Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

domingo, 21 de junho de 2015

#cincoanos - Memória da Data - José Saramago - "Il racconto dell'isola sconosciuta" (Leitura de "O Conto da Ilha Desconhecida")

#cincoanos 
Memória da Data - José Saramago 
"Il racconto dell'isola sconosciuta" (Leitura de "O Conto da Ilha Desconhecida")


( Pode ser visualizado e ouvido, aqui

"Il racconto dell'isola sconosciuta"
Einaudi, Torino, 1998, tradução de Paolo Collo e Rita Desti
"O conto da ilha desconhecida" Caminho, edição de 1999

Lettura di Luigi Maria Corsanico

#cincoanos - Memória da Data - Antena1 - Reposição da entrevista Pilar del Río (Março de 2011)

#cincoanos 
Memória da Data - Antena1 - Reposição da entrevista Pilar del Río (Março de 2011)

( Pode ser visualizado, aqui

#cincoanos - Memória da Data - "Relembrar Saramago" de Pedro Reis (PT Jornal)

#cincoanos 
Memória da Data 
"Relembrar Saramago" de Pedro Reis (PT Jornal)

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://ptjornal.com/relembrar-saramago-42647

"Relembrar Saramago" de Pedro Reis

"“Aprendamos um pouco, isso e o resto, o próprio orgulho também, com aqueles que do chão se levantaram e a ele não tornam, porque do chão só devemos querer o alimento e aceitar a sepultura, nunca a resignação”.




Começo esta crónica com esta citação retirada de “Levantado do Chão”. Não foi fácil a escolha, poderia ter começado com outra qualquer. O leitor deve então estar a questionar-se o porquê desta escolha. Bem, penso que o principal motivo – para além de ser retirada de uma das minhas obras preferidas do autor – deve-se ao facto desta demonstrar uma linha do pensamento de José Saramago que tanto me inspira: a ideia de não nos resignarmos seja em que circunstância for. Talvez esteja a incorrer no erro de ser demasiado simplista, mas há nesta citação uma certa inquietação e desassossego que definem muito daquilo que Saramago pretendia transmitir com a sua escrita e que, enquanto leitor, muito me influencia.

Existem escritores assim, que através do que escrevem passam-nos mais do que simplesmente uma boa história. São capazes de criar uma ligação de proximidade entre escritor e leitor, onde este último – o aprendiz -, retira das palavras do primeiro – o mestre -, lições de vida, formas de a encarar, de a enfrentar. Através da leitura, o aprendiz obtém uma fonte de inspiração que acaba por moldar a forma como vê o mundo que o rodeia. “As palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio (…) para que possamos chegar à outra margem”, diz-nos Saramago algures em “A Caverna”.

Mas de onde nasce, afinal, o meu gosto por este escritor? O primeiro livro que li de José Saramago foi “As Intermitências da Morte”. Bem, não será totalmente verdade, uma vez que o primeiro contacto que tive com o autor foi no 12o ano através do “Memorial do Convento”, mas confesso que na altura – e aqui faço o mea culpa – passou-me um bocado ao lado. Outra idade, outra mentalidade, outra forma de encarar a vida. Portanto o meu contacto com Saramago foi um bocado mais tardio do que aquilo que seria suposto, mas sinceramente ainda bem que assim foi. Sugeriram-me “As Intermitências da Morte” e decidi dar uma nova oportunidade ao autor, e em boa hora o fiz. Confesso que li aquela página final perto de dez vezes de seguida, sem exagero. Para além do livro em si me ter fascinado, aquele final deixou-me completamente rendido. Percebi imediatamente que José Saramago tinha algo de especial, que havia ali algo de maior que eu podia retirar daquilo que este me tinha para ensinar. Seguiu-se o “Caim”, que tanto me fez rir pela crítica implacável e irónica sobre Deus e sobre a religião. Mas a confirmação de que Saramago seria um escritor que tinha aparecido para mudar a forma como encaro a literatura deu-se com duas obras em particular: “Ensaio sobre a Cegueira” e “Levantado do Chão”. A primeira, ainda hoje me deixa perplexo com a brutalidade, com a violência, e com a maldade do Ser Humano, mas ao mesmo tempo com um sorriso de esperança perante personagens tão marcantes como a “mulher do médico” ou o “cão das lágrimas”. A segunda deixa-me inspirado pela força retratada através de várias gerações de uma família, e a forma como um povo, oprimido pela ditadura política e religiosa, foi capaz de se erguer e lutar por uma vida melhor. Um retrato ímpar do povo português, principalmente o povo alentejano, desde o início do século XX até à Revolução de Abril.

Dei então por mim a ler Saramago compulsivamente. “O caos é uma ordem por decifrar” e “Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”, citações retiradas das epígrafes de “O Homem Duplicado” e “A Viagem do Elefante” respectivamente foram os livros seguintes, e ainda hoje são provavelmente duas das frases do autor que mais me marcam, e que com tão poucas palavras conseguem dizer tanto. Depois de uma pequena pausa, voltei a pegar na sua obra com “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, que me fez perceber porque é que não nos podemos contentar em observar o espectáculo do mundo como o heterónimo pessoano nos dizia, com o “Ensaio sobre a Lucidez” que gira à volta de um tema tão actual (a abstenção) e que demonstra o quão perversos e maldosos podem ser os nossos governantes, com a releitura do “Memorial do Convento” que desta vez fez tanto sentido, e com o “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, um livro único onde somos presenciados com uma outra forma de ver a religião católica, com Jesus a ser apresentado sob uma perspectiva humana, uma vítima nas mãos de um Deus maldoso: “Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez”. De destacar ainda que foi com este livro que Saramago abandonou o país, mudando-se para Lanzarote depois da polémica com o subsecretário de Estado da Cultura, Sousa Lara. Uma obra e um autor demasiado grandes para um governo com uma mentalidade tão pequena.

Mas ainda havia muito da obra de Saramago para conhecer. Seguiram-se “A Jangada de Pedra” que me prendeu pela viagem e pelo relacionamento entre as personagens, “A Caverna” que pela sua simplicidade é uma das histórias mais bonitas que já li (Cipriano Algor pela sua humildade é das personagens que mais me marcou até hoje), assim como uma grande crítica às consequências das transformações provenientes do capitalismo, onde cada vez somos menos humanos e mais sombras e, por fim, “Todos os Nomes”, o último livro de Saramago que li, sendo uma grande abordagem ao sentido da nossa existência, aquilo que fazemos, aquilo que somos, e à procura constante pelo outro.

Apesar de já ter lido muito da obra de Saramago, ainda há muito para ler e descobrir.

Quando hoje me perguntam qual o meu livro favorito do autor, nunca consigo responder. Penso que isso depende muito do momento, do estado de espírito. Em certas alturas poderia responder “Ensaio sobre a Cegueira”, noutras “Levantado do Chão” ou “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Ou até mesmo “O Ano da Morte de Ricardo Reis” ou “Memorial do Convento”. Cada livro de Saramago marcou-me de determinada forma. Ensinou-me algo, mudou a minha percepção sobre o mundo. Portanto, é sempre complicado responder a essa questão. O que é comum em todas as suas obras é a forma como o autor não é simplesmente um narrador, uma vez que a sua personalidade está bastante presente em cada um dos seus livros. Quando lemos Saramago não se trata apenas de conhecer uma história e as respectivas personagens. Trata-se, acima de tudo, de entrar num diálogo que o autor constrói connosco leitores, fazendo observações constantes que nos dizem quem ele é, no que acredita e o que nos pretende transmitir.

Não há melhor sensação na leitura do que ficar preso numa frase para de seguida tirar os olhos da página, olhar para cima, e reflectir sobre aquilo que acabamos de ler. E ao ler Saramago isto acontece-me frequentemente, normalmente seguindo um gigante sorriso.

Mais do que um escritor, José Saramago era um humanista. Através das suas personagens, parábolas e da sua ironia tão própria, conseguia analisar o Ser Humano de uma forma única, realçando os seus maiores defeitos, mas invocando também as suas melhores qualidades. Uma tarefa e luta constantes para melhorarmos enquanto humanos que somos, dotados de direitos mas também de deveres. “Vivo desassossegado, escrevo para desassossegar”, dizia-nos.

Através do seu olhar crítico e lúcido – que tanta falta nos faz nos dias de hoje – batia-se através de uma inquietação constante para mudar o mundo que o rodeava, sempre movido por valores éticos e morais de uma enorme grandeza e bondade. Ontem (quinta-feira, 18 de Junho) assinalaram-se os cinco anos da morte de José Saramago, que nos disse que “o que extingue a vida e os seus sinais, não é a morte, mas o esquecimento”. A morte pode ter levado o autor, mas a sua obra é eterna, e continuar a ler o que escreveu manterá para sempre viva a sua memória e o enorme legado que nos deixou. “Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia”. E aos leitores, sobretudo aos leitores."

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Revista Blimunda #37 (Junho de 2015) com "Inédito: Notas para Ensaio sobre a Lucidez"

(Capa da edição n.º 37 - Junho 2015)

Pode ser consultada e lida, aqui
em http://blimunda.josesaramago.org/2015/06/18/blimunda-37-junho-de-2015/#more-251

Sinopse da edição:
"José Saramago tinha uma definição muito simples da morte, para ele morrer era não estar. Neste mês de junho completam-se cinco anos desde que lhe dissemos adeus. Mas continuamos a senti-lo tão próximo que, para nós, José Saramago ainda está. É a essa presença que este número da Blimunda dedica grande parte das suas páginas; não só para recordar José Saramago e falar da falta que nos faz, mas também com o intuito de contar como a sua obra continua a ser lida e reinterpretada. Entre os destaques do dossier estão as notas preparatórias para o Ensaio sobre a Lucidez, nunca antes publicadas, os textos do professor Carlos Reis e do jornalista Fernando Berlín, além de depoimentos de vários dos tradutores que trabalharam sobre os textos de José Saramago.

Para além destas páginas, a Blimunda de junho traz, para além das suas secções habituais, uma reportagem sobre o Festival Literário da Gardunha e um relato sobre um projeto que coloca crianças a fazer os seus próprios livros infantis.

Passados cinco anos da morte de José Saramago entregamos aos leitores, neste número do seu terceiro aniversário, uma Blimunda feita de saudade mas também de alegria. José Saramago está, e estando o nosso trabalho continua a fazer sentido."

E se estivéssemos todos cegos... cegos da "razão"? - O Mito da Caverna de Platão

Pode ser visualizado e consultado aqui 


quarta-feira, 17 de junho de 2015

"Uma mão cheia de eventos para lembrar os cinco anos da morte de Saramago" - Via Observador.pt (Sara Otto Coelho)

"Uma mão cheia de eventos para lembrar os cinco anos da morte de Saramago"

A notícia pode ser consultada e lida, aqui

"O quinto aniversário da morte do Nobel português vai ser assinalado com vários eventos em Lisboa. No Brasil, vai ser organizada uma exposição no Museu da Língua Portuguesa. Em Roma, haverá uma ópera."

A Fundação José Saramago, em Lisboa, vai estar aberta esta quinta-feira, de manhã à noite, com vários eventos gratuitos que assinalam o quinto aniversário da morte do único Nobel português da Literatura. O público vai poder ler um texto inédito do escritor.

“Contar os anos pelos dedos e encontrar a mão cheia” foi a frase escolhida para a capa da revista Blimunda, que a Fundação publica todos os meses. Cinco anos depois da morte de José Saramago, a 18 de junho de 2010, Pilar del Río destaca o quanto a memória do escritor está viva, em Portugal e no estrangeiro. O destaque do número 37 da revista inclui as notas preparatórias que escreveu para o livro Ensaio Sobre a Lucidez, um texto inédito que estará disponível a partir de quinta-feira, aqui.

Logo a partir das 10h00, quem se deslocar à Casa dos Bicos, onde está sediada a Fundação, vai poder ver as ilustrações que André Letria criou para o livro infantil A Maior Flor do Mundo, que Saramago publicou em 2001.

(Cartaz ilustrado por André Letria)

"Às 11h30, vai ser exibido, em estreia, o documentário “Um Humanista por acaso Escritor”, realizado pelo brasileiro Leandro Lopes. O filme vai estar nos cinemas brasileiros e pretende dar uma visão do mundo pelas lentes “desassossegadas” de José Saramago. Como parte da homenagem, foram feitos uns óculos a partir dos originais que Saramago usava e o visitantes vão poder experimentá-los, bem como tirar fotografias.

Às 21h00, a atriz Maria do Céu Guerra vai ler excertos da obra do autor de Ensaio sobre a Cegueira, seguindo-se um concerto de João Afonso e Rogério Cardoso Pires."

(Pilar del Río segura os óculos que os visitantes vão poder usar 
e o caderno original agora encontrado. ©Sara Otto Coelho)

"No encontro com os jornalistas, Pilar del Río anunciou também a descoberta de um texto de teatro escrito por José Saramago e Costa Ferreira, no final dos anos 1970. “Está aqui Saramago”, disse a viúva do escritor. Há anos que Pilar o tinha no gabinete que ocupa na Fundação, pensando ser outra obra. “O Fim da Paciência” nunca chegou a ser apresentado nos palcos. Depois da descoberta, deverá ser publicado, não se sabe ainda se pela Alfaguara, se pela Porto Editora. “Por enquanto, a prioridade da Porto Editora é fazer chegar às livrarias as quatro obras que faltam reeditar para completar a nova coleção, A Jangada de Pedra (1986), Objeto Quase (1978), Terra do Pecado (1947) e Todos os Nomes (1997) e o Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), disse ao Observador Manuel Alberto Valente.

Durante os próximos meses haverá uma mão cheia de referências internacionais ao português que venceu o Nobel da Literatura em 1998. Uma das principais é a exposição que está a ser organizada no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Brasil, e que se estima que abra as portas em 2016. Pilar del Río admitiu que falou com o diretor do museu, Antonio Carlos de Moraes Sartini, sobre a hipótese de a exposição ser posteriormente mostrada em Portugal, mas ainda não existem certezas.

Destaca-se também o Congresso Internacional sobre os Deveres Humanos que se vai realizar no México, a 24 e 25 de junho. A ideia é fazer o esboço de uma “Carta dos Deveres Humanos”, que José Saramago sugeriu no seu discurso em Estocolmo, em 1998, quando recebeu o Nobel.

Na capital italiana, Roma, vai ser apresentada uma ópera baseada no romance As Intermitências da Morte. Em Espanha, vai subir ao palco o Ensaio sobre a Cegueira, pela companhia Sarabela, na Galiza, e O Homem Duplicado, em Madrid."


"História de uma flor" post colocado no livro/blog "O Caderno 2" - 25 de Maio de 2009


Pode ser visualizado aqui, via YouTube 

E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

Pode ser consultado e lido, aqui 
em http://caderno.josesaramago.org/42904.html

"História de uma flor"
"Aí pelos começos dos anos 70, quando eu ainda não passava de um escritor principiante, um editor de Lisboa teve a insólita ideia de me pedir que escrevesse um conto para crianças. Não estava eu nada certo de poder desobrigar-me dignamente da encomenda, por isso, além da história de uma flor que estava a morrer à míngua de uma gota de água, fui-me curando em saúde pondo o narrador a desculpar-se por não saber escrever histórias para a gente miúda, a quem, por outro lado, diplomaticamente, convidava a reescrever com as suas próprias palavras a história que eu lhes contava. O filho pequeno de uma amiga minha, a quem tive o desplante de oferecer o livrinho, confirmou sem piedade a minha suspeita: “Realmente”, disse à mãe, “ele não sabe escrever histórias para crianças”. Aguentei o golpe e tentei não pensar mais naquela frustrada tentativa de vir a reunir-me com os irmãos Grimm no paraíso dos contos infantis. Passou o tempo, escrevi outros livros que tiveram melhor sorte, e um dia recebo uma chamada telefónica do meu editor Zeferino Coelho a comunicar-me que estava a pensar em reeditar o meu conto para crianças. Disse-lhe que devia haver um engano, porque eu nunca tinha escrito nada para crianças. Quer dizer, havia esquecido totalmente o infausto acontecimento. Mas, há que dizê-lo, foi assim que começou a segunda vida de “A maior flor do mundo”, agora com a bênção das extraordinárias colagens que João Caetano fez para a nova edição e que contribuíram de maneira definitiva para o seu êxito. Milhares de novas histórias (milhares, sim, não exagero) foram escritas nas escolas primárias de Portugal, Espanha e meio mundo, milhares de versões em que milhares de crianças demonstraram a sua capacidade criadora, não só como pequenos narradores, também como incipientes ilustradores. Afinal, o filho da minha amiga não tivera razão, o conto, de transparente simplicidade, havia encontrado os seus leitores. Mas as coisas não ficaram por aqui. Há alguns anos, Juan Pablo Etcheverry e Chelo Loureiro, que vivem na Galiza e trabalham em cinema, procuraram-me com o objectivo de fazer da “Flor” uma animação em plasticina, para a qual Emilio Aragón já tinha composto uma bela música. Pareceu-me interessante a ideia, dei-lhes a autorização que pediam e, passado o tempo necessário, inútil dizer que depois de muitos sacrifícios e dificuldades, o filme foi estreado. Eu próprio apareço nele, de chapéu e bastante favorecido na idade. São quinze minutos da melhor animação, que o público tem aplaudido em salas e festivais de cinema, como foram, no passado recente, os casos de Japão e Alasca. Como foi igualmente o prémio que acaba de lhe ser atribuído no Festival de Cinema Ecológico de Tenerife, felizmente ressurgido de uma paragem forçada de alguns anos. Chelo veio a nossa casa, trouxe-nos o prémio, uma escultura representando uma planta que parece querer ascender até ao sol e que, muito provavelmente, irá continuar a sua existência na Casa dos Bicos, em Lisboa, para mostrar como neste mundo tudo está ligado a tudo, sonho, criação, obra. É o que nos vale, o trabalho."

José Saramago, em "O Caderno 2"
Caminho, 25 de Maio de 2009

"Saramago no pierde la visión cinco años después de su muerte" de Prado Campos em "El Confidencial"

O texto pode ser consultado e lido, aqui
em http://www.elconfidencial.com/cultura/2015-06-17/saramago-muerte-quinto-aniversario-nobel_888325/

"Saramago no pierde la visión cinco años después de su muerte", texto de Prado Campos
http://www.elconfidencial.com/



(José Saramago - 2009 - Agência EFE)

"José Saramago no quiso ser escritor. De hecho, contaba que de niño en su casa no había libros -sólo uno "grueso, encuadernado, salvo error, en azul celeste, que se llamaba A Toutinegra de Moinho, y cuyo autor, si la memoria me acierta, era Émile Richerbourg"-, pero iba a menudo a la ópera gracias a la amistad de su padre con el portero del teatro. Sin embargo, quien empezó a leer en los periódicos y se encontró con los libros en una rara asignatura de Literatura en la escuela técnica, no sólo se acabó convirtiendo en uno de los escritores más célebres sino que encontró en la escritura la forma de "desasosegar" al lector. Mañana se cumplen cinco años de la muerte del Premio Nobel de Literatura luso que repetía que “a donde va el escritor, va el ciudadano”, dejando claro que en sus obras y en sus palabras era siempre él y que nunca iba a renunciar a su responsabilidad con la sociedad.
"Yo soy una persona pacífica, sin demagogia ni estrategia. Digo exactamente lo que pienso. Y lo hago en forma sencilla, sin retórica”, aseguró Saramago (Azinhaga, 1922) en una de sus incontables entrevistas. Y esa es, precisamente, una de las (muchas) claves de su vida: una conciencia social y política lúcida, honesta y capaz de adelantarse a los acontecimientos.
'Yo soy una persona pacífica, sin demagogia ni estrategia. Digo exactamente lo que pienso. Y lo hago en forma sencilla, sin retórica'
Dice su mujer, Pilar del Río, que “José no es un muerto para nada”. Y en esa idea se van a centrar las actividades de este quinto aniversario. El mejor ejemplo sale del que va ser uno de los nuevos descubrimientos literarios del escritor portugués. Hoy se presenta en su fundación lisboeta El fin de la paciencia, una adaptación teatral inédita hecha por Saramago y Costa Ferreira del relato Cosas, recogido en Casi un objeto (1978). Esta obra, llevada a la escena haciendo hincapié en su parte social, es un cuento ficticio que recrea una sociedad de ciudadanos usuarios clasificados según sus prioridades para consumir (A, B y C) y gobernada por un Estado autoritario en la que las cosas cobran vida y desaparecen.

(Ver el mundo con la mirada de Saramago, 
es lo que propone su fundación en el quinto aniversario de su muerte)

- Lo peor es que el efecto de la represalia acaba siempre por caer sobre nosotros: dificultades de abastecimiento, escasez de producto, carestía... Pensaba que ya habíamos pasado esta fase.
- Será inevitable. Sin austeridad no podemos volver a la armonía social.
Del Río recita al otro lado del teléfono este diálogo de la versión escénica del relato de su marido que tanto suena al hoy “hemos vivido por encima de nuestras posibilidades” y crítico con la austeridad como receta gubernamental para salir de la crisis. Porque si algo ha sido una constante en la mirada de Saramago ha sido su actualidad y su carácter visionario. "No os resignéis, indignémonos", espetó en más de una ocasión al ciudadano, quien era el centro de un discurso que alcanzó su máxima responsabilidad social tras recibir, en 1998, un Nobel que no sólo no le domesticó sino que acrecentó su carácter quijotesco y su condición de creador de opinión.
“En mi oficio de escritor, pienso no haberme apartado nunca de mi conciencia de ciudadano. Defiendo que adonde va uno, debe ir el otro. No recuerdo haber escrito ni una sola palabra que estuviese en contradicción con mis convicciones políticas, pero eso no significa que haya puesto alguna vez la literatura al servicio de mi ideología. Significa, eso sí, que cuando escribo estoy expresando la totalidad de la persona que soy", escribió en Cuadernos de Lanzarote como recoge Fernando Gómez Aguilera en José Saramago en sus palabras (Alfaguara, 2010).
El legado de Saramago
Apenas hoy podría entenderse en la totalidad la figura del escritor Saramago sin su compromiso con el pensamiento crítico, la defensa de los derechos humanos y una firme creencia en los ciudadanos como motor para cambiar la realidad. No puede estar más de actualidad en este panorama político. "No era un optimista y tampoco era pesimista, pero el mundo era pésimo decía siempre. La única salida que veía a las situaciones absurdas que vive el mundo está en los ciudadanos manifestando sus derechos y cumpliendo con sus obligaciones", asegura Del Río.

(José Saramago e Pilar del Río - Agência EFE)

Sus palabras siempre apelaron e interrogaron a los ciudadanos para hacerles creer en la necesidad de intervenir. "Siempre sostuvo que no podíamos mantener la fachada del edificio de la democracia como si todo estuviera bien, cuando por dentro había desafección, corrupción y suciedad", garantiza su mujer. Sin lugar a dudas, Ensayo sobre la ceguera (1995) y, después, Ensayo sobre la lucidez (2004) -siempre sostuvo que no era una continuación y que sólo compartían la palabra ensayo en su título porque reconocer la ceguera no es sinónimo de volverse lúcido- son, además de sus obras más célebres, la mejor muestra de esa censura al fracaso de la racionalidad y ese llamamiento a huir y levantarse contra la manipulación.
De ahí, que esa anticipación a los acontecimientos de Saramago sea pasmosa. Tras ese mundo abatido por la ceguera, en el Ensayo sobre la lucidez plantea una mundo en el que el pueblo se revela ante los abusos del poder y dice no a más sometimiento. Algo que resuena mucho en estos años post 15M, mareas y primaveras y de panoramas políticos cambiantes. Sirvan estas citas de sendas entrevistas como ejemplo de su plena vigencia:
- "El poder político es el que menos cuenta, el poder real es el económico, y no es democrático. Entonces, ¿tiene sentido que sigamos hablando de democracia? Me parece poco serio. Las noticias políticas no son más que declaraciones. Es como el mundo del fútbol, los presidentes se calumnian, se intrigan, protestan, pero ¿quién gobierna los países?: las finanzas internacionales". (1997, El Mundo)
- "Lo que me preocupa más es la apatía de la gente, ese desánimo, esa crisis de indiferencia que se vive en el país. Parece mentira que sea el mismo pueblo que hace 30 años era el más combativo de Europa", decía sobre Portugal en 2005 (El País).
- "El Gobierno socialista [portugués] ha hecho políticas de derecha y el problema es que no hay ningún palacio de invierno para asaltar. Lo peor de todo, y esta crisis lo ha demostrado, es que la izquierda no tiene ideas. Ningún partido de izquierda, más o menos roja, más o menos rosa, ha presentado una sola idea para combatir la crisis. Y con los sindicatos ha ocurrido lo mismo. Su fuerza está dormida, domesticada. Me parece que Marx nunca ha tenido tanta razón como ahora. Pero eso no es suficiente. Haría falta una reflexión profunda, partiendo de Marx". (2009, El País)

Por eso, su lucidez es el mayor legado de un genio comprometido dentro y fuera de sus páginas. "Nunca hizo pactos con nada ni con nadie porque un intelectual que se precie no pacta y dice lo que piensa aunque no sea simpático. Dijo cosas que nadie quería oír como, por ejemplo, hablar de la corrupción hace muchísimo tiempo. Lo que le distingue y le caracteriza, además de su estilo, es la ciudadanía, era un ciudadano de una integridad y una valentía esplendorosa", dice su mujer.
Y su vigencia es más que evidente porque desde que Samarago falleció se han publicado dos obras póstumas: Claraboya (escrita en 1953) y Alabardas (obra en la que estaba trabajando cuando falleció), se ha llevado al cine El hombre duplicado (2003), se estrenó el documental José y Pilar, se ha estrenado una ópera suya en San Francisco y hay otra en marcha en Italia, varias obras de teatro en Estados Unidos, Portugal o España y el 24 y 25 de junio la Universidad Nacional Autónoma de México acogerá un congreso sobre su figura.
Además, su mujer recuerda que la casa museo de Lanzarote siempre está abierta con café para los visitantes y en su fundación en la Casa dos Bicos, de Lisboa, mañana habrá una exposición de ilustraciones; el estreno del documental Um humanista por acaso escritor, de Leandro Lopes; un concierto con lecturas de Saramago a cargo de Joao Afonso y Rogério Cardoso Pires y en su página web se publicarán unas notas inéditas sobre el Ensayo sobre la lucidez. Unas gafas como las suyas también aguardarán en la fundación para que cualquiera pueda ver el mundo con lúcida mirada de Saramago... aunque sea durante unos minutos."



terça-feira, 16 de junho de 2015

Kjell Espmark é mencionado no Blog/Livro "O Caderno 2", no post "Todos os nomes" (19/11/2008)

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/12775.html

(Imagem da capa da obra realizada por Kjell Espmark, 
sobre a atribuição dos prémios Nobel da literatura - 2012)

"Todos os nomes"

"A dedicar exemplares de “A Viagem do Elefante” na editora durante uma boa parte da manhã. Na sua maioria irão ficar em Portugal como um recado para os amigos e companheiros de ofício dispersos nas lusitanas paragens, mas outros viajarão a terras distantes, como sejam o Brasil, a França, a Itália, a Espanha, a Hungria, a Roménia, a Suécia. Neste último caso, os destinatários foram Amadeu Batel, nosso compatriota e professor de literatura portuguesa na Universidade de Estocolmo, e o poeta e romancista Kjell Espmark, membro da Academia Sueca. Enquanto dedicava o livro para Espmark recordei o que ele nos contou, a Pilar e a mim, sobre os bastidores do prémio que me foi atribuído. O “Ensaio sobre a Cegueira”, já então traduzido ao sueco, havia causado boa impressão nos académicos, tão boa que ficou praticamente decidido entre eles que o Nobel desse ano, 1998, seria para mim. Acontece, porém, que no ano anterior tinha publicado outro livro, “Todos os Nomes”, o que, obviamente, em princípio, não deveria constituir obstáculo à decisão tomada, a não ser uma pergunta nascida dos escrúpulos dos meus juízes: “E se este novo livro é mau?” Da resposta a dar encarregou-se Kjell Espmark, em quem os colegas depositaram a responsabilidade de proceder à leitura do livro no seu idioma original. Espmark, que tem certa familiaridade com a nossa língua, cumpriu disciplinadamente a missão. Com o auxílio de um dicionário, em pleno mês de Agosto, quando mais apeteceria ir navegar entre as ilhas que enxameiam o mar sueco, leu, palavra a palavra. a história do funcionário Sr. José e da mulher a quem ele amou sem nunca a ter visto. Passei o exame, afinal o livrinho não ficava nada atrás do “Ensaio sobre a Cegueira”. Uf."

em "O Caderno 2"
Caminho, 19 de Novembro de 2008

(Kjell Espmark, no momento do 
discurso de apresentação)

A apresentação do Prémio Nobel, na cerimónia de entrega, lida por Kjell Espmark, pode ser consultado e lido, aqui

"Your Majesties, Your Royal Highness, Ladies and Gentlemen,"

"There is one type of writer who, like a bird of prey, circles time and again over the same territory. Book succeeds book, in progress towards a coherent picture of the world. José Saramago belongs to the opposite category, writers who repeatedly seem to want to invent both a world and a style that is new. In his novel The Stone Raft, he makes the Iberian peninsula separate and drift out into the Atlantic, an opening that provides a wealth of possibilities for a satirical description of society. But in his next book, The History of the Siege of Lisbon, no trace of this geological catastrophe is to be found. In Blindness: a Novel, the epidemic that deprives people of their sight is confined between the covers of the work. In his next novel All the Names, at the Population Registration Office nothing has been heard of any rampant spread of blindness, nor in previous works has there been anything to suggest the existence of this chillingly all-embracing agency. It is not Saramago's ambition to portray a coherent universe. On the contrary, he seems every time to be trying out a new model to apprehend an evasive reality, fully aware that each model is a crude approximation that could permit other approximate values, indeed one that requires them. He explicitly condemns anything that claims to be "the only version"; it is merely "another version among many". There is no overriding truth. Saramago's apparently contradictory images of the world have to be placed alongside each other to provide their own alternative accounts of an existence that is fundamentally protean and unfathomable.

In each and every one of these versions, the rules of common sense are suspended in some way. This is not uncommon in recent fiction. But here we are dealing with something different from narrative in which anything can happen - and does so all the time. Saramago has adopted a demanding artistic discipline which allows the laws of nature or common sense to be violated in one decisive respect only, and which then follows the consequences of this irrationality with all the logical rationality and exact observation it is capable of. In his novel The Year of the Death of Ricardo Reis, he makes a flesh and blood character of a figure that has only existed in the imaginary world, one of the guises adopted by the poet Pessoa. But this miracle gives rise to a masterfully realistic picture of Lisbon in the 1930s. Again, the severance of the Iberian peninsula that allows it to drift off into the Atlantic is a one-off violation of the natural order; what follows is a hilariously precise description of the consequences of this absurd aberration. In The History of the Siege of Lisbon the accepted order of things is subverted more discreetly. A proof-reader introduces a "not" into a book about the war of liberation against the Moors, thus altering the course of history. As penance he is made to write an alternative history that delineates the consequences of his amendment; this is once again a version that denies any claim to be the only valid one. In the same spirit, Saramago has also published a new, wonderful version of the narrative of the gospels, a version in which the contravention of the expected order is to be found in God's petty hunger for power so that the role of Jesus is redefined as one of defiance. Perhaps the greatest scope allowed to the fantastic is in Baltasar and Blimunda where the clairvoyant heroine gathers up the wills of the dying - energy that makes the aerial voyage in the book possible. But she too and her love are placed in an objectively described historical process, in this case the construction of the convent at Mafra that cost so much human suffering.

This rich work, with its constantly shifting perspectives and constantly renewed images of the world, is held together by a narrator whose voice is with us all the time. Apparently he is a story-teller of the old-fashioned omniscient variety, a master of ceremonies standing on the stage next to his creations, commenting on them, guiding their steps and sometimes winking at us across the footlights. But Saramago uses these traditional techniques with amused distance. The narrator is also adept in the contemporary devices of the absurd and develops a modern scepticism when faced with the omniscient claim to be able to say how things stand.The result is literature characterised at one and the same time by sagacious reflection and by insight into the limitations of sagacity, by the fantastic and by precise realism, by cautious empathy and by critical acuity, by warmth and by irony. This is Saramago's unique amalgam.


Dear José Saramago,

Anybody who tries in a few minutes to portray your work will end up articulating a series of paradoxes. You have created a cosmos that does not want to be a coherent universe. You have given us ingenious versions of a history that will not allow itself to be taken captive. You have taken the stage as the kind of narrator we feel we have long been familiar with - but with all of our contemporary liberties at your fingertips and imbued with contemporary scepticism about definite knowledge.Your distinguishing mark is irony coupled with discerning empathy, distance without distance. It is my hope that this award will attract many people to your rich and complex world. I would like to express the warm congratulations of the Swedish Academy as I now request you to receive this year's Nobel Prize for Literature from the hands of His Majesty the King."

10 de Dezembro de 1998
Versão portuguesa, publicada no Diário de Notícias, a 11/12/1998

"Há escritores tipo ave predadora, que descrevem círculos repetidos sobre o mesmo território, de livro para livro, buscando um retrato coerente do mundo". (...) "[Saramago] pertence a uma categoria contrária, a dos escritores que parecem querer sempre inventar um mundo e um estilo novos". [Assim, se a Península Ibérica fica à deriva em A Jangada de Pedra, não há traços dessa catástrofe geológica na História do Cerco de Lisboa; tal como a epidemia que é descrita em Ensaio sobre a Cegueira não deixa traços em Todos os Nomes.]

"[Na realidade], a ambição de Saramago não é retratar um universo coerente. Pelo contrário, parece, de cada vez, tentar criar um novo modelo de apreensão de uma realidade evasiva, consciente de que cada modelo é uma aproximação crua que pode admitir outros valores aproximados, na realidade um que os exige a todos. Ele condena explicitamente tudo que proclame ser "a única versão", é apenas "uma versão entre muitas".

"Em cada uma destas versões, as regras do senso comum estão suspensas de alguma forma. Isto não é invulgar na ficção recente. Mas aqui estamos a lidar com algo diferente da narrativa em que tudo pode acontecer - e acontece constantemente. Saramago adoptou uma exigente disciplina artística que autoriza as leis da natureza e do senso comum a serem violadas apenas num aspecto decisivo e que então segue as consequências desta irracionalidade com toda a racionalidade lógica e observação exacta de que é capaz." [A propósito, Espmark citou os casos de O Ano da Morte de Ricardo Reis, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho segundo Jesus Cristo e Memorial do Convento.]

"Esta obra rica, com as suas perspectivas constantemente mutáveis e renovadas imagens do mundo, recebe a sua unidade de um narrador cuja voz está sempre connosco. Aparentemente é um contador de histórias da velha espécie omnisciente, um mestre de cerimónias de pé no palco, comentando-as, guiando os seus passos. Mas Saramago usa esta técnica tradicional com divertida distância. O narrador desenvolve um moderno cepticismo quando confrontado com a omnisciente proclamação de ser capaz de dizer em que pé estão as coisas. O resultado é uma literatura caracterizada, simultaneamente, por uma sagaz reflexão e por uma visão interior dos limites da sagacidade, pelo fantástico e por um realismo preciso, por uma empatia cautelosa e por uma acuidade crítica, pelo calor e pela ironia. Essa é a amálgama, única, de Saramago."

[Dirigindo-se directamente ao laureado, e usando o português] "Caro José Saramago, quem tentar, em poucos minutos, retratar a sua obra acaba por articular uma série de paradoxos. Criou um cosmos que não quer ser um universo coerente. Deu-nos versões engenhosas de uma história que não se deixa aprisionar. Entrou no palco como o género de narrador com que há muito nos familiarizámos - mas com todas as nossas liberdades contemporâneas nos seus dedos e imbuído de um cepticismo actual acerca do conhecimento definitivo. A sua marca distinta é a ironia associada a uma simpatia, distância sem distanciação. Espero que este prémio atraia muitas pessoas para o seu mundo rico e complexo. Desejo exprimir as felicitações da Academia Sueca ao mesmo tempo que lhe peço que receba o Prémio Nobel da Literatura das mãos de Sua Majestade o Rei."

Professor Kjell Espmark, membro da Academia Sueca e presidente do Comité Nobel

Estocolmo, 10 de Dezembro, 1998"

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Quando duas pessoas se casam sob o espírito Saramaguiano... "Aqui, agora, construímos uma “Esquina do Tempo”


(Ódin observando o mural de fotografias na 
Fundação José Saramago - Casa dos Bicos - Lisboa)

"Aqui, agora, construímos uma “Esquina do Tempo”

Nesta esquina do tempo, onde o tempo é um "espaço físico", se une o passado como um acto que foi, e um futuro que será. O presente, esse não existe, é uma passagem, porque não podemos parar os momentos.

«Entendo o tempo como uma grande tela, uma tela imensa, onde os acontecimentos se projectam todos, desde os primeiros até aos de agora mesmo. Nessa tela, tudo está ao lado de tudo, numa espécie de caos, como se o tempo comprimido e além de comprimido espalmado, sobre essa superfície; é como se os acontecimentos, os factos, as pessoas, tudo isso aparecesse ali não diacronicamente arrumado, nas numa outra «arrumação caótica», na qual depois seria preciso encontrar um sentido.
Isto tem muito que ver com uma ideia que é a da não existência do presente. A única coisa que efectivamente há é passado e o presente não existe; é qualquer coisa que se joga continuamente, que não pode ser captada, apreendida, que não pode ser detida no seu curso; e portanto, uma vez que não pode ser detida, em momento nenhum eu posso intersecta-la.»
em Diálogos com José Saramago de Carlos Reis (Pág. 84)

Aqui projectamos uma imensa tela. Uma tela que paira sobre as nossas cabeças como se estivéssemos a observar uma carta celeste.
Nesta esquina do tempo, neste momento, damos lógica á teoria de que «o caos é uma ordem por decifrar».

Quem nos poderia ajudar a decifrar o caos?

Quem poderia dar justificação a este acto?

Eis então que fizemos uma lista de convidados.

Aqui está o elefante Salomão e seu cornaca Subhru, que partindo de Lisboa seguiram a passo pela Europa fora, até às longínquas terras da Áustria. (A Viagem do Elefante)

Da Olaria Algor, vieram o oleiro Cipriano Algor, sua filha Marta e o genro Marçal Gacho, sobreviventes do demoníaco Centro Comercial. (A Caverna)

Enviámos o mesmo convite para dois iguais. Não são gémeos mas são duplicado um do outro sem se perceber qual o original. Tertuliano Máximo Afonso, o professor de História e o actor Daniel Santa-Clara. (O Homem Duplicado)

Da União Ibérica viram sentir o pulsar da terra de Lisboa. Pedro Orce e o cão Ardant, Joaquim Sassa e José Anaiço. Joana Carda e Maria Guavaira. A península Ibérica separou-se pelos Pirinéus e viajámos pelo Atlântico. (A Jangada de Pedra)

Mandámos convidar Luis de Camões, que tendo escrito “Os Lusíadas” muito penou nas cortes de Lisboa para ter a possibilidade de imprimir e publicar o seu livro. Sem dinheiro para tal ofereceu o manuscrito à tipografia de António Gonçalves. (Que Farei com Este Livro?)

Da noite de 24 de Abril de 1974, estão presentes o redactor Torres e a estagiária Cláudia. Eles que garantiram uma revolução dentro da redação de um jornal alinhado com os poderes podres. (A Noite)
Do nosso Alentejo, vem a carne da luta e a terra de quem a trabalha. Chegaram Manuel Espada e Gracinda. (Levantado do Chão)

Foi preciso convidar alguém que nos levasse pelos céus e tivesse o dom de querer voar. Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, acompanham o padre Bartolomeu Lourenço, na sua “passarola” fugido das inquisições. (Memorial do Convento)          

Raimundo Silva, ilustre revisor de textos, que com a palavra «Não», deu uma nova interpretação ao sentido da história, está presente com Maria Sara, mulher que o fez renascer, e que, com quem numa janela virada para as muralhas do Castelo de São Jorge, descobriram o amor entre Mogueime e Ouruana. (História do Cerco de Lisboa)

Mesmo a tempo, atracou em Lisboa, perto da Casa dos Bicos, o navio Highland Brigade, vem de Buenos Aires com destino a Londres. A escala em Lisboa, serve para nos fazer chegar Ricardo Reis e seu mui nobre amigo Fernando Pessoa. (O Ano da Morte de Ricardo Reis)

Abel e Caim, entretanto de pazes feitas, irmãos de sangue que a história não devia tê-los feito desavindos (Caim), acompanham Maria de Magdala. Mulher que ensinou as artes da vida terrena a Jesus (O Evangelho Segundo Jesus Cristo)

Todos são bem-vindos. Mas a presença da Mulher do Médico e do Cão das Lágrimas, são motivo de enorme orgulho. Ela porque não estando cega fez-se passar por tal, para acompanhar o seu marido, e viveu das piores experiências que alguém pode presenciar. O Cão das Lágrimas, porque num momento de desespero desta sua companheira, teve o poder de a reconfortar ao lamber-lhe as lágrimas que caiam pela face. (Ensaio sobre a Cegueira)

Um olá especial, a Artur Paz Semedo, que mesmo não lhe conhecendo o fim da sua história, sabemos o início através de uma pergunta. Porque é que as fábricas de armamento nunca fazem greves? (Alabardas Alabardas Espingardas Espingardas)

Convidámos também uma senhora que tempos idos, andou a distribuir uns envelopes de cor violeta. Essa senhora chama-se morte. Apaixonou-se pelo violoncelista que a acompanha, e tornou-se numa linda mulher que descobriu o amor. (As Intermitências da Morte)

Enigmático este casal, ele chama-se H e ela M. Um retratista que abandona as telas e se torna escritor. Uma mulher revolucionária que vê nascer a esperança na madrugada de 25 de Abril de 1974. (Manual de Pintura e Caligrafia)

E um agradecimento especial, ao solitário funcionário da Conservatória Geral do Registo Civil, o senhor José, que através de um simples verbete, de uma mulher desconhecida, faz a absurda busca para descobrir o seu paradeiro. (Todos os Nomes)

E por fim. O viajante. Aqui está o viajante. O homem que percorreu Portugal e o Mundo. Disse muitas coisas. Escreveu outras tantas coisas. E tal como o tempo é composto de passado que foi e futuro que virá a ser, a história deste viajante foi a celebração da vida.

«O Viajante volta já. (…) A viagem não acaba nunca. (…) O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.» 
em “Viagem a Portugal” página 387.

Mas não subiu aos céus, se à terra pertencia.   

Texto realizado para assinalar o acto de Casamento Civil 
Rui Santos e Helena Mesquita
15/06/2015




Leitura final de encerramento, por Ódin Santos

Amar
Ter amor, afeição, devoção
Viver
Querer Bem
Ter vida
Estimar
Durar com vida
Morrer, deixar de viver, gostar, desejar muito, não chegar a concluir-se

“As festas em geral põe-me melancólico mas no regresso dei por mim a dizer a Pilar 
– «Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de te conhecer, 
morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora».

Encontramo-nos noutro sítio.
(Excerto retirado do documentário José & Pilar)

domingo, 14 de junho de 2015

Post no Livro/Blog "O Caderno 2" intitulado "Dias felizes", sobre o texto que Umberto Eco publicou sobre José Saramago "Um blogger chamado Saramago"


Pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/61115.html

José Saramago com Umberto Eco, no Mosteiro de Yuste (1998/Reuters)

"Dias felizes"
"O excelente artigo de Umberto Eco intitulado “Um blogger chamado Saramago” que havia sido publicado há alguns dias no “La Repubblica”, apareceu hoje no “El País” e aparecerá amanhã nas páginas do “Diário de Notícias”. Esse conjunto de textos breves, baptizado por mim para a edição em livro com o nome discreto de “O Caderno”, nasceu com sorte. Passado já ao castelhano, ao catalão e ao italiano, encontrou agora o melhor dos valedores possíveis na pessoa de Umberto Eco, cuja perspicaz análise vem sabiamente temperada pela graça da escrita e pela subtileza do humor. Não tenho o direito de alongar-me, muito menos comentar o que Eco escreveu. Basta-me a felicidade que sinto. Ao correr de todos estes anos, outros livros meus foram acolhidos com generosidade e simpatia, mas nenhum como este. Sou, neste momento, o mais grato dos escritores."

José Saramago, 6 de Outubro de 2009
em "O Caderno 2" - Caminho



O texto publicado, por Umberto Eco no "La Repubblica", "El País" e "Diário de Notícias", pode ser consultado aqui,
em, http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1382926&page=-1

"Um 'blogger' chamado Saramago"

"Curiosa personagem, este Saramago. Tem oitenta e sete anos e (diz ele) alguns achaques, ganhou o Nobel, distinção que lhe permitiria nunca mais produzir nada porque seja como for já tem no Panteão o seu lugar garantido (o avaríssimo Harold Bloom definiu-o "o romancista mais dotado de talento ainda em vida… um dos últimos titãs de um género literário em vias de extinção"), eis que aparece a manter um blog onde se mete um pouco com toda a gente, atraindo sobre a sua pessoa polémicas e excomunhões vindas de muitos lados - mais frequentemente não por dizer coisas que não deve dizer mas porque não perde tempo a medir as palavras - e talvez o faça mesmo de propósito.
O quê, ele? Ele que cuida da pontuação ao ponto de a fazer desaparecer, que na sua crítica moral e social nunca leva o problema a peito, mas poeticamente o contorna nos modos do fantástico e do alegórico, de modo que o seu leitor (embora suspeitando que de te fabula narratur) terá de pôr muito de si para compreender até onde vai parar o apólogo - como no seu Ensaio sobre a Cegueira -, faz viajar o leitor numa névoa leitosa em que nem sequer os nomes próprios, de que é bastante parco, dão um sinal claramente reconhecível, ele que no Ensaio sobre a Lucidez faz uma opção política decidida com base em enigmáticos votos em branco? E este escritor fantasioso e metafórico vem dizer-nos despreocupadamente que Bush é de "uma ignorância abissal, e uma expressão verbal confusa perenemente atraída pela irresistível tentação do puro despropósito", cowboy que confundiu o mundo com uma manada de vacas, que não sabemos sequer se pensa (no sentido nobre da palavra), robot mal programado que constantemente mistura mensagens que tem registadas lá dentro, mentiroso compulsivo, corifeu de todos os outros mentirosos que o aplaudiram e serviram nos últimos anos? E este delicado tecelão de parábolas usa palavras que não deixam margem para dúvidas quando define o dono da editora que o publica? E este ateu manifesto, para quem Deus é "o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a este silêncio", repõe Deus em cena para se interrogar sobre o que pensa Ratzinger? E, militante comunista (ainda tenazmente), põe-se a gritar que "a esquerda não tem uma puta ideia do mundo em que vive", e ainda por cima se queixa de não ter tido resposta (sei lá, uma expulsão, uma excomunhão ao menos)? E arrisca-se à acusação de anti-semitismo por ter criticado a política do Governo de Israel simplesmente esquecendo-se, na sua irada participação nas desventuras palestinas, de se lembrar - como uma equilibrada análise pretenderia - que há quem negue o direito à existência de Israel? Mas ninguém leva em conta que quando fala de Israel Saramago pensa em Jahvé, "Deus feroz e rancoroso", e neste sentido não é mais anti-semita do que é antiariano e certamente anticristão, dado que para todas as religiões procura ajustar contas com Deus - que evidentemente, chame-se como se chamar nas várias línguas, não cessa de o importunar. E ser importunado por Deus é certamente motivo de ira furibunda contra todos os que dele fazem armadura.
Se tivesse sempre em conta os prós e os contras, Saramago também saberia que há inventivas e inventivas. Cito (de cor) Borges, que citava (talvez de cor) o doutor Johnson, que citava o facto daquele tal que insultava assim o seu adversário: "Senhor, a vossa mulher, com a desculpa de ter um bordel, vende tecidos de contrabando." E afinal Saramago não faz cerimónias, ou seja, não o manda dizer por outro e, na sua actividade de comentador diário da realidade que o rodeia, tira a desforra sobre toda a imprecisão sinistra das suas fábulas.
Tem-se falado muito do ateísmo militante de Saramago. Com efeito, a sua polémica não é contra Deus: uma vez admitindo que "a sua eternidade é só a de um eterno não-ser", Saramago poderia estar sossegado. A sua aversão é contra as religiões (e é por isso que o atacam de vários lados, negar Deus é concedido a todos, enquanto polemizar com as religiões põe em causa as estruturas sociais).
Uma vez, precisamente estimulado por uma das intervenções anti-religiosas de Saramago, reflecti sobre a célebre definição de Marx, para quem a religião é o ópio dos povos. Mas é verdade que as religiões têm sempre todas esta virtude soporífera? Saramago várias vezes tem atacado as religiões como fontes de conflito: "As religiões, todas elas, sem excepção, nunca servirão para aproximar e reconciliar os homens; pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos indescritíveis, de chacinas, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da mísera história humana" (La Repubblica, 20 de Setembro de 2001).
Saramago concluía algures que "se fôssemos todos ateus viveríamos numa sociedade mais pacífica". Não tenho a certeza de que tivesse razão, e parece que indirectamente lhe teria respondido o papa Ratzinger na sua encíclica Spe salvi, em que dizia que é o ateísmo dos séculos XIX e XX, se bem que se tenha apresentado como protesto contra as injustiças do mundo e da história universal, que fez que "de tal premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça".
Talvez Ratzinger pensasse naqueles sandeus de Lenine e Estaline, mas esquecia-se que nas bandeiras nazis estava escrito "Gott mit uns" (que significa "Deus está connosco"), que falanges de capelães militares benzeram os arruaceiros fascistas, que inspirado em princípios religiosíssimos e apoiado por Guerrilheiros do Cristo-Rei era o massacrador Francisco Franco (independentemente dos crimes dos adversários, foi sempre ele que começou), que religiosíssimos eram os Vandeanos contra os Republicanos, que até tinham inventado uma Deusa Razão, que católicos e protestantes se massacraram alegremente durante anos e anos, que tanto os Cruzados como os seus inimigos eram impelidos por motivações religiosas, que para defender a religião romana se puseram os leões a comer os cristãos, que por razões religiosas se acenderam inúmeras fogueiras, que religiosíssimos são os fundamentalistas muçulmanos, os autores do atentado das Twin Towers, Osama e os talibãs que bombardearam os Budas, que por razões religiosas se opõem a Índia e o Paquistão, e por fim que foi a invocar God Bless America que Bush invadiu o Iraque.
Por isso me punha a reflectir que talvez (se por vezes a religião é ou foi o ópio dos povos) com maior frequência tem sido a sua cocaína. Creio que esta é também a opinião de Saramago e ofereço-lhe a definição - e a sua responsabilidade. Saramago blogger é um zangado. Mas haverá realmente um hiato entre esta prática de indignação diária sobre o transeunte e a actividade de escrita de "opúsculos morais" válidos tanto para os tempos passados como para os futuros? Escrevo este prefácio porque sinto ter alguma experiência em comum com o amigo Saramago, que é a de escrever livros (por um lado) e por outro a de nos ocuparmos de crítica de costumes num semanário. Sendo o segundo tipo de escrita mais claro e divulgador que o outro, muita gente me tem perguntado se eu não despejaria nas pequenas peças periódicas reflexões mais amplas feitas nos livros maiores. Não, respondo eu, ensina-me a experiência (mas creio que o ensina a todos os que se encontrarem em situação análoga) que é o impulso de irritação, a dica satírica, a chicotada crítica escrita à pressa, que fornecerá a seguir o material para uma reflexão ensaística ou narrativa mais desenvolvida. É a escrita diária que inspira as obras de maior empenho, e não o contrário.
E pronto, eu diria que nestes breves escritos Saramago continua a fazer a experiência do mundo tal como desgraçadamente ele é, para depois o rever a uma distância mais serena, sob a forma de moralidade poética (e às vezes pior do que é - embora pareça impossível ir mais longe).
Mas depois, estará realmente sempre assim tão zangado este mestre da filípica e da catilinária? Parece-me que além da gente que ele odeia também existe a gente que ele ama, e eis as peças afectuosas dedicadas a Pessoa (não se é português em vão) ou a Jorge Amado, a Carlos Fuentes, a Federico Mayor, a Chico Buarque de Hollanda, que nos mostram que este escritor é pouco invejoso dos colegas e sabe tecer-lhes delicadas e ternas miniaturas.
Para não falar (e eis o retorno aos grandes temas da sua narrativa) de quando da análise do quotidiano salta para os grandes problemas metafísicos, para a realidade e a aparência, para a natureza da esperança, para como são as coisas quando não estamos a olhar para elas..
Então volta à cena o Saramago filósofo-narrador, já não zangado mas meditativo e incerto. Contudo não nos desagrada mesmo quando se enfurece. É simpático."

Umberto Eco
em "Diário de Notícias", a 7 de Outubro de 2009

Citador #39 ... os conflitos e irregularidades do Sr. José da Conservatória Geral em "Todos os Nomes"

Citador #39
... os conflitos e irregularidades do Sr. José da Conservatória Geral
"Todos os Nomes"
Caminho, página 34



(...) "Não se mexeria do seu canto, não entraria na Conservatória nem que lhe viessem prometer a fortuna inaudita de descobrir o documento que mais procurado tem sido desde que o mundo é mundo, nem mais nem menos que o registo oficial do nascimento de Deus. O sábio é sábio consoante o grau de prudência que o exorne, diz-se, e, ainda que desoladoramente imprecisa e indefinível, há que reconhecer no Sr. José, não obstante as irregularidades que vem cometendo nos últimos tempos, a existência de uma espécie de sabedoria involuntária, daquelas que parecem ter entrado no corpo por via respiratória ou por dar o sol na cabeça, e por isso não são consideradas dignas de particular aplauso." (...)

sábado, 13 de junho de 2015

Livro/Blog "O Caderno" - Post sobre Álvaro Cunhal

No dia em que se assinalam os 10 anos da morte de Álvaro Cunhal, recupero o post que José Saramago deixou para memória futura.

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/55262.html

(Fotografia, após chegada de Álvaro Cunhal, do exílio a Portugal)



"Álvaro Cunhal"

"Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Greene disse a Eduardo Lourenço: “O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal”. O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta."

José Saramago
em "O Caderno 2"
(31 de Julho de 2009)

A Revista Cultural "La Laguna" entrevista Luis Pastor


A Revista Cultural "La Laguna", publicou uma entrevista com Luis Pastor, que pode ser consultada e lida aqui, em http://www.revistalalaguna.com/entrevista-luis-pastor.html


"Luis Pastor - ¿Que Fue De Los Cantautores?"


El mundo de la música, tan propenso como cualquier otro a dejarse seducir por los cantos de sirena de los que manejan los hilos, tiene entre sus más insignes integrantes a un artista que ha sabido -y ha querido- realizar el conjunto de su obra alejado del entramado que rodea a la industria musical, donde casi siempre, inevitablemente, el precio es la libertad, la creativa y quizás también la otra.
Ese empeño de Luis Pastor (Berzocana, Cáceres. 1952) por no dejarse “domesticar”, ha estado ligado siempre a su compromiso con los que engrosan la inmensa balsa pétrea de los olvidados; voz necesaria siempre, es en tiempos como estos donde su palabra se hace imprescindible.
Con una trayectoria profesional  de más de 40 años, entre sus composiciones se encuentran algunas de las más hermosas canciones escritas en lengua castellana. Infatigable en la búsqueda de nuevas experiencias, ha buceado en la música popular de África o América.
“El viaje del elefante” es el proyecto que acaba de presentar, donde pone música a 14 poemas de José Saramago para el espectáculo creado por la compañía “Trigo Limpio Teatro ACERT” sobre la historia homónima del autor portugués. El fado, la morna y la chula, Portugal y Cabo Verde... la fusión, en definitiva, musical y sentimental que desde su comienzos ha estado íntimamente ligada a la trayectoria de Luis Pastor.

¿Cómo surge la posibilidad de poner música a “El viaje del elefante”?
Mi relación con el grupo de teatro ACERT, de Tondela viene de muchos años atrás. Ellos hacen un festival de músicas del mundo y desde el año 1996, con “Diario de a bordo”, he tenido presencia en ese lugar. Es un grupo de teatro que lleva 38 años existiendo en un pueblo de diez mil habitantes que tiene un centro cultural impresionante.
Yo había musicado a José Saramago en el disco-libro “En esta esquina del tiempo”; cuando nació la idea en el grupo de teatro de asumir la novela de Saramago como una obra de teatro de calle, el director vino un verano a casa para proponerme que hiciese las músicas de “El viaje del elefante”. En un principio, yo planteo que en lugar de hacer letra y música para esa obra de teatro, ya dentro de la obra poética de José existían temáticas que tenían que ver con las escenas que habían elegido para la obra. En Tondela, con “A cor da lingua” (la sección de músicos de ACERT), montamos las canciones. Este es el tercer verano que hacemos el espectáculo en distintas ciudades de Portugal. En cada ciudad hay cien voluntarios que participan como actores en la obra, ayudados durante esa semana por los miembros de la compañía.

¿Qué ha supuesto en tu obra y en tu vida José Saramago?
El haber compartido ratos, días y momentos con José ha sido un placer. Diez años antes de grabar “En esta esquina del tiempo” ya nos conocíamos personalmente. Cada vez que iba a Lanzarote a presentar un disco, al día siguiente iba a su casa a tomar café. Habíamos tenido participación conjunta en las movilizaciones del “No a la guerra”, en la primera manifestación que se hizo en Lanzarote a nivel mundial en 2003. La noche antes compuse “No a la guerra” y él dio un discurso al final de la manifestación.
Ha supuesto sobre todo la llegada personal a un puerto que tiene que ver con la música y la lengua portuguesa, que siempre ha estado presente en mi música, desde que a los diecisiete años descubrí a José Afonso, a Fausto, a Sergio Godinho, a José Mario Branco. A tanto cantautor portugués con los que compartimos esperanzas y luchas en aquellos años, que llevaron a mi música por un mundo por el que siempre quise transitar, y que me hizo pensar que acabaría grabando un disco en portugués. Creí que sería un disco con canciones de Jose Afonso, porque he cantado toda la vida sus canciones, le he hecho homenajes cuando él estaba enfermo. En el año 1987 cantaba todos los lunes sus canciones en el “Elígeme” de Madrid para mandarle a él y a su familia dinero. Pero el día que José me regaló el libro con su poesía completa -que se iba a publicar a la semana siguiente- y de broma le dije que le iba a musicar sus poemas. Cuando me subí al avión y empecé a leer esa poesía escrita  cuarenta años atrás, parecía que me estaba esperando; tenía tanto que ver con el mundo poético, surrealista y al mismo tiempo crítico y social de las canciones y la poesía de Jose Afonso.
Pensé que iba a ser una vez solo, pero con la llegada de este maravilloso proyecto de “El viaje del elefante”, ahora mismo tengo veintiocho canciones en mi repertorio con sus poemas. Once de ellas arregladas para orquesta sinfónica, que se han interpretado en el Festival de la Guitarra de Córdoba, con la sinfónica de Cordoba; en Lisboa con la Metropolitana, y en Rivas-Vaciamadrid con la orquesta Athanor, formada por los alumnos y profesores de la escuela de música del barrio.



Contaba Saramago que su abuelo, instantes antes de morir, se abrazó uno por uno a los árboles de su huerto para despedirse de ellos. Ese maravilloso gesto parece dejar entrever la gratitud por una vida plena...”Por la luna de tu cuerpo”, “Luna abril”, “Amanecer”...¿cuáles son tus árboles más queridos?
El árbol más querido -cuando uno tiene una edad- es la infancia. En mi caso me remite a la naturaleza, al campo, al huerto, a los olores y a los sabores; a las imágenes que por más tiempo que haya vivido uno en la ciudad siempre lo devuelven a la aldea.
Hay una cercanía en la imágenes de las fotografías en blanco y negro de las generaciones de nuestros padres y abuelos (tanto en Portugal como en España), que pasa por la miseria, que pasa por la incultura, por el campo y los jornaleros; por un mundo que supo retratar tan bien José Saramago en “Levantado del suelo”.
Es verdad que en mi mundo de la infancia existen los árboles físicos que pueblan mi memoria, pero  también los árboles de la ternura, los árboles de los recuerdos; los rostros que nunca más van a estar pero que te acompañarán siempre. La imagen de tu abuelo sastre y sacristán que se emborrachaba todas las noches; el corral, las gallinas, el huerto...Todo lo que cuento en alguna de las canciones posiblemente más bonitas que haya escrito. La primera fue “Flor de Jara” en los años ochenta, y posteriormente la canción “Soy”, que es mi biografía. Si me tuviera que agarrar a algún árbol sería a “Soy”.

En tu anterior trabajo te preguntabas sobre el destino de los cantautores de tu generación. Desde tu implicación directa en la lucha por las libertades durante la transición, ¿Crees que es necesario acometer un proceso sereno de reflexión sobre ese periodo fundamental de nuestra historia reciente?
Hay una cultura que ha formado mi manera de ser como persona y como cantante que tiene que ver con las raíces obreras, las raíces vecinales y las cristiano-marxistas. Con el mundo que vivimos una generación que fue capaz de ser valiente, de luchar contra la dictadura y creer en la fuerza de la colectividad; ése es nuestro bagaje y nuestras señas de identidad.
Esa reflexión yo la vengo haciendo en mis poemas y canciones y, evidentemente, en “¿Qué fue de los cantautores?”, mi anterior trabajo. Si hoy día hay una reflexión sintetizada de cuarenta años de historia de este país, creo que es ése poema, que además es inatacable desde la propia derecha.
¿Qué fue de los cantautores?” es la verdad de alguien que no ha jugado a la ambición, que no ha jugado al poder ni al dinero, que ha sido coherente con lo que aprendió en su juventud y que ha podido vivir de algo tan maravilloso como es cantar.



La renuncia a la 3ª república, la aceptación de la monarquía por parte del Partido Comunista, el abandono de las doctrinas marxistas del Partido Socialista, la entrada en la OTAN... ¿Mereció la pena la los años de resistencia franquista y la lucha por las libertades?
Los análisis históricos, una vez pasado el tiempo, demuestran que podía haber sido otra la realidad. El primer desencanto de mi generación y de gente como yo, que nos lo creíamos, llegó después de las primeras elecciones.
En mi caso personal me llevó a dejar de cantar. En el año 79 decido bajarme de un caballo triunfador, con mi tercer disco en la calle y dando recitales en todos los teatros de España. Como consecuencia de un programa de televisión que nos dio Suárez (donde saqué el barrio de Vallecas y una bandera republicana en un mitin del PSP), dieron lugar a situaciones muy agresivas y violentas en los recitales: amenaza de bomba en el Teatro Alcalá con los policías entrando con los perros en el intermedio; amenaza de incendio en Santander y amenazas de la extrema derecha a los teatros para que no se celebraran mis conciertos...
¿A qué nos habría llevado en ese momento la ruptura con lo anterior? Posiblemente a un enfrentamiento de las dos Españas de siempre, o quizás a haber hecho justicia, que no se hizo.
El primer desengaño lo vivimos en ese momento, además, esa farsa de golpe de estado hizo a todo el mundo virar hacia el PSOE, otorgar mayoría absoluta a Felipe González y es verdad que ahí hay una realidad que empieza a cambiar. El fascismo esconde las orejas, les da vergüenza asumir quiénes son (hoy ya no les da, y vuelven a sacar sus banderas y sus insignias). Sí, hubo un momento en que una mayoría social de este país supo arrinconar a los eternos vencedores de la historia de España.
 A toro pasado podía haber sido de otra manera, es verdad. Pero es la nueva generación de jóvenes, golpeados por una realidad que vuelve a ser parecida a la de mi juventud, o incluso más dura porque hoy no se ven perspectivas de futuro, los que tienen la palabra.
Y volvemos a ser “los otros” que yo anunciaba al final del siglo pasado. Para que nos pusiéramos en el lugar de los que estaban viviendo lo que ahora volvemos a ser, mano de obra barata, excluidos de nuestros derechos, robados, marginados en una sociedad que no entiende de humanidad.
El capitalismo triunfante desde la caída del muro no necesita justificarse ni ser generoso con los trabajadores. Está imponiendo una guerra desde hace años que nos ha llevado a esto que ellos llaman crisis y que en el fondo es un engaño.
Creo que gente como yo seguimos siendo resistentes, todavía tenemos capacidad de ilusión, de contagio, de entusiasmo; seguimos creyendo en la bondad, porque si no, evidentemente, habríamos arrojado la toalla.

“Creo en el hombre...” así comienza “Fidelidad” de Blas de Otero, inmenso poema que musicaste en el disco del mismo título. En una sociedad -en su mayoría- indolente y resignada, ¿Se puede seguir creyendo en el hombre?
Creo que es lo único en lo que podemos creer. Saramago decía que si hay una revolución en la que cree es la de la bondad, y en eso entra, por supuesto, el ser humano.
Cuando yo tenía dieciocho años, lo que aprendía no era solo que íbamos a hacer la revolución sino que íbamos a ser capaces de cambiar al hombre, de desaprender lo que nos habían obligado a ser. Desde todo lo que representaba a nivel represivo la enseñanza de la religión (que influía en nuestro pensamiento, en nuestra sexualidad, en nuestras vidas), hasta la libertad de pensamiento y la libertad de palabra. Es la única esperanza que tenemos.
Es en los peores momentos cuando más clara se ve la capacidad del ser humano de sacar lo mejor de sí. En estos años de crisis vemos cómo son los propios ciudadanos los que crean redes de ayuda alimentaria, de solidaridad con el que va a ser desahuciado; son los ciudadanos los que toman la calle en mareas de todo tipo para que no nos aplasten.
Creo que es en eso en lo que podemos creer, porque lo demás es palabrería. Sobre todo desde el lado más pragmático de la política que al final es la mentira. Nos quieren sujetos pasivos y no ciudadanos libres.
Llevábamos años en que nos teníamos que tapar la nariz para votar entre lo malo y lo peor. Hoy día se abren otras posibilidades y otras formas de exigencia para que el político vuelva a asumir el papel para el que fue elegido. El político se ha profesionalizado y se ha olvidado de por qué llegó ahí. Y muchos de ellos cuando eran jóvenes tenían ideas maravillosas, pero se han dejado pudrir. Y en esa podredumbre que sube por nuestros pies es en lo que estamos todavía.

(Pedro Pastor, Luis Pastor e Lourdes Guerra)


Tienen los músicos una suerte de vida trashumante, la libertad plena del que se encuentra en un continuo viaje a ninguna parte. En 2003 ruedas “Escenario móvil”, documental dirigido por Montxo Armendáriz que relata una gira de conciertos que realizaste por pueblos de Extremadura. ¿Qué nos puedes contar de esa experiencia?
Cuando llega la autonomía a Extremadura, dos personas que pertenecían a un grupo de teatro se inventan unos camiones que llegan en verano a las plazas de los pueblos y se convierten en un escenario móvil. Ese proyecto lleva ya funcionando treinta años, y yo todos los veranos tuve presencia en ese proyecto. Cuando mis niños eran pequeños, en mi pueblo montaba el cuartel y acabábamos viviendo dos meses en Extremadura. Era un ejercicio de humildad, porque llegas a una aldea, cantas junto al cementerio o en la plaza del pueblo, rodeado de bares, con ochenta niños corriendo y viejitos con la garrota que no sabes si les estás gustando o no. Es un sitio difícil de torear pero al mismo tiempo interesante.
Un día le cuento a Montxo el proyecto y se queda fascinado. Un par de años más tarde me propuso hacer el documental. Elegimos los pueblos más bonitos y planteamos la idea principal del documental: contar la realidad de la Extremadura de final del Siglo XX. Una Extremadura polémica porque incluía Las Hurdes, que arrastraba la historia negra de la película de Buñuel y que ha permanecido en el tiempo hasta hoy. En los años setenta era impensable que nadie se acercase por las calles de Las Hurdes con una cámara porque la gente reaccionaba mal. Se habían sentido dolidos, maltratados, aunque esa era su realidad y la película fue una denuncia de la incomunicación y la miseria del campesinado.
El documental “Escenario Móvil” resultó una experiencia bonita, siempre quedará ahí para el recuerdo.

Llevas años reivindicando la copla, que al igual que el flamenco, sufrió unos años de enorme desprestigio. ¿se ha sido injusto con esos géneros a causa de prejuicios ideológicos?
Yo los he tenido. Con siete años era un niño de copla, era “Joselito”. Tenía la misma voz de pito que él. Era mi ídolo junto con Marisol, Farina...lo que escuchaba por la radio o cantaba mi padre en el campo cuando araba la tierra.
La primera vez que salí de mi casa solo en Madrid, fue a comprarme una partitura de piano a la Unión Musical de la Carrera de san Jerónimo, porque participaba en un concurso de Radio España cantando una canción de Manolo Escobar. A los catorce años me pongo a trabajar y me empieza a cambiar la voz, y ya pensé que no iba a ser cantante. Con quince años me compro mi primera guitarra y llego a la canción a través de la política. En el barrio había curas obreros y seminaristas, uno de ellos tocaba la guitarra y con él aprendí los primeros acordes; empecé a cantar canciones de Atahualpa Yupanqui  en la misa de jóvenes de mi barrio y también cosas de Paco Ibáñez. Descubrí unas músicas diferentes, una manera de cantar diferente, y me alejé de todo lo que tenía que ver con la copla o el flamenco. Hasta Serrat, que en el fondo es el más coplero, era al que menos oía; su tímbrica y su vibrato está muy cercano a la copla, y él eso no lo perdió nunca, todo lo contrario, le dio una dimensión diferente, por eso Joan Manuel Serrat es el más grande.  Yo me puse a descubrir otros cantantes y a aprender a cantar de otro modo con  Daniel Viglietti, Violeta Parra, Joan Baez, todo lo que estaba sonando en el mundo a nivel de canción popular y de protesta.
Carlos Cano, compañero de lucha y de canto, es un tipo que asume sus raíces, indaga en la copla y el folklore de su tierra y los dignifica, quitándole la caspa de la que se había impregnado en los años en que la dictadura se apropió de esas señas de identidad que eran de todos. Pasaba igual con el fado, el único disco de fado que había en mi casa era de Carlos do Carmo, un disco de un poeta portugues que era del Partido Comunista. A Amália Rodrigues -a la que hoy adoro-, en la época donde estuve más en contacto con los cantantes portugueses de aquella generación, no la oía, ni ellos tampoco. Les pasaba lo mismo que a nosotros aquí con la copla. Una vez que otras generaciones y otras voces asumen esas canciones, uno ve el auténtico valor de esas músicas.
De alguna manera, sin yo quererlo, ese grifo que cerré en mi adolescencia gotea y salen cosas, como “Mi guitarra” del disco-libro “Soy”, que la llevo a los jaleos extremeños.

Tu relación con la industria discográfica no ha sido fácil  ¿Cuáles son los motivos por los que decides crear “Flor de jara”, tu propio sello discográfico?
Por la realidad que se vive en el mundo de la música. Llegó un momento donde las discográficas se creyeron que todo el monte era orégano, y aquel que no vendía más de doscientos mil discos empezó a ser pasto de la trituradora de la maquinaria de la marginalidad. Cuando retomo mi carrera en el 82 grabo con Movieplay y Fonomusic. A partir de ese momento me doy cuenta de que ya no nos querían. Y menos a gente problemática como yo que hace dimitir al director de programación de TVE. A mí me salva -a nivel discográfico- el hecho de hacer de ciego en televisión y cantar canciones políticas. Cuando desde la industria musical olvidaron a los cantautores, el público hablaba los lunes de lo que había dicho el ciego en la tele. Me contrata otra multinacional, grabo al ciego, sigo grabando otro disco, al año siguiente me tengo que ir a otra compañía porque nunca se cumplen las expectativas que ellos esperan, ya que sólo ven a nivel de la industria, que finalmente será lo que les entierre.
A final de los ochenta grabo “Aguas abril” con Polygram y me planteo fórmulas nuevas para seguir grabando. Hasta que llega un momento en que ya no es preciso grabar en los estudios de las casas de discos y puedes hacerlo en un estudio de un músico, o meterme en un pufo de cinco años porque me voy a grabar a Sao Paulo con Chico César el álbum “Pásalo”. Realmente lo que he hecho ha sido ser el dueño de mis discos, cosa que en los años setenta no lo era.
Fue un acierto con “El Europeo”, junto a Borja Casani, la creación de una serie de libros-discos (que estrenamos con  “Diario de a bordo”), ya que supuso que otra gente que venía de una línea diferente a la de los cantautores editara en este formato. La discográfica Karonte sigue haciendo estas ediciones.
En los últimos tiempos saco mis discos con el sello Sony-BMG, que se portan muy bien conmigo, incluso me adelantan los royalties con los que pago a los músicos y el estudio de grabación. El disco “El viaje del elefante” lo ha pagado el propio grupo de teatro ACERT y están vendiéndolo ellos. Quizás se pueda editar en España, ya que sólo está a la venta en Portugal.

¿Qué te parece la “revolución” que ha supuesto internet para la cultura?
No solo para la cultura, sino para las relaciones personales, para los mensajes, las luchas o los pensamientos. El pálpito del mundo circula por internet. Eso está cambiando nuestra forma de vida y nuestras costumbres. Tenemos una herramienta peligrosa pero también maravillosa.  A través de ese altavoz que llega a todos, cualquiera puede lanzar su pensamiento, su voz y sus ideas.
Internet ha democratizado el mundo de la música. Cuando mi hijo Pedro sacó hace medio año su disco, a los dos meses lo llamó la Warner para negociar un contrato discográfico que él se ha negado a firmar. Porque él viene de una generación donde son ellos solos, a través de esa maravillosa herramienta, los que son capaces de hacerse todo el trabajo que antes hacían una serie de intermediarios (discográficas, managers, representantes...). Son trabajadores de una manera diferente a la que un cantautor como yo entiende la vida del músico, que es el proyecto de un vago consciente que disfruta del tiempo libre, de no hacer nada, de sentarse a contemplar el sol, de leer un libro, de tocar un rato la guitarra. Es tan diferente la vida de mi hijo Pedro y a la vez tan parecida, viviendo al día, en la misma cuerda floja un hombre de 62 años y un muchacho de 20. Hace poco ha estado en Nueva York invitado por la Brigada Lincoln en un acto de las Brigadas Internacionales; con Muerdo se fue a dar conciertos en Colombia y se quedó a vivir por allí un mes o dos.  Es tan distinto hoy día el mundo, que lo que nos hace posible el estar allí, el estar aquí, el no estar pero estar, es esa nueva realidad virtual.

¿Qué hubiese sido del joven Luis Pastor si con 17 años no hubiese descubierto la poesía a través de un disco de Paco Ibáñez?
No fue solo Paco Ibáñez. Él fue la afirmación de que existía otra manera de entender la música que no tenía nada que ver con la fama, la comercialidad o el dinero. Tenía que ver con la cultura, la poesía, con lo profundo; con el alma y el espíritu, con los sentimientos y las emociones.
Luis Suárez Rufo, que había estudiado con los “curas para un mundo obrero”, fue un hombre clave en el barrio, había vivido el 68 en París y llegó con un disco de Paco Ibáñez debajo del brazo. Evidentemente, llamó la atención de alguien como yo que ya cantaba canciones protesta, canciones de la guerra o de testimonio, cosas que eran nuevas en un mundo que se te abría; devoraba toda la obra de los poetas porque nunca los habías tenido de esa manera.
La poesía había estado presente desde mi niñez, en mi pueblo persistía la cultura popular, la que se transmite de persona a persona. Tuvimos la suerte en Berzocana de que el maestro, ex-militar y fascista, era una buen ser humano, y aparte de hacernos cantar el ”Cara al Sol” formados en la puerta de la escuela, nos enseñaba diez minutos de canciones populares. Ninguna se me ha olvidado a pesar de tanto tiempo pasado. Esa memoria permanece toda la vida.

¿Qué canción te rondaba por la cabeza al despertar esta mañana ?
Soy de los que van a la compra por las mañanas tarareando. A veces, en el coche tienes puesto un disco que determina que esa canción es la que vas a silbar delante del carnicero o de la cajera. Hoy he estado cantado “Soy” en catalán. Joan Isaac ha terminado de grabar un disco de cantautores españoles (Aute, Sabina...) traducidas al catalán. De “Soy” ha hecho una  versión preciosa. La he llegado a cantar en catalán en Barcelona, es un gusto cantar en otros idiomas.
A los veinte años, la primera vez que me fui de casa de mis padres, estuve viviendo en Barcelona, donde grabé mi primer disco con la compañía Als 4 vents., Al contrario que  Madrid, que era  por entonces como una capital de provincias, aquello era Europa. Llegaban los barcos, los trasatlánticos, los hippies por las calles, las madrugadas en el Barrio Chino, tocando la guitarra por las Ramblas. Nunca he olvidado los años que pasé viviendo en esa maravillosa ciudad que en aquel tiempo era Barcelona

¿Estás preparando ya un nuevo proyecto?
Mi próximo trabajo discográfico se llama “Estos mares”. Es un proyecto que voy a hacer con Toñín Corujo y otros timplistas de las islas con  poemas y obras de catorce poetas y pintores canarios.