Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

domingo, 9 de agosto de 2015

"Era uma vez José e Pilar: o mural foi destruído para dar lugar a um parque de estacionamento" - Público (9/8/2015)

"Era uma vez José e Pilar: o mural foi destruído para dar lugar a um parque de estacionamento"


Pode ser consultado e lido, aqui
via site Jornal Público em http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/era-uma-vez-jose-e-pilar-o-mural-foi-destruido-para-dar-lugar-a-um-parque-de-estacionamento-1704537

Cláudia Lima Carvalho (09/08/2015)

"Mural feito em 2010 por quatro writers de Lisboa já não existe. Edifício, perto da Fundação Saramago, foi demolido na semana passada."


"José Saramago gritava Pilar. “Pilar, Pilar, Pilar”, vimo-lo repetir vezes sem conta no retrato íntimo que o realizador Miguel Gonçalves Mendes fez do casal no documentário de 2010, José e Pilar. Foi exactamente o filme que inspirou o mural que até há uma semana podia ser visto num edifício abandonado no Campo das Cebolas, em Lisboa. Naquele abraço, víamos e líamos o amor do Prémio Nobel da Literatura e da sua mulher, Pilar del Río. O edifício foi agora demolido para dar lugar a um parque de estacionamento.


“Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.” Estas palavras foram ditas pelo escritor português, que morreu em 2010, e apareciam por baixo do desenho de Nark, que há cinco anos, com os writers Ayer, Nomen e Pariz, transformou a fachada cor-de-rosa dos números 2 a 8 da rua do Instituto Virgílio Machado, junto à Casa dos Bicos, onde funciona a Fundação José Saramago.
 

O trabalho de Nark era o que mais se destacava na fachada: Saramago de olhos fechados e enternecido abraça Pilar que se esconde entre o rosto do escritor. Na longa parede havia ainda um outro retrato do casal, bem como várias citações retiradas do documentário de Miguel Gonçalves Mendes.

Na altura, a intervenção, cuja ideia partiu da produtora de José e Pilar, a JumpCut, contou com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, através da sua Galeria de Arte Urbana (GAU). Pouco antes da inauguração no final de 2010, Miguel Gonçalves Mendes dizia ao PÚBLICO que o mural obrigaria “as pessoas que passam por ali a pensar”, sendo aquela “uma forma de homenagear Saramago”.


Por estes dias, o realizador partilhou na sua página pessoal do Facebook o retrato de Nark e o espaço que agora existe: um grande vazio com destroços do edifício demolido. Sobre o sucedido, três palavras apenas: “Porque tudo é efémero”.

E é exactamente essa a palavra também usada pela Câmara de Lisboa. O PÚBLICO questionou a técnica da Galeria de Arte Urbana Inês Machado sobre o tema, e obteve uma resposta por email, não assinado, do departamento de comunicação da autarquia em que se lê que o graffiti “tratava-se de um projecto efémero”. A demolição do edifício estava prevista há muito tempo “no âmbito do Plano de Valorização e Requalificação do Campo das Cebolas”, “que inclui a construção de um parque de estacionamento por parte da EMEL [Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa]”, informa ainda a autarquia.
No mesmo email, lê-se que a homenagem ao escritor português e promoção do filme “inseriu-se na estratégia para a arte urbana em Lisboa, desenvolvida pelo Departamento de Património Cultural”. Estratégia essa que, frisam, “encara este tipo de manifestações artísticas com a efemeridade que as caracteriza”. “A arte urbana é por natureza efémera, e tanto a comunidade artística que a produz, como todos os agentes culturais, parceiros, proprietários dos suportes, interlocutores e produtores com que a GAU desenvolve trabalho e projectos nesta área sabem e aceitam essa condição.”


O desaparecimento deste trabalho, que foi resistindo ao tempo apesar de algumas vezes ter sido pintado com tags e outros graffiti por cima da arte já existente, “deve ser encarado com normalidade”, diz a autarquia, defendendo que tal “contribui para a rotatividade das obras expostas na cidade e para a renovação da paisagem urbana”.
Para memória futura fica apenas o registo na base de dados da Galeria de Arte Urbana, que se dedica à inventariação destas intervenções, "através da realização sistematizada de registos fotográficos (e videográficos) das obras executadas em Lisboa, desde o 25 de Abril de 1974 até à actualidade". 




sábado, 8 de agosto de 2015

Globo - "Dossiê Geral" o blog das confissões de Geneton Moraes Neto entrevista José Saramago (18/10/2009)


“A pergunta que não consigo responder é muito simples: 
Para quê? 
Para que tudo isso? 
Vou morrer sem encontrar a resposta. 
Creio que ninguém nunca encontrou”.

G1 - Globo - "Dossiê Geral" o blog das confissões

Recuperação da entrevista realizada por Geneton Moraes Neto, 18 de Outubro de 2009
Pode ser consultada e lida, aqui
em http://g1.globo.com/platb/geneton/tag/jose-saramago/

A ficha que a gente preenche quando chega a um hotel sempre pergunta qual é a nossa profissão.

Se dependesse de mim, eu escreveria : “agente provocador”.  

Imagino a cena de um filme B de décima-oitava categoria: o gerente da espelunca - com camiseta branca, barriga estufada e um lápis encaixado atrás da orelha - tiraria o cigarro de palha da boca, cuspiria de lado e me perguntaria, com voz fanhosa e entonação de personagem mal dublado de filme de TV : “Quer fazer o favor de dizer o que diabo significa “agente provocador” ? Alguma piadinha de mau gosto, por acaso ? Sinto muito, forasteiro, mas não temos vaga. É melhor você ir andando, se ainda estiver pensando em salvar a própria pele ! O último agente provocador que passou por aqui virou banquete para as águias daquela montanha. Get out of here, coiote!”.

Vou. Sem tiroteio, sem cenas de ação, sem pancadaria no saloon, sem cavalos em fuga, o filme B termina sob as vaias da plateia. Não poderia ser de outra maneira.

Mas, como todo filme deve ter uma ponta de verdade, o locutor-que-vos-fala declara que sim, se pudesse, escreveria as palavras  “agente provocador” no espaço destinado à profissão. Afinal de contas, que outras coisas úteis um repórter pode fazer na vida, além de cumprir o papel de agente provocador diante dos entrevistados ? Poucas. Pouquíssimas.

De vez em quando, a tática da provocação pode dar resultado. Ou seja: pode levar o entrevistado a produzir declarações interessantes.

Dou um exemplo aos senhores jurados. Quando fui entrevistar José Saramago, o escritor que permaneceu fiel ao Partido Comunista Português independentemente das mudanças da paisagem política, comuniquei ao meu demônio-da-guarda: “Vou dar uma cutucada no bicho. Vou insinuar que ele é um dinossauro político. Quero ver o que ele diz”. Meu demônio-da-guarda se limitou a expelir um daqueles suspiros com cheiro de enxofre e a rir uma risada de bruxa de desenho animado, como se dissesse: “Você vai levar uma patada. Quero ver!”   (a bem da verdade, diga-se que, tempos depois, o “dinossauro político” e “comunista de carteirinha” Saramago escreveu um artigo criticando pela primeira vez a rigidez de penas impostas pelo regime cubano a dissidentes. A lembrança do encontro com Saramago me veio quando li, neste fim de outubro, a notícia de que o homem acaba de lançar um novo romance – “Caim”, uma espécie de acerto de contas com Deus).

De fato, Saramago reagiu com alguma irritação à nossa provocação. A entrevista estava salva. Num gesto de cortesia, o português laureado com o Nobel de literatura ainda citaria o nome de três escritores brasileiros a quem ele concederia – de bom grado – o prêmio.

Ei-la:  

O senhor é até hoje filiado ao Partido Comunista Português. Não tem medo de ser visto como um animal político em vias de extinção?  

(O espírito de porco que quiser irritar o Prêmio Nobel de Literatura  José Saramago já sabe o que fazer : basta chamar o homem de  dinossauro político. Quando ouve a insinuação político-zoológica, o cordato Saramago imprime um tom incisivo à resposta)

Saramago: “Há muitas coisas em vias de extinção que deveriam preocupá-lo mais : profissões que se acabam, culturas que desaparecem, línguas que perdem sentido porque já não têm ninguém que as fale, um planeta que estamos destruindo. Deixemos lá os dinossauros políticos. Porque acontece uma coisa curiosa : é preciso ter cuidado com a expressão “dinossauro político”. Pode chegar o momento em que, tal como acontece com os dinossauros autênticos, os estudiosos andem à procura dos ossos dos dinossauros políticos, para tentar reconstituí-los tal como eles teriam sido. Talvez um dia se venha a necessitar dos ossos dos dinossauros políticos que nós somos para que se entenda o que acontecia no mundo”.

( Minha tática de agente provocador funcionou : quando se sente confrontado, o dinossauro Saramago reage com um punhado de frases afiadas,o que não deve ser difícil para quem se notabilizou como exímio esgrimista das palavras)  

Usa-se no Brasil a expressão “comunista de carteirinha”. O senhor anda com a carteirinha do Partido Comunista Português ?

Saramago: “Não ando com ela. Tenho cartões e carteirinhas de várias e várias instituições com quem mantenho relações. Não ando com as carteirinhas de todos. Mas pago a minha cota ao PC”.

O dirigente comunista Álvaro Cunhal entregou ao senhor uma carta que não deveria ser aberta. Que segredo essa esse ?

Saramago : “Álvaro Cunhal na verdade escreveu uma carta que nunca li, porque a carta só me seria entregue se ele não tivesse sobrevivido a uma intervenção cirúrgica a que foi submetido na União Soviética. O que sei é que ele escreveu cartas que seriam entregues a vários destinatários se ele não tivesse sobrevivido. Não é o Terceiro Segredo de Fátima : ele próprio me comunicou, depois, ter dito, na carta, que esperava que eu nunca saísse do Partido Comunista Português. Não saí. Não sairei. Em todo caso, a carta nunca me foi entregue”.

Independentemente do apelo que seria feito nessa carta, jamais lhe passou pela cabeça a idéia de largar o Partido Comunista ?

Saramago: “Não tenciono efetivamente – para usar a expressão que você usou – “largar” o Partido Comunista, a não ser que ele me largue. Quero dizer : se amanhã o Partido se transformar em outra coisa, como aconteceu com a maioria dos partidos comunistas europeus, posso não reconhecer o Partido a que aderi. Nesse caso,é possível que eu saia. Mas espero que não aconteça”.

Por que é que o Prêmio Nobel de Literatura não gosta de falar de literatura ?

Saramago : “…Mas eu nunca disse que não gosto de falar de literatura! O que disse foi que cada vez menos me interessa falar no assunto.Não é que não goste. Se é meu trabalho,como é que não iria gostar ?
Quando se publica um livro, ou por qualquer outro motivo, ligado ou não ligado a mim, falo de literatura, evidentemente. O que acontece é que considero que os problemas do mundo não se esgotam na literatura. São tão graves e tão importantes que, se tenho a oportunidade, até quando trato de literatura trato de abordá-los. Não é dizer que não gosto de falar de literatura”.

O senhor já disse que o Brasil é um país de luzes e sombras. Aos olhos do mais famoso escritor português de hoje,qual é a grande luz e qual é a grande sombra que o Brasil projeta ?

Saramago: “Uma pergunta dessas não é fácil de responder. Países de luzes e sombras de uma maneira ou de outra todos o são. O que digo em relação ao Brasil é que o país poderia ser, pelas riquezas naturais e pelas características do povo, um país em que as luzes predominassem. Não digo que as sombras é que predominam. O que quero dizer é que as sombras poderiam ser menores e menos graves”.

Se o senhor fosse fazer hoje o papel do escrivão Pero Vaz Caminha,quinhentos anos depois, qual seria a primeira frase que escreveria sobre o Brasil ?

Saramago : “Depende do lugar onde eu desembarcasse. Se desembarcasse em Copacabana, quando se arrebentaram os esgotos nas praias no Rio de Janeiro, diria ao rei Dom Manuel que aqui não poderia viver ninguém, porque o lugar cheira mal .Se, pelo contrário, desembarcasse numa praia limpa, coberta não de índias despidas, mas de lindas moças quase despidas, diria que aqui é um sítio para viver, uma terra linda. Se, no entanto, começasse a encontrar as favelas, diria : “Mas o que é que se passa aqui ? Eu julgava que os índios viviam de outra maneira!”.

O senhor ainda se sente “como uma Miss Universo”, com a agenda atolada de compromissos depois do Prêmio Nobel ?

Saramago : “Fiquei com a sensação de que as agendas de uma Miss Universo e a de um escritor premiado eram bastante parecidas. Mas hoje posso dizer que não se parecem em nada. As obrigações e responsabilidades de uma Miss Universo duram um ano. Haverá, então, outra Miss Universo ,não só com a coroa na cabeça, mas também com o dever de fazer tudo aquilo que a predecessora fez. Mas,no meu caso – eu, que, não sei se feliz ou infelizmente, não pareço em nada com a Miss Universo – as obrigações não cessaram pelo fato de em 1999 Gunter Grass ter ganho o Prêmio Nobel.

Diga-se que o Prêmio Nobel não impõe rigorosamente nenhuma obrigação. O sujeito chega lá, recebe o Prêmio e vai para casa. Depende da vontade do escritor o uso que ele fará do tempo – o emprego que fará de suas possibilidades de comunicação, se vai continuar a escrever, se vai ter contatos com os leitores.
Como o Prêmio Nobel foi atribuído a um escritor de língua portuguesa, é claro que minhas obrigações e responsabilidades se multiplicaram. Eu entendi que deveria assumi-las”.

Qual é o maior incômodo que um Prêmio Nobel enfrenta, além do fato de ser sempre importunado por jornalistas, como o senhor agora ?

Saramago: “Poderia responder que o outro maior incômodo é ser importunado por fotógrafos. Mas não. Incômodo não há nenhum. O que acontece é que se perde a invisibilidade depois que se ganha o Prêmio! É o pior. Evidentemente que é agradável ser reconhecido na rua e em qualquer parte, no aeroporto ou no restaurante. É agradável ver um leitor se aproximar para nos dizer uma palavra amável sobre o que leu. Em todo caso, não é que eu preferisse voltar ao anonimato, mas não há dúvida de que há momentos em que gostaria de me tornar invisível. Só não quero ser ingrato. Todos me tratam com tanto carinho e tanta atenção que qualquer palavra minha nesse sentido poderia parecer de algum modo uma ingratidão. Não é. Apenas que vez em quando sinto a necessidade de recolher-me à minha própria privacidade – que, enfim, já se perdeu”.

A que escritor brasileiro vivo ou morto o senhor concederia o Prêmio Nobel de Literatura ?

Saramago: “Não me importaria nada dar a eles o Prêmio, se fosse membro da Academia Sueca: Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Sem nenhuma dúvida, eu, membro da Academia Sueca, atribuiria o Prêmio a qualquer um dos três. Mas não foi assim que aconteceu”. 

O senhor tem uma visão essencialmente pessimista diante do mundo. O pessimismo é bom para a literatura ?

Saramago : O pessimista não é bom nem mau para a literatura, mas não tenho uma visão pessimista do mundo. Num momento como esse, pareceria, a mim, um pouco surpreendente que alguém se atrevesse a ser um otimista.Quem, diante do espetáculo oferecido pelo mundo em que vivemos, veja razões para ser otimista é uma pessoa que ou não percebe aquilo que se passa ou então faz de conta que não entende.O melhor, então, é deixarmos de falar em otimistas e pessimistas. Os fatos são os fatos. Não há otimismo ou pessimismo que faça com o que um fato deixe de ser um fato .A interpretação do fato é que pode variar. Mas o fato continua lá.

Penso que os fatos desse mundo, dessa vida, desse planeta, dessa sociedade humana são fatos suficientemente sérios e graves.Temos de enfrentá-los não para divagar sobre o otimismo e o pessimismo com que poderíamos considerá-los mas para pelo menos compreendê-los e, se possível, tentar resolvê-los”.

Mas há dois fatos que são aparentemente indiscutíveis no mundo de hoje. Primeiro : o fato “otimista” de que nunca tantas pessoas em todo o mundo viveram tão bem e tiveram acesso a tanta riqueza. O fato “pessimista” é que nunca foi tão grande a diferença entre pobres e ricos. Diante desse quadro, o senhor não tiraria nenhum motivo para enxergar o futuro com algum otimismo ?

Saramago : “Não. Se a parte negativa não existisse, então eu diria : uma vez que nunca houve tanta gente vivendo tão bem, pode-se presumir que, no futuro, haja ainda mais gente que vai viver igualmente bem. Mas, como você mesmo acaba de dizer, nunca foi tão grande a diferença entre os que têm e os que não têm .Tudo indica que a diferença vai ampliar-se. Não vem se reduzindo.

É evidente que há mais pessoas que estão vivendo bem. Mas também há mais pessoas vivendo mal. Como a população da terra vem se multiplicando, pode-se dizer que, se alguma parte vai se integrar à minoria que vive bem ou razoavelmente bem, muito mais gente vai se incorporar à parcela dos que vivem mal. Além de tudo,não se deve esquecer que há uma tendência para a pauperização das classes médias. Há uma parte mínima da classe média que ascende – e  passa para o outro grupo. Mas há uma parte da classe média que vai se aproximando cada vez mais da parte desfavorecida.

Volto a dizer que não há pessimismo nem otimismo. Repito : os fatos são os fatos. Noto também que o problema já não é ter ou não ter. O problema – não menos importante – é saber ou não saber. É cada vez maior o número de pessoas que não sabem.Ou sabem mal aquilo que julgam saber. É cada vez menor o grupo de pessoas que detém todo o conhecimento – e de certa forma usa-o para levar o mundo para onde o mundo vai”.

Por que os escritores brasileiros são tão ausentes de Portugal e os escritores de Portugal tão ausentes do Brasil ?

Saramago : Pode-se pensar, por exemplo, que leitores de um país não dêem atenção suficiente àquilo que se publica no outro. Pode-se pensar que os temas que tratam os escritores de um país não interessam aos leitores de outro. Mas também se pode pensar que não há um trabalho de fundo para aproximar os dois. É certo que os escritores portugueses vêm aqui. É certo que os escritores brasileiros vão a Portugal. Mas há algo que se passa que não sei explicar. Temos de pensar no seguinte : o leitor também tem suas razões para preferir ou não preferir. Quero crer,no entanto, que seria bom se houvesse um trabalho contínuo de ajuda à edição – evidentemente, é preciso ver até que ponto tal ajuda é economicamente viável .O que é lamentável é que seja assim. Sou uma exceção. Eu próprio me pergunto por quê. Não sou capaz de dar uma explicação.

Talvez o que se devesse fazer seria perguntar aos leitores: por que não os interessa a literatura portuguesa? Por que não os interessa a literatura brasileira ? Como é que poderiam se interessar ? Por que os interessa um determinado autor – e não outro ? Fernando Pessoa é muito lido no Brasil. Cem anos depois, Eça de Queiroz também o é. Já Machado de Assis não é tão lido em Portugal como Eça de Queiroz é no Brasil. Faça-se um inquérito para que se chegue a alguma conclusão”.

O primeiro escritor brasileiro com quem o senhor teve contato deixou alguma influência  na formação do senhor ?

Saramago: “Não posso jurar, porque foi há muitos e muitos anos. Mas o primeiro pode ter sido Raul Pompéia,com esse livro extraordinário que é O Ateneu. Você me pergunta se ficou alguma influência da leitura. Claro que não, porque eu era muito novo.Ainda não pegava essas coisas. O resto foi a aprendizagem. Uso essa palavra propositadamente ,porque o que houve comigo foi a aprendizagem de uma literatura escrita em minha própria língua, mas criada e imaginada em outro lugar – o Brasil ,com tudo o que para mim representou a descoberta não só dessa literatura,mas também das realidades sociais e culturais que estavam por trás dos livros”.

Uma crítica publicada numa revista brasileira sobre o livro “A Caverna” diz que “a literatura refinada de Saramago dessa vez dá lugar a um sermão”. O senhor acha que a denúncia das mazelas do mundo pode eventualmente comprometer a qualidade literária ?

Saramago : “Tenho que dizer que nunca comento qualquer crítica. É um princípio meu. Eu escrevo o que entendo;o crítico escreve o que entende. Comentários meus sobre uma crítica ninguém encontrará,em toda minha vida”.

Uma velha pergunta : o senhor escreve para fugir da morte ?

Saramago : “Não, porque ninguém foge da morte. É uma ilusão. O que pode acontecer é pensarmos – e devo ter pensado – que se escreve porque não se quer morrer. Parte-se do princípio de que a obra vai ficar ,não se sabe por quanto tempo. Hoje, não sou tão ambicioso. Eu me limito a dizer que escrevo para tentar compreender as coisas”.

O senhor escreveu, no livro “A Caverna”,que as frases de efeito são “uma praga maligna”.Qual é a frase de efeito predileta de José Saramago?

Saramago :”Tento evitar,o mais que posso, as frases de efeito. Mas nem sempre consigo fugir à tentação de escrever uma. Só espero é que, se elas são só frases de efeito, as pessoas que as leiam ou as ouvem não as tomem demasiado a sério”.

Se o senhor fosse definir o Brasil numa só palavra, que palavra o senhor usaria ?

Saramago: “Como é que se pode definir numa só palavra ? Se pudesse usar nem que fossem duas palavras, talvez eu conseguisse. Dê-me três palavras…..”

Quais seriam,então, as três palavras ?

Saramago: “Eu definiria assim o Brasil: “Quando se decidem ?”.

Qual é a grande pergunta que o escritor José Saramago não conseguiu responder até hoje ?

Saramago : “A pergunta que não consigo responder é muito simples : para quê ? Para que tudo isso ? Vou morrer sem encontrar a resposta. Creio que ninguém nunca encontrou”.

( Levada ao ar na Globonews, a entrevista com José Saramago foi publicada, na íntegra, no livro “As Grandes Entrevistas do Milênio”, recém-lançado pela Editora Globo)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

domingo, 2 de agosto de 2015

"José Saramago visto por quem o conhece" - Recuperação de texto de Pilar del Río, publicado na Revista Atlantis (Jan./Fev. 1999)



"José Saramago visto por quem o conhece" 
Houve um dia em que Blimunda quis conhecer o seu autor. Andava ela por aquele tempo ocupada em conversas com certas mulheres, e eram estas de Mafra e de outros lugares por onde passou durante as suas diversas vidas, de modo que lhes comunicou o seu propósito, porque tinha aprendido que as palavras não ditas acabam por perder a intenção. Disse: Vou conhecer o homem que me pôs no mundo, e todas souberam que cedo conheceriam o retrato de um ser muito humano, pois tinham tanto a certeza da tenacidade de Blimunda como da personalidade do escritor dos livros em que habitavam, do qual se ouviam rumores, embora ninguém lhe tivesse visto os olhos.



Não usou Blimunda a passarola. Cada viagem, e isso sabem-no todos os viajantes, necessita do seu próprio veículo, e para esta bastava a vontade, de maneira que se pôs a caminho com o seu alforge e o seu pão, embora não em jejum, que agora pode ver o interior das pessoas sempre que olha, é sábia as vinte e quatro horas do dia, por isso naquela tarde em que encontrou Saramago o viu por dentro e por fora com um só olhar. 
É verdade que ao princípio foram as mãos. Nos primeiros instantes deteve-se na fronteira do corpo, não tímida, não indecisa, simplesmente fascinada ante a cadência do movimento e a forma dos dedos, também por causa da cor, da suavidade que anunciavam. Então, aprendidas de memória as mãos, seguiu adiante, viu a estatura, percebeu o peso, deteve--se nos ombros, subiu pelo pescoço, topou com a cara e os olhos que a fitavam expectantes, e assim se encontraram Blimunda e Saramago sob o sol de Verão, se encontraram para que também ela pudesse dizer: Conheço-te, assim se fechando o círculo perfeito formado pelo autor, pelo leitor e pela personagem. 



Blimunda disse: Agora conheço-te, mas quero saber mais de ti, quero saber por que me escreveste, por que me fizeste sábia, por que dizes que o mundo se sustém na sua órbita graças à conversa das mulheres, por que sou eu irmã de Lídia, de Maria Guavaira e de Joana Carda, de Maria Sara e de Ma ria de Magdala, da Mulher do médico e da Mulher desconhecida, das mulheres do Alentejo, da mãe de Baltasar e da minha própria mãe, por que escreveste homens honestos e sonhos de justiça, por que nos escolheste, a nós, os pobres, como matéria das tuas narrativas, dando-nos esta outra vida no interior das pessoas e nos muitos idiomas em que os teus livros se multiplicam. 
Isto disse Blimunda a Saramago. E ele, com a paciência de um pai a falar ao filho pequeno, foi explicando enquanto a si mesmo se explicava: Escrevi-te porque te levava dentro, sabia que o homem é capaz de voar se estiverem juntos homem e mulher, se estão juntos os homens e mulheres, com a sua soberana vontade de levantar-se do chão se levantam, soube que eras capaz de ver porque as mulheres sempre o fizeram, escrevi que susteis o mundo porque aprendi com a minha avó Josefa o que é suster uma casa e torná-la habitável, não escrevi sobre os poderosos porque me bastou contar que ao teu homem o deixaram manco numa guerra que eles declararam, um homem pode resumir todos os homens, Baltasar é João Mau-Tempo, é o Sr. José, ou Raimundo Silva, ou o pintor H., ou o soldado Mogueime, ou Jesus, ou o Velho da venda preta, ou o Ricardo Reis das suas últimas e desoladas horas, quando finalmente compreende que não é sábio porque não se rebelou contra aqueles que não escrevo, que a esses não os conheço nem quero conhecer, vejo o efeito dos seus passos e não gosto do que vejo. 



Disse tudo isto Saramago, ou assim o entendeu Blimunda quando o contou naquela noite. Estavam as mulheres sentadas na cozinha de Josefa, que era do tamanho das recordações, o lume estava apagado porque fazia calor e a ceia foi de pão, queijo e azeitonas. Todas escutavam Blimunda, concordavam com a pertinência das perguntas, sabendo no seu íntimo que para conhecer a uma pessoa basta saber as suas intenções. Ouroana, que é tímida, quis saber se o autor estava contente, se as suas personagens o faziam feliz, e Maria Sara adiantou-se a Blimunda para dizer que a paz que encontravam dentro de si e que partilhavam era a melhor resposta, a ausência de conflitos entre eles, homens e mulheres, era sinal da harmonia de uma obra, e isso sabia-o ela bem, pois tinha sido revisora numa editorial e conhecia os desequilíbrios das palavras e dos homens. Então uma Rapariga de óculos escuros que às vezes estava como ausente perguntou pelos olhos do autor, se brilham mais, se são mais bonitos, como fazem para ler na alma de tanta gente, e à última pergunta não soube Blimunda responder, ainda que o intentou, porque, como já foi dito, é ousada: Tem um olhar penetrante, suave e melancólico, sim, os seus olhos devem ser bonitos, mas quando me olhou fui eu que me senti bonita, quando fala faz pensar em coisas belas, e ele deve ver os nossos pensamentos, por isso nos descreve bons. Disse Maria de Magdala: Faz-nos dizer coisas que estão dentro de nós mas que nunca tínhamos expressado, e Joana Carda, que é rápida, acrescentou: Nós contamos, pela nossa boca, a sua experiência dos homens e da vida, Maria Sara tem razão, somos muitos e diversos, vivemos em livros diferentes, mas sempre somos contemplados por um mesmo olhar, e é esse olhar que nos salva. E os leitores, perguntou outra Maria, a Guavaira, a de acento galego, esse olhar abarca também os leitores? A Mulher do médico fez um gesto. Parecia que ia falar, mas calou-se, calaram-se todas, não há aqui nenhum leitor para dizer se se sente amparado pelo olhar do autor, se se sente respeitado, se a feitura de um livro lhe arranca os mais belos suspiros, as intenções mais Formosas. Não há aqui nenhum leitor, disse por fim Blimunda, mas eu vejo no interior das pessoas e vejo os leitores vendo-se a si mesmos. A Mulher do médico sorriu, nunca saberemos se era um sorriso de assentimento, de cumplicidade ou um segredo partilhado o brilho que lhe iluminava a cara. Nunca o saberemos, mas cada leitor tem a sua própria experiência, ele saberá como responder. 
Houve um dia em que Blimunda quis conhecer o seu autor. Atravessou o seu mapa pessoal e encontrou-se com Saramago. O mundo não está perdido, pensou. Vou contá-lo. E pôs-se a falar para que nos chegassem estas suas primeiras palavras." 
"Pilar del Rio, Atlantis TAP Air Portugal, n° 1, Janeiro-Fevereiro, 1999, pp. 12-15." 



Apontamento de Ana Paula Arnaut, em "José Saramago", Edições 70 - Páginas 166 a 169
"Parecendo ter em mente a afirmação feita em Memorial do Convento, sobre a hipótese de a mulher ser "uma só no mundo, só múltipla de aparência", Pilar del Río traça neste breve mas cativante texto o retrato e o papel do feminino nos universos saramaguianos."


O filme "La balsa de piedra" baseado na obra de José Saramago

Pode ser visualizado aqui, via YouTube 

Capa original do filme


Juan Rámon Lucas entrevista José Saramago - "Radio y Televisión Española" RTVE (12/11/2009)

Entrevista con el escritor portugués José Saramago, ganador del premio Nobel de Literatura, en el programa "En noches como ésta", de Televisión Española, el 12 de noviembre de 2009.

All rights reserved to Corporación de Radio y Televisión Española, 2009.

Aqui o link directo



Pedro Grandato em "Blecaute" - OST de "José & Pilar"

Pode ser visualizado aqui, via YouTube,

Música "Blecaute" interpretada por Pedro Granato da banda sonora do 
documentário José & Pilar. 

"Deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade. 
E um pouco de tudo das tantas coisas que fizeram José Saramago e Pilar del Río 
é o que vemos em José e Pilar, o filme de Miguel Gonçalves Mendes."

"Memorial do Convento" de José Saramago - Documentário Grandes Livros

"D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto da sua mulher, 
D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou." (...) página 11, 
Caminho - 20.ª edição


Pode ser visualizado aqui, 

"... porque neste livro está aqui tudo..."
Eduardo Lourenço


(...) "E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo.
Então Blimunda disse, Vem.
Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda."
página 357, Caminho - 20.ª edição

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Revista de Estudos Saramaguianos #2 - Julho de 2015

Sinopse de apresentação da revista
Via Página do Facebook, aqui  
em https://www.facebook.com/saramaguianos?fref=ts

(Capa da edição)


"Os dois volumes da edição n.2 (português e espanhol) já estão on-line. Há dois destaques sobre este número: um, é a marca de celebração dos 20 anos do romance “Ensaio sobre a cegueira” (publicado em novembro de 1995) e outro os acontecimentos protagonizados pela Fundação José Saramago sobre a redação de um documento a ser entregue às Nações Unidas e que foi defendido publicamente pelo escritor desde sempre, marcadamente durante a recepção do Prêmio Nobel de Literatura em 1998: uma Carta de Deveres Humanos. Esses dois acontecimentos estão marcados na edição de forma diversa: o primeiro com um ensaio de Maria Alzira Seixo, um conjunto de fotografias de Marcelo Buainain realizadas em Alfama em fevereiro de 1996 numa sessão cujo ponto de partida foi justamente o drama do livro agora lembrado e excertos dos “Cadernos de Lanzarote” em que Saramago comenta sobre o processo de escrita do “Ensaio”; o segundo, um texto do próprio Saramago (de 1993) “Heresia, um direito humano” (para os leitores de língua portuguesa é um texto inédito, visto que, até onde alcançamos pesquisar, não aparece em nenhum dos títulos já publicados e o encontramos numa versão em língua espanhola editada em 16 de fevereiro de 1994 do jornal El País da qual escrevemos a tradução em língua portuguesa. A relação deste texto com os acontecimentos na Cidade do México (lugar onde foi realizado o evento de início para elaboração da Carta dos Deveres Humanos) é que no ano em que o texto sobre a necessidade da heresia foi publicado, Saramago enunciou-a como um direito inerente aos Direitos Humanos; tema sobre o qual recorreu várias vezes em outras de suas intervenções, como quando publicou “Caim”, em 2009. E atenção para os textos de Gisela Maria de Lima Braga Penha, Júlia Cristina Figueiredo, Saulo Gomes Thimóteo, Eula Carvalho Pinheiro, Maria do Socorro Velos, Maria Angela Pavan, Miguel Koleff, Diego J. González e Pedro Fernandes de Oliveira Neto. Os dois volumes podem ser descarregados diretamente (por texto ou por arquivo completo) em: http://www.estudossaramaguianos.com/"


quarta-feira, 29 de julho de 2015

"Sofía Gandarias" post no Livro/Blog "O Caderno" ... Auschwitz e deus...

http://caderno.josesaramago.org/41158.html

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"Sofía Gandarias"

"À pergunta angustiada, ainda que carregada de uma retórica fácil, que o papa lançou em Auschwitz para surpresa e escândalo do mundo crente: “Onde estava Deus?”, vem esta grande exposição de Sofía Gandarias responder com simplicidade: “Deus não está aqui”. É evidente que Deus não leu Kafka e, pelos vistos, Ratzinger também não. Não leram nem sequer Primo Levi, que está mais perto do nosso tempo e nunca se serviu de alegorias para descrever o horror. Se se me permite a ousadia, eu aconselharia ao papa que visitasse, com tempo e olhos de ver, esta exposição de Sofía, que escutasse com atenção as explicações que lhe fossem dadas por uma pintora que, sabendo muito da arte que cultiva, muito sabe também do mundo e da vida que nele temos feito, os que crêem e os que não crêem, os que esperam e os que desesperam, e os outros, os que fizeram Auschwitz e os que perguntam onde estava Deus. Melhor seria que nos perguntássemos onde estamos nós, que doença incurável é esta que não nos deixa inventar uma vida diferente, com deuses, se quiserem, mas sem nenhuma obrigação de crer neles. A única e autêntica liberdade do ser humano é a do espírito, de um espírito não contaminado por crenças irracionais e por superstições talvez poéticas em algum caso, mas que deformam a percepção da realidade e deveriam ofender a razão mais elementar. Acompanho o trabalho de Sofía Gandarias desde há anos. Assombra-me a sua capacidade de trabalho, a força da sua vocação, a mestria com que transfere para a tela as visões do seu mundo interior, a relação quase orgânica que mantém com a cor e o desenho. Sofía Gandarias é, toda ela, memória. Memória de si mesma, como qualquer, em primeiro lugar, mas também memória do que viveu e do que aprendeu, memória de tudo o que interiorizou como algo próprio, memória de Kafka, de Primo Levi, de Roa Bastos, de Borges, de Rilke, de Brecht, de Hanna Arendt, de quantos, para tudo dizer numa palavra, se debruçaram do poço da alma humana e sentiram a vertigem.Nota: Texto para a exposição “Kafka, o visionário”, de Sofía Gandarias, que poderá visitar-se na Haus am Kleistpark de Berlim a partir do dia 28 deste mês. (14 de Maio de 2009)"

domingo, 26 de julho de 2015

"Silvia Lemus entrevista José Saramago" para o programa "Tratos y Retratos" do Canal 22 (México - Maio de 2003)

"Tratos Y Retratos é um programa organizado pela jornalista Silvia Lemus, reúne um grupo excepcional de artistas, escritores, pensadores, cineastas de renome universal, como Umberto Eco, Sebastião Salgado e José Saramago. O programa é uma produção do Canal 22, do México.

José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura 1998, é um dos escritores mais conhecidos e apreciado no mundo inteiro. Na Espanha, após a primeira publicação de O Ano da Morte de Ricardo Reis, em 1985, sua obra literária merece a melhor recepção dos leitores e críticos. Além deste volume, outros grandes títulos são Manual de Pintura e Caligrafia, quase um objeto, História do cerco de Lisboa, A Jangada de Pedra, Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus, todos os nomes, levantou, Ensaio sobre Ensaio sobre a Cegueira, A Caverna, o homem duplicado, Ensaio sobre a clareza, a morte intermitentemente, Poesia Completa e Cadernos de Lanzarote I e II. Alfaguara publicou também Viagem livro em Portugal e no conto O Conto da Ilha Desconhecida.

Entrevista realizada em maio de 2003, Saramago critica a atual democracia, em que há o aumento das diferenças sociais e desrespeito aos direitos humanos. Faz uma interessante observação da invasão do Iraque, em que os interesses não se limitam apenas ao petróleo."







"A Compreensão segundo José Saramago" extraído do documentário "Janela da Alma" de João Jardim e Walter Carvalho

Pode ser visualizado aqui, via YouTube,

Ensaio audiovisual sobre fotos de Sebastião Salgado e narrativa de José Saramago.
Áudio original extraído do documentário "Janela da Alma" de João Jardim e Walter Carvalho (Brasil, 2001).

"Eu não quero dizer que cada um é conforme nasce -- não vou a esse ponto. Mas, talvez devêssemos ponderar por que algumas pessoas resistem ao comportamento digamos universal -- o modo de comportasse mais geral -- e outras não? Por que algumas pessoas mantêm uma atitude crítica em relação às coisas? Por que algumas pessoas acham que não é por fato das coisas serem novas ou modernas que elas são necessariamente boas? Isto não é defender o antigo... é simplesmente considerar que não tem nenhuma razão para acreditar que no momento em que estou a viver é o momento em que todas as coisas que se estão a fazer -- as de agora e as que vão ter efeitos no futuro -- são as únicas e as melhores que poderiam estar a ser feitas e a ser pensadas, imaginadas e aplicadas. Não tenho qualquer razão para isso, pelo contrário, tenho muitas razões que me dizem que nos tomamos por um caminho errado." 

Por JOSÉ SARAMAGO

"José Saramago - Homenaje a las Madres de Plaza de Mayo"


"José Saramago - Homenaje a las Madres de Plaza de Mayo"
Madres Coraje, Homenaje a las Madres de Plaza de Mayo 
Realizado por Emilio Cartoy Diaz para Tea Imagen y Radio Tea.

"Los hombres han inventado un Dios que nos da unos ratos malísimos" Entrevista de Francesc Valls para o "El País" (24/10/1994)

"Los hombres han inventado un Dios que nos da unos ratos malísimos"
"El País" por Frances Valls, Barcelona - 24/10/1994

A entrevista pode ser consultada e lida, aqui
em http://elpais.com/diario/1994/10/24/cultura/782953204_850215.html

(Fotografia via "El País")

Comunista preocupado por Dios y las guerras santas; revolucionario para quien la revolución siempre es asesinada; demócrata que ve la democracia muerta cuando el voto entra en la urna. Este nadador contra corriente es el escritor José Saramago (Azinhaga, Portugal, 1922), quien esta semana ha presentado su libro Casi un objeto (Alfaguara).

La carcoma era vengadora. El justiciero y antifascista anóbido, con sus galerías, hizo caer a Oliveira Salazar, el dictador portugués, de su silla. Quien relata esa historia es un amigo de carcomas y topos. José Saramago abre túneles bajo superficies aparentemente sólidas y duras con su palabra. El libro de relatos Casi un objeto, que acaba de publicar Alfaguara, es un ejemplo. (El libro fue presentado ayer en Crisol por el crítico Miguel García Posada. Hoy, en la Casa de América, Ángeles Caso entrevistará en público a Saramago y Charo López leerá alguno de sus relatos).

Pregunta. ¿Se cayó Salazar de su silla?

Respuesta. Es un hecho histórico que se sentó en una silla, se rompió la pata y dio consigo en el suelo. El relato La silla es la descripción de una lucha contra el dictador, contra el fascismo. Salazar se cae porque la carcoma, a lo largo de los años, se ha comido la madera.

P. Pero ahora que la carcoma ha triunfado, ¿se siente defraudado por la forma en que ha evolucionado la revolución de los claveles en Portugal?

R. Todas las revoluciones, más tarde o más temprano, acaban en su contrario. Ocurrió con la francesa, que dio paso al emperador. Luego con la Revolución de Octubre de 1917. El destino de las revoluciones es convertirse en su opuesto.

P. Acaba de publicarse su libro In nomine Dei, libreto de la ópera Divara, agua y sangre. Es la historia de dos anabaptistas que dirigieron una experiencia colectivista en Münster. Acabó en dictadura. ¿Ha sucedido lo mismo en los países del llamado socialismo real?

R. Las revoluciones acaban siempre traicionadas por una razón sencilla: por la renuncia de los ciudadanos a participar. En el caso de Münster se entró en una situación en que la propiedad no existía; era un caso de una pureza total que muy pronto se acabó. Eso también ocurre en el funcionamiento normal de las democracias. La enfermedad mortal de las democracias es la renuncia del ciudadano a participar. Los primeros responsables somos nosotros al delegar el poder en otra persona que, a partir de ese momento, pasa a controlarlo y a usarlo.

P. ¿Qué alternativa hay?

R. La alternativa no es más que la participación del ciudadano todos los días.

P. Eso tiene difícil articulación en un sistema político.

R. En un sistema como el actual, sí. Cuando el ciudadano vota expresa de forma suprema su conciencia. Pero ese momento coincide con su renuncia a intervenir. La paradoja es que justo cuando el voto entra en la urna él renuncia a participar. Hay que buscar sistemas distintos para el ejercicio de la ciudadanía. No podemos decir que los políticos tienen la culpa. Nosotros somos los principales responsables.

P. La mayoría, no obstante, opina que la democracia parlamentaria es el menos, malo de los sistemas conocidos.

R. Sí, pero ésa es una manera muy hábil de impedir que se busque algo mejor. Eso lleva a la gente a hacer la operación mental que consiste en transformar lo menos malo en mejor. Al decir el menos malo estamos diciendo el mejor. Y uno se lo cree y no busca más. Hay que buscar una democracia que lo sea. El mundo además está regido por un poder no democrático, el financiero. Elegimos al alcalde, al presidente. Pero el otro poder es el que auténticamente gobierna el mundo. Aníbal Cavaco Silva [primer ministro portugués] o Felipe González se encuentran por ahí, salen en la prensa o en la televisión. Pero hay un poder del que no se habla nunca en los medios y es el poder financiero, y ésos son los que gobiernan. Felipe González y Cavaco Silva no gobiernan. Bueno, sí... Yo en mi casa también lo hago. El poder real está en otro sitio.

P. Usted sigue siendo militante del Partido Comunista de Portugal.

R. Sí.

P. Y uno de los militantes comunistas mis preocupados por Dios o, mejor, por las repercursiones de la existencia de Dios en la tierra.

R. Los problemas de Dios no me preocupan. Me preocupan los problemas de los hombres que se inventaron un Dios que no hace más que darnos ratos malísimos. Quizás Dios exista (yo no lo creo), pero no tiene sentido que nos matemos en nombre de Dios.

P. Los problemas religiosos le persiguen. El Evangelio según Jesucristo le comportó problemas en Portugal (el Gobierno vetó que concurriera a un premio europeo porque podía herir la sensibilidad religiosa del pueblo portugués).

R. Me fui a vivir a Lanzarote. Y estoy contento; de una cosa mala a veces surge una cosa buena. Pero eso no significa que haya roto con Portugal. Ahora me voy a Lisboa, lo que pasa es que no quiero nada con el Gobierno.

P. Las maletas del viajero relata una tragedia a causa de una frontera.¿Son o no un problema las fronteras?

R. No tengo ninguna prevención contra el nacionalismo. Es necesario revisar el concepto de nacionalismo. Hace 50 años, con los nacionalismos de tipo fascista, un pueblo pretendía dominar a otro. Ahora la cosa es distinta y tiene más que ver con el instinto de supervivencia en tiempos de globalización, económica, cultural, lingüística. Hay que revisar la idea de los nacionalismos para rescatarlos de la derecha.

24 de octubre de 1994

"Charla de José #Saramago dentro del ciclo Encuentros en la Caja" en el Espacio Cultural de la Obra Social de CajaCanarias (3/8/2007)

(Pode ser visualizado aqui, via YouTube, em https://www.youtube.com/watch?v=ikP7NJwcRUI

"Charla de José Saramago dentro del ciclo Encuentros en la Caja, 
celebrado el 3 de Agosto de 2007 en el Espacio Cultural de la Obra Social de CajaCanarias"

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Publicado no Livro/Blog "O Caderno" intitulado "O amanhã e o milénio"

Quando no final de Junho deste ano, a conferência mundial "Prospectivas del Mundo - México 2015", debatia num "El encuentro de pensadores para crear la carta de las obligaciones del ser humano", sob o signo e inspiração do testemunho de José Saramago, cujas palavras são repetidas e repercutidas pelos defensores de uma sociedade global mais justa, harmoniosa e equilibrada, ficou este registo que se recupera:

"Pensemos que ninguno de los derechos humanos podría subsistir sin la simetría de los deberes que les corresponden... Tomemos entonces, nosotros, ciudadanos comunes, la palabra, con la misma vehemencia con que reivindicamos los derechos, reivindiquemos también el deber de nuestros deberes. Tal vez así el mundo pueda ser un poco mejor."

Este texto "O amanhã e o milénio", é em poucas linhas, a demonstração da necessidade de se reorientar as linhas basilares da condição e evolução do homem neste milénio.

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/32478.html


"O amanhã e o milénio"
Há dias li um artigo de Nicolas Ridoux, autor de Menos é mais. Introdução à filosofia do decrescimento, e recordei que já há uns bons anos, nas vésperas da entrada do milénio em que já estamos instalados, participei num encontro em Oviedo onde a alguns escritores se solicitava que traçássemos objectivos para o milénio. A mim pareceu-me que falar do milénio era demasiado ambicioso, por isso propus-me falar apenas do dia seguinte. Recordo que fiz propostas concretas e que uma delas era a agora enunciada por Ridoux no seu Menos é mais. Procurei no disco duro de computador e decidi-me a recuperar parte do que escrevi então e que hoje me parece ter ainda mais actualidade que nessa altura. Quanto às visões do futuro, creio que seria preferível que começássemos por preocupar-nos com o dia de amanhã, quando se supõe que ainda estaremos quase todos vivos. Na verdade, se no remoto ano de 999, em qualquer parte da Europa, os poucos sábios e os muitos teólogos que então existiam se tivessem deitado a adivinhar sobre como seria o mundo daí a mil anos, estou que errariam em tudo. Contudo, algo penso eu em que mais ou menos acertariam: que não haveria qualquer diferença fundamental entre o confuso ser humano de hoje, que não sabe e não quer perguntar aonde o levam, e a amedrontada gente que, naqueles dias, acreditava estar próximo o fim do mundo. Em comparação, já será de prever um número muito maior de diferenças de todo o tipo entre as pessoas que hoje somos e aquelas que nos sucederão, não daqui a mil anos, mas a cem. Por outras palavras: talvez nós tenhamos ainda muito que ver com os que viveram há um milénio, mais do que com esses outros que daqui a um século habitarão o planeta... É agora que o mundo se acaba, está no ocaso o que há mil anos apenas alvorecia.
Ora, enquanto se acaba e não se acaba o mundo, enquanto se põe e não se põe o sol, por que não nos dedicaremos a pensar um pouco no dia de amanhã, esse tal em que quase todos nós ainda estaremos felizmente vivos? Em vez de umas quantas propostas arrojadamente gratuitas sobre e para uso do terceiro milénio, que logo ele, mais do que provavelmente, se encarregará de reduzir a cisco, por que não nos decidimos a pôr de pé umas quantas ideias simples e uns quantos projectos ao alcance de qualquer compreensão? Estes, por exemplo, no caso de não se arranjar coisa melhor: a) Desenvolver desde a retaguarda, isto é, fazer aproximar das primeiras linhas de bem-estar as crescentes massas de população deixadas atrás pelos modelos de desenvolvimento em uso; b) Suscitar um sentido novo dos deveres humanos, tornando-o correlativo do exercício pleno dos seus direitos; c) Viver como sobreviventes, porque os bens, as riquezas e os produtos do planeta não são inesgotáveis; d) Resolver a contradição entre a afirmação de que estamos cada vez mais perto uns dos outros e a evidência de que nos encontramos cada vez mais isolados; e) Reduzir a diferença, que aumenta em cada dia, entre os que sabem muito e os que sabem pouco. 

Creio que é das respostas que dermos a questões como estas que dependerá o nosso amanhã e o nosso depois de amanhã. Que dependerá o próximo século. E o milénio todo.

A propósito, regressemos à Filosofia.
(25 de Março de 2009)

quinta-feira, 23 de julho de 2015

"Aproximações técnicas e diálogos críticos" de José Saramago, com Miguel Koleff e Socorro Veloso (25/08) UNC Córdoba Argentina

E por todo o mundo, o legado de ‪#‎saramago‬ está vivo e activo.
Pelo punho de Miguel Koleff e convite endereçado à minha mui amiga Prof.ª Socorro Veloso, a Facultad de Lenguas UNC de Córdoba Argentina, e inserida na "Cátefra Libre José Saramago" lança a conferência que se anuncia.
Desejo a todos muitos e bons momentos saramaguianos.
Por todo o mundo... e por Portugal???




Charla: "Aproximações técnicas e diálogos críticos" de José Saramago. 
Martes 25 de agosto, de 18 a 20 hs.
Entrada Libre y Gratuita - Idioma Portugués

Morada
Av. Valparaíso s/n - Ciudad Universitaria, 5000

Breve descrição
Sitio oficial de la Facultad de Lenguas - Universidad Nacional de Córdoba - Argentina

http://www.fl.unc.edu.ar
Valparaíso s/n, 
Ciudad Universitaria, Córdoba, Argentina 
Tel.: +54 (0351) 434-3214 /15 /16 /17 /18



terça-feira, 21 de julho de 2015

"Blimunda" Revista Digital - Edição #38 - Julho 2015 (para descarregar de forma gratuita)

(Capa da edição #38 - Julho de 2015)

Pode ser consultada e lida, aqui
em http://blimunda.josesaramago.org/2015/07/21/blimunda-38-julho-de-2015/#more-255


Sinopse da edição
"A edição de julho da Blimunda dá destaque ao congresso sobre direitos/deveres humanos realizado na Cidade do México. Além de uma crónica sobre o encontro – que partiu de uma ideia de José Saramago – e dos discursos de Pilar del Río e do reitor da Universidade Autónoma do México (co-organizadora do congresso), a Blimunda publica um texto de Anabela Mota Ribeiro. A jornalista portuguesa andou pela capital do país, percorreu ruas e praças, recuperou histórias e encontrou Saramago em cada canto, concluindo que “José é mexicano”.

A banda desenhada também merece espaço neste número 38 da publicação. O brasileiro Marcelo D’Salete conversou com Sara Figueiredo Costa sobre o seu processo de criação e as principais características do seu trabalho.

Na secção dedicada ao cinema, o conceito de exploitation aplicado à produção cinematográfica portuguesa é analisado na primeira parte de um texto de autoria de João Monteiro.

Nesta edição de julho, a Blimunda publica a entrevista realizada por Andreia Brites à canadiana Sandra Lee Beckett. Criadora do termo crossover, a escritora falou sobre a ruptura das etiquetas literárias e de como um livro pode ser uma ponte que liga adultos e crianças.

Boas leituras. Até agosto.
E Gracias, México!"

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Trigo Limpo Teatro Acert, leva o nosso "Salomão" à Figueira da Foz, com a encenação de "A Viagem do Elefante"


A VIAGEM DO ELEFANTE | TRIGO LIMPO teatro ACERT

Sáb, 1 ago'15 às 22:00h · Esplanada Silva Guimarães · Figueira da Foz

Mais informação através http://acert.pt/aviagemdoelefante/


(Pode ser visualizado no YouTube, em  https://www.youtube.com/watch?v=yTRap35P9hQ)

"A Viagem do Elefante" - Uma produção Trigo Limpo teatro ACERT,
 em coprodução musical com Flor de Jara, e com a parceria da Fundação José Saramago. 
Imagens recolhidas em São Pedro do Sul a 20-09-2014.


A Fundação José Saramago assinala a abertura da embaixada de Cuba nos EUA, com o texto "Guantánamo" de 5/11/2008

Via Fundação José Saramago, através da página oficial no Facebook, aqui

"No dia em que se restabelecem oficialmente as relações entre Cuba e os Estados Unidos, recordamos um texto de José Saramago publicado no seu blogue, O Caderno de Saramago, a 5 de novembro de 2008"

(O hastear da bandeira de Cuba, na sua embaixada - EUA)

A recordação do post, de 5 de Novembro de 2008, também publicado no livro "O Caderno", pode ser consultado e lido na integra, aqui em http://caderno.josesaramago.org/9928.html

"Guantánamo"
"No momento em que escrevo estas linhas os colégios eleitorais ainda vão continuar abertos durante mais algumas horas. Só pela madrugada dentro surgirão as primeiras projecções sobre quem será o próximo presidente dos Estados Unidos. No caso altamente indesejável de que viesse a triunfar o general McCain, o que estou a escrever pareceria obra de alguém cujas ideias sobre o mundo em que vive pecassem por um total irrealismo, por um desconhecimento absoluto das malhas com que se tecem os factos políticos e os diversos objectivos estratégicos do planeta. Nunca o general McCain, sendo, ainda por cima, como a propaganda não se cansa de lhe chamar e que um miserável paisano como eu nunca se atreveria a negar, um herói da guerra contra o Vietnam, nunca ele ousaria deitar abaixo o campo de concentração e tortura instalado na base militar de Guntánamo e desmontar a própria base até ao último parafuso, deixando o espaço que ocupa entregue a quem é o seu legítimo dono, o povo cubano. Porque, quer se queira, quer não, se é certo que nem sempre o hábito faz o monge, a farda, essa, faz sempre o general. Deitar abaixo, desmontar? Quem é o ingénuo que teve semelhante ideia?

E, contudo, é disso precisamente que se trata. Há poucos minutos uma estação de rádio portuguesa quis saber qual seria a primeira medida de governo que eu proporia a Barack Obama no caso de ele ser, como tantos andamos a sonhar desde há um ano e meio, o novo presidente dos Estados Unidos. Fui rápido na resposta: desmontar a base militar de Guantánamo, mandar regressar os marines, deitar abaixo a vergonha que aquele campo de concentração (e de tortura, não esqueçamos) representa, virar a página e pedir desculpa a Cuba. E, de caminho, acabar com o bloqueio, esse garrote com o qual, inutilmente, se pretendeu vergar a vontade do povo cubano. Pode suceder, e oxalá que assim seja, que o resultado final desta eleição venha a investir a população norte-americana de uma nova dignidade e de um novo respeito, mas eu permito-me recordar aos falsos distraídos que lições da mais autêntica das dignidades, das quais Washington poderia ter aprendido, as andou a dar quotidianamente o povo cubano em quase cinquenta anos de patriótica resistência.

Que não se pode fazer tudo, assim de uma assentada? Sim, talvez não se possa, mas, por favor, senhor presidente, faça ao menos alguma coisa. Ao contrário do que acaso lhe tenham dito nos corredores do senado, aquela ilha é mais que um desenho no mapa. Espero, senhor presidente, que algum dia queira ir a Cuba para conhecer quem lá vive. Finalmente. Garanto-lhe que ninguém lhe fará mal."
em "O Caderno"
Caminho, páginas 103 a 105, (8 de Novembro de 2008)


Revista Blimunda #26 - Mês de Julho 2014 - Recordação das edição do ano passado

Neste mês de Junho, recordamos o #26 da Revista Blimunda 
Pode ser descarregada gratuitamente, aqui
em http://blimunda.josesaramago.org/2014/07/23/blimunda-26-julho-de-2014/

(Capa da edição do mês de Julho do ano passado, #26)

Sinopse
"Neste mês de julho cumprem-se cem anos do início da Primeira Guerra Mundial, tema que a Blimunda # 26 recupera com nove meditações sobre a guerra, de autoria de José Saramago, acompanhados por ilustrações de Filipe Abranches, e com a reprodução de dez cartazes que mostram diferentes formas de abordagem gráfica ao conflito que marcou o panorama social e político mundial.

Participante de luxo desta edição da revista, o sociólogo espanhol Juan José Tamayo assina uma reflexão sobre o livro de sua autoria, Cincuenta intelectuales para una conciencia crítica. Ricardo Viel entrevista a poeta Matilde Campilho, revelação da poesia lusófona e autora do recentemente publicado Jóquei. Da Colômbia chega-nos um retrato da Carreta Literária, projeto de promoção de leitura fruto da insistência e do sonho de um vendedor de Cartagena de Índias. Na secção Infantil e Juvenil Andreia Brites relata os bastidores da Ilustratour, encontro dedicado à ilustração realizado em Valladolid que na sua sétima edição se afirma como um dos mais importantes pontos de encontro entre ilustradores e editores no país vizinho. Espaço, ainda, para a primeira parte de um artigo de João Monteiro dedicado à relação entre a Literatura Negra e o Cinema Negro, partindo da Antologia do Conto Fantástico Português, publicado na década de 1960.

Na Saramaguiana, a Blimunda publica um ensaio de Wagner Martins Madeira sobre o humor em A Viagem do Elefante, de José Saramago, ilustrado pelas imagens da peça de teatro com o mesmo nome que o Trigo Limpo Teatro ACERT leva pelo segundo ano consecutivo a mais de 14 localidades do interior de Portugal.

E como estamos no verão, Sara Figueiredo Costa explora As Praias de Portugal – Guia do banhista e do viajante, de Ramalho Ortigão, agora reeditado pela Quetzal, livro que justifica a ideia (incompreensível) de que há leituras adequadas para as férias de verão, para quem as têm, e para a praia."