Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Abismo" curta-metragem baseada na obra "Ensaio Sobre a Cegueira" (UFERSA - Brasil)

Pode ser visualizado via YouTube, aqui 

"Abismo é um curta-metragem brasileiro do gênero drama, adaptado do romance Ensaio Sobre a Cegueira do José Saramago. A obra é resultado de umas das atividades de conclusão da disciplina Ciência Política, ministrada pela Profa. Ma. Gilmara Medeiros, no curso de Direito da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA)."

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

"Saramago: o despertar da palavra" entrevista de Horácio Costa para a revista CULT (Brasil)

"Saramago: o despertar da palavra"
O escritor português, que acaba de receber o Prêmio Nobel de Literatura, fala sobre seu período de formação e sobre seu projeto de autobiografia.

A entrevista de Horácio Costa pode ser consultada e recuperada, aqui
em http://revistacult.uol.com.br/home/2014/10/saramago-o-despertar-da-palavra/

A entrevista que segue teve lugar em fevereiro passado, em Madri. O Instituto do México, na Espanha, organizou, no primeiro trimestre deste ano, um ciclo de conferências: “Portugal desde México”. A diretora do Instituto, Luz del Amo, que tivera a idéia de organizar o ciclo – algo inédito, ou pelo menos pouco usual no mundo hispânico, onde via de regra Portugal, ainda mais do que o Brasil, sofre de uma espécie singular de “obnubilação programada” – tinha-me pedido que convidasse Saramago; ele aceitou, sem cobrar cachê. Pediu para ficar no mesmo hotel de sempre (o Suécia), a trezentos metros do Prado. Não é o primeiro favor que me faz e espero que não seja o último. Já anteriormente me brindara com muitas informações e respondera às muitíssimas questões que lhe apresentei, enquanto escrevia minha tese para Yale, “José Saramago: O período formativo”. A presente entrevista, portanto, não é, lato sensu, a primeira que me deu.
Há catorze anos, quando completei trinta, recebi de presente de minha amiga e ex professora Renina Katz, uma leitora inveterada, o romance Memorial do Convento. O entusiasmo com o qual Renina me recomendou a leitura, uma vez feita e já de volta aos Estados Unidos, transferi para Emir Rodríguez-Monegal. Naqueles meses, eu andava atrás de um tema de tese; numa tarde do verão de 1985, a caminho do teatro em Hartford, pude conversar longamente sobre Saramago com Emir, que recentemente estivera com ele durante um congresso de escritores, e que seria o meu orientador, se tudo desse certo (não deu: a Monegal sobravam poucos meses de vida).
Por meu lado, perguntava-lhe como era o homem em pessoa; pelo seu, e muito menos afoitamente, Emir me interrogava sobre a radicação de Saramago na literatura portuguesa contemporânea. Não é necessário dizer que ele soube responder às minhas perguntas, traçando-me o perfil de um cavalheiro lusitano de humor mordente, de viés irônico, que Emir comparava ao de Borges, a quem tinha conhecido tão bem; entretanto, à medida que o crítico uruguaio aumentava em agudeza as suas questões, crescentemente eu me dava conta do pouquíssimo que sabia, e que de fato era então conhecido, sobre o autor português. Eu já me dedicara, em Yale, a pesquisar sobre esse escritor que me chegara às mãos sem nenhum antecedente; ainda que a Biblioteca Sterling seja uma das maiores e melhores do mundo, eu me decepcionara com o pouco que nela havia sobre Saramago.
O que tínhamos em mãos era apenas o Memorial. Portanto, qualquer consideração crítica que podíamos fazer se limitava ao tipo de escritura que Saramago nele adotava. Diante dela, e assumindo como base o realismo-maravilhoso em versão hispano americana, concluímos que a qualidade do imaginário de Saramago dele diferia em um ponto básico: estava prenhe de lirismo e escapava dos padrões de alegorização mais óbvios e tão frequentes neste. Havia pontos evidentes de contato – para começar, o fascínio pelo barroco, que na narração reverberava temática e lingüisticamente –, mas o tônus geral do relato não apontava para as terras americanas.
Anos mais tarde, em Portugal, pesquisando sobre o Memorial, terminei por assegurar me disto: se muito da postura de um Carpentier ou de um García-Márquez se fazia notar (principalmente, no nível do anedótico, na pesquisa de fontes da época e por aí), a base era diferente. A velha cultura portuguesa, às vezes excepcional – quando representada por um Fernão Lopes, um Camões ou um Vieira –, mas frequentemente marginal à Europa dos grandes debates, ainda que muitas vezes ironizada pelo escritor, se impunha com uma clareza meridiana. Aí estava, e está, o quid de Saramago. Não só de estilemas individualizadores vive um grande escritor: nunca é demais lembrá-lo, ele ou ela via de regra (há exceções) pisam o terreno conhecido que lhe dá a sua própria cultura, a sua própria língua.
Naquela tarde, disse a Emir que eu pesquisaria mais sobre o romancista e que, em função do que encontrasse, talvez escolhesse a sua obra como objeto da minha tese de doutorado. À época, muito pouca gente entendeu que eu escolhesse Saramago, então um escritor com alguma bagagem (o melhor viria depois), e menos ainda que me dedicasse a sua obra menor. Optei por estudar o período de formação do escritor por duas razões: primeiro, por jamais ter ele recebido atenção crítica (uma importante estudiosa italiana da literatura portuguesa não há muito me dizia que Saramago tinha nascido feito, assim como se um Gulliver qualquer); segundo, porque estudar um período não-canonizável de um escritor em vias de canonização (agora já plena, depois do Nobel) pode colocar uma série de questões críticas de interesse, entre elas a de discutir como o cânone funciona para canonizar os seus eleitos, como a crítica procede para eleger os seus objetos de estudo.
Se Saramago, ao longo de suas décadas de experimentação ou deriva entre vários gêneros literários, apresentou uma notável distância, ou mesmo, defasagem, perante as estéticas dominantes à época no contexto português (apesar da dicção neorrealista fundamental em sua produção política, afinada com uma vertente da poesia portuguesa dos anos 40 e 50 – porém usada por ele vinte anos depois!), um discurso crítico que procurasse acercar essa obra de exceção (frente aos modismos, às oposições quase sempre conjunturais que caracterizam o processo literário) teria que, de alguma maneira, sê-lo também, abandonando as interpretações mais circunstanciais de análise. Ir até uma obra que se divide entre “fraca” e “forte”, “ignorada” e “estudada” (e “in” e “out”, “boa” e “ruim”), foi o que eu tentei, centrando sempre as minhas interpretações no sinuoso processo de trabalho de José Saramago, antes que em seu melhor resultado, aparentemente para sempre canonizado.
A entrevista que segue constantemente refere-se a essa injunção e a essa preferência crítica minha. Pensei que valesse a pena alertar o leitor sobre a razão das perguntas que nela fiz. Agora, definir o que possam as respostas a elas esclarecê-lo sobre a obra e o indivíduo José Saramago é coisa sua.
Capa da obra de Horácio Costa sobra a obra de José Saramago
CULT – Eu queria que você dissesse o que ficou da experiência dos gêneros que você praticou ao longo de várias décadas – crônica, poesia, ensaio, teatro – antes da publicação do Manual de Pintura e Caligrafia. Por que você acha que demorou vinte anos para escrever um segundo romance? Há um primeiro, uma tentativa pouco madura nos anos 40, mas a sua primeira obra em prosa de ficção sólida é esse Manual…
José Saramago – Em primeiro lugar, quando se pergunta o que ficou de uma obra, que supostamente pertence a um tempo passado, pressupõe-se uma dúvida, se alguma coisa terá ficado. Porque, se não existisse essa dúvida, então a pergunta não teria sentido. Quando se começa a escrever muito jovem, corre-se o risco e, afinal, isso me aconteceu, porque aos 25 anos publiquei um romance. Romance que ficou por aí, que foi reeditado apenas em 1997 porque o editor achou que se o romance fazia 50 anos, desde a primeira publicação, tinha que ser novamente publicado – e então temos uma edição nova de um romance que se chama, perdoem, Terra do Pecado. Eu não tenho culpa de o romance ter esse título, a culpa é do editor. O romance se chamava A Viúva. Um jovem de 25 anos, que era o que eu tinha, não sabia muito de pecados, e menos de viúvas… Mas eu percebi que não tinha tanta coisa para dizer, nada importante. E me calei, me calei por vinte anos praticamente.
Isso não é verdade, porque escrevi um outro romance que se chama Claraboia, que permaneceu inédito – e, esse sim, permanecerá inédito. Não o destruí porque não devo destruir as coisas que faço; se não posso destruir todas, por que vou destruir algumas? Se eu pudesse apagar todas as coisas ruins – e agora não estou falando do livro, estou falando de coisas ruins que a gente faz na vida –, eu as apagaria. Mas como Terra do Pecado, apesar de tudo, não é a pior coisa que eu fiz na vida, então que fique aí; e Claraboia ficará, mas com a condição de não ser publicado enquanto eu viver.
Até 1966, quando eu tinha 44 anos, não escrevi nada. Salvo no período imediatamente anterior a 1966, que foi quando escrevi um livro de poesia chamado Os Poemas Possíveis. E por que eu o escrevi? Bom, a resposta é sempre a mesma, ou quase sempre: porque me apaixonei. E eu já havia feito uns quantos sonetos e coisas assim no tempo que fazíamos sonetos, aos dezoito anos. Acho que os jovens de hoje já não sabem o que é escrever sonetos e as meninas não têm a felicidade de receber um soneto dos garotos. Isso acabou, que pena! Bom, então eu me apaixonei nessa época e daí saiu o livro. Confesso que, quatro anos depois, me apaixonei de novo e saiu outro livro de poemas que se chama Provavelmente Alegria. E então acabou-se a história de publicar pelo fato de me apaixonar [risos].
A partir de 1966, por circunstâncias da vida, me encontrei mais próximo do mundo literário porque trabalhava numa editora – desde os anos 50 e durante quase 15 anos. Eu tive uma vida que não tinha nada a ver com a literatura. Eu fui várias coisas na vida: trabalhei numa oficina mecânica, fui desenhista, funcionário da saúde pública, depois não sei o quê, depois editor, e era assim. Então, eu não me preparei para ser escritor. Sou escritor por acaso. E que acaso é esse? É que chegou um momento em que eu, além de me apaixonar e por isso pôr sobre a mesa livros de poesia, comecei a colaborar em jornais, escrevendo crônicas. De 1966 até 1977, houve onze anos de publicação: publiquei três livros de poesia – e o terceiro não tem nada a ver com minhas paixões –, crônicas, ensaios políticos, que no fundo eram editoriais de jornal, de um jornal que já não existe, chamado Diário de Lisboa, e já em 1975, que chamávamos o ano ardente da revolução, eu era diretor adjunto de um outro jornal, Diário de Notícias, e acho que tudo começa aí. Quando, em novembro de 1975, ocorreu a contrarrevolução, o que se chamava o processo contrarrevolucionário – e talvez algumas pessoas não estejam de acordo com a qualificação ou com a classificação –, eu fiquei na rua, sem emprego, sem salário, sem trabalho e sem possibilidade de encontrar outro facilmente, porque o jornal estava com a revolução.
Aí eu tomei a decisão definitiva da minha vida, que era a de não procurar trabalho, e me dizia: você tem sete ou oito livros escritos, que são dignos, sérios, honestos, mas por aí você não vai chegar a lugar nenhum. Se você está pensando na história da literatura, então, resigne-se a que digam (se disserem) que o senhor fulano nasceu nessa data, morreu numa outra, publicou alguns livros e ponto. Uma linha, duas linhas e nada mais. Não que eu aspirasse a um capítulo completo da história da literatura, não é isso. A decisão de não procurar trabalho era enfrentar essa idéia de que, talvez, eu seria um escritor, mas faltava uma prova, porque aqueles livros não eram, na minha opinião suficientes para tal. Isso foi o que depois levou a toda essa série de livros, romances, obras de teatro, diários que caracterizam esses últimos 20 anos. Isso é o que me leva a dizer que eu sou um jovem escritor, que eu sou um velho escritor da nova geração – porque a verdade é que eu estou escrevendo obras mais sólidas não há cinquenta, mas há vinte anos; portanto, supondo que se começa, talvez, a escrever e publicar aos 20, 23 anos, então, agora, literariamente, eu não tenho mais do que 45 anos. Sou um menino… [risos].
O que ficou do que ficou para trás? Eu diria que ficou tudo. E ficou tudo em que sentido? Eu muitas vezes digo que se alguém quiser entender bem o que eu estou   dizendo nos romances que estou escrevendo é preciso ir às crônicas que escrevi nos jornais e que estão em dois livros: Deste Mundo e do Outro e A Bagagem do Viajante. Quase todos os temas que estão agora nos romances, certos pontos de vista, visão de mundo, obsessões e preocupações de ordem não apenas literária, preocupações de ordem política, de ordem civil, tudo isso se encontra nesses pequenos textos publicados em jornais, e quem se interesse pelo que eu faço – além dos romances que têm maior reputação, dos quais se fala, que saem na crítica, que estão nas livrarias e tudo isso – tem que ir a esses pequenos textos porque eu mesmo, quando por algum motivo tenha  que voltar a esses textos, me reencontro. Nessas crônicas há muito de ficção, e sobretudo há o trabalho sobre a memória, a memória da infância, da adolescência, a memória dos adultos, dos avós, das coisas vistas – e esse, se eu chegar a escrevê-lo, será o conteúdo de um livro que já tem título, mas que ainda não está escrito e que se chamará O Livro das Tentações. Já estou me antecipando, mas uma coisa chama a outra. É uma autobiografia minha. Eu sou tão vaidoso que inclusive vou escrever a minha biografia. Mas é uma autobiografia um pouco estranha, porque termina aos catorze anos de idade. O que eu quero fazer é isso, recordar o menino que eu fui. Tentar saber quem era esse menino. Porque a verdade é que nós pensamos que toda a nossa vida está aí para que nos tornemos adultos. E, quando somos adultos, nos comportamos como se olhássemos para nós como algo que saiu do estado de crisálida, imaginando que a infância e a primeira adolescência é a crisálida, e que depois da crisálida saiu o inseto adulto com todo o seu esplendor, as suas cores, com toda a sua beleza. Nos casos em que têm esplendor e que são belos, claro; há insetos que deveriam ter ficado na crisálida e não sair.
Eu não penso assim. Para dar-lhes uma idéia do que eu penso nesse sentido: não sei se o meu leitor percebeu que eu ponho sempre epígrafes; a epígrafe de Todos os Nomes, para falar do último romance publicado, é “Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens” –, é uma citação de um livro chamado Livro das Evidências, que não existe, como em outro romance, História do Cerco de Lisboa, há uma outra epígrafe que foi tirada do Livro dos Conselhos, que também não existe. E isso é um pouco borgeano, e se isso continuar, não terei mais remédio do que escrever o Livro das Evidências e o Livro dos Conselhos. E, então, a epígrafe que terá o Livro das Tentações – e com isso, acho que terei explicado tudo o que tentei explicar até agora – é a seguinte: “Deixa-te levar pelo menino que foste…”. Porque, na verdade, de nada eu gostaria mais – ou de poucas coisas eu gostaria tanto – do que poder passear pela rua, não levando pela mão o menino que fui, mas sendo levado pela mão desse menino. Se eu pudesse recuperá-lo, tê-lo agora mesmo, quanto eu gostaria. Vocês podem pensar: mas que ideia estranha essa, você é ele e ele é você. Não, eu sou ele, mas ele não sou eu. Um deles não conhece o outro; e o fato de que um deles não conheça o outro me perturba. E por isso eu digo: deixa-te levar pelo menino que foste. Talvez o menino, supondo que os meninos não são maus – alguns são péssimos, claro –, fosse capaz de, na hora que vamos fazer uma coisa errada, de puxar pela nossa roupa e dizer: não faça isso.
Há uma continuidade de pensamento e inclusive uma continuidade de sensibilidade no que estou fazendo agora e que vêm dos textos mais antigos. Como os textos não nascem do nada, nascem de alguém que está vivendo, mesmo que não esteja escrevendo, então tudo é uma relação que vai pelo interior da vida e que une tudo a tudo. O que eu posso dizer, claro, é que há algumas coisas que fiz antes e que, se eu as fizesse agora, tentaria fazê-las melhor. Mas não se trata aqui de mais qualidade literária ou de menos qualidade literária, trata-se do que se está dizendo aqui.
A forma como se desenvolve sua “carreira” é bastante atípica, especialmente em relação ao que cada vez mais acontece no mundo literário, afetado por uma série de problemas externos, a questão do mercado, os prêmios literários etc… Num texto crítico dos anos 60, parte das suas colaborações para a Seara Nova, você escreveu: “A literatura não é uma carreira”. Aquele momento era especialmente significativo, porque então você era conhecido em Portugal como poeta. Você estava publicando o seu segundo livro de poesia, prestes a publicá-lo, e entrava na literatura ou na vida cultural lisboeta por meio da atividade poética. E você começa a escrever essas notas críticas numa publicação importante da literatura portuguesa contemporânea, a Seara Nova. Então, eu gostaria que você desenvolvesse essa ideia de autor, naquele momento biologicamente já não muito jovem, nos anos 60, que tem consciência de que a literatura não é uma carreira; e como você vê isso agora, não só com relação ao mundo contemporâneo, mas também à luz da sua produção posterior.
Quando me convidaram para fazer crítica nessa revista, eu só havia publicado esse livro de poesia chamado Os Poemas Possíveis. Inclusive impus uma condição, a de que não faria crítica de livros de poesia. Porque me parecia que isso não teria muito sentido para mim, um jovem poeta, com apenas um livro, e que não era Rimbaud nem Fernando Pessoa. Pode-se perguntar: você não quis fazer crítica sobre livro de poesia, mas estava disposto a fazer sobre romances? Sim, do ponto de vista do leitor, como se eu fosse um leitor, já que no fundo o crítico é um leitor. No entanto, é um leitor que tem o direito de publicar a sua opinião. Essa é, suponho, a diferença mais visível que há entre um e outro. E é verdade que numa dessas críticas eu escrevi que a literatura não é uma carreira. Depois de 30 anos, e com tudo o que aconteceu na minha vida, parece que há uma contradição entre a minha vida e essa afirmação, porque eu vivo do que escrevo. Mas não tenho os tipos de obrigações de um trabalho, não tenho ações, não tenho bens, não tenho nada senão o que pode ser posto sobre a mesa, o que escrevo. Eu nunca me lancei a isso que chamamos uma carreira de escritor. Entendo que uma pessoa se lance a uma carreira de advogado, médico, engenheiro ou algo parecido porque isso significa que se preparou para exercer uma atividade profissional e, portanto, está nisso e vai trabalhar nisso. Os médicos precisam de doentes, mas estão certos de que doentes sempre existirão, não? E, portanto, estão certos de que podem abrir o seu consultório para recebê-los. Esses, sim, podem falar de uma carreira.
De repente, amanhã pode ser que eu não tenha nenhuma idéia para um livro e se isso acontecer eu deixarei de escrever. E o fato de que eu esteja vivendo da literatura, porque é verdade, não significa que eu não escreva nada de que eu necessite escrever como homem. Isto é, eu não posso viver sendo duas pessoas em uma – a pessoa corrente e normal, que, afinal, sou, e uma entidade, um pouco estranha, que se chama escritor. Esses dois não vivem lado a lado, são um apenas, estão fundidos um no outro. E se o homem não tem nada para dizer como homem, também não terá nada para dizer como escritor. Se isso acontecer, e eu já disse isso, me calarei. E poderia ter acontecido de eu me calar depois do Memorial do Convento, do Ano da Morte de Ricardo Reis, da História do Cerco de Lisboa, ou do Evangelho Segundo Jesus Cristo. Poderia não ter tido mais nenhuma ideia, e fim. E é verdade que, cada vez que eu termino um romance, não tenho nenhuma outra ideia e fico esperando para ver o que acontece. Pode levar um mês, dois, três, seis meses, até me ocorrer uma ideia. Eu acho que os que me leem perceberam que os meus livros não se repetem. Eles percebem que o autor é este pela forma de narrar, pelas preocupações que expressa, mas cada livro contém alguma coisa que aí se acaba. E isso tudo é o contrário do que se necessitaria para uma carreira. Para uma carreira, o conveniente seria explorar os filões encontrados para que ela pudesse se desenvolver, não? Mas eu fico assim, sem enredo, esperando para ver o que acontece.
Você disse que não teve uma educação formal em literatura, que foi um leitor. Mas eu lhe peço que comente a importância que tiveram a atividade crítica que você exerceu e a atividade de tradutor nesse período de formação, de autoaprendizagem.
É preciso dizer algo que ainda não foi dito e que deve ser considerado. Se eu, aos 20 e poucos anos, escrevi um romance, foi porque alguma coisa eu tinha lido. E tinha lido muitíssimo. Onde? Nas bibliotecas públicas. Entre 16 e 22 anos, eu fui um leitor noturno, porque tinha que trabalhar de dia, ia a uma biblioteca pública de uma cidade pequena e lia tudo o que encontrava. Às vezes, não entendia nada, ou quase nada, de alguns livros que lia; não tinha ninguém que me dissesse: esse agora não convém, é melhor que você leia esse outro. Mas, de qualquer modo, com todos disparates, erros e incompreensões, creio que pude ler uma gama bastante ampla de autores. Eu diria que Terra do Pecado, por um lado, funcionou como uma sedimentação de leituras; pode-se dizer que não há nada de original ali, mas, se não somos Rimbaud, o que entendemos por “original” aos 20 e poucos anos?
Você pergunta se o fato de fazer traduções influiu em alguma coisa. Não, em nada, nada, nada… É muito diferente sentar- se para traduzir uma obra pelo desejo de traduzi la, por vontade própria e, então, desfrutar do trabalho de tradução, buscando as funções mais adequadas e tudo isso… Mas eu não traduzi por gosto, por prazer; eu traduzi para ganhar a vida e traduzi de tudo: livros de política, de economia, de arte, romances, coisas tontas como uns livros de um senhor chamado Jivkov, que era búlgaro, secretário-geral do Partido Comunista da Bulgária e ao mesmo tempo presidente, e eu tive que traduzir coisas dessas. Com isso não aprendi nada. Mas claro que há outro tipo de aprendizagem. Quando tive que traduzir Bonnard, aprendi muito. Mas não aprendi a escrever e acho que quem tem que traduzir nas mesmas condições e circunstâncias que eu corre o risco de ter a sua escrita prejudicada pela variedade de estilos, de modos de narrar dos diferentes autores que tem que traduzir. Então, posso dizer que não aprendi nada. Agora, acho que aprendi a escrever porque li muito. Sempre li muito, desde menino, desde adolescente, ia à biblioteca pública para ler, para ler e nada mais, e no dia seguinte tinha que me levantar cedíssimo para ir à oficina onde estava trabalhando. Não estou idealizando a minha vida, não estou fazendo romantismo barato e falso, estou falando de fatos e nada mais; sem cair na tentação de exagerar para uma vida extraordinária, senão o contrário.
Eu comecei por esse romance, depois a poesia, depois a crônica, depois fiz um pouco de teatro. Mas o teatro não foi por uma iniciativa minha. Eu tenho quatro obras de teatro, todas elas foram representadas, e aparentemente eu poderia dizer: sou dramaturgo. Não, não sou, eu não me vejo como dramaturgo. Romancista, sim; mas depois de todas essas experiências e de tudo isso. Mas talvez o romancista que sou deva algo a uma circunstância que a que ver com uma obra da qual não se fala muito, e é uma pena que não se fale muito dela, que é esse romance que publiquei em 1980 e que se chama Levantado do Chão. Em 1975, como disse, fiquei sem trabalho. Em 1976, eu estava no Alentejo, no sul de Portugal. Eu venho de uma família de camponeses pobres, sem terra, do norte de Lisboa, a uns 100 km, mais precisamente do nordeste; e, nessas alturas, quando eu estava com essas dúvida – “o que vou fazer da minha vida? escrevo, não escrevo? como? o quê? para quem? e com que meios?” –, veio-me a idéia de escrever algo sobre a minha gente – avós, pais –, que viveu no campo nas condições que os mais velhos aqui podem imaginar, se viveram no campo há 40, 50, 60, 70, 100 anos: saberão o que é isso. E eu soube, não muito profundamente, mas, de qualquer forma, soube. O estranho é que eu deveria ir diretamente aos meus lugares, à minha cidade, e ficar ali, mas, talvez porque eu conhecesse muito bem tudo isso, não queria escrever sobre isso. Então, fui ao Alentejo em 1976 e fiquei lá dois meses, falando com as pessoas, indo ao campo onde trabalhavam, comendo com eles, dormindo com eles. E voltei, depois, por mais algumas semanas. Portanto, juntei uma quantidade de idéias, informações, histórias e tudo isso. E esse livro foi escrito em 1979 e publicado em 1980. Quer dizer, foram precisos três anos para que eu pudesse escrever esse romance.
Na verdade, durante esse tempo escrevi um livro de relatos curtos, Objeto Quase, e publiquei o Manual de Pintura e Caligrafia. Portanto, estive fazendo algumas coisas. Mas não estava fazendo o que tinha de fazer – agora sei disso, mas naquela época eu não sabia. Porque eu não sabia de uma coisa, muito mais importante do que às vezes se imagina: eu tinha uma história para contar, a história dessa gente, de três gerações de uma família de camponeses do Alentejo, com tudo: a fome, o desemprego, o latifúndio, a polícia, a igreja, tudo. Mas me faltava alguma coisa, me faltava saber como contar isso. Então eu descobri que o como tem tanta importância quanto o quê. Não se pode contar como se não há o que contar, mas pode acontecer de você ter o que e ficar paralisado porque não tem o como. O tema que eu tinha estava claríssimo, era um romance neorrealista, bastavam camponeses, fome, desemprego, luta, tudo isso. E modelos do romance neorrealista português, nós os temos, e grandes romances. Portanto, o molde eu já tinha e só precisava colocar nele a minha própria matéria e, então, já teria o romance. Mas, não, algo dentro de mim dizia: não, não e não; enquanto você não encontrar a sua própria forma, não poderá escrever. Claro que isso eu estou dizendo agora, com certeza vocês não estarão imaginando que naquela época eu conversasse dessa forma comigo mesmo: não, eu não conversava. Mas eu tinha uma barreira que me impedia de ir adiante. Quando eu voltava ao Alentejo e encontrava os amigos que eu tinha feito lá, gente de uma qualidade humana impressionante, eles me perguntavam: e o romance, quando você vai publicá-lo? Eu dizia: é que estou ocupado agora com outros assuntos e tal. Não, na verdade eu estava em pânico [risos]. Em pânico porque eu não tinha o como. Até que, em desespero de causa, pensei: isso não pode ficar assim e tenho de começar a escrever esse romance e comecei a escrevê-lo como um romance normalzinho. E quando eu digo romance normalzinho, e há grandíssimos romances normaizinhos, não estou dizendo nada contra, ao contrário: surpreende-me que numa forma quase canônica possam ser escritos romances magníficos, sem rupturas… Claro que há outros romances magníficos que o são por vários motivos, entre eles porque romperam com convenções e com tudo isso. E comecei a escrever com cada coisa no seu lugar: roteiro e tal… Mas eu não estava gostando nada do que estava fazendo.
Então, o que aconteceu? Na altura da página 24, 25, estava indo bem e por isso eu não estava gostando. E sem perceber, sem parar para pensar, comecei a escrever como todos os meus leitores hoje sabem que eu escrevo: sem pontuação. Sem nenhuma, sem essa parafernália de todos os sinais, de todos os sinais que vamos pondo aí. O que aconteceu? Não sei explicar. Ou, então, tenho uma explicação: se eu estivesse escrevendo um romance urbano, um romance com um tema qualquer de Lisboa, com personagens de Lisboa, isso não aconteceria. E tenho certeza de que hoje estaria escrevendo esses romances como todo mundo – talvez bons, talvez não tão bons, mas estaria acatando respeitosamente toda a convenção do que se chama escritura. Mas alguma coisa aconteceu aí: eu havia estado com essa gente, ouvindo, escutando-os, estavam contando-me as suas vidas, o que tinha acontecido com eles. Então, eu acho que isso aconteceu porque, sem que eu percebesse, é como se, na hora de escrever, eu subitamente me encontrasse no lugar deles, só que agora narrando a eles o que eles me haviam narrado. Eu estava devolvendo pelo mesmo processo, pela oralidade, o que, pela oralidade, eu havia recebido deles. A minha maneira tão peculiar de narrar, se tiver uma raiz, penso que está aqui. Não estou certo de que seja a única, mas com certeza, essa conta.
Quando esse romance foi publicado em Portugal, houve um reboliço porque as pessoas não entendiam nada, inclusive um amigo meu me chamou para dizer: olha, eu sou seu amigo, mas a verdade é que leio três páginas e me perco, eu não entendo o que você diz. E eu disse: você tem em casa um corredor comprido, não? Pois então, acenda a luz à noite e comece a andar de um lado para o outro no corredor, lendo em voz alta. Se você ler em voz alta, vai ver o que acontece. Da mesma forma que, quando nos comunicamos oralmente, não necessitamos nem de travessões, nem de pontinhos, nem nada do que parece necessário usar quando escrevemos, pois então, você, como leitor, colocará aí, não o que falta, porque não falta nada… A palavra escrita num livro é uma palavra morta; quando fazemos a leitura silenciosa, não está morta, acorda um pouquinho; mas a palavra só fica acordada quando a dizemos. Para que a palavra soe desperta é preciso dizê-la; ler silenciosamente as palavras não é suficiente. E nós todos sabemos que, quando se lê poesia, fazer uma leitura silenciosa de uma poesia ou fazer uma leitura em voz alta dela são dois mundos completamente diferentes.
Quando eu digo ao meu leitor “você tem que ler escutando dentro da sua cabeça a voz que está dizendo”, isso se aplica ao autor. Eu começo um romance, um conto, um relato, ou algo assim, mas enquanto não ouço dentro da minha cabeça a voz que está dizendo, o texto não avança. A prosa fica ali, parada. Tem que soar dentro. E é ainda bastante estranho que isso aconteça, porque parece que não percebemos que no fundo falar e fazer música é a mesma coisa, exatamente a mesma coisa. Fala-se e faz-se música com os mesmos ingredientes: sons e pausas, nada mais. Toda música pode ser reduzida a isso: sons e pausas. Toda palavra, ou todo discurso, pode ser reduzido a isso, som e pausa. Mas, da mesma forma que a música necessita de uma espécie de suporte rítmico que a conduza – não estou muito certo disso, mas estou falando de outras músicas –, o próprio discurso, que está sendo escrito, talvez dele necessite.
Eu gostaria que você falasse sobre o romance, ou melhor, sobre o exercício da prosa de ficção por meio do romance: o exercício desse imaginário no mundo contemporâneo. O que é isso? Qual a sua importância?
O que é hoje para mim ficção? É como uma voz, tudo é uma voz, diria o poeta, o dramaturgo, na circunstância em que eu falei antes. Ocorre que a voz, no meu caso, tem toda a importância do mundo. No meu caso, o homem e o escritor, como eu disse antes, não apenas estão juntos, mas estão fundidos um no outro. Então eu diria que a ficção para mim, hoje, não sendo uma carreira, é o recurso que eu tenho para expressar minhas dúvidas, minhas perplexidades, minhas ilusões, minhas decepções. Não no sentido de uma literatura confessional. A preocupação que eu tenho é esta: Em que mundo estou vivendo? Que mundo é este? O que são as relações humanas? O que é essa história de sermos o que chamamos a humanidade? O que é isso de ser Humanidade? Ter encontrado para essa ficção uma forma pessoal de narrar, que é a minha, acho que esse meu privilégio – eu não sei como nem a quem pagá-lo – de haver podido chegar a ter uma voz própria para narrar o que tenho para narrar não tem preço. Agora, isso tudo depois passa por uma quantidade, porque o meu processo narrativo, que nasce com Levantado do Chão e que aparentemente se repete em todos os outros romances, repete o essencial, mas há mudanças, adaptações ao próprio tema, à própria história que está sendo contada. Eu estou percebendo que, depois de uma expressão bem mais barroca como é o caso do Memorial do Convento, talvez por interferência do próprio século 18 em que tudo acontece, estou me aproximando cada vez mais de uma narrativa seca, cada vez mais seca. Encontrei, outro dia, uma fórmula que me parece boa, é como se durante todo esse tempo eu estivesse descrevendo uma estátua – o rosto, o nariz – e agora eu me interessasse muito mais pela pedra de que se faz a estátua. Quer dizer, já descrevi a estátua, todo mundo já sabe que estátua é essa que eu estive descrevendo desde Levantado do Chão até o Evangelho Segundo Jesus Cristo. A partir de Ensaio Sobre a Cegueira, em Todos os Nomes e no próximo romance, se o escrever, trato da pedra."
"Horácio Costa é poeta, tradutor, crítico literário e professor da FFLCH-USP"


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

"Saramago na parede" por José Castello - Sobre a obra inacabada “Alabardas, alarbardas, epingardas, espingardas” (25/10/2014)

A artigo pode ser recuperado e consultado aqui
em http://blogs.oglobo.globo.com/jose-castello/post/saramago-na-parede-553229.html

"Saramago na parede", de José Castello (25/10/2014)

"Toda ficção tem seus pontos de atrito. Núcleos explosivos, eles, em geral, desvelam grandes impasses. Resumem, assim, aqueles impulsos essenciais que se derramam ao longo de todo o relato. Já no primeiro capítulo de “Alabardas, alarbardas, epingardas, espingardas”, último e inacabado romance de José Saramago (Companhia das Letras, ilustrações de Gunter Grass), encontro aquele ponto de convergência — espécie de caroço — que resume o próprio livro. Funcionário de uma indústria de armamentos, a Belona SA, o protagonista Artur Paz Semedo orgulha-se de seu trabalho. Esse orgulho é, ao mesmo tempo, a causa de sua solidão. Depois de um longo casamento, sua mulher Felícia, uma militante pacifista, não suporta a contradição que traz em sua vida doméstica, e o abandona.

Apaixonado pela perfeição das armas que ajuda a produzir, Semedo é também um admirador dos filmes de guerra. Um dia, assiste a “A esperança”, obra sobre a guerra civil espanhola, rodada no fim dos anos 1930 e inspirada no romance homônimo de André Malraux. Não é um entusiasta da leitura, mas, estimulado pelo filme, decide ler o romance. “Mal sabia ele, pobre coitado, o que o esperava”. Uma brevíssima passagem o detém. “O comissário da nova companhia pôs-se de pé: ‘Aos operários fuzilados em Milão por terem sabotado obuses, hurra’”. Ali, onde não esperava, Semedo prova o gosto áspero do paradoxo. Primeiro é invadido por um incontrolável sentimento de piedade pelos sabotadores fuzilados. Ao mesmo tempo, é devastado pela repulsa à sabotagem, expressa em uma frase que diz sem pensar: “Não se podem queixar, tiveram o que procuraram, quem semeia ventos colhe furacões”. A piedade difusa se transmuta em irritação. É um funcionário “tão afeiçoado a instrumentos bélicos que não podia suportar a simples idéia de que alguém se atrevesse a sabotá-los”.

A cisão vem à tona, áspera ferida, rasgando a precária estabilidade da vida de Artur Semedo. Nesse momento, o personagem de José Saramago se aproxima do humano. Toma a sabotagem como uma ofensa pessoal. Isso se mistura à misericórdia pelos operários. Semedo descobre, nesse momento, que tem dois corações, e pior: que eles, em vez de se complementarem, se negam e repudiam. Também o leitor de Saramago — eu mesmo — nesse momento se vê diante de um impasse. Já não pode se identificar com o personagem, porque não sabe, ao certo, quem ele é. Não pode negá-lo — porque, provavelmente, com ele divide sentimentos parecidos. Mas não pode nele se espelhar — porque a imagem em que se reflete vem despedaçada.

“O sentir humano é uma espécie de caleidoscópio instável”, relata Saramago. “A realidade do que aconteceu na cabeça de Artur Paz Semedo foi diferente, a comiseração, a falta de piedade e a irritação, ainda que centradas em si mesmas, tinham aparecido misturadas”. Alguém se torna humano não quando corresponde, ponto a ponto, aos modelos “naturais”, mas, ao contrário, quando deles se desvia. O caleidoscópio — artefato óptico em que o jogo de imagens se produz por reflexo — resume, de modo preciso, mas ameaçador, a mente humana. A turbulência dos sentimentos o engolfa. “Foram eles que levaram Artur Paz Semedo a não continuar a ler o livro de Malraux”. De nada serve ler ingenuamente. Há sempre o momento em que tropeçamos em um impasse. Momento em que toda esperança de explicação e ordem se desfaz.

O próprio Semedo se encarrega de telefonar para a mulher para admitir que está “com o espírito confuso”. Recorda, então, que, já perto do fim do livro de Malraux, há uma referência a uns operários que foram fuzilados em Milão por terem sabotado obuses. Comenta Felícia que foi um ato justo, “já que estavam contra a guerra”. Com o interior aos frangalhos, Semedo, ainda assim, reage. A mulher reclama de sua “falsa virtude ofendida”. Ele rebate dizendo que “o que faço é defender o meu trabalho”. Não é fácil para um homem admitir que faz aquilo que, embora se orgulhe, também o repugna. Semedo está em um impasse: é contra o fuzilamento, mas também contra a sabotagem. A incoerência de seus pensamentos o asfixia.

Livros são iscas — e, nesse ponto, evocam a realidade, que sempre nos encosta contra a parede. Lembro-me do dia em que Saramago me acompanhou em um passeio pelo parque dos vulcões de Timanfaya, no coração da ilha de Lanzarote, Canárias, onde vivia. O parque, com seu terreno ressecado e cinzento, evoca a face da Lua. Mas não de um satélite morto como o nosso, e sim de uma Lua viva, sobre a qual ardem milhares de pequenos vulcões. Turistas usam algumas dessas bocas de fogo para assar seus churrascos. O ato, banal, não serve para esconder o horror que nelas se guarda. Saramago me disse: “o sentimento mais forte nesse parque é a estranheza”. De fato, a mistura de relaxamento e medo, de acolhimento e ataque, essa incompatibilidade de sensações, é algo inesquecível. Nela o parque se afirma. Ali o real expõe, enfim, sua ferida. Da brutalidade — uma terra em fogo — tira-se não o horror, mas o prazer. E, contudo, a ilha queima e lateja. Aquilo não é só uma ficção.

Também as narrativas, como os escritores, chegam a um momento em que o impasse formal se cristaliza em subjetividade. Em uma antiga entrevista a Ángel Crespo, Saramago nos diz: “O que ocorre é que, talvez, há um momento chave no qual o sujeito se aceita a si mesmo”. E mais para frente, recordando o momento em que se encontrou como escritor: “Eu me dei conta de que o melhor para mim era ser o que era. Foi quando aceitei meus limites, todos os meus limites, e quando compreendi que a única solução que me restava era me aprofundar no espaço de meus limites, e não pensar em ir além”. O ser é não uma soma — uma síntese —, mas, ao contrário, a cristalização de um paradoxo. Não se trata, portanto, de um momento de solução — talvez, ao contrário, seja um momento de dissolução. Decomposição de ideais e de projetos de perfeição. É um momento que também o leitor, desamparado, experimenta. Nele, os sentimentos, em vez de clarear, se obscurecem. As partes, em vez de se completarem, entram em conflito. E o personagem, enfim, deixa de ser uma síntese morta para se tornar vivo."

"Baltasar Garzón 2" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (12/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/16449.html

Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

"Baltasar Garzón, 2"
"O juiz Baltasar Garzón deixou em Lisboa uma lição do que é ou deve ser o Direito. A verdade é que, em sentido estrito, do que se falou no acto organizado pela Fundação foi de Justiça. E de sentido comum: dos delitos que não podem ficar impunes, das vítimas a quem tem de ser dada satisfação, dos tribunais que têm de levantar alcatifas para ver o que há por baixo do horror. Porque muitas vezes, por baixo do horror, há interesses económicos, delitos claramente identificados perpetrados por pessoas e grupos concretos que não podem ser ignorados em Estados que se proclaman de direito. Quem sabe se os responsáveis dos crimes contra a humanidade, que de outra forma não posso chamar a esta crise financeira e económica internacional, não acabarão processados, como o foram Pinochet ou Videla ou outros ditadores terríveis que tanta dor espalharam? Quem sabe?
O juiz Baltasar Garzón fez-nos compreender a importância de não cair na vileza uma vez para não ficar para sempre vil. Quem conculca uma vez os direitos humanos, em Guantánamo, por exemplo, atira pela borda fora anos de direito e de legalidade. Não se pode ser cúmplice do caos internacional com que a administração Bush infectou meio mundo. Nem os governos, nem os cidadãos.
Um auditório multitudinário e atento seguiu as intervenções do juiz com respeito e consideração. E aplaudiu como quem ouve não verdades reveladas, mas sim a voz efectiva de que o mundo necessita para não cair em na permissividade da abjecção.
A Fundação está contente: fizemos o que pudemos para recordar que há uma Declaração de Direitos Humanos, que estes não são respeitados e que os cidadãos têm de exigir que não se tornem em letra morta. Baltasar Garzón cumpriu a sua parte e tê-lo posto a claro esta tarde em Lisboa só pode fazer com que nos felicitemos."

domingo, 11 de dezembro de 2016

"Baltasar Garzón" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (11/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/16228.html

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

"Baltasar Garzón"
"Apesar do tempo agreste, com chuva a espaços e frio, o cinema estava cheio. Carmen Castillo temia que as duas horas e meia de projecção do seu documentário acabassem por fazer desanimar a assistência, mas não foi assim. Nem uma só pessoa se levantou para sair e, no final, com os espectadores rendidos à força das imagens e aos testemunhos estremecedores dos membros do M.I.R sobreviventes da ditadura, Carmen foi aplaudida de pé. Nós, os da Fundação, estávamos orgulhosos daquele público. Havia confiança, mas a realidade excedeu as previsões mais optimistas.À hora a que escrevo, mais de duzentos mil exemplares da Declaração Universal dos Direitos Humanos circulam nas mãos de outros tantos leitores dos jornais Diário de Notícias, de Lisboa, e Jornal de Notícias, do Porto. E hoje, dia 11, será a vez de Baltasar Garzón, que vem expressamente de Madrid para falar de direitos humanos, de Chile e de Guantánamo. Tal como a homenagem às Letras Portuguesas que se realizou ao fim da tarde com grande êxito, a conferência de Garzón será na Casa do Alentejo, às 18 horas. É uma boa ocasião para aprender. Sim, para aprender."

Documentário realizado pelo PCP em homenagem a José Saramago (2008)

Pode ser visualizado e recuperado aqui, via YouTube,

"Homenagem do Partido Comunista Português a José Saramago por ocasião do 10.º aniversário da atribuição do Prémio Nobel da Literatura.
Com a presença de José Casanova, Louzã Henriques, Fernanda Lapa, José Santa-Bárbara, Baptista-Bastos, Joaquim Benite, José Sucena, Maria do Céu Guerra, Carmen Santos, Carlos do Carmo e Jerónimo de Sousa."
2.ª Parte
Pode ser visualizado e recuperado aqui, via YouTube,

3.ª Parte
Pode ser visualizado e recuperado aqui, via YouTube,



sábado, 10 de dezembro de 2016

Na data em que se assinalam os 18 anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura (1998)

O momento da entrega do Diploma e Medalha, 
símbolos máximos e representativos da atribuição do Prémio Nobel

"Concert Hall" em Estocolmo - Suécia 
10 de Dezembro de 1998

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Recuperação do discurso de José Saramago, pode ser consultado aqui via FJS 

"Discurso pronunciado por José Saramago no dia 10 de dezembro de 1998 no banquete do Prémio Nobel

Há 16 anos José Saramago recebia o Prémio Nobel de Literatura em Estocolmo. Abaixo, o discurso proferido pelo escritor durante o banquete.

Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto."



"Homenagem" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (10/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/15933.html

Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

"Homenagem"
"Hoje, o encontro é na Casa do Alentejo, às 6 da tarde. Como se refere no título, trata-se de uma homenagem. Homenagem a quem? A ninguém em particular, pois que ela contemplará as próprias Letras Portuguesas na sua totalidade, por assim dizer de A a Z, celebradas num acto de canto e de leituras a cargo de vinte escritores, actores e jornalistas que, generosamente, puseram o seu tempo e o seu talento ao serviço de uma ideia nascida na Fundação. O dia escolhido, este 10 de Dezembro de 2008, rememora a entrega do Prémio Nobel a um escritor português que, no seu discurso de agradecimento, entendeu dever partilhar a distinção não só com todos os escritores seus contemporâneos, sem excepção, mas também com os que nos antecederam, aqueles que, no dizer de Camões, da lei da morte se libertaram. Serão lidos ou cantados textos dos seguintes autores: Antero de Quental, Padre António Vieira, Vitorino Nemésio, José Cardoso Pires, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner, Pedro Homem de Mello, Miguel Torga, Eça de Queiroz, Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Ary dos Santos, Camilo Castelo Branco, Manuel da Fonseca, Almada Negreiros, José Gomes Ferreira, Teixeira de Pascoaes, Raul Brandão, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Aquilino Ribeiro, Almeida Garrett, Luís de Camões, Carlos de Oliveira e Fernando Namora. Um verdadeiro quadro de honra que a todos deve honrar-nos."

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

"A obra de José Saramago no cinema" análise de Pedro Fernandes no "Letras in.verso e re.verso" (02/08/2010)

O estudioso e académico brasileiro Pedro Fernandes, publicou uma interessante critica sobre as incursões cinematográficas a algumas obras de José Saramago. O documento embora datado do mês de Agosto de 2010 mantém a sua validade e actualidade.
Vale a pena recuperar e ler, como introdução ao visionamento dos filmes.   

O artigo pode ser recuperado e consultado aqui
em, http://letrasinversoreverso.blogspot.pt/2010/08/a-obra-de-jose-saramago-no-cinema.html?m=1#.V6ktdz-1FR8.flipboard

"A obra de José Saramago no cinema", de Pedro Fernandes (02/08/2010)

"Cena de Ensaio sobre a cegueira, a melhor adaptação 
de uma obra de José Saramago para o cinema."

"Perfazendo um caminho pelas sendas do plano virtual motivado por quatro textos de José Saramago que ganharam adaptação para as telas do cinema (A jangada de pedra, Ensaio sobre a cegueira, A maior flor do mundo e o recente O embargo), descubro o quanto o escritor português mantém uma relação sólida com outros meios artísticos. Sim, porque além das produções cinematográficas perdemos as contas sobre as adaptações de sua obra para o teatro, a dança, as artes plásticas e outras manifestações artísticas. No final desta post, deixo um link para deixá-lo a parte dessas adaptações ou maneiras outras de se aproximar de uma literatura rica e indispensável no currículo de qualquer leitor. E, agora apresento, um a um os filmes já produzidos a partir da literatura de Saramago. Convém dizer que esta lista é aberta e, enquanto este blog viver, e tão logo surjam outras adaptações, volto aqui para atualizá-la.

A jangada de pedra, de George Sluizer (2002): O título de destaque na carreira do cineasta foi O homem que queria saber, a adaptação do romance policial de Tim Krabbé sobre um homem que perde sua noiva numa viagem e, três anos depois, recebe o contato do raptor. Se deu certo com essa adaptação o mesmo não se pode dizer com a releitura do livro de Saramago; o diretor prende-se em transformar a obra num filme discreto e tentando seguir à risca o desenhado pelo romance. O resultado é, apesar de certo zelo com o texto original, um texto moroso que não consegue passar a tela a dimensão mágica da obra saramaguiana. De todo modo, foi a primeira adaptação de um texto de Saramago para o cinema; e, possivelmente, pelo fruto do resultado com Sluizer, o escritor sentiu-se impelido a que não o adaptasse mais para as telas, resistência que só será rompida quase dez mais tarde com a autorização para que Fernando Meirelles adaptasse Ensaio sobre a cegueira.

"Todas as características peculiares do conto infantil de 
José Saramago são perfeitamente desenhadas 
nesse primoroso curta-metragem de Juan Pablo Echeverry."

"A maior flor do mundo, de Juan Pablo Etcheverry (2007): Bem ao contrário, do filme de Sluizer, o cineasta soube desenhar e captar a dimensão desse conto escrito para crianças - o único do gênero na carreira literária de Saramago. No enredo, o próprio escritor transforma-se em personagem, como o escritor que conta a ideia que teve de um dia escrever uma história para crianças. A maior flor do mundo é como uma narrativa que foi inventada mas permanece irrealizada porque, no final, a personagem-escritor vê-se incapaz da escrita para os mais pequenos. Mas, é justamente sobre a impossibilidade de narrar completada pela possibilidade da figura desse menino de fazer algo que signifique para sua infância (este é já o plano do que seria inventado pelo narrador) que torna o texto numa obra singela pela sinceridade e marcada por um apelo moral dos mais necessários às crianças de um tempo já distanciadas do universo fabular dos contos clássicos. O curta-metragem feito com massa de modelar é o próprio texto de Saramago em movimento. E um detalhe especial da adaptação do espanhol foi preservar a figura do escritor que empresta a voz como um narrador em off. Um encanto! A peça já foi premiada em vários festivais ao redor do mundo.

Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles (2008): O filme nasceu de uma obsessão. O cineasta brasileiro, já premiado ao redor do mundo pela adaptação do romance Cidade de Deus, de Paulo Lins e do romance O jardineiro fiel, de John Le Carré, depois de ler o livro de José Saramago decidiu prontamente que gostaria de vê-lo na grande tela. O projeto levado ao escritor teve o rumo contrário de outras tentativas já ensaiadas por diretores sobre outras obras suas; Saramago autorizou a adaptação e, como figura honesta sobre as limitações com o gênero, deixou Meirelles livre na leitura. O filme abriu o Festival de Cannes no ano de lançamento e arrancou elogios e lágrimas do português. Também pudera! A leitura é, de todas as já feitas para o cinema até então, a mais original. O diretor não apenas imergiu na obra, como, assim fez Juan Pablo Etcheverry, conseguiu expor toda força da narrativa em forma de imagem. Produção fotográfica e de som são duas características à parte e, por vezes, até a voz do narrador tão característica de Saramago, não deixa de dar forma à obra.

O embargo, de António Ferreira (2010): O conto que deu morte para o diretor português foi publicado em 1973 pela Estúdios Cor com o mesmo título do filme. Depois, Saramago incluiu o texto na única coletânea de contos até então editada, Objecto quase. Pautado no inusitado (um dia um homem sai para o trabalho e descobre-se que ficou grudado no banco do carro e não consegue mais sair da posição de motorista, quando, na cidade vive-se um embargo para a venda de combustível), a elaboração do roteiro para um longa, tal como se propôs o António Ferreira, exigiu do roteirista a inserção de uma série de outras situações que não estão no texto original. Ainda que o cuidado em deixar passar para o telespectador aquilo que está expresso no conto seja muito visível, a sensação que fica é a de uma história que não consegue manter o ritmo e se sustentar até o fim com o mesmo fôlego com que começa. Tal como A jangada de pedra o título deixa a desejar pela morosidade onde não devia existir morosidade. Ainda assim, é um texto que tomou para si um desafio: alongar-se para dizer o que Saramago disse (muito melhor) em poucas páginas e conseguiu conclui-lo."

"Para transpor uma obra como a de José Saramago há que se ter, 
de tudo, sensibilidade. O filme de Denis Villeneuve despreza isso 
e se torna ao lado de outras produções somente uma leitura que não deu certo."

"O homem duplicado, de Denis Villeneuve (2014): Apesar de ser o autor de filmes sempre elogiados pela crítica (Os suspeitos ou Incêndios), o diretor canadense erra na mão ao transpor para a tela o romance de Saramago. Claro, constrói um enredo muito elaborado, não se descuida de preservar o centro da obra, mas não convence o telespectador de que tenha, tal como conseguiu Juan Pablo Etcheverry e Fernando Meirelles, captado a essência do texto do escritor português. Um exemplo? A inserção do tema da teia, materializado na forma da aranha que se transmuta na perfil da mulher fatal. Essa constatação, aliás, abre-se como uma discrepância gigantesca entre a representação criada por Villeneuve e a criada por José Saramago sobre o feminino. O próprio escritor reiteradas vezes disse repudiar qualquer artifício utilizado para designar a mulher seja como condição superior ou inferior ao homem, seja como fenômeno. Numa escala entre os títulos já transpostos para o cinema, a produção do canadense ficaria logo depois da de Sluizer. Não alcança sequer o António Ferreira, porque o texto de Villeneuve precisou de acréscimos para um texto que já tem a medida a certa, aliás, é um romance, não um conto. E a impressão que fica é que apenas a dorsal da obra foi aproveitada num texto que se intitulou ingenuamente do mesmo título de José Saramago."

Ligações a esta post:
Leia mais sobre o filme de George Sluize

Leia sobre o romance A jangada de pedra

Leia mais sobre o livro A maior flor do mundo e assista ao curta de Juan Pablo

Leia mais sobre o filme de Fernando Meirelles

Leia sobre o romance Ensaio sobre a cegueira

Leia mais sobre o filme de António Ferreira

Leia mais sobre o filme de Denis Villeneuve

Leia sobre o romance O homem duplicado

Assinalando os 30 anos da obra "A Jangada de Pedra" - Recuperação do filme baseado na obra

Capa da edição traduzida na Turquia


Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Sinopse da obra publicada na página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/jangada-de-pedra-1986/

«Em “A Jangada de Pedra” (…) o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.» (Real Academia Sueca, 8 de Outubro de 1998)

Imagem retirada do filme

"Calle Santa Fe" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (09/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/15618.html

Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

"Calle Santa Fe"
"A rua existe, está em Santiago de Chile. Ali, os esbirros de Pinochet cercaram um casa térrea onde viviam (melhor será dizer que se refugiavam) Carmen Castillo e o seu companheiro de vida e de acção política Miguel Enríquez, dirigente principal do M.I.R, sigla do Movimiento de Izquierda Revolucionario que havia apoiado e colaborado com Salvador Allende e agora era objecto da perseguição do poder militar que havia traído a democracia e se preparava para estabelecer uma das mais ferozes ditaduras que a América do Sul teve a desgraça de conhecer. Miguel Enriquez foi morto, gravemente ferida Carmen Castillo, que estava grávida. Muitos anos depois, Carmen vem recordar e reconstituir esses dias num documentário de impressionante sinceridade e realismo que teremos o privilégio de ver esta noite no cinema King. Documentário que é, ao mesmo tempo, graças ao saber e à sensibilidade da sua realizadora, cinema da mais alta qualidade. Até logo, pois."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Já disponível a edição de "O conto da ilha desconhecida" em formato e-book com ilustração de Juergen Cannes


O post da Companhia das Letras pode ser consultado aqui para pesquisar as várias formas de acesso:

Os trabalhos do autor Juergen Cannes, aqui em https://www.facebook.com/sailor.juergen/

"Já está disponível o e-book de "O conto da ilha desconhecida", de José Saramago, uma edição especial ilustrada por Juergen Cannes.

Um homem vai ao rei e lhe pede um barco para viajar até uma ilha desconhecida. O rei lhe pergunta como pode saber que essa ilha existe, já que é desconhecida. O homem argumenta que assim são todas as ilhas até que alguém desembarque nelas. Este pequeno conto de José Saramago pode ser lido como uma parábola do sonho realizado, isto é, como um canto de otimismo em que a vontade ou a obstinação fazem a fantasia ancorar em porto seguro."

Acto da doação do espólio de José Saramago - 10/12/2016, 16h30m na Biblioteca Nacional de Portugal



Comemorações do 15.º aniversário da Biblioteca Municipal José Saramago (Loures)

A notícia do evento pode ser recuperada e consultada aqui 
em http://www.cm-loures.pt/Conteudo.aspx?DisplayId=2515

"Dando início às comemorações do 15.º aniversário da BMJS, o vice-presidente da Câmara Municipal de Loures, Paulo Piteira, começou por ler uma carta de Fundação José Saramago, que se demonstrou reconhecida pelo nome do escritor estar associado a esta Biblioteca.
Paulo Piteira afirmou ser “um dia muito feliz para quem trabalha nesta casa da cultura que pertence à população” e “que tem prestado um grande serviço à comunidade”, sendo “um espaço de literacia” que “possibilita o acesso à cultura, ao lazer e ao saber”.
O vice-presidente destacou o trabalho desenvolvido ao longo de 15 anos, evidenciando a vertente social, com o “trabalho muito estreito com as crianças” e “em que temos procurado apoiar as atividades de outras bibliotecas e coletividades”.



“Este ano é particularmente feliz porque inaugurámos a Biblioteca Municipal Ary dos Santos, que passou a servir toda a área oriental do concelho” e “hoje podemos sentir-nos orgulhosos do percurso que temos feito no Município”, afirmou Paulo Piteira, que realçou a “importância que o poder local tem no país, na altura em que festejamos 40 anos de democracia autárquica”.
Com a leitura de um excerto de Levantado do Chão, uma das obras fundamentais de José Saramago, Paulo Piteira, terminou a sua intervenção dedicada aos 15 anos de existência da BMJS.
Cerca de uma centena de pessoas assistiu à inauguração da exposição de artes plásticas Units of Order, de Mónica Capucho, que explicou ter optado “por materiais de construção que se integrassem no espaço da biblioteca” e na qual utilizou “jogos de linguagem”. A exposição está patente até 28 de janeiro de 2017, nos espaços da biblioteca.

Carlos Marques e o "Grupo Algures Colectivo de Criação"

"Seguiu-se, na sala Multiusos, o concerto-teatral Levantei-me do Chão, baseado nas obras de José Saramago, interpretado por Carlos Marques, do grupo Algures, Coletivo de Criação. As comemorações do aniversário terminaram com os elementos do Entrelinhas, comunidade que utiliza a biblioteca como espaço de convívio e trabalho, a lerem um poema e a cantarem os parabéns à BMJS."

"Um conto de fadas desencantado" de Bernardo Carvalho baseado no conto "O Lagarto"

O texto de análise de Bernardo Carvalho foi publicado no "Blog da Letrinhas" e pode ser recuperado e consultado aqui em http://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/Um-conto-de-fadas-desencantado

Mais informações sobre a editora que edita a obra de José Saramago no Brasil, pode ser acedida em http://www.blogdacompanhia.com.br/ e http://www.companhiadasletras.com.br/

"Um conto de fadas desencantado" por Bernardo Carvalho

"Desde criança, ouço dizer que a literatura de cordel é um vestígio da Idade Média. Daí que não podia imaginar outra coisa além de uma história medieval quando soube da edição de um conto de fadas escrito por José Saramago e ilustrado por J. Borges, mestre pernambucano da xilogravura e da literatura de cordel. Na verdade, o conto de Saramago não tem nada de fadas. O autor toma a precaução de deixar isso bem claro logo no primeiro parágrafo. Ninguém mais acredita em fadas.

O lagarto do título é o que nos resta do dragão. De imaginário e extraordinário na sua existência há apenas o fato de aparecer de repente numa rua de Lisboa. Saramago, homem da razão num tempo em que a razão dá sinais de fraquejar, tenta resistir como pode. Alerta que sua história é o que hoje cabe à nossa desilusão: um conto sem fadas. Até a metamorfose simbólica do lagarto, cercado de polícias nas ruas de Lisboa, estará limitada ao que pode haver de menos imaginário e menos mágico (o vermelho sangue) para terminar na imagem surrada de uma pomba, representação inverossímil da paz onde tudo a contradiz.

Imagem do trabalho em xilogravura de J. Borges 

"O lagarto é um oximoro: um conto de fadas desencantado. É o esforço de um sopro de utopia onde a imaginação já não se aguenta em pé, constrangida pelo lugar-comum. E é por isso que as ilustrações de J. Borges ganham aí um papel ainda mais encantador, porque continuam aludindo, sem pudor nem medo, a um universo mágico que já não pode existir. Como nos quadros de Bruegel, são vestígios do encanto possível, não de fadas, mas do homem comum, num tempo que insiste em nos impor o clichê medieval das trevas."

***

"Bernardo Carvalho nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. Estreou com Aberração e desde então tem se destacado como um dos melhores escritores contemporâneos brasileiros, traduzido para diversos idiomas. É autor de Simpatia pelo demônio, Nove noites e Reprodução."

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

“Mantener la casa donde se escribió 'Ensayo sobre la ceguera' es para mí un proyecto moral” - Entrevista de Myriam Ybot ("Diario de Lanzarote" 03/12/2016)

Entrevista de Myriam Ybot, do "Diario de Lanzarote" (03/12/2016), pode ser consultada aqui 
em http://www.diariodelanzarote.com/noticia/"mantener-la-casa-donde-se-escribió-ensayo-sobre-la-ceguera-es-para-mí-un-proyecto-moral"

"Pilar del Río, en imágenes de archivo en A Casa. 
Fotos: Felipe de la Cruz."

Pilar del Río (Granada, 1950) recibió el pasado 16 de noviembre el Premio Luso-Español de las Artes en su sexta edición, un reconocimiento de los gobiernos de España y Portugal a personas o entidades que tienden puentes culturales entre ambos países. La ceremonia de entrega de la distinción se llevará a cabo en Lanzarote, donde la periodista y traductora mantiene abierta a la visita A Casa, sede de la Fundación José Saramago y mascarón de proa de la promoción del conocimiento y la obra del Nobel. Pilar del Río atiende a Diario de Lanzarote desde la Feria Internacional del Libro de Guadalajara (México).

- ¿Qué ha supuesto para usted la concesión del Premio Luso-Español de Arte y Cultura 2016? ¿Es un reconocimiento a su trayectoria personal o al trabajo desplegado por la Fundación José Saramago?
- En su declaración, el jurado del Premio dice que se entrega por haber servido de puente entre las culturas. Y los puentes están hechos de muchos materiales, todos necesarios. En este caso, la voluntad de quienes sabemos que vivir con otros es mejor que vivir separados. Personas, obras e instituciones. Entre ellas está la obra de José Saramago, portuguesa y siempre tan atenta a España, y la Fundación. Es decir, somos muchos juntando voluntades para conocernos mejor.

- El Ministerio de Cultura ha informado de que la ceremonia de entrega del Premio se llevará a cabo en Lanzarote. Nuevamente, el Nobel sitúa a la isla en el mapa cultural internacional. ¿Ha sido y es la sociedad conejera consciente de tal privilegio?
- No soy yo quien debe responder a esa pregunta, son otros. O nadie: Hay mucha gente en la isla y en otros lugares que sin duda responderían que a ellos les da igual que una persona singular haya elegido el sitio donde viven para establecerse y crear. He oído decir: “Qué gano yo con eso”. Y es verdad: ¿qué gana Isla Negra con Neruda o Cadaqués con Dali? José Saramago era hijo adoptivo de Lanzarote y de Tías; le nombraron y él aceptó, como aceptó formar parte del Patronato de Honor de la Fundación César Manrique, dejemos eso claro. Y punto.

- En declaraciones públicas, usted ha anunciado que destinará el montante económico del premio a activar la sede en Lanzarote de la Fundación José Saramago. ¿De qué manera piensa hacerlo?
- Mantener la casa donde se escribió “Ensayo sobre la ceguera” o “Las intermitencias de la muerte” es un proyecto moral mío. Mantener ese espacio como casa museo responde a una necesidad que se puede considerar antigua, pasada de moda, como es compartir con otros el mayor bien al que se ha asistido, el milagro de la creación. Mi casa, -y la de mi familia, dicho sea de paso, que aceptó mi decisión pese a la incomodidad que comporta-, está abierta a la visita pública porque se ha producido el don de la generosidad. Que no es necesario entender, basta constatar que existe, que hay quien comparte lo que tiene. Claro que este premio asegura algo más de vida a un proyecto que exige recursos y protección, así que estamos contentos por ese lado. Y por el reconocimiento de tanta gente de tantos lugares.

“Estoy en la Feria del Libro de México y viendo 
tantas obras siento que no se puede decir que 
el pensamiento y la creación sean algo minoritario”

- ¿Qué es la Declaración Universal de Deberes Humanos? ¿Cómo surge ese concepto y cuáles son sus objetivos?
- José Saramago dijo en su discurso de recepción del Premio Nobel que a la Declaración Universal de Derechos le faltaba la simetría de la Declaración Universal de Deberes. En eso están trabajando especialistas de todo el mundo, juristas, activistas, filósofos, medioambientalistas y gente preocupada por el mundo y sus habitantes. Entre los deberes, el primero, es hacer que se cumplan los Derechos. Luego ya viene el deber de instruirse, de intervenir en la vida pública, de respetar la naturaleza, de procurar el bien común... En fin, es un articulado largo y concreto que nos podría salvar del caos en que vivimos, que más que ciudadanos parecemos consumidores.

"Pilar del Río, en imágenes de archivo en A Casa. 
Fotos: Felipe de la Cruz."


- La presencia de José Saramago en la Historia es incuestionable pero ¿se le recordará por su obra literaria o por su aportación al progreso social por la vía de la reflexión y la palabra?
- Saramago está en la Historia por su obra literaria, que es creación, pensamiento y reflexión. José no se vestía por las mañanas de intelectual y por las tardes de activista, era un ser humano que pensaba, que usaba la razón y la conciencia en todo lo que hacía y era.

“José Saramago dijo en su discurso 
de recepción del Premio Nobel que a la 
Declaración Universal de Derechos le faltaba 
la simetría de la Declaración Universal de Deberes”

- ¿Es suficiente el trabajo en las aulas para el fomento de la lectura? Da la sensación de que la consola gana al libro por goleada…
- Estoy en la Feria del Libro de México y viendo tantas obras siento que no se puede decir que el pensamiento y la creación sean algo minoritario. La consola existe y sirve para jugar, pero algún día, sobre todo cuando se restituya la Educación para la Ciudadanía y se vuelvan a contemplar las Humanidades en los planes de enseñanza, la gente se dará cuenta que solamente con la consola no se crece ni en bondad ni en sabiduría. Y para muchos, estos todavía son valores.

- Con respecto a su trabajo como traductora de la obra de Saramago, ¿no es hora ya de reivindicar el reconocimiento a la aportación de los traductores en la creación literaria?
- Creo que ese papel está ampliamente reivindicado. Podemos leer obras de autores universales gracias a los traductores. José Saramago decía que "las literaturas nacionales las hacen los escritores, la literatura universal la hacen los traductores”. Nada puede ser más hermoso ni más exacto.