Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Texto a propósito do Parlamento Internacional de Escritores - "Cadernos de Lanzarote Diário II" (05/09/1994) e da Jornalista Betty Milan

5 de Setembro de 1994
"Eduardo Prado Coelho pediu-me um texto para meter no suplemento que o Público vai publicar a propósito da reunião, no fim deste mês, em Lisboa, do Parlamento Internacional de Escritores. O arrazoado expedido foi este: 
«Imaginemos que alguém que não é escritor nem aspira a sê-lo faz a seguinte pergunta: "Para que vai servir o Parlamento Internacional de Escritores?" E insiste: "Para que tem servido o PEN Club Internacional (que é, por assim dizer, um parlamento mais antigo)?" Finalmente: "E os escritores, servem para quê?" 
«A última pergunta, provavelmente, é a que terá resposta mais fácil: os escritores servem para escrever. Escrevam bem ou escrevam mal, escrevam contra ou a favor, escrevam sós ou mal acompanhados - são escritores, e basta. O tempo vindouro, como é ideia feita, joeirará a obra produzida (embora não se entenda por que bulas há-de ter sempre o futuro melhor critério que o presente e o presente sempre melhor gosto que o passado, sobretudo se pensamos que todo o presente foi futuro de um passado e passado de um futuro). De escritores, como pessoas, tenho dito, por enquanto. Mas a eles voltarei. «As associações servem para fazer de conta que os escritores estão juntos. Não juntos por razões estéticas, ou políticas, ou ideológicas, ou editoriais. Simplesmente, juntos. A sua mais avançada eficácia prática seria de tipo corporativo, como suponho que sucede com os médicos e advogados. 
As associações de escritores, se não são correias de transmissão de poderes estabelecidos (por favor, falo das associações em geral, não da portuguesa em particular), vivem do que têm, e o que têm é quase nada. Delas se pode dizer que, como "ordens", não são ricas, e como "sindicatos", não são reconhecidas. As associações não têm força para defender os interesses materiais dos escritores e nem sempre estão atentas à defesa dos seus direitos morais. Ou então, quantas vezes, inoperantes elas e inoperantes eles no âmbito nacional, buscam modos de reaprumar a consciência cívica e a responsabilidade intelectual nas organizações internacionais correspondentes, diluindo assim numa agitação cosmopolita mais ou menos efectiva a sua incapacidade local. Não creio que seja ofensa dizer que no Pen Club Internacional vão desaguar muitas destas frustrações nacionais, tanto as de responsabilidade própria como as que são consequência de condições externas adversas (dos efeitos de tais condições está absolvido, por falta de culpa, o PEN Club Português). Conclusão de tudo quanto ficou dito antes: não faltam associações, mas os escritores estão isolados. «E agora chega aí o Parlamento Internacional de Escritores. (Que não teríamos em Lisboa se Lisboa não fosse, este ano, Capital Europeia da Cultura. Lá que o convite foi uma boa inspiração, não há que negar. Resta agora ver que outras iniciativas virá a tomar Lisboa quando o dia 31 de Dezembro puser termo ao seu febrão cultural.) Chega aí o Parlamento Internacional de Escritores, graças ao que nos vamos reunir, nós e os de fora. Pelo que se sabe, pretende-se "criar uma estrutura de intervenção e reflexão sobre o lugar da literatura e do pensamento num mundo ameaçado quotidianamente pela intolerância, opressão ou violência dos dogmatismos e fundamentalismos actuais", o que parece equivaler, mais ou menos, a uma ONU toda feita de intelectuais. (Atenção, a ironia é só aparente, eu próprio estou envolvido nisto desde o princípio.) «Ora, se se trata realmente de uma nova ONU, é prudente começar, desde já, a pensar no grau de eficácia que iremos ter, pois a lição da ONU propriamente dita aí está para tirar-nos as primeiras ilusões. Qualquer um sabe que a oportunidade e a intensidade de uma mostra de autoridade da ONU (a outra) depende exclusivamente do querer político de uns quantos países, não de todos. Aonde eu quero chegar é simplesmente à demonstração de uma evidência: a de que o poder real-mente interventivo do Parlamento Internacional de Escritores estará na razão directa do grau de intervenção cívica dos escritores como cidadãos: quanto mais eles intervierem, "quotidianamente", na vida social (e não apenas literária, e não apenas artística) do seu país e do mundo, mais probabilidades terá o Parlamento de fazer ouvir a sua voz e talvez ajudar a mudar os perigosos caminhos que, parece que às cegas, estamos percorrendo. «Como um dia escrevi, o melhor parlamento não é aquele onde se fala, mas aquele onde se ouve. O Par-lamento Internacional de Escritores terá de abrir-se aos gritos de dor e de protesto do mundo, tal como está obrigado a atender, já que essa é a sua primeira vocação, às dores e protestos de quem escreve. Não é a literatura que está doente, é a sociedade.» 


(José Saramago e a jornalista Betty Milan)

O presente texto pode ser consultado e lido, na página da jornalista Betty Milan, aqui
em http://www.bettymilan.com.br/artigos/publicados/90-53-parlamento.htm

"O Parlamento Internacional dos Escritores" 
de Betty Milan

(Este texto integra o livro A força da palavra e reúne os artigos "A multinacional crítica", Folha de S. Paulo, 9/10/1994; "Lisboa recebe o Parlamento dos Escritores", Folha de S. Paulo, 25/09/1994, e "Parlamento de escritores", Folha de S. Paulo, 25/12/1993)

"Boa parte das entrevistas aqui reunidas foi realizada no período em que surgiu e se estabeleceu o Parlamento Internacional dos Escritores (PIE). A instituição, criada em 1993, resultou da transformação de uma tradicional reunião internacional de escritores organizada por Christian Salmon na cidade francesa de Estrasburgo, o Carrefour de la Littérature (“Confluência da Literatura”), em uma associação destinada a defender a liberdade de expressão e também a garantir a segurança física de escritores em perigo de vida. Era a reação à fatwah, a condenação à morte, lançada contra o anglo-indiano Salmann Rushdie (1989) e ao chocante assassinato de Tahar Djaout na Argélia (1993). Sob a presidência do próprio Rushdie (1994-1997) inicialmente e depois do nigeriano Wole Soyinka (1997-2000) – o primeiro Prêmio Nobel da África negra – e do americano Russel Banks (2000-2003), a organização logo instituiu cidades-refúgios, dispostas a abrigar e proteger autores perseguidos em seus países, e desenvolveu pesquisas sobre as formas de censura. Foram criados dois órgãos de comunicação e difusão global: a revista Autodafé, publicada em oito línguas simultaneamente, e o site homônimo, para pôr em circulação as obras censuradas.

Em 1994, a reunião aconteceu em Lisboa, onde cobri o encontro como enviada especial do jornal Folha de S. Paulo. Na ocasião, entrevistei vários escritores sobre a importância do organismo que os congregava. Daí a inclusão, em anexo, dos artigos publicados no jornal sobre o Parlamento Internacional dos Escritores e sua reunião em Portugal.

Em 2003, no encontro de dez anos de seus membros, a organização foi autodissolvida. Em 2005, o PIE voltou a manifestar-se em favor da libertação da jornalista francesa Florence Aubenas, sequestrada em missão no Iraque. Desde então, Christian Salmon, ex-secretário-geral e depositário da documentação do PIE, faz manifestações pontuais com base na ideia fundadora da organização.

1. Em 1989, Salman Rushdie, já consagrado como escritor, publica Os versos satânicos. Sob o pretexto de que ele blasfemou contra o Islã, o aiatolá Khomeini o condena à morte. Quem leu o romance sabe que Rushdie trata a modernidade ocidental com o maior ceticismo e até mostra como os textos sagrados do Islã são aviltados pela televisão e pela publicidade.

Isso não o inocentou diante do espírito teocrático, para o qual abordar os textos sagrados num romance é pior do que qualquer ataque direto, precisamente porque, sendo contrário à afirmação de uma verdade única, o romance não permite àquele espírito se defender.

O caso do autor de Os versos satânicos evidencia que a arte do romance pode estar ameaçada, porque o direito à ambiguidade e ao enigma está em perigo.

Depois da condenação de Rushdie, que passou a viver na clandestinidade, em junho de 1993, vários escritores são assassinados na Argélia. Face a esses crimes, um grupo de cinquenta escritores e intelectuais europeus e americanos, apoiando-se numa ideia do sociólogo francês Pierre Bourdieu, propõe a fundação de um Parlamento Internacional dos Escritores.

O apelo é enviado a mais de duzentos escritores do mundo inteiro e aceito unanimemente.

Reivindicando a autonomia da literatura em relação aos diferentes poderes e insistindo na necessidade de uma estrutura capaz de organizar um movimento de solidariedade internacional, o grupo funda, ainda em novembro de 1993, o Parlamento Internacional dos Escritores.

O trabalho do Parlamento exige instâncias de deliberação e de execução. Isso resulta na criação de um Conselho, presidido por Salman Rushdie e composto por Adonis (poeta libanês), Breyten Breytenbach (escritor sul-africano), Carlos Fuentes (escritor mexicano), Édouard Glissant (escritor martinicano), Jacques Derrida (filósofo francês), Pierre Bourdieu (sociólogo francês) e Toni Morrison (escritora americana).

Salman Rushdie redige então uma Declaração de Independência, a carta de princípios do Parlamento:

Os escritores são os cidadãos de muitos países – o país limitado e ladeado pelas fronteiras da realidade observável e da vida cotidiana, o reino infinito da imaginação, a terra semiperdida da memória, as federações do coração simultaneamente incandescentes e geladas, os estados unidos do espírito (calmos e turbulentos, largos e estreitos, regulados e desregulados), as nações celestes e infernais do desejo e, talvez a mais importante das nossas moradas, a república sem entraves da língua.

São esses países que o nosso Parlamento dos Escritores pode, sinceramente, e com tanta humildade quanto orgulho, pretender representar. Em conjunto, eles englobam um território bem maior do que o jamais governado por qualquer potência terrestre; no entanto, as suas defesas contra esse poder podem parecer muito fracas.

A arte da literatura exige, como condição essencial, que o escritor possa circular entre aqueles numerosos países como bem entender, sem necesssidade de passaporte ou visto, fazendo o que quiser com eles e consigo mesmo. Nós somos mineiros, ourives, homens sinceros e mentirosos, bufões e chefes, mestiços e bastardos, pais e amantes, arquitetos e demolidores. O espírito criador, por natureza, não tem limites nem fronteiras, rejeita a autoridade dos censores e dos tabus. É por essa razão que ele é frequentemente tratado como inimigo por potentados fortes ou insignificantes, os quais atacam a arte por construir imagens do mundo que ferem ou sabotam as suas próprias representações, mais simples e menos francas.

No entanto, não é a arte que é fraca, os artistas é que são vulneráveis. A poesia de Ovídio sobreviveu; a vida de Ovídio foi miserável por causa dos poderosos. A poesia de Mandelstamm continua viva; o poeta foi assassinado pelo tirano que ele ousou nomear. Hoje, no mundo inteiro, a literatura continua a se opor à tirania – não de maneira polêmica, mas negando-lhe a autoridade, trilhando o seu próprio caminho, declarando a sua independência. O melhor da literatura ficará, mas nós não podemos esperar do futuro que ele a libere das cadeias da censura. Muitos autores perseguidos também sobreviverão, de uma ou de outra maneira, mas nós não podemos esperar em silêncio o fim de sua perseguição.

O nosso Parlamento dos Escritores existe para lutar pelos escritores oprimidos e contra todos os que os perseguem – a eles e a suas obras – e para renovar incessantemente a declaração de independência, sem a qual a escrita é impossível; e não somente a escrita, mas o sonho; e não somente o sonho, mas o pensamento; e não somente o pensamento, mas a própria liberdade.

Os membros do Parlamento Internacional dos Escritores têm como princípios de sua ação a independência em relação aos poderes políticos, econômicos, midiáticos e de todas as ortodoxias; o internacionalismo fundado no conhecimento e no reconhecimento da diversidade das tradições históricas; a dedicação às ações universais, concebidas e decididas em comum.

Os objetivos do Parlamento devem ser determinados por todos os seus membros. Face à multiplicação dos atentados à liberdade de criação, ele visa intensificar a consciência dos criadores e a defesa dos interesses comuns; proteger as línguas e as culturas minoritárias ou oprimidas (ensino, acesso à publicação etc.), a liberdade real de expressão (contra a censura), os instrumentos de produção e difusão (edição, revistas, política de tradução) e todas as instituições direta ou indiretamente ligadas aos produtores culturais e às suas condições de trabalho.

Para romper o isolamento dos escritores, o Parlamento se vale de uma rede-fax internacional, que funciona entre os membros e também pode convocar rapidamente conferências de imprensa e manter tribunas livres nos jornais do mundo inteiro.
Através de uma rede de cidades-refúgios, solidariza-se com os escritores ameaçados nos seus países ou condenados ao exílio.

2. Tendo em vista a discussão dos princípios, objetivos, formas de ação e organização, o Parlamento Internacional dos Escritores se reúnede 28 a 30 de setembro de 1994 em Lisboa. Entre os participantes estão Édouard Glissant, Eduardo Lourenço, Hélène Cixous, Jacques Derrida, Pierre Bourdieu e Toni Morrison.

A reunião ocorre na Fundação Gulbenkian, sem a presença esperada do Prêmio Nobel de Literatura de 1986, Wole Soyinka, nigeriano.

Apesar das pressões exercidas pelos presidentes de França e de Portugal, o governo da Nigéria se recusa a dar um passaporte para o escritor, cuja ausência no Parlamento é mais uma prova da necessidade deste.

A seguinte mensagem é enviada por Soyinka aos colegas reunidos em Lisboa: “Devemos continuar a luta contra os atentados à liberdade de expressão. O meu país, dirigido por uma ditadura militar que usurpou o poder, atravessa uma situação difícil. Entristece-me não estar com vocês e eu agradeço a solidariedade... Queiram transmitir a minha simpatia a Taslima Nasreen, cuja luta eu apoio inteiramente”.

Protegida por forte esquema de segurança, Taslima Nasreen, condenada à morte pelos fundamentalistas de Bangladesh, comparece ao Parlamento no segundo dia de reunião e faz um depoimento comovente. “Comparada aos grandes escritores, eu não sou ninguém. Só o que posso dizer é que sou diferente. Sou inteiramente eu mesma, uma viajante solitária... O adjetivo 'burra' é aplicado às mulheres de Bangladesh, independentemente da inteligência e da cultura que tenham, e eu resolvi falar pelas 'burras'... Na verdade, eu hoje sou um pretexto para que os fundamentalistas continuem a fazer das mulheres do meu país cidadãs de segunda categoria... Não sei o que a minha poesia vale, mas sei que as 'burras' do meu país sabem que eu escrevo para elas.”

Salman Rushdie, presidente do Parlamento, alega uma razão literária para não comparecer: a escrita de um novo livro. Conclui sua mensagem lembrando que os colegas reunidos em Lisboa não serão julgados pelas suas palavras, e sim por seus atos.

O Parlamento se encerra com um protesto oficial contra o governo nigeriano e uma série de resoluções.

Primeiramente, considerando que os povos de Ruanda são vítimas do crime de genocídio – no sentido expresso pela Convenção da ONU de 1948 –, exigir o estabelecimento imediato dos mecanismos jurídicos necessários ao julgamento dos autores desses crimes contra a humanidade.

Em segundo lugar, tudo fazer para que os intelectuais argelinos perseguidos sejam recebidos nas universidades e nas instituições de ensino dos países democráticos.
Em terceiro, enviar uma missão ao Timor-Leste para saber qual a situação dos intelectuais no país.

Finalmente, ampliar a rede de cidades-refúgios de que já fazem parte Amsterdã (Holanda), Berlim (Alemanha), Estrasburgo (França) e Helsinki (Finlândia).

3. O único Parlamento ao qual o presidente não comparece alegando razões estritamente literárias é o dos escritores. Mas o Parlamento Internacional dos Escritoresnão é único apenas porque a escrita justifica a ausência. Também o é porque o presidente, Salman Rushdie, pôde dizer, na sua mensagem, que os membros, todos escritores, serão julgados pelas suas iniciativas, e que talvez seja salutar não serem julgados pelas palavras e, sim, pelos atos.

A unicidade daquele Parlamento, que se forma em nome da liberdade literária e contra o dogmatismo religioso ou ideológico, decorre do fato de que o paradoxo pode vigorar e a seriedade não exclui o riso, que é próprio do homem, como dizia Rabelais. A mensagem de Rushdie serve para situar o Parlamento no campo a que pertence – o da literatura – e justificar a existência de um “contrapoder” ou uma “multinacional crítica”, conforme definição do Parlamento por Pierre Bourdieu.

Trata-se de um contrapoder necessário num tempo em que a palavra “liberdade” se tornou um perigo e o escritor precisa se engajar para não ser vítima da tirania dos mestres do silêncio.

Apesar de um incidente que poderia ter sido evitado com a imprensa – injustamente afastada da assembleia no dia em que Taslima Nasreen comparece –, o encontro é um sucesso, porque, entre as suas resoluções, está a de fazer a ONU reconhecer que a palavra “genocídio”deve ser aplicada a Ruanda. Tal reconhecimento não apenas tornará obrigatório o julgamento dos responsáveis, como ainda imprescritíveis os crimes cometidos. Um sucesso, porque os escritores agiram como escritores, intervieram de modo eficaz na realidade, valendo-se da virulência das palavras.

Para saber o que pensavam os parlamentares reunidos em Lisboa sobre a contribuição possível do Parlamento e a questão da censura nos respectivos países, entrevistei vários membros presentes: Eduardo Lourenço, autor de O labirinto da saudade – Prêmio Europeu do Ensaio em 1988 —; o romancista José Saramago; Hélène Cixous, ensaísta e ficcionista, autora de A hora de Clarice Lispector; o filósofo Jacques Derrida; Édouard Glissant, poeta martinicano; Assia Djebar, romancista argelina exilada na França; Adonis, poeta libanês; Bei Dao, a grande voz da dissidência literária chinesa, exilado nos Estados Unidos. Segue o texto da entrevista.

BM: Qual pode ser, na sua opinião, a maior contribuição do Parlamento Internacional dos Escritores?

EDUARDO LOURENÇO: Não se deve esperar uma intervenção que tenha efeitos imediatos, como a dos políticos. Os escritores aqui reunidos pretendem alertar a comunidade internacional sobre os ataques sofridos pela liberdade de pensar e de escrever em vários países do mundo. Os exemplos mais célebres e trágicos são os de Rushdie e Nasreen. O nosso protesto é de ordem moral, temos a obrigação de defender uma das grandes tradições da nossa civilização, que é a da liberdade de expressão.

JOSÉ SARAMAGO: A contribuição vai depender do eco que o Parlamento possa ter na opinião pública. Podemos dizer coisas importantes, tomar grandes decisões, mas, se não houver repercussão... Tudo depende da capacidade que o Parlamento tiver de transmitir as suas ideias à imprensa, ao rádio e à televisão. Não sei se os jornalistas estão conscientes da grande responsabilidade que têm.

HÉLÈNE CIXOUS: O simples fato de conseguir reunir escritores em torno do tema da defesa da liberdade é extraordinário e já é uma contribuição. Isso nunca havia sido feito. Os grandes escritores, que vivem em países não-democráticos, são todos defensores da liberdade de pensamento e de expressão. O fato de o governo nigeriano ter impedido Wole Soyinka, Prêmio Nobel de Literatura, de vir a este Parlamento é um indício da importância do escritor na sociedade contemporânea. Mandelstamm, um dos grandes poetas russos, que foi deportado em 1938 e morreu num campo de concentração, dizia que o poeta é uma das pessoas mais importantes do mundo, porque pode ser preso por causa de um poema.

JACQUES DERRIDA: Contribuição? Já protestamos contra o que o governo nigeriano fez a Wole Soyinka. Ontem, escutamos Taslima Nasreen. Amanhã, vamos anunciar um certo número de resoluções e, entre as medidas concretas, o prosseguimento da política de cidades-refúgios. Daqui por diante, pretendemos informar à imprensa sobre um grande número de perseguições a intelectuais, de modo a poder agir sobre os Estados. Queremos nos organizar para descentralizar o Parlamento e ter reuniões em vários lugares do mundo. Ademais, vamos refletir sobre o que está acontecendo com a democracia, com os direitos do homem... Sem a reflexão filosófica, a nossa ação poderá se tornar repetitiva.

ÉDOUARD GLISSANT: A maior contribuição do Parlamento é a sua natureza, o fato de ser verdadeiramente internacional, e não apenas uma emanação das ideias europeias. Acontece que ele nasceu na França, depois do encontro do Carrefour des Littératures de Estrasburgo... O Parlamento deve corresponder à situação real do mundo, que é o objeto mais importante da literatura. O que se passa hoje, essa espécie de mistura extraordinária das culturas, muda as mentalidades. É preciso que tenhamos consciência de que cada comunidade deve preservar sua identidade, não deve se perder numa espécie de magma universal, mas tampouco se fechar sobre si mesma.

ASSIA DJEBAR: No quadro do Parlamento, já existe uma rede de cidades-refúgios, o que é uma contribuição. Nós, aqui, vamos escutar escritores que vêm de países onde há perseguições e depois, a partir de informações confiáveis, discutiremos o que fazer. Temos que ir em direção a coisas mais concretas.

ADONIS: O que faz a identidade de uma cultura é a criação. Se os criadores são oprimidos, a cultura e o povo são oprimidos. A contribuição do Parlamento é defender a liberdade de criação.

BEI DAO: A maior contribuição é a reunião de escritores do mundo inteiro, o encontro, independentemente do país de origem, da língua, da religião.

BM: Que temas poderiam implicar censura se fossem abordados no seu país?

EDUARDO LOURENÇO: Não temos aqui, em Portugal, conflitos de ordem religiosa, ética ou biológica suficientemente dramáticos para que a censura se exerça. Mas, no passado, já houve até caso de escritor condenado à morte. Durante a Inquisição, o nosso grande autor dramático, o Judeu, brasileiro de origem, acabou na fogueira. Durante a ditadura de Salazar, a criação esteve submetida ao olhar vigilante da censura.

JOSÉ SARAMAGO: O único caso que eu conheço de perto é o meu. O evangelho segundo Jesus Cristo havia sido selecionado para um prêmio europeu, mas o governo considerou que o meu livro ofendia o povo português nas suas crenças, na sua religião. Isso é completamente idiota, claro.

HÉLÈNE CIXOUS: Existe na França uma censura infinita no que diz respeito às mulheres. A misoginia está sempre presente. Todas as mulheres que escrevem sabem disso. São barradas nos jornais, malrecebidas. No que diz respeito ao lugar da mulher na nação, a França se encontra em décimo terceiro lugar e só há 5% de mulheres na universidade.

JACQUES DERRIDA: Na França, não existe censura explícita. A censura é mais sutil. O escritor corre o risco de não poder publicar, de não publicar na editora em que desejaria estar. Existem barreiras editoriais, grupos de pressão poderosos.

ÉDOUARD GLISSANT: A situação nas Antilhas francófonas é muito particular. Diria que não se trata de censura, porém de autocensura. A assimilação dos modos de vida franceses é tão profunda que o aparelho de Estado francês não precisa censurar.

ASSIA DJEBAR: Atualmente, a violência é tal na Argélia que qualquer intelectual, mesmo que não tenha se engajado no combate político, está ameaçado de uma ou de outra maneira. O que determina a censura não é o tema. Você é julgado pela língua na qual se exprime. Os que nos ameaçam são os que querem uma unicidade da língua. Eu posso ser perseguida só porque escrevo em francês; outro, por escrever em berbere; e, mesmo o que escreve em árabe, mas o faz no árabe do povo, também pode ser objeto da violência. Só está livre o que usa o árabe acadêmico. É um estado de pré-fascismo. O argelino Youssef Sebti, que escrevia em francês e no árabe da cultura popular, foi barbaramente assassinado.

ADONIS: A censura não é causada pelo tema. Na verdade, podemos abordar qualquer tema. O que conta é o como, como o tema é abordado.

BEI DAO: Na China, só é censurado o que possa comprometer o governo ou o partido. No mais, tudo pode ser dito. São as questões de mercado que tornam a vida do escritor particularmente difícil na China hoje.


Crónica "As palavras" declamado pela actriz Vera Barbosa (Deste Mundo e do Outro)

Vera Barbosa na Fundação José Saramago (Foto: Joao Raposo)
"VI Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora"

Abrir o link que indico, onde a actriz Vera Barbosa apresenta a declamação de parte da crónica "As palavras" e acompanhar com a leitura do texto que está centrado e em negrito.
Boa viagem na companhia da Vera Barbosa

https://soundcloud.com/vera-barbosa/aspalavras

Crónica "As palavras"
"Deste Mundo e do Outro"
Caminho, 3.ª edição, páginas 55 e 56

"As palavras 
"As palavras são boas. 
As palavras são más. 
As palavras ofendem. 
As palavras pedem desculpa. 
As palavras queimam. 
As palavras acariciam. 
As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. 
As palavras estão ausentes. 
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. 
As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. 
São melífluas ou azedas. 
O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. 
Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. 
Há muitas palavras. 

E há os discursos, que são palavras encostadas umas outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do Verbo. Ao lado de Sócrates, o presidente da junta afixa o discurso que abriu a torneira do marco fontanário. E as palavras escorrem, tão fluídas como o «precioso líquido». Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envolta também num murmúrio manso, represo e conciliador. Há de tudo no orfeão: tenores e tenorinos, baixos cantantes, sopranos de dó de peito fácil, barítonos enchumaçados, contraltos de voz-surpresa. Nos intervalos, ouve-se o ponto. E tudo isto atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares. 
Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. 

A palavra não responde nem pergunta: amassa. 
A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. 
A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. 
A palavra não mostra. 
A palavra disfarça. 
Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. 
Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. 
Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do acto. 
Há também o silêncio. 
O silêncio, por definição, é o que não se ouve. 
O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. 
O silêncio é fecundo. 
O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. 
Caem sobre ele as palavras. 
Todas as palavras. 
As palavras boas e as más. 
O trigo e o joio. 
Mas só o trigo dá pão." 


Vera Barbosa actuando na peça que dirigiu 
Janela principal (centro, 1.º piso)
"Uma boa lembrança: Memorial do Convento", de José Saramago
Concepção e direção: Vera Barbosa 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Roteiro de Leitura "O Evangelho segundo Jesus Cristo"

Roteiro de Leitura
"O Evangelho segundo Jesus Cristo" 
Caminho, 1.ª edição - 1991


Um roteiro não nos mostra o local físico, porém, 
nos orienta pelos caminhos a percorrer até ao seu destino.
São 90 pontos de interesse, onde se acompanha a "viagem" de um homem que carregou desde a sua concepção a semente de Deus, a culpa do pai e a vida em sofrimento de sua mãe e o amor de Maria de Magdala até ao momento em que se torna mártir para que em seu nome Deus concretize o seu plano.
Tal como se pode imaginar e idealizar num trajecto entre o ponto de partida e o de chegada. Pelo meio, um caminho percorrido. 
(8 a 25 de Janeiro de 2016)

1 - Capítulo inicial que aborda a pintura de Albrecht Dürer "A crucificação de Cristo"

2 - José acorda sobressaltado a meio da noite. A madrugada apresenta-se estranha. Parece que o mundo vai acabar. Amanhece e a urgência sexual de José. Maria que o recebe


3 - José, carpinteiro de 20 anos, obediente a Deus. Maria, filha de Joaquim e Ana, serviçal de José e de Deus, 16 anos, trata da casa e dos trabalhos pesados. Vivem em Nazaré que pertence à Galileia

4 - Quatro semanas depois o mendigo que bate à porta a pedir, depois de comer apresenta-se a Maria como o anjo que lhe anuncia a gravidez de Maria "Sou um anjo mas não digas a ninguém". A terra negra que brilha na tigela de barro onde o mendigo comeu. José toma uma atitude de desconfiança

5 - José pede conselho na sinagoga. Os três anciãos (Abiatar, Dotaim e Zaquias) decidem confrontar Maria sobre o caso da visita do mendigo. A tigela com a terra luminosa foi enterrada.


6 - Passam os meses. Chegam a Nazaré alguns soldados romanos que por ordem do imperador César Augusto, todas as famílias governadas por Públio Sulpício Quirino deveriam apresentarem-se a recenseamento na sua terra de origem para actualização do cadastro dos contribuintes de Roma

7 - José é informado do recenseamento por Ananias seu vizinho. José é de Belém de Judeia, perto de Jerusalém, será lá o local que por obrigação deverá ir. Chua mulher de Ananias o acompanha nesta malfadada notícia, quando Maria já se encontra no fim da gestação.

8 - José e Maria partem em direcção a Belém. De início terão a companhia de duas famílias. Homens e rapazes com mais de treze anos à frente, depois todas as mulheres, as meninas, as mulheres e as velhas.


9 - Confronto de perguntas e respostas entre José e o ancião Simeão que quis saber o que faria José se chegado o fim do prazo de recenseamento em Belém, Maria não tivesse dado à luz. Se não nascer até à data é porque Deus não quis que Roma viesse a saber da sua existência. Tensão entre os homens deste caravançarai. Razão ou presunção de José

10 - No dia seguinte a caravana inicia sua marcha. José pede desculpa a Simeão pelo excesso cometido. Simeão depois de matutar confidencia uma visão que teve. Talvez fosse melhor que filho a nascer se mantivesse incógnito e igual aos seus iguais. A ajudar a este episódio final na discórdia, José olhando em direcção à marcha das mulheres vê um homem alto caminhando ao lado de Maria. Duas vezes teve a visão à terceira já lá não estava

11 - Passaram pelas terras malditas de Samaria e o episódio do mendigo ao lado de Maria continuará a importunar José


12 - Sinal das primeiras dores mas que ainda dará para sair de Jerusalém e chegar a Belém. Passarão pelo túmulo de Raquel mulher de Jacob. O parto é eminente. A urgência das dores manda José ir procurar os anciãos que lhe possam dar ajuda. Em desespero pede guarida numa casa, o melhor que consegue são os préstimos da escrava Zelomi e um lugar numa gruta desocupada de animais.

13 - Enquanto dura o parto José recebe de três pastores a promessa de leite, queijo e pão. O pastor que promete a oferta do pão faz um compasso de espera intrigante.

14 - Nasceu um menino. Será agora tempo de Zelomi repousar da ajuda que deu a Maria e de José regressar à gruta e tomar para si a protecção do seu filho. Os pastores que prometeram alimento a José, chegam com o leite, queijo e pão. Este pão oferecido pelo pastor que tinha feito algum silêncio no anúncio é reconhecido por Maria como sendo o anjo que lhe deixou a terra luminosa


15 - Rei Herodes à beira da loucura e da morte, ordena a condenação à morte dos seus filhos, e vive os seus últimos dias em agonia. No meio de um pesadelo, aparece-lhe o profeta Miqueias que sempre parece não dizer tudo o que tem para comunicar ao rei

16 - Ao oitavo dia José leva o seu primogénito à sinagoga para que seja circuncidado. José deu-lhe o nome de Jesus. Maria ficará trinta e três dias à espera, é o tempo da sua impureza que leva a limpar e purificar.

17 - Sem sucesso em Belém, José vai a Jerusalém procurar trabalho no templo que lá se construía. De volta passa pelo túmulo de Raquel, vem-lhe um estranho pensamento - os filhos que morrem por causa dos pais que os geraram e das mães que os puseram no mundo

18 - Passam os dias e José prepara o regresso a Nazaré. Irão passar pelo templo em Jerusalém. A grandeza do Pátio dos Gentios e o ritual de purificação que José cumprirá no templo ao mandar sacrificar duas rolas


19 - Maria foi purificada pelo sacrifício das duas rolas e Jesus é o pretexto das mortes. O regresso a Nazaré

20 - O profeta Miqueias que nos sonhos do rei Herodes sempre se cala desta vez anunciou "mas tu, Belém, tão pequena entre as famílias de Judá, foi já de ti que me saiu aquele que governará Israel."


21 - No dia seguinte José nas obras do templo de onde está de abalada, e colocado no caminho de soldados e ouve a conversa entre eles. O rei Herodes terá mandado matar todos os filhos com menos de três anos, pelas contas serão vinte e cinco ao todo

22 - José em pânico corre para salvar o seu filho. Sai depressa de Jerusalém, ainda pensa no dinheiro perdido da semana trabalhada, mas a sua urgência é salvar Jesus. Chegado à gruta ordena a Maria a saída rápida e prepara os pouco haveres. Nesse momento o clamor das vozes, gritos e choro dos que morrem e dos que ficam. José foi ver se o perigo nas redondezas passara. Maria ficou na gruta tentando vencer o medo da escuridão. Sente passos aproximando, soldados, José? O pastor, o mesmo que tinha sido mendigo e depois o anjo.


23 - O anjo anuncia que deixará de aparecer, tudo o que tinha de acontecer aconteceu. Refere o crime de José, por não ter avisado a aldeia e assim salvar os outros filhos assassinados. Chora Maria a desgraça. José que nessa noite é abalado pelo sonho de ser o soldado que ia matar seu filho. Na manhã seguinte seguem em direcção a Nazaré e a escrava Zelomi já não os encontra.

24 - Passaram oito meses e chega a notícia da morte do rei Herodes em Jericó. José vive o remorso durante o dia e o pesadelo à noite. Maria está grávida de novo. O tempo passa. A planta nascida da terra luminosa não dá sinal de querer morrer. Nasceu Tiago o segundo filho. Depois Lísia, José, Judas, Simão,  Lídia, Justo e por fim Samuel.

25 - Jesus fez cinco anos e passa a frequentar a sinagoga


26 - De Roma vem a ordem de se proceder a novo recenseamento, em vez do povo se deslocar ao seu local de origem andarão recenseadores com soldados em escolta. Há tumultos na Galileia e Judeia

27 - Por volta dos onze anos de Jesus nasce a revolta contra os romanos encabeçada por Judas Galileu ou da Galileia


28 - O desassossego de Jesus é o resultado dos pesadelos que José tem todas as noites. Quando um dia questionou o pai foi-lhe dito para cumprir todas as obrigações e deveres que conhece e procurar dentro de si os que tem a obrigação de respeitar mesmo que não lho tenham sido ensinados, e que não pode fazer todas as perguntas nem ele lhe pode dar todas as respostas

29 - As guerras contra Roma continuam e vão chegando notícias de mortes. Ananias pediu a José que o acompanhasse ao deserto onde o céu e as pedras seriam suas testemunhas. Partirá para a guerra vai juntar-se a Judas Galileu que comanda as tropas revoltosas. Chua irá viver com os seus parentes e José cuidará da casa de Ananias, até ao seu regresso ou morte

30 - Passou um ano e a guerra com os romanos está a ser perdida. Chega a Nazaré um mensageiro de Ananias em que este ferido e às portas da morte manda pedir a José que faça entregar a casa a Chua. José num ímpeto pega no burro e vai em seu auxílio.


31 - Chegou a uma terra de feridos e mortos, prendeu o burro e foi à procura de Ananias. Quase morto quando o encontra num armazém que servia de depósito

32 - A paz de quem reencontra o que procura e se pergunta porque o foi procurar. Ananias quase morto e o rapaz a seu lado que tenta sobreviver. A união das mãos dos três. A morte, a vida e a paz de José. Vai para treze anos que não passava uma noite sem os pesadelos. Vai buscar o burro para carregar o morto e o vivo que se quiser poderá acompanhá-los. O burro foi roubado e o peso da vida jorra-lhe através das lágrimas. Na busca pelo burro é apanhado pelas tropas romanas que ocupam Séforis.

33 - Caminha José com os restantes condenados até ao monte onde serão crucificados. José foi o último dos quarenta crucificados, na sua vez não teve forças para clamar inocência, morreu aos trinta e três anos. Séforis foi incendiada e destruída.

34 - Sem regresso de José ou de suas notícias, Maria e Jesus partem em direcção a Séforis.
O silêncio pelo caminho. Jesus que encontra seu pai já descido da cruz. Maria que lhe tenta compor as pernas partidas. Jesus recolhe as sandálias gastas.

35 - Manda a regra que todos os mortos sejam sepultados no próprio dia, neste caso foram quarenta os crucificados e não havendo sepulturas disponíveis para tantos decidem abrir uma vala comum. Jesus ajuda neste trabalho


36 - Regressam a Nazaré noite fechada. A família reunida na dor

37 - Com a túnica e sandálias do pai assume o seu lugar. Na primeira e segunda noites Jesus tem o mesmo pesadelo - Ele e outras crianças estão numa praça à espera que os soldados as venham matar, José será um dos carrascos. Será depois da terceira noite que Jesus terá de sua mãe, debaixo de uma Oliveira, a confissão dos sonhos de José. Ali é obrigada a fazer a confissão do que sabe perante as perguntas que Jesus lhe faz. Ao largo em pleno deserto Maria vê um pastor e suas ovelhas, reconhece-o. Jesus assume a culpa do pai que matou aquelas crianças.


38 - Jesus sai de casa. O desgosto da mãe e dos irmãos. A incerteza do destino, o temor de Maria. A revolta, culpa e peso das crianças assassinadas pelas tropas de Herodes que o pai não denunciou e por sua vez não salvou.

39 - O regresso do mendigo/anjo que durante a noite vem buscar a planta que nasceu da terra luminosa

40 - Jesus demora três dias a chegar a Jerusalém, pelo meio dorme por onde calha e ou onde lhe dão abrigo


41 - Jesus entra no templo em Jerusalém onde procurará as respostas juntos dos sábios escribas. No templo ouve também questionar sobre a terra prometida de Israel e da interpretação da palavra do Senhor dada a Moisés no Monte Sinai. Jesus perguntou sobre a culpa, a transmissão da culpa dos pais para filhos como uma herança. "A culpa é um lobo que come o filho depois de ter devorado o pai"

42 - Sai do templo e de Jerusalém em direcção de Belém. Terá tempo para reflectir nas perguntas feitas e respostas obtidas. A viagem e a culpa, o lobo. Chega ao túmulo de Raquel. O caminho que dará entrada em Belém é o dos sonhos. A chegada a um largo que tem uma construção tumular e fica a saber que ali está o que procura. Vinte e cinco crianças assassinadas há quase catorze anos. Zelomi e Jesus encontram-se neste túmulo e é feito o regresso ao passado quando a escrava o leva à cova onde nasceu. Ali regressa para conhecer o crime que o salvou e que o irá matar.


43 - Nessa noite em que passa na gruta aparece-lhe o pastor conhecido de Maria e que José não chegou a saber da história. Questionou Jesus sobre quem é o que estava ali a fazer. Fica acertado que o leva como ajudante

44 - Cedo seguiu o rebanho e rapidamente Jesus observou que o pastor não respeitava os momentos das orações. Pretende deixá-lo e questiona a sua devoção a Deus porque não faz as devidas orações e apenas se baixa para tocar o chão, não entende que sendo pastor não retire riqueza do rebanho. O passar dos tempos levou à tolerância de um para com o outro.

45 - Jesus fez quinze anos e está habituado à vida do pastoreio, à convivência e ensinamentos do pastor. Ainda estão presentes os sonhos. Irá na Páscoa a Jerusalém


46 - O pastor oferece-lhe um cordeiro para o sacrifício. Jesus nega levar um cordeiro para a morte tendo sido ele quem ajudou a criar. Sairá do rebanho com promessa de voltar. Segue pela estrada de Emaús e procura forma de trabalhar para poder comprar o animal, consegue poucas moedas como pedinte, será um velho de barbas brancas que lhe oferece um cordeiro. Chega a Jerusalém no meio do turbilhão de pessoas e vozes, no momento do sacrifício recusa e questiona o porquê daquela acção, pega no cordeiro que será entregue ao rebanho e foge de Jerusalém só parando na estrada para Ramalá. Aqui encontrará a sua mãe e irmãos.

47 - Encontra a família e existe tensão entre Jesus e Maria por causa da convivência com o pastor. O cordeiro que não foi sacrificado. Volta costas à família e segue seu caminho. A chegada ao rebanho e Deus que se anuncia através das trovoadas que incendeiam a oliveira.


48 - O cordeiro que Jesus entrega ao rebanho será marcado com um corte na orelha que deitada ao fogo remete para a circuncisão de Jesus em bebé quando levado por José ao templo. Um reconhecerá o outro, pela marca de um e o cheiro do outro. Já ovelha com três anos perder-se-á do rebanho para os lados de Jericó.

49 - Jesus entra no deserto à procura da sua "ovelha". As sandálias do pai se desfizeram. Entrada simbólica do homem que já tem dezoito anos e retirou a túnica. Ficou nu.


50 - No deserto um chamamento próprio que atrai Jesus para uma miragem de sons e imagens. Passado o labirinto chega a uma zona central onde  descobre a sua ovelha. Deus sob forma de nuvem que se apresenta numa coluna de fumo e chama Jesus. "Eu sou o Senhor" fica explicado o porquê de Jesus ter sido impelido até ao local.

51 - O poder e a glória em troca da vida de Jesus quando Deus achá-lo preparado para a tarefa que lhe irá destinar. O sacrifício da ovelha para satisfação e prazer de Deus. Regresso ao rebanho e o pastor que o manda embora porque do episódio do sacrifício Jesus não terá aprendido a mensagem

52 - Jesus deixa o rebanho e segue pelas margens do rio Jordão, aproveita algumas paragens para descansar os pés ensanguentados e feridos por te caminhado descalço.


53 - Caminha Jesus pela margens do rio Jordão e subindo em direcção a Nazaré, vai experimentando algum trabalho com os pescadores. Acontece o dia em que vai ao mar com dois irmãos numa barca, Simão e André, depois de uma parca faina de tão pouco peixe diz Jesus para tentarem a sorte e lançar três vezes a rede. Três vezes veio cheia. Sai de Genesaré onde teve contacto que as artes da pesca em direcção a Nazaré para regressar a sua casa. Em Magdala à saída da povoação volta a abrir uma ferida antiga no pé, pede ajuda na única casa que tem por perto e onde irá descobrir a mulher que o auxilia a cuidar do ferimento

54 - Enquanto esta mulher cuida de Jesus ele toma contacto com a sua beleza, o seu cheiro e a sensualidade que o confunde. Jesus é um jovem homem que vive da aprendizagem e este é um assunto que ele aprende. Ela é Maria, será de Magdala, tal como ele é Jesus de Nazaré. A porta foi trancada e o sinal usado na sua profissão retirado.


55 - Maria de Magdala pediu a Jesus que ficasse, a porta fechou e seria assim enquanto ele quisesse ou estivesse com ela. Ficou uma semana. Na última noite voltou o sonho, foi a ocasião para Jesus contar mais da sua vida e as imagens que o agita todas as noites. Seguiu para Nazaré com a promessa de voltar e Maria de Magdala apaixonada por ele decide não voltar a receber nenhum homem.

56 - O regresso a casa. A mãe e os irmãos que o recebem e questionam. A tensão que as moedas que Maria de Magdala escondeu na túnica transportada no alforge. A primeira noite e um sonho diferente. Jesus e José caminham não num sonho de morte mas de exaltação e saudade. O sonha antigo teria acabado naquele momento em que fez as pazes com seu pai.


57 - As contas em família e a tensão com a mãe e os irmãos não foi resolvida e voltou a acontecer uma discussão. Jesus convocou a mãe e os dois irmãos mais velhos Tiago e José. Conta que viu Deus e que ele lhe falou sob a forma de coluna de fumo, terá poder e glória depois de morrer. A família renega-o ao não crer nas suas palavras. Maria lança-lhe uma armadilha ao insistir para que Jesus escolha e leve uma tigela. Escolheu a que esteve enterrada com a terra luminosa o que foi um sinal da convivência com o diabo. A questão da tigela relembra-lhe as palavras do pastor. 


 


 58 - Caminho de volta a Magdala, o percurso feito em choro e pensamentos sobre o seu destino. Maria de Magdala que o recebe de braços abertos quando o esperava não no dia seguinte mas algum tempo depois, essa tinha sido a promessa de Jesus de que um dia voltaria. A explicação dada depois do jantar e de repartirem o pão da verdade. Diz Jesus "Eu vi Deus" e Maria de Magdala ouvirá tudo sem duvidar. O sofrimento da mulher que foi prostituta entende o alcance da vida que espera Jesus pela frente. Duas semanas aguentaram viver juntos naquela casa mas tiveram que a deixar e seguir nova viagem. A casa foi destruída pelo fogo

59 - Passaram meses e o anjo apresentou-se de novo a Maria para lhe dizer que Deus passou por Nazaré e misturou a sua semente com a de José e que Jesus é seu filho, Maria foi uma mera portadora e que devia ter acreditado no que Jesus lhe disse. Arrependimento de Maria e que esta deveria de fazer como Jesus fez quando partiu à procura da sua ovelha.


60 - Maria depois do encontro com o anjo repara na filha Lísia que dorme a seu lado e aparece quase nua. Terá o anjo tocado em Lísia? Maria acorda-a e o anjo apareceu nos sonhos de Lísia. Na manhã seguinte Maria comunica aos filhos o quão se sente errada por ter duvidado de Jesus e manda Tiago e José em sua procura junto ao mar. Param em Tiberíades onde trabalham uns dias para ganhar algum dinheiro e seguem viagem para sul e voltam para norte pela borda do mar onde encontram Jesus acompanhado de Maria de Magdala. Tiago com a habitual animosidade e ciúme e José mais novo mas também mais amigo e desejoso do irmão Jesus. O recado da mãe para que volte porque nele crêem foi rejeitado, de volta levam o anúncio de Jesus que a família é quem em nele crê.

61 - Tiago e José regressam a Nazaré transportando a resposta de Jesus. Maria de Magdala que se questiona sobre a dor da mãe de Jesus. Jesus e as suas idas constantes ao mar para trazer peixe e quando as povoações entram em disputa sobre quem deve ficar com Jesus, ele retira-se para o deserto até se acalmarem e viver em paz. A vida precária sem tecto. Jesus fica a saber que Maria de Magdala nasceu em Betânia de Judeia e lá terá como família Marta e Lázaro seus irmãos. Por ter sido prostituta teve de deixar a terra natal.


62 - Jesus é posto à prova, vive o temor de um dia mandar lançar as redes e elas virem vazias. Vão os barcos e levanta-se uma tempestade terrível, as vidas daqueles pescadores correm risco de morte, mandou parar os ventos e as águas. Milagre na voz dos que se salvaram, foi a voz de Deus pela afirmação de Jesus. Maria de Magdala lhe dirá que ganhará todas as batalhas e perderá a guerra.

63 - Este episódio foi perdendo a força da novidade e chegou a Nazaré aos ouvidos de Maria e seu filho José. Foi altura para que Maria não duvidando do milagre contasse a José toda a história de Jesus, desde a aparição do anjo até aos tempos mais recentes. Lísia que tinha entretanto casado e vive perto de Nazaré em Caná convida a mãe e irmãos para o casamento de uma cunhada. Irá Maria, José e Lídia.

64 - Na festa apresenta-se Jesus e Maria de Magdala com André. A alegria de Lídia contrasta com o receio de José e de Maria.

65 - Durante a festa do casamento da cunhada de Lísia, Maria mãe de Jesus e Maria de Magdala cruzaram-se várias vezes até que se apresentaram e abraçaram. Jesus é confrontado pela mãe quando falta o vinho na festa e este é impelido a fazer nascer vinho onde havia água, persiste a tensão familiar entre a repulsa de Jesus e o arrependimento da mãe

66 - Jesus e Maria de Magdala seguem em direcção a Tiberíades e as rotinas das idas ao mar encher as redes dos pescadores continua. Jesus mostra alguma impaciência na demora da chegada da hora em que Deus mostrará para o que o escolheu. Tem agora vinte e cinco anos, alguns actos ou pequenos milagres como o de ter tirado com a mão a febre da sogra de Simão, a prostituta que ia ser apedrejada por ser adúltera, ou a ida à margem oriental onde raramente teria ido e Jesus teve de mandar acalmar o mar que parecia revolto. Acompanhava-o Tiago e João quando já em terra um homem louco e possesso se prosta a seus pés.


67 - Vem o homem fugindo de quem o quer agarrar e chegado a dois passos de Jesus cai prostrado no chão. Anuncia-se a Jesus como este sendo o Filho de Deus algo que ainda não seria conhecido, chama-se Legião porque traz consigo muitas vozes diabólicas e pedem-lhe que o deixem sair do homem para irem juntar-se à vara de porcos que por ali andavam. O sim de jesus causou a libertação daqueles demónios que entraram nos corpos dos porcos e num ápice estes se atiraram em desespero ao mar acabando por morrerem afogados. O desespero dos donos destes porcos que eram o seu sustento criou uma frustração em Jesus. 

68 - no final do dia Jesus e os seus amigos mais próximos, Simão André Tiago e João juntam-se para debater o anúncio daquele que o apelidou de Filho de Deus. Contou o que se passou quando Deus o anunciou que a ele proporcionará o poder e glória em troca da sua vida. Até lá aguardará o sinal


69 - O episódio do milagre da multiplicação dos pães perante uma multidão esfomeada, e o da figueira que não tendo figos porque não era tempo deles Jesus a secou, quando Maria de Magdala lhe explicou já não conseguiu fazer ressuscitar o que antes tinha matado. "Darás a quem precisar, não pedirás a quem não tem". 

70 - Nevoeiro cerrado. Este é o dia em Jesus diz a Maria de Magdala que irá saber para o que está destinado. Conduz a barca até uma clareira de luz onde pára e na popa está sentado Deus numa figura majestosa


71 - "Vim saber quem sou e o que terei de fazer daqui em diante". Decorrendo o início do diálogo será interrompido pela chegada do pastor. Vem nadando e Deus age como se estivesse à sua espera. Colocado a meio do barco entre Jesus e Deus como se de um intermediário tratasse. Deus apresenta-o como sendo o Diabo. Gémeos sendo a barba de Deus o que diferencia a fisionomia entre ambos.

72 - A segunda questão está na insatisfação de Deus em ser o deus de um só povo, o judeu. Jesus terá sido criado para alargar a sua influência a todo o mundo tornando-se mártir e vítima através da dor e morte na cruz como aconteceu com José. Se Deus não pode expandir a sua influência por pacto com os outros deuses, Jesus pretende retirar-se deste acordo. Perante a impossibilidade de sair de um pacto de cláusula única e servindo-se Deus dos homens para o que pretende, Jesus pega os remos e pretende abandonar a conversa. Remou sem fim até voltar à mesma clareira luminosa. Disse Deus recomecemos. Os milagres serão obra de Deus por intermédio de Jesus na terra e se abdicar de os praticar esses acontecerão à sua passagem e o povo nele verá o filho de Deus. 


73 - Percebe agora Jesus o que queria dizer o pastor quando o expulsou do rebanho "não aprendeste nada". Não podia sacrificar a ovelha quando não quis a sacrificar em cordeiro, a Deus não pode dizer sim para depois dizer não. 

74 - Deus deu carta branca para seguir e fazer tudo em seu nome, mesmo que para tal tenha que fazer algo contra a lei. Deverá contar as histórias e metáforas que lhe aprouver para chegar a mais gente.


75 - O pedido de Jesus para que Deus lhe explique o que será o futuro de diferente depois do seu sacrifício, a intervenção do pastor que assume as suas mentiras como sendo as suas verdades. Deus dirá que depois da morte de Jesus será criada a sua Igreja, católica porque será universal e daí à luta na Terra será um passo para que haja paz nos céus. Os seguidores próximos serão todos mortos, com excepção para Maria de Magdala e João que morrerão naturalmente e Judas Escariote que se enforcará numa figueira, o resto será ferro e fogo, sangue e guerra.

76 - Deus e Jesus seguem a conversa, as Cruzadas e o custo com vidas


77 - o Diabo que se isenta da culpa da decisão de Deus e do sangue, a voz que desce do nevoeiro e anuncia a criação de um Deus Inimigo como se de um heterónimo tratasse. Alusão a Pessoa e seus Outros 

78 - Agora a Inquisição, a monstruosa dor que percorrerá o mundo que Jesus pretende agora afastar. Deus quer o poder e o Diabo dirá como palavras finais que "É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue" e lança o repto a Deus, voltar ao tempo em que foi o seu arcanjo Lúcifer e renegar a todo o mal feito e por fazer. Deus não aceitará e quanto pior for o Diabo maior a dimensão de Deus. Dirá o Diabo para Jesus que não se diga que não tenha tentado. Antes de abandonar o barco e deixar Deus e Jesus sozinhos reclamou a pertença da tigela que um dia a mãe de Jesus lhe deu entre as quatro para escolher, é a tigela da terra negra luminosa. Desaparece na água Diabo e Deus lança um último aviso a Jesus que enviará um homem chamado  João para o ajudar mas que a ele tem de ser provado que quem diz Jesus ser


79 - Levantou o nevoeiro e Jesus vê em terra uma agitação sem igual. Simão, André, Tiago e João vêem em direcção do barco de Jesus e Simão entra dentro do barco e fica a saber do encontro com Deus e o Diabo, do que estaria preparado para ele e qual o seu trabalho. Tinha estado quarenta dias no mar sem que qualquer pessoa pudesse ter entrado na água. Simão ao chegar à margem anuncia a chegada do Filho de Deus que esteve no mar ouvindo o seu Pai. Em terra obrará o milagre de criar pássaros de bolas de terra para que Tomé nele acreditasse. Seguiu com os seus seguidores viagem. 

80 - Andavam pelas terras apregoando o arrependimento como caminho directo para acreditar em Deus. O milagre do leproso e do paralítico. Jesus segue com Maria de Magdala para Betânia e pede aos seus acompanhantes que sigam até à Palestina pregando a chegada do novo reino de Deus e juntarem-se passados três meses em Betânia para daí seguirem para Jerusalém.


81 - Maria de Magdala e Jesus entraram em Betânia por Jericó onde foram visitar a família. Foi sentida a tensão e temor entre as irmãs por causa do passado de prostituição. Marta é gémea de Maria. Virá Lázaro que receberá Maria nos braços. Jesus retirá do corpo de Lázaro o mal de que ele sofre o que aos seus olhos será um acto incompreensível. Será Maria a anunciar que Jesus é o Filho de Deus. Marta fez correr a notícia da cura de seu irmão pelas mãos de Jesus. Imediatamente a porta e a rua daquela família se tornou num ajuntamento de pessoas procurando por curas e milagres. Jesus curou um mudo porque não tinha como pedir e aos outros mandou embora e que primeiro se arrependessem dos seus pecados. 

82 - De todas as paragens chegavam multidões para ver e serem curados por quem dizem ser filho de Deus. De Jerusalém chegam escribas para documentar a vida de quem se ousa tal denominação. Jesus perante essas questões dizia ser Filho do Homem e a Deus se referia como seu Pai. Assim em Betânia e enquanto iam chegando os seus discípulos Jesus ia criando a sua morte. 

83 - Faltavam chegar Judas Escariote e Tomé que tinham avistado e falado com João de quem Deus disse que enviaria para ajudar Jesus, andava no deserto anunciando castigos e a chegada de um novo Messias. Jesus segue em sua procura com Judas Escariote e Tomé e encontraram-no à saída de Betânia em Betabara, na margem de um rio. Jesus foi ter com ele sozinho, Judas Escariote e Tomé aguardaram longe de onde mal conseguiam observar. João com Jesus e de água pela cintura procedeu ao ritual de baptismo e disse para Jesus "Baptizado estás com água, seja ela a alimentar o teu fogo". João seguiu para norte e Jesus em direcção de onde os três tinham partido. Só a Maria de Magdala é que Jesus relatou a conversa com João e depois disto saíram de casa de Marta e Lázaro para irem para fora de Betânia numa tenda, Jesus sozinho onde passava o dia e à noite saia para o deserto. Olhava e aguardava depois regressava ao acampamento. Passados oito dias juntou-se aos discípulos e anunciou que iriam para Jerusalém. Os seus discípulos questionaram o seu silêncio e que eles eram merecedores de uma justificação e participação na vida dele. Jesus recebeu uma voz na sua cabeça e é impelido a ir para Jerusalém. Com ele são treze e chegados à zona do Templo começaram a derrubar as bancas dos cambistas, as gaiolas das pombas que se soltaram e assim evitaram o sacrifício esperado. Os guardas do Templo depressa se acercaram do tumulto e a confusão foi generalizada. O sumo sacerdote que foi chamado deixou-os sair e regressam a Betânia.


84 -  À chegada encontra Jesus a morte de Lázaro. Marta pede ao Filho de Deus que use o seu poder e ressuscite o irmão morto. No momento em que Jesus se prepara para o trazer à vida, Maria de Magdala diz a Jesus que ninguém cometeu tantos pecados em vida que mereça morrer duas vezes. Cai Jesus em choro. A morte é consumada.

85 - O luto é terrível, Marta culpa a irmã por não ter permitido a ressurreição de Lázaro. Maria de Magdala certa da sua razão vive numa imensa tristeza e Jesus que vive uma profunda angustia ao ponto de pedir a Maria de Magdala para que não se esqueça de lhe estender a mão porque esse é o laço que o liga à vida.


86 - Passados dias Jesus junta-se aos seus discípulos no acampamento. Chega a notícia da prisão de João o Baptista, e depois a forma e a causa. Degolado por andar a denunciar a relação entre o rei Herodes e sua sobrinha. Isto causa enorme celeuma entre os presentes, aquele que foi enviado por Deus para ajudar Jesus na sua missão anunciando a chegado do Messias e que tinha baptizado Jesus, Judas Escariote e Tomé, não podia ter sido degolado por um crime menor. Todos reunidos agora sem a presença das mulheres estão em confronto de ideias e posições. O dever e obrigações de cada um, Jesus e a verdade que conhece sobre cada um ou a forma como serão mortos com excepção de João que é o único que morrerá velho. 

87 - Jesus escolhe que na cruz morre o filho do Pai e que assim Deus não sacrificará o seu Filho, para tal Jesus será apresentado como rei dos Judeus para derrubar Rei Herodes. Contra a vontade de todos Judas Escariote fará a vontade de Jesus e será ele a denunciar o pretendente do trono.

88 - Depois da denuncia chegam a Betânia os soldados de Herodes e os guardas do Templo para prender o que se diz rei dos Judeus. As mulheres e os discípulos vêem atrás. À saída de Betânia está Judas Escariote enforcado na figueira. 


89 - Será levado ao sumo sacerdote que o confronta com a alusão a ser Filho de Deus a que Jesus contesta como sendo rei dos Judeus. Irá depois ao palácio do procurador. A humilhação no trajecto penoso até ao encontro de Pilatos. O interrogatório e a confirmação pela boca de Jesus que é o rei dos Judeus e como tal escolhe morrer na cruz com uma placa com a inscrição Jesus de Nazaré Rei dos Judeus


90 - Num monte em Gólgota três serão os crucificados, dois já sofrem a dor e chega Jesus que nos pulsos e calcanhares será pregado ao patíbulo. Sente a dor que seu pai sentiu em Séforis. Aguarda a morte. Abre-se o céu e Deus tal como se apresentou na barca exclama "Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência". Jesus sente-se trazido ao engano e diz "Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez".
Foi morrendo e sentia-se em Nazaré com o seu pai "Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas".
Alguém lhe passou uma esponja embebida em água e vinagre nos lábios, e a última visão é a de um homem saindo com um balde na mão e uma cana ao ombro. Já não verá a tigela negra para onde lhe escorria o seu sangue.


José Saramago na arte da artista plástica Isa Silva no "Project Square Faces"


Arte de Isa Silva no "Project Square Faces"

Aqui está José Saramago, 
e também Fernando Pessoa que foi abordado em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", 
o Luís Vaz de Camões retratado na dificuldade em publicar o seu "Lusíadas", 
na peça de teatro "Que Farei com Este Livro?"... 
e os outros...


Visitem para saber mais da autora em http://www.isasilva.com


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

“Euschistus (Mitripus) saramagoi”, uma nova espécie de insecto descoberta pelo investigador Filipe Michels Bianchi (Actualizado)

Com a elaboração do post original sobre a descoberta de novas espécies de percevejos, tomei a liberdade de contactar Filipe Michels Bianchi, investigador cientifico que atribuiu o nome de Saramago ao recém conhecido espécime. 
Contactado pelo Facebook, questionei-o sobre o que motivou a atribuir o nome de José Saramago ao distinto percevejo e que conhecimento tem da obra.
Recebida a resposta do investigador Filipe Bianchi e que publicamente aqui agradeço a disponibilidade, bem como os parabéns a toda a sua equipa, apresento as palavras que recebemos às questões colocadas.
Assim e com votos de longa vida ao percevejo “Euschistus (Mitripus) saramagoi”, aqui fica

"É muito importante trazer a ciência para mais perto das pessoas. Penso que ciência deveria ser mais popularizada. Ainda existe uma grande distância entre a academia e a população.
Sobre a homenagem a Saramago, posso dizer o seguinte: a escolha do epíteto especifico é de total escolha do cientísta que a descreve, tendo apenas que ter concordância com o Latim. A escolha por homenagear o José remete a grande admiração que tenho aos seus pensamentos. A sensibilidade, ainda otimísta, no seu jeito de ver o mundo. Se o mundo se constroi aos poucos, quem sabe alguém, algum dia se motivará a ler um livro de Saramado ao capturar esta espécie. José me faz muito bem, me pensar sobre a humanidade, relaçoes inter e intrapessoais, faz-me rir... 
José me faz bem.

Sobre o meu conhecimento sobre a obra, por sorte ainda tenho muito de Saramago para ler. Por sorte José escreveu relativamente bastantes livros com temáticas e cenários diferentes. Li cerca de dez dos seus livros e não tenho pressa em ler os próximos. Como alimento, procuro ler José quando sinto fome."
Filipe Michels Bianchi (26/01/2016)

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(Post original de dia 20/01/2016)
Informação via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/euschistus-mitripus-saramagoi-uma-nova-especie-de-percevejos/



"O investigador brasileiro Filipe Michels Bianchi, mestre e doutorando em Biologia Animal na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil, nomeou com o nome de José Saramago uma das mais recentes descobertas na identificação de percevejos. “Euschistus (Mitripus) saramagoi” passa, assim, a fazer parte dos compêndios de Zoologia pelas mãos da equipa de Bianchi, Alana Cioato e Jocelia Grazia.

A descoberta foi publicada como artigo científico na revista Zootaxa, no passado dia 27 de Novembro.

Fotografia — retirada do artigo científico “New species of Euschistus (Euschistus) from Jamaica, Euschistus (Mitripus) and Ladeaschistus from southern South America (Hemiptera: Heteroptera: Pentatomidae: Pentatominae)” da referida revista."

Aqui mais informação cientifica do investigador Filipe Michels Bianchi, aqui
em https://www.researchgate.net/profile/Filipe_Bianchi

"Carta aberta à CIA" publicada originariamente no Diário de Lisboa e recuperada nos "Cadernos de Lanzarote Diário II" (28/07/1994)

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 160 a 165

28 de Julho de 1994
"Continua a escavação arqueológica. Agora foi o Público que, para a sua secção «20 anos depois», exumou do velho Diário de Lisboa um artigo que escrevi com o título pouco original de «Carta aberta à CIA». Sendo estes cadernos um diário, acho que tanto o podem ser do dia de hoje como do dia de ontem, em primeiro lugar porque o hoje está feito de todos os ontens, quer os próprios quer os alheios, e depois porque vinte anos não são nada e as coisas mudam muito menos do que cremos. Razões suficientes para que a estas páginas tenha decidido trasladar (palavra adequada, tratando-se de uma exumação) o corpo menos mal conservado dos meus protestos e indignações de então. Rezava assim o artigo: 

«Tenho visto que Vossa Excelência é habilíssima em conspiração, intrigas e golpes de Estado. Tenho-a visto de longe e não desejaria sabê-la de perto. Já me basta ter lido o que Vossa Excelência fez no Chile, a mortandade que por lá foi e vai, verificar todos os dias que governos promove e apoia Vossa Excelência, imagine se eu havia de gostar que Vossa Excelência mandasse para aqui os seus emissários e instalasse no meio da nossa roda o seu caldeirão de truques e bruxedos!... Ainda agora aí está o arcebispo Makários, de trastes às costas, só porque Vossa Excelência, de acordo com o governo que instalou na Grécia, entendeu que convinha acender no Mediterrâneo um novo foco de agitação (perdoe Vossa Excelência a fraca palavra), numa altura em que, se não interpreto mal, os povos da Europa andavam a perceber que mais bondade tirariam da paz do que das guerras... 
«Vossa Excelência sofre de vocação fascista. Não se ofenda, please. Em verdade, nunca dei por que Vossa Excelência tirasse de qualquer país um governo de direita para pôr um governo de esquerda... Vossa Excelência gaba-se (ou já não se gaba, sequer?) de muito estimar a democracia, mas estou em crer que padece de uma deformada visão política que a faz desejar ver o seu país cercado de fascismos por todos os lados, talvez para mais avultarem as qualidades democráticas, quando não republicanas, que exornam a Grande Nação Americana... Se bem entendo, Vossa Excelência, que vive ocupadíssima a instalar governos reaccionários por toda a parte e a defender os existentes, está satisfeita com o governo que tem. Que sorte a sua, poupada como a vejo ao trabalho de fazer golpes de Estado dentro de casa! 
«Não cuide Vossa Excelência que eu insulto. Como me atreveria? Sou um pobre cidadão português que ainda não ia à escola em 1926 e que viveu todo este tempo sob o regime fascista que Vossa Excelência tanto acarinhou e protegeu. A diferença é que, enquanto Vossa Excelência defendia Salazar e Caetano, não me protegia a mim. Nanja que eu lho pedisse ou desejasse, mas, se Vossa Excelência se desse a respeitar alguns dos seus avós que o merecem, teria escrúpulo em meter-se onde não é chamada ou aonde a chamam apenas aqueles que com Vossa Excelência costumam trocar serviços pouco limpos. Faço-lhe a justiça de supor que Vossa Excelência, até agora, não se ocupou muito com o povo português. Não precisava. Isto, por cá, ia andando com a prata da casa, uns dominando, outros dominados, mas era um insignificante quintal europeu onde só por ricochete aconteciam coisas. Bastava a Vossa Excelência estancar na origem as torrentes: para estas bandas tudo se resumia em águas estagnadas e numa desolação para que parecia não haver remédio. 
«Nós fazíamos o que podíamos para resistir. E resistimos muito, se não é confiado afirmá-lo a quem tem esmagado outras resistências. Se não tivéssemos resistido, não estaria agora Vossa Excelência tão perplexa e agitada a perguntar-se como foi possível dignificar-se de repente um povo para quem Vossa Excelência olhava com desprezo total, e, se calhar, com alguma repugnância. Permita Vossa Excelência que lhe revele um segredo pessoal: não me pesam nada estes quarenta e oito anos, sinto-me fresco e activo como um jovem, mais activo e fresco do que, quando jovem mesmo, me moíam o juízo com os louvores do Estado Novo. A diferença (outra diferença) é que nessa altura Vossa Excelência ainda não era viva, embora já por ai houvesse quem lhe antecipasse as vezes... Vossa Excelência (aproveito a oportunidade para lho recordar) é um simples elo de uma cadeia repressiva que tem, na sua terra, outras malhas: o Ku Klux Klan, por exemplo, e no confronto até sou capaz de preferir o Klan... Repare Vossa Excelência que eles usam uns capuchos ridículos, afantochados, coisa que já não se aguenta sem gargalhadas, ao passo que os emissários de Vossa Excelência são gente robusta, bem treinada, que toma banho regularmente, fala línguas estrangeiras, sempre de pistola pronta e karate de ponta-e-mola... E isto ainda é o menos. 
«O mais, ou o resto, está em ser Vossa Excelência polícia de alto coturno, armado de toda a sabença técnica e de uma falta de escrúpulos sem limites. Vossa Excelência, quando não pode eliminar, arruína, quando não pode fazer calar, faz barulho, e sempre que lhe é possível destrói a gente honesta para a substituir por celerados. Vossa Excelência sabe que assim é e nem sequer reage aos protestos que se levantam de todo o mundo a cada seu malefício, nem desmente as acusações que justamente lhe fazem... Tão segura está Vossa Excelência do seu poder! É das coisas que mais me intriga que, sendo Vossa Excelência ré de tantos crimes, não haja no seu país um tribunal que a julgue! Ignorante como só um português tem podido ser, muitas vezes me tenho interrogado sobre quem realmente mandará no país de Vossa Excelência. A resposta que encontrei é simples e vale o que vale: no meu fraco entendimento Vossa Excelência serve o capital dentro e fora da América (Estados Unidos), desde que ele seja americano ou, não o sendo, esteja ao seu serviço. Nunca Vossa Excelência teve outra regra de conduta. OK? 
«Vossa Excelência já deu fé (deu logo, pois claro!) de que temos em Portugal uma revolução. Digamos, uma revolução pequena. Tínhamos cá o fascismo que tão bem servia Vossa Excelência, até que veio o Movimento das Forças Armadas e deu nisto o safanão que se viu. Vossa Excelência espantou-se muito ao ver com que facilidade a coisa veio abaixo. Permita-me que lhe diga que é ingenuidade sua: o prédio parecia para durar algum tempo mais, mas estava todo esburacado, e tínhamos sido nós, os civis, que formigamente havíamos operado. Alguns morreram nesse trabalho, muitos sofreram na prisão, foram torturados. Tem Vossa Excelência sensibilidade? Boa pergunta. Que sabe Vossa Excelência disso, quando é capaz de olhar esse desgraçado Chile com a satisfação complacente de quem fez obra perfeita e nela se revê?... E não há, realmente, quem leve Vossa Excelência a tribunal? 
«Dizia eu que fizemos aqui uma revolução. E também digo que Vossa Excelência não está nada satisfeita com o andamento das coisas. Para Vossa Excelência só serve uma democracia que sirva obedientemente os interesses do capitalismo, e lá lhe está parecendo que os portugueses, afinal, aprenderam demasiado nestes cinquenta anos de fascismo. É verdade: aprenderam precisamente a saber, de todas as maneiras, o que o fascismo é. Há-de ser difícil convencer-nos Vossa Excelência a aceitar os fascismos que pela sua mão vêm ou querem vir. Eu até nem me iludo: Vossa Excelência tem, na minha terra, ainda muito quem a sirva nos seus desígnios: todos os fascistas que continuam a comer pão e a dar ordens, todos os que não o sendo vão de gorra com eles, alguns sem darem por tal, outros muito preconcebidamente. Vossa Excelência tem portanto amigos dentro da praça. Já se encontraram todos, pois não é verdade?, ora à mesa secreta das decisões, ora nas acções de rua, nas calúnias, nas intrigas, na bela conspiração, na compra e venda dos traidores... 
«Vossa Excelência talvez tente aqui a sua sorte. Já o fez tantas vezes, que uma mais não lhe faz diferença e decerto convém aos seus patrões. Mas consinta que lhe diga uma coisa. Vossa Excelência e o mundo espantaram-se de que esta nossa florida revolução não desse em banho de sangue, não foi? Levaria muito tempo a explicar as razões disso e Vossa Excelência nem sempre é, ao menos, medianamente inteligente. Mas tome nota de que haverá mesmo um banho de sangue se Vossa Excelência se atreve a intervir na nossa vida. Estes pobres portugueses viveram cinquenta anos de fascismo e não querem mais. Suponho que preferirão acabar com a vida lutando pelo que já têm, a voltarem ao domínio de governos como os que Vossa Excelência transporta no seu catálogo de caixeira-viajante da contra-revolução. Tenho a certeza. 
«Emprazo Vossa Excelência a que nos deixe em paz. Temos aqui muito que fazer, muito que trabalhar, muito que sonhar. Mas não vamos dormir, isso não. Se Vossa Excelência vier, terá de matar-nos com os olhos abertos.» 

Afinal, não valíamos tanto. A esses e outros senhores do mundo bastou-lhes facilitar uma mãozinha embaladora à nossa natural inclinação para o sono, e agora aqui estamos, vinte anos depois, meio sonâmbulos, só atentos ao tinir dos écus que ainda vão caindo das frondosas ramas europeias. De facto, dos portugueses nunca se esperou muito, aos portugueses nunca se lhes pediu nada. O despertar vai ser atroz. Ou talvez não. A gente habitua-se a tudo, até a não existir..."