en lo que podemos creer, porque lo demás es palabrería. Sobre todo desde el lado más pragmático de la política que al final es la mentira. Nos quieren sujetos pasivos y no ciudadanos libres.
Llevábamos años en que nos teníamos que tapar la nariz para votar entre lo malo y lo peor. Hoy día se abren otras posibilidades y otras formas de exigencia para que el político vuelva a asumir el papel para el que fue elegido. El político se ha profesionalizado y se ha olvidado de por qué llegó ahí. Y muchos de ellos cuando eran jóvenes tenían ideas maravillosas, pero se han dejado pudrir. Y en esa podredumbre que sube por nuestros pies es en lo que estamos todavía.
(Pedro Pastor, Luis Pastor e Lourdes Guerra)
Tienen los músicos una suerte de vida trashumante, la libertad plena del que se encuentra en un continuo viaje a ninguna parte. En 2003 ruedas “Escenario móvil”, documental dirigido por Montxo Armendáriz que relata una gira de conciertos que realizaste por pueblos de Extremadura. ¿Qué nos puedes contar de esa experiencia?
Cuando llega la autonomía a Extremadura, dos personas que pertenecían a un grupo de teatro se inventan unos camiones que llegan en verano a las plazas de los pueblos y se convierten en un escenario móvil. Ese proyecto lleva ya funcionando treinta años, y yo todos los veranos tuve presencia en ese proyecto. Cuando mis niños eran pequeños, en mi pueblo montaba el cuartel y acabábamos viviendo dos meses en Extremadura. Era un ejercicio de humildad, porque llegas a una aldea, cantas junto al cementerio o en la plaza del pueblo, rodeado de bares, con ochenta niños corriendo y viejitos con la garrota que no sabes si les estás gustando o no. Es un sitio difícil de torear pero al mismo tiempo interesante.
Un día le cuento a Montxo el proyecto y se queda fascinado. Un par de años más tarde me propuso hacer el documental. Elegimos los pueblos más bonitos y planteamos la idea principal del documental: contar la realidad de la Extremadura de final del Siglo XX. Una Extremadura polémica porque incluía Las Hurdes, que arrastraba la historia negra de la película de Buñuel y que ha permanecido en el tiempo hasta hoy. En los años setenta era impensable que nadie se acercase por las calles de Las Hurdes con una cámara porque la gente reaccionaba mal. Se habían sentido dolidos, maltratados, aunque esa era su realidad y la película fue una denuncia de la incomunicación y la miseria del campesinado.
El documental “Escenario Móvil” resultó una experiencia bonita, siempre quedará ahí para el recuerdo.
Llevas años reivindicando la copla, que al igual que el flamenco, sufrió unos años de enorme desprestigio. ¿se ha sido injusto con esos géneros a causa de prejuicios ideológicos?
Yo los he tenido. Con siete años era un niño de copla, era “Joselito”. Tenía la misma voz de pito que él. Era mi ídolo junto con Marisol, Farina...lo que escuchaba por la radio o cantaba mi padre en el campo cuando araba la tierra.
La primera vez que salí de mi casa solo en Madrid, fue a comprarme una partitura de piano a la Unión Musical de la Carrera de san Jerónimo, porque participaba en un concurso de Radio España cantando una canción de Manolo Escobar. A los catorce años me pongo a trabajar y me empieza a cambiar la voz, y ya pensé que no iba a ser cantante. Con quince años me compro mi primera guitarra y llego a la canción a través de la política. En el barrio había curas obreros y seminaristas, uno de ellos tocaba la guitarra y con él aprendí los primeros acordes; empecé a cantar canciones de Atahualpa Yupanqui en la misa de jóvenes de mi barrio y también cosas de Paco Ibáñez. Descubrí unas músicas diferentes, una manera de cantar diferente, y me alejé de todo lo que tenía que ver con la copla o el flamenco. Hasta Serrat, que en el fondo es el más coplero, era al que menos oía; su tímbrica y su vibrato está muy cercano a la copla, y él eso no lo perdió nunca, todo lo contrario, le dio una dimensión diferente, por eso Joan Manuel Serrat es el más grande. Yo me puse a descubrir otros cantantes y a aprender a cantar de otro modo con Daniel Viglietti, Violeta Parra, Joan Baez, todo lo que estaba sonando en el mundo a nivel de canción popular y de protesta.
Carlos Cano, compañero de lucha y de canto, es un tipo que asume sus raíces, indaga en la copla y el folklore de su tierra y los dignifica, quitándole la caspa de la que se había impregnado en los años en que la dictadura se apropió de esas señas de identidad que eran de todos. Pasaba igual con el fado, el único disco de fado que había en mi casa era de Carlos do Carmo, un disco de un poeta portugues que era del Partido Comunista. A Amália Rodrigues -a la que hoy adoro-, en la época donde estuve más en contacto con los cantantes portugueses de aquella generación, no la oía, ni ellos tampoco. Les pasaba lo mismo que a nosotros aquí con la copla. Una vez que otras generaciones y otras voces asumen esas canciones, uno ve el auténtico valor de esas músicas.
De alguna manera, sin yo quererlo, ese grifo que cerré en mi adolescencia gotea y salen cosas, como “Mi guitarra” del disco-libro “Soy”, que la llevo a los jaleos extremeños.
Tu relación con la industria discográfica no ha sido fácil ¿Cuáles son los motivos por los que decides crear “Flor de jara”, tu propio sello discográfico?
Por la realidad que se vive en el mundo de la música. Llegó un momento donde las discográficas se creyeron que todo el monte era orégano, y aquel que no vendía más de doscientos mil discos empezó a ser pasto de la trituradora de la maquinaria de la marginalidad. Cuando retomo mi carrera en el 82 grabo con Movieplay y Fonomusic. A partir de ese momento me doy cuenta de que ya no nos querían. Y menos a gente problemática como yo que hace dimitir al director de programación de TVE. A mí me salva -a nivel discográfico- el hecho de hacer de ciego en televisión y cantar canciones políticas. Cuando desde la industria musical olvidaron a los cantautores, el público hablaba los lunes de lo que había dicho el ciego en la tele. Me contrata otra multinacional, grabo al ciego, sigo grabando otro disco, al año siguiente me tengo que ir a otra compañía porque nunca se cumplen las expectativas que ellos esperan, ya que sólo ven a nivel de la industria, que finalmente será lo que les entierre.
A final de los ochenta grabo “Aguas abril” con Polygram y me planteo fórmulas nuevas para seguir grabando. Hasta que llega un momento en que ya no es preciso grabar en los estudios de las casas de discos y puedes hacerlo en un estudio de un músico, o meterme en un pufo de cinco años porque me voy a grabar a Sao Paulo con Chico César el álbum “Pásalo”. Realmente lo que he hecho ha sido ser el dueño de mis discos, cosa que en los años setenta no lo era.
Fue un acierto con “El Europeo”, junto a Borja Casani, la creación de una serie de libros-discos (que estrenamos con “Diario de a bordo”), ya que supuso que otra gente que venía de una línea diferente a la de los cantautores editara en este formato. La discográfica Karonte sigue haciendo estas ediciones.
En los últimos tiempos saco mis discos con el sello Sony-BMG, que se portan muy bien conmigo, incluso me adelantan los royalties con los que pago a los músicos y el estudio de grabación. El disco “El viaje del elefante” lo ha pagado el propio grupo de teatro ACERT y están vendiéndolo ellos. Quizás se pueda editar en España, ya que sólo está a la venta en Portugal.
¿Qué te parece la “revolución” que ha supuesto internet para la cultura?
No solo para la cultura, sino para las relaciones personales, para los mensajes, las luchas o los pensamientos. El pálpito del mundo circula por internet. Eso está cambiando nuestra forma de vida y nuestras costumbres. Tenemos una herramienta peligrosa pero también maravillosa. A través de ese altavoz que llega a todos, cualquiera puede lanzar su pensamiento, su voz y sus ideas.
Internet ha democratizado el mundo de la música. Cuando mi hijo Pedro sacó hace medio año su disco, a los dos meses lo llamó la Warner para negociar un contrato discográfico que él se ha negado a firmar. Porque él viene de una generación donde son ellos solos, a través de esa maravillosa herramienta, los que son capaces de hacerse todo el trabajo que antes hacían una serie de intermediarios (discográficas, managers, representantes...). Son trabajadores de una manera diferente a la que un cantautor como yo entiende la vida del músico, que es el proyecto de un vago consciente que disfruta del tiempo libre, de no hacer nada, de sentarse a contemplar el sol, de leer un libro, de tocar un rato la guitarra. Es tan diferente la vida de mi hijo Pedro y a la vez tan parecida, viviendo al día, en la misma cuerda floja un hombre de 62 años y un muchacho de 20. Hace poco ha estado en Nueva York invitado por la Brigada Lincoln en un acto de las Brigadas Internacionales; con Muerdo se fue a dar conciertos en Colombia y se quedó a vivir por allí un mes o dos. Es tan distinto hoy día el mundo, que lo que nos hace posible el estar allí, el estar aquí, el no estar pero estar, es esa nueva realidad virtual.
¿Qué hubiese sido del joven Luis Pastor si con 17 años no hubiese descubierto la poesía a través de un disco de Paco Ibáñez?
No fue solo Paco Ibáñez. Él fue la afirmación de que existía otra manera de entender la música que no tenía nada que ver con la fama, la comercialidad o el dinero. Tenía que ver con la cultura, la poesía, con lo profundo; con el alma y el espíritu, con los sentimientos y las emociones.
Luis Suárez Rufo, que había estudiado con los “curas para un mundo obrero”, fue un hombre clave en el barrio, había vivido el 68 en París y llegó con un disco de Paco Ibáñez debajo del brazo. Evidentemente, llamó la atención de alguien como yo que ya cantaba canciones protesta, canciones de la guerra o de testimonio, cosas que eran nuevas en un mundo que se te abría; devoraba toda la obra de los poetas porque nunca los habías tenido de esa manera.
La poesía había estado presente desde mi niñez, en mi pueblo persistía la cultura popular, la que se transmite de persona a persona. Tuvimos la suerte en Berzocana de que el maestro, ex-militar y fascista, era una buen ser humano, y aparte de hacernos cantar el ”Cara al Sol” formados en la puerta de la escuela, nos enseñaba diez minutos de canciones populares. Ninguna se me ha olvidado a pesar de tanto tiempo pasado. Esa memoria permanece toda la vida.
¿Qué canción te rondaba por la cabeza al despertar esta mañana ?
Soy de los que van a la compra por las mañanas tarareando. A veces, en el coche tienes puesto un disco que determina que esa canción es la que vas a silbar delante del carnicero o de la cajera. Hoy he estado cantado “Soy” en catalán. Joan Isaac ha terminado de grabar un disco de cantautores españoles (Aute, Sabina...) traducidas al catalán. De “Soy” ha hecho una versión preciosa. La he llegado a cantar en catalán en Barcelona, es un gusto cantar en otros idiomas.
A los veinte años, la primera vez que me fui de casa de mis padres, estuve viviendo en Barcelona, donde grabé mi primer disco con la compañía Als 4 vents., Al contrario que Madrid, que era por entonces como una capital de provincias, aquello era Europa. Llegaban los barcos, los trasatlánticos, los hippies por las calles, las madrugadas en el Barrio Chino, tocando la guitarra por las Ramblas. Nunca he olvidado los años que pasé viviendo en esa maravillosa ciudad que en aquel tiempo era Barcelona
¿Estás preparando ya un nuevo proyecto?
Mi próximo trabajo discográfico se llama “Estos mares”. Es un proyecto que voy a hacer con Toñín Corujo y otros timplistas de las islas con poemas y obras de catorce poetas y pintores canarios.
"A formação do escritor José Saramago" - Um livro decisivo: "Levantado do Chão" por Manuel Gusmão Revista "O Militante" (edição n.º 308 - Set./Out. 2010)
"No prefácio que escreveu para a edição de Uma família do Alentejo, de João Domingos Serra, José Saramago diz de si mesmo enquanto escritor por alturas de 1975: «Era esse o tempo em que não tendo feito até aí mais que uns quantos poemas e umas quantas crónicas, obra limpa sem dúvida, mas mais do que modesta, tinha começado a dar voltas a uma ideia ambiciosa, nada menos imagine-se, que uma história sobre o campo e quem lá trabalha e malvive.»
Começa por pensar utilizar como lugar dos acontecimentos uma quinta onde dormira uma noite quando fora com seu tio Manuel vender os porcos a Santarém. O projecto esvai-se e ele continua a matutar num romance para o qual não tinha nem história nem personagens. Recorda que também se lembrou da Azinhaga, aldeia onde nasceu, mas a ideia também não durou, «reteve-me uma espécie de pudor que ainda hoje nem a mim próprio sou capaz de explicar».
«E, vai daí, estava eu neste era não era, andava lavrando, deu-se o 25 de Novembro». O jornal de que fora sub-director foi fechado, o pessoal mandado para casa com uma indemnização à excepção dele e, nessa situação, toma duas decisões. A primeira, de não procurar emprego e a segunda «perguntar para o Lavre se haveria por lá uma cama onde dormir e um canto para trabalhar num livro que pensava escrever».
Essas duas decisões são efectivamente decisivas, desculpem-me o pleonasmo. Quero eu dizer que elas vão ter consequências, mesmo que não imediatamente.
Uma vez instalado em Lavre, continua Saramago, «o meu plano de trabalho era simples. Antes de mais, conhecer a vila e os seus arredores, a ribeira, a ponte em ruínas a que atribuíam uma origem romana, mas que foi construída no séc. XVI, a represa e o moinho, enfim pôr as mãos em cima das coisas como me habituei a dizer, depois descobrir aqueles que dariam conteúdo e substância ao futuro livro, na maior parte camponeses de vida revolucionária obscura. Mas com um cabedal único de experiências. Encontrei-os, falei com eles, gravei bobinas e bobinas de conversações […]. Esses homens tinham nome, rosto, rugas da idade e do contínuo esforço, as mãos como cepos, diria Raul Brandão. Chamavam-se uns, que eram do Lavre, outros de Montemor, João Besuga […], António Joaquim Cabecinha, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António Catarro, José Francisco Curraleira, e outros, João Machado. Herculano António Redondo, Mariana Amália Besuga, Maria Saraiva, Ernesto Pinto Ângelo…».
Estamos perante uma enumeração de nomes daqueles que vamos encontrar em vários romances de José Saramago. Esse gesto narrativo – uma lista de nomes – é uma reprodução em espelho desta enumeração, ou talvez possamos dizer que esta lista aqui é que imita as listas que surgem nesses romances. Seja como for, esta lista, aqui, exibe o seu significado de uma forma clara: (a) a lista é uma homenagem àqueles de quem é dito o nome; (b) os nomes representam a multidão, que muitas vezes supomos sem nome, anónima, das personagens do livro que será Levantado do Chão; mas são também aqui, e este é um ponto importante, (c) uma espécie de co-autores do romance, como se fossem participantes do coro ou da voz coral que conta a história.
A lista termina com o nome de João Domingos Serra, o autor desse pequeno livro, que José Saramago resolve editar. No prefácio, que temos vindo a citar, o autor escreve:
«Com o caderno debaixo do braço corri para o meu refúgio e pus-me a ler, com a ideia de ir copiando à mão as passagens mais interessantes, mas rapidamente compreendi que nem uma só daquelas palavras poderia perder-se. Não terminei a leitura. Meti uma folha de papel na máquina e comecei a trasladar, com todos os seus pontos e vírgulas, incluindo algum erro de ortografia, o escrito de João Serra. Tinha enfim livro. Anda tive de esperar três anos para que a história amadurecesse na minha cabeça, mas o Levantado do Chão começou a ser escrito nesse dia, quando contraí uma dívida que nunca poderei pagar.» (itálicos meus)
O que é que o escritor nos diz com estas palavras? Ele diz-nos do impacto ou da comoção (movimento da emoção) nele, provocada pela leitura do livro de João Serra. A ideia de que nenhuma palavra desse texto se deve perder não leva obviamente Levantado do Chão a repetir palavra a palavra o texto do camponês, mas leva este romance a guardar a memória desse outro livro, a amplificá-lo e a ecoá-lo, em suma a homenageá-lo.
Como perceber que Saramago, lendo o livro do camponês, diga «Tinha enfim livro», referindo-se a Levantado do Chão, que, entretanto, ainda demorará três anos a amadurecer? É que, no livro de João Serra, Saramago encontra uma fonte do seu livro, um testemunho que autentifica a sua narrativa, é como se o escritor erudito tornasse seu personagem-herói o narrador popular e tomasse o seu ritmo, os sentidos do seu contar.
Entre o momento em que começa a ser escrito (presumivelmente em 1976) – o que coincide com o começo da trasladação, à maquina de escrever, do texto de João Bonifácio Serra) – e a data de publicação de Levantado do Chão vão três a quatro anos, em que Saramago publica, nomeadamente, um romance (Manual de Pintura e Caligrafia, de 1977), um livro de contos (Objecto Quase, de 1978) e um texto sobre «O Ouvido», espécie de descrição da tapeçaria «La dame à la licorne», que integra uma obra colectiva, Poética dos Cinco Sentidos, de 1979. Podemos considerar todos esses textos como textos em que o autor está em processo de formação; como se no seu corpo certa tensão muscular o preparasse para um salto. Como se José Saramago ainda não soubesse exactamente para onde vai, mas tacteasse, na superfície da rocha, a passagem por onde irá passar. Estes três livros formarão, com O ano de 1993, parte fundamental das obras de formação do escritor José Saramago.
Manual de Pintura e Caligrafia é um romance que conta a história de alguém que pinta retratos e se questiona sobre esse seu ofício e medita sobre essa prática obrigada a uma relação semelhança entre o retrato e o retratado. O romance termina por uma mudança de vida e na reflexão sobre a arte, por um encontro amoroso e pela chegada do 25 de Abril.
Objecto Quase começa com um conto, «Cadeira», que conta minuciosamente a queda da cadeira que arrasta consigo Salazar.
O Ouvido procede a um entrelaçamento de dois movimentos de sentido: por um lado, uma tentativa de descrição do sons que se ouviriam numa tapeçaria que figura o ouvido, por outro, uma narrativa do trabalho que desenhou e depois teceu a tapeçaria.
Ao trabalhar sobre o ouvido, Saramago vai ao encontro ou à descoberta daquilo que ele próprio dirá ser a auralidade da sua escrita e o seu tom conversacional.
Em Levantado do Chão, Saramago encontra decisivamente (para a sua obra a vir) o tom dialogal e de conversa da sua narração. É como se ele, o autor-narrador, não estivesse sozinho a contar, como se as suas personagens pudessem partilhar a narração entre elas e com ele. Este efeito estilístico tem na sua base um tipo de frase pela qual reconhecemos os textos de Saramago.
Repare-se no último parágrafo do primeiro capítulo:
«Madre de tetas grossas para grandes e ávidas bocas, matriz, terra dividida do maior para o grande, ou mais de gosto ajuntada do grande para o maior, por compra dizemos ou aliança, ou de roubo esperto, ou crime estreme, herança dos avós e meu bom pai, em glória estejam. Levou séculos para chegar a isto, quem duvidará de que assim vai ficar até à consumação dos séculos?
E esta outra gente quem é, solta e miúda, que veio com a terra, embora não registada na escritura, Almas mortas, ou ainda vivas? A sabedoria de Deus, amados filhos é infinita: aí está a terra e quem a há-de trabalhar, crescei e multiplicai-vos. Crescei e multiplicai-me, diz o latifúndio. Mas tudo isto pode ser contado doutra maneira.»
Em casos extremos, essa frase é formada por vários segmentos dos quais varia o emissor. Aqui, em relação ao segundo parágrafo transcrito, formado por várias frases, podemos dizer que é a voz do narrador que começa por expor uma interrogação, uma dúvida e uma suspeita – quem é?/almas mortas, ou ainda vivas?/embora não registada na escritura. A seguir, o narrador como que se retrai e quem fala é um intermediário de Deus, um padre ou a própria instituição. A Igreja – A sabedoria de Deus, amados filhos, é infinita: aí está a terra e quem a há-de trabalhar, crescei e multiplicai-vos – que é em parte corrigida pelo latifúndio, cuja palavra o narrador regista – Crescei e multiplicai-me, diz o latifúndio – Até que o narrador retoma a palavra naquilo que percebemos ser a promessa de um contar alternativo à escritura que não fala daquelas gentes que parece terem vindo com a terra. O facto de ser dada a palavra à Igreja e ao Latifúndio e o modo como a usam constituem uma operação retórica que ironiza sobre esses «falantes» e lhes opõe um dizer diferente. Levantado do Chão será uma história do latifúndio, alternativa à que o latifúndio de si conta e para si deseja. Podemos pois dizer que o texto de Saramago, Levantado do Chão, é um texto de ficção que preenche uma lacuna da historiografia oficial ou da história contada pelos vencedores, pela classe dominante.
Podemos ainda dizer que Levantado do Chão é, simultaneamente, o último livro do período de formação do escritor José Saramago e o primeiro livro da sua maturidade.
Para esta sua dupla condição contribuem as características que já apontei e que recapitulo agora:
(1) A história contada nos seus romances aparece sempre como o preenchimento de uma lacuna num texto que tem funções de autoridade.
O Memorial do Convento conta a história da construção do Convento de Mafra, mas tal como em Levantado do Chão os protagonistas dessa construção são os trabalhadores braçais que não são nomeados pela escritura, ou seja, pela historiografia oficial. Uma confirmação disto pode ser fornecida pelo facto de andar também por Mafra uma personagem Mau-Tempo (Julião). As regras e as convenções de verosimilhança, o próprio contrato de leitura negociado entre o leitor e o texto indicam que este é um antepassado da família Mau-Tempo de Levantado do Chão. Eis uma parte da sua apresentação aos seus companheiros que transportam a pedra: O meu nome é Julião Mau-Tempo, sou natural do Alentejo e vim trabalhar para Mafra por causa das grandes fomes de que padece a minha província. […] Este pequeno jogo que consiste em trazer para um romance posterior e uma distância de dois séculos antes uma personagem de um operário, é coincidente ou solidário com a estratégia de contar de outra maneira. Neste caso concreto, num romance que começa com o problema da sucessão dinástica, este aparecimento de Julião Mau-Tempo indica ao leitor que os trabalhadores, mesmo os mais humildes também têm antepassados, também vêm numa linhagem mesmo que silenciada e ignorada.
(2) Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, que é anunciado como o próximo romance, nas primeiras edições de Objecto Quase e Levantado do Chão, trabalham com o mesmo tipo de frase, que permite meter, no interior de uma frase ou de um parágrafo, um diálogo ou um conflito verbal.
Esta transformação da pontuação visa um efeito não apenas de diálogo, mas dialéctico ou dialógico. Uma vírgula seguida de uma palavra com letra inicial em maiúscula indica geralmente que se mudou de fonte da fala no interior de uma frase. No caso dos parágrafos, como vimos acima, são os próprios segmentos frásicos que produzem esse efeito.
Esta é a maneira como Saramago nos mostra a socialidade ou o carácter radicalmente social da linguagem humana.
(3) Os dois traços anteriores convergem com um terceiro também já enunciado acima que é a apresentação por vezes de listas de nomes dispostos por ordem alfabética, que se destinam a retirar do anonimato esses nomes e ao mesmo tempo sublinham nessa ordem o seu carácter artificial e residual, porque os nomes dos construtores são inúmeros.
Em Memorial do Convento, para além dos (7) nomes daqueles (sete) que num momento de descanso se apresentam uns aos outros – O meu nome é Francisco Marques, nasci em Cheleiros […], O meu nome é José Pequeno […]; Chamo-me Joaquim da Rocha, nasci no termo de Pombal […]; O meu nome é Manuel Milho, venho dos campos de Santarém […]; O meu nome é João Anes, vim do Porto […]; o meu nome é Julião Mau-Tempo, sou natural do Alentejo […]; o meu nome é Baltasar Mateus, todos me conhecem por Sete-Sóis […] – há ainda mais duas listas:
Vão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros, Antónios e Joaquins, e Pedros, e talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Vicentes, e Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem, vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende. Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcelino, Nicanor, Onofre, Paulo; Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra por cada um, para ficarem todos representados.
A lista que apresenta os nomes próprios na forma do plural é uma amostra e dá, por esse plural aplicado a um nome, uma ideia da quantidade de homens arrolados.
Depois e na sequência daquela vem então uma outra lista que apresenta um nome por cada letra do alfabeto. O carácter arbitrário do alfabeto dá a esta lista por ordem alfabética a possibilidade de representar todos os homens portadores de nomes com aquelas letras iniciais. Inscritos num livro que lhes vai sobreviver, ficam assim imortalizados. E poderíamos dizer que em momentos como este a ficção cumpre uma função alternativa à da historiografia oficial, com a sua glorificação dos reis e dos generais, em suma, dos mais poderosos.
A formação do escritor José Saramago está quase completa e ele entrou decididamente na sua maturidade de autor. Mas talvez possamos ir um pouco mais longe. Sabendo nós que o tempo e designadamente o tempo histórico não é linear talvez se possa compreender que eu sugira que há um livro ainda importante para esta formação que se vai sobretudo traduzir em romances. Esse livro, que é publicado em 1981, entre Levantado do Chão (1980) e Memorial do Convento (1982), chama-se Viagem a Portugal.
Este livro de viagens na sua terra ajuda a estabelecer a ponte entre os dois romances e mostra como a escrita de José Saramago representa na ficção uma história do povo trabalhador português, uma história denegada e recalcada, uma histórica que, entretanto, atesta a sua caminhada persistente até à sua emancipação."
O professor Carlos Reis, na sua obra agora reeditada, "Diálogos com José Saramago" - Porto Editora, à página 142, lança a seguinte pergunta ao escritor.
«Quero voltar à questão do tempo, mas só num seu aspecto particular, ao qual chego em função de um texto seu intitulado «Do canto ao romance, do romance ao canto», em que fala no tempo peculiar do romance (...). Este tempo descrito como labirinto, é o tempo de muitas personagens?»
Pode ser lido e consultado via página da Fundação José Saramago, aqui
"É conhecido o caso de um moço, habilidoso de nascença, que, sem nunca ter recebido lições de belas-artes nem aprendido de mestres particulares, e não dispondo de outra ferramenta que um canivete, era capaz de transformar em pouco tempo um toco de madeira bruta no mais perfeito e acabado urso de que rezariam histórias da escultura se o objectivo delas fosse ocuparem-se de talentos místicos. Invariavelmente, a gente da terra maravilhava-se com a rapidez e o jeito apurado, e, também invariavelmente, o rapaz respondia às curiosidades: «Não tem nenhuma dificuldade. Agarro no bocado de madeira e fico a olhar para ele até ver o urso. Depois, é só tirar o que está a mais.»
O nosso escultor dava-nos assim, de uma vez só, duas lições magníficas: a da modéstia e a da generosidade. Revelava-nos sem disfarce nem engano o seu segredo de oficina e ensinava-nos como deveríamos proceder para criar um urso: olhar para onde ele não está e, apenas com o olhar, obrigá-lo a aparecer.
Mas, ai de mim, não há perversidade pior que a dos ingénuos. Este amável moço, tão prestante em explicar-nos como fez, não permite que lhe saia da boca uma única palavra sobre como se faz. Não duvidamos de que o urso ali esteja, mas entre a figura do animal e as nossas inábeis mãos existe uma muralha de madeira fechada, com nós duríssimos, veios intratáveis, traiçoeiras maciezas da fibra: é por de mais evidente que se necessitará muito engenho e muita arte para abrir um caminho e fazer dele avenida por onde possa alongar-se, enfim comprazido, um olhar fruidor. A arte, afinal de contas, não é fácil, o rapaz dos ursos esteve a divertir-se à nossa custa.
Contudo, imprudente seria o céptico que se atrevesse a jurar que no interior de ada bocado de madeira não se encontra um urso à nossa espera. Está ali, e sempre há-de estar. Ainda que não consigamos vê-lo distintamente, pelo menos seremos capazes de adivinhá-lo, de intuí-lo, aparece-nos ao longe como uma luz instável e lenta, um vago luzeiro que, por assim dizer, não chegasse a iluminar-se a si mesmo.
E é aqui, num súbito relance, que descubro que não é de ursos que se trata, mas de um tema, exactamente este que vos trouxe: «Do canto ao romance, do romance ao canto». Creio distinguir-lhe e identificar-lhe os contornos, tornar-se-lhe nítido e preciso o vulto, chego a acreditar que me bastará estender a mão e agarrá-lo, mas no momento em que vou exclamar, triunfante: «Minhas senhoras e meus senhores, eis o urso», verifico que tudo não foi mais que ilusão e ludíbrio, e apenas tenho para mostrar isto que vêem aqui, um tronco cortado, um cepo, uma raiz torta, um assunto à procura da sua porta de entrada. E outra vez a luz recomeça a pulsar, como um coração implorando: «Tirem-me daqui.»
Disse: «Do canto ao romance» – e esse percurso, essa viagem por espaços, mundos e tempos, desde os poemas homéricos a Marcel Proust, ou James Joyce, ou Franz Kafka, passando pelas Mil e Uma Noites, pelas epopeias indianas, pelas parábolas dos livros sagrados, pelo Cântico dos Cânticos, pelas fábulas milésicas, pelo Asno de Ouro, pelas canções de gesta, pelas sagas islandesas, pelos ciclos de Roldão, da Demanda do Graal, de Alexandre, de Robin Hood, pelo Roman de la rose e pelo Roman de Renart, por Gargântua, pelo Decameron, por Amadis de Gaula, por Don Quixote, e também por Gulliver e Robinson, Werther e Tom Jones, por Ivanhoe, Cinq-Mars e Os Três Mosqueteiros, pela Nossa Senhora de Paris, pela Comédia Humana, pelas Almas Monas, pela Guerra e Paz, pelos Irmãos Karamazov, pela Cartuxa de Parma, pela Montanha Mágica, até aqui, até aos dias de hoje, essa viagem relata-se e explica-se por si mesma, começou um dia, em voz e em grito, à sombra de uma árvore, ou no interior de uma gruta, ou num acampamento de nómadas à luz das estrelas, ou na praça pública, ou no mercado, e depois houve alguém que escreveu, e a seguir alguém que escreveu sobre o que antes tinha sido escrito, infinitamente repetindo, infinitamente variando, escrevendo, lendo, escrevendo, lendo…
Pouco importará a mais do que provável incoincidência com a realidade histórica entre esta visão lírica de narrativas entoadas em melopeia e uma escritura organizada e disciplinada, respeitadora de regras, preceitos e normas, e, fatalmente, de sistemas convencionais que nunca o são menos pelo facto inelutável de serem transitórios e portanto substituíveis por outros sistemas, estes, por sua vez, condenados, mais cedo ou mais tarde, a idênticos processos de mudança. A evocação que aí deixei serviu-me somente para ilustrar, do modo mais persuasivo de que fui capaz, a primeira parte do título que dei a estas breves linhas: «Do canto ao romance», e, para os fins que tenho em vista, tão bem servia esta como outra qualquer. A dificuldade viria sempre depois. Precisamente agora.
Digo: «Do romance ao canto» – e nesta altura deveria demonstrar, ou pelo menos propor-vos como uma hipótese plausível, que o género literário a que damos o nome de romance, havendo chegado na nossa época ao final do arco de círculo que, tal imaginário pêndulo, traçou através dos tempos, estaria regressando pelo caminho por onde veio, até reencontrar o canto primordial, donde recomeçaria a viagem, porventura com um novo impulso que lhe permitiria galgar, em direcção ao futuro, mais uns quantos séculos ou milénios. Algo como dois passos para trás e três para diante…
Não sou tão desprovido de senso comum. Dinâmica e cinética são programas de diferente foro do conhecimento, e a literatura, se repete infinitamente, como já foi dito, também infinitamente varia, como foi dito já. Posto o que, chegados a este ponto, é irresistível recordar aquele célebre Pierre Menard, autor de um Quixote idêntico ao de Cervantes, segundo nos explica Jorge Luis Borges nas suas Ficciones, o qual Pierre Menard, tendo repetido, palavra por palavra, a obra do imortal «Manco de Lepanto» (assim designam a Cervantes quando não se quer repetir-lhe o nome, destino a que Camões escapou, pois ninguém, até hoje, se atreveu a chamar-lhe «Zarolho de Ceuta»), muitas vezes está a dizer coisas diferentes, não mais que por serem diferentes os modos de as entender neste século XXI em que estamos e naquele século XVII em que nunca estaremos. Porém, este mesmo exemplo nos mostra, derradeiramente, que qualquer repetição exacta é impossível. Naquela sua viagem de retorno às origens, ao outro extremo do arco de círculo, o pêndulo iria supostamente reencontrando e reconhecendo, passo a passo, a identidade romanesca perceptível nas narrações que conhecemos do passado, ao mesmo tempo que iria deixando atrás de si o rasto de uma alteridade coincidente, se uma tão grosseira contradição em termos (se é alteridade, não é coincidente) pudesse ser admitida. É claro que foi pelos meus próprios passos que me meti no beco sem saída em que de repente me encontro. De facto, se ao romance não é permitido fazer nenhum percurso inverso, se Pierre Menard, quando fiel e escrupulosamente copiou o Quixote, acabou por escrever outro livro, como conseguiríamos nós alcançar novamente o anto, o desejado canto, e, se sim lá chegássemos, de que canto seriam capazes as nossas bocas de hoje, ainda que as palavras fossem iguais e igual a música? Os homéridas já não têm lugar neste mundo, o tempo é, de todas as coisas, a única que não é recuperável. Que nos resta, então? Como iremos inventar o canto novo, esse a que me está obrigando a segunda parte do meu título? E com que direito me proporia eu, se é de facto essa a minha intenção, anunciar o advento de uma nova era, literariamente falando, claro está, sem cuidar de saber se isso agradaria a quem tivesse de vivê-la? Trazer Homero aos nossos dias, homerizar o romance, terá algum sentido?
Estas perguntas, em si mesmas, e pela ordem por que as apresentei, não são inocentes. Permitem-me, enfim, trocar o geral pelo particular, penetrando no único universo de que posso falar com a legitimidade que dá um conhecimento de causa, isto é, o meu próprio e pequeno universo, o do romance que faço, o seu porquê, o seu como e o seu para quê.
Em primeiro lugar, consideremos a relação do autor com o tempo. Não este em que agora estamos, não aquele outro que foi o do escritor enquanto trabalhou no seu livro, mas sim o tempo contido e encerrado no romance, e que também não é o das horas e dias que levará a ser lido, ou uma referência temporal implícita no discurso ficcional, e menos ainda o tempo explicitado fora da narrativa, por exemplo, no título que ela recebeu, casos de Cem Anos de Solidão ou de Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher. Falo, sim, de um tempo poético, feito de ritmos, de suspensões, um tempo simultaneamente linear e labiríntico, instável, movediço, um tempo dotado de leis próprias, um fluxo verbal que transporta uma duração e que uma duração por sua vez transporta, fluindo e refluindo como uma maré entre dois continentes. Este, repito, é o tempo poético, pertence à recitação e ao canto, aproveita todas as possibilidades expressivas do andamento, do compasso, da coloratura, é melismático ou silábico, longo, breve, instantâneo. De um tempo assim percebido foi meu desejo e minha ambição que se alimentassem as ficções que inventei, consciente de que vou querendo, mais e mais, aproximar-me da estrutura de um poema que, sendo pura expansão, se mantivesse fisicamente coerente.
Afirmam músicos e musicólogos que uma sinfonia, hoje, é algo impossível, como, na mesma linha de ideias, o seria também esculpir um capitel coríntio. Obviamente, qualquer pessoa, se dotada de suficiente habilidade, poderá contrariar tal interdição de princípio, compondo, de facto, a sinfonia, ou esculpindo, de facto, o capitel: o que dificilmente poderá é levar-nos a acreditar que, ao fazê-lo, esteve a responder a uma necessidade autêntica, tanto no plano da criação como no plano da fruição. Ora, quem sabe se não teremos também nós de enfrentar a gravíssima responsabilidade de aplicar ao romance uma sentença igual, afirmando, por exemplo, que também ele se tornou impossível nas suas formas paradigmáticas, prolongadas até hoje com mínimas variações, só raramente radicais e sempre assimiladas e integradas no corpo tópico, o que tem permitido, com a graça de Deus e a bênção dos editores, que continuemos, muitos de nós, a escrever romances como comporíamos sinfonias brahmsianas ou talharíamos capitéis coríntios.
Mas este mesmo romance, que assim parecia estar condenando, contém já em si, nos seus diversos e actuais avatares, a possibilidade de se transformar num espaço literário (propositadamente digo espaço, e não género) capaz de acolher, como um grande, convulso e sonoro mar, os afluentes torrenciais da poesia, do drama, do ensaio, e também da ciência e da filosofia, tornando-se expressão de um conhecimento, de uma
sabedoria, de uma cosmovisão, como o foram, no seu tempo, os poemas da antiguidade clássica.
Porventura estarei caindo em erro, se recordarmos a crescente e parece que irreversível especialização, já quase microscópica, do homem. Porém, não é impossível que essa mesma especialização, por força de algum mecanismo interior de compensação, e talvez por uma instintiva necessidade de sobrevivência e equilíbrio psicológico, nos leve a procurar uma nova vertigem do geral em oposição às aparentes seguranças do particular. Literariamente, porque só de literatura estamos falando aqui, talvez o romance possa restituir-nos essa suprema vertigem, o alto e extático canto de uma humanidade que ainda não foi capaz, até hoje, de conciliar-se com a sua própria face.
E assim concluo. Manejando o meu canivete rombo, aparei e escavei o bocado de madeira que aqui vos trouxe. Juro-vos que via o urso antes, via-o perfeitamente. Juro-vos que continuo a vê-lo agora. Mas não tenho a certeza – culpa minha – de que o vejais vós. O mais provável foi ter-me saído um ornitorrinco, esse mamífero desajeitado, com bico de pato, feito de peças soltas doutros animais, desconforme, bicho fantástico – ainda que não tanto como o ser humano. Este que nós somos quando escrevemos romances, ou os lemos. Interminavelmente."