Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 14 de junho de 2016

"Nem preciso de Deus" - Entrevista de Alexandra Lucas Coelho publicada no suplemento Mil Folhas (jornal Público - 11/11/2000)

A fotografia da capa desta edição, foi posta em destaque na página do Facebook da Fundação José Saramago, aqui em https://www.facebook.com/fjsaramago/?fref=nf

"A capa do saudoso suplemento Mil Folhas do jornal Público de 11 de novembro de 2000, onde se publicava uma entrevista dada por José Saramago a Alexandra Lucas Coelho por altura da publicação de "A Caverna".
A ilustração da capa é de André Letria." - Fundação José Saramago

A entrevista pode ser consultada e recuperada, aqui
Publicada no suplemento Mil Folhas (jornal Público - 11/11/2000)

"Nem preciso de Deus" - Alexandra Lucas Coelho

"O primeiro romance de Saramago pós-Nobel não chega a ter matéria de incómodo. Talvez no próximo, "A Viagem do Elefante", regresse à insurreição com que fala, por exemplo, de Deus.

Só por ordem médica o Nobel José Saramago desistiria de viajar. E como aos quase 78 anos (cumpridos no próximo dia 16) continua seco e saudável, entre Nova Iorque e Santiago do Chile deu um pulo a Lisboa esta semana. Os 50 mil exemplares do seu novo romance acabavam de ser impressos, a tempo de chegarem dia 15 às livrarias, e havia que acertar os pormenores do lançamento nacional e internacional - directos pela Internet, digressões por Espanha, etc. 
Sendo que a ideia de "A Caverna" já vem de antes do Nobel, ao fim de três anos e de umas tantas voltas ao mundo, eis finalmente o romance - afinal escrito em apenas seis meses, os primeiros de 2000. Um recorde pessoal de quem queria mesmo acabar antes do fim do século. "A única pressão era essa, escrevi-o no mesmo estado de espírito dos anteriores. Não tinha que provar que era capaz de fazer outro livro." 
De resto, o próximo, entre uma digressão e outra - "não consigo dizer que não" - já tem nome: "A Viagem do Elefante", a ser escrito logo que Saramago termine duas encomendas menos morosas: uma história policial, para o Brasil, e o prefácio de um volume da Bíblia, a sair em Itália. 
Na Alegoria da Caverna segundo Saramago, uma família de oleiros representa o exterior humano e artesanal de um Centro (nunca se escreve comercial, mas o autor tem-lo dito) com muralhas altas e janelas que não se podem abrir (para evitar suicídios incómodos). 
Estamos longe da intensidade (e da ideia) de um "Ensaio Sobre a Cegueira", a obra que abre, diz o autor, a "trilogia involuntária" que "A Caverna" vem fechar - no meio está "Todos os Nomes" -, constituindo uma "espécie de visão do estado da humanidade". 

PÚBLICO - "A Caverna" não é propriamente uma descida aos infernos. Em relação ao "Ensaio Sobre a Cegueira", em que o autor nos coloca dentro do horror, aqui estamos sempre de fora, e quando entramos, saímos logo, como os protagonistas, aliás. 
JOSÉ SARAMAGO - Saiem, mas sabem que o que faziam [a olaria] já não serve a ninguém e que o futuro é incerto. Essa saída faz-se pelo amor, duplamente, o de Marçal e Marta, o de Cipriano e Isaura. O amor construído a pouco e pouco, que tem medo de ser. Mas é efectivamente um livro cheio de ternura.

Que tempo e lugar tinha na cabeça?
Pode ser o nosso tempo. Não houve nenhuma catástrofe nuclear nem ecológica. Aquele rio está podre, mas não faltam rios podres... o lugar concreto que tinha na cabeça é a minha própria aldeia [Azinhaga, concelho da Golegã], o rio da minha aldeia que cheira mal que tresanda... com as fábricas que despejam todas as imundíces. E há esse mundo que se extingue, que tem como paradigma a olaria.

Em vez do Centro, da Caverna, o autor opta por detalhar aquela vida artesanal, aquela humanidade arcaica.
Foi talvez a própria história que o determinou. Dei-me conta que havia qualquer coisa ali que se destingue do "Ensaio...", de "Todos os Nomes".

Como se a sua visão amarga e pessimista se tivesse suavizado?
Não, não penso melhor do mundo do que quando escrevi o "Ensaio...", nem haveria razões para isso. Digamos que aquela gente merecia outro tratamento. É uma espécie de piedade, que não é auto-comiseração, mas piedade pelo ser humano, que é tão frágil. Mas o autor tem a consciência de que nunca vivemos tanto na Caverna de Platão como agora. Acho que o Platão escreveu o livro sétimo da "República" para nós. É que as pessoas estão tão contentes de ser aquilo que são... E sem querer chocar ninguém, estão a ser tão pouca coisa que não creio que seja "A Caverna" que os vai iluminar, provavelmente necessitariam de um choque mais violento, um choque com os seus próprios interesses. Vivemos em plena egonia, é o egonismo não só dos que têm, mas dos que fazem de conta que são ricos. Andamos no fingimento.

Na disputa de poder interno, o PCP é um partido como os outros

A ilusão da Caverna. E qual é a alternativa?
O caminho da participação, da indignação, uma insurreição ética. Os partidos políticos, particularmente os de esquerda, deveriam meter os seus programas numa gaveta e pôr na mesa e na prática uma coisa tão simples como a carta dos direitos humanos.

Nessa lista incluía o PCP?
Evidentemente.

É o seu partido, ultimamente rasgado por debates internos que têm a ver com liberdades tão básicas como a de expressão.
O que está em debate no PCP é que há uns que se anunciam assim e outros que se anunciam assado e, como é normal em qualquer partido, uns pretendem retirar os outros para ocuparem o seu lugar. Nesse plano, o da disputa do poder interno, o PCP é um partido como outro qualquer. Mas não está a acontecer nada de extraordinário, tudo isto se passou noutros partidos comunistas. As coisas vivem, têm um tempo, corrompem-se, fragmentam-se. O unanismo não é possível. Costumo dizer que não deixo o meu partido sobre a condição de que o meu partido não me deixe a mim.

O partido deixá-lo significa o quê?
Deixar o partido de ser o que é, aquilo que me fez entrar nele. Mas não vejo outro onde pudesse estar. Se o partido me deixar, não vale a pena virem-me com cantos de sereia. Se houver essa mudança, que pode acontecer, não me verão noutro. O PCP nem sempre me tratou bem, mas não vale a pena levantar agora a crosta das feridas.

Porque estão saradas?
Saradas estão, mas esquecidas não.

Há uma pergunta, que calculo que para si seja particularmente incómoda, que tem a ver com o livro de Carlos Brito.
Qual livro de Carlos Brito?

O livro que a sua editora, a Caminho, recusou e que foi publicado agora na Campo das Letras.
Nada a dizer. Não sei nada. Não conheço a história.

Sente-se longe, Portugal não é a sua casa?
Não é a minha casa mas é o meu país. Sinto-me um português... pago os meus impostos aqui, se isso interessa a alguém... o que me dói é que esta terra tenha deixado de sonhar.

Imagina-se a voltar?
Creio que não. Mas mesmo lá [em Lanzarote], as coisas não são tão fáceis. Agora estão a chegar às Canárias clandestinos de África, e desenvolvem-se movimentos racistas, xenófobos, contra os quais protestei. E no outro dia, em Las Palmas, houve uma manifestação em que se gritava: "Saramago vai-te embora!".

E o senhor vai?
Não. Mas eu venho cá quase todos os meses, e sou apenas um dos muitos que vivem longe... o Jorge de Sena estava longe, o Rodrigues Miguéis também, o Eduardo Lourenço está longe, e alguns eventualmente não estão longe porque não podem, ou não encontraram razão para isso. Eu não faço tanta falta, e a que faço satisfaço-a escrevendo, em português.

O que está a escrever?
Vou escrever um prefácio para um dos livros da Bíblia, uma edição italiana, em volumes. Para uma colecção da Companhia das Letras, brasileira, vou fazer uma história policial com uma figura literária, escolhi o Alexandre Dumas. Há ainda "O Livro das Recordações", que afinal se chamará "O Livro da Lembrança", tenho que voltar aos "Cadernos de Lanzarote", que só interrompi para que não fosse um relato contínuo de viagens. E nestes últimos dias, em Lanzarote, apareceu-me uma ideia para um romance, "A Viagem do Elefante". Não quero dizer mais que o título.

"Não tenho nenhuma relação com Deus"

A propósito da Bíblia, a sua relação com Deus...
Não tenho nenhuma relação com Deus! Tenho uma relação com um texto que se chama Bíblia.

A sua tranquilidade é tanta que consiga dizer isso assim?
Total, total. Vivo tão tranquilamente com a Bíblia, como vivo com o Corão, com os Vedas, com o Talmude... são obras humanas! A Bíblia levou quatro mil anos a escrever! Se se considera legítimo, não havendo provas, que se diga que Deus existe, também se deve considerar legítimo que se diga que não. Há coisas que para mim são básicas: as religiões nunca serviram para aproximar as pessoas, pelo contrário; matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino, e assim se tem feito; se há guerras absurdas são as religiosas; se amanhã um Deus - porque se houver Deus é um único - tiver que chamar toda esta gente para lhe pedir contas, vai encontrar-se com milhares de religiões, sub-religiões, seitas, etc. E o que é que ele vai fazer? Premiar uns quantos que sejam católicos e islamistas e castigar os outros? Tudo quanto se passe em nome de Deus é pura farsa, puro engano, pura mentira, ninguém pode falar em nome de Deus, se Deus existe, não disse a ninguém nada. Não disse. Para mim não existe Deus.

E como é que se pensa na morte?
É enquanto estamos vivos que devemos pensar na morte. Qual é a diferença de pensar na morte crendo ou não crendo?

Para um crente a morte não é o fim.
Mas porque é que a morte não é o fim, se tudo tem que ter um fim? Tem algum sentido, numa galáxia tão imensa, que Deus tenha posta a sua suprema obra aqui?!!! Num planeta que tem uma história, que tem uma bola de fogo, que tem ainda fogo dentro? A vida é uma operação química de todos os dias e foi assim que começou. O milagre, a coisa genial, é que fomos capazes de inventar tudo. Até fomos capazes de inventar Deus. O que é que há fora da minha cabeça? Na minha cabeça pode estar Deus, pode estar o Diabo. Aqui [aponta para a cabeça] é que está o bem, o mal, a justiça, conceitos que transporto, aqui! E note que não sou má pessoa, nem preciso de Deus para ser boa pessoa, tentar, pelo menos. E não me tenho dado mal." 

"Catorze de Junho" poema declamado e inserido na obra de Luis Pastor "Nesta Esquina do Tempo"

Pode ser escutado, aqui via YouTube, pela voz de José Saramago

Catorze de Junho

"Cerremos esta porta.
Devagar. devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos,
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como num barco no mar, ou o pão na mesa,
Ou rumuroso leito.
Não se afastou o temo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo." 

(in Poesia Completa, Alfaguara, pág. 636-637)

O poema "Catorze de Junho" é declamado nesta obra de Luis Pastor

"Fundação José Saramago abre hoje na Casa dos Bicos para desassossegar" - Foi assim que Isabel Coutinho do jornal "Público" noticiou o evento (13/06/2012)

A Presidenta Pilar del Río e António Costa, na altura Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Fotografia de Enric Vives-Rubio

Foi assim que Isabel Coutinho do jornal "Público" noticiou o evento (13/06/2012)
O artigo pode ser aqui recuperado,
em https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/fundacao-jose-saramago-abre-hoje-na-casa-dos-bicos-para-desassossegar-1550126

"Fundação José Saramago abre hoje na Casa dos Bicos para desassossegar"  

"Uma exposição dedicada à obra e à vida do Nobel da Literatura português, parte da sua biblioteca pessoal e a do amigo Vasco Gonçalves podem ser visitadas na Casa dos Bicos. Saramago está sempre presente.

As luvas brancas que Pilar del Río traz calçadas enquanto arruma a biblioteca na Casa dos Bicos, em Lisboa, foram usadas por José Saramago numa cerimónia honoris causa. Nestes dias têm ajudado a presidenta da Fundação Saramago a transportar caixas, pendurar quadros e organizar papéis neste edifício quinhentista da Rua dos Bacalhoeiros, que durante os próximos seis anos vai albergar a sede da instituição fundada pelo Nobel da literatura português. 

"Saramago usou-as durante uma cerimónia de um doutoramento honoris causa. Espero que a universidade não se importe... Ele não se importaria, porque estão a ser usadas para a sua obra", diz a viúva do escritor durante uma vista de jornalistas à casa que, em 2008, foi cedida à Fundação Saramago pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) por dez anos. Ali decorrem os últimos preparativos para a abertura ao público, marcada para hoje.

A cerimónia oficial de inauguração realiza-se às 11h30, com a participação do presidente da CML, António Costa. Por constrangimentos de espaço, é destinada apenas a convidados e à comunicação social, mas a Fundação José Saramago abrirá as portas ao público à tarde, entre as 14h e as 16h. 

Na cerimónia será apresentado um vídeo em que o autor de "História do Cerco de Lisboa" fala dos objectivos da fundação. Além dos discursos oficiais, falará o espanhol Fernando Gómez Aguilera, comissário da exposição "José Saramago. A Semente e os Frutos", que ocupa o primeiro andar da nova Casa dos Bicos, cujas obras de readaptação foram feitas pela dupla de arquitectos Manuel Vicente e João Santa-Rita.

A Casa dos Bicos, que tem uma importante jazida arqueológica a nível subterrâneo, abrirá todos os dias úteis das 10h às 18h e, aos sábados, das 10h às 14h. Em Junho, a entrada é grátis, depois passa a ser paga: o bilhete custará três euros para os portugueses e "entre cinco e seis euros" para os estrangeiros. A fundação vai viver dos direitos de autor da obra do escritor, que morreu a 18 de Junho de 2010, e do trabalho que se for fazendo nesta instituição, que assume como norma de conduta, nas suas actividades, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e que tem por missão dar particular atenção aos problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta. 

"Não temos qualquer outro apoio oficial e os tempos estão difíceis para conseguir mecenato. Por isso, o público vai ter de pagar entrada", explica Pilar del Río.

Parte da biblioteca pessoal de Saramago está agora guardada neste edifício, e será possível aceder ao resto dos seus livros (o essencial continua na sua biblioteca em Lanzarote), a partir de equipamento electrónico. A Casa dos Bicos tem ainda disponíveis áreas de trabalho para investigadores que estejam a estudar e a organizar o espólio. No terceiro andar, além da biblioteca e do auditório existe um espaço dedicado ao político e ex-primeiro-ministro português Vasco Gonçalves (1922-2005). 

A presidenta da fundação explica ao PÚBLICO que não irão existir outros espaços "porque José Saramago já não está cá para decidir, e também não caberiam mais". Saramago e Vasco Gonçalves eram amigos e o escritor respeitava muito o político e não queria que a sua biblioteca se dispersasse depois da sua morte. "Colaboraram juntos algum tempo, e José considerava-o um ser humano de uma qualidade extraordinária. Ele não queria que a biblioteca de Vasco Gonçalves - ainda por cima são os seus livros anotados - se dispersasse por respeito a um homem fundamental na revolução democrática e que foi muito mal interpretado por interesses muito concretos", afirma Pilar del Río.

No primeiro andar, Ana Saramago Matos, neta do escritor, está ocupada com os acabamentos da exposição "José Saramago: a Semente e os Frutos", que hoje abre ao público e que nasce da mostra "A Consistência dos Sonhos", que em 2008 esteve no Palácio de Ajuda em Lisboa, e também teve a curadoria de Fernando Gómez Aguilera, presidente da Fundação César Manrique, em Lanzarote. Essa exposição foi agora adaptada e ajustada ao espaço de exposições da Casa dos Bicos. A Semente retrata o início do percurso literário de Saramago, desde as suas origens na aldeia ribatejana da Azinhaga, com a evocação dos avós Josefa e Jerónimo, passando pelos anos de escrita jornalística e de militância cívica e política. 

A máscara de Beethoven

José Saramago costumava dizer que não se pode fazer nada sem se ter lido. Por isso a exposição inicia-se com as traduções que fez ao longo da sua vida, entre as quais a da obra "Ana Karenine". Os "frutos" referidos no título da exposição estão patentes nos manuscritos, nos livros em diferentes línguas e na consagração trazida pelo Nobel de 1998. A máscara branca de Beethoven de que se fala em Claraboia (Caminho) está pendurada na parede. Quando tinha vinte e tal anos, José Saramago passou por uma montra e viu uma máscara de Beethoven e não a comprou porque era cara. "O que é incrível é que aos setenta e tal anos Saramago foi a Bona, à cidade natal de Beethoven, encontrou a tal máscara e comprou-a", conta Pilar aos jornalistas entre as vitrinas com cadernos de notas, agendas em que o escritor organizava o dia-a-dia, cartas e fotografias com amigos de todo o mundo. Pode ver-se ainda a reconstituição do primeiro escritório onde Saramago escreveu, que era também um dos núcleos da exposição na Ajuda, e há equipamento de áudio com entrevistas, discursos e ainda vídeos. Tal como acontece na casa-museu em Lanzarote, a Casa dos Bicos tem uma loja onde os visitantes podem comprar livros de José Saramago em várias línguas e artigos com a marca da instituição.

A Fundação Saramago na Casa dos Bicos quer ser um centro emissor de ideias, debates, polémicas. "José Saramago dizia que escrevia para desassossegar. Nós estamos aqui para desassossegar também. Aquilo que as pessoas têm de encontrar aqui, e que temos de ser capazes de lhes dar, é o espírito de Saramago: nos papéis ou nos objectos que vão ver, mas também na dinâmica de trabalho e na programação que se faz", conclui Pilar del Río.

Notícia corrigida no dia 14/06 às 12h32, A Casa dos Bicos é um edifício quinhentista e não seiscentista

segunda-feira, 13 de junho de 2016

4.º Aniversário da abertura da Casa dos Bicos

A "Declaração de Princípios", pode ser consultada, na página da Fundação José Saramago, aqui

Declaração de Princípios

"Os objectivos da Fundação José Saramago, nesta data criada, estão enunciados com toda a clareza nas disposições estatutárias pelas quais deverá reger-se. Não têm, portanto, que ser repetidos aqui em Declaração de Princípios. Contudo, pareceu-me apropriado, na circunstância, expressar de modo pessoal umas quantas vontades (ou desejos) que em nada contradizem os referidos objectivos, antes os poderão enquadrar num todo harmonioso e familiarmente reconhecível. Não me dou como exemplo a ninguém, porém, revendo a minha vida, distingo, ora firme, ora trémula, uma linha contínua de passos que não projectei, mas que, de maneira consciente ou não tanto, me fizeram perceber que nenhuma outra poderia servir-me, ao mesmo tempo que se me ia tornando cada vez mais claro que uma das minha obrigações vitais seria servi-la eu a ela. Ter conhecido Pilar, viver ao seu lado, só viria confirmar-me que tal direcção era a correcta, tanto para o escritor como para o homem. A direcção dos grandes valores, sim, mas também a direcção das pequenas e comuns acções que deles decorrem no quotidiano e que lhes darão a melhor validez das experiências adquiridas e das aprendizagens que não cessam. O paradoxo da existência humana está em morrer-se em cada dia um pouco mais, mas que esse dia é, também, uma herança de vida legada ao futuro, que o futuro, longo ou breve seja ele, deverá assumir e fazer frutificar. Nem por vocação, nem por opção nasceu a Fundação José Saramago para contemplar o umbigo do autor.

Sendo assim, entre a vontade e o desejo, eis as minhas propostas:

a ) Que a Fundação José Saramago assuma, nas suas actividades, como norma de conduta, tanto na letra como no espírito, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em Nova Iorque no dia 10 de Dezembro de 1948.

b) Que todas as acções da Fundação José Saramago sejam orientadas à luz deste documento que, embora longe da perfeição, é, ainda assim, para quem se decidir a aplicá-lo nas diversas práticas e necessidades da vida, como uma bússola, a qual, mesmo não sabendo traçar o caminho, sempre aponta o Norte.

c) Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo.

Bem sei que, por si só, a Fundação José Saramago não poderá resolver nenhum destes problemas, mas deverá trabalhar como se para isso tivesse nascido.

Como se vê, não vos peço muito, peço-vos tudo.

Lisboa, 29 de Junho de 2007

José Saramago"




"A Noite", de José Saramago, na Feira do Livro de Lisboa - IELT-FSCH com Pilar del Río (26/05/2013)



"29ª sessão da comunidade de leitores das paisagens literárias de Lisboa
Fabula Urbis, Carmo Gergorio
IELT - FCSH, Ana Isabel Queiroz
Fundação José Saramago, Pilar del Rio
Grupo de teatro Vigilambulo Caolho, Júlio Mesquita 

26 de Maio 2013 na Feira do Livro, Lisboa.
filmado e editado por Miguel Queiroz Martinho"

"A Noite", de José Saramago, na Feira do Livro de Lisboa, onde aqui se pode ver o registo vídeo da 29ª sessão da Comunidade de Leitores de Paisagens Literárias de Lisboa realizada no 26 de Maio (2013), na Feira do Livro de Lisboa, com a participação da Fundação José Saramago e do Grupo de teatro Vigilâmbulo Caolho. Filmado e editado por Miguel Queiroz Martinho."

Informação via página da IELT (Instituto de Estudos de Literatura Tradicional) da FCSH (Facultada de Ciências Socias e Humanas) de Universidade Nova de Lisboa, aqui 

Fotografia de José Saramago caminhando pelos passeios da
Feira do Livro de Lisboa 
(não foi possível identificar a data e o autor da fotografia)

"¿Por qué leer a José Saramago?" artigo de opinião de Gonzalo Mas publicado no "Confidencial" (Managua, Nicarágua - 10/9/2013)

Artigo de opinião de Gonzalo Mas, publicado no "Confidencial" (Managua, Nicarágua - 10/9/2013)
Pode ser recuperado e consultado aqui,
em http://confidencial.com.ni/archivos/articulo/13730/iquest-por-que-leer-a-jose-saramagon

"¿Por qué leer a José Saramago?"

"Saramago fue un idealista que defendió sus ideas con solidez hasta el último día de su vida

El día 18 de Junio del 2010 escribí un artículo que nunca publiqué. Empezaba así: “Yo estoy en contra de la muerte, la considero de mal gusto. Quiero aprovechar el espacio que me brinda este periódico para  dejar claro que, a partir de ahora, todos aquellos a los que aprecie o admire que  incurran en ella, pasarán a formar parte de mi lista negra. Para su información, mi lista negra es un papel en blanco con el nombre de José Saramago escrito en él…” El día 18 de Junio del 2010  estaba rabioso y triste. Ese día moría Saramago, uno de mis escritores favoritos.

El primer libro de Saramago que leí fue “La Caverna”: Es la historia de Cipriano Algor, un alfarero de 64 años quien mantiene un estilo de vida tradicional y ve cómo la sociedad que le rodea evoluciona demasiado rápido mientras él, incapaz de adaptarse, se siente relegado.

“La balsa de piedra” es la historia, casi surrealista, de cómo la Península Ibérica un buen día se desprende del continente europeo y comienza a navegar hacia el medio del océano atlántico. El texto explica cómo una serie de personajes que nada tienen que ver los unos con los otros viven atónitos ese viaje alucinante.

Estas dos novelas inmediatamente me capturaron por el personalísimo estilo musical de sus infinitas frases y por lo entrañable de los personajes descritos en ellas.

Después leí “El evangelio según Jesucristo”. Su temática era a la vez tradicional y novedosa: El libro narra la vida de Jesucristo enfocada desde un ángulo diferente, dando especial importancia a los personajes de San José y al de María Magdalena (respectivamente el padre y la mujer de Jesucristo). La narración parecía apoyar la teoría de que la Iglesia había tratado de eclipsar la figura de María Magdalena dando una exagerada importancia a la figura de la Virgen María. ¿Por qué? Porque para la clásica iglesia, la presencia de una prostituta como la Magdalena, incomodaba. De la misma forma, incomodaba la figura de San José: Recordemos que Cristo es hijo de Dios. Demasiado José podría confundir a los feligreses. Según Saramago, para la iglesia era necesario relegar a José a un segundo plano.

Estas lecturas me hicieron caer irremediablemente a los pies del escritor portugués. Tanto es así que empecé a estudiar la lengua lusa: Quería poder leer sus libros en su idioma original. Durante cuatro años asistí a cinco horas semanales de portugués… El problema es que Saramago, como el gran escritor que era, hacía uso de una infinita variedad de vocabulario que me hacía imposible comprender completamente sus textos. Y yo no estaba dispuesto a perderme ni un ápice, ninguna sutileza del significado de sus libros.

Por otro lado, la ventaja que tenían las traducciones de Saramago al español era que él (perfectamente bilingüe en portugués y español) las supervisaba personalmente. Además, y sobre todo, la persona que llevaba a cabo esas traducciones era su esposa, la periodista Pilar del Rio: La calidad de esas traducciones parecía asegurada.

Tras la publicación de “El evangelio según Jesucristo” Saramago decidió dejar Portugal: El país, profundamente católico, no encajó bien las ideas expuestas en esa novela y Saramago decidió abandonarlo. Se fue a las Islas Canarias, en concreto a Lanzarote.

Las Canarias son unas islas hermosas. Me llamó la atención que, una vez, un compañero de trabajo las definiera como “América Latina en el primer mundo”. En cualquier caso, hace unos años fui a pasar unas vacaciones a Lanzarote. Allí acudí a la que fue la  casa de José Saramago durante los últimos años de su vida (su hogar había sido convertido en museo recientemente). Pudimos ver la hermosa casa donde él escribió muchas de sus novelas, su extensísima biblioteca y hasta la cama en la que pasó sus últimas horas.

La simpática guía que nos acompañaba nos llevó por fin a la cocina de la casa. ¿Adivinen a quien nos encontramos nada más abrir la puerta? Preparando café estaba la mismísima Pilar del Río, la mujer de Saramago, su traductora, su compañera (“Me he hecho un poco de pis de la emoción”, fue todo lo que alcancé a susurrar a mi acompañante).

Pilar del Río nos invitó a sentarnos en su mesa y compartir con ella un café. Nos explicó que Saramago siempre se quejaba de lo malo que era el café en España y que solo bebía café importado de Portugal hecho por la cafetera de la que salía el café que estábamos tomando en ese momento. (“Seguro que Saramago hubiera apreciado un buen café nicaragüense”, pensé).

Lo entrañable de los personajes, su estilo personalísimo e inigualable, la musicalidad de sus textos… Podría estar enumerando miles de motivos por los cuales les recomiendo vivamente leer a José Saramago. Pero quizás lo que más apreciaba de él era esa tendencia constante suya a ponerse del lado de los desfavorecidos, de los oprimidos. Saramago fue un idealista férreo que defendió sus ideas de izquierda con solidez hasta el último día de su vida.

Pasada la indignación inicial que su muerte provocó solo cabe, hoy, decirle una cosa: Te echamos de menos."

4.º Aniversário da abertura da Casa dos Bicos - FJS - Retrospectiva dos dias que antecederam a inauguração


Retrospectiva dos dias que antecederam a inauguração da "Casa dos Bicos", 
sede actual da Fundação José Saramago

Faltam 5 dias 

Faltam 4 dias 

Faltam 3 dias

Faltam 2 dias 

Falta 1 dia

Inauguração 

"Foram muitas as personalidades que se juntaram dia 13 de junho para a inauguração do espaço da Fundação José Saramago na Casa dos Bicos. Um novo "centro cultural", como desejou Saramago, está a partir de agora aberto ao público e à cidade."


domingo, 12 de junho de 2016

Crónica "Cataclismo, ou talvez não" (25/5/72) - "As opiniões que o DL teve"

Crónica "Cataclismo, ou talvez não" publicada no "Diário de Lisboa", sobre a capacidade do ser humano não providenciar a sustentabilidade dos recursos naturais do planeta.
Na "Declaração de Princípios" da Fundação José Saramago, e sendo este um assunto de enorme preocupação para José Saramago, pelo seu punho deixou escrito na alínea c), "Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo." (29/06/2007)
Na leitura das crónicas, "está lá tudo".
Rui Santos

José Saramago acompanhado de Betinho e Sebastião Salgado - Rio de Janeiro, 1997

"Cataclismo, ou talvez não"
(25 de maio de 1972)

"De vez em quando, e com uma regularidade que poderia levar a acreditar em revezamento premeditado, surgem vozes de alarme contra a rapidez com que se vão consumindo as reservas naturais do planeta, agravada por aquilo a que passou a chamar-se, maltusinamente, «explosão demográfica». Em regra, tais declarações são proferidas por autoridades competentes, não vezes adornadas pelo toque superlativo de um Prémio Nobel.
Veio agora o Dr. Dennis Gabor, cientista inglês distinguido com aquele prémio, avisar-nos de que a humanidade poderá ter apenas mais quarenta anos de vida, se a explosão demográfica não cessar. E que «no ano 2010, a Terra será tão paupérrima que nem os fertilizantes serão suficientes para evitar o descalabro». Sugere pois que se inicie o cultivo de plâncton, «em vez de se destruir essa extraordinária riqueza por meio da poluição». 
É possível que o Dr. Gabor tenha razão, que a tenham todos quantos, cientistas ou apenas profetas, andam pelo mundo nesta nova cruzada apocalíptica, a anunciar o fim dos tempos. Talvez haja, de facto, gente a mais, e a poluição, em todas as suas formas, ganha certamente proporções de cataclismo. Quanto aos recursos da Terra, se nos lembrarmos de que nada se pode tirar donde não haja, não custa a acreditar que se caminha para uma pauperização das fontes de energia e de subsistência que permitiram, até agora, melhor ou pior, a vida dos homens. 
Resta saber, porém, se o remédio está, como disse o Dr. Gabor, em «fazer congregar a evolução da ciência inteiramente em novas conceções biológicas», o que pode significar uma forma de planificação eugenística para «poupar a humanidade a uma crise de crescimento desmesurado». Tudo se passaria, se não interpretamos mal, como se o número de habitantes da Terra tivesse de ser cientificamente controlado em cada geração de acordo com os alimentos disponíveis, algo como o que sempre aconteceu entre as espécies animais, que têm de sofrer passivamente as flutuações da pitança e de resignar-se à redução a níveis viáveis quando a sua própria «explosão demográfica» venha a tornar-se insuportável. 
Mas o homem é o ser racional entre todos os seres que constituem a população animal da Terra. Pela razão que em si habita, libertou-se da sujeição cega à natureza e afeiçoou-a às suas necessidades. Errou muitas vezes, emendou-se e insistiu no caminho, e hoje, vivida uma história de milénios, acha-se, ao que parece, diante da possibilidade de desaparecer da face da Terra, não, como chegou a imaginar-se, através do desastre nuclear, do envenenamento radiativo, mas simplesmente, absurdamente, porque comeu tudo quanto havia para comer, ao mesmo tempo que sujava a mesa e a toalha... 
Importa pois saber (se, como se presume, não há nenhuma entidade demoníaca friamente apostada em fazer-nos desaparecer do mundo...) em que mãos se encontram de facto os destinos da humanidade. Já hoje centenas de milhões de seres humanos não comem quanto deveriam, embora os alimentos existentes bastassem para tal, se fossem produzidos e distribuídos em estrito acordo com as necessidades da humanidade. Estes males só poderão agravar-se com o aumento da população e com o desperdício das riquezas naturais, mas isto não há de significar que a «recessão demográfica» por alguns desejada se faça em termos de discriminação entre povos ricos e pobres. Pelo princípio dos vasos comunicantes, o lado «cheio» tende preencher o lado «vazio», porventura esvaziado para que isso mesmo aconteça... 

in "As opiniões que o DL teve"
25/05/1972

(NR: Bold meu)

sábado, 11 de junho de 2016

Crónica "A resistência renegada" (9/3/72) - "As opiniões que o DL teve"

Crónica publicada no "Diário de Lisboa", crítica sobre a forma como o esquecimento propositado de alguns, semeiam o branqueamento dos factos e atrocidades cometidas contra o ser humano, ou o paradigma de que se reveste a reescrita da história.
Rui Santos 

Fotografia de 1983 - Marcha pela Paz

"A resistência renegada"
9 de março de 1972

"Nas épocas de convulsão, de crise continuada, os homens dividem-se por categorias de comportamento: aqueles que vivem acima da sua própria cabeça e aqueles que vivem abaixo dos seus próprios pés. Se há uma guerra e um país é ocupado, os primeiros são os resistentes, os segundos os colaboracionistas. A massa que flutua entre estes dois extremos tem como característica principal a passividade, mas mesmo esta se partilha entre a resistência e a colaboração. Donde se concluirá, se a interpretação não é forçada, que a neutralidade é impossível e contrária à própria natureza humana, para abusar uma vez mais desta cansada expressão... 
A última guerra (referimo-nos à que ocorreu entre 1939 e 1945, não à guerra de hoje ou de ontem, aqui ou além) pôs em confronto ou ao lado dos exércitos nacionais um outro exército, sem uniformes e às vezes sem armas, que passou à História com o nome comum e heróico de Resistência. Não é exagerado dizer-se que este exército e as razões da sua existência e ação não se extinguiram nunca. Desde o fim da guerra (daquela) sempre tem havido quem ocupe e quem resista... 
Julgar-se-ia, porém, que quando a morte passasse a rasoira niveladora, deitando definitivamente os que de pé se batiam contra ou a favor da humanidade, quando o tempo assentasse as cinzas sobre as cinzas - julgar-se-ia, dizemos, que só aos vivos e ao futuro competisse a próxima luta e que aos mortos coubesse apenas a função de exemplo, para edificação das gerações. Parece, contudo, que não é assim. Os vivos lutam numa frente tão ampla que chegam a combater contra os mortos, e o que temos diante dos olhos é também uma necromaquia - se a palavra existe... Que se há de pensar, por exemplo, diante desta notícia assustadora vinda de Roma: «No cemitério de Milão foram arrancadas placas dos túmulos dos resistentes mortos pela libertação da Itália.» 
Sítios que julgaríamos serem lugares de meditação, fontes de coragem, surgem subitamente como alvo de um ódio irracional que contra as próprias pedras inertes se encarniça. Os homens que são pó debaixo daquelas pedras viraram as costas à tranquilidade, à segurança, à própria vida, porque para eles a pátria havia sido algo de concreto e realmente vital, e não um conceito abstrato, vazio de sentido, sem raízes nem sol por cima delas. E é talvez a força do seu testemunho silencioso que está desencadeando o furor daquele perigo que se suporia extinto ou, quando muito, adormecido por longo tempo. Agora se vê que a fera se move, que tenta uma vez mais a conquista do mundo, em nome dos mesmos princípios básicos da sua doutrina. 
Em Milão, arrancam-se pedras com os nomes de homens que lutaram pela liberdade da Itália, a troco de coisa nenhuma. Em Washington, os membros do Partido Nazi Norte-Americano passeiam-se fardados, levando à frente o seu Führer particular e vão defender os racistas brancos, que nós julgámos terem todas as condições para se defenderem a si próprios... O dragão ensaia as forças, afia as unhas, tateia à procura de pontos fracos - e a História avisa-nos de que este é somente o primeiro passo. Outros se seguirão, numa espécie de engendramento contínuo de violências, se estes sintomas não forem rigorosamente interpretados. Se o mundo que hoje laboriosamente acede à democracia não se opuser com firmeza ao alastrar do Grande Mal." 

in "As opiniões que o DL teve"
09/03/1972

(NR: Bold meu)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Na revista "Up Magazine TAP" artigo de Luís Gouveia Monteiro "Lisboa-Cascais-Mafra – Viagem ao fim do império" com o escritor Helder Macedo (01/06/2016)

Na revista "Up Magazine TAP" foi publicado um artigo de Luís Gouveia Monteiro intitulado "Lisboa-Cascais-Mafra – Viagem ao fim do império" com o escritor Helder Macedo, com passagens por lugares que fazem parte da obra de José Saramago.
Fotografias de Marisa Cardoso

O artigo pode ser recuperado e consultado, aqui

"Lisboa-Cascais-Mafra – Viagem ao fim do império"

"Vamos com o escritor Helder Macedo pelo verso e prosa da cidade do Tejo até ao território de uma das maiores obras de Saramago, o Nobel da literatura português. Um roteiro seguindo a terra que acaba e o mar que começa – ou o contrário –, por ruas poéticas, falésias atlânticas e um palácio barroco."

Largo de Camões - Lisboa (Fotografia de Marisa Cardoso)

Em cada esquina, um poeta. Talvez diga alguma coisa sobre Lisboa, talvez não, mas o coração da capital está apinhado de artistas da língua. Luís de Camões (1524-1580), imponente, no cimo da estátua da praça com o seu nome. António Ribeiro Chiado (1520-1591), mesmo em frente, e Fernando Pessoa (1888-1935), abraçado aos turistas, na esplanada do café A Brasileira, do outro lado da rua. A uns passos, no Largo do Barão de Quintela, ainda passaremos por Eça de Queirós (1845-1900), também em bronze, na versão do escultor Teixeira Lopes, com a verdade toda nua nos braços. O fim de semana começa no coração da cidade, na sede da Abysmo, editora que publicou, em 2014, Camões – A Viagem Iniciática, de Helder Macedo.

Espera-nos João Paulo Cotrim, o editor. O ponto de encontro é a Mimosa do Camões, restaurante na Rua da Horta Seca, em frente ao Ministério da Economia. Funciona como cantina e tertúlia da editora. Helder – que viveu a juventude em ditadura nas mesas míticas do Café Gelo, no Rossio – declarou aqui há um ano: “Reencontrei a minha gente”. O nosso convidado chegou de Londres no dia antes. Está hospedado no Hotel Britania, cuja recuperação elogia. Gostou especialmente dos frescos com representação das ex-colónias ultramarinas, “Açores e Madeiras incluídos”. Chega com o pequeno-almoço tomado. Pouco passa das dez da manhã quando avançamos da Mimosa para o Camões. O programa é simples, o trajeto também: ir sempre em frente e depois virar cinco vezes à direita, até fechar círculo, passando por Cascais e Mafra. Até regressar ao mesmo sítio. Em cada esquina, virar um poeta.

O primeiro poeta é Camões, lá em cima, na estátua. O poeta que o professor Macedo tem ensinado ao mundo como o primeiro moderno: homem que correu mundo e correu perigo e que mandava dizer por carta, aos amigos, que preferia as mulheres do Chiado porque as de Goa não sabiam citar Petrarca. Mas desengane-se quem ler nessa queixa um machista literato. Muito pelo contrário, o autor de Os Lusíadas foi um pioneiro cultor do desejo feminino: “Camões faz a crítica da conceção do amor em que a mulher é apenas recipiente, em que é o depositário das fantasias masculinas. É o oposto da neutralização do objeto amoroso. O Camões, muito claramente, lidou com mulheres com personalidade… com existência própria. Isso certamente que é parte do seu gozo. As figuras femininas no Camões são extremamente potentes”.

Rua do Alecrim - Lisboa (Fotografia de Marisa Cardoso)

Ainda não virámos a primeira esquina e já se começa a insinuar outro poeta, com uma multidão de heterónimos. Começa a ver-se o rio Tejo e Cacilhas, na outra margem, no enfiamento da Rua do Alecrim, e a modernidade vital e sensual de Camões aparece como quase antípoda da modernidade assexuada de Pessoa (o Virgem Negra, como lhe chamou o surrealista Cesariny) – que preferia a viagem interior? “Há um elemento no Pessoa de desistência, de resignação e de aceitação. Há uma perversidade profunda. O negativo total é o início de uma ressurreição. A não identidade, o desfazer da identidade é o início do processo da existência. É um misticismo antiquado, nesse aspeto. As conceções místicas do Pessoa são muito mais antigas do que no Camões. O Pessoa desfaz a vida, é terrível. É a total desistência tornada grandeza. O Camões é o homem que derruba todas as fronteiras com deslocamentos muito subtis. O amor e a linguagem surgem como veículos para a felicidade humana. Isto foi uma revolução.” A cada um a sua viagem, a cada qual o império que lhe convém.

À procura do mar

Primeira à direita e, à medida que se avança para a Rua do Alecrim, o espelho de água do Tejo parece fazer recuar o horizonte. Andaram por aqui os surrealistas a dizer “sei vícios” aos ouvidos de coristas e marinheiros. Lá em baixo, à esquerda de quem desce, mesmo a chegar ao Cais do Sodré, o hotel de O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), “o melhor romance de [José] Saramago” (1922-2010, inspirado num dos heterónimos de Pessoa). E depois água, tanta água. É o sítio onde a terra acaba e o mar começa. Ou será o contrário?

Descemos a pé e pegamos no carro. Segunda à direita, está na hora de mudar de poeta e Helder quer falar de “Cascais”, o poema de Almeida Garrett (1799-1854) – “Minha alma em sua razão,/ Meu sangue em seu coração!”. Se o tempo estivesse melhor talvez tirássemos um retrato numa daquelas falésias, junto a um daqueles pinheiros mirrados. “A grande poesia de amor é sobre o enamoramento, sobre as pessoas se apaixonarem, encontrarem-se e amarem-se. Celebra-se o encontro. É muito raro haver um poema sobre essa terrível verdade que é o desacontecer do amor… E com o Garrett, no ‘Cascais’, o tema é esse, o amor desacontecido. Aquilo que foi o grande encontro erótico, sentimental, emocional, é contado retrospetivamente e resulta em dois grandes amantes que agora se cruzam na rua e não se reconhecem.”

Chuvisca na Estrada Marginal. Na Curva do Mónaco vê-se que o mar traz força. A barra do Tejo foi a primeira coisa que o filho do senhor governador de Moçambique viu quando chegou pela primeira vez à metrópole. “1948… tinha 12 para 13 anos, no paquete Colonial… que era um navio de decoração art nouveau que tinha sido confiscado à Alemanha no fim da guerra 14-18. Viemos por aí acima, foi uma viagem de 33 dias… de Lourenço Marques até Lisboa. Como era a última viagem que estava a fazer, passou por todos os portos: Cabo, Lobito, Luanda, São Tomé, Funchal e a chegada a Lisboa, deslumbrante, extraordinária. Um rio que abria, em vez de fechar, o rio abre.

Cascais (Fotografia de Marisa Cardoso)

– Era o sítio onde a terra acabava, como no primeiro verso de ‘Cascais’ de Garrett, ou onde a terra principiava, como na primeira frase de O Ano da Morte de Ricardo Reis?
– Eu sentia que o mar continuava, sabe? Porque há um afunilamento e depois o rio abre outra vez, não é? É uma espécie de continuação. A minha noção de rios eram os rios africanos: grandes, caudalosos… isto era outra coisa. E depois era setembro, ainda verão. Senti o mistério que Lisboa tinha.

– É a primeira chegada a Lisboa?
– Sim, sim. 12 para 13 anos. Tinha vivido em Moçambique, passado a infância no mato e os últimos dois, três anos em Lourenço Marques. O meu pai estava colocado em Lourenço Marques, numa situação de privilégio.

– Como é que vai acontecendo esse movimento do menino colonial para o autor pós-colonial?
– Começa com um choque extraordinário quando fui com os meus pais e os meus irmãos às terras ancestrais da minha família paterna, em Trás-os-Montes, Torre de Moncorvo. Eu, de repente, vi pobreza. Fez-me uma grande confusão. É claro que em África eu já tinha visto pobreza pior do que aquela. De repente, percebi que tinha vivido no engano. Que, afinal, o jardim do paraíso não era ali.

Primeira paragem: Hotel Albatroz. Refiro as amêndoas torradas e uso como desculpa o verso de Baudelaire em que se compara o poeta a um albatroz, elegante no céu, mas trôpego em terra, com as “asas demasiado longas para caminhar”, mas Helder traz-nos de volta para o chão da História: “O [hotel] Albatroz esteve em autogestão a seguir ao 25 de Abril [de 1974, revolução democrática]. Fui lá uma vez com a Maria de Lourdes Pintasilgo [única mulher primeira-ministra de Portugal, entre 1979-1980], que apoiava muitíssimo a autogestão e essa coisa toda. Hoje esquece-se muito o que ela fez. Este apagamento do que a senhora fez naquele tempo é que me indigna muito… E as pessoas sabem e continuam a ocultar”.

Não há amêndoas torradas, o chefe de sala confirma que deixaram de as fazer. Está chuva e vento na varanda, ficamos dentro. A evocação do Portugal pós-ditadura, na passagem dos anos 70 para os 80, evoca mais um episódio da singular biografia do nosso convidado: a transformação do jovem oposicionista que passou pela prisão e pelo exílio… em governante dos frenéticos tempos da revolução em curso. Primeiro como diretor-geral dos Espetáculos, em 1975, e depois como secretário de Estado da Cultura, em 79. “Foi uma época de total loucura, em que os acontecimentos eram diários.”

Passeando pela corte

De volta ao carro, continua a chover. Um cigarro antes, à porta do hotel. Outra vez à direita, em direção a Mafra, a 40 quilómetros de Lisboa, e ao que ficou do império colonial português. Chegamos. Nem de propósito, o carro fica estacionado em frente a uma árvore que o novo Presidente da República português, acabado de empossar, plantou na semana anterior.

– Revê-se na ideia de que Mafra, palácio último da monarquia antes da fuga da corte para o Brasil (em 1807, escapando ao exército de Napoleão) – ainda que imponente – é o pouco que ficou do império? Outras metrópoles produziram séculos de ouro e prosperidade, Lisboa deixou apenas um edifício disfuncional num sítio pouco provável.
– Sim, eu acho que a particularidade da nossa história é termos tido o único império cujas riquezas foram um fator de empobrecimento do país.

– Foi dinheiro que serviu para não trabalhar…
– Foi dinheiro que serviu para as oligarquias não investirem no país, e portanto não criarem emprego, não criarem trabalho. Fomos intermediários, vivemos sempre à custa de remessas.

– Serviu para as elites guardarem o poder…
– Exatamente. Tivemos elites profundamente cultas, mas nem sequer em monumentos deixámos muita coisa. No fundo queríamos todos ir para Paris, percebes? Nós nunca investimos. A Holanda investiu em massa e criou uma classe média. A Inglaterra, também. Nós, deste tamanho, com o ouro do Brasil e os diamantes de Angola, quando começa a guerra colonial, em 1961, éramos o país mais pobre da Europa Ocidental.

Estamos junto ao convento e palácio, glorioso despojo, enorme máquina de não fazer nada.

– Que relação é que tem com o Memorial do Convento (1982)? É o livro que “faz” Saramago, não é?
– É o livro que faz o Saramago… É um livro de grande aspiração, de invenção, possivelmente, e onde o Saramago faz a transição do neorrealismo tardio, do Levantado do Chão [1980], que é, para mim, o fim do neorrealismo, no sentido positivo, da sua coroação. E aqui [Memorial do Convento] dá-se o grande salto para a imaginação. É uma celebração da capacidade humana de tentar o impossível e transformar o impossível em realidade. É onde, de algum modo, a ideologia marxista, construtora, levantada do chão, encontra uma dimensão universal. Como tal, é um livro extremamente importante. Tem um elemento de ironia, por ser, no fundo, baseado num dos edifícios mais importantes, mas ao mesmo tempo mais estéreis da nossa cultura. É uma celebração do poder real, como aliás o Saramago mostra, mas, ao mesmo tempo e, mais uma vez, uma grande construção da utopia feminina. O Saramago é um escritor utópico, não em termos de utopia marxista, mas utopia humana. E acho que é neste livro que isso se torna claro, falando de um símbolo do império português que dá para um momento, mas não dá para se levantar do chão o país. E o que é interessante é o Saramago ter posto a ênfase em quem constrói [o palácio], quem pensa e quem inventa isto tudo, quem inventa máquinas de voar [Bartolomeu de Gusmão, pioneiro português da aviação].

Palácio Nacional de Mafra (Fotografia de Marisa Cardoso)

Avançamos os 232 metros que ligam os aposentos do rei, na ala norte, aos aposentos da rainha, na ala sul. É o maior corredor palaciano da Europa, palco do “passeio da corte” em voga no século XVIII. 232 metros são também a medida possível do real abismo conjugal dos donos da obra. A visita é conduzida pelo diretor do Palácio Nacional de Mafra, Mário Pereira, e pela diretora do Serviço Educativo, Fernanda Santos, mas quem parece mesmo em casa é Helder Macedo. Especialista em crepúsculos ultramarinos, reconhece à primeira o sangue azul que aparece retratado nas paredes. Como se de família próxima se tratasse. Com 80 anos, impecavelmente vestido – pode tirar-se o colonialismo de dentro de uma pessoa, mas é quase impossível sacar-lhe do pescoço o impecável lenço de seda –, percorre sem um protesto a enfermaria, as cozinhas, a sala do trono, a sala da música, a sala da bênção, a biblioteca, e ainda tem fôlego para subir ao mecanismo dos carrilhões e depois à cúpula. Ou não fossem os poetas irresistivelmente atraídos pela luz zenital.

“No fundo, todas as viagens acabam por ser uma tentativa de chegar a nós próprios, não é? A deslocação pode ser feita no espaço e no tempo. Geralmente é a combinação das duas coisas, mas se o Ulisses não chegasse a casa, a viagem teria sido uma sensaboria. A ideia da viagem iniciática é a da transformação qualitativa que há no processo de viver. Ora, vive-se no espaço, daí a noção que se tem sempre da vida como uma viagem. Só que um percurso precisa de um propósito. Uma das coisas trágicas da nossa consciência humana é que nós somos capazes de conceber a eternidade não sendo eternos. Temos, portanto, de impor algum propósito a este acidente que é a vida. Esse propósito pode ser o encontro dos outros, dos amigos, dos amores, dos países. Pode ser a viagem. Viajar é, de facto, fundamental para nos definirmos a nós próprios. Só nos definimos em relação ao outro. Sem os outros não existimos.” Ao regresso, não nos demoramos no quarto onde a monarquia portuguesa, na pessoa de D. Manuel II, dormiu pela última vez, de 4 para 5 de Outubro de 1910, na véspera imediata da implantação da República.

Outra vez à direita, depois de Mafra, agora de costas para o mar. O regresso a Lisboa, mais rápido, faz-se pela autoestrada. À passagem pelo Parque Florestal de Monsanto, à entrada da capital, põe-se de pé outro poeta: Herberto Helder (1930-2015). “Se eu aderisse a qualquer coisa sentia-me preso. Isso deve ser uma coisa, de facto, psicológica… o não querer ser amarrado. Eu não uso telemóvel porque quero poder não ser encontrado. É uma coisa um bocado… clandestina.”

– Por falar em clandestino, a fase política do Café Gelo foi a sério, não era só conversa, envolveu pegar em armas.
– Sim, eu e o Herberto… o Herberto Helder.

– Sim… Chegou a haver sarrafusca?
– Não, porque à última hora, já tínhamos a coisa toda preparada, quando veio a contra-ordem.

– É aquele célebre episódio, consigo e o Herberto num carro cheio de armas?
– Sim, em 58. Depois isso veio a dar no golpe Botelho Moniz, mais tarde [tentativa de golpe de estado em Abril de 1961].

– E qual era vossa missão?
– Íamos a Monsanto buscar armas. Eu, o Herberto…

A odisseia termina

O último dia começa às dez da manhã, no Campo das Cebolas, em frente à Casa dos Bicos. Foi construída em 1523, a mando de D. Brás de Albuquerque, filho “natural legitimado” do segundo governador da Índia. Hoje é a sede da Fundação José Saramago. “Estamos a cuidar daquilo que é público”, explica Pilar del Río à chegada, anfitriã, companheira do Nobel desde 1988 até à morte. Muito lá de casa, como sempre, Helder folheia a última edição da fundação: um ensaio sobre o erotismo em Saramago, cujo prefácio escreveu. Derrete-se com a anotação no diário do escritor, onde aparece registado o dia em que conheceu Pilar “de Los Rios”. Um pouco à frente, detém-se na primeira página do original de O Ano da Morte de Ricardo Reis. Levanta-se outra vez a frase “onde o mar acaba e a terra começa”.

Pilar del Río, Presidenta da Fundação José Saramago, acompanha o escritor Helder Macedo
Casa dos Bicos - Lisboa (Fotografia de Marisa Cardoso)

Última vez à direita, outra vez de frente para o mar. A viagem vai acabar onde começou, no coração da cidade. O vespeiro das letras onde a cultura lusitana deposita, há cinco séculos, o vasilhame. Pilar del Río não conduz e gosta de andar. O destino é um dos restaurantes preferidos de José Saramago, o Farta Brutos, na Travessa da Espera, ao Bairro Alto. É apanhar a Rua dos Bacalhoeiros, atravessar a Baixa e a Rua do Crucifixo e depois subir outra vez para o Chiado. Helder, sempre pronto, dispõe-se fácil a encarar nova colina. A viagem pelo fim do império acaba muito apropriadamente à mesa, porque “se Ulisses não chegasse a casa a viagem teria sido uma sensaboria”. Abençoado império que produziu esta doçaria, estes príncipes."

texto Luís Gouveia Monteiro fotos Marisa Cardoso

Crónica "O Dia Internacional da Mulher" (8/3/72) - "As opiniões que o DL teve"

Crónica publicada no "Diário de Lisboa", sobre a precária condição feminina e a crítica mordaz contra os direitos por cumprir e reconhecer. 44 anos depois muitos deles, os direitos, estão por cumprir.
Rui Santos  

Pintura de José Santa-Bárbara, retratando a mulher do médico e o cão das lágrimas, 
personagens da obra "Ensaio sobre a Cegueira"


"O Dia Internacional da Mulher"
(8 de março de 1972)

"Comemora-se hoje o Dia Internacional da Mulher. Os modos de assinalar a data hão de variar certamente de país para país, e não cremos que o nosso se inclua no número dos mais pródigos em manifestações: a verdade é que somos bastante avessos a exprimir publicamente o que pensamos, quando de facto pensamos alguma coisa. 
No caso presente, temos até fortes dúvidas sobre uma geral compreensão do que signifique a existência de um Dia Internacional da Mulher, quando se sabe que a ninguém passou pela cabeça instituir o Dia Internacional do Homem... Um espírito irónico insinuaria que, sendo o mundo dos homens, mal parecia que eles se festejassem a si mesmos, quer em termos de confraternização quer em termos de reivindicação. Há um Dia Internacional da Mulher como há um Dia Internacional da Criança, e esta aproximação já nos dirá melhor que é no plano da sujeição que estes dois seres (a criança e a mulher) se encontram. O Dia Internacional da Mulher serve, enfim, para relembrar o que foi a difícil caminhada dessa parte da humanidade a que os homens vão buscar, com mais ou menos hipocrisia, as redenções de que dizem carecer: a mãe, a irmã, a noiva, a esposa... 
Mas o Dia Internacional da Mulher há de servir também para mostrar quão longe ainda está a mulher de pacificamente aceitar como possível o mundo em que vive. Em todos os planos de promoção (social, intelectual, jurídico, económico e político), a mulher segue o homem. Com mais rigor diríamos que a mulher é mantida atrás do homem: muitas das suas conquistas são apenas aparência, e, quando se tornam reais, correm o risco de, com maior ou menor rapidez, perderem conteúdo e poder de aplicação prática. Na maior parte dos casos, o tempo e os interesses dos homens encarregam-se de neutralizar as conquistas alcançadas: a emancipação (no plano económico, através do trabalho remunerado, no plano intelectual, graças ao desenvolvimento da instrução, e no plano político, pela obtenção dos direitos de voto e de elegibilidade) encontra-se ainda hoje limitada por mil e uma pequenas teias. À volta da mulher continua a tecer-se o emaranhado casulo que a manteve isolada do mundo. Há exceções, bem sabemos, mas essas, ao que dizem, só existem para confirmar a regra... 
Vai longe o ano de 1971 em que o Olympe de Gouges escrevia a sua «Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã»; já vai igualmente longe a época de Mrs. Pankhurst, aquela inglesa que criou, no princípio do século, a União Feminina Social e Política, e que mereceu, com as suas companheiras de missão e de luta, o apodo displicente, senão desprezativo, de «sufragista». Mas é apenas de ontem, de 1952, para sermos mais exatos, a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher, aprovada, por maioria, pela Assembleia Geral das Nações Unidas... Veja-se o que o tempo teve de andar e o que as mulheres tiveram de esperar: e, mesmo assim, a Convenção não foi aprovada por unanimidade. O pior mal, porém, não é que tenha havido países contrários a essa aprovação, mas sim que até mesmo nos países que deram voto favorável, ao nível de representação nacional, vida quotidiana continue a ser para as mulheres urna contínua luta para que se não percam os frutos escassos da vitória. 
O Dia Internacional da Mulher deveria ser, sobretudo, um lia de exame de consciência para os homens. O verdadeiro pecado original, se bem pesarmos o significado das palavras, talvez seja esta milenária discriminação que fez do mundo um lugar governado por metade das pessoas que nele vivem: os homens. Não todos, evidentemente..." 

in "As opiniões que o DL teve"
08/03/1972

(NR: Bold meu)

quarta-feira, 8 de junho de 2016

"Ensaio sobre a Cegueira" Peça de teatro baseada na obra de José Saramago - Sarabela Teatro em Vila Real (11/06)


Mais informações através da página da companhia Sarabelo Teatro (Galiza), aqui

Sinopse de apresentação
"Unha epidemia súbita causa aos habitantes dunha cidade sen nome unha cegueira branca, descoñecida, que se expande de maneira fulminante polo país. Internados en corentena ou perdidos na cidade, os personaxes viven con intensidade o amor, o odio, a crueldade, a indiferenza e o medo.
A epidemia non se detén e os ollos da única muller non afectada serán testemuña excepcional do inferno provocado pola fame, a sucidade, a infamia e a aldraxe sexual. Fantasía e realidade entretecidas nunha impresionante parábola do tempo que vivimos. Recuperar a lucidez e rescatar o afecto son dúas propostas fundamentais desta obra que é, tamén, unha reflexión sobre a ética do amor e a solidariedade."


Apresentação via Teatro de Vila Real, aqui

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA" SARABELA TEATRO (GALIZA)

"Prestes a completarem-se seis anos após o desaparecimento de José Saramago (18/6/2010), a sua obra é evocada com uma produção oriunda da Galiza, apresentada no âmbito da Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2016.

UMA REFLEXÃO SOBRE A ÉTICA DO AMOR E A SOLIDARIEDADE

Uma epidemia súbita causa aos habitantes duma cidade sem nome uma cegueira branca, desconhecida, que se expande de maneira fulminante pelo país. Internados em quarentena ou perdidos na cidade, os personagens vivem com intensidade o amor, o ódio, a crueldade, a indiferença e o medo. A epidemia não se detém e os olhos da única mulher não afectada serão testemunha excepcional do inferno provocado pela fome, a sujidade, a infâmia e o ultraje sexual. Fantasia e realidade entretecidas numa impressionante parábola do tempo que vivemos. Recuperar a lucidez e resgatar o afecto são duas propostas fundamentais desta obra que é, também, uma reflexão sobre a ética do amor e a solidariedade.

Espectáculo nomeado em sete categorias para os Prémios María Casares: melhor espectáculo, texto adaptado, iluminação, cenografia, maquilhagem, actriz protagonista e actor secundário.

SARABELA TEATRO está sedeada em Ourense. Além da produção de espectáculos infantis e para adultos, desenvolve uma ampla actividade formativa, criativa e de dinamização. Com 35 anos de existência, é reconhecida como uma das companhias mais consolidadas da Galiza.

Dramaturgia e direcção: Ánxeles Cuña Bóveda
Interpretação: Jorge Casas, Elena Seijo, Sabela Gago, Xavier Estévez, Fernando Dacosta, Nate Borrajo, Josito Porto, Fina Calleja, Vicente Montoto.
Cenografia: Suso Montero
Desenho de luz: Baltasar Patiño
Espaço sonoro: Renata Codda Fons
Figurinos: Fina Calleja"

terça-feira, 7 de junho de 2016

13 de Junho a Fundação José Saramago celebra o 4.º aniversário da sua abertura

No próximo dia 10 de junho, a Fundação José#Saramago está de portas abertas no seu horário habitual. No dia 13 de junho, dia em que se assinala o 4.º aniversário da abertura da FJS na Casa dos Bicos, o horário será das 14H às 18H30, com o seguinte programa:


Via Fundação José Saramago


"Todos faremos jornais um dia" texto de Março de 1990 incluído na obra "Os Apontamentos" (edição Porto Editora)

Estatueta retratando José Saramago  - FJS

"Todos faremos jornais um dia"
"Nesse dia, estão cumpridos doze anos sobre a data, teve Luzia Maria Martins a lembrança de convidar-me a escrever uma peça de teatro, fingindo ignorar, com assinalável generosidade, que dessas artes mágicas, provavelmente, não teria eu outra informação que uns escassos rudimentos adquiridos em vida de especta-dor mais atento às histórias contadas no palco do que aos modos próprios de as contar ali. Não surpreenderá, pois, que tenha recusado o convite, como também não deverá surpreender, conhecidas as contradições e as incongruências da humana natureza, que quarenta e oito horas depois me tenha resolvido a aceitá-lo. Não é este o lugar, felizmente, menos ainda a ocasião, de apurar se os resultados valeram a pena: as águas de ontem não movem os moinhos de hoje, tendo variado tanto, em farinha e fermento, a composição do pão. 
Chamei a essa peça A Noite, que foi a de 25 de abril, pois claro. houve quem gostasse, houve quem não. A ação, como é costume dizer-se, passava-se na redação de um grande jornal diário, ma-latino, que os mais suspicazes logo se apressaram, à boca pequena, a identificar, e o conflito opunha os bons aos maus, como é de regra, com vitória final e glória dos primeiros, que eram ótimos, e humilhação e vergonha dos segundos, que eram péssimos. Penso, contudo, que não seria justo acoimar este primeiro tentame teatral dos obséquios de um maniqueísmo elementar, porquanto, entre os anjos e os demónios, crê o instinto do autor ter sabido reservar um lugar àquela gente, sempre a mesma, que espera o desatar dos conflitos para apanhar do chão os restos, enquanto não vem a hora desejada de fazer-se ao substancial. Sobre esta história, tão extremadamente ingénua, não volta-rei a falar aqui, pois a ela não se destina uma apresentação que, propondo-se brevíssima, já leva algum tempo perdido. Apenas recolherei das páginas do livro que A Noite também veio a ser a epígrafe que lá se pode ler e que encabeça estas linhas: «Todos faremos jornais um dia», atribuída a um autor anónimo que, escusado seria dizê-lo, não existiu nunca. Vem a propósito referir que não foi esse o meu primeiro e inocente embuste bibliográfico: já em A Bagagem tinha feito aparecer uma citação assaz panglossiana de um imaginário Manual do Viajante, que pro-clamava: «[...] é muito raro poder dizer-se que uma viagem é per-feita antes de acabar. Mas acontece». Deverei acrescentar que, desde então, não me faltaram as oportunidades para confrontar esta aerifica convicção com os factos da vida. Hoje, no geral, não seria tão afirmativo. Quanto ao particular, melhor será que re-serve a minha opinião." 

Estatueta de José Saramago presente na biblioteca da FJS

"Vamos pois ao tema, poupando, se possível, as palavras. Ao proclamar que todos um dia faríamos jornais, o que eu tentei foi exprimir uma espécie de aspiração cívica, evidentemente utó-pica, segundo a qual o direito de informar e de ser informado se regeria por exclusivos ditames de verdade e de dignidade, sem cedências ou contemporizações com qualquer forma de poder. Não estaríamos a salvo do erro, porém justificar-nos-ia a boa-fé. Estas ideias, que a muitos hão de parecer, hoje, antiquadas e fora de uso, quando os jornais são, eles próprios, na sua maioria, poder ou instrumento de poder, criaram-se e alimentaram-se durante as duas épocas em que, mais por imperativas circunstâncias do momento do que por apetites irresistíveis de vocação, me achei a trabalhar na imprensa. A primeira foi vivida no Diário de Lisboa, nos anos de 1972 e 1973, quando o marcelismo já estava na sua fase de decomposição. A segunda, no Diário de Notícias, durou muito menos: tendo começado nos princípios de abril de 1975, no rescaldo dos acontecimentos de 11 de março, veio a ter-minar no dia 25 de novembro desse mesmo ano, por óbvias razões. Experiências diferentes, mas, tanto numa como noutra, foi de liberdade que se tratou: no primeiro caso, uma liberdade que se pressentia; no segundo caso, uma liberdade que afinal era preciso aprender. 
Juntam-se agora neste volume os dois pequenos livros em que essas experiências, no seu tempo, se configuraram. Toma por título o título de um deles - Os Apontamentos -, e não por falta de imaginação para encontrar outro mais atrativo aos olhos do leitor, mas porque não se quis dissimular, nesta ocasião, o que foi a característica formal mais evidente destes textos: a brevidade, a espontaneidade - sinais, quase sempre, duma reação despreconcebida (diria mesmo: desprogramada) aos estímulos exteriores. Cada uma das partes deste livro conserva as introduções para elas escritas, o que oferece, pelo menos, a vantagem de mostrar ao leitor o juízo que o autor, em cada caso, fez dos seus próprios atos. A ninguém deverá estranhar que tenha procurado absolver-se: é o que todos fazemos. 
E hoje? Direi como o outro, e basta: «O que escrevi, escrevi.» As palavras que aí estão foram, todas elas, escritas com sinceridade e boa-fé. E, no meio de tantas, não encontro senão duas que gostosamente apagaria se não fosse o escrúpulo de proteger o meu próprio respeito. É quando, lá para diante, uma e outra vez, falo de «jornalistas revolucionários». Como se não bastasse a ingenuidade de os imaginar assim, ainda fui cair na presunção de me incluir no grupo. Ilusão minha, ilusão nossa." 
José Saramago 
Março de 1990