Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 3 de maio de 2016

Recuperação da entrevista de Francisco José Viegas a José Saramago (Abril de 1989) - Revista LER #6

(Capa da edição)

Revista "Ler Livros & Leitores" - N.º 6 - Primavera de 1989
Entrevista de Francisco José Viegas
Fotografias de Luís Ramos

"Com a publicação de História do Cerco de Lisboa (Editorial Caminho), José Saramago conta sete romances. Nesta entrevista, o autor de Memorial do Convento e de O Ano da Morte de Ricardo Reis fala de alguns deles. E da forma como a vida continua a surpreendê-lo."


É uma máquina de escrever, esta que está junto de nós enquanto fala-mos: teclado hcesar, de ferro, marca Hermes. No lugar que ela acaba de deixar, sobre a mesa onde José Saramago escreve, está agora um computador (processador de texto). E curioso saber, agora, que Blimunda e Baltasar, antes de conhecerem as páginas impressas do Memorial do Convento, se namoraram primeiro nestas teclas de bater antigo. E que o primeiro olhar, o matinal, de Blimunda, fora antes decidido neste teclado já gasto. Interrompeu-se um ciclo, com esta mudança para o visor com letras verdes do ecrã do computador, abandonando a imagem da página em branco, de papel A/4? «Não creio. A única questão que eu coloco é a de saber se serei capaz de escrever o próximo livro com este novo material...» Soubessem o Padre Gusmão desta novidade, ou Ricardo Reis, assim entregues à escrita de Saramago. A ver o que diriam. 

Fotografia de Luís Ramos

"Ao fim de alguns anos, sobretudo de-pois do Memorial do Convento, o seu nome é uma referência fundamental para se falar sobre a literatura portuguesa contemporânea. Como encara, agora, esse facto? 
— Sinceramente, não me sinto nada uma figura de proa da literatura portuguesa no estrangeiro. Sinto-me é como alguém que está a fazer os seus livros e que os livros que essa pessoa faz são bem recebidos. 

Mas o Memorial do Convento tem registado um êxito muito grande em todo o lado... 
— Sim, o Memorial do Convento é o livro que está mais divulgado e traduzido e eu sinto-me contente por isso, evidentemente. É um livro entre outros que, por circunstâncias que têm a ver com algumas características do próprio livro... 

...Com o tipo de escrita e com a temática?... 
— ...sim, sim, talvez. Com essas características principalmente. Bom, o livro teve êxito. E outro dos factores é extremamente simples: é que, às vezes, a gente entra em boa hora... O que eu acho é que, de um lado estão os livros que eu escrevi e, do outro, o destino desses livros. São coisas distintas que, por um feliz acaso, se conjugaram no bom caminho. 

Está surpreendido? 
— Sim, mas é muito difícil dizer por que é que me sinto surpreendido. É como se tivesse de olhar para o lado, para ver se esse êxito todo não pertence a outra pessoa. Talvez isso se explique pelo auto-equilíbrio que eu tenho. Evidentemente que somos humanos e que gostamos do êxito, mas não tiro daí a conclusão de que sou uma espécie de representante da literatura portuguesa no estrangeiro ou onde quer que seja... 

Olhe, na última Feira de Frankfurt, perguntavam por si no pavilhão português. Numa tarde, um italiano, um americano e um africano, creio que do Benin, entraram pelo pavilhão dentro e queriam falar consigo. Mas você não estava... 
— Bom, mas eu recebo muitas cartas, de todo o lado. Não recebo tantas cartas como a Madonna [risos], claro, mas recebo muitas cartas a falar dos meus livros... Há coisas que tocam mais as pessoas, e eu creio que isso tal-vez se deva ao facto de eu contar histórias extremamente simples. Para lá da imaginação, da fantasia, do fantástico, o que está na base de tudo é sempre uma história muito simples onde as pessoas estabelecem uma relação com outras pessoas e onde há um certo ar de surpresa diante das coisas e da vida. Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, como tudo o que hoje fazemos, salvo raras excepções, já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim, na vida. Na literatura também. Mas aquilo que talvez distinga os meus livros é o facto de parecer que eu olho as coisas pela primeira vez e poder, assim, traduzir a surpresa daquilo que é visto pela primeira vez. Veja o caso da Viagem a Portugal... Aquilo que o distingue é justamente a surpresa do novo, a imagem do novo que o autor talvez consiga traduzir naquilo que vai escrever. Quando falo do amor, ou de uma cidade — aquilo que o narrador consegue exprimir passa ao leitor, ou talvez ele sinta que aquilo tem a ver com ele próprio, para além das tais diferenças. O lado bom do livro está no facto de ter a ver com o leitor ou de o leitor ter a ver com o livro. 

Esse olhar pela primeira vez é só nos livros ou é seu, na vida? 
— É o meu, e tem uma razão de ser biológica. Tenho 66 anos mas, apesar disso, sou favorecido porque tive uma espécie de adolescência prolongada. É como se tivesse vivido em dois planos: um, biológico; outro, não direi propriamente intelectual ou cultural, mas que tem a ver com isso, e que me fez entrar pela vida adulta como se tivesse conservado um ar de adolescente. Isso traduz-se, também, numa certa forma de olhar. Um olhar não habituado. Olho as coisas como se os meus olhos não estivessem habituados. 

Faz algum esforço para as coisas acontecerem assim? 
— Não. Não é um método nem uma técnica. Tem a ver comigo mesmo, é uma coisa que aconteceu e que continua a acontecer, felizmente. Eu sei que já se viu tudo muitas vezes, na vida, mas a verdade é que as coisas que vejo continuam a surpreender-me. Neste livro, na História do Cerco de Lisboa, faço uma distinção entre olhar, ver e reparar. Eu penso que são três níveis de atenção: olhar, que é a mera função; ver, que é um olhar atento; e reparar, que é já uma atenção a uma dada coisa ou a um dado fenómeno — passamos a reparar naquilo que só tínhamos visto, a ver aquilo que só tínhamos olhado. E isso faz o tal olhar não habituado. Isso passa-se em relação a Lisboa, também. Alguns críticos estrangeiros transformaram-me no escritor de Lisboa. Não penso isso. Penso é que escrevi sobre Lisboa de outra maneira... 

Com O Ano da Morte de Ricardo Reis... 
— Sim. Foi um livro que me levou a reparar em Lisboa de outra maneira. E a escrita do próprio livro também, porque cada um de nós é a visão que tem. 

Por isso é que a Blimunda do Memorial era muitas coisas... Mas, voltando a Lisboa, como é a sua relação com a cidade? 
— Em primeiro lugar, não sou um escritor de Lisboa. Talvez o seja de uma certa Lisboa, antiga, de recantos, de almas dispersas. Não conheço nada da vida nocturna de Lisboa, além de um bar onde vou por vezes. Claro que gosto da cidade, mas não sou um fanático nem caio nessas expansões líricas sobre a Lisboa maltratada, ofendida ou magoada. Não tenho essa paixão moderna por Lisboa, embora saiba que é um privilégio viver nesta cidade —não me refiro a coisas práticas (tudo tão depauperado, os transportes, as ruas estragadas, etc.) mas à topografia, ao céu, ao rio... 

"Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, 
como tudo o que hoje fazemos, salvo raras excepções, 
já foi feito há muito tempo, antes de nós, 
Tudo é assim, na vida, Na literatura também."

De qualquer modo, não é muito visto na cidade, nos lugares públicos... 
— Não. Não sou. Mas não é por misantropia, nem para tornar-me interessante («ah, ele nunca aparece, está a escrever, não se dá...»). O que acontece é que gosto das pessoas mas não tenho muitos amigos (não tenho nem deixo de ter pena). Os que tenho são bons. Nem tenho essa necessidade de aturdimento social, de ir de festa em festa, de cocktail em cocktail. 

Mas viaja muito... 
— Viajo muito para o estrangeiro. Mas, se eu lhe disser que a minha primeira viagem para o estrangeiro (quase tudo me aconteceu tarde...) aconteceu quando eu tinha 47 anos... Claro que, ultimamente, tenho viajado muito. 

"Sou favorecido porque tive uma espécie de adolescência prolongada, 
Entrei pela vida adulta como se tivesse conservado um ar de adolescente, 
Isso traduz-se, também, numa certa forma de olhar. 
Olho as coisas como se os meus olhos não estivessem habituados a isso."

O sucesso dos seus livros (e do seu nome) começou há uns anos atrás, sobretudo depois do Memorial do Convento, que marcou o seu trabalho como escritor de forma definitiva. Há uma data determinada? 
— Há uma data, que é 1980, com o Levantado do Chão, que é um livro inseparável da Viagem a Portugal. A história desses livros é bastante curiosa e tem a ver com o facto de eu ter ficado desempregado em finais de 1975 (até hoje...). Bom, eu pensei «vamos lá a ver o é que eu vou viver agora; ainda não sei ar sou escritor; mas se tiver de ser é agora ou maca». Ou arranjava um emprego para fazer qualquer coisa, o que não era interessante mas mão me deixava sem dinheiro ao fim do mês, ou arriscava... Escrevi então o Levantado do Chão depois de, em 1976, ter estado no Alentejo. Três anos depois, em 1979, o livro saiu e coincidiu com o convite que o Círculo de Leitores me fez para escrever a Viagem a Portugal. Ninguém sabia o que iria sair dali, nem eu nem o editor. Esse convite possibilitou-me duas coisas: a transformação do meu próprio modo de escrever e, claro, as condições materiais para escrever. Eu, que entre 1975 e essa data tinha vivido de traduções, pude (e não digo isto para ser agradável a ninguém) encontrar uma estabilidade e uma segurança económica que me permitia a tranquilidade necessária para aprofundar o trabalho que tinha começado com o Levantado do Chão. A Maria Alzira Seixo disse um dia, e com toda a razão, que a Viagem a Portugal e a Bagagem do Viajante são dois livros de passagem, que fazem a viragem para os que vêm a seguir. Qualquer olhar mais atento, qualquer crítico, não devia ignorar o papel desempenhado quer pela Viagem quer pelo livro de crónicas, A Bagagem do Viajante. Claro que se pode entender o meu trabalho actual sem ler as crónicas, mas eu penso que esse livro é fundamental. 

Depois, vem o Memorial do Convento... 
— O Levantado do Chão é a rampa de lançamento e o Memorial é o míssil... E um livro que não pára de surpreender-me, dizem-me coisas bem agradáveis de ouvir. 

É esse o livro de que mais gosta? 
— O livro de que mais gosto é a História do Cerco de Lisboa [risos]. Para convencer os leitores risos]... 

Dos já publicados... 
— O livro de que mais gosto, aquele que estai mais dentro de mim, é O Ano da Morte de Ricardo Reis. Gosto do Memorial do Convento, que mexe muito com as pessoas, mas O Ano da Morte de Ricardo Reis talvez seja aquele que ainda hoje me emociona mais, talvez por falar de uma época que nós vivemos há pouco tempo. E que eu apanhei a parte inicial desse tempo. Em 1936 eu tinha 14 anos... 

Quando o livro saiu, em 1984, um crítico acentuou, especialmente, o facto de se tratar de uma imagem de fim de século. 
— Bom, mas o século XIX entrou, em Portugal, pelo século XX dentro, até à década de cinquenta. É uma imagem de fim de século no que se refere a um mundo que está a acabar, a uma espécie de letargia, de povo que acaba, de uma vida real que está em contradição com o folclore fascista. Porque a vida era outra e não tinha nada a ver com os foguetes do Estado Novo: era mais triste, difícil, sem sentido... 

Como é que se deu esse encontro com Fernando Pessoa? 
— Era um encontro que tinha de se dar. É natural que nós nos encontrássemos um dia, mas o que é interessante foram as circunstâncias em que esse encontro se deu. Eu estava a acabar o meu curso de serralheiro-mecânico na Escola Industrial de Afonso Domingues e, aí, havia uma biblioteca que, não funcionando muito bem, à semelhança de todas as bibliotecas portuguesas, possuía coisas tão bizarras como a revista Athena (veja-me com dezassete anos, em 1939...). Folheio ao acaso e dou com aquelas odes de um senhor chamado Ricardo Reis. Que era Ricardo Reis e não outro qualquer. Qual Fernando Pessoa! Nessa altura, em que eu já gostava de ler e começava a comprar livros, fiquei deslumbrado com as odes e lembro-me de ter feito de uma delas uma espécie de divisa, que é aquela onde se lê «para ser grande, sê inteiro...» [Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui./ /Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ /No mínimo que fazes./Assim em cada lago a Lua toda/Brilha, porque alta vive.]. Depois, mais tarde, soube que Ricardo Reis era Fernando Pessoa. 

"O livro de que mais gosto, 
aquele que está mais dentro de mim, 
é O Ano da Morte de Ricardo Reis. 
É aquele que me emociona mais."

Ficou desiludido? 
— Não. A contradição fascinava-me, e compreendia-a. Nesta mesma ode, aliás, a contradição está presente. 

É Ricardo Reis o heterónimo de que mais gosta? 
— Gosto muito de Ricardo Reis, por razões históricas. Pessoais, claro, que têm a ver com esta minha relação com a sua poesia. De resto, divido-me muito entre o Caeiro e o Campos. Mas aquele de que menos gosto é o próprio Fernando Pessoa... 

Depois de O Ano da Morte de Ricardo Reis aparece a surpresa do título A Jangada de Pedra. 
— Sim, a seguir é A Jangada de Pedra... 

Que não se chamava assim... 
— Pois não. O Memorial do Convento estava para se chamar só O Convento, mas nessa altura a Agustina Bessa-Luís publicou O Mosteiro. Foi por isso que se chamou Memorial do Convento... A Jangada de Pedra foi o livro mais difícil quanto ao título. Ainda pensei em O Mar Aberto, ou A Grande Pedra do Mar, ou só A Jangada. Mas havia um título assim do Romeu Correia. Portanto, retomei A Jangada e... pus-lhe a Pedra. 

Foi então que se falou em iberismo... 
— O iberismo entrou muito no vocabulário político entretanto. Mas a ideia do livro era a de soltar toda a península do resto da Europa. Um todo? Talvez, mas isso não tem nada a ver com a questão iberista entre nós. Um crítico espanhol, aliás, viu a história muito melhor, e escreveu uma coisa muito inteligente ao dizer que mais do que ler esse fenómeno de separação da península como separação em relação ao continente, deve entender-se como deslocação para o sul, arrastando a Europa para o sul... Mas, nisso, o problema é o da unidade política de Espanha, como se sabe. Se não houvesse uma unidade política tão vincada, seria possível estabelecer melhores relações, de tipo multilateral, entre Portugal e as várias zonas de Espanha... Aqui vivemos muito no medo de a Espanha nos devorar...
 
Porquê? 
— Nós, portugueses, não sabemos por que pensamos coisas que achamos que pensamos... 

Sente-se fascinado pela Espanha? 
— Não propriamente fascinado. Mais no sentido da surpresa e do maravilhamento... A minha mulher é espanhola, tenho muitos amigos espanhóis, por aí fora. Mas, de resto, o que é fascinante é a Espanha, não a minha relação com a Espanha... 

"Esta crise no PCP traduz o conflito entre opiniões diferentes. 
Entre o que foi, o que é e o que será. 
E sobre isso, há duas saídas para o problema, 
Uma, que é estagnar, girar volta de si próprio, 
Outra, que é avançar em circunstâncias e exigências novas, 
colocadas pelos tempos e pela capacidade de entender os novos tempos."

O que é fascinante em Espanha? 
— Sobretudo a diversidade, os mundos que cabem naquele país. Estão hoje, em virtude dessa diversidade, perfeitamente justificadas as autonomias, com aquela enorme diferença de caracteres. E isto não é um lugar-comum: as pessoas são realmente diferentes, um andaluz é completamente diferente de um galego, um galego de um catalão, um castelhano de outro qualquer... Viajar em Espanha é surpreendente porque se está, permanentemente, a passar de um mundo a outro e isso sim é fascinante...
 
Bom, agora é a História do Cerco de Lisboa... Creio que se trata de um dos cercos de Lisboa mas, também, de outro cerco, provavelmente... 
Talvez sim... Ou seja, é e não é, porque, de facto, há um cerco de Lisboa, histórico, no passado, embora isto não seja razão para se falar de romance histórico. O Memorial não é um romance histórico, e História do Cerco de Lisboa é ainda menos histórico que o Memorial. Tem é uma história que se passa em dois planos temporais: o dia de hoje e o tempo desse cerco... 

Qual? 
— Vem no livro... É um dos dois cercos de Lisboa... 

Ao longo dos seus livros construiu dezenas de personagens, mas nota-se sempre uma ternura maior pelos personagens femininos. Está de acordo? 
— Sim, sim. No caso dos meus romances, os personagens femininos são aqueles que eu mais quero, que eu prefiro. Os homens, nesses romances, são sempre, ou quase sempre, não diria pobres diabos, mas gente menor... No Levantado do Chão os homens têm ainda força (talvez devido a uma espécie curiosa de machismo alentejano que vai desaparecendo em favor de uma força crescente das mulheres, de geração para geração). No Memorial do Convento, repare, à frente da Blimunda, não há Baltasar que se aguente [risos]... O Ricardo Reis, ao pé da Lídia é, apenas, um pobre heterónimo [risos]... 

E no caso da História do Cerco de Lisboa? 
— Aí, a força está nas mulheres... Claramente nas mulheres. Isto não é uma atitude feminista — deve-se ao facto de eu crer que elas são realmente fortes, que têm muito para dar. E porque eu gosto muito delas... Acho que, para não cair na frase (coitadas das frases...) do Aragon, aquela famosa da femme est l'avenir de Thomme» — que é uma coisa mais vazia do que à primeira vista se possa pensar ou dizer —, eu penso que elas têm mais autenticidade e mais generosidade que nós. Valem mais que nós, homens. Na verdade, daquilo que é substancial e essencial na vida, aprendi pouco com homens e aprendi muito com as mulheres. Não por idealizações. É o ser humano inteiro, aquilo que elas são... Bom, algumas, eu sei, não são nada disto... 

"Na verdade, daquilo que é substancial e essencial na vida, 
aprendi pouco com os homens e muito com as mulheres. 
É o ser humano inteiro, o que elas são..."

O que se passou, em si, entre o Levantado do Chão e História do Cerco de Lisboa? 
— Passou-se tudo de forma bastante simples, normal, tranquila. Fica-se contente pela atenção que as pessoas deram ao que escrevi, pela atenção que deram ao escritor. Se tudo isso me tivesse chegado mais cedo, poderia acontecer que eu me tivesse imbuído de um sentimento de.importância até chegar àquele lado lamentável da vida em que já se tem o título de mestre [risos]... Como tudo isto me aconteceu tarde, na altura em que já se sabe estar tranquilo, então não olho para estes anos de escritor com olhar céptico. Disfruto aquilo que vivo. Gosto de que as pessoas não separem em mim o homem do escritor. Vivo isto tudo muito discretamente, não me sinto a tal figura de proa. Mas também tenho consciência de que o meu trabalho literário já significa alguma coisa. Mas não sei o quê... 

Não está a ser modesto demais? 
— Não. Não, nada disso... Repare. Lembra-se do Carlos Manuel a marcar aquele golo no jogo de Estugarda, contra a Alemanha, que nos deu a passagem para a fase final do campeonato do mundo de futebol? Veja se hoje ainda alguém se lembra. O escritor é um pouco isso, em termos de prestígio, nos dias de hoje. Escritor é jogador de futebol. Olhe o caso da Rosa Mota. Depois de ela ter ganho uma série de provas decisivas, houve um dia em que desistiu, e um jornal escreveu na primeira página Rosa Mota: derrocada em tal sítio... Mas esse jornal tinha embandeirado em arco algum tempo antes... Bastou que a atleta tivesse sido forçada a desistir para que a situação mudasse radicalmente de um dia para o outro... Com o escritor é quase a mesma coisa. Como um jogador de futebol. Amanhã há um deslize e pronto... 

Mas há outra dimensão no trabalho literário... 
— Esta coisa de ter prestígio hoje em dia é muito complicada porque... quem me garante que esse período não vai ser curto? 

Mas, não acredita no seu trabalho? 
— Acredito no meu trabalho da mesma forma que outras pessoas acreditam no seu trabalho, mas não se pode estar convencido de que o trabalho literário, hoje em dia, e infeliz-mente, é olhado pelas pessoas de uma forma transcendente, metafísica... Você veja: o que se escreve hoje sobre o Rodrigues Miguéis? Nada. Sobre o José Gomes Ferreira? Nada. Não acho que devamos estar sempre a gabar, a contribuir para o deleite das nossas letras, mas o facto é que em Portugal esquecemo-nos muito. Não só dos escritores. De quase tudo o que fomos amando. O Raul Brandão — de quem somos devedores, porque ele era muito grande — morreu e, algumas semanas depois, o Castelo Branco Chaves publica na Seara Nova um artigo, demolindo-o. Parece-me mal. É um pouco o que aconteceu agora com um artigo publicado no Expresso sobre o Fernando Namora... Eu acho que se deve contestar, claro, e a rebeldia literária só tem dado bons frutos. Mas também penso que esta malta nova devia começar por estudar mais um pouco as coisas que vão passando. Senão, passa-se de moda em moda... 

Tem-se dito que o Prémio APE está permanentemente contra si... 
— Isso diverte-me muito, porque já são três livros meus publicados desde o prémio APE e a situação é essa, de as pessoas me considerarem o eterno candidato. Mas candidato é aquele que se candidata, e eu não me candidatei. Os livros estão aí, e o júri é que pode entender escolhê-los ou não... Mas há coisa divertidas nisso do prémio APE, não nego. Uma delas foi a declaração de voto de um membro do júri do prémio que dizia que A Jangada de Pedra era um ensaio... Outra foi uma outra declaração em que se dizia que eu já escrevo para o mundo... Portanto, como você vê, nada de prémios nacionais. Havia ainda uma pessoa muito respeitável que escreveu que «por circunstâncias infelizes» o prémio ainda não me tinha sido atribuído... Ora a única circunstância infeliz era, para mim ter havido livros melhores que o meu. A não ser que haja outras circunstâncias que eu desconheço... Mas isso não tem importância nenhuma. As pessoas até acham divertido que, depois de o Memorial do Convento não ter sido premiado, os outros livros continuem a merecer a mesma atenção... 

Mas, sente que há outras razões? Que há uma perseguição... 
Não! Que ideia absurda! O júri gosta mais de outros livros. É só isso... 

Você é o autor comunista que as pessoas de direita também lêem... 
— Se eu quisesse auto-lisonjear-me, diria que isso é uma prova do bom-gosto das pessoas... O Eduardo Prado Coelho dizia, com muita graça, e a propósito, que com o Memorial do Convento eu tinha alargado a minha base social de apoio... Mas lembro-me de uma conhecida jornalista da nossa terra (jornalista, não... colaboradora da imprensa...) se ter recusado a ler o Levantado do Chão porque o autor era comunista. Acho que tudo isso se pode resumir em duas frases, separadamente: «ele é comunista mas é bom» e «ele é bom mas é comunista»... 

Mas, o facto de ser comunista tem tido influência na recepção dos seus livros? 
— Não sei se tem. As pessoas não me lêem mais pelo facto de eu ser comunista... Apesar da nossa vida democrática (coitadinha...), esteve aqui ontem um jornalista do Corriere della Sera durante uma hora e tal, e confessou-me que várias pessoas a quem ele disse que tinha um encontro marcado comigo o informaram, espantados, dizendo «mas olhe que ele é comunista.» O jornalista dizia-me, claro, que em Itália é muito diferente... Claro que é. Lembro-me, já agora, de que foi espalhado por certos espíritos maledicentes que o êxito do Levantado do Chão se deve ao facto de o romance ter o Alentejo por cenário — e de os militantes do meu partido terem recebido ordem para comprar o livro... Sob outro ponto de vista, claro que todo o trabalho literário também é um trabalho político e não poderá deixar de o ser a menos que o autor seja inerte e mentalmente incapaz. Quanto a isto não há dúvidas por parte do leitor. Ninguém poderá é dizer que utilizo a literatura para fazer política... 

Ultimamente, o seu partido, o Partido Comunista Português, tem atravessado uma crise política. Preocupa-o, a situação no PCP? 
— Claro que me preocupa a situação no partido. E preocupa-me no sentido em que eu me preocupo com a vida do meu partido. Estes últimos acontecimentos têm um significado bastante especial e traduzem algumas divergências, conflitos de opinião sobre o que deve ser o partido e a sua política. Repare, também, que eu disse que me preocupava e não que me inquietava. Nada de estar com inquietações muito profundas, nada disso. O meu partido está a viver uma crise — e esta é uma ocasião para usar a palavra crise porque em relação às crises diz-se que «esta é uma crise mas vamos vencê-la» — esta, claro, será resolvida. O partido não vai deixar de ser o que é. Além do mais, desde que temos em Portugal uma vida democrática, todos os par-tidos já tiveram as suas crises, mais ou menos dramáticas, mais ou menos significativas... 

Esta crise, que o PCP atravessa, traduz a oposição entre o novo e o velho no interior do partido? 
— Traduz o conflito entre opiniões diferentes. Entre o que foi, o que é e o que vai ser. E, sobre isso, há duas saídas para o problema. Uma, que é estagnar, girar à volta de si próprio, perecer. Outra, que é avançar, em circunstâncias e exigências novas, colocadas pelos tempos e pela capacidade de entender os novos tempos, sem renunciar àquilo em que se acredita. Fundamentalmente, um corpo que não se transforma é um corpo que não cresce e que não se desenvolve. A história está cheia desses exemplos, de relações de conflito entre a autoridade e a liberdade com vista a ponderar a necessidade de transformação. Às vezes a autoridade entende, outras não entende. O que se verifica no interior do PCP é o que se verifica em toda a parte. Aconteceu, agora, no interior do PCP, e ainda bem. 

Acabou este livro, História do Cerco de Lisboa. Sente-se feliz com o seu trabalho até agora? Com a sua vida? 
— Eu poderia ser felicíssimo como homem e ter uma pouca sorte danada como escritor. No meu caso, sinto-me em paz com o meu trabalho, sei o que quero fazer e julgo que faço aquilo que quero. Uma obra que se pensa fazer é sempre um destino que se inicia. Mas os livros não me têm decepcionado. Nem este, porque tenho uma boa relação com aquilo que escrevo. 

E consigo próprio? 
— Como homem posso dizer de mim mesmo que sou um homem feliz...


domingo, 1 de maio de 2016

"Saramago Apontamentos" - Ultrapassámos as 40.000 visitas


OBRIGADO!

Obrigado a todos os que nos visitam!

A todos que nos têm ajudado na divulgação da obra de José Saramago.

OBRIGADO... este espaço também é Vosso..

Espaço de letras e desassossego!

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José Saramago na visão bem humorada do caricaturista e ilustrador Ricardo Campus

Informação sobre o autor
"Ricardo Campus é natural da Póvoa de Varzim, formado em desenho técnico industrial pela ETGI, Associação para a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, desempenhando até à data funções na área de projecto, formação, tecnologias de informação e comunicação. Autor de caricaturas, ilustração e cartoon editorial." 

Para visitar outras obras e demais informações, aqui 

Autoria de Ricardo Campus - 2011

Autoria de Ricardo Campus - 2016

sábado, 30 de abril de 2016

Exposição "Pinceladas de Saramago" - Dos artistas Roberto Batista, Gloria Díaz, Pedro Raidel e Silvia Ramos, os protagonistas de "Artemages, palabras que a veces son colores" - "Centro de Arte La Recova" em Santa Cruz de Tenerife

"Pinceladas de Saramago" 
Los artistas Roberto Batista, Gloria Díaz, Pedro Raidel y Silvia Ramos son los protagonistas de "Artemages, palabras que a veces son colores", una explosión pictórica que anoche se inauguró en el Centro de Arte La Recova de esta capital



Publicado online "El Día.es" por Jorge Dávila, aqui
em http://eldia.es/cultura/2016-04-30/2-Pinceladas-Saramago.htm

"Saramago a través de la pintura. Esa es la clave para entender "Artemages, palabras que a veces son colores", la exposición que se inauguró anoche en el Centro de Arte La Recova, en la que se pueden ver casi doscientas obras de arte creadas por Roberto Batista, Gloria Díaz, Pedro Raidel y Silvia Ramos. José Carlos Acha, quinto teniente de alcalde y concejal del área de Cultura del Ayuntamiento de Santa Cruz, estuvo presente en la puesta de largo de un proyecto que tiene como piedra angular la obra del escritor y ensayista luso y que se puede visitar hasta el próximo 20 de mayo.
La idea de "Artemages" empezó a tomar forma hace tres años. "Pedro se apoyó en El viaje del elefante para realizar sus propuestas, Gloria buscó la inspiración en varios de sus cuentos, Silvia en sus ideas sobre la pintura y, por último, yo opté por rebuscar en su pensamiento, su escepticismo, su pesimismo...", cuenta Roberto Batista sobre los puntos de partida elegidos por los cuatro artistas.
El colectivo artístico que ha hecho posible esta actividad, creada en el año 2004, desarrolló con anterioridad los proyectos "Salinas" -expuesto en la Casa Massieu de Tazacorte y el exconvento de Santo Domingo- e "Interiores" -se pudo ver en la sala pequeña de La Recova-, dos visiones en las que se posicionaron en el extremo opuesto de "Artemages". Acrílicos, óleos y acuarelas sobre madera, papel o tela y otras técnicas mixtas conforman la base de una aventura de colores y formas a partir de la cual los creadores desligan los pensamientos de Saramago para generar una curiosa narrativa pictórica."


Publicado online no La Opinión de Tenerife, aqui 

"La exposición ´Artemages´ convierte las palabras de Saramago en pinturas
El colectivo Apresto cuelga sus visiones sobre la obra del premio Nobel en La Recova"

"El Centro de Arte La Recova acogerá, a las 20:30 horas de hoy, la inauguración de la exposición Artemages, palabras que a veces son colores, en la que los creadores han aceptado el reto de convertir frases de José Saramago en obras de arte. El quinto teniente de alcalde y concejal de Cultura del Ayuntamiento de Santa Cruz de Tenerife, José Carlos Acha, indicó sobre esta propuesta creativa que la muestra "reúne más de 150 pinturas realizadas por el colectivo Apresto que integran los artistas Roberto Batista, Gloria Díaz, Pedro Raidel y Silvia Ramos".

La muestra podrá visitarse hasta el 20 de mayo en la conocida sala capitalina. Utilizando óleos, acrílicos, acuarelas y técnicas mixtas sobre lienzos, maderas y papel se presentan obras en diversos formatos que nos hablan desde la figuración a una aparente abstracción. Especialmente para este proyecto se presentan unas cajas que contienen cuatro carpetas con obras originales de los cuatro pintores. Artemages es el tercer proyecto del colectivo de arte Apresto. Cada uno de sus miembros se enfrenta a la lectura de la obra de José Saramago."

Encontro com a activista Aminetu Haidar e a tomada de posição de José Saramago sobre o povo Saharauis (Sahara / Marrocos) - 22/11/2009

Entrevista publicada no jornal "El País" (jornalista Juan Cruz), em 4 de Dezembro de 2009, e pode ser recuperada, aqui 

"Seremos moralmente más pobres si Aminetu Haidar se muere"

"Todos seremos moralmente más pobres si Haidar se muere", dijo José Saramago en esta entrevista en la que cuenta cómo vio a la militante saharaui cuando fue a encontrarse con ella el último martes en el aeropuerto de Lanzarote, donde esta mujer de 44 años hace huelga de hambre. Saramago reside en Lanzarote desde 1993, con su mujer, la periodista y traductora Pilar del Río.

Pregunta. Fue a solidarizarse.
Respuesta. Y a ayudar, como otros tantos, a algo que me parece fundamental, aparte de los factores de la historia política: para ayudar a que esta mujer no se muera. Eso me parece básico, y por eso fui.

P. ¿Qué hacer?
R. Para que no se muera se necesita encontrar una solución. Creo que el Gobierno español está tratando de veras de encontrar una salida, pero todas las gestiones se le han ido complicando, día a día. Sólo se puede confiar en que Zapatero tenga fuerza y con esa fuerza logre un buen fin. Y el buen fin es que esta agonía no se prolongue hasta que sea demasiado tarde. La salud de Haidar es cada vez más precaria, todos podemos verlo. Y cualquier cosa puede ocurrir en cualquier momento

P. ¿Qué sintió usted cuando la encontró?
R. Fui para ayudarla a vivir, como otros, ya se lo dije. Y cuando he estado con ella, el martes, se hablaba de que podía haber una solución pronto. Lo creía ella misma, sonreía ante esa perspectiva. Había una atmósfera de satisfacción. Y no pasó nada, y han pasado los días y esto no mejora nada... Fíjese en las notas del cónsul marroquí y en las reacciones brutales, de una crueldad increíble, del Gobierno de Rabat...

P. ¿Usted espera que un arbitrio internacional zanje el problema?
R. Todas las esperanzas están puestas en eso, pero se desvanecen... Aunque intervenga la ONU, sus mecanismos son muy lentos, y esta mujer no puede esperar... Si Marruecos cumpliera, o hubiera cumplido, las resoluciones de la ONU, el conflicto que plantea el Sáhara se habría resuelto, porque el Sáhara Occidental ya sería independiente, probablemente... Pero hay en el mundo algunos países a los que las resoluciones de la ONU les importan un pepino, y entre ellos está Marruecos. Otro de esos países que no tienen en cuenta los dictados de la ONU es Israel, que con respecto a Palestina adopta la misma actitud de Rabat ante el Sáhara. No les importa lo que la ONU diga. Se permiten volver la espalda ante la presión internacional.

P. Estuvo con ella. Al volver a casa, ¿cómo valoró la naturaleza humana del drama que plantea la situación de Haidar?
R. Me parece que una mujer como ésta, que tiene unos hijos encantadores, y aquí tengo las fotos de su familia, haya decidido dar un paso tan arriesgado denota una firmeza fuera de lo común. Que la hayan conducido a esta situación lleva a pensar que la capacidad de desprecio por la naturaleza humana es infinita en la crueldad de algunos. No podemos permitir que esta mujer se muera. Vamos a ser moralmente más pobres si la dejamos morir.

P. Esto sucede en Lanzarote; Canarias es vecina muy próxima del Sáhara. ¿Alguna reflexión sobre lo que esto supone para las islas?
R. Cuando se me habla de los canarios pienso siempre que deberían preocuparse más de sus islas, donde se producen fenómenos de corrupción que avasallan y que no despiertan aquí, parece, demasiada preocupación. Si no se preocupan por lo que sucede en su casa, ¿cómo van a preocuparse de manera eficaz de lo que sucede en el Sáhara, por muy cerca que esté? Sin duda hay grupos que están haciendo mucho por solidarizarse con la situación, por ayudar a esta mujer y a su pueblo, pero chocan con la barrera infranqueable de Marruecos, que impide cualquier negociación. Estos colectivos hacen lo que pueden, claro. En cuanto a Canarias, repito que independientemente de esos colectivos lo que percibo es que los ciudadanos de las islas tienen que cambiar de mentalidad, preocuparse más por sus problemas, convertir su territorio en un verdadero archipiélago unido, y acabar con una situación en que cada isla va a lo suyo.

* Este articulo apareció en la edición impresa del Viernes, 4 de diciembre de 2009


"Seremos moralmente más pobres si Aminetu Haidar se muere" - José Saramago

"Querida Aminatu Haidar, 
Si estuviera en Lanzarote, estaría contigo. Y no porque sea también un militante separatista, como te ha definido el embajador de Marruecos, sino precisamente por todo lo contrario: creo que el planeta es de todos y todos tenemos derecho a nuestro espacio para poder vivir en armonía. Creo que los separatistas son los que separan a las personas de su tierra, la expulsan, tratan de desarraigarla para que, siendo algo distinto a lo que son, unos alcancen más poder y los otros pierdan su propia estima y acaben siendo engullidos por la sinrazón.
Marruecos con El Sahara incumple todas las normas de buena conducta. Despreciar a los saharauis es la demostración de que la Carta de los Derechos Humanos no se ha instalado en la sociedad marroquí, que no protesta con lo que se le hace al vecino, y es, sobre todo, la evidencia de que Marruecos no se respeta a sí mismo: quien está seguro de su pasado no necesita expropiar al de al lado para expresar una grandeza que nadie nunca reconocerá. Porque si el poder de Marruecos acaba doblegando a los saharauis, ese país, admirable por otras cosas, habrá obtenido la más triste victoria, una victoria sin honor, sin brillo, levantada sobre la vida y los sueños de tanta gente que quería vivir en paz en su tierra y con sus vecinos para, todos juntos, hacer del continente un lugar más habitable. 

Querida Aminatu Haidar, 
Has dado un ejemplo valioso que en todo en mundo se reconoce. No pongas en riesgo tu vida porque te quedan por delante muchas batallas y eres necesaria. Tus amigos, los amigos de tu pueblo, tomaremos el relevo en los foros que sean necesarios. 
Al Gobierno de España le pedimos sensibilidad. Contigo, con tu gente. Ya sabemos que las relaciones internacionales son muy complejas, pero hace muchos años que se abolió la esclavitud para las personas y para los pueblos. No se trata de humanitarismo: las resoluciones de Naciones Unidas, el Derecho Internacional y el sentido común están de un lado, y en Marruecos y en España se sabe. 
Dejemos que Aminatu regrese a casa con el reconocimiento de su valor, a las claras, porque son personas como ella quienes dan personalidad a nuestro tiempo, y sin Aminatu todos seríamos más pobres. Aminatu no tiene un problema, lo tiene Marruecos. Y puede resolverlo, tendrá que resolverlo y no solo para una mujer frágil, sino para todo un pueblo que no se rinde porque no puede entender ni la irracionalidad ni la voracidad expansionista, propia de otros tiempos y de otro grado de civilización.

Un abrazo muy fuerte, querida Aminatu Haidar. 
José Saramago"

Carta publicada online no site Asociación Dar Al Karama, em 24/11/2009, aqui 



"Querida Aminetu Haidar,
Se estivesse em Lanzarote, estaria contigo.
Não porque seja um militante separatista, como te definiu o embaixador de Marrocos, mas precisamente pelo contrário. Acredito que o planeta a todos pertence e todos temos o direito ao nosso espaço para poder viver em harmonia. Creio que os separatistas são todos aqueles que separam as pessoas da sua aterra, as expulsam, que procuram desenraizá-las para que, tornando-se algo distinto do que são, eles possa alcançar mais poder e os que combatem percam a sua auto-estima e acabem por ser tragados pela irracionalidade.
Marrocos em relação ao Sahara transgride tudo aquilo que são as normas de boa conduta. Desprezar os Saharauis é a demonstração de que a Carta dos Direitos Humanos não esta enraizada na sociedade marroquina, que não se rebela com o que se faz ao seu vizinho, e que é a prova de que Marrocos não se respeita a si próprio - quem está seguro do seu passado não necessita expropriar quem lhe está próximo para expressar uma grandeza que ninguém jamais reconhecerá. Porque se o poder de Marrocos alguma vez acabasse por vergar os saharauis, esse pais admirável por muitas e muitas coisas, teria obtido a mais triste vitoria, uma vitoria sem honra, nem gloria, erguida sobre a vida e os sonhos de tanta gente, que apenas quer viver em paz na sua terra, em convivência com os seus vizinhos para que, em conjunto, possam fazer desse continente uma lugar mais feliz e habitável.

Querida Aminetu Haidar,
Dás um exemplo valioso em que todas as pessoas e todo o mundo se reconhecem. Não ponhas em risco a tua vida porque tens pela frente muitas batalhas e para elas és necessária. Os teus amigos, e os amigos do teu povo, defender-te-mos em todos os foros que forem necessários.
Ao Governo de Espanha pedimos sensibilidade. Para contigo, e para com o teu povo. Sabemos que as relações internacionais são muito complexas, mas há muito anos que foi abolida a escravidão tanto para as pessoas como para os povos. Não se trata de humanitarismo, as resoluções das Nações Unidas, o Direito Internacional e o senso comum estão do lado certo, e em Marrocos e em Espanha disso se sabe.
Deixemos que Aminetu regresse a sua casa com o reconhecimento do seu valor, à luz do dia, porque são pessoas como ela que dão personalidade ao nosso tempo e sem Aminetu todos, seguramente, seriamos mais pobres.
Aminetu não tem um problema. Um problema tem seguramente Marrocos. E pode resolvê-lo... terá que resolvê-lo. Não se trata apenas de um problema de uma mulher corajosa e frágil, mas sim o de todo um povo que não se rende já que não entende nem a irracionalidade nem a voracidade expansionista, que caracterizavam outros tempos e outros graus de civilização.

Um abraço muito forte, querida Aminetu Haidar
José Saramago"

Carta publicada online no Expresso, em 25/11/2009, aqui 

"Narrador Inexistente" Conferência de encerramento do curso de verão da Universidade Complutense - El Escorial / Madrid - "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (09/08/1996)

in "Cadernos de Lanzarote Diário IV" 
Caminho, páginas 191 a 196 

9 de Agosto (de 1996) 
"Para a conferência de encerramento dos Cursos de Verão da Universidade Complutense, em El Escorial, retomei o tema do «Narrador Inexistente», já provocadoramente presente no papel que há dois anos fui debitar a Edmonton (Canadá), por ocasião de um Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada. Claro que o mundo das teorias literárias não mudou de rumo por eu ter dito o que lá disse, nem tão-pouco irá mudar agora, mas não resistirei, sempre que venha a propósito, e mesmo sem a propósito nenhum, a meter o meu remo na água ao contrário da corrente. Diz-se que cada doido tem a sua mania, e a minha, se doido sou, é esta. Eis uma parte do que li em El Escorial: 

«Nesta minha contestação, claro está, não irei ao ponto de negar que a figura duma abstracção denominada Narrador possa ser apontada e exemplificada no texto, pelo menos, com todo o respeito o digo, segundo uma lógica dedutiva bastante similar à da demonstração ontológica da existência de Deus efectuada por Santo Anselmo... Aceito, até, a probabilidade de variantes ou desdobramentos de um alegado Narrador central, com a tarefa de expressarem uma pluralidade de pontos de vista e juízos considerada, pelo Autor, útil à dialéctica dos conflitos. A pergunta que me faço, e isto é o que verdadeiramente mais me interessa, é se a atenção obsessiva prestada pelos analistas de texto a tão escorregadia entidade, propiciadora, sem dúvida, essa atenção, de suculentas e gratificantes especulações teóricas, não estará contribuindo para a redução do Autor e do seu pensamento a um papel de perigosa secundaridade na compreensão complexiva da obra. Aclararei que, quando falo de pensamento, não estou a retirar dele as sensações e os sentimentos, os anseios e os sonhos, todas as vivências do mundo exterior e do mundo interior sem as quais o pensamento se tornaria, quiçá (arrisco-me a pensá-lo...), em um puro pensar inoperante. 

«Abandonando desde agora qualquer precaução oratória, o que aqui estou assumindo, afinal, são as minhas próprias dúvidas e perplexidades sobre a identidade real da voz narradora que veicula, nos livros que tenho escrito e em todos os que li até agora, aquilo que derradeiramente creio ser, caso por caso, e quaisquer que sejam as técnicas empregadas, o pensamento do Autor. O seu próprio, pessoal (até onde nos é possível tê-lo), ou, acompanhado-o, misturando-se com ele, os pensamentos outros, históricos ou contemporâneos, cientemente ou incientemente tomados de empréstimo, para alcance dos objectivos e satisfação das necessidades discursivas, descritivas ou reflexivas da narração. 

«E também me pergunto se a resignação ou a indiferença com que que o Autor, hoje, parece aceitar a apropriação, por um Narrador academicamente abençoado, da matéria, da circunstância e da função narrativa, que em épocas anteriores, como autor e como pessoa, lhe eram exclusiva e inapelavelmente imputadas, não serão, essa resignação e essa indiferença, uma expressão mais, assumida ou não, e mais ou menos consciente, de um certo grau de abdicação de responsabilidades mais gerais. 

«Que fazemos, os que escrevemos? Nada mais que contar histórias. Contamos histórias os romancistas, contamos histórias os dramaturgos, contamos também histórias os poetas, contam-nas igualmente aqueles que não são, e não virão a ser nunca, poetas, dramaturgos ou romancistas. Mesmo o simples pensar e o simples falar quotidianos são já uma história. As palavras proferidas, e as apenas pensadas, desde que nos levantamos da cama, pela manhã, até que a ela regressamos, chegada a noite, sem esquecer as do sonho e as que o sonho vierem a tentar descrever, constituem uma história com uma coerência interna própria, contínua ou fragmentada, e poderiam, como tal, em qualquer momento, ser organizadas e articuladas numa história escrita e torna-das literatura. 

«O escritor, esse, tudo quanto escrever, desde a primeira palavra, desde a primeira linha, será em obediência a uma intenção, às vezes clara, às vezes obscura - porém, de certo modo, sempre discernível e mais ou menos óbvia, no sentido de que está obrigado, em todos os casos, a facultar ao leitor, passo a passo, dados cognitivos comuns a ambos, para que ele possa, sem excessivas dificuldades, entender o que, pretendendo parecer novo, diferente, talvez mesmo original, já é afinal conhecido porque, sucessivamente, vai sendo reconhecido. O escritor de histórias, manifestas ou disfarçadas, é um exemplo de mistificador: conta histórias para que lhas aceitem como críveis e duradouras, apesar de saber que elas não são mais do que umas quantas palavras suspensas naquilo a que eu chamaria o instável equilíbrio do fingimento, palavras frágeis, permanentemente assustadas pela atracção de um não-sentido que as empurra para o caos, para fora dos códigos convencionados, cuja chave a cada momento ameaça perder-se. 

«Não esqueçamos, porém, que, assim como as verdades puras não existem, também as puras falsidades não podem existir. Porque se é certo que toda a verdade leva consigo, inevitavelmente, uma parcela de falsidade, que mais não seja por insuficiência expressiva das palavras usadas, também certo é que nenhuma falsidade chegará a ser tão radical que não veicule, mesmo contra as intenções do embusteiro, uma parcela de verdade. Nesse caso, a mentira poderia conter, por exemplo, duas verdades: a sua própria, elementar, isto é, a verdade da sua própria contradição (a verdade encontra-se oculta nas próprias palavras que a negam...), e uma outra verdade, aquela de que acabou por tomar-se veículo, comporte ou não essa nova verdade, por sua vez, uma parcela de mentira. 

«De fingimentos de verdade e de verdades de fingimento se fazem, pois, as histórias. Contudo, e a despeito do que, no texto, se nos apresenta como material evidência, a história que ao leitor mais deverá interessar não é, em minha opinião, a que a narrativa lhe propõe. Uma ficção não está formada somente por personagens, conflitos, situações, lances, peripécias, surpresas, efeitos de estilo, jogos malabares, exibições ginásticas de técnica de narração - uma ficção (como toda a obra de arte) é, acima de tudo, a expressão ambiciosa de uma parcela identificada da humanidade, isto é, o seu autor. Pergunto-me, até, se o que determina o leitor a ler não será a esperança não consciente de descobrir no interior do livro - mais do que a história que lhe vai ser contada - a pessoa invisível, mas omnipresente, do autor. Tal como creio entender, o romance é uma máscara que esconde e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. Provavelmente (digo provavelmente...), o leitor não lê o romance, lê o romancista. 

«Com isto não pretenderei sugerir ao leitor que se entregue, durante a leitura, a um trabalho de detective ou de antropólogo, procurando pistas ou removendo camadas geológicas, no fundo das quais, como um culpado ou uma vítima, ou como um fóssil, se encontraria escondido o Autor... Muito pelo contrário: o que digo é que o Autor está no livro todo, que o Autor é todo o livro, mesmo quando o livro não consiga ser todo o autor. Verdadeiramente, não creio que tenha sido para chocar a sociedade do seu tempo que Gustave Flaubert declarou que Madame Bovary era ele próprio. Parece--me, até, que, ao dizê-lo, não fez mais do que arrombar uma porta desde sempre aberta. Sem querer faltar ao respeito devido ao autor de L'Éducation sentimentale, poderia mesmo dizer que uma tal afirmação não peca por excesso, mas por defeito: Flaubert esqueceu-se de nos dizer que ele era também o marido e os amantes de Emma, que era a casa e a rua, que era a cidade e todos quantos, de todas as condições e idades, nela viviam, casa, rua e cidade reais ou inventadas, tanto faz. Por-que a imagem e o espírito, e o sangue e a carne de tudo isso, tiveram de passar, inteiros, por uma só entidade: Gustave Flaubert, isto é, o homem, a pessoa, o Autor. Também eu, ainda que tão pouca coisa em comparação, sou a Blimunda e o Baltasar de Memorial do Convento, e em O Evangelho segundo Jesus Cristo não sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou José e Maria, porque sou também o Deus e o Diabo que lá estão... 

«O que o autor vai narrando nos seus livros não é a sua história pessoal aparente. Não é isso a que chamamos o relato de uma vida, não a sua biografia linearmente contada, quantas vezes anódina, quantas vezes desinteressante, mas uma outra, a vida labiríntica, a vida profunda, aquela que dificilmente ousaria ou saberia contar com a sua própria voz e em seu próprio nome. Talvez porque o que haja de grande no ser humano seja demasiado para caber nas palavras com que a si mesmo se define e nas sucessivas figuras de si mesmo que lhe povoam um passado que não é apenas seu, e que por isso lhe escapará sempre que tentar isolá-lo ou isolar-se nele. Talvez, também, porque aquilo em que somos mesquinhos e pequenos é a tal ponto comum que nada de muito novo poderia ensinar a esse outro ser pequeno e grande que é o leitor... 

«Finalmente, talvez seja por algumas destas razões que certos autores, entre os quais me incluo, privilegiam, nas histórias que contam, não a história que viveram ou vivem (fugindo assim às armadilhas do confessionalismo literário), mas a história da sua própria memória, com as suas exactidões, os seus desfalecimentos, as suas mentiras que também são verdades, as suas verdades que não podem impedir-se de ser também mentiras. Bem vistas as coisas, sou só a memória que tenho, e essa é a única história que quero e posso contar. 

«Quanto ao Narrador, se depois disto ainda houver quem o defenda, que poderá ele ser senão a mais insignificante personagem de uma história que não é a sua?» 

(Nota: textos em bold do blogger)
in "Cadernos de Lanzarote Diário IV" 
Caminho, páginas 191 a 196 (09/08/1996)

sexta-feira, 29 de abril de 2016

"A outra razão de Alonso Quijano" (22/09/2009)

Publicado através da Fundación Alonso Quijano, aqui
em http://www.alonsoquijano.org/webfundacion2010/node/52

José Saramago: Presidente de honor (2003-2010)

"Lanzarote, 12 de enero de 2003

Estimados amigos,

         Siempre me ha parecido que no se ha dado atención suficiente, si se ha dado alguna, a ese iluminado hombre de quien se habla de escapada en la primera página del Quijote y un poco más en la última. Digo iluminado porque si realmente es cierto que con lectura se ha vuelto loco, entonces tendremos que reconocer que ha elegido la mejor forma de convertirse en otro, que en eso pienso que consiste la locura. Mi tesis es diferente: Quijano ha fingido la locura... El motivo de esta carta no era tanto hablar de mi interpretación del cambio de Quijano en Quijote, sino deciros que acepto como una impagable muestra de amistad la invitación que me habéis hecho para ser el presidente de honor de la Fundación Alonso Quijano. La acepto de todo corazón y la agradezco.

Un abrazo muy fuerte,

                                José Saramago."



"Cervantes, porque sem o autor do Quixote a Península Ibérica seria uma casa sem telhado"



"A outra razão de Alonso Quijano" - 22 de Setembro de 2009

Pode ser recuperado e consultado, aqui
em http://www.josesaramago.org/a-outra-razao-de-alonso-quijano/

"Todos sabemos como a história começa: naquele lugar de La Mancha cujo nome nunca viremos a conhecer, vivia um fidalgo pobre chamado Alonso Quijano que, um dia, em consequência do muito ler e do muito imaginar, passou do juízo à loucura, tão simplesmente como quem abre uma porta e a torna a fechar. Assim o quis Cervantes, acaso porque à mentalidade do seu tempo repugnasse aceitar que um homem em posse plena das faculdades mentais, mesmo sendo apenas uma personagem de romance, decidisse, por um acto de vontade, deixar de ser quem tinha sido para converter-se em outro: graças à loucura, a rejeição das regras do chamado comportamento racional torna-se pacífica, não problemática, uma vez que permitirá desprezar qualquer aproximação ao louco que não proceda em conformidade com as vias que têm a cura como objectivo. Do ponto de vista dos contemporâneos de Cervantes e das personagens do livro, Quijote é louco porque Quijano enlouqueceu. Em momento algum se insinua a suspeita de ser Quijote, tão-somente, ou, pelo contrário, de supremo modo, o outro de Quijano. Não obstante, Cervantes tem uma visão muito precisa da irredutibilidade das consequências da mudança de Quijano, tanto assim que reforma e reorganiza de alto a baixo o mundo em que vai entrar essa entidade nova que é Quijote, mudando os nomes e as qualidades de todos os seres e coisas: a estalagem torna-se castelo, os moinhos são gigantes, os rebanhos exércitos, Aldonza transforma-se em Dulcinea, para não falar de um mísero cavalo promovido a épico Rocinante e de uma bacia de barbeiro alçada à dignidade de elmo de Mambrino. Já Sancho, tendo embora de viver as aventuras e as imaginações de Quijote, não precisará nunca de enlouquecer nem de mudar de nome: mesmo quando o proclamarem governador de Bartaria continuará a ser, no físico e no moral, mas sobretudo na sólida identidade que sempre o definiu, Sancho Panza. Nada mais, mas também nada menos.

Que nos diz Cervantes da vida de Alonso Quijano antes que a suposta loucura tivesse transformado o mal favorecido e infatigável cavaleiro a quem as derrotas nunca diminuirão o ânimo, antes parecerá encontrar nelas o alento para o combate seguinte, infinitamente perdido e infinitamente recomeçado? Cervantes, dessa vida enigmática, nada nos quis dizer. E, contudo, Alonso Quijano frisava já os cinquenta anos de idade quando Cervantes o plantou inteiro na primeira página do Quijote. Mesmo numa aldeia perdida de La Mancha, tão perdida que nem o seu nome se achou, um homem de cinquenta anos teria tido, por força, uma vida, acidentes, encontros, sentimentos vários. Seus pais, quem foram? De que irmão ou irmã lhe veio a sobrinha? Não teve Alonso Quijano filhos, um varão, por exemplo, que por não ter nascido à sombra do santo sacramento do matrimónio foi deixado ao deus-dará? E a mãe desse filho, quem teria sido? Uma moça de aldeia, barregã por uns tempos, ou apenas tomada de ocasião em tarde de calor, no meio da seara ou atrás de um valado? Conhecemos tudo da vida de D. Quijote de La Mancha, porém nada da vida de Alonso Quijano, no entanto o mesmo homem, primeiro dotado de razão, depois deixado dela, senão, como me parece hipótese mais sedutora, deixada ela por ele, conscientemente, para que Alonso Quijano pudesse, sob a capa de uma loucura que passaria a justificar tanto o sublime como o ridículo, ser enfim outro, para como outro poder viver em outros lugares e fazer da labrega Aldonza (quem sabe se antes mãe de filhos que não foram reconhecidos?) uma puríssima e inalcançável Dulcineia, mudando assim, como numa operação alquímica, o chumbo cinzento em ouro resplandecente.

É neste ponto, segundo entendo, que deparamos com a questão crucial. Se Alonso Quijano foi o mero invólucro físico de um delírio mental produzido pelo muito ler o pelo muito imaginar, então não haveria grandes diferenças entre ele e aqueles outros loucos que, dois ou três séculos mais tarde, se tomaram por Napoleão Bonaparte só porque dele ouviram falar, ou acerca dele leram, como capitão, general e imperador. Quanto a mim, prefiro acreditar que, em um dia da sua insignificante vida, Alonso Quijano decidiu ser outra pessoa, e, tendo, por isso mesmo, que colocar-se contra o seu tempo, onde só a pessoa Quijano tinha lugar, optou por fazer aquilo que então já ninguém ousaria: restabelecer a ordem da cavalaria andante, pondo ao seu serviço, por inteiro, alma e corpo. Se falasse francês, Quijano poderia ter antecipado, naquele seu momento fundador, o dito célebre de Rimbaud: la vraie vie est ailleurs. Pelo menos, imaginemos que, ao deixar a tranquilidade e a segurança da sua casa, grotescamente armado, montado na esquelética cavalgadura, teria proferido, no seu castelhano manchego, estas palavras, postas aqui também na língua de Rimbaud para manter o paralelismo, e que seriam, ao mesmo tempo, uma divisa e um programa: Le vrai moi est ailleurs. E foi assim que começou a caminhar, já outro, e portanto à procura de si mesmo.

Este jogo entre um eu (Quijano) que se torna em um outro (Quijote), ponto forte, se posso atrever-me a dizê-lo, desta interpretação, encontra uma simetria recente no conhecido sistema de espelhos, cientemente organizado por Fernando Pessoa, que é constelação heteronímica. Sendo os tempos diferentes, Pessoa não necessitou enlouquecer para se tornar nesses outros Napoleões que são o Álvaro de Campos da Tabacaria, o Alberto Caeiro do Guardador de Rebanhos, o Ricardo Reis das Odes, ou o Bernardo Soares do Livro do Desassossego. Curiosamente, porém (tanto pode, afinal, a suspeita social que pesa sobre aqueles que, de modo directo ou indirecto, aspiraram a retirar-se da humana convivência), o próprio Fernando Pessoa, para dar do seu caso uma explicação que não relevasse da simples vontade de ser outro (ou, mais complexamente, necessidade de não ser quem era), diagnosticou-se a si mesmo como histero-neurasténico, por esta maneira transitando, com perturbador à-vontade, das auras poéticas ao foro psiquiátrico. Isso lhe servirá para explicar os seus heterónimos, atribuindo-se a si mesmo uma «tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação». (Falar de «despersonalização», neste caso, não de uma despersonalização – situação, suponho, em que o poeta, no mesmo instante em que deixa de ser ele próprio, assiste à ocupação do vazio por uma nova entidade poética, tornando portanto a ser alguém, na medida em que havia podido tornar-se outro).

É interessante observar, repito, como Pessoa nos quer fazer crer na «origem orgânica» dos seus heterónimos, aliás em total e flagrante contradição com a descrição que faz do «nascimento» deles, que mais parece corresponder a uma sequência de lances de um jogo dentro de outro jogo, como caixas chinesas saindo de caixas chinesas: «lembrei-me de inventar um poeta bucólico», «aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir uns discípulos», «arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente», «de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo (Álvaro de Campos)»… É de supor que o aparecimento dos outro heterónimos, ou semi-heterónimos, que foram António Mora, Vicente Guedes ou Bernardo Soares, tenha percorrido caminhos mentais similares e modos de elaboração e definição paralelos. Para fazer um Quijote, Cervantes tinha de levar Quijano à loucura, ao passo que Fernando Pessoa, que já levava dentro de si a tentação de mil vidas diferentes, e que, de alguma maneira, já era personagem de si mesmo, não podendo enlouquecer deveras e tornar-se, nessa loucura, outro, criou para seu uso e nossa mistificação uma fingida histero-neurastenia, ao abrigo da qual se poderia permitir quantas multiplicações o seu espírito fosse capaz de suportar. Parece claro, pois, que a ironia pessoana se vai exercer em duas direcções distintas: a o leitor, obrigado pelo poder compulsivo de uma expressão artística invulgar a tomar a sério o que é pura mistificação, e a do próprio Pessoa, agente e objecto conscientes dessa mesma mistificação.

Ou muito me engano, ou não é este o caso de Cervantes. É verdade que ele, com aparente frieza e indiferença, parece querer expor, primeiro Quijano e depois Quijote, à irrisão familiar e pública, mas esse homem uno e duplo, Janos bifronte, cabeça de duas caras, de quem o leitor se rirá mil vezes, também será capaz mil vezes de despertar no nosso espírito os mais subtis sentimentos de compaixão e solidaridade, e, como se tal fosse pouco, criar em nós o desejo profundo e irresistível de identificação com alguém como esse Quijote – personagem incorpórea de romance, criatura feita de tinta e papel –, em verdade desprovido de tudo, menos de ansiedade e de sonho. Ainda que não o queira confessar, todo o leitor, no segredo de seu coração, desejaria ser D. Quijote. Talvez pelo facto de ele não ter consciência de seu ridículo e nós vivermos sujeitos a ela em todas as horas lúcidas, mas sobretudo, creio, porque na aventura risível do Cavaleiro da Triste Figura está presente, sempre, o sentido mais dramaticamente interiorizado e mascarado da existência humana: o da sua finitude. Sabemos de antemão que nenhuma das aventuras de Quijote será mortal ou sequer realmente perigosa, que, pelo contrário, cada uma delas será motivo de novas gargalhadas, mas, em contradição com esta tranquilizadora certeza, que resulta do pacto estabelecido com o Autor desde as primeiras páginas, percebemos que, afinal, Quijote encontra, a cada passo que dá, em permanente risco, como se, em vez de ali ter sido posto por Cervantes para meter a ridículo os romances de cavalaria, fosse a premonitória representação do homem moderno, sem toga nem coturnos, armado de uma razão desfalecente, incapaz de chegar ao outro por não poder conhecer-se a si mesmo, dividido tragicamente entre ser e querer ser, entre ser e ter sido.

Essa razão, porém, a que chamei desfalecente, como um fio que constantemente se parte e cujas pontas dilaceradas constantemente vamos tentando atar, é o único vademecum, possível, quer para Quijote quer para esse Sancho/Quijote que é o leitor. Razão de regras instáveis, por certo, mas razão trabalhando em estado de plenitude, ou razão de loucura, se aceitarmos o jogo de Cervantes, mas, tanto num caso como no outro, razão ordenadora, capaz de sobrepor leis novas ao universo das leis velhas apenas por uma introdução metódica de contrários. Pessoa dispersou-se noutros e nessa dispersão, porventura, se reencontrou. Quijano substituiu-se a si mesmo por outro enquanto a morte não chegava para fazer voltar tudo ao princípio, ao primeiro enigma e à primeira tentação: ser alguém que não fosse ele, estar num lugar que não fosse aquele.

Vítima de uma loucura simplesmente humana ou agente de uma vontade sobre-humana de mudança, Quijote procura recriar o mundo, fazê-lo nascer de novo, e morre quando compreende que não bastou ter mudado ele para que o mundo mudasse. É a última derrota de Quijano, a mais amarga de todas, a que não terá salvação. A vontade esgotou-se, não há tempo para enlouquecer outra vez."
José Saramago

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Exposição permanente na Fundação José Saramago - "José Saramago. A semente e os frutos"

Flyer de apresentação da Fundação José Saramago

Toda a informação disponível através da página da Fundação José Saramago, aqui 

"Na obra literária de José Saramago (Azinhaga, 1922) conjuga-se a literatura mais exigente e pessoal com as interrogações mais fecundas. Autor tardio, mas de formação caldeada no calor de letras escritas e de leituras, soube construir, a partir da década de oitenta, uma literatura renovadora e original, que lhe conferiu, em 1998, o primeiro Prémio Nobel concedido a um escritor de língua portuguesa. Denso e irónico, inteligente e cético, terno e sarcástico, demolidor e pertinaz nas suas críticas, praticou, ao longo da sua produção narrativa, tanto a desmitificação da História convencional como a censura ativa dos desvios contemporâneos, tomando sempre como referência a essência humana da vida, a solidariedade, a compaixão, o respeito pelo outro e a relatividade do ponto de vista. Armado por um autor-narrador forte, que invade o espetro da sua narrativa, defendia que a obra é o romancista, ao mesmo tempo que marcou uma literatura construída a partir de ideias fortes, de audazes metáforas visionárias e ilustradas, de uma deslumbrante fabulação e de uma consciência incómoda que quis e soube ligar o seu destino ao pulsar turbulento do coração do mundo contemporâneo, permanentemente posto a nu e questionado. 

Saramago — que nunca ocultou a sua militância comunista — projetou mundialmente o seu trabalho e a sua figura pública, acentuando o seu perfil de intervenção cívica em defesa da liberdade, dos direitos humanos e da inclusão social, imbuído de valores e ideais suscetíveis de construir outra realidade mais justa, mais humana. Esta atitude engagée serviu-lhe para recuperar, com energia e credibilidade, o papel do intelectual inconformista, envolvido nas questões palpitantes e nos debates do seu tempo, trazendo ângulos de visão heterodoxos, refutando a ordem aceite maioritariamente e reclamando uma ética individual e coletiva que contemplasse como prioridade o ser humano, a sua dignidade, acima de qualquer outra hierarquia discriminatória ou qualquer outro interesse de poder ou económico. José Saramago desenvolveu, pois, com intensidade as suas responsabilidades cívicas, com o desejo de colocar o cidadão ao mesmo nível do escritor, tal e como ele mesmo expressaria: «Tenho muito cuidado em não transformar os meus romances em panfletos, apesar de ser marxista e comunista com cartão. Tenho umas ideias e não separo o escritor do cidadão das minhas preocupações. Acho que nós, os escritores, devemos voltar à rua, e ocupar de novo o espaço que antes tínhamos e agora é ocupado pela rádio, pela imprensa ou pela televisão. É preciso, além disso, fomentar o humanismo, o conhecimento de que milhares e milhares de pessoas não podem aproximar-se do desenvolvimento.» (1994) 

Polémico, pessimista confesso, brilhante, ativista e incómodo, a perspetiva da sua vida caldeada oferece o balanço de um trabalho literário amplo e pertinaz, em que o cultivo do romance conviveu com o teatro, a poesia, as crónicas jornalísticas e as memórias. A exposição José Saramago. A semente e os frutos dá conta, em síntese, dessa dedicação, mostrando como o príncipe da literatura que foi José Saramago funde as suas raízes no operário das letras que, com o seu minucioso e metódico trabalho, em momentos difíceis da sua vida - os árduos e obscuros anos quarenta, cinquenta e sessenta em Portugal - sedimentou as bases do brilho futuro. A mostra, que aglutina numerosos manuscritos, documentos, primeiras edições e centenas de traduções em mais de quarenta línguas, propõe um percurso tanto pela produção literária de José Saramago como pelos seus contextos ideológicos e sociais. 

A conceção expositiva de José Saramago. A semente e os frutos incorpora recursos audiovisuais postos ao serviço de conteúdos específicos que abrem as portas ao denso e rico mundo saramaguiano. O discurso expositivo oferece a possibilidade de aproximação à génese do escritor através de inúmeras portas de entrada, propocionando a cada visitante a oportunidade de construir o seu próprio percurso, em função dos seus interesses no momento de penetrar num universo literário e intelectual tão amplo e sugestivo como polifacetado." 
Fernando Gómez Aguilera 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Revista Blimunda - edição #47 de Abril de 2016 - Para descarregar aqui gratuitamente

Revista Blimunda - capa da edição #47 de Abril de 2016

A presente edição, pode ser consultada e descarregada, via página da Fundação José Saramago, aqui em http://www.josesaramago.org/blimunda-47-abril-2016/

Sinopse de apresentação
"A Blimunda que se publica neste 25 de Abril, no aniversário de 42 anos da Revolução de Abril, tem um tema central que atravessa praticamente toda a revista, a Liberdade. Ela está, por exemplo, na entrevista a Gene Sharp, autor do livro From Dictatorship to Democracy – obra cuja leitura acabou levando à prisão a 17 ativistas angolanos; é também cenário do romance A Resistência, de autoria do brasileiro Julián Fuks, que conversou com a Blimunda a propósito desse livro. Esta edição da revista estreia um novo espaço que será ocupado por Andréa Zamorano, escritora brasileira radicada em Portugal, autora do romance A Casa das Rosas. O texto de estreia, intitulado O Esqueleto, tem a opressão de uma ditadura como pano de fundo.

Para assinalar os 400 anos da morte de Miguel de Cervantes, autor que fez da liberdade um dos alimentos para a sua criação, a revistaBlimunda recupera um texto de José Saramago sobre a «Outra razão de Alonjo Quijano» e um artigo do escritor e cineasta espanhol Javier Rioyo sobre a passagem de Cervantes por Portugal

A convidada do mês para a sessão de fotos dos «Livros do Desassossego» é a artista Mariana Dias Coutinho, que durante os Dias do Desassossego’15 pintou um mural em homenagem a Fernando Pessoa e José Saramago na Rua do Alecrim, em Lisboa.

Na secção infantil e juvenil o destaque é para os 60 anos do Prémio Hans Christian Andersen, considerado o Prémio Nobel da Literatura infantojuvenil.

Como conteúdo especial, a revista publica um texto inédito de José Rodrigues Miguéis sobre Raul Brandão.

Boas leituras!"

domingo, 24 de abril de 2016

"Grândola" cantada por Luis Pastor e João Afonso e restantes companheiros presentes na casa de José Saramago e Pilar del Río em Tías Lanzarote

Relembrar e comemorar Abril - 42 anos de Abril - 1974/2016

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

"El sábado de la semana pasada tuvimos la fortuna de conocer a Joao Afonso, el sobrino de José Alfonso. Fué en la biblioteca de Saramago en Tías - Lanzarote. Allí coincidió el grupo de artistas que visitaba la isla con motivo del concierto de Luis Pastor y su nuevo disco Duos. Fue una reunión íntima que terminó acariciada por poemas y canciones. Y no pude evitar coger la cámara y ponerme a grabar para socializar el pasaje." de Fernando Berlín da RadioCable.com

Enquanto não chega a edição deste mês recuperamos a "Blimunda" de Abril de 2013 - Revista Digital

Capa da edição #11 - Abril de 2013

Sinopse da edição #11 (Abril de 2013), que pode ser recuperada e descarregada gratuitamente para leitura, via página da Fundação José Saramago, aqui

"A Blimunda de abril está aqui! Com várias páginas sobre o festival Rota das Letras de Macau, uma entrevista a Andréa del Fuego, Prémio José Saramago, um dossier sobre os 50 anos da Feira do Livro Infantil de Bolonha, com a escolha de um livro descoberto na Feira por editores, autores e ilustradores portugueses, e a habitual secção Saramaguiana, com um texto de Laura Restrepo, que assinala também nas páginas da Blimunda a abertura da Feira do Livro de Bogotá que dedica a José Saramago grande parte da sua programação.

Tudo isto e muito mais no número 11 da Blimunda, do mês de abril."

Cartaz de "Blimunda" de Azio Corghi, ópera baseada no "Memorial do Convento" de José Saramago (Teatro Alla Scala, Milão - 1990)

Teatro Alla Scala

"Blimunda" de Azio Corghi, ópera baseada no "Memorial do Convento" de José Saramago

22 de Maio de 1990

Cartaz de apresentação do espectáculo, depositado na Fundação José Saramago e que faz parte da exposição permanente "José Saramago: A semente e os frutos"

"Blimunda, o Orfeu no feminino ou passagem de Blimunda" por Itália, 
por Maria Armandina Maia

O artigo de Maria Armandina Maia, publicado na revista "Camões  Revista de Letras e Culturas Lusófonas" (n.º3, Outubro-Dezembro de 1998), pode ser recuperado aqui,

"Blimunda", a ópera lírica em três actos que às 21.30 do dia 20 de Maio de 1990 estreava no Teatro Lírico de Milão, tinha a assinatura do compositor italiano Azio Corghi, autor de uma obra consagrada, que conhecera representações nos mais prestigiados teatros e salas de concerto, também a nível internacional. Na obra deste compositor, responsável pela Cátedra de Composição no Conservatório de Milão, colaborador da Fundação Rossini e da Casa Ricordi, ocupavam lugar de indiscutível relevo as obras musicais que resultavam de incursões pelo mundo literário, sobretudo com a composição Gargantua, experiência de tal modo notável que levaria o Teatro alla Scala de Milão a confiar-lhe o projecto da ópera lírica Blimunda, extraída do romance de José Saramago, Memorial do Convento.
O autor do Memorial tinha, por essa altura, três obras suas publicados em Itália: Memoriale del Convento, Feltrinelli, Milano, 1984; La Zattera di Pietra, Feltrinelli, 1987; e Storia dell'Assedio di Lisbona, Bompiani, 1990, traduções assinadas por Rita Desti (com excepção do Memoriale del Convento, fruto de uma tradução a quatro mãos, de Rita Desti e Carmen Radulet).
Para o vasto e exigente público italiano, Saramago era o autor português mais conhecido depois do "fenómeno" Pessoa, o primeiro a merecer destaque e interesse de casas editoras que constituíam um selo de garantia. No entanto, era junto de um núcleo de intelectuais que José Saramago assumia foros de verdadeira revelação, pela qualidade e ineditismo da sua palavra literária.
Ligado, na sua maior parte, a Instituições Universitárias, este grupo promovia a obra e o escritor que, pela sua mão, conheceu cidades como Perugia, Florença, Roma, Milão e Turim, em conferências e reuniões que se multiplicavam.
Foi, aliás, num destes momentos que conheceu Azio Corghi, que, impressionado pela atmosfera criada no Memorial, confessou a José Saramago o seu desejo de "contar a história de um Orfeu no feminino". A resposta de Saramago baptizaria a ópera. "Chamê-la-emos Blimunda".
Num exercício de grande unidade, escritor e compositor intersectaram os respectivos saberes, dando lugar ao magnífico trabalho que é o libreto de Blimunda, descrito pela crítica Lidia Bramani (casa Ricordi), como "uma estrutura em que são determinantes a voz recitante, solistas, oiteto madrigalista, coro, orquestra, electrónica, que se intersectam ao longo de linhas que se fragmentam e refazem, entrecruzando-se, distanciando-se, por vezes tocando-se ao de leve em três espaços musicalmente e cenograficamente distintos: o espaço acústico, o espaço imaginário e o espaço real".
Mas a estreia da ópera não se limitou em Milão ao público da sala que na noite de 20 de Maio encheu o Teatro Lírico, para aplaudir uma obra que, num só tempo, nos deslumbrava e quase estarrecia pela opulência, grandiosidade e magnificência, mas também pelo seu próprio e surpreendente avesso, na contenção da gestualidade, na pureza dos sons, no acenar dos sentidos.
Nos dias que a antecederam, numa organização promovida pela Universidade de Milão, tinha lugar o Colóquio Viaggio intorno al Convento di Mafra, na belíssima "Sala di Rapprezantanza", cujo programa era completado por um concerto de homenagem a autores portugueses do tempo – Carlos Seixas, Domingos Bomtempo e Francisco Lacerda – excelentemente interpretados por um grupo do Conservatorio Verdi, ao qual a Fundação Calouste Gulbenkian, num assinalável esforço de colaboração, facultara, num curtíssimo espaço de tempo, as partituras das obras.
Um vasto público ouviu, entre outros, textos de Piero Ceccucci: Il "Memoriale del Convento" nell'itinerario narrativo di José Saramago e Eduardo Lourenço: O Memorial da história humana como história santa.
De registar, sobretudo, as intervenções dos dois autores, Azio Corghi e José Saramago, que se prolongariam num longo debate com o público, em que falaram longamente do(s) sonho(s) de cada um: "Eu acho que, depois de o padre Bartolomeu Gusmão ter inventado a "passarela" e eu ter inventado a "máquina para viajar", é chegado o momento de o Maestro Corghi explicar a sua obra". A resposta de Corghi deixa clara a unidade da travessia entre a obra e a ópera: "História e história tenderiam para harmonizar-se numa síntese até exigirem, tornando-a "quase necessária", a intervenção da música".
Voltando às palavras de Lidia Bramani "A extraordinária coerência estrutural do Memorial do Convento permite compreender globalmente o pensamento do escritor. Mantendo um desenrolar de sequências, Saramago torna o tempo narrativo centrífugo, dissolvendo a rigidez deste a partir do interior. O tempo psicológico, individual e colectivo vence o da narração convencional graças a uma prosa moderníssima, barroca, opulenta, transbordante de rasgos de projecção, simultaneamente capazes de uma suavíssima essencialidade".
Foi assim no tempo de estreia de Blimunda em Itália. E foi também assim que José Saramago se fez Nobel: com uma estatura de excelência e humildade que ampliou, indelevelmente, o espaço da literatura e da cultura portuguesas no mundo.




"Saramago e a literatura como resistência" de João Céu e Silva - Revista "Café com Letras" n.º 1 (Abril de 2016)

Para leitura e acompanhar as diversas publicações, aqui fica o site

"Saramago e a literatura como resistência" de João Céu e Silva 

"Se há escritor em que a literatura de resistência está bem presente, o seu nome é José Saramago. Se há homem em que isso também aconteça, o nome é o mesmo. 
Poder-se-ia questionar o porquê de começar com o escritor em vez do homem se foi o primeiro que surgiu, e só dele é que a literatura saiu. Não é preciso pensar muito, afinal no tempo em que estamos, após a sua morte, um é inseparável do outro, a exemplo do último terço da sua vida, aquela que o firmou para aquilo que agora interessa, a literatura, foi sempre o seu rosto. Mesmo que falasse para audiências de três mil pessoas em Lisboa, em Cartagena das Índias ou em Frankfurt quem falava era o escritor e o leitor nunca ficou em dúvida. 
Para se analisar o conceito de resistência na sua literatura, pode-se situar a obra apenas durante o período de tempo que vai de Levantado do Chão ate Caim. Pois esse é aquele em que as anteriores tentativas literárias foram superadas e o seu carácter de resiliência melhor se mostra. É certo que na escrita anterior, como no romance do princípio, Terra do Pecado; na poesia inicial, Os Poemas Possíveis, e até nos poucos contos que constituem a sua obra, como Objeto Quase, a resistência está sempre presente. Mesmo no antigo romance que foi publicado postumamente, Clarabóia, isso acontece. Mas é sobretudo em Manual de Pintura e Caligrafia que a narrativa mais longa encontra o inimigo que é preciso enfrentar, pois é nele que a compreensão da história se apresenta como importante para a personagem principal e ficam definidos os limites da acção e, também, a plataforma onde se instala a contestação ao discurso oficial dos protagonistas sociais. 
É, no entanto, em Levantado do Chão que se inicia o percurso que José Saramago faz em nome da literatura de resistência ou, pode também dizer-se, com mais visibilidade e regularidade, de um propósito que já vem de antes — ou de quase sempre. Curiosamente, num tempo em que pareciam ter desaparecido os motivos políticos que levariam um autor a criar uma narrativa contra a situação e a fixação de uma outra história no que diz respeito à humanidade, é, no entanto, cinco anos após a chegada da democracia a Portugal que José Saramago apresenta a sua obra mais cáustica no que respeita às relações sociais, à de-pendência quase feudal de quem trabalha, a uma espécie de inquisição por via da polícia, ao questionamento do papel da mulher e da família, entre outros temas. Todavia, José Saramago não só chega à verdadeira literatura de resistência a seguir ao 25 de Abril de 1974, como continua a escrevê-la durante a vida que lhe resta. Mesmo que, aí, a resistência se transfira do campo nacional para fora das fronteiras, pondo ainda o dedo no poder de se alterar o rela-to histórico nacional, ao colocar um revisor que escolhe retirar um 'não' do texto que está ao seu cuidado e alterando assim o que é a História do Cerco de Lisboa. 

Do mesmo autor deste artigo, foi publicado um livro de entrevistas e estudo sobre a obra de José Saramago, num discurso directo com José Saramago e muitas outras individualidades.
"Uma longa viagem com José Saramago" da Porto Editora (03/1999)

Já antes havia realizado o melhor exemplo do que é esse combate na literatura ao separar a Península Ibérica da Europa, a que irá um dia retirar a independência nacional, segundo a sua previ-são em textos escritos, como é o romance Jangada de Pedra; ou ao duvidar do modo como a História é ensinada através de um professor da disciplina em O Homem Duplicado. Será, porém, num romance citadino e sem localização geográfica — pode ser em qualquer parte do mundo quase — que o escritor demonstrará que a literatura pode ser um guia de resistência. É o caso de Ensaio sobre a Cegueira, um dos livros mais poderosos neste tópico e que leitores de todo o mundo devoraram como antes o haviam feito com obras clássicas de autores que nos tinham avisado sobre o presente e o futuro, tendo sempre presente essa ideia de luta. 
Todavia, é Levantado do Chão o manual de literatura de resistência por excelência de José Saramago. Leia-se uma frase ao acaso: "Rapazes, tomem atenção daqui para o futuro, por esta vez vão em liberdade, mas ficam prevenidos, se voltarem a andar metidos em terrorismos pagam a dobrar, e não se deixem iludir com falsas doutrinas, não sejam parvos (...)". Quem faz este alerta é o Tenente Contente, após uma prisão que serviria de lição a quem contesta a ordem, uma personagem a quem José Sara-mago dá um dos muitos nomes com um duplo sentido, situação constante deste romance. Um livro que pretende explicar a oposição à exploração económica do homem pelo homem, como se fez no Alentejo durante séculos. José Saramago poderia escolher um outro cenário, deslocalizado até do que se conhece, mas não. Num tempo em que a literatura nacional estava a desbravar novos caminhos pós-Revolução, o escritor embrenha-se no cenário mais improvável para o que se está a fazer nas letras nesse tempo. Justifica-o numa entrevista, dizendo assim: "Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro quando terminasse: Isto é o Alentejo." E noutra entrevista di-lo deste modo: "A opressão é, por definição, esmagadora, tende a baixar, a calcar. O movimento que reage a isto é o movimento de levantar. Portanto, o livro chama-se Levantado do Chão porque levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro." 
O que terá levado José Saramago a escrever o livro Levantado do Chão? Esta é a parte que constitui a marca do escritor e que sucede no homem, como se iniciava o texto, porque desde muito jovem o homem quisera ser escritor e o escritor coincidia com esse homem. Pode ver-se esse passado em As Pequenas Memórias, com descrições de uma opressão que estava, desta vez, do lado de lá do rio Tejo; ou até em A Viagem do Elefante, o crítico delírio humorístico contra o poder da realeza e da Igreja, neste caso tendo em conta a vida de um elefante, que o escritor fez questão de deixar como aviso alegórico aos que não se levantavam do chão. 
José Saramago leva alguns anos a pensar e a escrever aquele que é considerado pela crítica um exemplo da literatura de resistência, Levantado do Chão. Em 1975, está na direção do jornal Diário de Notícias e é peão do jogo de xadrez que se pratica no país, ao nível dos movimentos sociais. Antes do ano terminar é saneado do cargo, por ocasião do golpe do 25 de Novembro e fica no desemprego. Decerto que na sua mente avançam e recuam as peças da política, da sociedade, do jogo em que esteve e a sua decisão é a de migrar durante uns meses para o Alentejo, 
mais propriamente para a povoação do Lavre. Este é o local onde a Reforma Agrária em curso o inspira para a história do romance, que se vai formando. Quem percorrer, ainda hoje, as localidades que estão no livro será capaz de refazer as paisagens e as personagens, nem que seja por conversas em cafés. Em que o som das palavras e a com-posição dos relatos que se escutam vão dar à narrativa que José Saramago começou a escrever, um par de anos depois disso. Com uma agravante, o que vai chocar hoje o viajante sobre a realidade daquela região era mais agravada à época, e a história corria solta — e fazia-se — entre as oliveiras daqueles campos. 
Face ao que o homem via, o escritor impôs-se e começou a escrever o Levantado do Chão como uma missão de resistência. Escrita que ainda não tinha chegado a duas dezenas de páginas e já se transformara num linguajar que, até então, nunca existira na literatura portuguesa. Em grande parte, era o resultado do que ouvira dizer, das gravações que fizera num pequeno aparelho que o acompanhava, nas conversas com os trabalhadores rurais, com as mulheres, ou da companhia que um cão lhe fez. E toda a literatura de resistência que andara a escrever, até aí, é sobreposta pelo retrato das gerações da família Mau-Tempo. Era este o quadro humano e social oposto àquele que, pouco tempo antes, pusera no Manual de Caligrafia um pintor a retratar. Ambos são livros de resistência, mas o segundo é mais literário que o primeiro. 
Se Levantado do Chão ficou completo, por acabar fica um romance a que Saramago chamou Alabardas. Qual a história deste romance incompleto? A recusa de um operário português em fazer bombas que matassem vizinhos espanhóis durante a Guerra Civil, tornando impotente a espoleta quando fossem largadas dos aviões de Franco. Ou seja, até ao fim, José Saramago teimou nesta tarefa da Literatura como resistência. Nas crónicas que reúne em A Bagagem do Viajante há uma que tem por título um ver-so de um poema de Carlos Drummond de Andrade: "E agora, José". José Saramago não pegou nele por acaso, servia a uma crónica sobre um outro José, da Beira, que era objeto de chacota e de violência por parte da população onde vivia, e retratou a sua história em três folhas de livro como se fosse uma das personagens de Levantado do Chão. Não lhe custou nada, afinal era um escritor apostado na ideia de literatura como resistência." 

in, Revista "Café com Letras", páginas 48 a 50 
n.º 1 (Abril de 2016)