Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quinta-feira, 21 de abril de 2016

"Levantei-me do Chão" de Carlos Marques baseado na obra de José Saramago (via revista Blimunda #46 - Março 2016)


A revista Blimunda, edição #46 de Março de 2016, apresenta em detalhe a sequência do espectáculo. Pode ser consultado e recuperado (download gratuito), aqui
em https://pt.scribd.com/doc/305720205/Blimunda-46-marco-de-2016

"Levantei-me do chão é um projecto de Carlos Marques/Algures, co-financiado pela Dgartes e pela autarquia de Montemor-o-Novo. Após andar por onde as personagens do Levantado do Chão de José Saramago andaram a sobreviver, o projecto chega finalmente a Lisboa, ao Auditório da Fundação José Saramago no dia 30 de março, sob a forma de concerto teatral em torno das palavras de Saramago. Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro. A partir de Levantado do Chão de José Saramago e outros textos: "Fall Collection" de Rui Pina Coelho; "O Medo de Existir" do José Gil, "A paisagem e as palavras que lá estão" de Fernanda Cunha, do discurso de Pilar Del Río aquando da sessão comemorativa dos 30 anos da obra, inspirado pelos filmes Network de Sidney Lumet e Asas do Desejo de Wim Wenders e Peter Handke; pela música de Gilberto Gil, Man Man, Zeca, Zé Mário, Fausto, Sérgio Godinho... entre tantos outros."

Fotografia e disposição cénica do palco

Dois repórteres, ouvem-se estrondos, bombas gritos.
Repórter 1 - Um enorme estrondo. Não se sabe de onde vem. Milhares de pessoas na rua.
Repórter 2 - Um enorme estrondo. Milhares de pessoas na rua. Uma enorme manifestação. Polícia nas ruas. Milhares.
Repórter 1 - Um estrondo. Este foi o maior. Estilhaços por todo o lado.
Repórter 2 - Há um cão imóvel. Um cão no meio da praça, parado.
Repórter 1 - Toda a gente na rua. Uma confusão enorme. Uma explosão. Um estrondo. Todos correm de um lado para o outro. Há uma massa enorme de gente que ocupou a praça principal da cidade e que – Ouve-se um novo estrondo  –Atenção, um novo estrondo. Há uma massa enorme de gente que ocupou a praça principal da cidade e que – Ouve-se um novo estrondo  – Mais um estrondo. Montras partidas. Há vidros por todo o lado.
Repórter 2 - Atenção. Há um homem na praça.
Repórter 1 - É um homem que perdeu o emprego e que veio para o meio da praça.
Repórter 2 - Parado? No meio da confusão. Toda a gente corre. Menos ele. É isso? Não sai dali há horas. Está ali parado há horas. No mesmo sítio.
Repórter 1 - Acho que mexeu uma mão.
Repórter 2 - Deve ser um marxiano, do planeta Marx. Do vermelho planeta Marx. O homem desempregado.
Repórter 1 - A praça encheu-se de gente. Toda a gente foge, de um lado para o outro.
Repórter 2 - O homem desempregado continua pregado no meio da praça – ESTRONDO
Repórter 1 - Outro estrondo, o maior, Há roupa, madeira, mobília – ESTRONDO 
Estilhaços por todo o lado, É impossível dizer o que se está a passar. Um estrondo.
Repórter 1 - O fumo dissipa-se, Há pouco ouviu-se mais uma explosão, Um estrondo. Deve ser um marxiano, do planeta Marx. Do vermelho planeta Marx.
Repórter 2 - O fumo dissipa-se, Tudo assenta, mais tarde ou mais cedo.
Repórter 1 - O que é que ele tem na mão?
Repórter 2 - Os estilhaços, Os pensamentos.
Repórter 1 - É um homem que perdeu o emprego e que veio para o meio da praça.
Repórter 2 - Com cartas de amor na mão?! Aquilo não são cartas de amor. Aquilo são… -
Repórter 1 - Não consigo ver. Parece um livro...
Repórter 2 - Parecem notas antigas ... que saíram de circulação.
Repórter 1 - Não consigo ver. Seguramente São papéis, mas não percebo bem o que...
Outro estrondo enorme.Um homem atravessa o palco coberto de panos brancos que escondem mobiliário. Levanta um muro ao fundo. Por baixo dos panos estão instrumentos, microfones, um enorme aparato do que antes foi um estúdio ou um palco de um concerto. Ele começa a tocar.

Canção 1 - "Luta pelo pão"
"Luta por trinta e três escudos
Luta pelas oito horas
Contra o medo da morte 
Luta por amanhã
Medo de fuzilamentos,
Contra a manipulação.
Luta por eleições livres
Luta por amanhã
Luta p´lo pão, 
Luta p´lo pão 
Luta, luta, luta, luto.
Contestação, Contradição, Reclamação
Impugnação, oposição, indignação 
Morreu a proletária ditadura
A ditadura do mercado já nasceu há muito 
Encurralados, crucificados
Nos malabarismos dos mercados
Luta por 40 horas
não à privatização luta pela água fresca
Luta pela alimentação"


"Canção 2 – Tanta palavra"
"Primeira Geração: Tempo do silêncio e da resignação 
Segunda Geração: Tempo das perguntas, levantem-me do  chão 
Terceira Geração: Tempo da resistência, levantem-se do  chão 
Quarta Geração: Tempo de liberdade, Levantados do chão 
Quatro Gerações, terríveis condições
mudança ao longo dos tempos
Muitas privações, efabulações, uma só família Mau Tempo 
Domingos e Sara casaram 5 filhos tiveram
O mais velho é João que casou com Faustina
Três filhos tiveram: António, Amélia e Gracinda
Amores e paixões no meio de contradições.
Tanta palavra, tanta página, tanto verso, tanto dizer 
O homem com que mais aprendi não sabia ler nem escrever 
António é narrador, Amélia vai pra Lisboa, Gracinda se enamorou
O coração disparou por Manuel Espada e mais tarde se casou
Um rebento tiveram, filha da liberdade Seu nome Maria Adelaide e acabou-se a austeridade 
Gente, solta e miúda, que veio com a terra
Mas que não está registada na mesa da escritura
Tanta palavra, tanta página, tanto verso, tanto dizer 
O homem com que mais aprendi não sabia ler nem escrever 
Cantemos ainda Lambertos, Norbertos, Latifundibertos, Etctribertos
Gente de origem germânica que não muda de nome,nascidos uns dos outros
Os donos da terra, que serão sempre os mesmos
Papões, comilões registados na escritura
Com o sangue nas mãos são martelos para os cães....
Aí está a terra, seus donos, o pão e o trabalho"

Após o espectáculo, Carlos Marques falou com o público, 
num momento em que todos sentiram fazer parte desta arte de palco

"Memória da Maria Adelaide"
"O que mais há na terra é paisagem, por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou. A paisagem é sem dúvida anterior ao homem. Não faltam cores a esta paisagem... tanta paisagem.
Um homem pode andar por cá uma vida inteira e nunca se achar, se já nasceu perdido. E tanto lhe fará morrer chegada a hora. É sabido que as paisagens morrem porque as matam, não porque se suicidem. Mas isto são histórias que levam séculos a contar.
Há livros que não têm pressa de ser lidos.
Há livros que não têm pressa de ser lidos.
Há uns anos atrás deram-me um livro que não conseguia ler. Lia uma página, duas e não conseguia passar dali. 
Não percebia nada, era confuso, não conseguia passar da segunda página.
Se calhar não tivemos nem poesia suficiente, nem teatro suficiente, nem música suficiente, arte suficiente, nem educação alargada que nos desse alguma coisa diferente disto tudo.
Opá, lê em voz alta – Então, li em voz alta.
Escutei as palavras, como se me pertencessem, como se fizessem parte da minha história. Mas até parece que é proibido consumir poesia... pode haver um perigo de contaminação! “Quando a palavra da poesia não convier à política, é a política que deve ser corrigida” disse a Sophia."



Canção 3 – "Song Train ou o Princípio"
"Chamo-me Domingos Mau-Tempo e sou sapateiro – Mau tempo trouxe vossemecê. É assim que começa a saga desta família. Numa carroça, Domingos, bêbado, sua mulher oprimida Sara e o filhote João de olhos azuis. 
De terra em terra Sara vai engravidando e totaliza cinco filhos e Domingos, na errância dos caminhos acabará por se enforcar. Sara acabará louca.
Com o suicídio do pai, é chegada a vez de João Mau Tempo de ser o novo homem da casa. Dono de coisa nenhuma, pois nem merenda leva quando cava.

Todos os dias levanta-se ainda noite fechada, caminha meio a dormir com o estômago frouxo até ao lugar do trabalho e “ós depois”, até o sol posto, para tornar a casa, outra vez de noite morto de fadiga, se não é já transe de morte.

Passa o tempo dá-se a Primeira Grande Guerra... e muito comia a guerra. À guerra vão os heróis, mas João não tem corpo de herói. Está crescido o rapaz! Mas não tem corpo.
Não tem corpo, mas apaixona-se. E quem é que nunca se apaixonou? Conhece o seu grande amor, Faustina, começam a namorar e decidem casar, porém como a família da donzela é contra, fogem, em pleno inverno, levando um pedaço de pão com chouriço para comer pelo caminho: de mãos dadas os dedos tremiam, e talvez rendidos pelo medo, pelo frio e pelo cansaço acharam-se deitados. Os olhos fecharam-se, o cérebro tentou parar o tempo, e o coração disparou.
E em pouco tempo perdeu Faustina a sua donzelia, e, quando terminaram, lembrou-se João do pão com chouriço, e como marido e mulher o repartiram.

Faustina minha mulher que comigo repartiste o pão com chouriço numa noite de inverno e ficaste com a saia molhada, tantas saudades. Isto dirá João quando morrer.
É bonita esta história, não é?
Três filhos tiveram: António, Amélia e Gracinda.
Enquanto isto o povo continua a viver oprimido pelos latifundibertos. É bom, dizia o “papãoberto” no seu jantar de aniversário, que eles nada saibam, nem ler nem escrever nem contar nem pensar, que considerem e aceitem que o mundo não pode ser mudado, que este mundo é o único possível, tal como está, que só depois de morrer haverá paraíso, que só o trabalho dá dignidade e dinheiro.

Uns porém já se começam a levantar, naquele singular sentido que é acordar em pleno meio dia e descobrir que um minuto antes ainda era noite.

O tempo passa, os miúdos cresceram, e António, o filho mais velho, já começou a trabalhar, trabalhar, trabalhar..."



Canção 4 – "Oh minha mãe dos trabalhos"
"Ceifar, gadanhar, debulhar | malhar o centeio, tapar o palheiro,
Lavrar, enfardar, semear | espalhar o adubo, enxertar as vinhas
Podar, argolar, montear | abrir as covatas,
Cavar, varejar, ensacar | trabalhar, trabalhar, trabalhar

Oh minha mãe dos trabalhos, oh minha mãe dos trabalhos
Para que trabalho eu, ioai para quem trabalho eu
Trabalho mato o meu corpo, trabalho mato o meu corpo
Não tenho nada de meu, para quem trabalho eu

Diz-me lá patrão Alberto, Diz-me lá patrão Lamberto
Que triste pensar o teu, Que triste pensar o teu
Se não mudares de sentido, Se não mudares de sentido,
Morres tu e morro eu, Que triste pensar o teu…

Ó minha mãe tenho sede, Dê-me "auga", quero beber.
Tenho sede e tenho fome, Ninguém de mim quer saber.
O que aí vai, santo deus, de palavras tão bonitas, tão de enriquecer os léxicos, bem aventurados dos que trabalham. 

Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.

Salazar já havia assumido o poder. Entre os trabalhadores começa a haver burburinhos, reuniões clandestinas. Mas os patrões não são estúpidos. NÃO!!!

Sabem lá eles o que são greves, são rapaziada
mas quatro vão presos duma assentada e quando soltos:
Rapazes, tenham cuidado, nunca mais voltem a fazer terrorismo e não se iludam com doutrinas falsas.
E de repente a vida vira-te do avesso e descobres que o avesso é o teu lado certo.
Um jovem idealista, chamado Manuel Espada se destaca, por ser revolucionário."



Canção 5 – "Quotidiano"
Um homem olha para cima, desesperado outro tropeça
Um cantor estica a cara, uma criança chora na rua
Um homem tem uma pedra em cada mão
Outro grita à carga no meio da confusão
Que mundo é este em que vivemos? Tudo falha podes sempre chorar

Para te fazeres entender tens de por a música a tocar
Manuel Espada acabará por se apaixonar por Gracinda Mau Tempo, irmã de António que será grande contador de Histórias. E quem é que nunca se apaixonou?
Gostava de namorar contigo.
Ela respondeu, apenas olhando, foi quanto bastou. Mais tarde irão casar!
Vão ter filhos, vão ser felizes para sempre. Para sempre mesmo, porque já vivem numa sociedade justa. Livre. Que se questiona, que se organiza. Com igualdade de oportunidades. Homens e mulheres com os mesmos salários. Possibilidade de escolha.

A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Liberdade. A sério. 
E vivem da riqueza que produzem. Podia ter sido isto que aconteceu, mas não. Não foi nada disso que aconteceu. Mas podia ter sido. Brecht explica isto bem melhor que eu.

É o mesmo que acontece no romance com o Zé Gato. Um herói que não é bem um herói, mas podia ser ou então é-o em sonhos... nem sei bem. Eu gosto de pensar que é.O Zé Gato passava o tempo a roubar os ricos, nunca roubou os pobres. Roubava animais, hortaliças, as espingardas dos feitores, roubava tudo e claro está dinheiro. E nunca era apanhado... era assim tal como no faroeste: um justiceiro da série Bonanza.
Só anos mais tarde é que foi pilhado em Vendas Novas. Estava amantizado com uma mulher que vendia hortaliça. Dizem que foi ela que o denunciou, após uma acesa discussão, mas isso não sei. Dizem que o enviaram para Lisboa e depois foi para as colónias como polícia do estado... custa-me a crer, dizem também que o mataram em Lisboa. Dizem tantas coisas. Tinha coisas boas este Zé Gato... uma vez encontrou uma mulher a chorar que lhe contou que o Parrilhas (um da sua quadrilha) lhe tinha roubado o aviozito. O Zé Gato não esteve de modas, foi direito ao Parrilhas, parecia uma flecha, deu-lhe a maior sova da sua vida. Coitado do Parrilhas, mas foi bem feito! Dizem que só se meteu naquela vida de ladrão, porque não ganhava para comer no trabalho.

E depois vem aquele capítulo, mesmo no meio, na terceira geração, no tempo da resistência.
Germano Santos Vidigal por inteiro. Um livro composto páginas e páginas e páginas, reuniões clandestinas, torturas, ameaças, agitações políticas. Por 33 capítulos. No 17.º – praticamente a meio – levam--no dois guardas, levam-no da praça, à saída da porta juntam-se mais dois, parece mesmo de propósito, é tudo a subir, para o posto, como se estivesse a ver um filme sobre Cristo ou outro mártir qualquer. E já na sala vemos através daqueles olhinhos compostos, são dois olhinhos e cada olhinho é feito de mil olhinhos pequeninos naquele carreirinho – até parece que vemos cada punhada com a força de mil murros, e o sangue é um mar latifúndio.



Canção 6 – "Zé Gato"
"Sigismundo Canastro andava à caça, ele nem era nada desajeitado a caçar, não senhor. Nessa altura andava sempre com um canito que havia ensinado para andar nas caçadas. E num dia no meio do mato alevanta-se uma perdiz e ela vai como um raio. O Sigismundo mete a espingarda à cara e BUM ... mas nem com um bago de chumbo acertou no bicho. Mas o Constante, era assim o nome do canito, corre em direção à perdiz e sumiu-se-lhe. Por mais que o dono chamasse, assobiasse, o animal não aparecia.
Passados dois anos calhou ir para aqueles lados e de repente o que é que ele vê? O esqueleto do cão, ali de pé, a marrar o esqueleto da perdiz, e estavam naquilo há dois anos, cada qual na sua firmeza.Parece que estou a ver, o “Cãostante”, com o focinho esticado, a pata alevantada, não houve vento, nem chuva que lhe soltasse os ossos.

Não houve vento, ou chuva que lhe tirasse a firmeza. Qual coluna vertebral, erguida, firme, fiel.
Devia ter lido mais. Saber mais. Mais Constante. Devia ter contado mais histórias. Repetido a cassete mais vezes. Há uns anos atrás contava histórias para mudar o mundo,Hoje repito a cassete para que o mundo não me mude a mim. Para não me contentar com isto.

Devem achar que sou um marxiano, que acabei de aterrar do Planeta Marx, do vermelho planeta Marx e que venho aqui para os conquistar, para os colonizar.Passaram-se mais de 40 anos sobre a “madrugada que eu esperava. O dia inicial inteiro e limpo”. Gracinda casa-se com Manuel Espada terão uma menina – Maria Adelaide – é ela que assiste ao fim da ditadura. Não! É ela que assiste à festa de Abril."

Memória de Maria Adelaide
É como se tivesse vivido sempre com os olhos fechados e agora, enfim, os tivesse ‘abrido'.


Canção 7 – "Sou mulher de trabalho" a partir de “Canção Sem Maneiras” dos GAC
"Senhores, sou mulher de trabalho,
e falo com poucas maneiras, porque as maneiras,
são como a luva que calça o ladrão.
Às vezes, eu ponho-me a pensar,
na vida das trabalhadeiras, e nas canseiras,
com que ganhamos a fome e o pão.
Há tanta gente como eu, tantos que pensam como eu, 
Sou mulher de trabalho.
enquanto não formos nós a mandar, O fascismo que vai regressar.
Sou mulher de trabalho

A menina cresceu e cedo percebeu que não foi criada para ser princesa, mas tem sonhos. Quem não os tem?Maria Adelaide sonhou com uma senhora empunhando uma bandeira com as maminhas ao léu. Sonhou que fazia parte de uma democracici. Que tinha voz activa numa democracra... onde se discutia tudo até a própria demomomomo... e reparou que a senhora das maminhas ao léu era a própria dededede... e que estava junto de uma outra senhora que segurava um archote na mão e que lhe dizia “vai correr tudo bem”.

Às vezes, cheguei a acreditar,
que a nova democracia, acabaria, 
com o fascismo e a exploração.

Senhores, sou mulher de trabalho,
estou farta dessas brincadeiras,
E digo às minhas companheiras
Um mundo novo está para chegar.

E então a ocupação das terras alastra-se como os malmequeres:
Somos trabalhadores, não viemos roubar."


Canção 8 – "Medley interventivo" 
"Canta o Sérgio Godinho
 Já estou velho e cansado pela vida que eu passei 
Tantas vezes eu penei e por vezes maltratado 
Tudo o que por mim passou tudo o que por mim passou
Coisas que o tempo levou e não tornam a voltar 
Quem eu era já não sou


Canta o Fausto
Quando a CEE chegou
havia pilim por todo o lado e aí está o resultado do mal que nos causou
assim que a magana entrou
começou logo a correr mal desapareceu o capital foi dinheiro, 
foi o ouro ficaste sem teu tesouro 
Ó meu lindo Portugal Etc e tal.

Canta o José Mário Branco
Tudo quando é ruim Já nem sei o que vem a seguir (E7, Am7)
Até já mandaram vir Para cá o FMI (Dm, G, D)
Agora o Pobre que chore No meio desta trapalhada D, G, C, C dim)
Neste país moribundo Só há conversa fiada
Conversa fiada

Vamos dar emprego a toda a gente
Agora vai ser tudo diferente
Vamos votar para o bem da nação
Vamos levantar-nos do chão

Canta o Zeca Afonso
Meus Avós eram de cá Meus tios viveram aqui 
Os montes para mim É terra do melhor que há
Vá eu para onde vá
Nunca os esquecerei Tantas vezes os visitei 
Dos montes sempre gostei 

E por aí fora...
Parecia que a luta tinha acabado ali e que a democracicici resolveria tudo. Mas a verdade é que ninguém sabia muito bem para onde ir. O livro termina com o cão Constante
neste dia levantado e principal. E se Maria Adelaide começar a chorar não se admirem.

Ela teve o primeiro filho em 78...
Ela dizia-me – A crise surgiu por causa dos políticos Então, para acabar com a crise, dizia eu, os países deviam juntar-se e fazer dinheiro falso. Ela ria-se. Sabes, é complicado inventar uma máquina de fazer dinheiro.
Então não deveria haver países.
É isso, abolir as pátrias. Quero ser apátrida. Quero ser daqui, dali e de todos os lugares. Estou cansado de continentes, de federações, de uniões, de países. Farto defronteiras. Do norte do sul. De linhas imaginárias que nada imaginam senão ganância. Estou farto de tanto arame farpado. De tão altos muros. De tão curtas vistas.
Quero que se lixem as fronteiras, os passaportes e os cartões de cidadão.
Quero um mapa mundi do tamanho do horizonte, sem interrupções que não sejam as geográficas. Dos rios, serras, mares e oceanos. “Tanta paisagem”. E neste mapa sem muros, desejo ser apenas um ponto no território.Um ponto de fuga. Um ponto em movimento constante em direcção a lugar nenhum. Apaguem definitivamente o meu código postal. Quero ser Apátrida!

I wanna be a rock star.

Depois veio a adolescência... essa parte foi complicada, é melhor nem falar disso, mas lembro-me de pensar que gostaria de ser dono de um banco – acho que seria muito
bom a acumular dinheiro alheio."


Canção 9 – "I wanna be a rock star" 
"I wanna be a rock star.
Arreganhar os dentes na BRAVO, ou na “Super Som”.
Comprar uma Fender Stratocaster e um amplificador bem grande.
Fazer uma banda punk sei lá,Fazer um LP com a capa do muro de Berlim a cair.

Nevermind! O Grunge morreu e foi aí que comecei a ler... “Opá, lê em voz alta” – disse ela, agora vais para a Universidade.
Uau. Letras. Livros, jornais, música, teatro a potes, cultura... sai da toca moço. Adeus mãe. Naquele tempo o André, o Luís, o Nuno, o Marco.. a Patrícia. Parecia que podíamos mudar o mundo, sei lá!

Foi na faculdade que aprendi algumas palavras “importantes” por exemplo: Acordo, Barba, Boina, Crença, Contubérnio, Pernóstico, Verfremdungseffekt esta foi difícil. Foi o senhor Brecht quem me ensinou e outras, que agora não me lembro.
Quem cede nas palavras, cede nas ideias. Disse ela!
Depois veio a primeira entrevista – nem penses em ir de calças de ganga.
Está bem Maria Adelaide.
Porque é que me deviam contratar?
O que procuro com este trabalho?
Quanto penso receber com este trabalho?
Falar um pouco sobre mim?! – Então, gosto muito de correr, não. Eu gosto de ler, ir à praia... tenho um cão.O meu emprego de sonho? – De horário flexível e com boas – sabiam que na Noruega o horário de trabalho começa no momento em que apanhas o comboio para ires trabalhar.
Se sou uma pessoa versátil? Acho que sim... Acham que me vão perguntar coisas destas? Eu acho que eles tiram a pinta de um gajo e pronto, ou então já está tudo acertado antes. Querem lá saber. Quando muito perguntam-me se não me importo de ser fodido todos os dias e de ganhar uma merda.

Sabedoria popular:
Qual é coisa qual é ela: A mais constante de todas as medidas.

É um eixo para que determina os dias e as noites do Homem
Estes giram, giram, giram, quando o ganham só consomem
O que é?
Trabalhar, consumir e o medo de perder o emprego.
Mas que emprego?
Eu apenas tenho medo de perder a voz. Ou de ficar gago...Vai correr tudo bem. Respira."


Canção 10 – "Respira "
"Respira... vamos na luz da manhã
Vamos partir, sem ninguém saber.
Não há mais nada a fazer, nada a fazer, nada a fazer
Mas sabemos quem são, e onde estão,
Sabemos onde vivem por mais que se escondam
Temos coisas a dizer, não podem continuar a fugir de nós.Tens de encontrar o que deixaste lá no passado e te enfureceu
Estás de braços caídos, goela apertada, mas vai correr tudo bem.
Respira vamos na luz da manhã, vamos partir sem ninguém saber...

Os mortos acompanham-nos nesta caminhada, vamos todos, os vivos e os mortos e temos nome: Maus Tempo! Ter nome é ter condição política. Ter nome é assinar um fazer e o fazer é inscrever o nome. Inscrever o nome é ter coragem. É saber de que lado da trincheira se está. Sem nome temos o silêncio. Assinar com letra maiúscula é ser herói. Vivemos de convenções. É como a pontuação. Puras convenções. Porque é que não posso falar com a Maiúscula que me pertence?... Eu estou a falar em maiúsculas.Os homens “não nascem para morrer, mas para começar”. Cada nascimento é uma possibilidade de acontecer aquele acontecimento único que rompe o ciclo “natural” da história. Não há um único morto pela liberdade em cujo túmulo não cresça uma sementinha de liberdade, dando sementes também. Heróis, Ainda há heróis? Para fazer uma revolução? Não de cravos, nem de espingardas... mas de nomes. A revolução dos nomes. Não serão os heróis – os verdadeiros – heróis improváveis?

Eu não vos tenho que dizer que as coisas estão mal. Toda a gente sabe que estão. É uma depressão. Sabemos que o ar está a ficar irrespirável e que aquilo que comemosé só lixo.
Sentamo-nos em frente aos pêcês, ou têvês, ou vê-é-le-cês ou dabliu-cês, ou éle-éssedêss... tanto faz onde, enquanto a caixinha nos diz “é a vida! vemo-nos amanhã”

Mortos palestinianos e israelitas
Um novo grupo de formigas que foi solto num campo de trabalho,
O auto denominado estado islâmico pode estar a preparar um novo ataque,
Descobertas centenas de vítimas em contentores no Afeganistão,
Maus tempo que saltam muros na fronteira da Grécia
Maus-tempo que atravessam o mediterrâneo em frágeis barquinhos
Maus Tempo que esperam em filas nos hospitaisUm grupo de Maus Tempo que perdeu o emprego num despedimento colectivo 
Números de refugiados, números que nunca batem certo – dependendo do ponto de vista, é claro - e no fim surge uma notícia como que uma luz divina, que redime:

Nasceu um bebé panda no zoo de Pequim
É a vida, vemo-nos amanha

E um grande sorriso do pivot
Pelo meio ainda tiveste a oportunidade de ver um anúncio para te convencer a seres voluntário de uma mega empresa a troco de um livre trânsito num festival qualquer da moda, que ela própria patrocina – mas atenção tens de saber, pelo menos, três línguas, ter carta de condução e boa aparência, claro. E um tempo de antena para o qual já ninguém tem pachorra. E tudo isto é normal... como se fosse normal. Devia ter lido mais. Ser mais constante. (pausa)

Uivemos disse o cão. Não sei o que dizer desta crise, do preço das coisas, da mão de obra barata, dos combustíveis, dos impostos, da inflação, dos bancos, dos plafonamentos, dos números, défice... só sei que antes de tudo, temos que nos enfurecer. Arreganhar os dentes.

Levantar a cabeça como os cães e dizer: a minha vida tem valor. Porra (pausa) bom... peço-vos que se levantem das vossas cadeiras e que gritem comigo: estou raivoso e não vou aguentar mais esta merda! e só depois é que podemos falar sobre a inflação, a depressão, o emprego, a crise... mas primeiro temos que nos levantar das cadeiras e ficar raivosos.

Pausa

Eu gostaria de voltar a ser criança. 
Recriançar-me...Não consigo discutir em espaços públicos.
Cantar só com efeitos, desafino para caraças.Nunca escrevi uma música

Tenho horror a que descubram a fraude farfalhuda que sou
O meu maior medo? Perder a voz... ficar gago
Quando tusso olho para a mão a ver se não cuspi sangue
Não estou assim tão doente
Mas às vezes gosto de pensar que tenho uma costelinha de Tchekov...Brecht, está a ficar lá atrás!Não tenho história nenhuma a contar, já disse o que tinha a dizer.

Mais vale ter de levantar do chão do que nunca cair."



Canção 11 – "Constante" 
"Constante, Invariável firmeza, provém do lobo cinzento
Noventa e nove porcento, e já lhe cheirou a comida
Bom caçador, Vigoroso corredor, avança com máscaras de gás
Tu nem sabes do que é capaz e já ouviu da terra um tremor

Que dizia
Não vamos a lado nenhum, somos a ameaça preguiçosa
Não vamos a lado nenhum, Também não vamos pedir esmola
Não vamos aparecer nos escritórios, nem nas fábricas ou escolas
Nem tão-pouco às oficinas, muito menos aos estaleiros
Não vamos aos mercados, nem aparecer na TV,
Vamos ficar à espera e cair como um martelo"

Fim

Moeda em homenagem a José Saramago apresentada na Casa dos Bicos (22/05/2013)

A informação pode ser recuperada, através do portal da INCM, aqui


"No dia 22 de maio, durante uma cerimónia que decorreu na Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, foi apresentada oficialmente a moeda de coleção comemorativa que presta homenagem ao autor português e que integra a Série Europa, este ano dedicada aos escritores europeus.

O evento contou com a presença do criador da moeda, o escultor Vítor Santos, responsável, entre outros trabalhos, pela face nacional das moedas de euro, tendo a apresentação ficado a cargo de António Osório, presidente do conselho de administração da INCM, e de Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago.

«Hoje comemora-se o dia do autor português e que melhor forma de homenagear o autor português do que com a cunhagem de uma moeda dedicada à sua obra», sublinhou António Osório, que assim dava início à apresentação da moeda, perante uma plateia repleta de admiradores do escritor.

O presidente do conselho de administração da INCM prosseguiu a sua intervenção dizendo que «este ano, juntamente com outros países europeus, decidiu-se emitir uma moeda comemorativa, cujo tema escolhido são os escritores europeus. Aqui em Portugal foi decidido que seria cunhada uma em homenagem a Saramago. A escolha foi óbvia.» Em seguida, após ter sido exibido um vídeo que dava a conhecer todo o processo de produção da moeda, foi a vez de Pilar del Río proferir algumas palavras, começando por questionar se Saramago, em consonância com os ideais que defendia, estaria de acordo com a emissão de «dinheiro» com a sua face encastrada, no entanto a antiga companheira do escritor acabou por citar São Francisco de Assis: «Não há que ser pobre com os pobres, há que evitar a pobreza.»"


"O evento encerrou com uma recitação de vários textos da autoria de José Saramago pela voz de Filomena Oliveira, do grupo de teatro Éter, escutados com muita atenção por todos os presentes, que assim tiveram oportunidade de confirmar o génio, o talento e a capacidade visionária do autor de obras intemporais como A Jangada de Pedra ou o Memorial do Convento. 

Moedas que celebram grandes nomes da literatura europeia

A moeda criada por Vitor Santos em homenagem ao escritor português exibe no seu anverso uma representação estilizada do rosto de Saramago, com os títulos de alguns dos seus livros a compor os seus cabelos, surgindo no reverso uma alusão ao Prémio Nobel da Literatura, galardão conferido a Saramago pela Academia sueca em 1998. 

Integrada na Série Europa, esta moeda de coleção comemorativa tem o valor facial de € 2,50 e conta com uma emissão limitada a 2500 exemplares em ouro 999/1000 e 2500 exemplares em prata 925/1000, com acabamento proof, e 100 000 exemplares em cuproníquel com acabamento normal.

As moedas que integram a Série Europa são emissões oficiais em euros de vários países europeus, realizadas em conformidade com as normas do Banco Central Europeu e subordinadas a uma temática anual comum, embora cada uma delas seja específica do Estado que a emite e só aí tenha curso legal.

A emissão destas moedas de coleção comemorativas pretende colocar em evidência o património e a diversidade cultural que compõem a identidade europeia, um projeto que conta com a participação da INCM desde o seu lançamento em 2004.

Este ano, além do Nobel português, encontram‑se também representados nas moedas que fazem parte da Série Europa outros grandes nomes da literatura europeia, tais como o francês Gustave Flaubert, o espanhol Miguel de Cervantes, o austríaco Stefan Zweig ou o irlandês James Joyce." 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Exposição “Lanzarote: A Janela de Saramago” de João Francisco Vilhena de 25/04 a 09/07

(Fotografia de João Francisco Vilhena)

Contactos e Localização
Rua Lançarote de Freitas, n.º 7 - 8600-605 Lagos
T. + 351 282 770 450
centro.cultural@cm-lagos.pt - exposicoes.ccl@cm-lagos.pt

Mais informação através do site do Centro Cultural de Lagos, aqui 

Sinopse da exposição
“Lanzarote: a janela de Saramago” é uma exposição fotográfica de João Francisco Vilhena sobre a relação entre o Nobel da Literatura falecido em 2010 e a ilha que escolheu para viver. “Lanzarote, a janela de Saramago” é um diário/caderno de notas sobre o olhar sensorial e apaixonado do escritor, visto e filtrado pelo olhar de um fotógrafo que em 1998 esteve em Lanzarote para o retratar, e que 15 anos depois regressa para capturar novas imagens e tentar captar o que aquela terra, no meio do oceano, representou para o único prémio Nobel de Literatura da língua portuguesa.
A tranquilidade, refletida nas palavras, a influência da paisagem, a luz e as nuvens, o mar e o silêncio, a temperatura das cores, tudo isso influenciou a escrita e a vida de Saramago em Lanzarote, como ele mesmo reconheceu. Através das suas fotos João Vilhena procura retratar Lanzarote como uma janela aberta por Saramago, e que ao mesmo tempo abriu-se ao escritor. O lugar e sua paisagem como símbolo de uma nova fase; uma nova literatura, uma nova vida, um momento diferente de criação e do homem.

João Francisco Vilhena nasceu em Lisboa em 1965. Trabalhou como fotojornalista e colaborou com diversos jornais e revistas, em Portugal e no estrangeiro, tais como a Revista Ler, Elle, Máxima, Marie Claire, Oceanos, Visão, Grande Reportagem,Colóquio-Letras, Der Spiegel, Le Monde e o suplemento cultural DNA. Foi editor fotográfico do semanário O Independente e do semanário Sol, e diretor de arte da Tabacaria, a revista literária da Casa Fernando Pessoa. Tem realizado diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. Assinou vários livros em coautoria e tem participado nos júris de diversos prémios de fotografia."


“La Ilusion Democratica” (13 de marzo de 1998)

“La Ilusion Democratica" - 13 de marzo de 1998.


"Pues no traigo más que un discurso y debería traer dos discursos, en el discurso que me falta en este momento es el discurso de la emoción de estar en este lugar delante de todos vosotros, de estar bajo la memoria de Cortázar y de estar entre amigos, la verdad es que no creo que alguna vez haya estado en algún lugar donde de una hora a la otra todos eran amigos, todos querían ser amigos, todos hemos daban su amistad y nosotros a todos ellos correspondidos. 

Las palabras de Carlos Fuentes, el escritor mexicano que yo me acostumbre a admirar desde cuando ni siquiera yo pensaba escribir una sola palabra o quizás sí algunas había escrito, pero eran palabras que yo no consideraba que tuvieran una vez, el poder de llevarme más tarde al lado de él, de las palabras de Carlos, no se que decir, en primer lugar no me han dicho “Mire esto es lo que voy a decir ahí, porque si lo hubieran hecho yo estaría preparado para la emoción, pero la verdad es que mejor así y entre todo lo que ha dicho, bueno no voy ahora a decir que tiene razón en todo o en alguna parte, yo recojo como algo que tiene mucho que ver con lo que he vivido y es como habló de mí y al mismo tiempo habló de mi mujer.

Esto cuenta mucho, porque la verdad uno no va nunca por la vida solo, a veces si nos encontramos solos en la soledad más desgraciada que se puede uno imaginar, pero siempre está eso que llamamos esperanza y que incluso cuando uno ya no tiene nada se da cuenta que si todavía le queda la esperanza como si le queda todo y hablar de mi vida (que he vivido mucho) como se nota por la edad
y vivir poco en la realidad, a lo largo de todo este tiempo yo diría, y lo digo así sin ningún pudor, y es como si toda mi vida fuera una larga preparación para llegar a los años que estoy viviendo hoy.

Podría agradecer a todos los que están ahí sentados, pero la verdad es que agradezco a todos, así uno por uno y todos en un abrazo, y a vosotros ya habremos afinado en que estamos ganando una conferencia si lo que tengo para decirles agradeciendo vuestra atención, vuestra comprensión.

Se llama esto la ilusión democrática, entonces, si yo no hubiera dicho todo lo que he dicho antes estaría ahora empezando diciendo: Señores y señoras”, pero ¿cómo esto se puede decir ahora, después de haber dicho lo que he dicho antes?.

Entonces, amigos, señores, jóvenes, estudiantes y todos los asistentes soy alguien que ha vivido, ha pensado, ha reflexionado y que no le gustaría irse de este mundo callado, me gustaría que la última señal de mi vida no fuera un suspiro, que fuera un grito en protesta, porque nos han condenado a vivir como no lo merecíamos.

Entonces empiezo así, ahora si pierdo el tono emotivo si pierdo esta comunicación de afectividad, pero vamos a algo que tiene que ver más con lo que llamamos el encuentro.

Estas páginas podrían llevar el título de democracia con la apariencia y realidad, quizás más de dos pero a pesar de los obvios inconvenientes derivados de una ambigüedad conceptuada, su sentido de inducir a los lectores interpretaciones tendenciosas, he preferido rotularlo “La Ilusión Democrática”.

Quiero decir y con esto trato de prevenir los más inmediatos desencuentros entre el que habla y sus oyentes, que frente al objeto del tema he tomado la palabra ilusión en su doble significado, en primer lugar engaño a los sentidos por la mente, la apariencia falsa, en segundo lugar sueño, devaneo, uno y otro estarán aquí igualmente presentes como las dos caras de la misma y eterna medalla, de la realidad y de las utopías, mascaras para ocultar mejor el rostro que siempre acaba por imitar a la máscara.

Hablemos entonces de ilusiones de las malas y de las buenas.

Para comenzar, una pregunta simple, ¿hasta que punto son competencia para asegurarnos una vivencia democrática?, aquí las instancias del poder político, y no es el momento de identificarlas, que valiéndose de la legitimidad institucional obtenida por una elección popular tratan de disfrazar por todos los medios y formas la evidencia de que en el acto mismo de la votación se encuentran presentes conflictivamente la expresión material y documental de una opción política y la manifestación implícita de una abdicación cívica, sin conciencia de si misma; en otras palabras, no será una verdad incontrovertida que en el preciso instante en que el voto es introducido a la urna esos sí en verdad el elector le transfiere a otras manos sin reales objetivos contra partidas la parcela de poder y de intervención política que hasta ese momento le pertenecía como miembro de su comunidad, cualquier manual de derecho político elemental nos definirá la democracia como una organización interna del estado en la que cada pueblo, el origen y el ejercicio del poder político en la que el pueblo gobernado es quien gobierna a través de sus legítimos representantes asegurándose así, añade el manual la simbiosis y la intercomunicación entre los gobernantes y los gobernados en el marco de estado de derecho. 

Definiciones como esta, de una pertinencia y una precisión formal, me parecen rozar la frontera de las ciencias exactas y que valdría en el cuadro de nuestra vida ideológica pretender ignorar, por ejemplo, la infinita graduación de estados patológicos o degenerativos de más o menos brevedad que en cada momento pueden ser identificados en nuestro propio pueblo.

Expresándolo de otro modo el hecho de que la democracia sea indiscutiblemente en su definición clásica lo que las fórmulas ya antes citadas, no significa necesariamente que sea real y efectiva democracia, sólo porque en el conjunto de sus estructuras y órdenes institucionales es posible, cuando se es el caso, encontrar aún en sus trazos algún vestigio de la promesa admirada y contenida en
la definición que nos ha dado la enciclopedia.

Un brevísimo viaje por la historia de las ideas políticas van a servir para evocar dos cuestiones muy simples que siendo del conocimiento de todo el mundo, sin embargo y bajo pretexto de que los tiempos han cambiado invariablemente influenciados, a la hora de reflexionar no tanto sobre definiciones de democracia más o menos halagadoras sino sobre su existencia concreta.

La primera cuestión consistirá en recordar que la democracia nació allá por el siglo V a.c. en la Grecia clásica y esa democracia naciente presuponía en la gente presuponía la participación de todos los hombres libres en el gobierno de la ciudad y esa democracia era directa, sin directivos, todos los cargos públicos o atribuidos según método mixto de sorteo y de elección y finalmente en esa democracia los ciudadanos libres tenían derecho a votar y a presentar propuestas en las asambleas populares, esto era la democracia griega, pero que no podía incluir a esclavos porque no eran ciudadanos libres. Por lo tanto la democracia solo tenía como beneficiarios a los ciudadanos libres pero nosotros vivimos en un tiempo en que no hay esclavos, por lo tanto todos somos ciudadanos libres.

Así fue la Grecia de aquellos tiempos, pero en Roma, primera y más directa heredera de las innovaciones de los griegos antiguos del sistema democrático a pesar de las pruebas dadas en el país de origen no llego a implantarse. También sabemos por que. A la par de otros factores auxiliares, aún con menor significado político y social el principal y definitivo obstáculo para el establecimiento de la democracia en Roma procedió del poder de una aristocracia agraria que muy justificadamente, desde su punto de vista, tendría que considerar el sistema democrático como un radical enemigo de sus empresas. Ahora bien, aun tenían encuentros políticos debido a las extrapolaciones del tiempo y lugar , siempre creo no así a la tentación de preguntar a los gigantescos imperios financieros e industriales sobre los que el común de las personas disponen de poca o de ninguna información no obstante ellos, esos mastodontes de imperios, cumpliendo y haciendo cumplir la lógica exclusiva de sus intereses y tal como lo hicieron los terratenientes aristocráticos de Roma contribuyendo de un modo frío y calculado el reducir hasta casi la insignificancia una posibilidad de vida democrática que cada vez más apartada en los tiempos de su expresión original se encuentra hoy en un, rápido comportamiento, es decir aparentemente elaborado desarrollado y conservado en sus teorías e informes pero si no me equivoco cada vez más pervertida en su esencia, cada vez más desviada de su
humano concepto.

Temerario les habrás parecido seguramente que haya venido aquí a representar el papel de abogado del diablo comenzando por preguntar en un tono claro y provocador sobre la pertinencia y propiedad de los distintos procesos políticos de representación y el ejercicio de la autoridad democrática y no poner en particular evidencia el residuo instrumental que, según todos los testimonios, separan a los
ciudadanos electores de los ciudadanos elegidos en los sistemas democráticos actuales.

Pues bien, precisamente porque pienso que es necesario traspasar de forma radical los límites más o menos concensuados en que nos hemos resignado a discutir los méritos relativos y las obvias debilidades de nuestras democracias domésticas, es por lo que me parece necesario que nos detengamos a reflexionar en lo que la democracia es y para qué sirve, antes de aspirar gracias a una operación alquímica obligatoria y universal, como si hubiera finalmente convertido el polvo en oro.

La Democracia misionalmente se quiere extender al resto del mundo como si se tratara de una nueva religión no es ni mucho menos la democracia all around de los sabios primerizos y en última instancia de los ingenuos griegos sino aquella otra, los ahora experimentados y pragmáticos romanos sin ninguna duda esta el camino agotado sin el que no hubiesen encontrado alguna utilidad práctica. Es decir una democracia como la del final del siglo esta falsa democracia que nos rige y que pregonamos hipotecada por mil y un condicionante financiero de fenómenos estructurales y sociales, y no nos hagamos ilusiones, haría mudar prontamente de leyes a los latifundistas, turnándose en activos y eficaces demócratas, entre comillas, precursores de espíritu neoliberal de nuestros administrativos; incluso porque no decirlo, de nuestros cuando no traficantes de las mayores aversiones. Esta claro del todo que las democracias nominales-occidentales no son censatarios ni racistas y el voto del ciudadano más rico o de piel más clara cuenta tanto en las urnas como el voto del ciudadano más pobre o de piel más oscura por lo que calibrando las cosas según sus apariencias la mirada puntual de una practica democrática que inicialmente fuera una mayor extensión geográfica para convencer de una vez a ustedes. Sin embargo si se me permite echar un chorro de agua fría en estor enormes y unánimes hervores, diré que para desgracia de los que sufren la realidad del mundo es muy diferente y de una manera u otra siempre acabamos por encontrar un cuerpo autoritario y particular, debajo de los ropajes democráticos elegantes. A los que más fueron casi mis primeros pasos que el acto de votar siendo expresión de una voluntad es también implícitamente y al mismo tiempo una tradición de renuncia al ejercicio de esa misma voluntad en la medida en que representa, sino formalmente si para efectos prácticos da la dirección de un poder propio al afirmarlo repito, cobró conscientemente pienso en el umbral de la cuestión pues no considere entonces los prolongamientos que construyese el acto electoral tanto desde un punto de vista institucional como desde un punto de vista de los diferentes individuos políticos y sociales en los que transcurre la vida política de una comunidad que a base de decir, de acuerdo con una expresión consagrada de sus representantes.

Mirando ahora las cosas más en serio pienso que no constituirá un producto concluido que siendo el acto de votar para la mayoría de la población equivalente a un acto de renuncia el voto podrá ser sin embargo, no viéndolo para una minoría el primer paso del proceso y aun con el aumento justificado con todos los formalismos democráticos mirar, y eventualmente pretender fin entre democráticos y que fueron duros en su concretización llegar hasta ofender frontalmente.

En principio ninguna sociedad mentalmente sana por ejemplo eligiria a productores y traficantes de drogas como sus representantes políticos pero la mala experiencia nos muestra que el ejercicio efectivo de amplias áreas de poder tanto en el ámbito nacional como en la esfera internacional esta en manos de estos y otros temerarios o de sus mandatarios directos o indirectos. Añadiré algo mas, ninguna clasificación de los depositarios de urnas seria incapaz de identificar en las opciones ciudadanas frescas los grupos y fenómenos financieros internacionales cuyas actividades, para dar un solo ejemplo, están arrastrando a la catástrofe económica al planeta en que vivimos causa común de la humanidad pero no su propiedad exclusiva.

Aprendemos de los libros, pero sobre todo de las acciones de la vida que de poco debería servirnos una democracia política por mas equilibrada que pareciera estar en sus estructuras internas y en su funcionamiento sino se hubiese constituido como la raíz y la razón de una democracia económica y cultural. Decir esto en los días que corren hasta ser mas que una fatalidad, un cansado lugar común de
ciertas limitaciones ideológicas de un pasado, pero supongo que seria difícil cerrar los ojos a la vivencia, no reconocer que aquella trinidad de democracia, la política, la económica y la cultural, cada una de ellas complementarias de las otras representó en la época de su prosperidad una de las mas fascinantes banderas del espíritu que a través de la historia fueron capaces de conmover corazones, avalar conciencias y movilizar voluntades. Hoy, en contrapartida, despreciadas y arrojadas al cubo de la basura como si se tratara de zapatos viejos la idea de una democracia ignómita dio lugar a un mercado obscenamente triunfal y la democracia cultural a la masificación industrial de las culturas y que no progresamos, retrocedemos y cada vez ira siendo más absurdo hablar de democracia si persistimos en el equivoco de identificarla solamente con sus expresiones inmediatas, esto es, objetivas y cuantitativas que se llaman partidos, parlamentos y gobiernos, sin mirar a su real contenido y a la utilización del voto como se justifica y los coloca en el lugar que ocupan. No se concluya con lo que estoy diciendo que estoy contra la existencia de partidos, soy miembro de uno de
ellos. No se piense que abomino en el parlamento ininputados los querría a todos, a unos mejor que a otros y tampoco se piense soy el inventor de una receta mágica que permitiría a los pueblos de ahora en adelante vivir sin gobiernos o deseara ser gobernada de acuerdo a los modelos pregonadamente democráticos, pero a mi ver incompletos e incoherentes que pretendemos hacer universales en una especie de sustancial fuga como si quisiéramos exhorcizar nuestros propios fantasmas en vez de simplemente reconocerlos, pelear contra ellos y vencerlos.

Dije incompletos, dije incoherentes porque no veo otra manera de designarlos. Una democracia bien entendida, entera redonda y radiante como un sol que a todos ilumina debería, en nombre de la democracia y solo entonces encontraría su más completa justificación comenzar con nuestro propio país, con nuestra propia comunidad con nuestra propia casa si esta premisa no es asumida y respetada y la experiencia cotidiana nos dice que no lo es, todos los razonamientos consecuentes todas las practicas en este caso la fundamentación del régimen y el funcionamiento del sistema quedarán irreversiblemente viciados y pervertidos.

Vimos ya como se considera obsoleto, pasado de moda, por no decir sencillamente ridículo, invocar y seguir una democracia económica y una democracia cultural, sin las cuales el aparato institucional al que llamamos democracia política se reducirá a su frágil castra. Acaso atractiva pero vacía en su auténtico contenido nutritivo y estructurante. Pero en las circunstancias de la vida actual, no obstante que incluso y quebradiza de las apariencias democráticas preservadas por el pretendido conservadurismo del espíritu mágico aprobado muchas veces por las formas superiores para continuar creyendo en la especie de una materialidad que obtiene de una trascendencia que le dio su nombre, que las circunstancias de la vida que los expendios y los colores que han adornado en todo esto a nuestros resignados ojos y nuestras apáticas mentes las formas de la democracia política se estén volviendo rápidamente opacos, sombríos, asustadores, de una manera todavía imprecisa, tal vez pero no por eso menos angustiante. Diré porque es así a mi modo de entender. Como siempre ocurrió y probablemente siempre acontecerá la cuestión más importante de la razón de este libro y en la que todos acabamos concluyendo es la cuestión del poder y el problema práctico y teórico con el que invariablemente nos enfrentamos es identificar quien lo posee averiguar como llego a el, verificar el rubro que de él parte, los medios y los fines a que acude. Si la democracia pues de hecho con falsa ingenuidad diciendo que gobierno y el pueblo por el pueblo y para el pueblo cualquier palabra sobre la cuestión del poder deberíamos se reduce el poder del pueblo, sería un pueblo quien querría su administración y siendo el pueblo quien administraría el poder está claro solo podría ser para su propio bien y para su propia felicidad pues eso estaría obligando, al final, sin ninguna pretensión de ningún científico a nivel conceptual en uno de los aspectos, la ley de la conservación. Ahora bien somos fin perverso tan grosero hasta el cinismo, pues sería proclamar hoy y eso es común que por el contrario, nadie puede pretender imponer un solo aspecto nada mas por ser supuestamente el mejor de los dos posibles. Para no ir mas lejos es la propia y concreta situación de uno de los más democráticos, los que nos dice si es verdad que los pueblos son gobernados verdad es también que no lo son por ellos mismos ni para ellos mismos, los gobiernos y sus representantes democráticamente elegidos, ahí es donde se encuentra el poder democrático. Respondo yo no estamos en una clase de derecho político, no estamos en un laboratorio en donde mezclando los cuerpos, sustancias químicamente puras tendremos de antemano la seguridad de llegar a un producto también químicamente puro. El poder democrático es producto del ejercicio del sufragio en el mejor de los casos libre y pensado – por definición provisional y coyuntural. Dependerá de nuestra unidad de valor la aceptación relativamente sensible de la voluntad política de una determinada sociedad Pero ayer como hoy, con una amplitud cada vez mayor abundan los ejemplos de que a cambios políticos de carácter aparentemente progresivo no responden los cambios económicos, culturales y sociales de una propaganda electoralista y que el resultado del sufragio aparentemente propicio.

Decir hoy socialista, social-demócrata, conservador o liberador y llamar a eso poder significa estar nombrando algo que no se encuentra donde imaginamos, está en otro inalcanzable lugar, el lugar del poder real, actuante y determinante cuyos contornos a veces creemos poder distinguir por detrás de las mallas institucionales, pero que se nos escapa cuando intentamos observarlo más de cerca e inevitablemente contraataca si tenemos la realidad de reducir su dominio subordinándolo a los intereses que le damos.

Con otras y más palabras digo que no fueron los pueblos quienes eligieron gobiernos para que éstos los llevasen al mercado, digo que es el mercado el que está condicionando a los gobiernos para que lleve a los pueblos, y si hablo de mercado es porque hoy más que nunca es el instrumento de dominio por su herencia del verdadero y único poder real, el poder económico y financiero mundial, no es democrático porque no lo ha elegido el pueblo, no es democrático porque no es regido por el pueblo y que finalmente no es democrático porque entre sus postulados no figura la felicidad del pueblo.

Sin embargo, es cierto que sobre esos y otros momentos evidentes la estrategia política de todos los rostros han impuesto un silencio para que nadie se atreva a insinuar que conociendo la verdad vengamos practicando la mentira o aceptando ser cómplices.

He hablado hasta ahora de lo que cuando libradas provocaciones la ilusión democrática es más de lo que deberíamos consentir y creo haberlo dejado con claridad suficiente: engaño de los sentidos y de la mente, apariencia falsa, sin embargo, no debo ni quiero olvidar los otros significados de ilusión, (falta)** por eso concédanme antes del remate de estas palabras un breve entrevago de la literatura y ficción, cuento fantástico, una parábola.

La noche pasada hice un viaje a Marte, pasé ahí 10 años y tomé muchas notas acerca de la vida que ahí se vive, me comprometí a no divulgar los secretos de los marcianos, pero voy a faltar a mi palabra, soy humano y deseo contribuir en la medida de mis esfuerzos al progreso de la humanidad a quien me enorgullezco de pertenecer; es muy importante esto y espero que algún día se tomen en cuenta mis actos, esto es del perjurio cometido con los no se cuántos miles de millones de mujeres y hombres que hay en la tierra tomen todos mi experiencia.

En Marte cada marciano es responsable de todos los marcianos, no tengo la certeza de haber comprendido bien, pero el tiempo que ahí estuve nunca vi a un marciano encogerse de hombros, debo aclarar que los marcianos no tienen hombres, pero espero que se comprenda la idea, otra cosa que me agradó en Marte es que no hay guerras, nunca las hubo, no se como se las arreglan ni ellos supieron explicármelo, tal vez porque yo no fue capaz de decirles qué es una guerra según mis patrones terrestres, incluso cuando les mostré dos animales salvajes seguían sin entender, a todo eso respondían que los animales son animales y los marcianos son marcianos.

Aún así, lo que más me desorientó de Marte fue no saber dónde estaban los campos y dónde la ciudad, tal vez ya no nos causa extrañeza ver un gran hospital, un gran museo o una gran universidad; los marcianos tienen todo esto como nosotros. Al principio cuando pedía razones la respuesta era siempre la misma: el hospital, el museo y la Universidad estaban ahí porque ahí eran necesarios, tantas veces me dieron esa respuesta que encontré mejor aceptar con naturalidad que la existencia de la escuela con 10 profesores marcianos en un sitio donde sólo había una criatura también marciana, ahí me respondieron que cada profesor enseñaba una materia diferente y por lo tanto todos eran necesarios. En Marte apreciaron mucho que en la tierra existen siete colores elementales y que de ahí se pueden obtener millones de tonalidades, ahí solo hay dos, el blanco y el verde. Aun cuando me hicieron jurar que no hablaría de lo que ahí vi, supongo que estarían dispuestos a cambiar todos los secretos de Marte por el modo de obtener un azul.

Cuando salí de Marte nadie vino a acompañarme a la puerta, pienso que en el fondo no nos prestan atención, ven de lejos nuestro planeta pero están muy ocupados con sus propias cosas.

Por mi parte, a estas alturas estoy dudando, puedo llevarles un poco de azul del cielo, o del mar, pero y después, ellos querrán venir a conocer la tierra y tengo la impresión que no les va a gustar.

Colorín Colorado, este cuento se ha acabado.

Una parábola no es creíble, y menos aun si es marciana. Al contrario de los discursos corrientes que siempre se pueden ir prolongando hasta las fronteras la resistencia de quien habla y la paciencia de quien los escucha. Una parábola es en cierta manera una proposición científica, tiene su principio y su fin propio, lógico y matemático. Si es bien cierto que cada uno tiene el derecho de hacer lo que quiere con las razas, con las extrapolaciones y los análisis no encuentren mucho que valga la pena. Quien tenga oídos para oír que oiga dijo alguien cuya vida fue también de algún modo una parábola.

Por eso me limitaría a proponer que nos interroguemos sobre los nexos y sustentos entre las maravillas de descubrir en mi parábola marciana y las consideraciones que sufre la democracia o la ilusión democrática. En lo que a mi respecta declaro que he tomado del sueño de la quimera marciana para mis propias interrogaciones es que cada marciano es responsable de todos los marcianos no para proclamar, a tanto no llega, cada ser humano es responsable de todos los seres humanos pero no igual. Dos. Si la determinación de los límites con el paso del tiempo acaba consagrando y resulta un caso de renuncia voluntaria por el ejercicio de los derechos y deberes propios. Tres. Si podemos seguir hablando de democracia sin que haya una presencia, una participación y una intervención constante de los ciudadanos en la vida colectiva, sin las fuentes de poder, sin el cumplimiento riguroso del parecer fundamental, del derecho según el cual todos los ciudadanos son iguales ante la ley, sin el reconocimiento no sólo formado, sino de lo que hable en los hechos de que los beneficios sociales sean de naturaleza estructurada económica y cultural deben ser sin condiciones reductoras aplicadas a toda la comunidad, etcétera, etcétera, etcétera.

Voy a terminar admito sin dificultad el supuesto previo de que estamos avanzando en una dirección a la sociedad democrática mundial, no me parece con todo que se quede en su pesimismo a aquellos que como yo, piensan que habría sido si acontece sólo el primer y cortisimo paso en un camino que nosotros mismos hemos empezado a recorrer, porque la democracia o es total o no es democracia.

Esto me induce a decir que europeo como soy, miembro de una sociedad que así misma tantas veces se ha llamado faro del mundo antes de soportar al resto del mundo, lo que con alguna frivolidad seguimos llamando democracia, deberíamos buscar las maneras de producirla mejor y distribuirla mejor en nuestras propias casas.

Estoy seguro de que el mundo necesita mucho más que la ilusión democrática que andamos fabricando y a la que se reduce al final, desgraciadamente, en demasiados casos, nuestras democracias.

Gracias por vuestra atención."

A árvore genealógica literária de José Saramago (Cadernos de Lanzarote Diário IV - 21/07/1996)

21 de Julho (de 1996)
"Uma revista espanhola teve a ideia de pedir a uns quantos escritores que elaborassem a sua árvore genealógica literária, isto é, a que outros autores consideravam eles como avoengos seus, directos ou indirectos, excluindo-se do inventado parentesco, obviamente, qualquer presunção de relações ou equivalências de mérito que a realidade, pelo menos no meu caso, logo se encarregaria de desmentir. Também se pedia que, em brevíssimas palavras, fosse dada a justificação dessa espécie de adopção ao contrário, em que era o «descendente» a escolher o «ascendente». A cada escritor consultado foi entregue o desenho de uma árvore com onze molduras dispersas pelos diferentes ramos, onde suponho que hão-de vir a aparecer os retratos dos autores escolhidos. A minha lista, com a respectiva fundamentação, foi esta: Luís de Camões, porque, como escrevi no Ano da Morte de Ricardo Reis, todos os caminhos portugueses a ele vão dar; Padre António Vieira, porque a língua portuguesa nunca foi mais bela que quando ele a escreveu; Cervantes, porque sem ele a Península Ibérica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque não precisou de Freud para saber quem era; Voltaire, porque perdeu as ilusões sobre a humanidade e sobreviveu a isso; Raul Brandão, porque demonstrou que não é preciso ser-se génio para escrever um livro genial, o Húmus; Fernando Pessoa, porque a porta por onde se chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal; Kafka, porque provou que o homem é um coleóptero; Eça de Queiroz, porque ensinou a ironia aos portugueses; Jorge Luis Borges, porque inventou a literatura virtual; Gogol, porque contemplou a vida humana e achou-a triste." 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV" 
Caminho, página 179, 21 de Julho de 1996

Mais datas - "Levantei-me do Chão" a partir da obra de José Saramago "Levantado do Chão" Criação de Carlos Marques

Mais informação, aqui

"A partir de Levantado do Chão de José Saramago
Criação de Carlos Marques"

AGENDA 2016 
– 24 de Abril | Montemor-o-Novo 22:30 (Biblioteca Municipal, comemorações 25 de abril)
– 26 e 27 Abril | Montemor-o-Novo (Biblioteca Municipal, Serviço Educativo)
– 29 de Abril | Cabrela 21:30 (Casa do Povo)
– 30 de Abril | Cortiçadas de Lavre 21:30 (Centro Cultural)
– 17 e 18 Junho | Évora 21:30 Teatro Garcia de Resende (CENDREV)

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Novidades teatrais para 2017!! Vamos acompanhar



Consta que a Companhia de Teatro de Almada poderá levar ao palco em 2017, a encenação de duas obras de José Saramago. O romance "História do Cerco de Lisboa" (1989) e "Objecto Quase", livro de contos lançado em 1978.

Vamos acompanhar este dado com especial atenção, e aqui daremos futuramente mais informações.

De recordar que a Companhia de Teatro de Almada, através de Joaquim Benite, na temporada de 2007/2008, apresentou a peça de teatro "Que farei com este livro?" (1980)

Aqui, mais informação e sinopse de apresentação da obra, 

"Para assinalar o início da comemoração dos trinta anos de presença da CTA em Almada, o TMA apresenta uma peça de José Saramago: Que farei com este livro?. A escolha deste texto tem um significado especial, uma vez que foi a Companhia de Teatro de Almada quem o estreou, em 1980. Na altura a peça Que farei com este livro? foi escrita expressamente para a Companhia, no seguimento do êxito obtido com A noite: a estreia absoluta de Saramago no teatro, também em Almada. Que farei com este livro? relata a luta de Camões pela publicação de Os Lusíadas, a epopeia renascentista que é uma das obras basilares da Literatura portuguesa. Após a carreira em Almada o espectáculo será apresentado no Teatro Nacional D. Maria II e no Teatro Municipal de Faro.

José Saramago nasceu na aldeia ribatejana de Azinhaga, a 16 de Novembro de 1922. Os seus pais emigraram para Lisboa quando ele ainda não tinha três anos. Fez estudos secundários (liceal e técnico) que não pôde continuar por dificuldades económicas. No seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico, tendo depois exercido diversas profissões: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor e jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance (Terra do pecado), em 1947. Colaborou como crítico literário na revista Seara Nova. Entre 1972 e 1973 fez parte da redacção do jornal Diário de Lisboa. Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi director-adjunto do Diário de Notícias. A sua obra, que abarca a poesia, a crónica, o teatro e o romance tem sido distinguida com vários prémios em Portugal e no estrangeiro, entre os quais o Prémio Nobel da Literatura, em 1998.

Intérpretes Alberto Quaresma, Bruno Martins, Carlos Santos, Catarina Ascensão, Celestino Silva, José Martins, Luís Ramos, Luís Vicente, Maria Frade, Maria José Paschoal, Miguel Martins, Nuno Góis, Paulo Matos, Pedro Walter e Teresa Gafeira
Cenário Manuel Graça Dias e Egas José Vieira
Figurinos Sónia Benite
Luz José Carlos Nascimento"

Vídeo de apresentação da peça, via YouTube, aqui