Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sábado, 15 de julho de 2017

Barbara Jursic "As personagens femininas em O Ano da Morte de Ricardo Reis" (Revista Triplo V - Nova Série | 2011 | Número 14)

"As personagens femininas em O Ano da Morte de Ricardo Reis" de Barbara Jursic

"Revista Triplo V" de Artes, Religiões e Ciências
Nova Série | 2011 | Número 14
Pode ser consultada aqui
em http://triplov.com/novaserie.revista/numero_14/barbara_jursic/index.html


"O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago oferece imensas possibilidade de estudo porque muito rico no nível literário, da intertextualidade, da realidade social e política.

A história parece simples à primeira leitura. Fernando Pessoa morto aparece várias vezes a Ricardo Reis, vindo do Brasil, depois da sua chegada a Portugal. Sem sabermos quem era Ricardo Reis ou, melhor dito, que era (só) um produto da imaginação de Fernando Pessoa, uma personagem que vem pintada segundo a imagem de uma pessoa verdadeira, que realmente existiu, ele parece um homem normal e não apresenta dúvidas sobre a sua veracidade. Quando olharmos para o que está por detrás da história, os elementos dos quais Saramago se serviu para inventar ou reinventar à sua maneira as personagens, percebemos que é tudo muito mais complexo do que parece à primeira vista.

Fernando Pessoa, que realmente existiu, aparece no romance como um fantasma, um homem já morto que aparece a Ricardo Reis que, por sua vez, tenta ser ou tornar-se personagem verdadeira e não ficar só na qualidade de heterónimo de Fernando Pessoa. Os seus esforços são bastante vãos e, em vez de o levarem para uma vida nova, para uma existência só dele, para a individualidade, o protagonista acaba por seguir Fernando Pessoa ao cemitério dos Prazeres, finaliza o seu percurso na terra dos mortos, mortos fisicamente.

No romance há duas personagens femininas diametralmente opostas que são muito importantes na vida de Ricardo Reis e têm também um forte valor simbólico.

Marcenda anuncia a morte, a impossibilidade de agir de Ricardo Reis, mas é ao mesmo tempo uma personagem muito poética e excepcional, e a outra, Lídia, é a única personagem inteiramente verdadeira, ela é vida e não tem nada de fantástico, tem uma voz e um corpo e é o laço de Ricardo Reis com o mundo (real).

 
Marcenda – ilusão ou espelho de Ricardo Reis?

 
Marcenda, já pelo nome, como lemos no romance, “este nome de Marcenda não o usam mulheres, são palavras doutro mundo, doutro lugar, femininos mas de raça gerúndia”[1], parece um fantasma também, como se tentasse existir sem inteiramente conseguir. Esta personagem surge na vida de Ricardo Reis como uma aparição, com a sua mão paralítica que atrai a atenção, porém, apesar de morta, a mão parece a parte mais viva de todo o seu corpo. Marcenda parece ausente deste mundo, menos presente do que um fantasma.  

Essa musa etérea que poderia à primeira vista alinhar-se com as de Cloe, Neera e Lídia que o engenho pessoano criara, é uma espécie de traição romanesca tragicamente instaurada desde o nome.[2] 

O nome da protagonista anuncia que ela deve murchar, ela é marcenda, não é imarcescível. A protagonista é musa, mas não eterna e incorruptível, porque “marcenda é aquela que deve murchar, aquela a quem falta a eternidade e que está fadada a ser mortal”[3]. A personagem, durante a leitura, nem nos parece mortal, parece menos do que um fantasma, quase inexistente. Ricardo Reis, que é de certo modo um fantasma e, por isso, quase inexistente, envolve-se com ela emocionalmente, porque se sente atraído pela sua rarefacção, em tudo semelhante a ele.

Marcenda, estranho nome, nunca ouvido, parece um murmúrio, um eco, uma arcada de violoncelo, les sanglots longs de l’automne, os alabastros, os balaústres, esta poesia de sol-posto e doente irrita-o, as coisas de que um nome é capaz, Marcenda.[4]

O seu nome perturba Ricardo Reis como se de um velho segredo, um mistério, quase de um esconjuro se tratasse; como se fosse irreal, só um murmúrio, um eco, algo que toca levemente a nossa consciência e passa, que não é mais do que fruto da nossa imaginação ou sensibilidade excessiva, alguma coisa leve, mas ao mesmo tempo fria e petrificada, que passa, embora permaneça qual pequena memória que irrita. Marcenda irrita Ricardo Reis, porque estabelece com ele uma relação diferente de todas as suas anteriores. Às vezes, temos a sensação de que não se trata de um ser vivo, antes as vibrações de um nome, Marcenda.

Todavia, a personagem parecendo tão angelical, com a sua mão paralítica, anuncia a morte, a impossibilidade de agir de Ricardo Reis. Marcenda reforça o falhanço de Reis em se autonomizar. No horizonte deste romance onde pululam os fantasmas, esta mulher é mais um ou apenas uma sombra deles.

A somar a isto, Marcenda lembra também as musas antigas das Odes do heterónimo Ricardo Reis. Reis, personagem, tenta construir a sua história depois de voltar do Brasil como a jovem tenta construir a sua própria, mas tanto um como o outro não conseguem fazê-lo. A personagem não tem forças para agir, para fazer o que quer, é incapaz de resistir às imposições externas, como se pode verificar na seguinte citação: “Meu pai continua a dizer que devo ir a Fátima e eu vou, só para lhe dar gosto”[5]. Marcenda vem a Lisboa para agradar ao pai, que vai ver a amante sob o pretexto de levar a filha ao médico. “Obedece, não luta, cede, agrada, mente até, se necessário, não assume”[6]. Marcenda parece-se muito com Ricardo Reis, personagem, sobretudo na segunda parte da sua estadia em Portugal, quando já não luta mais e é incapaz de conquistar a sua identidade. Ela não está no tempo, como também Ricardo Reis não se encontra no tempo em que vive ou tenta viver independentemente de Fernando Pessoa, escapando ao heterónimo. Não está viva, porque nada lhe pertence, nem mesmo a mão inerte. Reis, ao deixar no fim da narrativa o chapéu que o caracteriza, expressa a sua desistência. “Você não trouxe chapéu, Melhor do que eu sabe que não se usa lá.”[7] Os dois estão presos no labirinto da sua própria incapacidade.  

Não é Ricardo Reis quem pensa estes pensamentos nem um daqueles inúmeros que dentro de si moram, é talvez o próprio pensamento que se vai pensando, ou apenas pensando, enquanto ele assiste, surpreendido, ao desenrolar de um fio que o leva por caminhos e corredores ignotos, ao fim dos quais está uma rapariga vestida de branco que nem pode segurar o ramo das flores, pois o braço direito dela estará no seu braço, quando do altar tornarem, caminhando sobre a passadeira solene, ao som da marcha nupcial.[8] 

Num tom bastante irónico o narrador expõe que Ricardo Reis não é capaz de controlar nem dirigir os seus próprios pensamentos, assim como Marcenda não consegue mexer a sua mão paralisada. Reis, sem querer, sente-se próximo desta personagem feminina menina, vê-se casado com ela, o que não é de estranhar, pois partilham a mesma incapacidade de se imporem ao mundo.  

Marcenda é a aventura do livro que foi sem ter sido, da musa nova que relembra a musa antiga e revela a sua própria falência, que é semelhante à falência do heterónimo no tempo novo de 1936. Se, para continuar a viver 1936 na Europa, o heterónimo teria que assumir-se personagem na História, também a musa nova de molde antigo não pode sobreviver, é marcenda, marcescível.[9] 

O destino deles é feito pelos outros, moldado pela incapacidade dos dois agirem, da sua fragilidade.  

Ricardo Reis fez uma pausa, parecia reflectir, depois, debruçando-se, estendeu as mãos para Marcenda, perguntou, Posso, ela inclinou-se também um pouco para a frente e, continuando a segurar a mão esquerda com a mão direita, colocou-a entre as mãos dele, como uma ave doente, asa quebrada, chumbo cravado no peito. Devagar, aplicando uma pressão suave mas firme, ele percorreu com os dedos toda a mão dela, até ao pulso, sentindo pela primeira vez na vida o que é abandono total, a ausência duma reacção voluntária ou instintiva, uma entrega sem defesa, pior ainda, um corpo estranho que não pertencesse a este mundo.[10]

    Marcenda é a mão inerte, a asa quebrada, o pássaro que não pode voar, a pessoa que não consegue viver. Será que não pertence a este mundo? O que provocou a paralisia foi, contudo, uma dor completamente humana, a perda da mãe, facto que simboliza a possibilidade de doença física causada por distúrbios emocionais. Ricardo Reis diz a Marcenda: “se está doente do coração, também está doente de si mesma”[11]. Ela não consegue livrar-se daquela dor e Ricardo Reis não consegue escapar à presença de Fernando Pessoa, realidades que os unem simbolicamente. Quando programam um encontro, o narrador anuncia-o com um dos seus famosos comentários.  

Uma donzela de Coimbra marca, em furtivo bilhete, encontro com o médico de meia-idade que veio do Brasil, talvez fugido, pelo menos suspeito, que quinta das lágrimas se estará preparando aqui.[12] 

Esta passagem lembra a conhecida narrativa histórica de Inês de Castro. O comentário saramaguiano é irónico e anuncia os eventos seguintes. Claro que a história não é tão cruel como a do século XIV, mas deixa perceber uma impossibilidade, uma incapacidade parecida. Tal como Pedro e Inês, Marcenda e Ricardo Reis não ficarão juntos, contudo, enquanto o primeiro par foi afastado por forças externas, o segundo falhou por incapacidade emocional de ambos. Apesar de Reis e Marcenda se beijarem, quando ela o vem ver a casa e depois ao consultório dele, nada mais acontece, porque, quer um quer o outro, não têm forças para mais. Marcenda recusa o pedido de casamento de Ricardo Reis, “Marcenda, case comigo”[13]. Não pode, porque não é somente a sua mão que está morta, é toda ela. Ricardo Reis escreve-lhe cartas, como se estivesse muito longe, num outro mundo.  

Ricardo Reis tem a impressão de estar a escrever a alguém a quem nunca tivesse visto, alguém que vivesse, se existe, em lugar desconhecido. (...) E se é verdade que beijou essa pessoa que hoje não lhe parece ter alguma vez visto, a memória que ainda conserva do beijo vai-se apagando por trás da espessura dos dias.[14] 

Marcenda é pintada como um fantasma, como uma aparição e não como uma pessoa de carne e osso. Como já foi dito, temos a impressão de que Ricardo Reis nunca encontrou verdadeiramente a rapariga doente. “Marcenda não é nada”.[15] A jovem não mora nem neste tempo nem neste espaço. Se mora em algum lugar, isso não pode estar senão além e acaba por chegar uma carta do “além”. Nela lemos: “a cidade, donde esta carta verdadeiramente vem, chama-se Marcenda”[16]. Ela é um mundo à parte e a sua “cidade” é ligeiramente parecida com Lisboa na obra estudada, onde “os pombos se recolhiam aos altos ramos dos olmos, em silêncio, como fantasmas”[17]. Não somente as pessoas, melhor dito, as personagens do livro, mas também o resto da natureza, tudo parece fantasmagórico. Para a criação desta atmosfera etérea contribui a cor das cartas de Marcenda que é “a conhecida cor de violeta exangue”[18]. Exangue quer dizer sem forças, débil, sem sangue, o que pode referir-se a Marcenda, e violeta simbolicamente significa a passagem da vida para a morte, a involução. Tudo isso ajuda a compor a sua imagem. Na viagem a Fátima, Ricardo Reis, quando adormece, imagina Marcenda como sendo, não uma mulher terrestre, mas com características semelhantes à Virgem, embora seja ele, na sua imaginação, que consegue curá-la, que faz um milagre.  

(...) passou a imagem da Virgem Nossa Senhora e não se deu o milagre, nem admira, mulher de pouca fé, então Ricardo Reis aproxima-se, Marcenda levantara-se, resignada, é então que ele lhe toca no seio com os dedos médio e indicador, juntos, do lado do coração, não foi preciso mais, Milagre, milagre (...), e Marcenda, (...), acena com os dois braços levantados e desaparece (...)[19] 

Há aqui um paralelismo imaginário entre Reis e a Virgem, ambos seres de índole transcendente.                                                

Marcenda parece-se com as musas das Odes do heterónimo Ricardo Reis, das Neera, Cloe e Lídia. Ricardo Reis personagem reflecte sobre elas desta maneira: “não são mulheres verdadeiras, mas abstracções líricas”[20]. Marcenda também podia ser abstracção lírica de Ricardo Reis, a personagem que é de igual modo sombra/fantasma de uma abstracção literária de Fernando Pessoa.

Marcenda 

encerra-se num livro modelar de odes arcádicas sem que nunca dele tivesse feito parte, ao lado das Cloe e das Neera, ocupando, talvez, o espaço de uma certa Lídia que dessas teias escapou.[21] 

Nesta constatação Teresa Cristina Cerdeira afirma que Marcenda ocupou o espaço da Lídia das odes, e, se continuarmos neste sentido, podemos dizer que a Lídia deste romance escapou das Odes, dum contexto irreal, para a vida real, banal talvez mas palpável e verdadeira.  

 
Lídia – ligação com o mundo e a vida

 
 “Como se chama, e ela respondeu, Lídia, senhor doutor”[22], foi assim o primeiro encontro de Lídia – criada e pessoa verdadeira, de carne e osso, e Ricardo Reis, que se alojou no hotel Bragança em Lisboa. “Ele poeta, ela por acaso Lídia (...)”.[23] 

Lídia, diz, e sorri. Sorrindo vai buscar à gaveta os seus poemas, as suas odes sáficas, lê alguns versos apanhados no passar das folhas, E assim, Lídia, à lareira, como estando, Tal seja, Lídia, o quadro, Não desejemos, Lídia, nesta hora, Quando, Lídia, vier o nosso outono, Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira-rio, Lídia, a vida mais vil antes que a morte (...)[24]

O que acabamos de ler refere-se a Lídia, a musa etérea das odes. A Lídia que Ricardo Reis encontra não se parece em nada com aquela que vem cantada ao lado de Neera e Cloe. Lídia é uma mulher do povo que vive a vida como pode e como sente. A criada de hotel está viva, mesmo que pareça em momentos banal, o que a torna ainda mais autêntica, real e verdadeira, diferenciando-se assim das restantes personagens do romance. A personagem é a única que não tem nada de fantasma. 

Reentraria no livro, não fosse o desacordo evidente entre a musa das odes e a mulher do povo que o olha e que em breve se deitaria com ele, fugindo por completo ao arquetípo que ele próprio inventara.[25] 

Lídia foge da poesia, do etéreo, do irreal, e vai em direcção ao quotidiano, ao palpável, ao real, à vida.

Fernando Pessoa, num dos seus encontros com Ricardo Reis, troça dele comparando a Lídia real com a das odes.  

Ah, ah, afinal a tão falada justiça poética sempre existe, tem graça a situação, tanto você chamou por Lídia, que Lídia veio, teve mais sorte que o Camões, esse, para ter uma Natércia precisou de inventar o nome e daí não passou, Veio o nome de Lídia, não veio a mulher, Não seja ingrato, você sabe lá que mulher seria a Lídia das suas odes, admitindo que exista tal fenómeno, essa impossível soma de passividade, silêncio sábio e puro espírito.[26]

Fica-lhe somente o nome, Lídia, e esse nome, como no caso de Marcenda, leva-o a um lugar ainda desconhecido. Lídia “frustra todas as suas expectativas”[27], a personagem não tem nada a ver com a homónima que Reis cantava e imaginava nos seus poemas. A personagem é “só” uma arrumadeira de quartos de hotel, de outra classe social, não “pode” ser amada por alguém como ele, ele nem admite a possibilidade de poder apaixonar-se por ela ou amá-la porque é só uma criada. Não é aquilo que ele esperava. Não é passiva, não guarda o silêncio sábio, antes pergunta e quer conversar sobre diferentes temas, sobretudo os da actualidade; é conhecedora daquilo que se está a passar. Ao contrário da figura poética, a criada de hotel não crê no amor platónico e vive o amor que sente por Reis, oferecendo-se ao deleite corporal. Lídia é a vida, a ligação de Reis à vida, é por ela e através dela que ele se vê unido ao mundo, ela abre-lhe o caminho para a sua independência. 

Com ela, tal como Teseu pelas mãos de Ariadne, poderia passar da alienação à participação, de heterónimo a personagem, de persona a pessoa, da ode ao romance, da morte à vida. [28] 

Lídia é o fio que fixa Ricardo Reis à vida quotidiana. Esta personagem, ao longo do romance, torna-se cada vez mais independente e substantiva. Lídia, como muito bem sabe Ricardo Reis, tem uma voz e um corpo, ao contrário de Marcenda. 

(...) colocou uma das mãos sobre a mão de Lídia, fechou os olhos, se não for mais que estas duas lágrimas poderei retê-las assim, como retinha aquela mão castigada de trabalhos, áspera, quase bruta, tão diferente das mãos de Cloe, Neera e a outra Lídia, dos afuselados dedos, das cuidadas unhas, das macias palmas de Marcenda (...)[29] 

Lídia tem de percorrer o caminho da musa de papel de Ricardo Reis para uma pessoa real, quando o poeta quer o contrário, ou seja, trazê-la da realidade para a poesia. Ela é vida.  

Deita-se com Reis e protege-o, é materna e submissa; no hotel e na casa nova serve, criada que é, mas é servida também no gozo e na paixão, na liberdade que se dá de amar, de ter ciúmes da musa Marcenda que entre os dois se interpõe, mas sobretudo de ter um filho e de assumi-lo sozinha como consequência de um acto só seu. Não sonha com igualdade, casamento ou família porque são outros os seus valores. Contenta-se com o prazer conquistado dia a dia, misturado ao serviço que desempenha de criada/mulher.[30] 

Lídia é feliz com aquilo que tem, contenta-se com aquilo que exige da vida. Não pretende conquistar o amor de Ricardo Reis, nem casar com ele, e chega a dizer-lhe que não deve perfilhar o filho de ambos se não quer. Lídia limita-se ao que pensa ter direito e é, ainda assim, uma mulher muito corajosa dentro dos limites sociais de então. 

Lídia sente-se feliz, mulher que com tanto gosto se deita não tem ouvidos, que as vozes maldigam sobre os saguões e quintais, a ela não lhe podem tocar, nem os maus-olhados, quando na escada encontra as vizinhas virtuosas e hipócritas.[31] 

Lídia despreza as más-línguas e aceita o que lhe é dado, não se deixando tolher pelas opiniões dos outros. “São os acasos da vida, É o destino, Acreditas no destino, Não há nada mais certo que o destino, A morte ainda é mais certa, A morte também faz parte do destino”[32], eis um dialogo bem intrigante entre Lídia e Ricardo Reis.

“Lídia tem essa lucidez benfazeja que diz sempre mais do que se espera dela, que está sempre um passo além do limite comum da sua classe, da sua instrução.”[33] A personagem, nas suas conversas com Ricardo Reis, passa de um tema corriqueiro para um assunto profundo com facilidade.   

(...) singular rapariga esta Lídia, diz as coisas mais simples e parece que as diz como se apenas mostrasse a pele doutras palavras profundas que não pode ou não quer pronunciar (...)[34] 

É isto que pensa Ricardo Reis depois de uma das conversas com Lídia que o surpreende, porque não presta muita atenção às suas palavras e actos. O protagonista vive noutro mundo, um mundo, como já foi dito, que é mais parecido com o mundo de Marcenda. Lídia é uma pessoa muito mais equilibrada e humana do que os outros dois. Ela sabe enfrentar o mundo e a vida e não tem medo disso. “Sem dúvida, Lídia tem a seu favor a voz do narrador que se expõe sempre no intuito de favorecer – ao menos no nível do desejo – os oprimidos.”[35] Isso também se nota ao ler o romance. Esta mulher é lutadora no seu dia-a-dia, assume as responsabilidades e as consequências dos seus actos. Lídia surpreende com a sua atitude quando conta a Ricardo Reis que está grávida.  

Vou deixar vir o menino. (...) Lídia aconchegou-se melhor, quer que ele a abrace com força, por nada, só pelo bem que sabe, e diz as incríveis palavras, simplesmente, sem nenhuma ênfase particular, Se não quiser perfilhar o menino, não faz mal, fica sendo filho de pai incógnito, como eu. Os olhos de Ricardo Reis encheram-se de lágrimas, umas de vergonha, outras de piedade.[36]

Ao filho ainda esperam tempos difíceis porque nascerá em 1937 e quando crescer haverá uma guerra em que, em princípio, terá de participar. O menino anuncia o futuro da nação portuguesa nos anos violentos dos meados do século XX. A guerra colonial começa em 1961, quando o filho de Lídia terá 24 anos, a idade apropriada para ser enviado a essa guerra. Quem sabe qual será o seu destino. O filho de Lídia é como um futuro mártir e a sua mãe “abençoada seja Lídia entre as mulheres”[37], citação bíblica que eleva a criada de hotel à altura da mãe de Deus. De repente, Lídia não é só uma criada qualquer, insignificante e sem importância. Ela torna-se símbolo da mulher e da mãe portuguesas e o seu filho, o símbolo dos filhos portugueses, dos jovens portugueses e, por conseguinte, do futuro da nação. Como lemos no romance, a frase provavelmente dita por um arcebispo de Mitilene, que é um dos coadjutores do patriarca de Lisboa, “Portugal é Cristo e Cristo é Portugal”[38], é um exagero, pois, quando Ricardo Reis a disse a Fernando Pessoa, este largou a rir, mas faz sentido se tivermos em conta o filho de Lídia e da História que está por vir, porque ele é o menino, qual Cristo, que representa Portugal, a juventude portuguesa e o seu futuro. 

Lembra-se de que Lídia está grávida, de um menino, (...), e esse menino crescerá e irá para as guerras que se preparam, repito, há sempre um depois para a guerra seguinte, façamos as contas, virá ao mundo lá para Março do ano que vem, se lhe pusermos a idade aproximada em que à guerra se vai, vinte e três, vinte e quatro anos, que guerra teremos nós em mil novecentos e sessenta e um, e onde, e porquê, em que abandonados plainos, com os olhos da imaginação, mas não sua, vê-o Ricardo Reis, de balas trespassado, moreno e pálido como é seu pai, menino só de sua mãe porque o mesmo pai não o perfilhará.[39]  

Essas são as palavras do narrador que sabe do destino do filho da Lídia, ao contrário dela que o ignora. Lídia é a única deste romance que vive o e no presente. A personagem chora unicamente pelo destino actual do irmão, pela Badajoz invadida por causa da situação política em que se encontra Espanha nesse momento, contudo, o que ela chora na última parte da obra estudada é o seu próprio destino – ela é uma mulher de outra classe diferente da do “senhor doutor” e por isso menosprezada, a sentir-se menos, a sentir-se nada! Por isso ainda não é tão amada ou nem é amada, como devesse ser como mulher, sem ter em consideração a classe social a que pertence.  

Lídia já não chora, diz, Foram mortos dois mil, e tem os olhos secos, mas os lábios tremem-lhe, as maçãs do rosto são labaredas. Ricardo Reis vai para consolá-la, segurar-lhe o braço, foi esse o seu primeiro gesto, lembram-se, mas ela furta-se, não o faz por rancor, apenas porque hoje não poderia suportá-lo. Depois, na cozinha, enquanto lava a louça suja aculumada, desatam-se-lhe lágrimas, pela primeira vez pergunta a si mesma o que vem fazer a esta casa, ser a criada do senhor doutor, a mulher-a-dias, nem sequer a amante porque há igualdade nesta palavra, amante, amante, tanto faz macho como fêmea, e eles não são iguais, e então já não sabe se chora pelos mortos de Badajoz, se por esta morte sua que é sentir-se nada.[40] 

Lídia, finalmente, admite que sofre pela divisão das classes e que o seu amor seria diferente se ela não pertencesse a uma classe social mais baixa. “Reconhece-se dividida e sabe que deve optar. Entre a sua verdade individual e a verdade do seu tempo, sente-se visceralmente unida e feitora deste último.”[41] Lídia é uma mulher que vive o presente e que opta pela vida. Mesmo reconhecendo que a sua situação é desfavorável, ela opta pela vida e, no final, não segue Ricardo Reis ao cemitério, à morte.  

Seguisse Ricardo Reis, que optara pelos “Prazeres”, e ei-la, talvez, de volta ao livro, à placidez dos campos, enfeitiçada, musa, a Lídia cantada. Segue, no entanto, Daniel, despede-se de Reis e deixa branca a página de um livro em que se não quis inscrever, para preencher um outro que lhe abrira a possibilidade de fazer-se sem ser feita, de escolher como sujeito e, não de ser escolhida como objecto. Sabe que o irmão, e com ele o sonho da revolta, está acabado, mas fica porque “a terra espera” e Daniel é a vítima fecunda de um espectáculo que tem que continuar.[42]  

Se Lídia seguisse Ricardo Reis até à morte poderia voltar às odes, deixar a vida e ganhar a forma de uma musa, de um objecto incorpóreo, de um fantasma, cantada, mas insubstancial, impessoal, só um nome cantado por um poeta, ele também um fantasma, já que não conseguiu existir como pessoa humana. Ela opta pelo caminho mais difícil, mais exigente, que é o da vida normal, quotidiana, com todas as suas amarguras e os seus desafios, obstáculos e preocupações. Contudo, Lídia fá-lo-á sozinha, será ela que escreverá as páginas do livro da sua vida e não outras pessoas. Será ela a autora do seu próprio destino. O seu irmão é vítima daquela situação histórica, mas está entre aqueles que se revoltaram. Não fica sozinho nessa luta. A sua morte é fecunda, a terra espera por outros que continuarão o seu percurso e que assegurarão um futuro melhor às gerações por vir.  

É nesse impasse entre o mar e a terra, entre o passado e o presente, entre a utopia ou o sonho ou a irrealidade ou o mito e a História, que o romance se finda. Fernando Pessoa tem o seu tempo encerrado e já não vagueia pelo mundo. Será para sempre uma voz lida pelos outros e que se não pode mais transformar. Ricardo Reis percebe também a sua própria encruzilhada: com Lídia mergulharia no mundo, no tempo e na História, mas sofre a sua própria incapacidade de segui-la.[43] 

“O mar se acabou”[44], Ricardo Reis já não regressa ao Brasil, nem à vida. Ricardo Reis perdeu a oportunidade de ser alguém no presente e entre nós. Lídia era a sua ligação com o mundo, com a vida real, mas Reis não soube aproveitar essa oportunidade, não teve bastante força para ficar e ser uma pessoa independente, esse sonho continuou um sonho, uma utopia. A irrealidade e o ambiente tão fantasmagórico são mais fortes e mais presentes nesta obra do que aquilo que existe. Todos, à excepção de Lídia, são mais parecidos com os fantasmas do que com pessoas de carne e osso. É precisamente Lídia que, ao parecer sozinha naquela sua dura vida quotidiana, carrega as esperanças de vida melhor no país. É ela que, ao estar grávida, leva em si a esperança de um futuro melhor, é ela a fecundidade e o futuro. A criada de hotel lembra as duas mulheres grávidas que desencadeiam uma verdadeira “epidemia” da gravidez no romance de José Saramago Jangada de pedra e que têm o mesmo significado, a mesma simbologia. A História é só o narrador que a conhece, as personagens do livro não. O narrador está do lado dela e tem confiança nas pessoas lutadoras e simples, porque são elas, não os fantasmas, que constroem o país, a humanidade. Os mortos não podem construir o mundo de hoje, o país actual. Saramago aposta nos “vivos” que, como Lídia, levam o futuro em si."



Barbara Juršič, Eslovénia

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[1] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 344

[2] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 183

[3] Idem, p. 183

[4] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 98

[5] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 287

[6] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 184

[7] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 407

[8] Idem, p. 102

[9] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 184

[10] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 123

[11] Idem, p. 125

[12] Idem, p. 176

[13] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 284

[14] Idem, p. 251

[15] Idem, p. 325

[16] Idem, p. 258

[17] Idem, p. 284

[18] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 287

[19] Idem, p. 300

[20] Idem, p. 289

[21] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 184

[22] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 45

[23] Idem, p. 104

[24] Idem, p. 46

[25] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 185

[26] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 114

[27] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 185

[28] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 186

[29] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 164

[30] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 186

[31] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 295

[32] Idem, p. 296

[33] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 187

[34] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 296

[35] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 188

[36] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, pp. 347, 348

[37] Idem, p. 349

[38] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 273

[39] Idem, p. 382

[40] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 383

[41] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 189

[42] Idem, p. 189

[43] Teresa Cristina Cerdeira da Silva, José Saramago. Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 190

[44] José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, 11a edição, 1995, p. 407
 
Biografia
"Barbara Jursic 20 de Junho de 1971, Liubliana, Eslovénia)
É mestre em Literatura portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tradutora literária (traduziu Saramago, Lobo Antunes, Pessoa, Sá-Carneiro, Couto, M. Tavares, Sophia, Nuno Júdice, e outros), escreve artigos para revistas e jornais eslovenos e portugueses sobre autores lusófonos e eslovenos, cultura eslovena e portuguesa, temas actuais, faz programas para a Rádio e TV nacional, escreve textos críticos e prefácios para obras literárias, é intérprete (esloveno, português, francês e espanhol) e vice-presidente e responsável pelas relações internacionais da Associação eslovena de tradutores literários, membro do Comité organizativo para Liubliana, capital do livro mundial (2010-11), em 2005 foi condecorada com o 
Prémio Nacional de Melhor Tradutor Jovem.
E-mail: ajsi.disi@gmail.com, barbara.jursic@gov.si "

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Adaptação teatral da "Viagem do Elefante" - "Mammoth journey, fragmented dramatics" publicado no "The Hindu" (Vikram Phukan, 13/07/2017)

Adaptação teatral de "A Viagem do Elefante" 
"Mammoth journey, fragmented dramatics" publicado no "The Hindu" por Vikram Phukan, 13/07/2017

A notícia foi publicada aqui
em http://www.thehindu.com/entertainment/theatre/mohit-takalkars-gajab-kahani-is-an-adaptation-of-jos-saramagos-book-the-elephants-journey/article19271024.ece

Fotografia via link indicado e identificado

Localização do teatro
Prithvi Theatre
20 Janki Kutir Juhu Church Road
Mumbai 400 049 
Box Office : +91 (22) 26149546
Email: mail@prithvitheatre.org


"Gajab Kahani is an ambitious retelling of a tale about the transformative power of a road trip"

"The Pune-based director Mohit Takalkar takes another stab at a stage adaptation of José Saramago’s The Elephant’s Journey with his new play. ‘Gajab Kahani’ is an Aadyam production in association with Takalkar’s Aasakta group, which had mounted a Marathi version earlier. Saramago’s novel is based on a real-life pan-European journey undertaken by an Indian elephant, Solomon, bestowed on Archduke Maximilian of Habsburg by King Joao III of Portugal circa 1551. It is a shimmering human document with an epic sweep, full of stirring elemental rhythms, so it isn’t difficult to understand why Takalkar has returned to it.

Takalkar has roped in Amitosh Nagpal, a writer with a flair for verse and dry wit, as evinced in ‘Piya Behrupiya,’ his Twelfth Night adaptation. Perhaps due to the impact of that play, ‘Gajab Kahani’s’ prologue, where actors initially took the stage as themselves, felt instantly derivative. The theatrical meta elements were laid out with a coerced interactive quality that could appeal only to the most suggestible of theatre-goers. It would take several scenes for the after-taste to subside. As in ‘Piya Behrupiya,’ Nagpal foregrounds the writer as prime mover, but he is never ever called Shakespeare or Saramago.

Nagpal has certainly grasped the book’s tongue-in-cheek character as well as its profundities, and actors like Ajeet Singh Palawat (as Subhro the mahout) and Geetanjali Kulkarni (as Solomon) are able to own the language. Chaste Hindi is alternated with more hybridised Hinglish, and this is complemented by a chorus ensemble who speak in unscripted ‘gibberish,’ consisting of words in Spanish, Italian and Portuguese. In this multitude of languages jostling for space, it is significant that the elephant is powerfully allowed a voice with vital cadences of its own, a suspension of disbelief the book did not offer.

In Saramago’s book, everyone spoke one language, the clash was of conditioned cultural sensibilities — that of the Indian Subhro and by extension, his elephant, vis-a-vis the Portuguese emissaries who accompany them.

The play embraces a dissonance of tongues to underline cultural differences. This is most unsatisfactorily foisted upon actor Nakul Bhalla (as the Commander of the entourage), who is given to speaking Hindi with a foreign accent, a lazy stereotype of the ‘other’ that garners easy laughs but little else. During a pivotal monologue, he appears to miraculously lose the stiltedness, as he repeats every second line as if processing some new insight.

Much of the heavy lifting is left to Palawat, whose Subhro bears a veneer of obsequiousness that cannot obscure the man of enterprise he really is. Yet, his wisdom takes on a strangely nationalistic allure. There is a false nostalgia for Indian values, a premium attached to ‘desi’ ways. This is counter-productive to the play’s no-no to ‘them and us’ partisanship. Subhro faces cultural high-handedness at every step, but he is also cast in the mould of someone equally intransigent. Palawat, of course, cuts through this, and brings us closer to the refreshingly unaffected Subhro of the book.

On her part, Kulkarni brings a characteristic gravitas to Solomon. Yet she’s never as omniscient as one might imagine. Her grander moments, punctuated with music, are eclipsed by quick fade-outs, never really registering. It’s almost with good reason that Takalkar doesn’t linger on; it keeps Solomon in the realm of the mythical. The performance took place all around an enclosed audience who sat on swivel seats that could swing along with the action, but it also allowed us to train our line of sight resolutely on Solomon, possibly the only benefit to be had from such a staging gimmick.

Anticlimactic ways


‘Gajab Kahani’ is a fragmented experience that reaches its coda early when the Commander takes his leave. The remainder of the journey feels like a dramatic afterthought, but this alludes to how momentous journeys almost end in anticlimactic ways. At the Italian city of Padua, a huge crowd gathers to witness Solomon. Later, there is an arduous trudge along a mountain pass in the Alps. The ensemble is always at hand, sometimes inspired (Shalva Kinjavadekar stands out), sometimes jaded, the banality of life writ large on their faces. The indelicacy of delivery can be corrected, but what of the deeper ideas that seem frittered away to a strange bombast? The benefit of hindsight restores the primacy of the story, but this is something Takalkar may have hoped to achieve during the play’s running time because ‘Gajab Kahani’ is certainly a tale that deserves to be imprinted in our minds quite inviolably.

‘Gajab Kahani’ will be staged at Prithvi Theatre, on July 14 (6 p.m.), July 15 (6 p.m. and 9 p.m.) and July 16 (5 p.m. and 8 p.m.) at Prithvi Theatre, Juhu; more details at bookmyshow.com"

terça-feira, 11 de julho de 2017

Saramago reescribe en el Festival de Teatro de Almada su «Historia del cerco de Lisboa» (via ABC, 09/07/2017)

Se estrena con éxito la adaptación de José Gabriel Antuñano dirigida por Ignacio García

Notícia via ABC, publicada em 09/07/2017, aqui em
http://www.abc.es/cultura/teatros/abci-saramago-reescribe-festival-teatro-almada-historia-cerco-lisboa-201707090150_noticia_amp.html

"ABC |Adaptación teatral de «Historia del cerco de Lisboa» de Saramago"

"Era un reto arriesgado y difícil: trasladar al teatro el texto de una colosal novela sin diálogos, la «Historia del cerco de Lisboa» de José Saramago. El ensayista, pedagogo y adaptador español José Gabriel Antuñano lo ha llevado a cabo con éxito a juzgar por la salva de aplausos con que se cerró el pasado miércoles el estreno del montaje dirigido por otro español, Ignacio García, en el Teatro Municipal Joaquim Benite de Almada, dentro de la programación del 34º Festival de Teatro de esa localidad portuguesa que contempla el bello perfil de Lisboa desde la orilla sur del estuario del Tajo.
Fue Pilar del Río, la esposa granadina del Nobel portugués, quien hace un par de años sugirió a Antuñano y García que trabajaran sobre ese texto de su marido. Tras bastantes meses de tarea, el texto resultante ha cuajado en las tablas como un espectáculo redondo, reflexivo y divertido en el que se exploran las relaciones entre realidad y ficción, se cuestionan las verdades históricas y se desarrolla una atractiva historia de amor.

RELACIONADA

El Festival de Almada dramatiza el cerco de Lisboa
Quienes leyeron en su día la estupenda novela de 1989, recordarán que el protagonista es el corrector editorial Raimundo Silva, que, aburrido de su trabajo mientras repasa las pruebas de una convencional historia sobre la reconquista de Lisboa por parte de los cristianos portugueses en 1147, decide añadir un no en el texto, eliminando con esta corrección la decisiva ayuda prestada por caballeros templarios de la Segunda Cruzada en la victoria sobre los ocupantes musulmanes de la hoy capital portuguesa, según la versión histórica comúnmente aceptada. Como alternativa al despido decidido por el director de la editorial, María Sara, la directora literaria amada secretamente por Silva, propone que el imaginativo corrector escriba una novela sobre su personal versión del cerco de Lisboa y demuestre su tesis de que «la Historia no es una ciencia: es una ficción… Y una tentativa de reconstruir la realidad mediante una selección de materiales», como dice el personaje en la función.

Una escena de la adaptación teatral de «Historia del cerco de Lisboa»- ABC

"El proceso creativo de la novela es la columna vertebral del espectáculo, en el que aparece José Saramago como un personaje más que asesora a Silva en su tarea y va opinando sobre lo que sucede. De esta forma, hay varios niveles argumentales que confluyen de manera simultánea: las tribulaciones del corrector, los debates entre los guerreros situados en la circunstancia histórica de 1147 y el cerco amoroso que enlaza a Silva con María Sara. El rey Alfonso Henriques, el caballero Enrique de Borgoña y su barragana Ouroana, el soldado portugués Mogueime y los moros sitiados se codean sobre el escenario con María Sara, Silva, la empleada doméstica Marta, Jorge Costa, director de la editorial, y el mismísimo Saramago en una entretenida y muy bien equilibrada propuesta metaficcional que logra concentrar el espíritu de la novela sin traicionarlo a la vez que se consolida como magnífico artefacto dramático.
La dirección de Ignacio García, también responsable de la música de la función, da alas escénicas a la notable adaptación de Antuñano y tiene momentos formidables y muchos hallazgos, como la escena en que los musulmanes cercados comparecen como personajes de guiñol. La limpia e imaginativa escenografía de José Manuel Castanheira, que hace años firmó la imponente del «San Juan» de Max Aub dirigido por Juan Carlos Pérez de la Fuente en el Teatro María Guerrero, y la meticulosa iluminación de Guilherme Frazão se unen al buen trabajo de los nueve actores que interpretan el montaje, procedentes de las cuatro compañías que lo coproducen: Teatro de Almada, Teatro de Braga, Teatro del Algarve y Teatro dos Aloés. Luis Vicente encarna al sensible y desencantado Silva, Elsa Valentim compone una encantadora María Sara, Jorge Silva es Saramago redivivo y Ana Bustorff recauda las risas del respetable como Marta, todos bien secundados por el resto del reparto."

"História do Cerco de Lisboa" A partir de José Saramago - Dramaturgia de José Gabriel Antuñano Encenação de Ignacio García (34.º Festival Almada)

A notícia pode ser consultada aqui via página do Teatro Municipal Joaquim Benite - Festival de Almada, aqui em 

(Fotografias na página de apresentação no link indicado)

"Quatro companhias do teatro independente reúnem-se para uma realização rara de serviço público cultural: criar um espectáculo a partir de um romance do Prémio Nobel da Literatura português – História do Cerco de Lisboa – que será apresentado, após a estreia em Almada, em Braga, na Amadora e em Faro, num total de 37 representações. Para Ignacio García, o romance de Saramago consiste sobretudo na história de um “não”, e numa reflexão sobre os mecanismos da criação literária. Para além das personagens principais do romance, para a dramaturgia de José Gabriel Antuñano é também convocado o próprio José Saramago, que estabelece um diálogo com o revisor Raimundo, o protagonista desta história – que também é de amor."



"Formado pela Real Escuela Superior de Arte Dramático de Madrid, Ignacio García foi adjunto do director artístico do Teatro Español. É director artístico do Festival Dramafest, no México, e tem desenvolvido uma carreira como encenador de teatro e ópera na Europa, na Ásia e na América Latina."



"José Gabriel Antuñano é professor de Dramaturgia e Ciências Teatrais na Escola Superior de Artes Dramáticas de Castelae Leão. É membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro e do Instituto de Teatro de Madrid. É ainda o director do Mestrado de Estudos Avançados de Teatro da Universidade Internacional de Rioja."



FICHA TÉCNICA
Intérpretes
Ana Bustorff, Elsa Valentim, João Farraia, Jorge Silva, José Peixoto, Luís Vicente, Pedro Walter, Rui Madeira, Tânia Silva
Cenografia
José Manuel Castanheira
Figurinos
Ana Paula Rocha
Luz
Guilherme Frazão
Som
Miguel Laureano
Assist. de Encenação
Marco Trindade

Duração
1h30
Classificação
M/12

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Baptista-Bastos até Sempre!



Aqui, http://caderno.josesaramago.org/2011/03/15/

"Num bairro"
"Viver em Lanzarote é, afinal, viver num bairro de uma grande ilha que é o pequeno mundo em que todos vivemos."
Armando Baptista-Bastos - "José Saramago. Aproximação a um Retrato, Lisboa"
Publicações Dom Quixote

Mensagem publicada pela Fundação José Saramago

"Adeus, Baptista-Bastos,
amigo de toda a vida e curador da Fundação José Saramago:"

"Manhã de passeio, manhã de palavras. Conheço o Baptista-Bastos há muitos anos, somos amigos desde então, portanto temos conversado muitas vezes, mas nunca desta maneira, com esta franqueza, a despejar o saco. Uma ilha, mesmo não sendo deserta, é um bom sítio para falar, é como se estivesse a dizer-nos: «Não há mais mundo, aproveitem antes que este resto se acabe.» Levei-o ao Mirador del Río, aos Jameos del Agua, a Timanfaya, ofereci-lhe tudo isto como se fosse meu, a paisagem, o mar, o céu, o vento. Amanhã regressará a Lisboa, aos seus velhos lugares, à Ajuda onde nasceu, à Alfama onde mora, e, aí, o melhor que eu posso desejar-lhe é que feche os olhos de vez em quando e peça à memória a graça de restituir-lhe aquelas sombras de nuvens que passavam por baixo de nós na falda da montanha fronteira à Graciosa, as escarpas roxas de Famara, ao crepúsculo, entre a neblina, a bocarra hiante da Caldera de los Cuervos, o desenho japonês de duas palmeiras sobre a anca deitada duma colina. Que essa memória não lhe falte, e gozará da vida eterna."
(José Saramago, in Cadernos de Lanzarote III)


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sérgio Letria da Fundação José Saramago - Entrevista à Coffepaste


Publicado através da página Coffepaste e podem seguir aqui
em https://www.facebook.com/Coffeepaste/

"Hoje trazemos-vos uma entrevista com Sérgio Machado Letria, da Direcção da Fundação José Saramago. A Fundação cumpre 10 anos de existência em 2017, e foi o pretexto para esta nossa conversa. Falou-se das comemorações do aniversário, fez-se o balanço da última década, falou-se inevitavelmente de José Saramago, e ficámos a saber se um livro pode mudar uma vida."

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Apoie a Fundação José Saramago através da consignação de 0,5% do IRS

"Apoie a Fundação José Saramago através da consignação de 0,5% do IRS"

Via página do Facebook da Fundação José Saramago, aqui
em https://www.facebook.com/fjsaramago/

"A Fundação José Saramago (FJS) é uma das entidades beneficiárias de consignação de imposto.
Assim, a partir deste ano já pode decidir apoiar a FJS através da consignação de 0,5% do seu IRS, bastando preencher o quadro 11 da sua declaração de rendimentos, com o Número de Identificação Fiscal 508 209 307."

Revista de Estudos Saramaguianos #5 (Janeiro 2017)


Sinopse de apresentação
"Este número da RES reúne trabalhos de leitores da obra de José Saramago do Brasil, Colômbia e Argentina. Integram este número, textos sobre a poesia do escritor português – “O ano de 1993” (María Victoria Ferrara, Fernângela Diniz Silva e José Leite Jr.), “Os poemas possíveis” (Rodrigo Conçole), sobre “A jangada de pedra” (Carlos Pazos-Justo), sobre a produção memorialística saramaguiana (Eula Pinheiro), sobre “Viagem a Portugal” (Daniel Cruz Fernandes), “História do cerco de Lisboa (Maria Carolina de Oliveira Barbosa), sobre “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas” (Jorge Luís Verly Barbosa e resenha de Antonio Arenas Berrío). São dois volumes – um em língua portuguesa, outro em língua espanhola – disponíveis gratuitamente na web através do site http://www.estudossaramaguianos.com/"





















Pode ser consultado aqui em,
http://www.estudossaramaguianos.com/2017/02/5-apresentacao-os-seres-humanos-nao.html

"APRESENTAÇÃO"
"Os seres humanos não podem aceitar as coisas como elas são, porque isso leva-nos directamente ao suicídio. Temos que acreditar nalguma coisa e, sobretudo, temos de ter um sentimento de responsabilidade colectiva, segundo o qual cada um de nós será responsável por todos os outros.
José Saramago


Resistir. Esta é uma palavra de ordem para o anoitecer de uma comunidade cujas determinações pareceram nos levar a um lugar de luzes. Precisaremos, mesmo sabendo qual o lugar da noite, atravessar tudo de novo, e ao que parece sem olhos de reparar (o que é ainda mais grave), para ao menos aviltar uma possibilidade de plenilúnio. Erramos ao acreditar na perenidade do lugar da utopia. Mas erramos mais ainda torná-la desencanto. Porque esta é ânima. Passo. Estágio de. Trânsito. E o lugar das luzes, logo, continuidade. É o estar sempre alerta – para recuperar a metáfora de José Saramago quando imagina todo um povo atento aos desmandos do poder e que em demonstração de seu lugar na ordem social resgata toda sorte de luminárias para abrir a noite escura de fuga das autoridades políticas da cidade do voto branco no Ensaio sobre a lucidez – um dos romances-parábolas mais coerentes com a atual conjuntura porque atravessamos.

A responsabilidade do cidadão já agora tornado sujeito, qualquer-coisa numa comunidade líquida, retomando a expressão fundamental cunhada por Zigmunt Bauman para se referir a ordem social contemporânea, obriga não a reivindicação de uma coletividade, mas de interposições. Isto é, a condição de sermos a partir do reconhecimento pelo lugar do outro. A conjunção de uma rede de alteridades é a possibilidade de rompermos com o imperativo dos modelos unilateralistas e ultrapassados nesse tempo crepuscular. Antes disso, na conjuntura em que nos encontramos, são bolhas de respirar. Mas é preciso ampliá-las. A luta é contínua.

A constatação sobre a repetição do mesmo – sem esquecer que é também este um já-outro porque as condições são igualmente outras – não se trata de um elogio sobre. Nesta hora, funciona com mais um dos vários alertas (“Uivemos, disse o cão”); condição, portanto, contrária a outra que parece ter servido de força motriz para o levante dessa outra noite, nossa inabilidade, silêncio ou acomodação.

As condições sociais cujas bases são agora o consumo e a sobrevivência ante o medo terrível de ser tragado pela miséria imposta com o nome de crise pelo poder dominante resultaram nisso: uma cegueira que já nos impossibilita distinguir a linha das coisas, as formas do outro, colocar-se em maneira de atenção para o forjado na surdina contra a gente simples, os trabalhadores. Se deixaremos algum dia a posição de submissos à parafernália do consumo e à de bestificados com o brilho dos ecrãs – algumas das distrações que nos desviam o olhar para o nosso entorno, para a farsa dos discursos, para a condição do outro – não sabemos. E enquanto não sabemos, ficarmos parados pode ser uma fatalidade. A alternativa que nos sobra é resistir. E uma das maneiras é tornando as distrações lugares colonizados pela força de descontinuação do mal. Espaços como estes, como a Revista Blimunda, a Fundação José Saramago – para citarmos os lugares de ousar e manter vivas as ousadias do dizer – são bons exemplos disso. São resistências. Devemos ampliá-las.

Outro desses lugares de descontinuidade do lugar do poder desvairado é a literatura – matéria que nos alimenta e alimenta os outros espaços citados acima. A literatura é um dos oásis. Lugar de resistência. De maneira mais ampla, sim, é preciso nos desfazer da falácia imposta pelo poder de que a cultura é tão somente o ócio, o alegre passatempo – como se vende atualmente nos míseros espaços da mídia, por exemplo – e acreditar que por ela passam nossos destinos e problemas e nela está, como sempre foi sua condição, maneiras de se pensar e de respirar em tempo de fezes, renovando a expressão de um poema de Carlos Drummond de Andrade escrito num estágio semelhante ao de então. Dizemos “então” como quem diz “de sempre”, porque se a condição de estarmos lúcidos deve ser o alimento das nossas vontades, isto é, continuamente ativa, é porque nunca as tais forças de esmagamento da gente oprimida foram destituídas da comunidade humana. Essa foi outra condição tornada pelo brilho fosforescente do poder unilateral. Para nos fazer cômodos. Urge desassossegar! 

Por isso, quando nos propomos falar sobre literatura é, em tempos de opróbrio, também como maneira de resistência. Não é qualquer literatura sobre a qual falamos; é a literatura do “não”, imperativo da revisão assinalado de forma diversa por um escritor na sua obra, no discurso e na postura como intimação contra a inércia dos sujeitos e as verdades únicas. Que ainda nos reste essa possibilidade de um fio de lucidez a perpassar a noite. Se não nos salvamos pela literatura, que ao menos possamos encontrar nela uma possibilidade de confronto contra a mesmice do imposto. Talvez esteja nesse lugar outra maneira de habitar a existência antes da possível total aridez.

Equipe editorial


SUMÁRIO

A jangada de pedra, de José Saramago: repertório e sistema interliterário ibérico
CARLOS PAZOS-JUSTO

O ano de 1993. A poesia distópica de José Saramago
MARÍA VICTORIA FERRARA

Memória: o passado é presença presente (Cadernos de Lanzarote, As pequenas memórias, O caderno e O caderno 2)
EULA PINHEIRO

A construção de Viagem de Portugal
DANIEL CRUZ FERNANDES

No reparo da história, o nascimento da ficção: a propósito da História do cerco de Lisboa, de José Saramago
MARIA CAROLINA DE OLIVEIRA BARBOSA

Uma leitura saramaguiana do Salmo 136
RODRIGO CONÇOLE LAGE

Um romance inacabado, uma ideia que segue: uma leitura adorniana de Alabardas, alabardas,espingardas, espingardas
JORGE LUÍS VERLY BARBOSA

A presença do Surrealismo na obra O ano de 1993, de José Saramago
FERNÂNGELA DINIZ DA SILVA
JOSÉ LEITE JR.

RESENHAS

Alabardas, o romance inacabado de José Saramago
ANTONIO ARENAS BERRÍO"

sexta-feira, 31 de março de 2017

Nos 300 anos do Palácio Nacional de Mafra - Exposição baseada na obra "Memorial do Convento"

A Fundação José Saramago assinalou a data. 
Aqui em https://www.josesaramago.org/2603-abertura-da-exposicao-memorial-do-convento-mafra/

"26/03: Abertura da exposição sobre o «Memorial do Convento», em Mafra
No dia 26 de março, pelas 17h, abre ao público, no Palácio Nacional de Mafra, a exposição «Memorial do Convento – Era uma vez um rei devoto, um padre que queria voar, e uma mulher com poderes», a partir do romance de José Saramago.

Em 2017 comemoram-se os 300 anos da colocação da primeira pedra para a construção do Palácio de Mafra e também os 35 anos da publicação de «Memorial do Convento». A exposição, organizada pela Câmara Municipal de Mafra em parceria com a Fundação José Saramago, tem curadoria de Filomena Oliveira e Miguel Real e projeto expositivo da Silvadesigners.

A entrada é livre e a exposição estará patente até ao dia 31 de maio."

"Do material de divulgação:

Destinada a comemorar os 35 anos da publicação de Memorial do Convento, a exposição “Era uma vez um rei devoto, um padre que queria voar e uma mulher com poderes” integra- se nas Comemorações dos 300 anos do lançamento da primeira pedra do Convento de Mafra e tem o alto patrocínio da Câmara Municipal de Mafra, da Fundação José Saramago e da direcção do Palácio Nacional de Mafra.

Evidencia-se parte do espólio de José Saramago destinado à escrita do romance, bem como se ilustra este através da obra pictórica de José Santa- Bárbara, em cujos quadros Saramago diz ter descoberto o rosto de Blimunda.

“Comecei a ver o país todo como um gigantesco convento cujos limites nem sequer eram as fronteiras do que é hoje Portugal, porque se prolongavam por dentro das pessoas” – José Saramago, cujo estilo presente em Memorial do Convento libertou a literatura portuguesa do registo tradicional de escrita e se prolongou na inspiração em outros registos estéticos, como o teatro, a pintura, a ópera."






Mais informações em http://www.palaciomafra.pt/

quinta-feira, 30 de março de 2017

"WORK: Woodtype cover designs for Vintage’s José Saramago reissues" - (Creative Review, Mark Sinclair 27/03/2017)

Pela "Creative Review", Mark Sinclair (27/03/2017)
https://www.creativereview.co.uk/work/work-woodtype-cover-designs-vintages-jose-saramago-reissues/

"For its reissues of the late Portuguese author José Saramago’s novels, Vintage Classics used the author’s initials to create a series of letterpress covers designs. According to the in-house design department’s CMYK blog, the approach references early Harvill editions of Saramago’s books that incorporated his initials ‘J’ and ‘S’ into the cover imagery."















"From the CMYK blog: “We wanted to see how far we could take the idea of ‘illustrating’ the books using just the author’s initials. This immediately suggested the idea of creating colourful covers using old wooden letterpress characters.”


The designs were hand-printed in-house using woodtype blocks. According to CMYK, the first few titles have just been published and the rest of Saramago’s backlist will follow soon."

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Antevisão de "Blimunda" Por Maria João Avillez (publicado no Público em 09/05/1991)

Pode ser consultado e recuperado aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/antevisaoBlimunda.htm

Antevisão de "Blimunda", por Maria João Avillez
(Público, 09/05/1991)

"Um dia longínquo de l984, José Saramago recebe em casa uma carta que o deixa perplexo: a editora italiana Suvini Zerboni escreve-lhe para o informar que o compositor Azio Corghi está interessado em fazer uma ópera a partir do "Memorial do Convento". O escritor relê a carta, continua a achá-la "insólita", não responde. E passa o caso à Sociedade Portuguesa de Autores, para que aprofundasse aquela sugestão singular.
"A verdade é que eu fiquei um pouco céptico... Transformar um romance português numa ópera italiana?", recorda ele, sorrindo.
A editora reincide, o compositor não desarma. Quase um ano depois, José Saramago tem em Roma o seu primeiro encontro com Azio Corghi, de quem entretanto ouvira já alguns discos e "muito boas referências" artísticas e profissionais.
"O 'Gargantua' de Rabelais fora, por exemplo, um excelente trabalho do Azio... Mas porventura o que contou mais foi o facto de eu ter gostado dele", diz José Saramago. "É um homem de grande lhaneza, muito simples e dono de uma grande competência técnica. Mas é alguém de tal forma simples e discreto que enquanto não se ouve a sua música temos que adivinhá-la... Descobri um compositor apaixonado pelo 'Memorial do Convento', pela história, pelos valores do livro. Meses depois, voltámos a encontrar-nos em Milão, e estas duas conversas deixaram as coisas claras... Foi um encontro feliz."
E assim nasceu "Blimunda"... Numa noite de Maio de 1990 e num berço de ouro, o Scala de Milão. Um ano depois, "Blimunda" tem para si outro palco de ouro, o do São Carlos, enquanto aguarda o de Turim e ainda outras chamadas de prestígio, que a irão levar, se tudo se concretizar, a Toronto, Los Angeles, São Francisco, ao Met de Nova Iorque. E palcos primeiros da Europa manifestaram já a intenção de produzir novas encenações deste libreto.
Hoje, José Saramago ainda se confessa um autor quase involuntário desta ópera. Encontro-o, camisola verde-escuro, camisa às riscas verde e branco, na casa onde mora, um pequeno andar debruçado sobre uma rua "de silêncio e de paz", que mais parece uma aldeia em plena Lapa. Bebemos um café que vem "ali de baixo", conversamos, o telefone nunca parará de tocar.
"O libreto da 'Blimunda' vem com dois nomes, o meu e o do Azio Corghi, mas o trabalho essencial é dele... A minha contribuição foi mais uma troca de impressões, uma discussão de proposta de soluções, um trabalho de acompanhamento, muito mais do que um fazer real. Mas ele insistiu com grande delicadeza em que o libreto contivesse os nossos dois nomes..."
Daqui a quatro dias, sentado na plateia do Teatro de São Carlos, José Saramago terá provavelmente dificuldade em dizer o sentimento com que viveu essa noite. E lembrar-se-á, com certeza, dessa outra noite de Maio, quando, há um ano, sentado no Scala, viu pela primeira vez surgir a "sua" Blimunda. Já uma Blimunda outra, que não lhe pertencendo continuava a ser sua.
Por dentro do escritor vive um homem pudico que não se molda a explicitar sentimentos ou a publicitar emoções. As suas mãos desenham incessantemente gestos e círculos no ar e, de vez em quando, a sua ligeira gaguez tornar-se-á mais lenta. E será sempre num registo contido que hoje olhará para trás e se recordará dessa outra noite fria de Primavera, em Itália.
"É difícil... Foi sobretudo emocionante. É que nunca posso separar-me daquela ideia de que sou um português de Portugal. Há uma ligação profundíssima, uma raiz e tudo o que tem a ver com ela. Lembro-me de mim e da minha emoção ali sentado, diante daqueles actores, dos cenários, a ouvir uma história que eu escrevera... Tive por vezes a garganta apertada. Era como se eu, sabendo que parte daquilo era meu, não tivesse ao mesmo tempo a certeza de o merecer. Senti-me orgulhoso mas também muito humilde. E houve um sentimento de responsabilidade. Sabe... (sorri), não é um sentimento fácil... ou simples. Será talvez ingénua esta ideia de se ser responsável pelo país a que se pertence... Enfim, não tenho que dizer senão isto."
No S. Carlos, entretanto, vive-se também a azáfama - e que azáfama! - dos grandes momentos, e a contagem do tempo, tal como ali perto, no Teatro Nacional, inverteu já o seu ritmo: a partir de agora a contagem do tempo é descrescente. Há rostos ansiosos, uma atmosfera de tensão, no ar cruzam-se várias línguas numa algaraviada indescritível, o chão está juncado de mil fios, uma sofisticadíssima aparelhagem de mistura de som ocupa uma parte da plateia, fazem-se ensaios de luzes. A confusão tem aquela marca inconfundível da véspera das estreias.
"Houve aqui dois cavaleiros que muito se bateram pela 'Blimunda'. O José Ribeiro da Fonte e o Manuel José Vaz, directores deste teatro. Gosto de dizer e de reconhecer isso", afirma José Saramago, na penumbra da plateia.
No palco, vão lentamente nascendo os cenários de Michel Le Bois, a sala é envolvida pelas vozes de Blimunda e Baltasar - Kathia Lytting e William Lewis -, os figurinos de Jacques Schmidt cruzam a cena. A orquestra vai tomando o seu lugar e os cantores Fernando Serafim, Marina Ferreira e Jorge Brás de Carvalho também já se encontram prontos para um dos últimos ensaios. Pelos bastidores, na plateia, em cena, agitam-se centenas de pessoas - assistentes, técnicos, cantores, actores, elementos do coro, uma leva de figurantes. Daqui a algumas horas chegará ainda o octeto vocal madrigalista Swingle Singers.
Todo este espectáculo - à sua maneira também ele uma superprodução -, assente numa carpintaria forte e em efeitos cénicos que prendem o olhar, foi produzido - e cronometrado - pela imaginação de Jerôme Savary, o encenador que Lisboa descobriu com a "Zazou", em recente noite de pompa, circunstância e espectáculo.
Saramago:
"O livro é o livro, a música é a música, mas há o... encenador. E eu achei a encenação magnífica! Se o livro abre caminhos para soluções cénicas, o Savary explorou esses caminhos com efeitos cénicos deslumbrantes. Um dos factores do êxito da ópera em Milão foi certamente esta encenação... "
O escritor olha Kathia Lytting no palco e emociona-se: "Ela tem o temperamento e a voz duma diva... É uma wagneriana..."
A soprano é bela e jovem e sedutora. Há um ano, quando pela primeira vez cantou "Blimunda", estava grávida. Viveu com tanta intensidade o seu personagem que disse a si própria que se lhe nascesse uma filha teria o mesmo nome.
"Assim foi, assim é: nasceu uma menina, chama-se Blimunda...", recorda, sorrindo, José Saramago.
Blimunda-mulher, heroína desse fresco memorável que é o "Memorial do Convento". Hoje, passados que são já alguns anos sobre o momento e o acto da escrita, ainda a ama, como então, o escritor?
Pausa.
"Essa senhora fez-se a si própria. Nunca a projectei para ser assim ou assim... Foi no processo da escrita que a personagem se foi formando. E ela surge, surgiu-me, com uma força que a partir de certa altura me limitei a... acompanhar. Aquele sentimento pleno da personagem que se faz a si mesma é a Blimunda. Mas, é curioso, só no fim me apercebi de que tinha escrito uma história de amor sem palavras de amor... Eles, o Baltasar e a Blimunda, não precisaram afinal de as dizer... E no entanto, o leitor percebe que aquele é um amor de entranhas... Julgo que isso resulta da personagem feminina. É ela que impõe as regras do jogo... Porquê? (sorriso) Porque é assim na vida... A mulher é o motor do homem. (Pausa) Se você vir, os meus personagens masculinos são mais débeis, são homens que têm duvidas, são personagens masculinos com complexos... As mulheres, não."
José Saramago tem hoje os seus seis romances traduzidos em vinte e seis línguas. O escritor ri: "Do finlandês ao hebreu, do grego ao búlgaro..." E depois: "Tenho uma reduzida capacidade de acompanhar tudo isso. Há certos tradutores que têm o escrúpulo de pedir esclarecimentos, de apresentar duvidas. Mas (suspiro), há outros que não perguntam nada. Há um ou outro caso em que faço uma revisão aqui, em Portugal. Mas claro que se trata, no geral, de uma verificação que me escapa. "
A fama, o sucesso, o dinheiro, a invulgar notoriedade que hoje rodeia a sua assinatura, parecem não impedir a sua aparente serenidade ou contenção. Está-lhe no carácter essa forma de respirar perante os outros. Mas nas entrelinhas resvalam muitas vezes palavras reveladoras da vaidade, e sobre elas, não raro, desliza a sombra do orgulho.
"Essa espuma é lisonjeira, todos gostam de ser estimados... E eu acredito na sinceridade disso... Às vezes, todas estas solicitações ou este barulho podem ser opressivos, porque me roubam tempo e disponibilidade. Sobre o dinheiro, gostaria apenas de dizer que vivo do meu trabalho. Desejaria que isso fosse para os outros um direito e uma possibilidade. Mas gostava de voltar a isso da responsabilidade, porque no fundo, o sentimento principal é esse... Não é por importância, mas por verificar - através das reacções e das atitudes em Portugal ou lá fora, no estrangeiro - que transporto comigo uma certa responsabilidade... Eu quase diria que sou representante da língua que falamos, da nossa cultura... E não evito esta impressão de levar o meu país comigo..."