Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

José Vericat da "BBC", entrevistou Saramago em Ramalah - "O rigor temporal de Saramago ante o genocídio do povo palestino" (2002)


Momento em que José Saramago foi apresentado a Yasser Arafat


O colaborador da BBC na Cisjordânia, José Vericat, conversou em Ramalah com o escritor português José Saramago. (2002)

"O rigor temporal de Saramago ante o genocídio do povo palestino"

Entrevista pode ser lida e consultada, aqui
(também na versão espanhola)


BBC — Que propósito teve a sua visita à Palestina?
Saramago — A intenção tem sido a de enviar aqui uma delegação de membros do Parlamento Internacional de Escritores para manifestar solidariedade aos narradores, poetas, dramaturgos palestinos.

BBC — O que pode ter este conflito palestino-israelense de particular?
Saramago — Vamos ver: Isto não é um conflito. Poderíamos chamá-lo conflito se se tratasse de dois países, com uma fronteira e dois estados, com um exército cada um. Aqui trata-se de uma coisa completamente distinta: Apartheid. Ruptura da estrutura social palestina pela impossibilidade de comunicação.

BBC — Que pensa de Israel?
Saramago — Um sentimento de impunidade caracteriza hoje o povo israelense e o seu exército. Eles converteram-se em financiadores do holocausto. Com todo o respeito pela gente assassinada, torturada e sufocada nas câmaras de gás. Os judeus que foram sacrificados nas câmaras de gás quiçá se envergonhariam se tivéssemos tempo de dizer-lhes como estão se comportando seus descendentes. Porque eu pensei que isto era possível; que um povo que tem sofrido deveria haver aprendido de seu próprio sofrimento. O que estão fazendo com os palestinos aqui é no mesmo espírito do que sofreram antes.
Eu creio que eles não conhecem a realidade. Todos os artigos que apareceram contra mim têm sido escritos por pessoas que não foram nunca saber como vivem os palestinos, quer dizer, eles não querem saber o que está passando aqui. Sería lógico que estivessem aqui os capacetes azuis (soldados da ONU). Mas o governo israelense não o permite. O que me indigna, e não posso calar-me, é a covardia da comunidade internacional que se deixa calar. Nem sequer falo dos Estados Unidos, do lobby judeu, de tudo isso que é mais que conhecido. Falo da União Européia. Europa, o berço da arte, da grande literatura, tudo isso. E todos assistindo a isto, a este desastre, e ninguém intervém.

BBC — Parece-lhe pertinente a analogia entre o sofrimento dos palestinos hoje, e o sofrimento dos judeus que teve lugar durante o regime nazista e em particular nos campos de concentração?
Saramago — Isso de Auschwitz foi, evidentemente, uma comparação a propósito. Um protesto formulado em termos habituais, quiçá não provocasse a reação que tem provocado. Claro que não há câmaras de gás para exterminar palestinos, mas a situação na qual se encontra o povo palestino é uma situação concentracionária: Ninguém pode sair de seus povoados.
Eu o disse e dito está. Mas, se a vocês incomoda muito isso de Auschwitz, eu posso substituir essa palavra, e em lugar de dizer Auschwitz digo crimes contra a humanidade. Não é uma questão de mais vítimas ou menos vítimas; não é uma questão de mais trágico ou menos trágico: É o fato em si. Isto que está acontecendo em Israel contra os palestinos é um crime contra a humanidade. Os palestinos são vítimas de crimes contra a humanidade cometidos pelo governo de Israel com o aplauso de seu povo.

BBC — Não crê que suas declarações têm um efeito contraproducente?
Saramago — Não há nenhum efeito contraproducente. Há críticas e há críticas. Há críticas que são conhecidas e portanto não têm nenhum efeito; quer dizer: se fazem e se repetem infinitamente.

BBC — O que o senhor escreveu que tenha mais relevância com este conflito?
Saramago — Uma novela que publiquei há cinco ou seis anos, Ensaio Sobre a Cegueira, que vendeu aqui sessenta mil exemplares. (Até há alguns dias, eu era aqui um bestseller. Agora os meus livros estão sendo retirados das livrarias) É uma novela que narra como todo o mundo se torna cego. Porque minha opinião é que todos somos cegos. Cegos porque não temos sido capazes de criar um mundo que valha a pena. Porque este mundo, como está e como é, não vale a pena.
Isto poderia ter relevância, se os políticos se interessassem por literatura. Se há algo sobre o que refletir, é sobre a capacidade que temos, ou que não temos, de inventar um modo de relação humana onde o imperativo seja o respeito humano, e o respeito ao outro.

BBC — Qual é o papel da literatura neste conflito?
Saramago — Nenhum. Essa idéia de que os escritores têm que salvar o mundo… Gostaríamos de fazê-lo, é claro. Se fosse pela arte e tudo o que temos feito de bonito no passado, se isso servisse para algo, não estaríamos como estamos. A intervenção que os escritores possam e devam ter, é pelo simples fato de que são cidadãos. Claro que também são escritores. Se se nos pede algo, ou por iniciativa nossa temos algo para dizer, o escrevemos. Mas, além de ter o que tenhamos para dizer, também há o que temos para fazer. E o fazer é intervir na vida, não só no seu próprio país, mas também no mundo.

BBC — A imprensa internacional publicou declarações atribuídas ao senhor referindo-se aos atos do exército israelense como atos “nazistas” e fazendo críticas bastantes duras ao governo de Israel. Qual é exatamente a sua posição diante do conflito no Oriente Médio?
Saramago — A declaração de que o exército israelense se tornou “judeu nazi” foi de um grande intelectual judeu (Yeshayahu Leibowitz, que morreu em 1994) respeitado tanto do ponto de vista moral como do ponto de vista intelectual. Não estou usando essa espécie de guarda-chuva para me proteger de qualquer tempestade. Mas esta idéia de que algo de profundamente negativo, destrutivo, entrou no espírito de Israel, eu não fui a primeira pessoa a dizer. Hoje mesmo outros israelenses reconhecem isso.

BBC — Outra afirmação que o senhor teria feito sobre Israel, foi comparar a forma com que o governo israelense tem tratado os palestinos como uma espécie de apartheid…
Saramago — Não é uma espécie de apartheid, é rigorosamente um apartheid, e sobre isso só tem dúvidas quem não veio aqui nunca. Se alguém quiser ser informado, supondo que as autoridades militares permitam o acesso, a passagem nos postos de controle para chegar às aldeias e cidades palestinas que estão completamente isoladas, onde não se pode entrar e de onde não se pode sair sem a autorização do Exército, se se quer ver como isto é efetivamente, há que vir aqui.
A informação que nós temos, aquela que circula internacionalmente, dá sempre uma imagem de um lado e deixa outro praticamente omisso, ou apenas com as imagens de palestinos disparando para o ar quando acompanham os seus mortos. Eu não estou aqui dizendo que os israelenses são uns demônios e que os palestinos são uns anjos, não se trata disso, anjos e demônios há de um lado e de outro.
O que se passa é que a situação política aqui, a situação de guerra que se criou, teve como resultado a ocupação militar de praticamente todo o suposto território palestino, o isolamento de todas as aldeias e cidades palestinas e a impossibilidade de se circular no próprio território. Isso, se não é apartheid, como é que havemos de chamar?

BBC — O senhor diria que nos últimos anos, principalmente durante o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon, essa situação tem se agravado?
Saramago — Ela tem se agravado nos últimos tempos. Mas, enquanto foi primeiro-ministro o sr. Barak, construíram-se mais assentamentos no interior do território palestino do que aqueles construídos quando foi primeiro-ministro o sr. Netanyahu. Quer dizer, o mesmo sr. Barak, que supostamente se propunha a fazer a paz, instalava cada vez mais assentamentos no interior dos territórios ocupados.
E aqui há um ponto que é necessário reconhecer: os assentamentos precisam do exército para se defender. Mas o exército precisa dos assentamentos para estar instalado ali. E desta lógica, que é uma lógica absolutamente infernal, não se consegue sair, porque efetivamente a paz que querem os governos de Israel não é uma paz justa, não é uma paz que reconheça efetivamente os direitos dos palestinos de ter um Estado, de ter uma identidade própria, uma vida que seja sua. Os palestinos são desprezados pela população de Israel, e isso não é demagogia, é a mais pura das verdades, e quem quiser confirmá-la que venha aqui.

BBC — O senhor falou sobre como a comunidade internacional vê esse conflito. O senhor não acredita que, principalmente depois de atos de extrema violência como o atentado de ontem (quarta-feira, em que 20 israelenses foram mortos numa explosão) fica mais difícil ainda para a comunidade palestina divulgar a sua luta, as suas reivindicações à comunidade internacional?
Saramago — Em primeiro lugar, eu não estou nem a justificar nem a defender este ato.
Todos os atos de violência praticados pelos palestinos são obstáculos à paz. Mas os atos de violência praticados pelo exército israelense não são obstáculos à paz… Aldeias arrasadas, milhares de mortos, gente expulsa em 1948… Fala-se do Holocausto judeu, mas também houve uma espécie de Holocausto palestino. Um milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas em 1948.
Ainda ontem estivemos em Gaza, e 150 casas foram destruídas por tanques e escavadeiras. Aqui se castiga uma ação de violência praticada por um palestino com a destruição da casa, ou de casas, ou de uma aldeia. Então os atos de violência dos israelenses não são obstáculos à paz?

BBC — Nessa situação, que perspectivas o senhor vê para esse conflito? O senhor tem algum otimismo em relação ao plano de paz saudita, ou às atuais negociações?
Saramago — Eu não tenho nenhum otimismo, porque efetivamente o governo de Israel não quer a paz. Quer uma paz que lhe convenha, não uma paz justa que levasse em conta o direito do povo palestino de ter a sua própria vida. Sou completamente cético em relação ao êxito de qualquer plano.
E, recentemente, numa proposta dos Estados Unidos nas Nações Unidas, foi reconhecido que o povo palestino tem direito a viver no seu próprio Estado. Mas como se organiza esse Estado, se os assentamentos israelenses nos territórios ocupados são 205, e todos eles protegidos pelo exército e eles próprios armados? Como se quer falar num plano de paz que ignore essa realidade?

BBC — Devido às suas mais recentes declarações, tem havido em Israel um boicote aos seus livros. Como o senhor vê esse tipo de reação?
Saramago — Isso é natural. Acho que, no fundo, são reações de pessoas que não agüentam que se lhes diga a verdade. Retirar os meus livros das livrarias é, talvez, um primeiro passo, que pode levar a um segundo passo, que é queimá-los em praça pública. Tudo pode acontecer.

Citador #25 ... o "Sexo" nas superiores palavras de um prémio Nobel

Citador #25
O Sexo
Ideia extraída da entrevista concedida ao DN (por Ana Lucas)
Pode ser lida na integra,
em http://desaramago.blogspot.pt/2015/01/entrevista-ao-diario-de-noticias.html

"Acho que o sexo é a única coisa verdadeiramente possível, ou melhor, 
é a única coisa que verdadeiramente não é impossível. 
Uma relação sexual pode existir em qualquer momento ou em qualquer idade, 
nem que não se concretize pela penetração física de um corpo no outro. 
O sexo não se limita a isso."

Citador #24 - "A Morte"... a do outro e a do próprio...

Citador #24
A morte
Via "DN" - entrevista de Ana Lucas


"A morte do outro é lógica e natural e necessária. 
A nossa própria morte é uma injustiça tremenda, uma partida que nos pregam."

Ana Lucas entrevista Saramago "DN" baseada na obra "As Intermitências da Morte" e outros assuntos

Entrevista baseada na obra "As Intermitências da Morte"
Por Ana Lucas (01/09/2008)

Recuperação de entrevista ao Diário de Notícias (2005?)
Via, http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1007450&page=-1


"E se a morte deixasse de matar? 
Este o ponto de partida do último romance do Nobel português. 
Chama-se 'As Intermitências da Morte' e já é um 'best-seller'"


A musica, os sons e  a melodia as palavras, sempre presentes na obra de José Saramago


"J.S. Bach Cello Suites No.1-6 BWV 1007-1012, Ralph Kirshbaum"

No.1 in G major BWV 1007 0:00-18:07 Prelude Allemande Courante Sarabande Minuet Gigue
No.2 in D minor BWV 1008 18:07-38:02 Prelude Allemande Courante Sarabande Minuet Gigue
No.3 in C major BWV 1009 38:02-1:00:39 Prelude Allemande Courante Sarabande Bourree Gigue
No.4 in E flat major BWV 1010 1:00:39-1:24:47 Prel. Allem. Courante Sarabande Bourree Gigue
No.5 in C minor BWV 1011 1:24:47-1:51:02 Prelude Allemande Courante Sarabande Gavotte Gigue
No.6 in D major BWV 1012 1:51:02 Prelude Allemande Courante Sarabande Gavotte Gig


"Começando pela ideia, que é por onde tudo começa nos seus livros...
Sim, como a história que se conta do Newton, quando lhe caiu uma maçã na cabeça nasceu a Lei da Gravitação Universal. De cada vez que acabo um livro fico simplesmente esperando que aconteça outra ideia… Podem passar-se semanas, mas também meses. Tenho tido sorte. As ideias têm aparecido quando são necessárias. Acabo um livro e não tenho qualquer ideia para outro. Espero-a.

Essa espera angustia-o?
Não. Claro que a preocupação está cá, mas não a alimento. Talvez porque me tenha habituado a que, mais tarde ou mais cedo, chegue uma nova ideia. Um dia destes tenho uma desilusão tremenda.

E qual é a história da ideia que está na origem do livro suspender a morte?
Eu estava a ler um livro de Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Lauridis Brigge, e há um momento em que ele fala da morte de uma pessoa. São páginas extraordinárias! Foi então que me ocorreu a tal ideia. Mas não foi "E se a morte deixasse de matar?" A ideia inicial era outra: "E se a morte não conseguisse matar uma certa pessoa?" Essa acabou por ser deslocada para o final. O embrião é, afinal, o fim.

Nesta história, encetou um discurso irónico, que em si é novo.
Sim. Quando se fala de um livro sobre a morte, parte-se da ideia de que vai ser um livro sério. Era uma opção, escrever um livro tenebroso. A outra é dizer não vale a pena dramatizar o que já de si é dramático, então vamos imaginar uma situação em que, falando-se da morte, no fundo do que se tratará é da vida. A morte não existe fora de nós.

Arnold Böcklin – "Self Portrait With Death"


Rainer Maria Rilke forneceu-lhe a ideia e Proust deu-lhe o título?
Habituei-me a escrever já com um título e chamei-lhe O Sorriso da Morte, apesar de não gostar, consciente de que se tratava de algo provisório e também pela ironia que sabia que iria usar. E, porque o que a morte me diz é intermitente, mais tarde recordei que Proust, em La Recherche..., fala das intermitências do amor. Que o amor seja intermitente parece que é uma experiência de todos nós. Agora que a morte o seja... Porque gastamos tanto tempo a perguntar o que há além da vida? Se nos interrogássemos sobre o que realmente se está a passar aqui na vida, no tempo que nos calhou.

É a grande questão?
Sim. É disso que se fala. No livro, o primeiro-ministro põe essa questão se isto continua assim como é que vamos pagar as pensões.

Essa é apenas uma das muitas questões concretas que se colocam quando a morte deixa de matar. Nesse exercício, quase ensaístico, fala dos "pantanosos terrenos da realpolitik".
A expressão é aplicada no sentido do pragmatismo absoluto, excluindo questões de princípios e atendendo apenas ao que convém a cada momento. Portanto, subindo e descendo, oscilando, segundo a maré. Mas pode ser entendido de maneira extrema, como é o caso. Para cumprir determinado fim, o Estado não hesita em fazer um acordo com a "máphia" com ph, mas não deixa de ser máfia por isso.

É a morte a jogar o seu jogo, o que por sua vez justifica um jogo de palavras?
É. Escrever "máphia" com ph deu-me um certo gozo. É um anacronismo. Não sei como é que as traduções vão resolver a questão. Provavelmente não podem. Por exemplo, em alemão os substantivos escrevem-se com letras maiúsculas. Eu andei a pôr os nomes das pessoas com minúsculas, tudo minúsculo. Para manterem essa lógica, teriam de transgredir as suas próprias regras. Não creio que o tradutor esteja disposto a isso porque não seria compreendido, mesmo que explicasse que seguia o original. Nem sei se a questão de traduzir o título para alemão já está resolvida.

Então?
Eles usam a expressão "luz intermitente", mas não têm uma forma para dizer As Intermitências da Morte. Pelos vistos o português é muito mais rico em cambiantes e nuances. A nossa língua tem uma plasticidade que algumas vezes falta a outras e que permite jogos…

Os tais jogos que lhe deram prazer jogar neste livro?
Deram. Foi um livro escrito com alegria. Falar da morte e dizer que o fiz com alegria… É uma alegria que vem não só pelo tom irónico, sarcástico às vezes, divertido, mas também porque é como se me sentisse superior à morte dizendo-lhe "Estou a brincar contigo."

A ironia com que trata a morte é a mesma que usa para retratar a velhice, mas aí há mais de amargura. A velhice inquieta-o?
Bom, eu sou um velho. Mesmo com a esperança de vida de cem anos, e estamos muito longe disso, eu sou um velho.

Acha que o olham como um velho?
Não só as pessoas não me olham como um velho como eu não me sinto velho. Mas tenho a lucidez suficiente para ver que, com 83 anos, sou realmente um velho. Um velho que se mantém bem e que trabalha. Isso dá-me a impressão falsa de que nada do que escrevi sobre a velhice tem que ver comigo.

É distância da velhice do outro tal como a morte é a morte do outro...
Sim, a morte do outro é lógica e natural e necessária. A nossa própria morte é uma injustiça tremenda, uma partida que nos pregam. É como se eu, por não me sentir velho, não o fosse e pensar que nada do que vem de negativo com a velhice me pudesse tocar. É uma estupidez minha, porque chegará o momento em que tudo isso me tocará. Às vezes solto uma frase um pouco pretensiosa. Quando me perguntam como me sinto, digo "Quanto mais velho mais livre e quanto mais livre mais radical." Aplicado ao meu caso isto é certo, mas dizer quanto mais velho mais livre é absurdo, porque a velhice diminui, retira, anula e, com tudo isto, tira liberdade. A não ser que tomemos aqui a velhice, como se costuma dizer, como um sinal de sabedoria. Aí, é como se eu me fosse tornando mais sábio e consequentemente mais livre devido a essa sabedoria, e não pela velhice. E quanto mais livre mais radical. Isso sim, gosto de ser.

Na que se pode considerar a segunda parte do livro, a morte passa a avisar quando vem, escrevendo uma carta.
É uma partida diabólica. Mas a morte fez isso com boa intenção. Ela achou que era uma brutalidade fazer com que as pessoas morressem quando estavam com saúde e felizes e que o melhor seria avisar. Acaba por reconhecer que se equivocou uma vez mais. Primeiro, quando renunciou a matar. Depois, quando pretendeu remendar a situação e dizer "Vou regressar, e para que não me acusem de abusadora passarei a avisar." É pior a emenda, porque essas pessoas passam a estar no corredor da morte.

Faz, depois, um exercício onde tenta esgotar as várias possibilidades de reagir ao comunicado mortal.
Sim. Tudo pode acontecer reconciliar-se com o irmão com quem cortou relações, fazer testamentos, pagar impostos em dívida, ou dedicar os últimos dias a uma orgia de álcool e sexo.

Como acha que reagiria ao ser o destinatário de uma tal missiva?
Não sei. Álcool não, porque nunca fui dado a isso e não veria aí satisfação. No sexo sim, enquanto me fosse possível. Acho que o sexo é a única coisa verdadeiramente possível, ou melhor, é a única coisa que verdadeiramente não é impossível. Uma relação sexual pode existir em qualquer momento ou em qualquer idade, nem que não se concretize pela penetração física de um corpo no outro. O sexo não se limita a isso. Iria tentar viver esses dias em paz, procurar aquilo a que chamamos paz interior, que não seria nunca resignação. Seria a aceitação do facto. E tendo por companhia a minha mulher. Oito dias para se despedir são oito vezes em que o Sol nasce e em que o Sol se põe, oito dias para viver com as pessoas, olhar as árvores, respirar o ar. É uma eternidade, um tempo acrescentado à vida.

Um pouco como acontece com o violoncelista?
Sim, que já devia estar morto e não sabia. Estava vivo num tempo que, em princípio, não lhe pertencia. Mas quando a morte diz "Você morre daqui a oito dias, no fundo já o está a matar nesse momento." Aí, é o princípio da morte.

Acha que o fim da morte é o fim da ideia de Deus?
Creio que sim. Seria horrível se fôssemos imortais nesta vida. O tempo não pára e estaríamos condenados a uma velhice eterna que é a pior coisa que poderia suceder. Com a morte, prometem-nos a vida eterna numa outra vida e a Igreja, nesse caso, diz-nos que ficaremos a contemplar a face do Senhor. Parece-me que ficar a contemplar a face do Senhor para toda a eternidade é um bocado forte.

Até porque não acredita no Senhor...
No Senhor, como Deus, realmente não acredito. Em mim, tudo rejeita sequer a possibilidade dialéctica ou retórica da existência de um Deus porque eu não saberia onde colocá-lo. Há uma pergunta que parece que não é costume fazer-se mas que deve ser feita e para que é que Deus haveria de querer criar um universo? Qual era o objectivo de Deus criando o universo tal como ele é? É uma questão inicial.

No livro, porque escolheu a Suite n.º 6 de Bach para despedida?
Porque gosto e porque são suites para violoncelo solo. Quando era muito mais novo, comecei a estudar música na Academia dos Amadores de Música com a ideia de vir a tocar violoncelo. Nunca lhe pus as mãos em cima, mas sempre me ficou essa vontade por se tratar de um instrumento cujo som mais se aproxima da voz humana. (Pausa). No princípio do último andamento da Nona Sinfonia, de Beethoven, há um momento com os violoncelos e com os contrabaixos... (trauteia) É lindo! Isto é falar. Aqueles instrumentos falam. Suponho que foi a primeira vez na história da música que um instrumento falou. Como se fosse uma voz humana a articular as palavras do Schiller.

Em Julho de 1997 escrevia num dos Cadernos de Lanzarote "Zeferino Coelho [editor] gostou de Todos os Nomes. Ainda não foi desta vez que o editor torceu o nariz... Mas não tenho ilusões, o dia chegará. Chega sempre." Já chegou? Essa possibilidade angustia-o?"
Sou muito consciente de que até agora não escrevi nenhum livro de que se possa dizer é mau. Mas isso pode suceder um dia e, o pior de tudo, sem que eu tenha a consciência de ter escrito um livro mau. Seria o pior que me podia suceder. Como tenho uma leitora em casa, que também é minha tradutora e, além disso, é minha mulher, espero que, se tal acontecer, ela me diga: "Este não é para publicar." Se ela ceder, por amor, espero que seja o editor a dizer não.

Disse que gosta de ser radical e que diz sempre o que pensa. Acha que é por isso que está sempre a ser solicitado para "falar do real", como diz referindo-se às questões dos jornalistas?
É. Nunca tive medo de dizer o que penso. Há 48 horas disse que Cavaco Silva é um génio da banalidade e mantenho, da boca dele só saem lugares-comuns.

E como reage às críticas que lhe fazem em reacção às opiniões que omite? Estou-me a lembrar de Harold Bloom ou de Amos Oz, que o acusaram de anti-semita quando comparou a situação na Palestina ao campo de Auschwitz?
Fico na mesma. Estou consciente do que digo e das razões por que o disse e entro nas regras do jogo. Digo o que penso. E não é só o caso de Ramallah? Escrevi um artigo que anda à volta desse tema e conto já que vão aparecer cartas agora mesmo na Argentina. Vargas Llosa escreveu uns textos sobre Israel e a Palestina em que faz considerações, com algumas das quais eu concordo, e acusaram-no imediatamente de anti-semita, "tal como José Saramago", dizem. O que hei--de fazer? Não se pode estar de bem com toda a gente e não vou cair na banalidade de dizer que tenho de estar em paz com a minha consciência. Isso é uma banalidade e eu não sou Cavaco Silva. Fico assim.

A sua relação a tempo inteiro com a literatura começou há trinta anos, depois de um Verão Quente passado na redacção do DN e um afastamento que o levou à recolha de material para Levantado do Chão. Como recorda esses tempos?
Como escritor, sou um produto do 25 de Novembro. Com o 25 de Novembro, fiquei sem trabalho e com pouca esperança de conseguir um sítio onde o encontrar. Eu estava muito marcado. Decidi, aos 53 anos, que seria "agora ou nunca". Se as circunstâncias me retiraram a possibilidade de trabalhar, iria escrever. Não foi fácil. Durante uns anos vivi de traduções. Eu já não estava no circuito, ninguém pensou mais em mim e ainda bem. Fechei-me em casa a traduzir para ganhar a vida e para escrever. Publico, em 1977, o Manual de Pintura e Caligrafia; em 1978, o Objecto Quase. Ainda nesse ano vou para o Alentejo e daí saiu o Levantado do Chão. O Memorial do Convento, em 1980, e acho que também O Ano da Morte de Ricardo Reis confirmaram que estava ali um escritor. A partir daí não tinha nada que provar a não ser a mim mesmo, até onde poderia chegar. Cheguei às Intermitências da Morte, aos 83 anos, e espero que haja mais.

Chamado a opinar sobre as presidenciais, disse que votaria em Mário Soares numa eventual segunda volta.
Bem sei que Mário Soares neste momento não tem boa imprensa, que muita gente está contra, em muitos casos por razões hipócritas. Se Soares não ganhar, pois terei como presidente Aníbal Cavaco Silva. Mas quero deixar claro o meu apoio ao candidato do meu partido, Jerónimo de Sousa.

É admirador do poeta Manuel Alegre.
Sim, mas aqui não se trata de pôr na Presidência da República o poeta ou o romancista, ou mesmo o ensaísta. Nessa lógica, por exemplo, podia pôr-se o Eduardo Lourenço como Presidente da República.

Acha Manuel Alegre o poeta mais importante do país?
Não creio que seja, mas não vale a pena estar aqui a fazer uma classificação. Peço à poesia mais coisas e mais diferentes, o que não significa que a poesia do Manuel Alegre não seja bela, mesmo conceptualmente muito forte. Mas não é o poeta Manuel Alegre que se candidata. É o cidadão. No caso de ganhar Cavaco Silva, não é que não o reconheça. Não se trata disso. Apenas não consigo imaginar este país tendo como presidente da República uma pessoa como Aníbal Cavaco Silva. Custa-me.

Provavelmente irá estar em alguns eventos oficiais com ele...

Provavelmente não estarei em qualquer evento oficial com ele. Não se esqueça de que Cavaco Silva era primeiro-ministro do Governo que censurou O Evangelho segundo Jesus Cristo e que Cavaco Silva não tem ideia nenhuma do que é a literatura ou a arte. Não sabe nada disso. Também me dirão que para estar à frente de um país não é preciso. Mas tinham-nos habituado à ideia contrária."

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

José Saramago e o seu texto no caderno/blog sobre "Eduardo Lourenço" (e notícia "BN adquire seu espólio")

No dia em que é anunciada a compra do espólio, do ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço, pela Biblioteca Nacional, recupero aqui, um texto de José Saramago, onde de forma graciosa, fala dos afectos que os unia e do apreço e estima, que por ele evidencia.



"Biblioteca Nacional adquire espólio do ensaísta Eduardo Lourenço"

Notícia, via Lusa e RTP sobre a aquisição do espólio, que pode ser consultada, aqui

"O espólio do ensaísta português Eduardo Lourenço, que inclui milhares de documentos, como manuscritos inéditos e correspondência, foi adquirido pela Biblioteca Nacional, revelou hoje a Secretaria de Estado da Cultura (SEC).
"Trata-se de um bem cultural fundamental para a investigação filosófica, literária, histórica e sociológica não só da obra de Eduardo Lourenço, mas do pensamento português dos séculos XX e XXI", afirma a tutela em comunicado, sem revelar o valor da compra.
O espólio inclui "uma grande quantidade de manuscritos do autor, alguns deles inéditos", desde finais dos anos 1940 até à atualidade, e "mais de 11.000 documentos referentes a correspondência" que Eduardo Lourenço manteve com figuras como Jorge de Sena, Vergílio Ferreira e Sophia de Mello Breyner Andresen.
O espólio passa a integrar o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional e o seu acesso está limitado, por enquanto, aos investigadores que trabalham na publicação da obra completa do ensaísta pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Eduardo Lourenço de Faria, de 91 anos, ensaísta e crítico, estudou na Universidade de Coimbra, onde deu aulas até sair do país, na década de 1950, fixando-se desde então entre França e Portugal.
Prémio Camões (1996) e Prémio Pessoa (2011) - só para citar duas das várias distinções do autor - Eduardo Lourenço escreveu obras como "Heterodoxias", "Tempo e poesia", "O fascismo nunca existiu" e "O labirinto da saudade - Psicanálise mítica do destino português".
A par do plano editorial da Gulbenkian, a Gradiva tem vindo a publicar, desde 1999, a obra de Eduardo Lourenço, planeando para este ano seis títulos do autor, entre os quais "Do Brasil: Fascínio e miragem", com textos escritos entre 1945 e 2012.
Em 2014, o ensaísta foi condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.
Este mês, o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, afirmou no Parlamento que o Estado tem tido capacidade financeira para adquirir espólios literários recorrendo a verbas do Fundo de Fomento Cultural.
No final do ano passado, o Estado adquiriu o espólio o escritor Almeida Garrett, da coleção Futscher Pereira.
Na Biblioteca Nacional estão também depositados, entre outros, os espólios dos escritores António Ramos Rosa, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Gomes Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues e de Fernando Namora, do compositor Joly Braga Santos, da compositora Constança Capdeville e do pensador Delfim Santos."


“O nosso grande problema, enquanto portugueses, neste fim de século, é integrar a realidade, a banal realidade europeia, com os seus imperativos de organização, de competitividade, de invenção. Sem perder um certo arcaísmo, um certo perfume de vida que se lembra ainda do seu passado rural, vida banhada da doce luz da Finisterra.”

em "A Nau de Ícaro, seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia", Lisboa, Gradiva, 1999
Eduardo Lourenço

Mais informação sobre o autor em:
http://www.eduardolourenco.com/index.html (site não oficial)
http://www.eduardolourenco.uevora.pt/ (projecto da Universidade de Évora)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Lourenço (via Wikipédia)


O texto de José Saramago, sobre Eduardo Lourenço, pode ser consultado, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/5878.html

"Eduardo Lourenço"

"Sou devedor contumaz de Eduardo Lourenço desde 1991, precisamente há dezassete anos. Trata-se de uma dívida um tanto singular porque, sendo natural que ele, como lesado, não a tivesse esquecido, já é menos habitual que eu, o lesante, ao contrário do que com frequência sucede em casos semelhantes, nunca a tenha negado. Porém, se é certo que jamais me fingi distraído da falta, há que dizer que ele também não consentiu que eu me deixasse enganar pelos seus silêncios tácticos, que de vez em quando interrompia para perguntar: “Então essas fotografias?” A minha resposta era sempre a mesma: “Ó diabo, tenho tido muito trabalho, mas o pior de tudo é que ainda não pude mandar fazer as cópias”. E ele, tão invariável como eu: “As fotografias são seis, tu ficas com três e dás-me as restantes”, “Isso nunca, era o que faltava, tens direito a todas”, respondia eu, hipocritamente magnânimo. Ora, é tempo de explicar que fotografias eram estas. Estávamos, ele e eu, em Bruxelas, na Europália, e andávamos por ali como quaisquer outros curiosos, de sala em sala, comentando as belezas e as riquezas expostas, e connosco ia o Augusto Cabrita, de máquina em riste, à procura do instantâneo imortal. Que pensou haver encontrado num momento em que Eduardo Lourenço e eu nos havíamos detido de costas para uma tapeçaria barroca sobre um tema desses históricos ou míticos, não sei bem. “Aí”, ordenou Cabrita com aquele ar feroz que têm os fotógrafos em situações de alto risco, como imagino que eles as consideram. Ainda hoje estou sem saber que diabinho me levou a não tomar a sério a solenidade do momento. Comecei por compor a gravata do Eduardo, depois inventei que os óculos dele não estavam bem ajustados e dediquei-me a pô-los no seu sítio, de onde nunca haviam saído. Começámos a rir-nos como dois garotos, ele e eu, enquanto o Augusto Cabrita aproveitava, com sucessivos disparos, a ocasião que lhe tinha sido oferecida de bandeja. Esta é a história das fotografias. Dias depois o Augusto Cabrita, que morreria passados dois anos, mandou-me as imagens tomadas, crendo, decerto, que elas ficariam em boas mãos. Boas eram, ou não de todo más, mas, como já deixei explicado, pouco diligentes.Tempos depois deu-me para escrever o romance Todos os Nomes, o qual, conforme pensei então e continuo a pensar hoje, não poderia ter melhor apresentador que o Eduardo. Assim lho fiz saber, e ele, bom rapaz, acedeu imediatamente. Chegou o dia, a sala maior do Hotel Altis a rebentar pelas costuras, e do Eduardo Lourenço nem novas nem mandadas. A preocupação respirava-se no ar carregado, algo deveria ter sucedido. Além disso, como toda a gente sabe, o grande ensaísta tem fama de despistado, podia ter-se equivocado de hotel. Tão despistado, tão despistado que, quando finalmente apareceu, anunciou, com a voz mais tranquila do mundo, que tinha perdido o discurso. Ouviu-se um “Ah” geral de consternação, que eu, por obra dos meus maus instintos, não acompanhei. Uma suspeita atroz me havia assaltado o espírito, a de que o Eduardo Lourenço decidira aproveitar a ocasião para se vingar do episódio das fotografias. Enganado estava. Com papéis ou sem eles, o homem foi brilhante como sempre. Pegava nas ideias, sopesava-as com o falso ar de quem estava a pensar noutra coisa, a umas deixava-as de lado para um segundo exame, a outras dispunha-as num tabuleiro invisível esperando que elas próprias encontrassem as conexões que as potenciariam, entre si e com alguma da segunda escolha, mais valiosa afinal do que havia parecido. O resultado final, se a imagem é permitida, foi um bloco de ouro puro.A minha dívida tinha aumentado, ultrapassara em tamanho o buraco de ozono. E os anos foram passando. Até que, há sempre um até que para nos pôr finalmente no bom caminho, como se o tempo, depois de muito esperar, tivesse perdido a paciência. Neste caso foi a leitura recente de um ensaio de Eduardo Lourenço, Do imemorial ou a dança do tempo, na revista “Portuguese Literary & Cultural Studies 7” da Universidade de Massachusetts Dartmouth. Resumir essa extraordinária peça seria ofensivo. Limitar-me-ei a deixar constância de que as famosas cópias já se encontram finalmente em meu poder e de que o Eduardo em poucos dias as receberá. Com a maior amizade e a mais profunda admiração." (13 de Outubro de 2008)

em "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição

sábado, 24 de janeiro de 2015

José Saramago "A Difícil Conversa" - escrito em 13/03/1986 para a revista Status (Brasil) enviado por telex

Por ocasião e assinalando o primeiro aniversário da abertura ao público, a Fundação José Saramago, colocou online este texto - A Difícil Conversa - agora com quase 30 anos.


A alusão ao progresso e à evolução das tecnologias, da escrita até à publicação de textos, no blog "Caderno", passando pela famosa "velha Hermes", máquina de escrever que pode ser apreciada na exposição da FJS.
O texto, que se transcreve, fala também, e muito, de relações e humanidades, deixa as suas preocupações e perguntas.  


Via Fundação José Saramago

"A Fundação José Saramago abriu-se ao público na Casa dos Bicos exatamente há um ano. Para assinalar este aniversário, as entradas são hoje gratuitas e a Casa fica aberta até às 20h00.
E para todos, em particular para os que não podem vir até a este novo espaço cultural da Lisboa histórica, aqui fica um texto de José Saramago, escrito em 13 de março de 1986 e enviado para a revista brasileira Status. Enviado por telex, tecnologia que na altura era muito avançada!"

(Imagem de telex escrito em 13 de Março de 1986 e enviado para a revista Status - Brasil)

"O progresso, dizia-me aquele amigo entusiasta, é o melhor que há. Estás, por exemplo, em Lisboa, e queres fazer chegar um recado a alguém que vive em São Paulo, Brasil. Se fosse aqui há duzentos anos terias de escrever trabalhosamente uma carta que atravessaria o Atlântico num barco à vela, metida em escuro porão, com risco de naufrágio, e então se perderia o negócio, ou a amada desesperaria por falta de notícias. Hoje é diferente: pairam na atmosfera uns mágicos objetos, chamados satélites, de cujo funcionamento não entendes, mas que por ares e ventos te transportam as palavras, entre telefone e telefone, em poucos minutos ficaste rico de dólares ou reforçado de sentimentos. E se, pela extensão do discurso ou sua complexidade, dúvidas que haja, embaraços na receção, tens ao teu alcance esse outro invento, o telex, que alinhará no destino, e por claro, ordens, projetos e afetos, como se os teus próprios dedos, invisíveis, fossem datilografar a mensagem a oito mil quilómetros de distância. Graças ao progresso, remata o meu amigo, a comunicação é fácil, imediata, instantânea.

Será? A pergunta exprime algum ceticismo, leva aquele trejeito de lábios de quem, por já ter vivido tanto, está de entusiasmo arrefecido, o que, apresso-me a acrescentar, não significa uma descrença radical nas virtudes da comunicação, apenas consciência do relativismo de todas as coisas, a começar por essa. Vejamos: que tem a dizer, com utilidade suficiente, um escritor português aos leitores brasileiros, separados, ele e eles, por um mar oceano e por mil acrescentadas dificuldades de navegação que não encontram compensação na comum língua e no seu aparente manejo comum? E quando aqui se escreve leitor brasileiro, que leitor é esse e de que Brasil? E se o escritor português falar do seu próprio país, da vida do povo a que pertence, da cultura que herdou e deseja ajudar, até que ponto interessa tudo isso a potenciais leitores que vivem num certo lugar do Brasil, pertencem a uma certa camada social e possuem um certo grau de instrução e educação? Mais ainda: tem o tal escritor português o direito de dirigir-se a esses leitores, se deles tão pouco ou mesmo nada sabe, como nada ou pouquíssimo nada da vida profunda da terra brasileira, provavelmente insondável para os seus próprios naturais? Porque, em verdade, que conhece do Brasil o escritor português, este? Esteve em São Paulo, para onde o recado vai, no Rio de Janeiro, em Santos e Campinas, em Belo Horizonte e Ouro Preto, a volta ao mundo. E a quem conhece? A outros escritores, a jornalistas, a professores universitários. Porém, não conhece o povo brasileiro, nem sequer a pequena parte dele que compra revistas e as folheia, que compra livros e os estima. Em Portugal, mais ou menos, o escritor conhece os leitores que tem. Dos leitores que no Brasil tiver ignora tudo.

Esta conversa é, pois, difícil. Porque uma outra questão não pode ser ocultada: para muitos brasileiros Portugal é um país do passado, e os portugueses, mesmo de novíssima geração, são todos bisavós e trisavós, talvez enternecedores, mas a quem não se deve levar muito a sério, porque com a idade vão treslendo e não compreendem o mundo em que ainda vivem. Claro que não se levam às costas oito séculos sem que os joelhos verguem um pouco, mas essa ideia de um Portugal reserva histórica e museu da língua não favorece o encontro nem o diálogo, numa palavra, não serve a comunicação que a tecnologia totalizou e globalizou. Quer dizer, não é por muito comunicar que melhor se comunica, ou então, diz-me o que comunicaste e eu te direi se vale a pena.

Do futuro destas crónicas serão julgadores e sentenciadores os que as lerem, mais ainda do que eu que as escrevo e de quem me convidou a escrevê-las. Convite e aceitação dele são, de certa maneira, questões de patrão e empregado, primeiro e segundo tempos de uma ação. O que realmente conta e importa é o que virá depois: o leitor e o seu juízo. O autor destas linhas não se decidiria a escrever numa publicação brasileira por motivos apenas materiais ou, se posso autorizar-me a palavra, de prestígio. De vozes que pregaram no deserto encheu-se a transbordar a história das relações entre Brasil e Portugal. Não é possível reprimir um sentimento de melancolia quando damos balanço aos mal-entendidos, aos equívocos, às atitudes intempestivas, às incongruências, e também aos oportunismos, aos truques e habilidades com que, de um lado e doutro, se tem tecido a capa rota dessas relações.

Mas também não se pode esquecer o que ainda existe de fé verdadeira, de amizade sem portas falsas entre tantos portugueses e brasileiros que conservam a esperança de uma fraternidade assente no conhecimento leal, na mútua compreensão, na vontade sincera de viver juntos vivendo cada um em sua casa. É a esse conhecimento, a essa compreensão, a essa vontade que estas crónicas querem servir. Pelo tempo e mérito da sua utilidade. Nem um segundo mais, nem uma palavra a mais."

Vídeo via YouTube apresenta um trabalho interessante sobre "Memorial do Convento - Personagens"


(Trabalho de Rita Neves e Inês Soares, com indicação de trabalho
para a disciplina de Português 12.º ano - 2012/13)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Fortuna crítica: Luciana Stegagno Picchio, escreve "Saramago: Momento por todos esperado" (05/12/1998)



Informação biográfica em http://pt.wikipedia.org/wiki/Luciana_Stegagno_Picchio
"Luciana Stegagno Picchio (Alessandria, Piemonte, 26 de abril de 1920 — 28 de agosto de 2008) foi uma filóloga, historiadora da cultura, crítica literária, especialista em literatura medieval portuguesa, história do teatro português e literatura brasileira.
Faleceu aos 88 anos e foi autora de mais de 500 publicações dedicadas às literaturas e culturas de língua portuguesa, o que lhe valeu o título de mais importante luso-brasileirista da Europa."

em Fortuna crítica: Luciana Stegagno Picchio
Pode ser consultado e lido 
em http://www.jornaldepoesia.jor.br/1lstegagno.html

"Saramago: Momento por todos esperado"

Ainda que este universo lusófono contasse com grandes tradições literárias tanto em Portugal como no Brasil e com uma nova impetuosa tradição de escritores africanos de expressão portuguesa. Esperávamos este momento há tempo. Esperamos que acontecesse para o velho rapsodo Jorge Amado e para poetas de elite como João Cabral de Melo Neto. Mas sobretudo para um escritor como ele, José Saramago, no qual há vários anos vivíamos o candidato mais legítimo, mais prestigioso, mais nosso: e pelo qual sofríamos esperando a cada outubro, como quem aguarda com angústia confiante a chegada de sua bagagem na esteira rolante do aeroporto, sem que ela nunca desponte.
A decepção agridoce, para nós italianos, do ano passado, quando Dario Fo ganhara na linha de chegada logo de José Saramago, nos deixara uma grande margem de esperança. A história do Nobel nos ensinou pelo menos, como já na época do prêmio para Octavio Paz, a jogar com as probabilidades. Apesar de seu corpo ágil e longilíneo de adolescente e o sorriso de quem, aos 76 anos, pensa em um futuro operoso e sereno do lado de Pilar, a jovem mulher espanhola que o acompanhará a Estocolmo, mostrando para o mundo como pode ser bonito um casal de intelectuais, Saramago em sua longa vida teve, como todos, facilidades e decepções. Sobretudo de seu país.
Comunista militante, nunca faccioso, sempre crítico, nunca trânsfuga, tivera que esperar o fim do salazarismo e a Revolução dos Cravos do abril de 1974 para poder despontar com pleno direito na cena literária portuguesa e internacional. E fora logo um sucesso, como de quem, na sombra da espera, tivesse afiado seus instrumentos. Viera antes a poesia, com os Poemas possíveis (1966) e Provavelmente alegria (1971), que, na distância de ano, revelam hoje toda sua carga humana e profética: “Só direi,/Crispadamente
recolhido e mudo,/que quem se cala quanto me calei,/não poderá morrer sem dizer tudo”. Depois apareceram as primeiras coletâneas de crônicas: Deste mundo e do outro (1971), A bagagem do viajante (1974), como provas de redação que contivessem já em seu casulo todos os motivos da narrativa futura. Em seguida o teatro (começando com A Noite, 1979), que hoje nos parece obra de um autor “outro”, tanto discursivo, referencial e polêmico quanto a prosa de invenção é misteriosa, alusiva, poética. A motivação do Nobel fala de um Saramago “que com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade
fugidia”. E talvez este seja o melhor rótulo para uma obra que, apesar de minuciosamente ambientada numa época e numa ideologia (a Lisboa inquisitorial do começo do século XVIII, a Lisboa das origens, ainda dividida entre mouros e cristãos, os anos do franquismo e de seu contágio ao Portugal salazarista, a Palestina de uma Vida de Jesus ao lado do Homem), nunca aparece como mera revisitação do fato histórico, mas sua parábola, pretexto para a interpretação de um hoje que filtra o passado com o alheamento comovido e irônico do depois.
O novo Saramago, um intelectual já amadurecido que vive desde sempre em Lisboa, mas que fora do círculo dos amigos de trabalho e de café poucos conheciam, irrompe de repente na cena literária portuguesa em 1980, com um romance singular que o coloca de imediato no primeiro plano entre os narradores nacionais. E é aquele Levantado do chão, no qual pela primeira vez aparecia, numa saga camponesa de sabor ao primeiro olhar ainda realista, a sua organizadíssima cifra estilística. O “discurso oral” de Saramago, aquelas suas páginas lotadas de signos, sem maiúsculas e pontuação, era de fato capaz de reproduzir poeticamente, em som antes até do que em letras, uma história nacional e individual; as vicissitudes de três gerações de camponeses do Alentejo, as quais, através da luta de classe, levantando-se do chão, verticalizando-se no seu reconhecer-se enquanto homens, assurgiam como protagonistas de uma história que até aquele momento fora apanágio de seus patrões. A fama internacional virá logo em seguida, em 1984, com aquele Memorial do Convento, que permanece ainda hoje como sua obra mais famosa e da qual ele sairá para uma viagem de escrita, para uma aventura
narrativa que no-lo restituirá escritor sem mais limitações regionais: um dos mais significativos narradores do nosso tempo.
O Memorial conta a construção, nas primeiras décadas do século XVIII, do Mosteiro e da Igreja de Mafra, erigidos com extraordinária magnificência nos arredores de Lisboa, por vontade do soberano absoluto D. João V. Romance histórico na minuciosa descrição da sociedade portuguesa, cortesã e popular, do começo do século, na suntuosidade barbaresca dos autos da fé promovidos por uma inquisição ainda imperante, torna-se romance social na evocação daquelas multidões de operários, carregadores braçais, canteiros,
que foram os construtores materiais do templo. Mas torna-se romance de realismo fantástico na invenção dos personagens, primeiro entre todos aqueles de Blimunda, filha de marrana dos olhos claros e do belo nome germânico que não por acaso um músico como Azio Corghi depois escolheu como protagonista de sua recriação musical do romance.
Deste momento em diante, a inspiração de Saramago torna-se urgente. O ano da morte de Ricardo Reis (1984), que ambienta em uma Lisboa atingida pela vizinha guerra da Espanha a permanência na cidade de um heteronômio de Fernando Pessoa, sobrevivido por um ano à morte do poeta, talvez seja a mais poética, comovida homenagem à memória de quem hoje é considerado o maior poeta moderno português.
Assim como A jangada de pedra (1987) representa a saborosa e polêmica profissão de fé antieuropeísta do português Saramago, a História do cerco de Lisboa (1989) é uma sua jubilosa “correção” da história no nome da liberdade da interpretação. Mas o Saramago mais próximo de nós e para nós mais universal é sem dúvida o último. Aquele que, com o sofrido e humaníssimo Evangelho Segundo Jesus (1991), agüentou a incompreensão na pátria, escolhendo desde então o caminho do exílio em Lanzarote, nas Canárias. E mesmo aquele do qual, após o voluntário afastamento de Portugal e de sua “realidade sonora”, com a conseqüente imersão num universo da
língua espanhola, todos tínhamos temido uma redução da sua sensibilidade “auditiva”: indispensável, nos parecia, para a criação daquela “literatura oral” da qual até aquele momento se substanciava a sua criação poética. Mas Saramago enxergou mais longe do que nós. E com as projeções brancas do seu romance Ensaio sobre a cegueira (1995) antes, e depois com o “burocrático” Todos os nomes (1997), soube imergir-nos em rarefeitas atmosferas de pesadelo e sonho.
Se a praxe acadêmica nos sugere por enquanto de defini-las kafkianas, no futuro talvez estas atmosferas sejam diretamente ligadas a ele, à sua fantasia, à sua humanidade, à sua capacidade de “ver” do que naturalmente de “ouvir”, naquela sua peculiaríssima recriação auditiva da realidade circunstante. Saramago gosta da Itália, onde tem muitos amigos, onde suas obras foram traduzidas até antes do que em outros países, onde recebeu os primeiros doutoramentos ad honorem e os primeiros prêmios literários. E para nós este prêmio longamente anunciado e finalmente concedido é como um Nobel para um escritor nosso. Traduzido do italiano para esta edição por Silvia La Regina, professora e ensaísta, este artigo foi publicado no jornal italiano La Repubblica e posteriormente, numa outra tradução, no Jornal de Letras de Lisboa.

[Nota de A Tarde: Luciana Stegagno Picchio, a mais importante luso-brasileira da Europa, autora, entre inúmeros outros estudos, de Histórias da Literatura Brasileira (Rio, Nova Aguilar, 1997), escreveu este artigo no dia em que foi anunciado o Prêmio Nobel para José Saramago, amigo de muitos anos]

Mais actual que nunca - "Crime (financeiro) contra a humanidade" post no livro/blog "Caderno" (19/10/2008)

Notícia de 22 de Janeiro de 2015, pode ser lida e consultada
em http://www.noticiasaominuto.com/pais/337470/clientes-do-novo-banco-protestam-junto-a-sede-do-banco

"Clientes do Novo Banco protestam junto à sede do banco"

"Perdi 100 mil euros em papel comercial, as poupanças de uma vida que guardei para a minha reforma e para poder ajudar os meus filhos", contou à Lusa António Maneiras, um reformado de 76 anos que veio do Seixal para se juntar ao protesto de hoje, que ao final da manhã reuniu pouco mais de uma dezena de pessoas.
António recordou o dia em que decidiu investir em papel comercial do banco: "A minha gestora do BES contactou-me, sabia que eu tinha vendido ações e tinha o dinheiro disponível, ofereceu-me 5% de juros e garantiu-me que não punha o meu dinheiro em risco".
Este reformado disse ainda que é nos jornais que consegue alguma informação sobre o processo do BES, uma vez que o banco não lhe faculta qualquer informação sobre quando ou como poderá reaver os seus cem mil euros.
A maioria dos que hoje se deslocaram à sede do Novo Banco para protestar é pessoas com mais de 50 anos e que vieram do norte do país.
Os manifestantes esperavam a chegada de dois autocarros vindos do Porto, que transportavam clientes do BES que subscreveram papel comercial e que se iam juntar ao protesto.
Domitila Barradas, de 53 anos, também não sabe quando pode reaver os 50 mil euros investidos em papel comercial: "Uma vida inteira de trabalho. Tenho medo de não receber este dinheiro que é meu", contou.
Alguns manifestantes exibiam cartazes dizendo "Nova Banco caloteiro" e "Onde está o meu depósito?" e "Será que o Banco de Portugal/Estado abandonaram 5.000 famílias?".
A 03 de agosto passado, o Banco de Portugal tomou o controlo do BES, após a apresentação de prejuízos semestrais de 3,6 mil milhões de euros, e anunciou a separação da instituição em duas entidades: o chamado banco mau (um veículo que mantém o nome BES e que concentra os ativos e passivos tóxicos do BES, assim como os acionistas) e o banco de transição que foi designado Novo Banco."


O universo da voz e letra de José Saramago, mostra-se, por sua razão e muita infelicidade para nós, sempre actuais e legitimados pelas acções e evolução da sociedade. Em 2008, os mercados viviam uma crise que se apelidava de sem precedentes. Em 2015, passados sete anos, esses tempos parecem uma brincadeira de alguns que subverteram as regras. Infelizmente para "nós", os outros, alheios a essas movimentações e subversões, era só mais um começo... até quando?
O post, pode ser lido e consultado online, em http://caderno.josesaramago.org/7023.html


"Crime (financeiro) contra a humanidade" (19 de Outubro de 2008)

"Pensava escrever no blog sobre a crise económica que nos lançaram para cima quando tive que me dedicar a cumprir um compromisso com outros meios de comunicação. Deixo aqui o que penso e que já foi publicado em Espanha, no jornal Público, e em Portugal, no semanário Expresso.
Crime (financeiro) contra a humanidade
A história é conhecida, e, nos antigos tempos de uma escola que a si mesma se proclamava como perfeita educadora, era ensinada aos meninos como exemplo da modéstia e da discrição que sempre deverão acompanhar-nos quando nos sintamos tentados pelo demónio a ter opinião sobre aquilo que não conhecemos ou conhecemos pouco e mal. Apeles podia consentir que o sapateiro lhe apontasse um erro no calçado da figura que havia pintado, porquanto os sapatos eram o ofício dele, mas nunca que se atrevesse a dar parecer sobre, por exemplo, a anatomia do joelho. Em suma, um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar. À primeira vista, Apeles tinha razão, o mestre era ele, o pintor era ele, a autoridade era ele, quanto ao sapateiro, seria chamado na altura própria, quando se tratasse de deitar meias solas num par de botas. Realmente, aonde iríamos nós parar se qualquer pessoa, até mesmo a mais ignorante de tudo, se permitisse opinar sobre aquilo que não sabe? Se não fez os estudos necessários, é preferível que se cale e deixe aos sabedores a responsabilidade de tomar as decisões mais convenientes (para quem?).Sim, à primeira vista, Apeles tinha razão, mas só à primeira vista. O pintor de Filipe e de Alexandre da Macedónia, considerado um génio na sua época, esqueceu-se de um aspecto importante da questão: o sapateiro tem joelhos, portanto, por definição, é competente nestas articulações, ainda que seja unicamente para se queixar, sendo esse o caso, das dores que nelas sente. A estas alturas, o leitor atento já terá percebido que não é propriamente de Apeles nem de sapateiro que se trata nestas linhas. Trata-se, isso sim, da gravíssima crise económica e financeira que está a convulsionar o mundo, a ponto de não escaparmos à angustiosa sensação de que chegámos ao fim de um época sem que se consiga vislumbrar qual e como seja o que virá a seguir, após um tempo intermédio, impossível de prever, para levantar as ruínas e abrir novos caminhos. Como assim? Uma lenda antiga para explicar os desastres de hoje? Por que não? O sapateiro somos nós, nós todos que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistarem mais e mais dinheiro, mais e mais poder, por todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, correntes ou criminosos. E Apeles? Apeles são esses precisamente, os banqueiros, os políticos, os seguradores, os grandes especuladores, que, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, responderam nos últimos trinta anos aos nossos tímidos protestos com a soberba de quem se considerava detentor da última sabedoria, isto é, que ainda que o joelho nos doesse não nos seria permitido falar dele, denunciá-lo, apontá-lo à condenação pública. Foi o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presuntivamente auto-reformável e autocorrectora encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para todo o sempre a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de o desmentir a cada hora.E agora? Irão finalmente acabar os paraísos fiscais e as contas numeradas? Irá ser implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delituosas, de investimentos opacos que, em muitíssimo casos, não são mais que maciças lavagens de dinheiro negro, de dinheiro do narcotráfico? E já que falamos de delitos… Terão os cidadãos comuns a satisfação de ver julgar e condenar os responsáveis directos do terramoto que está sacudindo as nossas casas, a vida das nossas famílias, o nosso trabalho? Quem resolve o problema dos desempregados (não os contei, mas não duvido de que já sejam milhões) vítimas do crash e que desempregados irão continuar a ser durante meses ou anos, malvivendo de míseros subsídios do Estado enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente levadas à falência gozam de milhões e milhões de dólares a coberto de contratos blindados que as autoridades fiscais, pagas com o dinheiro dos contribuintes, fingiram ignorar? E a cumplicidade activa dos governos, quem a apura? Bush, esse produto maligno da natureza numa das suas piores horas, dirá que o seu plano salvou (salvará?) a economia norte-americana, mas as perguntas a que terá de responder são estas: Não sabia o que se passava nas luxuosas salas de reunião em que até o cinema já nos fez entrar, e não só entrar, como assistir à tomada de decisões criminosas sancionadas por todos os códigos penais do mundo? Para que lhe serviram a CIA e o FBI, mais as dezenas de outros organismos de segurança nacional que proliferam na mal chamada democracia norte-americana, essa onde um viajante, à entrada do país, terá de entregar ao polícia de turno o seu computador para que ele faça copiar o respectivo disco duro? Não percebeu o senhor Bush que tinha o inimigo em casa, ou, pelo contrário, sabia e não lhe importou?O que está a passar-se é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e é desta perspectiva que deveria ser objecto de análise em todos os foros públicos e em todas as consciências. Não estou a exagerar. Crimes contra a humanidade não são somente os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassínios selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as poluições maciças, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é o que os poderes financeiros e económicos dos Estados Unidos, com a cumplicidade efectiva ou tácita do seu governo, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o dinheiro que ainda lhes resta e depois de, em muitíssimos casos (não duvido de que eles sejam milhões), haverem perdido a sua única e quantas vezes escassa fonte de rendimento, o trabalho.Os criminosos são conhecidos, têm nomes e apelidos, deslocam-se em limusinas quando vão jogar o golf, e tão seguros de si mesmos que nem sequer pensaram em esconder-se. São fáceis de apanhar. Quem se atreve a levar este gang aos tribunais? Ainda que não o consiga, todos lhe ficaremos agradecidos. Será sinal de que nem tudo está perdido para as pessoas honestas."

em, "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

"Memorial do Convento" e o episódio do "abade do norte" na alusão ao povo de Mafra

Da magnífica obra de João Céu e Silva, vários episódios podem ser recordados ou descobertos. Desta feita, a menção à alusão que Saramago inscreveu no seu "memorial", onde por palavras com origem num livro de Camilo Castelo Branco, este recupera a famosa carta de um abade beneditino de Tibães. Eis, algumas passagens alusivas à entrevista e ao excerto do texto.



"Está a falar da preparação do "Memorial do Convento", livro que, apesar do sucesso mundial, não deixou algumas pessoas de Mafra muito satisfeitas? 
O problema foi ter incluído uma carta de um abade do Norte, um beneditino acho, que criticava aquela obra gigantesca e o modo como milhares e milhares de pessoas foram levadas até lá para a fazer. 0 Camilo Castelo Branco escreveu um livro em que falava dessa carta e onde se dava a cada uma das letras que fazem a palavra Mafra um significado. Como fiz referência a este abade, quem era e o que tinha dito exactamente, isto foi transformado em algo que eu tinha dito em vez de se atribuir ao verdadeiro autor como eu fizera. Disseram que eu caluniara e que insultara os habitantes de Mafra! Ainda me ocorreu dizer «Olhem lá! Eu não disse isso», mas mesmo que mostre que não é verdade serei sempre aquele que fez isto, aquilo e aqueloutro. Ninguém aceita as provas em contrário ou os factos que se apresentem, transformou-se numa espécie de lenda urbana ou campestre. O Saramago disse isto ou o Saramago disse aquilo e ninguém vai realmente ver se foi verdade.

Sente-se injustiçado com as coisas que dizem sobre si? 
Injustiçado?! Para isso era preciso que essa gente soubesse o que significa justiça! São simplesmente caluniadores, mentirosos e nada mais. Nem vou dar grandes nomes a essas atitudes."

em, Uma longa viagem com José Saramago
de João Céu e Silva
Porto Editora, página 183 

(fotografia do interior da Biblioteca do Convento de Mafra)
Referência à descrição da biblioteca, 

"O maior tesouro de Mafra é sua biblioteca (c.1730) que, juntamente com a biblioteca de Coimbra, representam o que de mais belo e elegante há nesse tipo de arquitetura em Portugal.
As prateleiras, feitas em madeira brasileira, medem, ao todo, 83 metros de extensão. Entalhadas em estilo rococó, as estantes abrigam mais de 40 mil obras; entre elas vemos verdadeiras raridades bibliográficas, como os incunábulos.
Todas as encadernações em couro marroquino gravado a ouro, são prova viva de que as bibliotecas antigas são, na verdade, porta-jóias que guardam jóias.
A sala imensa, com 88 m de comprimento, 9,5m de largura e 13m de altura, recebe iluminação natural que até hoje impressiona pela perfeição com que a luz do dia foi aproveitada, invadindo o salão e iluminando o piso principal e a galeria, através de enormes janelas que além de funcionais, são muito belas.
A biblioteca tem planta em cruz; na parte mais a sul, ficam os livros religiosos, com manuscritos religiosos ainda em pergaminho. Prática habitual nas bibliotecas antigas, os códices e incunábulos eram acorrentados, como podemos ver na foto à esquerda.
No centro, encontramos os livros sobre os quais a inquisição tinha reservas, que vão da filosofia à anatomia, e entre eles uma preciosa relíquia: o manuscrito do “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente.
Na parte a norte da cruz, perto da entrada, estão os livros de arquitetura, direito, medicina e música. Ali fica uma primeira edição de "Os Lusíadas", impressa em 1572.
Na foto abaixo uma mesa especial para o estudo e desenho de mapas; não consegui descobrir seu nome, e olhem que já fui a Mafra algumas vezes... E quantas mais pudesse ir, iria: tudo lá é um verdadeiro deslumbramento!"


Aqui remeto para o importante desta alusão.
O episódio do abade beneditino
Excerto da obra "Memorial do Convento"

"De madrugada, muito antes de nascer o sol, e ainda bem, porque estas horas são sempre as mais frias, levantam-se os trabalhadores de sua majestade, enregelados e famintos, felizmente os libertaram das cordas os quadrilheiros, porque hoje entraremos em Mafra e causaria péssimo efeito o cortejo de maltrapilhos, atados como escravos do Brasil ou récua de cavalgaduras. Quando de longe avistam os muros brancos da basílica, não gritam, Jerusalém, Jerusalém, por isso é mentira o que disse aquele frade que pregou quando foi levada de Pêro Pinheiro a pedra a Mafra, que todos estes homens são cruzados duma nova cruzada, que cruzados são estes que tão pouco sabem da sua cruzadia. Fazem alto os quadrilheiros, para que desta eminência possam os trazidos apreciar o amplo panorama no meio do qual vão viver, à direita o mar onde navegam as nossas naus, senhoras do líquido elemento, em frente, para o Sul, está a famosíssima serra de Sintra, orgulho de nacionais, inveja de estrangeiros, que daria um bom paraíso no caso de Deus fazer outra tentativa, e a vila, lá em baixo na cova, é Mafra, que dizemos eruditos ser isso mesmo o que quer dizer, mas um dia se hão-de rectificar os sentidos e naquele nome será lido, letra por letra, mortos, assados, fundidos, roubados, arrastados, e não sou eu, simples quadrilheiro às ordens, quem a tal leitura se vai atrever, mas sim um abade beneditino a seu tempo, e essa será a razão que tem para não vir assistir à sagração da bisarma, porém, não antecipemos, ainda há muito trabalho para acabar, por causa dele é que vocês vieram das longes terras onde vivíeis, não façam caso da falta de concordância, que a nós ninguém nos ensinou a falar, aprendemos com os erros dos nossos pais, e, além disso, estamos em ,tempo de transição, e agora que já viram o que vos espera, sigam lá para adiante, que nós, ficando vocês entregues, vamos buscar mais."

em, "Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição, página 295

A Fundação José Saramago na recuperação do vidro de Castril (Centro Andaluz del Vidrio em Castril de la Peña, Granada, Espanha)

Via Youtube, video da promoção da iniciativa,

O antigo site da Fundação José Saramago, deu na altura destaque (23 de Julho de 2008), ao projecto de recuperação desta arte. 
Aqui recupera-se os dados da iniciativa, 
em http://fundjosesaramago.blogspot.pt/2008/07/centro-andaluz-del-vidrio-em-castril-de.html


"A Fundação José Saramago e o Centro Andaluz del Vidrio em Castril de la Peña, Granada, Espanha"


"Com o objectivo de recuperar a perdida indústria do vidro, pôs-se em marcha uma iniciativa que dará trabalho e visibilidade a uma zona economicamente deprimida.
Graças à iniciativa da Fundação José Saramago, do município de Castril e dos fundos obtidos através de instituições andaluzas, pôs-se em marcha um projecto que pretende recuperar e manter viva a tradição do trabalho em torno do vidro, arte que deu a conhecer Castril de la Peña à Europa e ao mundo, já que peças saídas das mãos dos criadores de Castril podem ser vistas nos museus mais importantes. Actualmente, no Centro é dada formação a cerca de 20 pessoas, que se iniciam nas artes do vidro soprado e noutras técnicas, e que serão os obreiros da indústria do vidro, tão reclamada durante anos.

O Centro e o trabalho que ali se realiza merecem uma visita, mas para quem não possas deslocar-se até Castril, pode ver este vídeo de apresentação que mostra as primeiras peças saídas do Centro Andaluz del Vidrio, já nesta data uma prometedora realidade."



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Depoimento de José Saramago em a "Janela da Alma" - Documentário de João Jardim e Walter Carvalho



Para consulta e visionamento do documentário
em http://www.contioutra.com/janela-da-alma/

“Eles vêem pouco, mas enxergam muito: ‘Janela da Alma’ é um filme luminoso.”

José Saramago, Oliver Sacks, Marieta Severo, Manoel de Barros são só alguns dos grandes nomes que falam sobre o assunto no documentário…Também encontramos depoimentos fabulosos de diversos cineastas que nos explicam como é o “seu” mundo, como aprenderam a ver a realidade. Realmente fantástico! (Mário Sérgio Conti, da Folha de S.Paulo, no Rio)

O filósofo José Arthur Giannotti disse certa vez que os cientistas sociais brasileiros não deveriam se restringir a pensar temas nacionais. Para ele, pesquisar e escrever sobre, digamos, os alfaiates do Piauí não é necessariamente sinal de nacionalismo.

A dedicação exclusiva a assuntos brasileiros pode ser indício de colonialismo: as grandes questões ficariam por conta de pensadores dos países dominantes, enquanto os periféricos se conformariam em lidar com coisas pequenas.

“Janela da Alma”, de João Jardim e Walter Carvalho, é um documentário que segue o postulado de Giannotti. Ele enfrenta um tema abstrato, a visão, sem os travos do subdesenvolvimento.

Os diretores pensam grande já no título, que alude à frase de Leonardo da Vinci: o olho é a janela da alma, o espelho do mundo.
Eles entrevistaram artistas, intelectuais e pessoas ditas comuns da Europa e do Brasil. Recorreram à filosofia, à medicina, à biologia, à música e à literatura para investigar o que é a visão.

O resultado é um filme que enriquece a visão que se tem da visão. Os 19 entrevistados, com graus de acuidade visual que vão da miopia à cegueira, discorrem sobre ver, não ver e ver de maneira única, intransferível.

O leque de entrevistados é amplo. Entre eles estão o músico Hermeto Pascoal, o escritor José Saramago, a atriz alemã Hanna Schygulla, o poeta Manoel de Barros, a cineasta Agnès Varda, o neurologista inglês Oliver Sacks.

Absolutamente tudo o que dizem ou fazem é pertinente e interessante. Não há enrolação, não se desperdiça imagem ou silêncio.

Acompanhando a torrente de discursos, as imagens são focadas, desfocadas e refocadas, alterando a percepção do espectador. O documentário mostra um mundo saturado de imagens que visam atrair o olhar para o consumo (as da propaganda) e o contrasta com paisagens desoladas, onde não há nada para ver.

A abstração também é confrontada com visões bem concretas. O vereador cego Arnaldo Godoy, de Belo Horizonte, conta com ótimo humor como é a vida sem enxergar nada. O filósofo esloveno Eugen Bavcar, também ele cego, mostra como tira ótimas fotografias. É preciso ver para crer.

Seria fácil, num filme como esse, cair na abstração pretensamente poética -citando Bergson, Borges, Milton e quetais- e dela não sair. Ou então ir para o pólo oposto, enfileirando esquisitices uma após a outra.

João Jardim e Walter Carvalho habilmente vão de um pólo ao outro, tornando o filme cada vez mais denso, cada vez mais claro e opaco. A tese central, a de que a visão é construção cultural, e não um dado da natureza, é exposta por meio de nudanças.

“Janela da Alma” está longe, contudo, de ser um filme de tese. Ele é uma expressão pessoal. João Jardim (diretor de documentários como “Terra Brasil” e “Free Tibet”) e Walter Carvalho (diretor de fotografia de “Abril Despedaçado”) são duas toupeiras míopes: o primeiro usa óculos de 8 graus; Carvalho, 7,5.

Eles vêem pouco, mas enxergam muito: “Janela da Alma” é um filme luminoso.