Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

"Revista de Estudos Saramaguianos" Edição #4 (Julho 2016)

Capa da edição #4

Seguir este link para descarregar a edição apresentada

A equipa editorial da "Revista de Estudos Saramaguianos" apresenta desta forma o #4, aqui

"APRESENTAÇÃO

Todos os nomes, de José Saramago, narra as buscas de um homem, solitário e preso à trivialidade, por uma mulher cujas feições só angariará conhecer através dos seus registros na Conservatória onde trabalha, da conversa que mantém com os mais próximos e do que descobre nas investigações realizadas na escola onde estudou o ícone de suas buscas. Constrói, portanto, um retrato possível sobre a desconhecida. Talvez porque todo retrato é sempre uma possibilidade; e também é característica da obra saramaguiana essa constante construção de possibilidades, desde a maneira como o escritor sugere o hibridismo dos gêneros (romance-manual, romance-ensaio, romance-evangelho, romance-conto, romance-parábola) à maneira como perfaz a história e as situações ficcionais.

Mas, é o desfecho produzido do embate com as buscas o que destacamos aqui. Sem acesso à ficha na qual estava registrada a morte da mulher motivo da procura do Sr. José – é este o nome da protagonista do romance em questão – o conservador sugere que ele recrie outra ficha. Isto é, que substitua o certo pelo possível. A resposta da personagem é dada pelo interesse de voltar a mergulhar entre os extensos labirintos da Conservatória na tarefa de resgatar o verbete da escuridão dos esquecidos.

Esta ação, para além de marcar um retorno da personagem à sua origem, como se o narrador provocasse o leitor a concluir como num círculo o circuito da existência das ações da narrativa, é responsável por uma diversidade de leituras possíveis. Uma delas refere-se à responsabilidade reservada aos vivos pela memória dos mortos. Aos olhos de Saramago, dentro e fora do romance, é tarefa nossa sempre retornarmos ao passado.

E esse retorno não responde apenas pelo zelo que devemos aos que não estão mais entre nós. É, sobretudo, um exercício de tornar presente o vivido para que esse presente se constitua da maneira mais coerente possível. Isto é, não está em questão repetir o passado ou lembrar dos mortos como uma dívida para com eles e uma alternativa de expiá-los dos erros cometidos. Esta última alternativa, aliás, se fosse o caso de tomá-la, entraríamos em total contradição com o pensamento crítico e coerente do escritor porque trata-se de uma ideia irrigada pela condição comum do Cristianismo. E, é preciso notar, mesmo que já tenha sido notado, que uma das tarefas do pensamento e da literatura saramaguiana foi sempre a de romper com esses lugares comuns sedimentados por certas particularidades da compreensão ocidental, tal como observou, acertadamente Miguel Real no ensaio “José Saramago ou a literatura como fundadora da palavra” (1999).

O que está em questão, nesse compromisso entre vivos e mortos, é uma relação de memória. O homem e toda a existência são condicionados por uma rede de memória. Ela nos diz quem fomos, quem somos e estabelece leis para o que poderemos nos tornar. O apagamento da memória, como quer os atuais modelos de vida fornecidos pela sociedade do capital, por exemplo, é um grave perigo contra a civilização, assim como é a fresta principal pela qual se espreita a barbárie.

Pouco antes da sua morte em março desse ano, Imre Kertész lamentava a morte de toda uma geração que, como ele, havia padecido os horrores do nazismo na Europa e como esse fim coincidia com o avivamento dessa sombra naquele continente. No Brasil, para citar outro exemplo, não é com tranquilidade que os sãos assistem desde há dois anos o levante de uma diversidade de movimentos cujas ideias são as mais retrógradas possíveis porque atentam abertamente contra as relações humanas: seja o endeusamento da ditadura militar, da castração química para gays, da revalidação das escolas e das universidades como zonas de formação técnica totalmente desprovida da capacidade crítica, cidadã e de intervenção política na sociedade, entre outros barbarismos. O esquecimento, o descaso com o passado – que é também um descaso com a voz do outro – são perigosos no instante em que desvia o homem da sua condição para a condição de objeto destituído de sensibilidades; o levante do homem tornado coisa entre coisas, para dialogar com um conto de José Saramago (“Coisas”, de Objecto quase) muito atual sobre isso que agora falamos.

É em nome das memórias daqueles que dedicaram suas vidas ao exercício libertador das consciências, um exercício que os irmanaram com homens como José Saramago, que esta edição da REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS fala. Por isso, é simbólica a presença, outra vez, da voz de Cláudio Capuano (em memória) a quem soma a presença (de igual maneira) da professora Lílian Lopondo. A eles, um coro de outros leitores, que presentificam com suas incursões uma obra tão necessária para esses dias escusos – e sempre necessária, porque nos é um constante chamado à condição humana que há muito tem nos escapado. Por isso, também um editorial que é quase a reescrita daquilo que foi escrito na edição anterior deste periódico. Não é possível tomar isso como mera repetição, porque não é. Cada itinerário por mais que siga o mesmo itinerário já percorrido é outro e não o mesmo. Que o diga aquele senhor da Conservatória do Registo Geral. Que o diga essa necessidade de não apagamento da memória ou sua substituição por uma falsa possibilidade.

Equipe editorial


SUMÁRIO

“Vem de que o poema?” Considerações sobre a poesia de José Saramago
SANDRA FERREIRA

1936, o ano da morte de Ricardo Reis
IZABEL MARGATO

Vozes femininas no teatro de José Saramago
CLÁUDIO DE SÁ CAPUANO

O sujeito e a contradição em O evangelho segundo Jesus Cristo de José Saramago
KARINA LUIZA DE FREITAS ASSUNÇÃO

A remissão do Diabo: de vilão a mocinho em O evangelho segundo Jesus Cristo
JESSICA VALDATI
JOSIELE KAMINSKI CORSO OZELAME

Um capítulo para o Evangelho
JOSÉ SARAMAGO

Da alegoria em José Saramago: considerações acerca da obra O conto da ilha desconhecida
JULIANE DE SOUSA ELESBÃO

Alegoria das sombras ou a luz da criação
IRLANDA VILLEGAS

O proselitismo em questão: o processo de reconhecimento em A jangada de pedra
LÍLIAN LOPONDO

Humilhados e ofendidos: novo percurso temático em Todos os nomes
AURORA GEDRA RUIZ ALVAREZ

O poder da individualidade em Ensaio sobre a lucidez de José Saramago
IVANNIA BARBOZA LEITÓN


* Os textos estão em formato PDF"


sábado, 13 de agosto de 2016

"30 anos a rever as palavras de Saramago" - Rita Pais, revisora da obra de José Saramago

Muito mais que revisora das obras de José Saramago.
Com este propósito recolho algumas palavras que constam na obra de João Céu e Silva - "Uma longa viagem com José Saramago" (2009, Porto Editora), e que complementam ou introduzem a entrevista que recupero.

"E por falar deste assunto de gralhas e revisões chegou o dia combinado em que se foi à sede da Fundação José Saramago para escutar de viva voz o relato da colaboração entre o escritor e a pessoa que tratou de quase toda a sua obra - e que aguarda pelo próximo livro para preparar o original antes da impressão. Chama-se Rita Pais (n. 1952) e acha que teve sorte ao caber-lhe esta tarefa numa altura em que terminara a faculdade e conseguiu emprego na Editorial Caminho, onde José Saramago tinha entregado a peça A Noite para publicar. Depois de uma passagem breve por vários sectores da empresa, acompanhou de uma forma incipiente — «ele também estava a começar, apesar de ser um autor já conhecido mas ainda sem a projecção que viria a ter» — essa edição, o primeiro trabalho com que teve contacto. Depois, veio o romance Levantado do Chão mas como nesse ano estava também a dar aulas já só teve contacto com a obra numa fase de quase publicação. Depois desse romance, recorda, «não me lembro de ter ficado por passar os olhos por nenhum». Quando se lhe pergunta se José Saramago aceitava bem as suas sugestões, a resposta é que sim e «muito bem. É óbvio que as sugestões que eu lhe poderia fazer nunca seriam de fundo mas acontece com qual-quer autor ter uma repetição, haver um facto que foi já mais ou menos falado ou aflorado, uma personagem que tem o nome trocado» mas, ressalva, «quanto a erros de ortografia nem pensar, ele não dá», nem se lembra de ter encontrado um erro: «às vezes há algumas pequenas divergências porque, por exemplo, ele usa por sistema a forma arrepiar, que é perfeitamente legítima, e os leitores comentavam esse facto mas, digamos, é uma particularidade de escrita que o autor tem»." 
(Páginas 166 e 167)

"Rita Pais lembra-se de muitas histórias de uma relação em que começou jovem a rever os textos de José Saramago e na qual ainda, mesmo já não estando na Editorial Caminho, é a responsável pela preparação dos seus originais. Pelo meio destas três décadas existem muitas datas que a marcaram mas há uma que nunca esquece, a do anúncio do Prémio Nobel. Como já tinha estado quase tantas vezes perto de o ganhar «já nem ligávamos mas naquele dia estava na Caminho, tinha o rádio ligado, e lembro-me bem de quando se ouviu a notícia. Não sei explicar o que senti, ficámos paralisados por uns momentos e depois foi uma explosão dentro de nós. A seguir, os telefones não paravam, eram os jornais, as rádios, as televisões, do estrangeiro, até parecia que pela primeira vez na vida havia José Saramago! Pensei: E agora? Como é que vai ser isto com um Nobel? Agora vai ser muito mais complicado... Mas não, era a mesma a tranquilidade, a mesma disponibilidade, a mesma generosidade, nenhuma alteração». Quanto a livros preferidos, Rita Pais começa por destacar uma das suas epígrafes — «Se podes olhar vê, se podes ver repara» — só depois escolhe O Evangelho Segundo Jesus Cristo porque «é uma pintura, que não tem nada a ver com o religioso. É um livro que ultrapassa qualquer visão dos dogmas do cristianismo, dos evangelhos apócrifos. Não vou dizer que é o livro mais bem escrito, que é aquele em que as qualidades literárias mais sobressaem mas leio-o como se estivesse a descodificar um quadro e foi sempre aquele que mais me comoveu em termos de generosidade, de humanidade e quase de decifração do que é o ser humano»."
Página 172 

A obra mencionada de João Céu e Silva, e que aconselho vivamente a sua leitura, remete para as páginas 166 a 172, preciosos dados e momentos vividos ao longo dos tempos entre José Saramago e Rita Pais.





A presente entrevista é recuperada e pode ser consultada, em duas partes, aqui

"30 anos a rever as palavras de Saramago"
16 de novembro de 2012

Rita Pais foi a revisora dos livros de José Saramago durante cerca de 30 anos, na Editorial Caminho. Desde há cinco anos integra a equipa da Fundação José Saramago, após o convite que lhe foi estendido por José Saramago e Pilar del Río. As suas funções na instituição são diversas, mas trabalha principalmente no serviço educativo, que começou a funcionar neste outono. Também faz ocasionalmente algumas visitas acompanhadas e constata que o que os visitantes da fundação procuram é «algo físico, algo que represente o autor». «Quando digo às pessoas que já tenho 30 anos de trabalho com Saramago, olham para mim como se fosse um dinossauro [risos]. Desperta um interesse e uma curiosidade normais. Quando veem a Pilar, é ainda outra reação, mas quando as pessoas me veem, nota-se que há uma necessidade do tato, das histórias, até para entender melhor o escritor, que não era uma figura de ficção, era uma pessoa normal.» E é nessa acentuação do lado humano de uma pessoa que se desmistifica o autor.

O contacto com o público é uma novidade para Rita Pais, mas é algo que a satisfaz. «É muito gratificante para todos nós. Que eu tenha dado conta, ninguém tem saído triste ou dececionado da fundação. Há sempre muitos sorrisos, muitas lágrimas, muita emoção», afirma. Conta-nos que Saramago mantinha uma relação muito bonita com os seus leitores. «Aquela afabilidade, aquela palavra certa para cada um foi uma das coisas que me marcaram. Um dos atos poéticos a que assisti anos a fio foi de facto esse contacto com o público. Horas e horas em que aquela palavra amável, simpática, não parava», recorda.

Sente falta de ser revisora? Responde afirmativamente. «Ainda hoje recorro muito frequentemente ao dicionário em papel.» E vê como um privilégio o contacto que teve com alguns autores portugueses de várias gerações e as suas respetivas obras, que lhe passaram pelas mãos. «A Caminho tinha um catálogo de autores de eleição, e tive oportunidade, através do meu trabalho, de conhecer a literatura africana, por exemplo. Foi uma aprendizagem inestimável.»

Mas mudar de trabalho, ainda que para a fundação, não foi fácil. «Foi uma mudança difícil. Não é fácil mudar após 30 anos», confessa, sobre a saída da Caminho e o início do seu trabalho na fundação. «Para nós isto não é um emprego vulgar, é uma causa de amor.»

E trabalhar na instituição foi uma forma de manter a ligação ao autor e à sua obra, que tão bem conhece. «Foi uma forma de continuar ligada a José Saramago. A editora foi vendida, e eu ia começar do zero. Foi nessa altura que a Fundação José Saramago foi criada e, por um conjunto de coincidências, surgiu o convite. “Quero que venhas trabalhar para a Fundação Saramago”, disse-me ele. “Tens 20 minutos para pensar, e depois eu passo cá”», conta entre risos. «Fiquei emocionada. Disse sim, de imediato, mesmo sem saber o que era uma fundação.»

«Os revisores são como os guarda-redes»

Ficou bastante surpreendida ao ver o seu nome no texto de História do Cerco de Lisboa. «Isso foi uma surpresa. Nessa altura Saramago ainda estava em Portugal e às vezes passava pela editora. Um dia disse que tinha uma ideia para um livro novo que envolvia editores. Algum tempo mais tarde, quando já tinha uma estrutura, disse-lhe: “Ó José, francamente, toda a gente fala dos editores, mas ninguém menciona os desgraçados dos revisores, que aturamos tantas coisas. [Os revisores] são como os guarda-redes, ninguém fala deles, só quando deixam entrar golos.” Ele ficou um pouco pensativo e, passado algum tempo, disse que tinha mudado um pouco o curso da história.»

«Depois veio o original, eu comecei a ler e fiquei deslumbrada, não só porque lá estava um revisor, mas não fazia ideia de que iria incluir o meu nome», declara. «Na última fase do livro, faltava um caderno, que não me chegava às mãos. O editor, o senhor Coelho, dizia-me para não me preocupar com isso. Quando finalmente o livro saiu, Saramago apareceu com um exemplar na editora e disse-me para abrir o livro em determinada página e ler. Comecei a ler em voz alta e li o meu nome. Continuei a ler, mas parei depois quando me dei conta de que o meu nome lá estava. Só me lembro de ter largado o livro, de me ter levantado e de lhe ter dado um abraço. E ele era tão alto, e eu, tão baixinha… Dei-lhe um abraço daqueles que não se esquecem a vida inteira. Não sei se muitos autores teriam feito o que ele fez, lembrarem-se de uma revisora. Quando o livro saiu, creio que ele mencionou essa homenagem, e eu sinto-me privilegiada por o ter conhecido. Por ter tido essa dádiva de conviver com um autor dessa craveira. Foi uma atitude tão generosa, tão altruísta.»

«Já tive perdas de familiares, mas, a seguir ao meu pai, [o falecimento de José Saramago] foi a perda que mais senti. Fica uma grande saudade. Foi uma pessoa que ocupou um papel muito importante na minha vida, com quem aprendi muito sobre literatura.»

Leia aqui a segunda parte.

"30 anos a rever as palavras de Saramago – parte II"
16 de novembro de 2012

O primeiro contacto com Saramago

«Lembro-me perfeitamente da primeira vez que o conheci. Estava no gabinete do diretor editorial, e ele disse-me que ia chegar um livro novo. De repente, disse: “Aí está o autor.” Levantei-me, e Saramago, com toda a naturalidade do mundo, disse: “Ah, esta é que é a Rita?”»

Começou a rever as obras de Saramago estava há pouco tempo na Editorial Caminho. «Entrei na empresa em 1976 e cerca de um ano e meio depois, em 1978, entrou Saramago. Os primeiros contactos foram feitos pelo editor, claro, mas percebi a certa altura que ele e outros autores começaram a ter confiança em mim, entrei com facilidade na escrita dele, e talvez por isso nos tenhamos aproximado. Criou-se uma empatia entre os dois.» Houve discordâncias? «Não eram propriamente discordâncias. Havia momentos em que propunha alterações. Nunca houve respostas ríspidas. Saramago dizia que ia pensar. Nunca nos zangámos. Ele nem sequer dava muito trabalho.» Nos seus últimos livros, admite que «recorria a uns certos castelhanismos, tinha tendência a usar pequenas expressões castelhanas.» Mas nada muito difícil de resolver.


Nunca lhe aconteceu sugerir melhoramentos além dos linguísticos. «Ele era perfeito. Às vezes era necessário ajustar concordâncias verbais e procurava as redundâncias. Enquanto pudemos, fizemos a revisão juntos, ou via telefone. Era fácil reconhecer o que ele queria e o que não queria. Num episódio do Memorial do Convento, assinalei a palavra «tissu» e coloquei um ponto de interrogação. Um dia ele chega, senta-se à frente da secretária e diz: «Então vamos lá ver esse tissu [risos].»

Um autor universal

«Embora dissesse que não sabia escrever para crianças, sabia ir ao encontro de todos os leitores.» Contudo, só se apercebeu da dimensão além-fronteiras do autor depois de ter começado a trabalhar na fundação. «Só tive noção da projeção internacional de José Saramago depois de ter vindo para a fundação. Pessoas de todas as partes do mundo contactam-nos. A minha perspetiva mudou. Na editora tinha uma perspetiva que se centrava na palavra, e de repente a palavra traduziu-se em 54 línguas.»

O seu trabalho foca-se agora na preservação desse legado universal do autor. «Fazemos tudo ao nosso alcance para preservar a sua memória, a sua obra», declara. Um trabalho que, como outro qualquer, tem dias menos fáceis, mas que a satisfaz. «Chegar aqui e olhar para a oliveira numa manhã difícil melhora o nosso dia», afirma, não sem relembrar que 30 anos deixam as suas marcas: «É uma vida de muita saudade. Dele e do meu trabalho.»

«… na parede o quadro de registo onde, podia vê-lo, se lia o seu nome,  na linha superior, e por baixo os nomes dos outros revisores que trabalhavam em casa, tendo, todos eles, no quadriculado adiante, indicações abreviadas de títulos de obras, datas, sinais coloridos, um organigrama simples, uma espécie de mapa da cidade dos revisores, não mais que seis. Podemos imaginá-los, cada um em sua casa, no Castelo, nas Avenidas Novas, talvez em Almada ou na Amadora, ou Campo de Ourique, na Graça, debruçados para as provas de um livro, lendo e emendando, e a doutora Maria Sara pensando neles, alterando uma data, trocando um verde por um azul, daqui a pouco tempo nem dará importância aos nomes, serão para ela um mero traçado gráfico que lhe suscitará ideias, associações, reflexos, por enquanto cada um destes nomes representa ainda uma informação a assimilar, Raimundo Silva primeiro, depois Carlos Fonseca, Albertina Santos, Mário Rodrigues, Rita Pais, Rodolfo Xavier…»

[História do Cerco de Lisboa. Lisboa: Editorial Caminho, 2006, pp. 168-169 (7.ª edição)]

"Pilar del Río diz estar no Brasil por ‘dever cívico’" - Entrevista por ocasião da visita à FLIP em Paraty (01/07/2016)

Em Paraty pela primeira vez, viúva de Saramago prepara edição ilustrada por J. Borges

SC - EXCLUSIVO - PARATY RJ - FLIP 2016 - 01/07/2016 - Pilar del Río na Casa Cais. 
Foto: Barbara Lopes | Agencia O Globo - Agência O Globo

Recuperação da entrevista concedida ao "O Globo", aqui 
em http://oglobo.globo.com/cultura/livros/pilar-del-rio-diz-estar-no-brasil-por-dever-civico-19631863

PARATY - Pilar del Río, “que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”, como escreveu certa vez numa dedicatória o português José Saramago (1922-2010), seu marido nos últimos 22 anos de vida, tardou a chegar, é bem verdade, não só à vida do escritor, como à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Apesar dos inúmeros convites da organização do evento e da homenagem da festa feita ao escritor no ano da sua morte, em 2010, a jornalista e “presidenta” da Fundação Saramago nunca havia conseguido ir a Paraty. Esta é a primeira vez, e Pilar participa da programação da Casa Cais, que neste ano funciona como uma embaixada afetiva da língua portuguesa na cidade, idealizada e dirigida pela compositora Luana Carvalho.

Com a participação de nomes como o escritor angolano José Eduardo Agualusa, o artista plástico e escritor brasileiro Nuno Ramos, o escritor e professor de Letras da PUC-Rio Fred Coelho, o cineasta português Miguel Gonçalves Mendes e os cantores Marina Lima e Pedro Luís, o espaço vai abrigar debates e apresentações gratuitas até amanhã. Pilar conversa hoje com a jornalista portuguesa Anabela Mota Ribeiro, às 15h30m, e depois exibe o filme “José e Pilar”, de Gonçalves Mendes.

Ao GLOBO, Pilar conta que está envolvida num projeto especial: um grande encontro, póstumo e inédito, “entre os dois Josés”, Saramago e o artista brasileiro José Francisco Borges. Ideia de um editor argentino radicado em Barcelona, Alejandro García Schnetzer, a crônica fantástica “O lagarto”, escrita por Saramago em 1972 (texto em que o autor vislumbra uma flor vermelha caída no Chiado, e a Revolução dos Cravos só aconteceria em Portugal dois anos depois), ganhou xilogravuras exclusivas do artista pernambucano, que, aos 81 anos, abriu uma exceção para fazer esse trabalho, “que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”.

É a sua primeira vez na Flip, apesar de convites e homenagens em edições anteriores. Por que vir só agora?
Este é um ano muito particular. Vir ao Brasil, estar com pessoas que respeito e que não querem retroceder em direitos adquiridos, na educação, na cultura, nos valores partilhados, na liberdade, em suma, considero-o um dever cívico. Uma festa de cultura não pode viver arredada da realidade. Luana Carvalho e a Casa Cais convidaram-me a participar, e decidi aceitar. Será uma ocasião para voltar a falar de José Saramago e da necessidade que temos de continuar a ler os seus livros.

De que forma é possível aproximar ainda mais as literaturas de Portugal e Brasil? Apesar de compartilharem a língua, por que ainda há muitas lacunas de conhecimento entre ambas?
Os cidadãos, os leitores, nós, somos aqueles que aproximam as duas culturas, literaturas, formas de lidar com o idioma. É obrigação dos estados mostrar o que se vai fazendo, abrir as portas. Mas as pontes são construídas por nós, peça a peça, livro a livro, palavra a palavra. Lacunas... Muitas vezes devem-se a processos empresariais, editoriais, mais do que tudo.

A aproximação Brasil-Portugal permite uma infinidade de livros. Como “O lagarto”, que refresca a crônica de José Saramago com xilogravuras exclusivas de J. Borges. Como surgiu a ideia do livro?
Surgiu por proposta de um editor argentino, que vive há muitos anos em Barcelona, Alejandro García Schnetzer, que já havia feito um livro com um texto de Saramago e ilustrações de Manuel Estrada chamado “O silêncio da água”. A ideia foi pegar um texto publicado anteriormente, que tivesse autonomia e que permitisse ser ilustrado. Ficamos muito contentes com a resposta positiva do J. Borges, que abriu uma exceção e aceitou ilustrar esse texto de José Saramago, e pensamos que é um diálogo muito enriquecedor o que se estabeleceu entre os dois “Josés”.

Quando deve ser publicado no Brasil?
Não consigo adiantar uma data para já, isso depende da Companhia das Letras, editora que publica a obra de José Saramago deste lado do Atlântico, mas pensamos que será muito em breve. Em Portugal, haverá uma exposição com as xilogravuras em Óbidos. A apresentação mundial será feita no contexto do Folio, o festival literário de Óbidos, em setembro. Aparecerá então uma primeira edição do livro, que sairá em várias línguas nos próximos meses.

O que há de especial nesse texto?
É um texto publicado em 1972 no livro “A bagagem do viajante”, que pode ser lido por jovens e adultos e que, tal como outros textos de José Saramago, encontra ainda hoje, mais de 40 anos depois da sua publicação, novas leituras atuais. Tal como, por exemplo, em “A maior flor do mundo”, trata-se de um José Saramago que não faz concessões facilitistas e cria um texto em que dialoga com o universo dos contos de fadas, com o fantástico, a partir da história de um lagarto que passeia pelas ruas do Chiado, em Lisboa.

O que a senhora gostaria de fazer em Paraty: tem alguma mesa de debates em que está especialmente interessada, algum autor que queira conhecer, algum passeio que queira fazer?
A minha vontade é ser apanhada pela surpresa. O que implica o risco de não gostar. Ou seja, mais do que procurar os autores que gosto de ler, procurarei aqueles que ainda não li ou cujo pensamento conheço menos bem. Mas confesso que tenho uma especial curiosidade em relação às vozes femininas, tantas vezes esquecidas, descuradas... Além de imergir na poesia da homenageada deste ano (Ana Cristina Cesar), quero sentir a força de mulheres não recatadas, que fazem do mundo inteiro o seu lar, na cultura e na sociedade.

“Saramago dizia que o primeiro Nobel em português deveria ser para Jorge Amado”


Pilar del Río, presidenta da Fundação Saramago. EDUARDO ZAPPIA

A entrevista pode ser recuperada e consultada, aqui

El País Brasil - de María Martín (9/7/2016)

Pilar del Río não tem papas na língua. Fala com os olhos cravados no interlocutor e tem resposta para quase tudo, ainda mais se o assunto é machismo, religião ou política. A viúva de José Saramago, único Prêmio Nobel de Literatura em português, e presidenta da Fundação que leva o nome dele, participou da programação alternativa da última edição da Flip, em Paraty, e defendeu sua causa mais recente: a Declaração dos Deveres Humanos.

O projeto nasceu do discurso de Saramago, que ao receber o Nobel em 1998 denunciou a falta de cumprimento dos direitos humanos, já passado meio século de sua declaração. Del Río, com a Universidade Autônoma do México e um bom número de juristas e ativistas, está por trás da elaboração do documento que pretende levar à ONU, mas, “sobretudo, às pessoas”.

Em sua enésima viagem ao Brasil --não sabe quantas foram suas visitas, mas já encontra pessoas conhecidas pela rua--, Del Río fez escala no Rio de Janeiro. Tentaram assaltá-la duas vezes na porta de seu hotel em Copacabana, onde recebe EL PAÍS. Com 66 anos e um corpo miúdo, Del Río se livrou do ladrão.

Pergunta: Foi sua primeira vez na Flip. Que impressão teve da edição deste ano?
Resposta: Fui convidada pela Casa Cais e Luana Carvalho [filha de Beth Carvalho]. Não era convidada oficial. Achei maravilhoso que houvesse instituições privadas, como esta Casa Cais, para promover a cultura fora do programa oficial. Um dos pontos fortes foram os humoristas porque partiram de que o humor é revolucionário e contesta as religiões, que nos querem tristes e amedrontados, enquanto o humor nos torna livres e desinibidos. Achei magnífico que se convocassem pessoas grandes e minha admiração total e profunda foi pela Prêmio Nobel deste ano [a bielorrussa Svetlana Alexievich], com quem tive um encontro breve, mas emocionante.

P. A Flip deste ano esteve carregada de reivindicações relativas à atualidade política do país. Que impressão você levou do momento que o Brasil vive?
R. O Brasil não é a Flip. A Flip é uma elite e a elite cultural não está com este Governo. Isso é óbvio. A elite cultural deste país, como não podia ser de outra maneira, se manifesta a favor da igualdade do homem e da mulher, a favor do casamento homossexual, da liberdade para abortar. O Brasil é um país que necessita de muito mais tempo de um governo de esquerda porque as desigualdades continuam sendo muito grandes. Acredito que o PT, com todos os desacertos, é o Governo que fez mais pela imensa maioria deste país, inclusive pelos que não votam nele. De números fizeram cidadãos.

P. José Saramago foi o único Prêmio Nobel em língua portuguesa, enquanto em castelhano há mais de uma dezena. Por que a literatura brasileira não tem tanto alcance como sua música?
R. É difícil responder. Talvez porque as editoras não tenham sido suficientemente atrevidas para lançar campanhas, faltou trabalho conjunto. As ditaduras, por um lado, a do Brasil, por outro, a de Portugal, foram más com seus autores. Evitou-se que houvesse orgulho da literatura. A música era mais difícil de ocultar. As multinacionais foram muito mais inteligentes e fortes que as editoras locais. A música brasileira é que nos salvou da mediocridade. José Saramago dizia que o primeiro Prêmio Nobel de Literatura em português teria de ser para Jorge Amado. Os dois fizeram um pacto: compartilhar o prêmio. O que acontece é que quando deram o prêmio a José, Jorge Amado estava muito mal e não pôde ir.

P. Você é ateia, comunista, feminista e de esquerda. Como seria para você viver no Brasil?
R. Viver no Brasil com estas ideias não deve ser fácil. No caso de gente extraordinária que amo, como Chico Buarque, temos visto o quanto se tornou difícil para ele. Imagino que seria uma ativista e teria muitíssimos problemas porque estaria pedindo direitos para pessoas que renunciam a eles. O problema é que estão fazendo dos homens escravos. Homens que em vez de reivindicar melhorias para sua vida estão esperando morrer para que Deus lhes dê sopa quente todos os dias. O poder das igrejas evangélicas vai fazer esta sociedade retroceder muito. As pessoas não vão filiar-se a partidos, a sindicatos, vão confiar em que Deus lhes resolva os problemas.

P. O PT foi um dos responsáveis por permitir que partidos evangélicos se infiltrem no poder. Não só pactuou com eles, como também evitou entrar em reformas importantes, como a do aborto, que confrontam os interesses moralistas.
R. Se há algo que não perdoo ao PT foi precisamente pactuar não com quem votou nele em razão de seu programa, mas com os outros. Não ter imposto leis para garantir a laicidade do Estado. Ser gay não é obrigatório, abortar não é obrigatório, mas deveriam ter defendido a liberdade de quem quer fazer isso.

P. Uma vez você comentou que se sentia agredida se sentia que alguém te desejava sem ser algo mútuo. No Brasil está crescendo um forte movimento feminista, que começou contra as cantadas na rua e continua com a luta contra a cultura do estupro.
R. É impossível explicar a um homem que não queremos que nos chame de bonita se ele abre um jornal e encontra uma mulher nua para vender um carro. Não quero que me olhem com cobiça, com descaramento, mas estou disposta a dividir todo o tipo de sorrisos, de olhares. Agora, não permito que me violem. E a primeira violação é que não me chamem por meu nome, que não reconheçam minha função. Se queremos enfrentar essa questão horrível da cultura do estupro alguém tem que dar o primeiro passo e creio que deveriam ser os meios de comunicação.

P. O caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro revelou que não é um episódio isolado em pleno século XXI. Não parece forte para você esse choque de realidade?
R. O pior é que a sociedade se sinta chocada em um dia e não sejam tomadas medidas no dia seguinte. Houve alguma proposta corretiva na legislação na educação, nos livros escolares, nos meios de comunicação?

P. Qual é a sua relação com a saudade?
R. Procuro não tê-la. Estou tão plena do presente que é preciso administrar e do futuro que é preciso mudar que não tenho tempo para isso.

P. Acredita que seja incompatível um governo de centro-direita, de ideias liberais, que combata a desigualdade?
R. É incompatível com a igualdade um Governo como o atual que faz as declarações que faz. Por um lado, responde não a critérios liberais, pelo amor de Deus!, mas a critérios econômicos em benefício próprio , por outro, está dominado pelo obscurantismo da religião.

P. Por que obscurantismo?
R. Ouvi as declarações dos deputados que apoiam e sustentam o Governo. São pessoas que estão dispostas a abdicar do máximo que um ser humano tem, que é a razão, em função do dogma. É voltar à inquisição.

P. O que achou do processo e da forma como se destituiu Dilma Rousseff e do Governo Temer? Como você explicaria a situação a alguém que não esteja familiarizado com o Brasil?
R. No Brasil houve um governo de esquerda que fez projetos muito interessantes, mas com atitudes inadmissíveis e que causaram muitos danos à causa, com comportamentos individuais, mas não me esqueço dos diferentes programas sociais que estão em andamento. Não podemos nos esquecer disso, embora reconheçamos os casos de corrupção. Não vejo Dilma como uma corrupta. A corrupção tem muitos anos no Brasil. O que acredito é que ela abriu a caixa de Pandora e nesse dia assinou sua liquidação. Lamentavelmente algumas pessoas de seu partido que deveriam ter se colocado na primeira fila não fizeram isso.

P. A quem você se refere?
R. A algumas pessoas que passaram por diferentes governos e que estavam limpas e, provavelmente, Lula. Lula tinha que ter sido muitíssimo mais corajoso e muitíssimo mais claro. E não aparecer à última hora, quando não se sabia se era para salvar ou para salvar-se. Dilma foi durante o processo vítima do machismo e de uma sociedade patriarcal, e não consigo entender que uma das primeiras decisões de Temer fosse suprimir [da EBC] o feminino de presidente e que não haja ninguém que tenha protestado. São pequenas histórias, mas dão o tom.

P. Precisamente, você já deu uma boa bronca em um jornalista empenhado em te chamar de presidente [da Fundação José Saramago]. No Brasil até essa discussão acaba sendo política. Por que você acha importante reivindicar o termo presidenta?
R. Não podemos aceitar agora a masculinização. Nenhum dos altos cargos do mundo está feminizado: no sínodo dos bispos são todos homens, o Papa é homem, os cardeais são homens, na Espanha, na monarquia, o rei é o terceiro na linha de sucessão porque as mulheres não podiam ser rainhas... O poder não quer feminizar-se porque considera que eles perderão privilégios.

José Saramago e Azio Corghi no "Mil Folhas" do jornal Público (Março de 2006)

O presente artigo pode ser recuperado e consultado, aqui
em http://josesaramago.blogspot.pt/2006/03/jos-saramago-e-azio-corghi-no-mil.html

O suplemento "Mil Folhas", editado hoje com o jornal Público, publica um artigo sobre a ópera O dissoluto absolvido, a qual estreia hoje à noite no Teatro Nacional de São Carlos. Pela sua manisfesta relevância didáctica, aqui fica transcrito o texto de Cristina Fernandes:

"D. Giovanni: "Absolvido, mas por quanto tempo?"

O próximo espectáculo da temporada lírica do Teatro Nacional de São Carlos (com estreia marcada para hoje, às 20h, e repetições nos dias 20, 22, 24 e 26) propõe três obras curtas em um acto, obras que de diferentes maneiras se manifestam em ruptura com as convenções ou os códigos instituídos: "Erwartung" (Espera), de Schoenberg; "Sancta Susanna", de Hindemith (estreia em Portugal); e "Don Giovanni, Il Dissoluto Assolto" (O Dissoluto Absolvido), com libreto do escritor José Saramago e música de Azio Corghi (n. 1937), que terá a sua estreia mundial nesta ocasião. A direcção musical será de Marko Letonja e a encenação de Andrea De Rosa.
Depois de "Blimunda", baseada no "Memorial do Convento", e de "Divara-Água e Sangue", a partir do drama teatral "In Nomine Dei", Don Giovanni constitui a terceira colaboração entre o compositor italiano e o escritor português no domínio do teatro musical, com a particularidade de Saramago ter escrito desta vez um libreto de raiz. Corghi apenas adaptou alguns detalhes no momento de dar "voz musical" ao libreto.
A edição da Editorial Caminho do texto original de Saramago é acompanhada por um interessantíssimo texto de Graziella Seminara que relata com grande detalhe a forma como os dois autores foram construindo e discutindo a obra através de uma intensa troca de "emails". Saramago parte de Da Ponte para fazer uma releitura pessoal do mito que transforma o sedutor em seduzido e que lhe retira a conclusão moralista e a punição por uma entidade sobrenatural. A punição do libertino chega pelas mãos de D. Elvira, D. Ana e D. Otávio que se unem para lhe causar a humilhação maior negando as suas conquistas e a sua virilidade, que o famoso catálogo (trocado às escondidas por um livro em branco por D. Elvira) não mais poderá testemunhar...
"Era certo que sempre havia pensado que D. Giovanni não podia ser tão mau como o andavam a pintar desde Tirso de Molina, nem Dona Ana e Dona Elvira tão inocentes criaturas, sem falar do Comendador, puro retrato de uma honra social ofendida, nem de um Don Otavio, que mal consegue disfarçar a covardia sob as maviosas tiradas que no texto de Lorenzo da Ponte vai debitando", escreve o escritor José Saramago no prefácio desta obra teatral.
Don Giovanni aceita corajosamente a punição que lhe é proposta por um comendador preso numa estrutura gerida por convenções, não procurando salvaguardar-se hipocritamente num perdão corruptor da sua responsabilidade ética. Será salvo por Zerlina, parecendo despertar para uma nova existência assinalada também simbolicamente pelo catálogo que Leporello queima na lareira. Mas a dúvida fica no ar, colocada pelo enigmático manequim de D. Elvira: "Absolvido, mas por quanto tempo?"
A ópera, encomendada pelo Teatro alla Scala de Milão para figurar num programa com "Sancta Susanna", de Hindemith, esteve para ser estreada em Milão no ano passado mas o período conturbado vivido pelo prestigiado teatro italiano há cerca de um ano, que levou à demissão de Muti e a várias greves dos músicos, fez com que a estreia mundial transitasse para Lisboa.

A dupla Corghi e Saramago

Azio Corghi já escreveu sete obras musicais sobre textos de Saramago, sendo esta a terceira colaboração no campo da ópera. Para o compositor italiano a literatura é uma grande fonte de inspiração quando se trata de encontrar temas teatrais. O que mais o fascina em Saramago, "um homem que denuncia as injustiças do mundo mas que tem uma grande sede de viver", é o facto de cada obra literária do escritor português conter tudo lá dentro: "romance, poesia, teatro, música!", disse Corghi ao PÚBLICO.
A música começou a ser composta antes de o libreto estar completamente pronto, mas foi sendo ajustada em função das longas conversas que os dois autores iam tendo por "email", ditando o texto vários dos procedimentos musicais. "O próprio Saramago partiu do texto de Da Ponte, por exemplo logo no Prólogo com D. Elvira e Leporello, introduzindo a famosa ária do catálogo. E no decurso da ópera cita várias vezes o texto de Da Ponte. Havia uma indicação clara para eu pegar na ária de Leporello, mas tratando-se de uma releitura da história, faço um trabalho de ironia através das citações."
Esta obra difere muito de "Blimunda" e "Divara" uma vez que se tratava de "histórias trágicas bastante mais densas". Para Corghi "o D. Giovanni reflecte uma outra ligeireza - uma certa elegância e "souplesse", que tentei também recuperar na música." Num processo inverso ao de "Divara" no "Dissoluto Absolvido" as personagens masculinas cantam e as femininas falam: "Não se trata de um "parlato" livre mas de um "parlato" rítmico escrito sobre a música. Do "parlato" passam ao "sprechgesang" ou mesmo ao canto", explicou o compositor. "Duas das actrizes também são cantoras e conseguem realizar muito bem este trabalho."
Cada personagem tem uma expressão musical própria, mas ao contrário do que fez Mozart, Corghi não se preocupa em caracterizar tipos sociais (aristocráticos ou populares). "As personagens são caracterizadas por timbres e temas musicais (alguns derivados de cantos populares italianos). Sempre trabalhei com citações musicais, com homenagens musicais onde se pode revisitar toda uma história. Para além dos temas populares usei temas da música clássica que são inseridos como provocação ou ironia. No início, quando o coro sussurra, cria uma espécie de vento, depois ouve-se o tema da ária da Calúnia de Rossini... Nesse momento chegam D. Ana, D. Elvira e D. Otavio que irão caluniar D. Giovanni, dizer que é impotente, que nunca conquistou nenhuma mulher."
Às citações musicais contrapõem-se situações de forte intensidade dinâmica e variedade tímbrica, favorecidas por uma orquestra imponente. Uma vez que o projecto nasceu por iniciativa do Teatro alla Scala de Milão e se destinava a um programa que também incluía "Sancta Susanna" Corghi optou por usar uma orquestra de grandes dimensões semelhante à que é usada por Hindemith. "Juntei-lhe ainda - não sei se por paixão se pelo facto de conhecer muito bem os instrumentistas da Orquestra do Teatro alla Scalla - uma grande secção de percussão que confere à obra um sabor muito rítmico, que também existe nos cantos populares. Diverti-me a procurar soluções orquestrais e tímbricas. Há também um trabalho de "espelhos" no tecido musical, que refletem a polirritmia, polimetria", continua o compositor italiano.
O coro masculino tem um papel importante como comentador da acção (à maneira da tragédia grega), mas também colocando perguntas e respostas. Permanecerá por detrás do palco até ao final da obra. As suas intervenções oscilam entre os jogos fonéticos e a clareza das palavras. Corghi refere que tanto "intervém como "venticello" [vento], quando acompanha o tema rossiniano da calúnia, murmurando e sussurando, como pode explodir nos momentos mais enfáticos das intervenções do Comendador." A ambiguidade dos seus comportamentos é jogada sobre a exclamação e a interrogação e no Intermezzo cantará "a cappella", a "berceuse" do tema de Zerlina.

Uma obra provocatória

Tal como Don Giovanni também "Sancta Susanna" na ópera de Hindemith recusa arrepender-se do seus desejos carnais, sofrendo o supremo castigo de ser emparedada viva. Baseada no drama homónimo de August Stramm, faz parte do conjunto das três primeiras óperas, de Paul Hindemith, todas em um acto, criadas no início dos anos 20: "Mörder, Hoffnung der Frauen" (1921), "Das Nusch-Nuschi" (1921) e "Sancta Susanna" (1922). Reflexo do estado de espírito que se sucede à bárbara carnificina da primeira Grande Guerra, as obras causaram escândalo por causa dos seus libretos que chocaram a moral burguesa pela forma explícita e, por vezes provocatória, como abordam a sexualidade.
"Erwartung", composta em dezassete dias nos finais de 1909 é uma das primeiras obras atonais de Schoenberg e um exemplo emblemático do Expressionismo. Trata-se de um monodrama em que uma mulher procura no meio de um bosque, com crescente e cada vez mais torturante ansiedade, o homem a quem apaixonadamente ama e pelo qual sente um implacável ciúme, encontrando-o por fim morto.
O maestro Marko Letonja considera que a ideia do director do Teatro Nacional de São Carlos, Paolo Pinamonti, de colocar a "Erwartung" de Schoeberg entre a ópera de Hindemith e a ópera de Corghi é muito pertinente. "Temos duas óperas do início do século XX e uma criação recente, sendo muito interessante encontrar os pontos de contacto e as divergências. Em Schoenberg e Hindemith o Expressionismo é abordado de dois pontos de vista completamente diferentes. Ambas as obras retratam uma intensa evolução das emoções e solicitam um canto muito expressivo, embora sem frases em "cantabile" no sentido clássico. Na composição de Corghi os homens cantam e as mulheres falam. No Schoenberg, uma mulher fala e canta. No Hindemith cantam todos. Mas o "sprechgesang" está presente nas três obras.", disse ao PÚBLICO o maestro.
A evolução psicológica das personagens nas obras de Hindemith e Schoenberg é um dos aspectos mais fascinantes mas também um dos maiores desafios da interpretação. "Uma coisa é o que se sente, outra é o que se pensa. Em "Erwartung" temos o bosque e o medo por um lado e por outro as recordações. Há muitas perguntas em aberto. A protagonista tinha morto ou não o marido? Schoenberg e Freud nunca se encontraram, mas é quase certo que Schoenberg estudou alguns dos seus casos de histeria. Na "Sancta Susana" Klementia conta um episódio que depois volta a acontecer. Trata-se de expressões visíveis mas também do desenvolvimento mental das personagens. Além das dificuldades de interpretação dramática há também grandes desafios técnicos", diz o maestro. Schoenberg escreveu "Erwartung" para um soprano dramático, mas a partitura tem muitas passagens na oitava baixa. "Estou muito contente por ter Brigitte Pinter a fazer o papel. É uma cantora como uma tessitura entre o meio-soprano e o soprano, um meio-soprano com agudos, portanto ideal. É um papel terrível, meia hora de música com três intervalos de uns 15 segundos para cantora! Supera a Isolda de Wagner em dificuldade."
Esta é a primeira obra de Corghi que Marko Letonja dirige mas a tarefa não foi difícil para ele porque "a partitura era muito clara", explica. "Era como se a música escrita me falasse. Pelo contrário em Schoenberg senti mais a necessidade de analisar o que ele escreveu antes e depois. "Erwartung" situa-se após o período da música pós-romântica e antes do dodecafonismo. Um dos pontos mais fascinantes da partitura é a polifonia. Há poucas linhas dobradas, a orquestra é tratada como uma enorme orquestra de câmara chegando a haver 15 linhas ao mesmo tempo que se cruzam.""

“A maior flor do mundo” livro recomendado para o 4.º ano - Plano Nacional de Leitura 2016 - Ilustração de Inês Oliveira

Capa da edição - Porto Editora

"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura 
obrigatória para os adultos? 
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há 
tanto tempo têm andado a ensinar?"

A informação pode ser recuperada e consultada, aqui

"A partir de setembro, A maior flor do mundo passa a integrar a coleção Educação Literária da Porto Editora que “reúne obras de leitura obrigatória e recomendada no Ensino Básico e Ensino Secundário e referenciadas no Plano Nacional de Leitura.”

O conto de José Saramago junta-se, assim, a O Gigante Egoísta e o Príncipe Feliz de Oscar Wilde, e à Seleção de Contos de Andersen, publicados nesta coleção para o 4º ano.

Esta nova edição é ilustrada por Inês Oliveira."

Lista de obras recomendadas para o 4.º ano


domingo, 7 de agosto de 2016

"Casa de José Saramago é boa pedida cultural nas Ilhas Canárias" de Luiza Sahd Colaboração para o UOL de Lanzarote (Ilhas Canárias)

Artigo de Luiza Sahd, para o UOL (Brasil) sobre a ligação de José Saramago e seu legado a Lanzarote, aqui 


"São raras as oportunidades de entrar em uma casa onde viveu algum grande artista sem que o ambiente tenha sido transformado para atender as necessidades estruturais de qualquer museu. A casa em que José Saramago viveu por 18 anos, onde escreveu seu "Ensaio sobre a Cegueira" e onde morreu serenamente em 2010 não só é aberta ao público como ainda é, de fato, uma casa.

O cenário escolhido pelo autor para morar é quase onírico: Lanzarote, nas Ilhas Canárias (Espanha), é parte de um arquipélago surpreendente não apenas por suas praias (algumas até de areia negra), como também por seus vulcões, montanhas, estradas cruzando mares de lava e vinícolas plantadas na pedra.

Quem visita a Casa José Saramago precisa consultar as horas em seu próprio relógio, pois todos eles marcam 16h em qualquer momento do ano. A homenagem se deve ao fato deste ter sido o horário em que Saramago conheceu a esposa, Pilar del Río, no dia 14 de junho de 1986.

As visitas são guiadas e feitas em diversos idiomas, incluindo o português. Quem mostra os detalhes do lar é Juan José, filho do primeiro casamento de Pilar. Na entrada, há uma oliveira -- xodó de Saramago --, que foi trazida de sua aldeia natal, Azinhaga (Portugal), em um voo comercial e entre as pernas do escritor.

A casa tem as paredes marcadas pelas paixões de Saramago: quadros pintados por artistas como os canários Joan Miquel Ramírez, Ildefonso Aguilar e César Manrique, retratos de Fernando Pessoa e Camões ainda com dois olhos e um tapete de pedra vulcânica da ilha. Também existem esculturas de diversas partes do mundo coletadas durante suas viagens e muitas fotografias de momentos marcantes, como a ocasião em que foi laureado com um Prêmio Nobel de Literatura, em 1998."

"Cadeira no jardim onde o escritor gostava de sentar para apreciar a ilha"
Fotografia de Luiza Sahd/UOL

"No jardim, a cadeira em que Saramago gostava de sentar para deixar as ideias fluírem permanece no mesmo lugar. Ainda é possível conferir a piscina onde o artista se exercitava nos fins de tarde. Do outro lado da rua, fica a biblioteca com seu acervo pessoal. Entre centenas de livros, muitos trazem dedicatórias comoventes de seus contemporâneos, como uma edição de "Cem Anos de Solidão" dedicada pelo amigo Gabriel García Marquez.

Ao fim da visita, há ainda o convite para beber o café português preferido de Saramago na cozinha onde aconteciam as animadas reuniões com figuras como Eduardo Galeano, Marisa Paredes, Pedro Almodóvar, Bernardo Bertolucci e Sebastião Salgado. Visita imperdível e inesquecível.

Casa de José Saramago
Quando: De segunda a sábado, das 10h às 14h (entrada permitida até às 13h30)
Onde: Calle Los Topes, 3, 35572, Tías
Mais informações: www.acasajosesaramago.com"

Crónica "Um regulamento a favor do fogo" em "As opiniões que o DL teve" (12 de Junho de 1972)

A presente crónica foi publicada faz 44 anos, escrita pelo punho de José Saramago. 
Enquando cronista na altura mostrava a sua preocupação e estranheza, hoje quando os rapazes da altura já são avós, recipero o carácter intemporal e a veracidade com que hoje nos deparamos nas consequências do desordenamento e falta de protecção da mancha florestal portuguesa. Isto obriga a uma preocupante reflexão - tal como ontem, hoje continuamos a ouvir falar de Oleiros e de povoações escondidas como Bogas de Baixo pelas piores razões. 
Rui Santos

"Um regulamento a favor do fogo" 12 de junho de 1972

"Com a chegada do verão, destes grandes calores que tornaram as matas e os pinhais inflamáveis como estopa, é certo e sabido que começam por esse país fora os incêndios. Devoram as encostas das serras, deixam-nas negras, despidas, terras de desolação onde, por muitos anos, se erguerão apenas os troncos queimados. Neste tempo se levantam inúmeras vozes a pedir proteção para o nosso património florestal, já de si tão escasso. A vulnerabilidade das nossas matas, se bem pensamos nela, é, a toda a hora, um convite à ruína total. Depois o tempo refresca, vem a chuva, adia-se a catástrofe para o ano. 
Na falta de um sistema de defesa eficiente, conta-se sempre com a dedicação e a ousadia das populações que, mal se ouve o sinal do fogo, correm montes e vales, gritando, ofegando, para irem atacar o incêndio, sem curarem de saber a quem pertencem as árvores que as chamas vão furiosamente destruindo. Acudir ao fogo é obrigação cívica a que ninguém foge, e não têm sido poucos os atos de grande coragem praticados nessas ocasiões, com total desinteresse, pois ninguém pensa em apresentar depois a fatura dos serviços prestados. Também não há veneras nem condecorações: estes episódios passam-se em serranias anónimas, longe das vistas da grande publicidade. 
Já os incêndios começaram a sua tarefa, e, lá para diante, não se passará um dia sem que o inferno lavre num ponto qualquer do País. E tudo será como de costume, e repetir-se-ão casos como este de que hoje falamos, acontecido numa povoação chamada Bogas de Baixo, próximo do Fundão. Ali, os sinos da igreja chamaram os habitantes ao combate. E foram todos, os novos e os velhos, as mulheres e as crianças. Fazia vento, e, como sempre acontece nessas circunstâncias, o fogo saltava do árvore em árvore, propagando-se pelas ramadas superiores, inutilizando os trabalhos no chão. Diante da ameaça cada vez maior, telefonou-se para povoações em redor e mais pessoas acorreram ao fogo, animando-se umas às outras, usando uma experiência já antiga, vinda de gerações. Por fim conseguiu-se travar o alastramento do incêndio. O desastre não foi total. 
E os bombeiros? Após algumas dificuldades de comunicação, e graças à intervenção de terceiras pessoas, foi possível chamar os da vila próxima. Também se recorreu aos serviços dos bombeiros de outra vila, a de Oleiros, mas o comandante destes disse que «não podia mandar deslocar os seus homens para concelho diferente, sem que o comandante dos bombeiros do concelho onde havia o sinistro os requisitasse». Segundo a fonte onde colhemos estas informações, o comandante de Oleiros mostrou-se «muito compreensivo», chegando a oferecer-se para um entendimento com o Fundão. Ficaram os combatentes Voluntários e paisanos à espera do que viesse, mas nada se conseguiu. Enquanto os pinheiros de Bogas de Cima ardiam, enquanto as gentes da terra se afadigavam a lutar por bens que só a poucos pertenciam, um artigo de regulamento impedia o auxílio que deveria poder ser dado por uma corporação de bombeiros, mas que não foi porque o concelho era outro... 
Estranhos casos se passam em Portugal! Muito mais estranhos ainda quando nos lembramos de que, durante a recente visita do presidente do Conselho a Castelo Branco, um dos mais brilhantes números dos festejos foi um longuíssimo desfile de bombeiros, com dezenas de viaturas. Vindos de muitos quilómetros e concelhos em redor... E não havia fogo." 

in, "Os Apontamentos"
Porto Editora, edição que compila 2 livros de crónicas
Páginas 54 e 55

Cia dos Náufragos estreia ‘A Ilha Desconhecida’, baseada em conto de José Saramago - Campinas SP Brasil (5 e 6 Agosto)

A notícia pode ser recuperada e acedida, aqui
em http://cartacampinas.com.br/2016/08/cia-dos-naufragos-estreia-a-ilha-desconhecida-baseada-em-conto-de-jose-saramago/



"Nos próximos dias 5 e 6 de agosto, sexta e sábado, a Cia dos Náufragos estreia seu novo espetáculo de teatro de rua “A Ilha Desconhecida”, baseado no conto homônimo do autor José Saramago, na Estação Cultura de Campinas.

O espetáculo reconta através de uma trupe de atores/marinheiros uma simples história: um Homem vai à procura da Ilha Desconhecida, com a convicção de que só se conheceria quando na ilha estivesse. Também é a história de uma Mulher que, por intermédio do destino, têm sua vida entrelaçada à do Homem. Uma inusitada jornada repleta de diversos obstáculos, um rei despótico e sua política de favores, ferozes burocratas, marinheiros incrédulos e uma inesperada companheira de viagem.

Uma alegoria da nossa busca pelo sentido do mundo e uma sátira da situação do mesmo. Livremente inspirada na obra de José Saramago.

A Cia dos Náufragos foi criada em 2012 na cidade de Campinas pelos atores formados no curso de Arte Cênicas da Unicamp Cristiane Taguchi, Miguel Damha, Renan Villela e pelo violonista, percussionista e compositor Rodrigo Lima. (Carta Campinas com informações de divulgação)

Ficha Técnica
A ILHA DESCONHECIDA, Cia dos Náufragos
DRAMATURGIA: O grupo, livremente inspirado no “Conto da Ilha Desconhecida” de José Saramago e A invenção de Ulisses, de Jorge de Lima
DIREÇÃO : Moacir Ferraz
ELENCO: Cristiane Taguchi, Miguel Damha, Renan Villela, Rodrigo Lima
PREPARAÇÃO VOCAL : Renan Villela
TRILHA ORIGINAL: Rodrigo Lima e Renan Villela
FIGURINO: Laura Françozo
CENOGRAFIA: Thalita Castro
CENOTECNICA: Erico Daminiele
ARTE GRAFICA: Renan Villela
FOTOGRAFIA: Maycon Soldan

A Ilha Desconhecida, Cia dos Naufragos
Data: 05/08 às 20h, 06/08 às 17h
Local: Estação Cultura – Praça Mal Floriano Peixoto, Campinas – SP
Entrada gratuita"

sábado, 6 de agosto de 2016

José Saramago e o titulo Doutor Honoris Causa pela UFMG - 1999 (via Revista de Estudos Saramaguianos)

Créditos da imagem para a Revista de Estudos Saramaguianos
Via conta Twitter em https://twitter.com/saramaguianos

"Rara brochura com discurso de José #Saramago de quando recebeu o 
Doutor Honoris Causa pela UFMG em 1999." 

O titulo Doutor "Honoris Causa" foi proposto pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e atribuído em 29/04/1999

"Saramago recebe título de Doutor Honoris Causa"

"Num auditório lotado por cerca de 400 pessoas, o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, recebeu, no dia 29 de abril, das mãos do reitor Sá Barreto, o título de Doutor Honoris Causa da UFMG, a mais importante honraria concedida pela instituição. "Não é ao Prêmio Nobel que queremos homenagear, mas ao autor do Memorial do Convento, do Evangelho Segundo Jesus Cristo e de Todos os Nomes, à pura voz da dignidade humana em língua portuguesa", disse o Reitor, na abertura da solenidade realizada no auditório da Reitoria. 
A cerimônia foi prestigiada pelo cônsul de Portugal em Minas Gerais, Silvino Ferreira Leite, pela secretária de Estado da Educação em exercício, Maria José Vieira Félix, representando o governador Itamar Franco. Participaram também o secretário de Governo da Prefeitura de Belo Horizonte, Paulo Lott, o ex-reitor da UFMG, Aluísio Pimenta, o secretário municipal de Cultura, Arnaldo Godoy, e o estadual, Angelo Oswaldo. A vinda do escritor José Saramago a Belo Horizonte foi viabilizada pelo Projeto Sempre Um Papo, coordenado pelo jornalista Afonso Borges. 
Sá Barreto disse que a vinda de Saramago à Universidade marca um dos momentos mais significativos da Agenda Brasil 500 Anos, lançada em janeiro pela UFMG para comemorar os cinco séculos do descobrimento do país: "José Saramago dela participa portando a mais legítima e poderosa das armas, a de seu testemunho humanístico e literário, que passou à condição de patrimônio comum dos homens".

Momento dos discursos elogiosos na atribuição do titulo  

Desejo 
O escritor foi saudado pelo professor da Faculdade de Letras e diretor da Editora UFMG, Wander Melo Miranda. Ele lembrou que a outorga do título de Doutor Honoris Causa ao autor, proposta pela Congregação da Faculdade de Letras, traduz o desejo da comunidade universitária que ama seus livros, "companheiros no sempre renovado ofício de aprender e ensinar - de viver, em suma". 
Pontuado por trechos de livros do escritor, o discurso de Melo Miranda lembrou que a obra de Saramago, em especial Todos os Nomes, representa uma indagação aos limites da solidão humana e sua capacidade de superá-la. 
"É por ter-se dedicado a avançar, com tanta paixão e rigor, no escuro e no claro de todos nós, que lhe rendemos esta necessária e justa homenagem", justificou, ao final da saudação. 
Em sua explanação, marcada por uma reflexão sobre o papel do autor, Saramago disse estar profundamente grato pela honra de ser acolhido pela UFMG e afirmou que procurará ser digno dela e não desmerecer jamais "do vosso bom juízo, graças ao qual se me abriram as portas desta casa, que a partir de agora considerarei também minha", finalizou.

Imagem da plateia repleta

Música 
Um dos destaques da cerimônia foi a apresentação do quinteto de metais Itarratan, da Escola de Música. O grupo executou os hinos nacionais do Brasil e de Portugal. Uma particularidade, ignorada pela maioria dos participantes da cerimônia, marcou a apresentação do hino de Portugal: a ausência da partitura. 
"Conseguimos a melodia na Biblioteca da Música e ouvimos um CD-ROM que continha o hino português para conhecermos os arranjos e fazer uma adaptação mais próxima do original. Acho que nos saímos bem", afirma o professor Anor Luciano Júnior, coordenador do quinteto. 
Após a cerimônia, a Faculdade de Letras ofereceu coquetel para 200 pessoas, no 4º andar da Reitoria."

O boletim da UFMG, elaborou vários artigos de destaque à atribuição deste titulo. 

"Pessimismo marca obra do escritor"
"Aos 76 anos, Saramago tornou-se o primeiro escritor de Língua Portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Ele é um pessimista confesso, traço que marca toda a sua obra. "Sou feliz num mundo triste e pessimista, onde os otimistas são poucos. Eles estão contentíssimos porque acreditam que o mundo é tão bom que não precisa de mudança", disse o escritor, em outubro do ano passado, ao saber de sua escolha para o prêmio da Academia Sueca. 
Filho e neto de agricultores pobres, José Saramago de Souza nasceu na aldeia portuguesa de Azinhaga, no Ribatejo, em 1922. Mudou-se com a família para Lisboa dois anos depois. Por falta de condições financeiras, abandonou a escola para trabalhar como mecânico. Foi desenhista, editor, tradutor e jornalista sem jamais ter freqüentado uma universidade. 
Em mais de 50 anos de carreira, Saramago publicou 25 livros, entre romances, poesias, crônicas e contos. Seu primeiro livro, Terra do pecado, foi lançado em 1947, mas somente em 1980, quando publicou Levantado do Chão, o escritor começou a ganhar notoriedade. Em 1982, o best-seller Memorial do Convento o projetou para além das fronteiras de Portugal. O êxito internacional se firmou em 1986, com Jangada de Pedra, uma parábola sobre as relações de Portugal e Espanha com o resto da Europa. 
Nos anos 90, Saramago se consagra definitivamente como um dos maiores escritores contemporâneos ao lançar O Evangelho segundo Jesus Cristo, versão romanceada da vida de Cristo, e Ensaio sobre a cegueira, um libelo contra a intolerância. O conjunto da sua obra já foi traduzido para 25 idiomas.

Militante 
Em seu parecer para a Comissão de Legislação do Conselho Universitário, o relator Célio Celso destaca inúmeras honrarias que atestam o reconhecimento internacional da obra literária de Saramago, entre elas a de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras Francesas e os títulos de Doutor Honoris Causa das universidades de Turim (Itália), Sevilha (Espanha) e Manchester (Inglaterra). 
Intelectual engajado nos movimentos de esquerda, Saramago é militante histórico do Partido Comunista Português. "Serei sempre comunista", costuma dizer toda vez que indagado sobre a sua opção ideológica. Há dois anos, abraçou a causa dos sem-terra brasileiros ao prefaciar um livro co-editado pelo fotógrafo Sebastião Salgado e pelo músico Chico Buarque.

Drummond disse ter sido alvo de "honraria indevida"
O escritor Carlos Drummond de Andrade foi protagonista de uma verdadeira novela em torno da entrega do título de Doutor Honoris Causa. Por unanimidade, Drummond foi indicado pelo Conselho Universitário para receber o título em março de 1973. O então reitor Marcelo Vasconcellos Pinheiro encaminhou ofício ao escritor, sugerindo que ele escolhesse a data da homenagem. 
No mês seguinte, Drummond enviou uma resposta na qual já demonstrava certa resistência a receber o título: "Devo confessar que o propósito manifestado por essa nobre instituição cultural despertou em mim a sensação de ser alvo de uma honraria indevida". 
E justificou: "Nenhuma falsa modéstia inspirou esta afirmação. Ela é antes motivada pela concepção, que tenho, da importância e especificidade da missão universitária". Ao final da mensagem, pediu à UFMG que aguardasse "ocasião propícia" para formalizar a entrega, alegando que sua saúde o impedia de viajar a Minas naquele momento. 
Em 1987, por ocasião das comemorações dos 60 anos da UFMG, o então reitor Cid Veloso pretendia enviar ao Rio de Janeiro uma comissão especial do Conselho Universitário para, enfim, entregar o diploma a Drummond. Mas a morte do escritor, em agosto daquele ano, impediu que a novela tivesse final feliz.

Ao lado de Drummond e Niemeyer
Da ilha de Lanzarote, na Espanha, onde mora, José Saramago enviou um fax ao reitor Sá Barreto aceitando o convite para ser o próximo Doutor Honoris Causa da UFMG. No texto de oito linhas, datado de 12 de março, o escritor manifestou satisfação por figurar ao lado de Drummond e Niemeyer na seleta lista de agraciados com o título: 
Não preciso sublinhar quanto me honra a atribuição do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Minas Gerais. Saber que o meu nome vai ficar ao lado dos nomes de Carlos Drummond de Andrade (de quem tão injustamente a Academia Sueca não se lembrou para o Nobel...) e de Oscar Niemeyer (de quem sou amigo e a quem tanto admiro) é algo que nunca esteve entre as minhas mais ousadas esperanças. Devo ao Reitor e ao Conselho Universitário da UFMG essa profunda alegria. Espero poder corresponder sempre, em dignidade e em fidelidade, à honra que se me faz."

"Ensayo sobre la lucidez" de José Saramago no clube de leitura de Sanlúcar la Mayor

"Ensayo sobre la lucidez" de José Saramago, esteve em destaque no infoLibre http://www.infolibre.es/, por Chary Arbolí (22/07/2016).


"Este grupo de lectura de Sanlúcar la Mayor tiene al Premio Nobel 
entre sus autores más visitados y polémicos.
Este volumen plantea una ciudad sin nombre cuyos habitantes deciden dar 
un escarmiento a sus gobernantes a través del voto en blanco."

"Ensayo sobre la lucidez" José Saramago
Alfaguara (Madrid - 2004)

"Los clubes de lectura forman un tejido muy importante en la vida cultural. Les dejamos esta sala para que comenten sus lecturas y nos ayuden a componer nuestra biblioteca. Si formas parte de un club de lectura, puedes escribirnos a losdiablosazules@infolibre.es para hacernos llegar vuestras sugerencias.

El club de lectura Punto, fundado en 2005, es uno de tres clubes de la biblioteca municipal de Sanlúcar la Mayor, en Sevilla. Chary Arbolí, su coordinadora, recomienda su última lectura colectiva:

Leer a Saramago se ha convertido en una aventura estimulante y revulsiva que genera siempre jugosas tertulias. Desde que el club de lectura Punto comenzó su andadura en 2005, el escritor portugués ha sido uno de los que más hemos leído y que menos indiferencia ha provocado. Ensayo sobre la lucidez (Alfaguara, 2004) es una fábula, según palabras de su propio autor, sobre la actitud de los gobernantes de una ciudad sin nombre que después de unas elecciones democráticas contemplan asombrados un porcentaje muy elevado de votos en blanco. Este hecho significativo es el detonante de la novela, sin embargo la actitud de los políticos está muy lejos de la autocrítica, culpando a los ciudadanos de conspiradores y utilizando los mecanismos del poder para castigarlos. Se trata de una reflexión sobre la democracia, la clase política, la libertad del ciudadano y el papel que juegan los medios de comunicación. La imaginación de Saramago para plantear situaciones complejas y actuaciones extravagantes o absurdas también potencia la imaginación del lector. 

Uno de nuestros objetivos en el club es hacer de la lectura no sólo un instrumento de conocimiento literario sino también una herramienta para el diálogo y el respeto. Precisamente este libro ha generado diversas opiniones, algunas opuestas, y controversias muy interesantes. Para unos monótono, para otros divertido, ponderado o demagógico, crítico o manipulador, a nadie ha dejado indiferente. Lo primero que notamos al leer es la densidad del texto cuya lectura te atrapa de tal modo que no sabes cuándo interrumpirla. Dicen que Saramago no escribe diálogos o los utiliza poco, pero no es cierto. El diálogo existe aunque no está señalizado como tal, los personajes intercalan su conversación en una prosa concentrada y al mismo tiempo diligente. Sin embargo para algunos lectores este hecho les resulta aburrido e incómodo porque se pierden al retomar la lectura. 

Ha sido unánime la visión crítica de Saramago hacia los políticos, tal vez una metáfora de la condición humana. No falta ni sobra su particular ironía que se respira junto a su pesimismo inherente a través de la apretada prosa. Su pérdida de fe en el hombre corre paralela a la esperanza puesta en la unión de los ciudadanos. Tampoco escapa a su particular análisis de la sociedad el sensacionalismo y la manipulación de los medios de comunicación, muy presentes en toda la historia. Existen muchas similitudes con su Ensayo sobre la ceguera: el anonimato de ciudades y personajes, el aislamiento de los presuntos culpables, el “ensayo” , y además el color blanco, símbolo de la paz y la pureza que paradójicamente aparece en ambos libros como un elemento disonante y rebelde. Inquietante fábula, extraña novela, cuento filosófico o reflexión literaria, no hay duda que este ensayo revela la extraordinaria y admirable lucidez de José Saramago."