Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Clarabóia em cena na A Barraca - "Neste prédio imaginado por Saramago está Portugal inteiro"

O artigo de Maria João Caetano, pode ser visualizado e lido, na página do Diário de Notícias, aquiem http://www.dn.pt/artes/interior/neste-predio-imaginado-por-saramago-esta-portugal-inteiro-4920882.html

(Imagem do manuscrito original)


"A Barraca adaptou "Claraboia", romance que nos coloca num prédio lisboeta em pleno Estado Novo"
"No 1º esquerdo mora uma mulher infeliz, que perdeu a filha para a doença e atura um marido marialva e um pouco violento. No rés-do-chão direito mora um casal com problemas de comunicação, e não tem nada a ver com o facto de ele ser português e ela espanhola. Há uma família quase feliz no 2º direito, mesmo se a jovem Claudinha provoca cabelos brancos nos pais. No 2º esquerdo quatro mulheres entre tias, irmãs e sobrinhas, dedicam-se à costura e gostam de ouvir música clássica. No 1º direito, Lídia é uma mulher que dá nas vistas e que recebe muitas visitas do senhor Paulino. No rés-do-chão esquerdo é a oficina do sapateiro Silvestre, com porta para a rua, e que, um dia, em conversa com a mulher Mariana decide alugar um dos quartos para fazer frente às dificuldades financeiras. É assim que aparece Abel, o hóspede. Todas as casas dão para o patamar das escadas e é aí que fica a claraboia.
O prédio lisboeta é o cenário do romance de José Saramago, Claraboia, e é também o cenário da peça com o mesmo nome que o Teatro Barraca estreia amanhã. E é no prédio que reparamos assim que entramos na sala e o espetáculo ainda não começou. Nas mobílias que podiam ser dos nossos avós, nas louças, nas panelas, nos naperons, nas molduras douradas, na máquina de costura Singer com pedal.
Lisboa, 1952
"Assim que li o romance achei que seria delicioso criar esta história dentro de um prédio verdadeiro", conta a encenadora e atriz Maria do Céu Guerra. "Andei por Lisboa a ver prédios que pudessem ser usados, vi várias casas desabitadas mas depois caí na realidade e percebi que nunca nos iriam dar autorização, por razões de segurança, para fazer uma coisa dessas. Então, o cenógrafo José Manuel Costa Reis disse-me: a Barraca tem um teatro, tens que fazer isto no teatro, eu arranjo uma maneira." E arranjou. "Consegue dar-nos realmente a vida de um prédio, do qual vemos partes, vemos um prédio cortado e somos voyeurs, somos espias de um prédio de Lisboa de 1952. Conseguimos ver a vida de seus casas, seis famílias completamente distintas mas que nos dão aquela realidade que era a vida no Estado Novo."
O jornalista João Paulo Guerra, que fez a adaptação do romance de Saramago para teatro, explica que apesar de o autor não dizer exatamente onde ficava aquele prédio, é fácil imaginá-lo na zona de Santos, onde fica o teatro da Barraca:"Diz que da janela vê-se o rio e ouvem-se barcos. Além disso, sabemos que o José Saramago viveu na rua da Esperança, aqui na Madragoa". Mas seja em que bairro for, este é "um prédio classe baixa ou média-baixa, como, aliás, era a esmagadora maioria da população de Lisboa."

 Maria do Céu também interpreta uma das personagens
(Sara Matos/Global Imagens)

"Meia dúzia depois da Segunda Guerra Mundial, estamos em pleno Estado Novo", acrescenta Maria do Céu Guerra. "O Saramago, como José Cardoso Pires ou Lobo Antunes, escrevem sobre o fascismo branco. Não aparece a polícia, não aparece diretamente a repressão, nada que acuse o Estado Novo ou algum processo político, mas a gente sente que é insuportável viver aqui, é sufocante, e é isso que eu acho que o José Saramago nos dá muito bem."
João Maria Pinto, o ator que interpreta o sapateiro Silvestre, era um miúdo de seis anos em 1952 mas lembra-se bem desse modo de vida: "O livro é extremamente elucidativo sobre a época, dá-nos as famílias endurecidas pelo fascismo, cinzentas, partas, sem horizontes de vida. Estão espartilhadas. Vão uma vez ao cinema, quando há algumas economias, fazem uma refeição melhor ao domingo, dão um passeio e não fazem mais nada. Era assim que vivíamos."
Contrariar a crise
Apesar de haver quem possa ver semelhanças entre o mundo de Claraboia e o de filmes como O Pátio das Cantigas, Maria do Céu Guerra diz que as diferenças são muitas. Esta será uma "comédia negra": "Não tem nada a ver com a chamada comédia portuguesa, que era uma coisa demasiado apologética, simpática e ao mesmo tempo nostálgica de um tempo que não foi assim tão festivo. O que o Saramago nos dá é uma espécie de avesso da pueril e feliz comédia portuguesa. Aqui, todas as famílias tem a sua infelicidade e a sua luta pela vida, que era algo muito real."
Abel (Rúben Garcia) e o sapateiro Silvestre (João Maria Pinto)
(Sara Matos/Global Imagens)

"A vida no prédio é perturbada pela chegada do hóspede, um jovem que tem uma vida errante e pensamentos libertários. O papel de Abel é interpretado por Rúben Garcia e no vasto elenco encontramos ainda Paula Guedes, Lucinda Loureiro, Hélder Costa, Paula Sousa, Rita Lello, Carolina Parreira, Paula Bárcia, Adérito Lopes, entre outros. Trata-se, assume, a encenadora (que interpreta dois papéis), de uma "aposta muito grande" para a companhia. "Passámos os últimos anos numa situação muito difícil na barraca, quando começou a austeridade e se acentuaram os cortes e nós ficámos reduzidos a não poder fazer nada do que queríamos. Desta vez decidimos arriscar. Vamos fazer mesmo que a gente sofra as consequências disto. Não vamos continuar nesta apagada e vil tristeza de fazer peças com dois personagens e sem cenário. Vamos dar um pontapé na lua."

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Texto de Pedro Fernandes - "Temas, formas e obsessões em Claraboia, de José Saramago" Revista de Estudos Saramaguianos

Recuperação do texto de Pedro Fernandes, na data em que a obra é encenada pela companhia de teatro A Barraca.
Mais info, ver posts anteriores

Link geral das edições http://www.estudossaramaguianos.com/


Informação consultada, via Facebook na página "Revista Estudos Saramaguianos", aqui

O estudo pode ser descarregado em português, aqui 


«“Claraboia”, apesar de publicado em 2011, é o segundo romance de José #Saramago. A obra ainda não traz o peculiar jeito saramaguiano de escrita – que só se apresentará a partir de “Levantado do chão”. Mas, o leitor atento não deixará de perceber aí a presença quase integral dos principais temas que deram forma a toda sua obra literária; este é um motivo definidor do texto de Pedro Fernandes que recupera a necessidade da suficiência para considerarmos este um livro essencial e uma das peças fundamentais para a compreensão mais ampla sobre a escrita saramaguiana.» 
Texto de Pedro Fernandes O. Neto



Reflexão sobre a violência e consequente banalização das imagens que nos entram em casa através da comunicação social (29/06/1993)

Reflexão sobre a violência e consequente banalização das imagens que nos entram em casa através da comunicação social (29/06/1993)
in "Cadernos de Lanzarote - Diário I"
Caminho, páginas 69 e 70

"29 de Junho (1993)"
"A Lisboa, para gravar uma entrevista com Carlos Cruz. A hospedeira de bordo passa com os jornais, peço-lhe dois ou três para me ir entretendo durante a viagem (não gosto de ler livros nos aviões) e vou correndo os olhos pelas notícias, que, sendo de ontem, já me parecem tão velhas como o mundo. De repente, fico parado diante de uma fotografia que enche a página quase toda. Só alguns minutos depois, quando saí da espécie de estupor em que caíra, reparei que se tratava de um anúncio da Amnistia Internacional. A fotografia mostrava dois rapazes chineses (adivinha-se a presença de um terceiro, que não se vê) ajoelhados, com as mãos atadas atrás das costas. De pé, por trás deles, flectindo o joelho, três soldados que devem ter mais ou menos a mesma idade, cravam-lhes literalmente as bocas das espingardas à altura do coração. Não se trata de encenação, a fotografia tem uma realidade aterradora. Em poucos segundos os rapazes estarão mortos, esfacelados de lado a lado, com o coração desfeito. O texto diz que há na China milhares de presos políticos, que devemos fazer alguma coisa para os salvar. Deixo de olhar, penso que isto é banal, que todos os dias nos põem diante dos olhos imagens que em nada ficam a dever a esta (para não falar nas torturas e mortes fingidas que as televisões servem a domicílio), e chego a uma conclusão: que todos esses horrores, repetidos, cansativamente vistos e revistos em variações máximas e mínimas, se anulam uns aos outros, como um disco de cores, rodopiando, se vai aproximando, pouco a pouco, do branco. Como evitar que fiquemos, nós, também, imersos numa outra espécie de brancura, que é a ausência do sentir, a incapacidade de reagir, a indiferença, o alheamento? Talvez escolhendo deliberadamente uma destas imagens, uma só, e depois não permitir que nada nos distraia dela, tê-la ali sempre, diante dos olhos, impedindo-a de se esconder por trás de outros quaisquer horrores, que teria sido a maneira melhor de perder a memória de todos. Para mim, fico com esta fotografia dos três chineses que vão morrer (que já estão mortos) rebentados por três chineses a quem, simplesmente, alguém que não aparece na imagem, disse: «Matem-nos.» 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Revista Blimunda - Revisitamos a edição #19 de Dezembro de 2013 ... enquanto não chega a deste mês

(Capa da edição #19 - Dezembro de 2013)

Revisitamos a edição #19 de Dezembro de 2013 ... enquanto não chega a deste mês - Sinopse da edição, via página da Fundação José Saramago, aqui 
"A Blimunda de dezembro já chegou!
Nas suas páginas, destaque para os 15 anos da entrega do Prémio Nobel a José Saramago, com depoimentos de amigos, editores e jornalistas que acompanharam esses dias e que com o escritor viveram as emoções daqueles dias de Estocolmo.Também em destaque neste número da Blimunda, o Dicionário de Lugares Imaginários, que acaba de ser editado em Portugal pela Tinta da China, numa edição revista e aumentada, e na secção infantil e juvenil os 19.ºs Encontros Luso-Galaico-Franceses de Literatura Infanto-Juvenil, que a cidade do Porto acolheu no final do mês de novembro. Também neste número o discurso de Nuno Júdice, de aceitação do Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero Americana, entregue ao escritor no dia 27 de novembro.
A acompanhar os temas em destaque, as habituais leituras do mês, notícias, alfarrábio, agenda, o habitual em todos os números da revista mensal da Fundação José Saramago.
No fecho de mais um ano, um até já, com os votos de Bom 2014!"

OutrArte Oficina de Teatro da Escola Secundária Carlos Amarante - "Um Ensaio Sobre a Cegueira"

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

OutrArte 
Oficina de Teatro da Escola Secundária Carlos Amarante 
"Um Ensaio Sobre a Cegueira"

"Verde. Amarelo. Vermelho. Verde. Amare­lo. Vermelho. Uma mulher fica cega na passadeira de uma rua de uma cidade sem nome. A epidemia - a cegueira branca - alastra-se. Os infetados são isolados e colocados em quarentena numas camaratas onde os instintos primários vêm ao de cima. Torna-se difícil controlar as emoções. «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara». E o que o espetador é chamado a ver é a desagregação da decência humana em que deixa de haver distinção entre homens e animais. Estaremos todos cegos, cegos que, vendo, não vêem?" (por Deolinda Mendes)

Uma Adaptação da Obra "Ensaio sobre a Cegueira" De José Saramago.

Ficha Técnica:

Encenação e dramaturgia: Maíra Ribeiro

Assistência De Encenação: Deolinda Mendes, Vânia Silva, Afonso Alves e Natacha Branquinho

Desenho de Luz: Maíra Ribeiro e Deolinda Mendes.

Som e Mixagem de músicas: Maíra Ribeiro, Rocco Scolozzi e Ricardo Bernardino.

Vídeo: David Araújo

Elenco: Afonso Alves, Ana Alexandra Pereira, Ana Neri, Ângela Gomes, Bruno Gonçalves, Cátia Carvalho, Christelle Rocha, Cristiana Ramos, Francini Abdoul Hak, Giulia Santos, Joana Azevedo, Joana Soares, Luís Melo, Maria João Barbosa, Mariana Gomes, Marta Dainovich, Natacha Branquinho, Olga Fokt, Rita Pereira, Rita Rebouta, Rita Vilaça, Sara Nunes, Vânia Ferreira e Vítor Teixiera.

domingo, 6 de dezembro de 2015

"O destino de um nome" Texto de José Saramago inserido no libreto "Blimunda, Teatro Nacional de São Carlos - 1991"

"O destino de um nome" José Saramago

(Libreto "Blimunda" - Teatro Nacional de São Carlos / 1991)

"Muitas vezes me perguntei: porquê este nome? Recordo-me de como o encontrei, percorrendo com um dedo minucioso, linha a linha, as colunas de um vocabulário onomástico, à espera de um sinal de aceitação que haveria de começar na imagem decifrada pelos olhos para ir consumar-se, por ignoradas razões, numa parte adequadamente sensível do cérebro.
Nunca, em toda a minha vida, nestes quantos milhares de dias e horas somados, me encontrara com o nome de Blimunda, nenhuma mulher em Portugal, que eu saiba, se chama hoje assim. E tão-pouco é verificável a hipótese de tratar-se de um apelativo que em tempos tivesse merecido o favor das famílias e depois caísse em desuso: nenhuma personagem feminina da História do meu país, nenhuma heroína de romance ou figura secundária levou alguma vez tal nome, nunca estas três sílabas foram pronunciadas à beira duma pia batismal ou inscritas nos arquivos do registo civil. Também nenhum poeta, tendo de inventar para a mulher amada um nome secreto, se atreveu a chamar-lhe Blimunda. Tentando, nesta ocasião, destrinçar aceitavelmente as razões finais da escolha que fiz, seria uma primeira razão a de ter procurado um nome estranho e raro para dá-lo a uma personagem que é, em si mesma, estranha e rara. De facto, essa mulher a quem chamei Blimunda, a par dos poderes mágicos que transporta consigo e que por si sós a separam do seu mundo, está constituída, enquanto pessoa configurada por uma personagem, de maneira tal que a tornaria inviável, não apenas no distante século XVIII em que a pus a viver, mas também no nosso próprio tempo."



Páginas 8 a 11

"Ao ilogismo da personagem teria de corresponder, necessariamente, o próprio ilogismo do nome que lhe ia ser dado. Blimunda não tinha outro recurso que chamar-se Blimunda. Ou talvez não seja apenas assim. Regressando ao vocabulário, e mesmo sem recair em excessos de minúcia, posso observar como abundam os nomes de pessoa extraordinários e extravagantes, que ninguém hoje quereria usar e antes só excecionalmente, e contudo não foi a nenhum deles que escolhi: rareza e estranheza não seriam, afinal, condições suficientes. Que outra condição, então, que razão profunda, porventura sem relação com o sentido inteligível das palavras, me terá levado a eleger esse nome entre tantos? Creio que sei hoje a resposta, que ela me acaba de ser apontada por esse outro misterioso caminho que terá levado Azio Corghi a denominar Blimunda uma ópera extraída de um romance que tem por título Memorial do Convento: essa resposta, essa razão, acaso a mais secreta de todas, chama-se Música. Terá sido, imagino, aquele som desgarrador de violoncelo que habita o nome de Blimunda, profundo e longo, como se na própria alma humana se produzisse e manifestasse, que me levou, sem nenhuma resistência, com a humildade de quem aceita um dom de que não se sente merecedor, a recolhê-lo, num simples livro, à espera, sem o saber, de que a Música viesse recolher o que é sua exclusiva pertença: essa vibração última que está contida em todas as palavras e em algumas magnificamente." 
In libreto de Blimunda, Teatro Nacional de São Carlos, 1991


(Retrato de Azio Corghi, páginas 32 e 33)






"A adaptação de Claraboia, pelo grupo A Barraca, estreia a 10 de dezembro


Informação via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/claraboia-a-barraca-estreia-no-dia-10-de-dezembro-obra-a-partir-do-romance-de-jose-saramago/

"A adaptação de Claraboia, pelo grupo A Barraca, estreia a 10 de dezembro

Nos anos 50, José Saramago escreveu um romance. Enviou-o a uma editora e nunca obteve qualquer resposta. Muitos anos depois, resgatado do esquecimento, o manuscrito foi entregue ao autor, que decidiu que o livro a ser publicado, o deveria ser apenas a sua morte.
Em 2011, Claraboia finalmente chegou aos leitores.
Agora, a história de seis famílias que habitam um prédio de Lisboa e vivem sob a nuvem do Salazarismo, ganha uma adaptação pelas mãos do grupo de teatro A Barraca. Num trabalho de adaptação de Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra, 17 atores sobem ao palco para encenar essa peça.

A obra estreia no dia 10 de dezembro, data em que se comemora o 17.º aniversário da entrega do Prémio Nobel de Literatura a José Saramago.  Para informações sobre horários e preçário aceda a:" http://www.abarraca.com

Imagem da apresentação e ensaio da peça na Fundação José Saramago, 
enquadrado no programa "Dias do Desassossego"

Pode ser consultada informação, na página do teatro A Barraca, aqui 

"A Barraca tem no seu historial inúmeras obras de ficção transformadas em escrita dramática, a partir das quais se produziram inesquecíveis espectáculos. É aliás esta uma das suas principais vocações. Viagens de Gulliver, de Swifft, O Diabinho da mão furada, de António José da Silva, Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, A Relíquia, de Eça de Queiroz, Gente da Terceira Classe, de José Rodrigues Miguéis, Os Emigrantes, de Ferreira de Castro, A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, são apenas algumas dessas obras.

Neste sentido, A Claraboia, de José Saramago, constitui para A Barraca um desafio enorme. São dezassete personagens distribuídas em seis apartamentos num bairro de gente "remediada" na Lisboa dos anos 50. As suas necessidades, aspirações, quezílias, transgressões, mentiras são a principal matéria/desafio para um grande espectáculo de Teatro a acontecer. Tudo encerrado num espaço onde a ausência de amor é a parede mestra de cada casa e onde o fascismo à portuguesa, é vivido até ao mínimo pormenor com a policia à espreita dentro de cada um.

O entusiasmo de A Barraca e a  anuência da Fundação José Saramago levaram-nos a tentar dar cumprimento ao nosso sonho e programarmos este espectáculo para o segundo semestre de 2015.

Temos a certeza que este espectáculo honrará as instituições culturais envolvidas e não menos o seu autor." - Maria do Céu Guerra

Sinopse
"A ação do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respetiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respetivo filho - nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respetiva mulher e uma "mulher por conta" no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respetiva filha no início da idade adulta.

O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.

O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate - debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis - com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante?"


Ficha Artística e Técnica
Texto - José Saramago
Adaptação do Texto - João Paulo Guerra
Dramaturgia - Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra
Encenação - Maria do Céu Guerra
Cenografia e Corrdenação de Guarda Roupa - José Manuel Costa Reis
Banda sonora - João Paulo Guerra
Assistência Geral do Espectáculo - Adérito Lopes e Sérgio Moras
Apoio à Direcção de Actores - Lucinda Loureiro
Elenco
Adérito Lopes - Carolina Parreira - Carlos Sebastião - Fernando Belo - Guilherme Lopes - Hélder Costa - Henrique Abrantes - João Maria Pinto - Lucinda Loureiro - Maria do Céu Guerra - Paula Bárcia - Paula Guedes - Paula Sousa - Rita Lello - Rita Soares - Rúben Garcia - Sérgio Moras - Sónia Barradas - Teresa Sampaio
Sonoplastia - Ricardo Santos
Iluminação - Paulo Vargues
Relações Públicas e Produção - Paula Coelho, Inês Costa
Cartaz/ Design Gráfico - Arnaldo Costeira
Fotografias - Movimento de Expressão Fotográfica:
Luis Rocha, Amélia Monteiro, Isabel Correia, Janica Nunes, José Fontinha Vieira, José Guerreiro, Ricardo Amoedo e Rui Viegas
Agradecimentos
EPC, Fundação Saramago, Pilar del Rio




sábado, 5 de dezembro de 2015

Eula Carvalho Pinheiro e o Ensaio sobre a Cegueira - "outra maneira de ver e ler a cidade" - Inserido na edição #21 Revista Blimunda

Capa do artigo da edição #21, Revista Blimunda - Fevereiro 2014

A edição completa pode ser consultada e lida, aqui
em http://www.josesaramago.org/blimunda-21-fevereiro-2014/

O presente documento da académica Eula Carvalho Pinheiro, pode ser lido e estudado entre as páginas 60 a 69.

"Mas estamos realmente cegos. Cegos da razão, da sensibilidade, de tudo aquilo que faz de nós, não um ser razoavelmente funcional no sentido da razão humana, mas ao contrário, um ser agressivo, egoísta, um ser irracional. E o espetáculo que o mundo nos mostra é precisamente este. Um mundo de desigualdades, um mundo de sofrimento sem justificação. 1
José Saramago Há dez mil anos (aproximadamente), o homem constatou que se jogasse sementes à terra poderia multiplicar a quantidade de alimento, e, assim, aumentar as chances de sobrevivência. Acontecia, pois, a primeira grande transformação: a Revolução Agrícola, na qual o instrumento de produção era a ferramenta – movida pelo braço do homem – e a terra o bem mais precioso. Nesse período – entre 8000 a.C. e 6500 a.C. – registra-se o surgimento da cidade: entre as primeiras estão Çatalhüyük na Anatólia, atual Turquia; Mehrgarth, Paquistão, Sul, um dos assentamentos agrários mais antigos da Ásia; Jericó, a primeira cidade cercada por fosso e muro, na Palestina.
Muitos milênios depois disso, pouco antes de 1800 d.C., surge uma nova ruptura no processo de produção: o surgimento da máquina movida por força não-humana. Esse momento foi denominado de Revolução Industrial. Lembremos, por exemplo, da invenção do trem – século XIX – e das transformações daí decorridas: o homem tem a possibilidade de conhecer mais rapidamente outros lugares viajando por terra; a Europa se faz conhecida; pintores descobrem o sol do Mediterrâneo; o homem sai de casa para trabalhar. O capital é o elemento fundamental nesse contexto. Enfim, há massiva urbanização e ascensão de novas grandes cidades (primeiramente na Europa). Isso, necessariamente, se faz representar na literatura com maior ênfase.
Renato Cordeiro Gomes afirma:
As relações entre literatura e experiência urbana tornam-se mais contundentes e radicais na modernidade, quando a cidade transformada pela Revolução Industrial se apresenta como um fenômeno novo, dimensionado na metrópole que perde o seu métron. A desmedida do espaço afeta as relações com o humano. Sob o signo do progresso, alteram-se não só o perfil e a ecologia urbanos, mas também o conjunto de experiências de seus habitantes. Essa cidade da multidão, que tem a rua como traço forte de sua cultura, passa a ser não só o cenário, mas a grande personagem de muitas narrativas, ou a presença encorpada em muitos poemas.2 Dessa segunda revolução para cá, as transformações se intensificaram sobremaneira.
Hoje, estamos diante da terceira: a Revolução da Informação, na qual o conhecimento – mais que a terra e o capital – se faz imprescindível, porque as fronteiras do saber e do não-saber são tênues, ou seja, elas estão em constante processo de mudança – um conceito pode ser modificado no dia seguinte. Devemos, então, nos atualizar continuamente a fim de mantermo-nos «conectados» ao mundo: «os tempos mudaram muito ultimamente, há que atualizar os meios e os sistemas, pôr-se a par das novas tecnologias» (Intermitências da Morte, p. 137). Já não se faz preciso sair de casa: as imagens chegam em tempo real pela tela da televisão, do computador; e, assim, com semelhante precisão a comunicação se realiza entre as várias regiões do mundo; parece que voltamos a produzir dentro do nosso habitat.
O intelectual contemporâneo, consciente desse processo, lê a cidade e a materializa em linguagem:
cinematográfica, pictórica, musical, discursiva. Essa representação reflete, necessariamente, esse novo mundo: um só mundo com inúmeras particularidades. Nesse sentido, a Literatura, em particular a escrita de José Saramago nos romances Ensaio sobre a Cegueira, Intermitências da Morte, A Caverna, Ensaio sobre a Lucidez, materializa em linguagem a cidade: não mais identificando, em geral, pessoas e lugares, mas constrói textos nos quais pessoas e lugares são um e todos ao mesmo tempo, ou seja, a não-nomeação, o anonimato; significa dizer que uma determinada situação pode estar ou acontecer em qualquer parte. Renato Cordeiro Gomes afirma essa tendência no título Todas as Cidades, a Cidade: literatura e experiência urbana, obra de 1994; e ratifica essa postura quando afirma:
Percebe-se hoje, que a cidade para ser cenário da narrativa não necessita de presença encorpada. Sua ausência deixa, entretanto, todas as suas marcas: a violência, a solidão, a ausência de valores morais, a exacerbação do sexo, nenhum traço de humanismo, a perda da philia, a cidade compartilhada; enfim, são corroídos os traços que poderiam identificar uma identidade forte, traços que se tornam débeis, rarefeitos. E, essa cidade é toda e qualquer, não há mais necessidade de descrição de um cenário que localize identidades.
Em Ensaio sobre a Cegueira, «A mulher do médico disse ao marido, O mundo está todo aqui dentro» (ESC, 102). O manicômio, assim, como um microcosmo, representa o que acontece ou que pode acontecer em qualquer parte. Nesse lugar estão inseridos, além das pessoas portadoras do «mal-branco», a indiferença, o isolamento, impostos pelas autoridades:
O médico disse, As ordens que acabamos de ouvir não deixam dúvidas, estamos isolados, mais isolados do que provavelmente já alguém esteve, e sem esperança de que possamos sair daqui antes que se descubra o remédio para a doença. ESC, 51
O médico disse, Todos ouvimos as ordens, aconteça o que acontecer, uma coisa sabemos, ninguém vos virá ajudar, por isso seria conveniente que nos começássemos a organizar já, porque não vai tardar muito que esta camarata esteja cheia de gente, esta e as outras [...] ESC, 52 Além disso, o fato de as personagens não possuírem nomes próprios também corrobora a ideia de que uma pessoa pode ser qualquer pessoa: «os nomes, que importa os nomes» (ESC, 65); «Um, fez uma pausa, parecia que ia dizer o nome, mas o que disse foi, Sou polícia, e a mulher do médico pensou, Não disse como se chama, também saberá que aqui não tem importância.» (ESC, 66). A personagem mais destacada do romance sempre será nomeada de «a mulher do médico». Uma vez mais, a mulher se destaca na narrativa saramaguiana, confirmando o que ficara registrado no romance Memorial do Convento: «Deus quando quer não precisa de homens, mas de mulheres ele não pode dispensar-se nunca.»
Os outros cegos chegaram juntos. Tinham-nos apanhado nas suas casas, um após o outro, o do automóvel, primeiro de todos, o ladrão que o roubou, a rapariga dos óculos escuros, o garotinho estrábico, este não, a este foram-no buscar no hospital onde a mãe o levou. A mãe não vinha com ele, não tivera a astúcia da mulher do médico, declarar que estava cega sem o estar, é uma criatura simples, incapaz de mentir, mesmo para seu bem. ESC, 48 – Grifos nossos
Também não surpreenderá que busquem todos estar juntos o mais possível, há por aqui mais afinidades, umas que já são conhecidas, outras que agora mesmo se revelarão, por exemplo, o ajudante da farmácia foi quem vendeu o colírio à rapariga dos olhos escuros, no táxi do motorista foi o primeiro cego ao médico, este que disse ser polícia encontrou o ladrão cego a chorar como uma criança perdida e quanto à criada do hotel, foi ela a primeira pessoa a entrar no quarto quando a rapariga dos óculos escuros desatou aos gritos. ESC, 67 – Grifos nossos
«A mulher do médico» será, no interior do manicômio, os «olhos», e depois de lá saírem também, pois será ela quem conduzirá pela cidade as pessoas atingidas pelo «mal-branco» (quando este mal já tiver atingido a totalidade de uma determinada população por contágio) que dela estiverem próximas:
[...] eu sou, unicamente, os olhos que vocês deixaram de ter, Uma espécie de chefe natural, um rei com olhos numa terra de cegos, disse o velho da venda preta, Se assim é, então deixem-se guiar pelos meus olhos enquanto eles durarem, por isso o que proponho é que, em lugar de nos dispersarmos, ela nesta casa, vocês na vossa, tu na tua, continuemos a viver juntos [...] ESC, 245
Durante uma longa caminhada pela cidade – percurso necessário para se chegar à casa do médico e de sua mulher –, «a mulher do médico» vira ruas repletas de lixo, soubera pelo «velho da venda preta» de outras calamidades, mas o que mais a chocou foi o fato de presenciar cães a comerem um homem e, por isso, ao chegarem em casa diz [...] vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o [...] ESC, 262
O romance Ensaio sobre a Cegueira do título às páginas que o compõem está permeado por palavras do campo semântico do OLHAR; a própria epígrafe – ficcionalmente criada – «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.» traz essa evidência. Nesse sentido, não bastam os olhos para ver, se não houver sensibilidade capaz de identificar o que está escrito nas ruas: «na verdade os olhos não são mais do que umas lentes, umas objectivas, o cérebro é que realmente vê» (ESC, 70). Em As Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino essa postura também está registrada O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso e, enquanto você acredita estar visitando Tâmara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes. 
A dicotomia olhar – ver perpassa toda a narrativa; chegando, inclusive, a deixar evidente que na falta da capacidade de ver outros sentidos substituem a visão; a audição é um dos exemplos possíveis. Os ruídos da cidade são reconhecidos, identificados, mesmo que não se esteja vendo; são, pois, familiares, fazem parte do dia-a-dia de seus habitantes.
Por experiência, o cego sabia que a escada só estaria iluminada enquanto se ouvisse o mecanismo do contador automático, por isso ia premindo o disparador de cada vez que se fazia silêncio. A luz, esta luz, para ele, tornara-se em ruído. [...] Um carro parou na rua, até que enfim, pensou, mas acto contínuo estranhou o barulho do motor, Isto é diesel, isto é um táxi, disse e carregou uma vez mais o botão da luz. ESC, 20
De igual forma existe a dicotomia claro – escuro; luz – sombra; haja vista a própria condição imposta pelo “mal-branco” como ficara conhecida esse tipo de cegueira: no lugar da treva o branco absoluto. [...] esta cegueira é branca, precisamente o contrário da amaurose, que é treva total, a não ser que exista por aí uma amaurose branca, uma treva branca [...] ESC, 28
As horas foram passando, um após outro os cegos adormeceram. Alguns tinham tapado a cabeça com a manta, como se desejassem que a escuridão, pudessem apagar definitivamente os sóis embaciados em que os seus olhos se haviam tornado. As três lâmpadas, suspensas do tecto alto, fora do alcance, derramavam sobre os catres uma luz suja, amarelada, que nem era capaz de produzir sombras. ESC, 76 Por outro lado, metáforas como «luzes escassas» são encontradas no sentido de pouco conhecimento como em «o misterioso território da neurocirurgia, acerca do qual não possuía mais do que luzes escassas» (ESC, 29); ou, ainda, «às cegas», ou seja, sem convicção, sem precisão: «Por enquanto não lhe receitarei nada, seria estar a receitar às cegas» (ESC, 24).
A cidade se destaca em dois momentos, antes da epidemia do «mal-branco» e depois de algum tempo de permanência da cegueira total. Primeiramente descreve-se uma cidade na qual o trânsito se fazia confuso e uma provável poluição visual provocada pelos anúncios luminosos era também registrada:
[...] os passeios estavam todos ocupados por automóveis, não encontraram espaço para arrumar o carro, por isso foram obrigados a procurar sítio numa das ruas transversais [...] ESC, 13 
Fizera-se noite quando saiu do consultório. Não tirou os óculos, a iluminação das ruas incomodava-a, em particular a dos anúncios. ESC, 31
Depois de algum tempo, devido ao «mal-branco», tudo isso se agrava: «Os transportes estão um caos, respondeu o velho da venda preta, e passou aos pormenores, aos casos e aos acidentes » (ESC, 126); a cidade chega ao ápice do caos: pára. [...] daí em diante não se ouviu mais um ruído de motor, nenhuma roda, grande ou pequena, rápida ou lenta, voltou a pôr-se em movimento. Aquelas pessoas que antes costumavam queixar-se das dificuldades cada vez maiores do trânsito, peões que à primeira vista pareciam não levar rumo certo porque os automóveis, parados ou andando, constantemente lhes cortavam o caminho, condutores que, depois de terem dado mil e três voltas até conseguirem descobrir um local onde arrumar enfim o carro, se tornavam em peões e passavam a protestar pelas mesmas razões deles depois de terem andado a reclamar pelas suas [...] ESC, 127 O caos em que a cidade acaba por encontrar-se agrava-se ainda mais; são ruas repletas de lixo, de mau cheiro, de pessoas a vagar sem direção, indefesas, chega-se, por fim, ao fundo de uma situação de degradação e humilhação.
No entanto, os sobreviventes dessa epidemia têm a oportunidade de voltarem a ver, pois a cegueira, segundo a narrativa, é reflexo do medo: 
«o medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos» (ESC, 131). O medo, então, parece acabar pois Se eu voltar a ter olhos, olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver-lhes a alma, A alma, perguntou o velho da venda preta, Ou o espírito, o nome pouco importa, foi então que, surpreendentemente, se tivermos em conta que se trata de pessoa que não passou por estudos adiantados, a rapariga dos óculos escuros disse, Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos. ESC, 262
No final do romance, as pessoas voltam a ver. Contudo o médico apresenta sua visão dessa situação vivida: «Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem» (ESC, 310).
Aí está, uma vez mais, uma cidade que pode ser qualquer cidade."

"Referências Bibliográficas
CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. 2.ª ed. Trad. Diogo Mainard. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
DOCUMENTÁRIO Janela da Alma de Jaó Jardim e Walter Carvalho, 1999.
GOMES, Renato Cordeiro. Cartografias Urbanas: representações da cidade na Literatura. In. SEMEAR (Edição eletrônica).
WWW.letras.puc-rio.br — Acesso em 14 de janeiro de 2008.
SARAMAGO. José. Memorial do Convento. 7.ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989.
SARAMAGO. José. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SARAMAGO. José. As Intermitências da Morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
NOTAS
1. Depoimento presente no documentário Janela da Alma de João Jardim e Walter Carvalho, 1999.
2. GOMES, Renato Cordeiro. Cartografias Urbanas: representações da cidade na Literatura.
3. Idem. Idem. p. 3"

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Novas aquisições descobertas na mercearia/alfarrabista em Óbidos





Colóquio Letras #88 - Novembro de 1985 (edição Homenagem a Fernando Pessoa) - Texto de Luís de Sousa Rebelo "José Saramago: O Ano da Morte de Ricardo Reis", páginas 144 a 148

Colóquio Letras #120 - Abril/Junho de 1991 (História, Ficção, Tradução e outras Interpretações) - Texto de Helena kaufman "A metaficção historiográfica de José Saramago", páginas 124 a 136

Escrita e Combate -Textos de Escritores Comunistas - Edições Avante 1976
Conto de José Saramago "O Embargo", páginas 217 a 228




"Da Justiça à Democracia, passando pelos sinos" intervenção de José Saramago (02/2003 - Fórum Social Mundial de Porto Alegre)

"Da Justiça à Democracia, passando pelos sinos" 
Intervenção de José Saramago (02/2003 - Fórum Social Mundial de Porto Alegre)

Menção para a académica Eula Carvalho Pinheiro que recuperou este discurso



"Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século 16) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. “O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”, foi a resposta do camponês. “Mas então não morreu ninguém?”, tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.”

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido… Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo…

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objectivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e acção social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aqueles trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização econômica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros “comissários políticos” do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os de certas conhecidas minorias eternamente descontentes…

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor."

"A Viagem do Elefante" Álbum de BD criado por João Alves no Plano Nacional de Leitura



Salomão e o cornaca, seu companheiro de viagem


"É com imensa satisfação que declaro, a quem possa interessar, que descobri que o meu mais recente trabalho, a adaptação para banda desenhada de A Viagem do Elefante, de José Saramago, a exemplo do que já acontecia com o livro, também já faz parte da lista de obras do programa Ler +, integrado no Plano Nacional de Leitura."
Palavras de João Amaral no seu blog aqui, 



Todas as obras podem ser consultadas neste link, aqui

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

"Los compromisos, todos" Entrevista de Débora Quiring (la diaria do Uruguai) a Pilar del Río e Miguel Gonçalves Mendes (23/08/2013)

A entrevista do "la diaria - Montevidéu - Uruguai, pode ser consultada e lida, aqui

Por Débora Quiring, em 23 de Agosto de 2013


Pilar del Rio y Miguel Gonçalves Mendes. / foto: Javier Calvelo

"Los compromisos, todos"

"Con Pilar del Río, viuda de José Saramago, y el cineasta Miguel Gonçalves Mendes.
Hace un par de años pudimos ver en la pantalla al mítico Premio Nobel de literatura José Saramago junto con su gran compañera y traductora, Pilar del Río, en una película documental llamada José y Pilar, del portugués Miguel Gonçalves Mendes (que se presentará mañana, a las 17.30, luego de una mesa redonda, en Cinemateca Pocitos). Actual presidenta de la Fundación José Saramago, Pilar del Río realizó junto con el cineasta una gira por Brasil, Argentina y Uruguay. Hoy será declarada Visitante Ilustre de la ciudad de Rocha. Además, se reunió con el presidente, José Mujica, y dio una charla abierta en la sede del Frente Amplio sobre los cruces entre cultura y política."


-Saramago dijo que se podría haber enamorado de la mujer del médico de Ensayo para la ceguera. Aunque, en otro tono, viendo el documental, Pilar podría tener algo de ella entre la agenda, los viajes, las traducciones.

Pilar del Río: -Saramago jamás en su vida se inspiró en situaciones personales para ir a su novela. Él hablaba de los conflictos del mundo que le parecían interesantes, de sus preocupaciones y obsesiones, y luego incluía personajes que le fueran útiles para ese fin. Pero nunca se basó en personajes concretos. 

Miguel Gonçalves Mendes: -Hay una escena en La balsa de piedra de la que José decía que era semejante a cuando vio a Pilar por primera vez: la sensación que tuvo cuando la vio y no sabía quién era. 

PDR: -Pero no está basado en eso. Él vivió una situación personal, y como en esa época estaba escribiendo La balsa de piedra, él reproduce el momento en que nos encontramos con otros personajes, otros momentos y otras situaciones, pero sin las sensaciones. 

MGM: -¿Y no cree que la fuerza de la mujer del médico puede estar un poco inspirada en usted? 

PDR: -Es que Saramago decía que sus personajes no eran reales, pero que quería que las mujeres nos pareciéramos a sus personajes. Él valoraba mucho el papel de la mujer, que ha sido doblemente ignorada a lo largo de la historia: por la historia en general y por los hombres en particular. De hecho, en sus libros las mujeres son los personajes fuertes, mientras que los hombres son melancólicos, solitarios, tienen dificultades de comunicación; las mujeres son mucho más lanzadas, más abiertas, hacen cosas por los demás, y son capaces de vivir la belleza, la armonía, aunque sea una empleada de hotel, como es el caso de Lidia [personaje de Claraboya].

-Se podría decir que tanto el compromiso social como la exigencia estética son constantes en su obra. Era el tipo de hombre íntegro que uno no imagina como un personaje. ¿Crees que ahora el mito empieza a primar sobre él?

PDR: -No. El Saramago que vivía era exactamente igual al hombre que escribía, como se puede ver en la película de Miguel. Y ahora se ha convertido en el escritor que ya no está, porque ha muerto, pero sus libros sí están y con ellos los lectores siguen teniendo una relación. Pero no es un hombre mito, es un hombre muy de carne. Y si alguna vez alguien tiene la tentación de convertirlo en un mito, que vea la película de Miguel Gonçalves Mendes. Es un hombre cercano, es como uno de nosotros, pero escribía maravillosamente bien. Su objetivo era hacer de la literatura vida, y lo consiguió. Su vida no es literatura, sino una vida muy cercana a la nuestra, y por lo tanto la podemos incorporar a nuestra propia vida. Por eso es maravilloso leerlo después de haber visto la película de Miguel.

-Cambia la percepción.

PDR: -¿Te gustó?

-Sí, me gustó mucho. Más allá de la fotografía y los cuadros, es una buena oportunidad de conocer la intimidad de un escritor. Sería distinto si tuviéramos más documentales así...

PDR: -Aquí los personajes se destruyen, y me parece estupendo. Imagínate si tuviéramos esto de Tolstoi, de Proust, de Kafka, de Joyce, de Onetti o de Borges. Habrá algunos escritores que digan que esto no es necesario, que lo importante es la obra. Pero si nosotros no queremos reducir la obra al nombre del escritor, tenemos que conocerlo de cuerpo entero. Hay muchos escritores que son muy citados y muy poco leídos. Entonces, hay que leer la obra. Pero una forma de vincularte a ella es conociendo al escritor; no mediante la interpretación de un actor maravilloso -como en el caso de Tolstoi en La última estación-, pues entrando en su vida de esa manera es muy difícil ver a ese escritor como un hombre. Va a ser un hombre completo que escribe libros, y que se leerá de otra manera.

-Y sobre todo sorprende el compromiso de Saramago...

MGM: -Sobre todo, el compromiso con el mundo, con nosotros, además de su grado de generosidad. Incluso en la película le preguntan cuál es la tarea de un escritor, y él dice que es escribir, como es obvio, pero agrega la de intervenir en la sociedad como ciudadano. Tanto José como Pilar intentaron transformar este mundo, que es una mierda, en algo un poco mejor. Hay mucha gente que dice -y yo concuerdo absolutamente- que, a través de sus libros y de su compromiso público con el mundo, José terminó siendo la voz de los que no la tienen.

-Saramago no sólo escribió sobre la muerte de Benedetti, sino que además mandó una carta a Julio María Sanguinetti en 1999 en la que le pedía que colaborara con Juan Gelman. Tuvo un fuerte compromiso con la realidad latinoamericana desde siempre...

PDR: -Saramago era muy de su tierra, de su pueblo; era de Portugal y escribía en portugués, pero era universal. Y uno de los lugares en los que mejor expresaba esta universalidad era en este continente, donde él se sentía como en casa. Él decía que llegó a México llamándose Saramago y que allí ganó un nombre, porque salió siendo José. Estaba muy vinculado a los escritores de nuestra América, a las universidades, a los lectores y a las situaciones políticas, que siempre denunció o aplaudió, dependiendo del caso. Por ejemplo, se tomó un avión para venir a la toma de posesión de [Ricardo] Lagos, cuando, después de mucho tiempo, un socialista ocupa el lugar de [Salvador] Allende. Había ido antes a Chile para denunciar los abusos contra los mapuches y los aymaras, a quienes estaban desalojando de sus tierras. También denunció el tráfico de drogas durante la creación de nuevas autopistas y la pena de muerte en Cuba. Y aplaudió las buenas iniciativas del continente.

-Dijiste que querías hacer un “retrato humano”, que pasó de ser un pequeño proyecto a un trabajo de cuatro años.

MGM: -Bueno, ya tenía en la cabeza que duraría un año, pero para que aceptaran... 

PDR: -Para engañarnos. Todo empezó como una mentira. 

MGM: -Más o menos. Les dije la verdad: quería hacer una película intimista y un retrato sobre la relación de la pareja. A todo esto José me contestó que no sería posible, que su intimidad era su intimidad, pero que si quería trabajar sobre su trabajo, estaba bien. A partir de ese momento acepté esta propuesta, y así fue como comenzó todo. Al final, no tardó ni una semana ni un año, sino cuatro años.

-¿Cómo se fue dando la convivencia?

PDR: -Fue muy buena. Al principio venían muy poco, después fueron aumentando la frecuencia, e incluso terminaron quedándose en casa. Por lo que cada vez tenían más confianza y comenzaban a dejar más ceniceros sucios y más cables por el suelo... Ahí, yo montaba en cólera, y por eso en algunas entrevistas se me ve tensa -además de estar sin maquillaje y fea porque no estaba cuidando el plano de la cámara-: yo estaba respondiendo y veía que José iba a pasar por el medio de todos los cables, que no los iba a ver, y que se podía caer. Eso fue dramático, pero nunca me hicieron caso. Lo cierto es que estuvieron muy bien y los fuimos integrando a la familia. 

MGM: -Yo siempre sostengo, en el trabajo en general, y sobre todo en el mío, que si tú quieres llegar al alma de la verdad es necesario el tiempo. Yo no puedo preguntarte ahora, en cinco minutos, cómo es tu relación con tu padre. Me darías una respuesta simpática y educada, pero que probablemente no sería cierta. Por eso yo creía que lo más bonito, lo que nos distingue de los demás, son las pequeñas cosas: nuestros gestos, nuestras pequeñas esquizofrenias. Para esto es necesario tiempo, y por eso mismo yo había pensado que la grabación de la película se extendería cerca de un año. Este tipo de retrato es como si se convirtiera en una relación de seducción: tú vas seduciendo a la otra persona -no en el sentido amoroso, sino en el relacional-. Por eso al inicio sólo grabábamos eventos públicos: para no resultar tan agobiantes. Y después ellos me vieron llorar en los aviones, porque le tengo pánico a volar, y cenábamos y viajábamos juntos por seis o siete meses. Al volver a Lanzarote, algo que ellos dos siempre habían dicho que no iba a ocurrir, grabar dentro de la casa, ocurrió. Por lo tanto, me quedé muy contento. Y de hecho, si esta relación no se hubiera creado entre nosotros... 

PDR: -No estaríamos aquí. 

MGM: -No estaríamos aquí. Y la película no sería la misma, ya que la película está hecha sobre un documental de la relación que se establece, que necesita ser grabado y alguien que lo haga. Hacia el final, incluso, José siempre decía: “Bueno, ahora que termina la película, no se qué vamos a hacer. Pilar te va a extrañar, porque tú eres nuestra sombra. Toda la familia te conoce y estás en todas las comidas y en todas las fiestas”. Aunque aún lo sigo estando, ¿no? 

PDR: -Sí, pero poco.

-¿Por qué decidiste acercarte a José y a Pilar? En 2004 habías filmado Autografía, sobre el pintor y poeta Mário Cesariny.

MGM: -Y muchos años antes había hecho un documental sobre las relaciones entre Portugal y Galicia, y la palabra ciudad y todo eso. En esa oportunidad, le pregunté a Saramago si podía grabar un pequeño off para el documental, en un pequeño convento rodeado por desierto. Cuando aceptó, me puse súper nervioso; no sabía si el micrófono funcionaba o no, y, bueno, cuando a los años decidí hacer el documental, me contacté con ellos. Entre el primer no y el sí final, pasaron alrededor de cuatro o cinco meses. Esa película a la que te referiste, Autografía, es un retrato intimista y humano de Mário Cesariny. Desde niño soy seguidor de José: leía sus libros en orden cronológico e, incluso, el otro día me acordaba de que de hecho mi formación humanista, y de alguna manera política, ha sido construida con base en José Saramago. Y creo que esto es muy importante, porque de alguna forma me cambió. Por esto mismo, yo tenía una gran curiosidad respecto del personaje, y en ese entonces surgieron variados reportajes y ensayos sobre su pensamiento literario y político, pero no desde una perspectiva personal, como puede ser su día a día o cómo veía el mundo. Ahí radicaba una cosa de la que muy poca gente hablaba, excepto él, que era la importancia de Pilar en su propia vida. Y esto es algo muy claro, no sólo en las dedicatorias de sus libros, sino también en la afirmación constante de su amor por ella. Hay una inclusión muy buena en el libro, en el que se dice que hay una especie de gratitud hacia Pilar, y Pilar responde: “Puedes poner todo: gratitud y amor”. Porque es verdad que hay un José antes y un José después de ella. De hecho, José decía que Pilar le había traído juventud y que lo había convertido en una persona más abierta. Y si bien no lo conocí antes de la relación con Pilar, realmente creo que era así. De ahí surge la necesidad de retratarlos a los dos. Y también porque en Portugal hay un refrán que dice que de España no viene ni buen viento ni buen casamiento, como si todo lo que viniera de ahí fuera malo; y esta pareja era la prueba contraria de ello.

-Siguiendo un poco con todo esto, ahora en San Sebastián se presenta una película sobre El hombre duplicado. Meirelles editó Blindness, y está en proceso El evangelio según Jesucristo. Saramago no quería que sus libros fueran al cine. ¿Cómo crees que viviría estos procesos?

PDR: -Saramago dijo eso hace 20 años...

-Y se terminó emocionando hasta las lágrimas con la película de Meirelles...

PDR: -Claro. Él respetaba mucho el cine y decía que había que escribir para el cine, que no se podía adaptar lo demás. Y cuando se llevaba era malo; por eso se negaba. Hasta que un día le dijeron que se podían extraer situaciones de un libro y con varias de ellas hacer una ópera; eso fue lo primero. Y cuando se realizó la ópera, le encantó. Luego, la Scala de Milán y varios alemanes realizaron cinco óperas más. Él pensaba que llevar situaciones de los libros a la ópera era lo bueno, no la reproducción de los libros mismos, ya que no se puede incluir la voz narradora y la imagen narra de otro modo. Después, indudablemente le gustó mucho la película de Meirelles, rodada aquí, en Montevideo, y también le gustaron otras, aun cuando le parecieron excesivamente fieles al libro. Él pedía que no fueran fieles al libro, sino que el libro fuera leído para intergrarlo y olvidarlo, y luego hacer la película basándose en lo que les quedara. A mí esto me parece muy generoso por parte de Saramago: nunca quiso participar de un proceso de adaptación porque creía que era entrometerse con la mirada de otro autor. Miguel va a hacer El evangelio según Jesucristo. 

MGM: -Decía que le costaba ver la cara de sus personajes. Y, de hecho, eso pasa... 

PDR: -Pero cuando a Blimunda [personaje de Memorial del convento] la interpretó en la Scala de Milán una sueca de dos metros -cuando todos nos imaginábamos a Blimunda buena y bajita-, esa cantante sueca, rubia y alta como una orquídea, representó a Blimunda en nuestros sueños para siempre. Ya no puedo ver a Blimunda de otra manera. Y para mí, la mujer del médico [en 
Blindness] es Julianne Moore, buscando por todos lados con su pelo rubio recogido. O sea que no importa verles las caras a los personajes, si los personajes son buenos.

-“Él escribe, yo traduzco. Él corrige, yo corrijo”. Pasaste de ser su traductora y compañera a presidenta de la Fundación. ¿Cómo viviste el cambio de roles, si es que ese cambio existió?

PDR: -Es que no cambié: sigo traduciendo y organizando agenda, ya no la de José Saramago, pero sí la mía y la de la Fundación. Se puede llevar todo para adelante. Sabes, además, que es un trabajo privilegiado. Aunque ocupe muchos días y genere mucha angustia -además de pensar que no se llega y de tener muchas incertidumbres, pues no sabes si lo harás bien o no-, nunca se debe bajar la mira. Y ése sí que es un trabajo duro.

-¿Cuáles han sido los cambios más significativos después de la muerte de José (no Saramago)?

PDR: -No ha habido cambios. Una persona acaba de publicar en Twitter que visitó la casa de Lanzarote esta mañana. La gente espera que aparezca Saramago en cualquier esquina. La Fundación está llena de la fuerza y el dinamismo de José Saramago. No está el hombre que nos ayudaba, que escribía libros, que tenía la última palabra sensata, pero la fuerza y las ideas que él defendía, la manera de estar en la vida que él tenía, es lo que mantenemos con un espíritu que no se rinde. Estamos levantados del suelo permanentemente.

-Miguel te dice que no sabe cómo logras trabajar tan duro... ¿Has bajado el ritmo?

MGM: -Yo siempre digo en broma que Pilar bebió la poción de Astérix, aquella que tenía una cuestión para la hiperactividad. Pilar no sólo la tomó cuando niña sino que además se cayó adentro. Por mi parte, lo que puedo decir es que la energía de Pilar es altamente contaminante. Creo que de alguna manera los dos han logrado eso en relación con el mundo que los rodeó. Decían que era muy estúpido, muy burgués y muy inmoral quedarnos llorando y pensando que nuestro país o que la vida es una mierda. Pues si es así, hay que comenzar a pensar cosas para cambiarlo. Después de la película, ésta ha sido una de las cosas que más me cambiaron. Yo tenía un problema, que probablemente es transnacional: tenía pena por mí mismo. Hay mucha gente peor que uno, por lo que si hay que hacer algo, hay que hacerlo ya. Pilar transfiere esa energía y uno se transforma. Si por mí fuera, Pilar sería presidenta.

-Esta gira que vienen haciendo se parece mucho a la agitada agenda que llevaban con Saramago, ¿cuál es el propósito?

MGM: -Pasarlo por la reserva, es un poco de rigor decirlo. Pero de alguna manera es eso. Yo no gano nada con la proyección de mi película acá, pero creo que es muy importante que en Uruguay se vea este trabajo, que tengan una hipótesis de lo que José y Pilar eran. Pasé cuatro años trabajando en algo que quiero que se vea. El otro día, en una entrevista, Pilar decía que se había muerto José, pero que Saramago seguía vivo. Y ahí está, en la película, en sus libros. Y lo que nosotros hacemos es continuar su memoria. 

PDR: -También se está presentando el libro José y Pilar, y vinimos a hablar de él, de la obra de Saramago y de nuestras experiencias. Hacemos esto porque vivimos en una sociedad de imágenes. A mí me parece bien que exista el Día del Libro, el día de Cervantes, el día de Camões. Saramago es un autor muy reciente y muy contemporáneo, muy necesario por todas las movilizaciones y cambios que se están dando en el mundo. En fin, nosotros venimos a presentar el libro de Miguel a la proyección de la película, a hablar sobre Saramago y a recordar que Ensayo sobre la ceguera está ahí. Y que Ensayo sobre la lucidez, que es el libro del empoderamiento de los ciudadanos, es una gran novela. Si en Memorial del convento las voluntades juntas hacían volar una máquina, en Ensayo sobre la lucidez las voluntades activas y juntas son capaces de vencer al enemigo, que condena a millones de seres humanos en el mundo a ser sujetos descartables. Pues eso lo podemos cambiar si queremos.

-Es interesante que en el documental digas que las personas que no se vinculan con alguna tarea práctica se van alejando de la vida...

PDR: -Bueno, alguien que no realiza tareas prácticas, que no sabe organizar una casa, que no escucha el llanto, el clamor de la sociedad, vive en una burbuja. Si cuando sales de tu casa para ir al trabajo pasas por un pasillo de seguridad, si te llevan en un helicóptero a un avión, y de ese avión a un helicóptero... Estoy hablando del poder, del presidente de Estados Unidos, por ejemplo. Qué saben los poderosos del sufrimiento, de la angustia del padre y la madre que tienen cuatro hijos y que han agotado a vecinos, amigos y familiares, y que por lo tanto no tienen nada para que les fíen. Qué saben de esa angustia de salir a ver si hay un cartón mientras los niños lloran. ¿Lo saben realmente? Pues yo te digo que un tío que no baja a la casa, que no les da de comer a esos niños, que no se encuentra con que no hay agua cuando los va a bañar, que no se encuentra con que hay agua fría o con que directamente no sale o con que le cortaron la luz, no sabrá gobernar. Mientras tanto, no sabrá gobernar, sea Clinton, Obama o el papa.

-¿Y José Mujica...?

PDR: -El presidente de Uruguay es un caso distinto. Afortunadamente no ha pasado todavía en el mundo que digan que es pura demagogia, quizá porque Uruguay está aquí y tiene pocos habitantes, y porque realmente el hombre se ha impuesto con seriedad y rigor. Pero vamos, que no rompa las barreras del sonido, porque si lo hace el sistema le caerá encima. Y es lo que a los buenos, a los nobles, a los trabajadores y a los santos -laicos- les dicen siempre.

-Con respecto a tu actitud de no rendirte y a tu profesión de periodista, ¿cómo ves el periodismo actual?

PDR: -Muy mal. Como la sociedad. Lo veo desmantelado, huído. Las empresas mandan demasiado, y muy pocas empresas controlan muchos medios, tienen mucho poder. Los periodistas tenemos una cosa que se llama conciencia y a la que nunca hemos renunciado, incluso en las dictaduras. O sea que también es verdad que los periodistas podíamos ser un poquito más militantes, no te digo políticos, pero sí del periodismo. Y escribir no con el criterio del patrón, sino con el criterio de uno mismo y de lo que tiene que defender, porque esa reputación es lo que le va a dar de comer o a quitar la comida. Yo creo que nos adaptamos y un poco nos volvemos serviles todos, ya sea en la sociedad o en el periodismo, como sociedades colectivas o como grupos pequeños, se trata de sobrevivir. En líneas generales, el periodismo le está haciendo daño a la sociedad, porque plantea asuntos distintos y porque justifica asuntos injustificables. Si esta profesión sirve para justificar y para decir que el neoliberalismo es la única salida y que el mercado regula la democracia y que fuera del mercado no hay nada, el periodismo no sólo está traicionando a la verdad sino que además le está haciendo un flaco servicio. No está informando, está adoctrinando.

Débora Quiring