Recuperação do trabalho de Ana Paula Arnaut, publicado em edição electrónica pela Fundação José Saramago no dia em que se assinalaram os 10 anos do seu aniversário.
Pode ser descarregada aqui
em https://www.josesaramago.org/mesa-ficcao-jose-saramago-casa-nao-ha-pao-ralham-quase-sempre-razao/
"No dia em que se cumpre o 10.º aniversário da Fundação José Saramago, publicamos em edição electrónica, de acesso livre, o livro À mesa com a ficção de José Saramago: casa onde não há pão, todos ralham (quase) sempre com razão, de Ana Paula Arnaut:
Partindo de vários romances de José Saramago, propomo-nos verificar o modo como a inscrição da temática da comida na tessitura narrativa permite aumentar o seu grau de credibilidade, criando o efeito de real de que fala Roland Barthes, e, em concomitância, pretendemos avaliar a forma como se põem em cena intenções ideológicas precisas, relativas à denúncia das diferenças sociais e à tentativa de alertar o leitor para a necessidade de colaborar na construção de um mundo mais justo e fraterno."
Via FJS, 29/06/2017
(...) Sardinhas, mas agora salgadas e sobre “pão grosseiro e
duro”, mais “uma fritada de ovos” e uma “infusa de água”, são a ceia
partilhada pelo mesmo Baltasar com Blimunda Sete-Luas e com o
em breve proscrito padre Bartolomeu Lourenço (p. 171). Em outras
ocasiões, juntam-se às sardinhas “as couves e o feijão da horta” ou
“um pedaço de carne enquanto foi tempo dela” (p. 209). Sardinhas,
fritas desta vez, mas sempre acompanhadas apenas por um pedaço
de pão (que, em Caim, também será dado por abraão ao filho de
adão, para que mate a fome na jornada, depois de lhe ter sido servido
vitelo, manteiga e leite (p. 94), levará Baltasar no alforge na sua
última inspeção à Passarola (p. 334). Do farnel de Sete-Sóis, tornado
“sardinha ressequida” e “côdea duríssima” (p. 343), alimentar-se-á
Blimunda quando for o tempo de por ele procurar. Antes disso,
porque ainda existia caridade, ocasiões houve em que puderam
contar com as sobras do açougue em que trabalhava Baltasar: “um
pé de porco, uma franja de dobrada, e, querendo Deus e o humor do
açougueiro, a apara de vazia, de alcatra ou pojadouro, embrulhados
numa crespa folha de couve (p. 69) (...)
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