Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sábado, 7 de janeiro de 2017

"No nos abandones" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (7/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/20058.html

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

"No nos abandones"
"Vai o título em castelhano porque assim foi a frase dita. Este escrito também poderia chamar-se “Os silêncios de Marcos”, o que esclarece tudo. A prosa de hoje refere-se ao mítico, ainda que muito real, subcomandante. A poucas pessoas admirei tanto em minha vida, de pouquíssimas esperei tanto. Nunca lho disse pela simples razão de que estas coisas não se dizem, sentem-se e por aí se ficam. Questão de pudor, parece. Quando os zapatistas saíram da Selva Lacandona para chegarem ao Zócalo depois de terem atravessado meio México, eu estava ali, um entre um milhão. Conheci a exaltação, o pulsar da esperança em todo o corpo, a vontade de mudar para converter-me em algo melhor, menos egoísta, mais capaz de entrega. Marcos falou, nomeou todas as etnias de Chiapas, e a cada uma foi como se as cinzas de milhões de índios se tivessem desprendido dos túmulos e outra vez reencarnado. Não estou a fazer literatura fácil, tento, canhestramente, pôr em palavras o que nenhuma palavra pode expressar: o instante em que o humano se torna sobrehumano e, do mesmo passo, regressa à sua mais estreme humanidade.

No dia seguinte, no campus modesto de uma faculdade universitaria, houve um comício que reuniu alguns milhares de pessoas e aí se falou do presente e do futuro de Chiapas, da luta exemplar das comunidades índias que eu sonhava ver um dia estendida a toda a América (tranquilizem-se os tímidos, não aconteceu). Na tribuna estavam, entre outros, Carlos Monsivais, Elena Poniatowska, Manuel Vázquez Montalbán, eu próprio. Todos falámos, mas o que a gente queria era ouvir Marcos. O seu discurso foi breve, mas intenso, quase insuportável para o sistema emotivo de cada um. Quando tudo terminou fui abraçar Marcos e foi então que ele me disse ao ouvido, numa voz apenas sussurrada: “Não nos abandones”. Respondi-lhe no mesmo tom: “Teria que abandonar-me a mim mesmo para que isso sucedesse”. Nunca mais o vi até hoje.

Pensei, e disse-o, que Marcos deveria ter falado no Congresso. Por decisão da “comandancia” interveio a comandante Esther, e fê-lo admiravelmente. Comoveu o México inteiro, mas, repito, em meu entender, era Marcos quem deveria ter falado. O significado político da uma intervenção sua culminaria de maneira mais eficaz a marcha zapatista. Assim pensava e assim continuo a pensar. O tempo passou, o processo revolucionário variou os rumos, Marcos saiu da Selva Lacandona. Durante o último ano Marcos guardou um silêncio total, deixou-nos órfãos daquelas palavras que só ele saberia dizer ou escrever. Sentimos-lhe a falta. No dia 1 houve em Oventic um encontro para celebrar e recordar o início da revolução, a tomada de San Cristóbal de las Casas, os altos e baixos de um caminho difícil. Marcos não foi a Oventic, não mandou sequer uma mensagem, uma palavra. Não compreendi, e continuo a não compreender. Marcos, há poucos dias, anunciou para o ano que entrou uma nova estratégia política. Oxalá, se a antiga perdeu as virtudes. Oxalá, sobretudo, que não volte a calar-se. Com que direito o digo? Com o simples direito de quem não abandonou. Sim, de quem não abandonou."

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

"Sarkozy, o irresponsável" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (6/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/19894.html

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

"Sarkozy, o irresponsável"
"Nunca apreciei este cavalheiro e creio que a partir de hoje passarei a apreciá-lo ainda menos, se tal é possível. E não deveria ser assim, se, como a internet acaba de me informar, o dito sr. Sarkozy anda em missão de paz pelas torturadas terras da Palestina, esforço louvável que, à primeira vista, só deveria merecer elogios e votos do melhor sucesso. Da minha parte tê-los-ia todos se não tivesse utilizado, uma vez mais, a velha estratégia dos dois pesos e das duas medidas. Num arranco de hipocrisia política simplesmente notável, Sarkozy acusa Hamas de haver cometido acções irresponsáveis e imperdoáveis lançando foguetes sobre o território de Israel. Não serei eu quem absolva Hamas de tais acções, aliás, segundo leio a cada passo, castigadas pela quase total ineficácia da bélica operação que pouco mais tem conseguido que danificar algumas casas e derrubar alguns muros. Nunca as palavras doam na língua ao sr. Sarkozy, há que denunciar a Hamas. Com uma condição, porém. Que as suas justamente repreensivas palavras tivessem sido igualmente aplicadas aos horrendos crimes de guerra que vêm sido cometidos pelo exército e pela aviação israelita, em proporções inimagináveis, contra a população civil da faixa de Gaza. Sobre esta vergonha o sr Sarkozy parece não ter encontrado no seu Larousse as expressões adequadas. Pobre França."

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Sobre "As Pequena Memórias" - "Sigo siendo un campesino" Miguel Mora entrevista José Saramago em 13/11/2006 para o "El País" (Cultura)

A entrevista de Miguel Mora pode ser recuperada e consultada aqui
em http://elpais.com/diario/2006/11/13/cultura/1163372401_850215.html

"Sigo siendo un campesino"

Lisboa, 13 de Novembro de 2006

"El premio Nobel narra en Las pequeñas memorias su infancia plácida y pobre en Azinhaga y Lisboa. El libro (que editará Alfaguara en España y se presentará el jueves, día de su 84º cumpleaños, en su aldea natal), está encabezado por el epígrafe "Déjate llevar por el niño que fuiste".

Es un niño solitario y serio; le gusta pensar y observa mucho. Parece feliz a su manera tranquila. Sobre todo cuando va descalzo. "En el pueblo siempre andábamos descalzos los niños y las mujeres. También los hombres, pero cuando se iban a trabajar se ponían las botas. Me gustaba mucho llegar a la aldea, quitarme los zapatos y meterme en el río, pisar el lodo y los rastrojos duros... Es lo que hacía todo el mundo, todos vivíamos así entonces. Pero esa pobreza, y peor incluso, existe todavía".

Se titulan Las pequeñas memorias, y cumplen la promesa por partida triple: son cortas (150 páginas), acaban cuando el autor es aún pequeño (tiene 14 o 15 años) y son muy poco literarias; como si Saramago hubiera arrinconado al escritor para narrar su infancia.

Ese niño contado parece curioso y espabilado, pero resulta difícil adivinarle un futuro brillante, y mucho menos de escritor. Parece destinado sin remedio a ser campesino u obrero. Quizá policía como su padre. "A los 14 años, no había dinero en casa y mi padre decidió que estudiara cerrajería mecánica. A mí me pareció bien y lo hice".

La vida transcurre a caballo entre Lisboa, donde emigra su familia cuando él sólo tiene año y medio, y Azinhaga, la aldea a orillas del Almonda, muy cerca del Tajo, a una hora al norte de la capital, en la que pasaría, una tras otra, todas sus vacaciones escolares.

El niño, llamado José de Sousa (en el libro se cuenta que Saramago se lo añadió por su cuenta un empleado borrachín del Registro: era sólo el apodo de la familia en la aldea), crece en un país campesino y analfabeto y, a su manera parca, incluso entretenido: las familias son muy numerosas, hay celos abundantes, caballos y perros, algunas rebeliones militares, y el régimen salazarista obliga a los escolares a vestir el uniforme de las Mocedades Portuguesas.

También hay mujeres y niñas, a las que Saramago se aficiona pronto, y, sobre todo, dos abuelos maternos fantásticos: Josefa y Jerónimo. "Tuve la enorme suerte de tener aquellos abuelos, pero mis nietos no han tenido la suerte de tener abuelos así. Cuando llegó mi turno, no había aprendido la lección. Suelo decir 'yo no soy abuelo, sólo tengo nietos'. Y sé que soy un desagradecido porque sigo siendo el nieto de mis abuelos".

Pregunta. Sorprende la ausencia casi absoluta de literatura en el libro...
Respuesta. Imaginemos que no fuera premio Nobel, incluso que no fuera escritor, y que por un capricho a estas alturas de mi vida decido ponerme a recordar lo que fui de niño. Eso es el libro. En el fondo, he hecho lo que cualquiera puede hacer. Recordar, con más o menos precisión. En fin, soy escritor y me dieron el Nobel, pero aquel niño no sabía nada de eso y lo que he intentado es no mezclar una cosa con la otra.

P. Lo que sorprende es que haya podido volver a meterse en su piel de entonces.
R. He intentado ser lo más fiel posible a mi propia memoria, y aunque la memoria no es de fiar, esos recuerdos han estado conmigo toda mi vida. Claro que la interpretación de esos recuerdos es otra cosa. Quizá esté mediatizada. Por el Nobel y por todo lo demás.

P. Pero se nota ese esfuerzo de contención.
R. El propósito era ése. Aunque el editor (Caminho) dice que podía haberlo alargado hasta las 300 o 400 páginas, si hubiera hecho eso estaría haciendo literatura. Y sólo me interesaban los hechos. No son hechos secos, porque todo tiene una resonancia. Pero lo importante es que no hay ejercicio de estilo.

P. Queda la vida de ese niño, tan sencilla y dura a la vez, conforme con lo que hay.
R. Los hechos son esos. Hay que tener en cuenta que en los años veinte y treinta los pobres eran pobres y los ricos eran ricos y cada uno estaba en su sitio. No había interpenetración y la gente pobre aceptaba su situación. Las cosas habían sido así desde siempre. No diré que la gente se resignaba; simplemente, aceptaba ese hecho.

P. El retrato de su padre no es muy complaciente. No le dejaba ni ganarle a las chapas...
R. No tenía mala intención, la vida era así: el hombre de la casa tenía razón en todo, y los demás eran satélites. Todos nos queríamos mucho, aunque no fuéramos una familia feliz permanentemente. Mi padre vino de una aldea y se puso un uniforme de policía. Eso cambió las cosas. A mi madre el componente erótico del uniforme le producía unos celos terribles.

P. ¿No sería ese padre policía un detonante de su comunismo?
R. No creo. Cuando llegaba a casa se quedaba en calzoncillos. El uniforme no fue un trauma. Incluso debía sentir cierto orgullo de su autoridad. Llevaba la porra a un lado, la pistola a otro... Seguramente, eso me encantaba; puede incluso que presumiera.

P. Era un chico bastante solitario...
R. Ensimismado, triste. ¡Pero eso no es malo! Cuando veo a los padres preocupados porque los hijos están metidos en sí mismos, siempre les digo: "Dejadle en paz, está creciendo".

P. Muchos recuerdos denotan mucha capacidad de observación. ¿Cree que estaba ya ahí el escritor?
R. Era observador pero desde luego no escribía novelas a los seis años. Fui buen estudiante de primaria y muy bueno en primero del Liceo. Luego la cosa cambió y nunca fui muy aplicado, aunque no perdí ningún año. Después empecé a estudiar para cerrajero mecánico, pero en el programa había una asignatura de literatura y ahí empezó a despertarse el lector.

P. No hay espacio para la política en el libro.
R. En esa época no se hablaba de política. En casa, desde luego, no. Mi padre daba la opinión de los que mandaban. Y mi madre era analfabeta. No se discutía. Sólo se hablaba de la familia, del tiempo, de dónde estaban las zapatillas y de que la sopa tenía demasiada sal.

P. Las pequeñas memorias... También en cuanto a los primeros escarceos amorosos y sexuales...
R. ¿Nada extraordinario, verdad? Todos hemos vivido eso. El caso es contarlo o no contarlo. Era todo tan inocente que preferí contarlo en clave de humor. Si alguna de esas chicas está viva todavía, quizá se moleste... Pero, en fin, era pecado venial.

P. Los héroes del cuento son los abuelos.
R. Están idealizados, seguro, pero es natural. Ahora sólo hay padres (con suerte dos) y los abuelos sabrán dónde están, pero no se nota. Antes eran muy importantes. Así y todo, su destino lógico era el olvido. Si no hubiera escrito el libro, no habría quedado rigurosamente nada de ellos. Sólo un nombre en el registro. Me reconforta mucho haberlo hecho por eso, para que sigan teniendo de alguna forma una vida.

P. En el libro no se oye música, a pesar de que en Lisboa vivieron en Mouraría, un barrio fadista.
R. No teníamos radio, así que la banda sonora era la palabrería que se oía cuando cocinaban tres o cuatro mujeres a la vez y los niños estaban jugando y gritando.

P. ¿Qué queda de aquel niño?
R. De alguna forma sigo siendo un campesino. Parece disparatado decirlo pero sólo yo puedo saber lo que llevo de campesino dentro de mí. En gran parte sigo siendo ese niño. Mis raíces más auténticas son ésas. El pasado está lejos pero nunca me he podido separar de él. Lo que está entre la infancia, la adolescencia y lo que soy hoy no me marcó tanto. El carácter se forjó en aquel momento.

P. ¿Ha tratado de desmitificar el mito Saramago?
R. Es cierto que estoy un poco mitificado, aunque yo no he hecho nada para que eso pase. La idea no era ésa. Quizá quería decir "usted conoce a un hombre que es esto y aquello, pues ese hombre viene de aquello, de esa infancia tan poco extraordinaria". Todo apuntaba a que mi vida se quedaría allí. Pude ser cerrajero siempre y no ir mucho más lejos, pero por una cosa u otra... A los 17 años solté una frase estando con unos amigos que aparentemente no tenía ningún sentido: "Lo que tiene que ser mío, a mis manos llegará". Podía significar que no valía la pena esforzarse, pero me esforcé y...

P. ¿Dónde estuvo la clave?
R. El momento decisivo fue en 1975. Me había quemado mucho en la Revolución, me quedé sin trabajo y decidí intentar ver dónde podía llegar como escritor. Tenía algunos libros pero no una obra. Si hubiera muerto en 1975 quedaba poca cosa, con dos líneas en la Historia de la Literatura Portuguesa resolvían mi caso. En el 86 conocí a Pilar [del Río, su esposa y traductora al español] y ésa fue otra revolución en mi vida.

P. Y poco después fue a recoger el Nobel y habló de sus abuelos.
R. No todos tenemos un abuelo que cuando se iba a marchar a Lisboa para morirse pasó antes por su huerta para despedirse de sus árboles. Si olvidas algo como eso eres un idiota. Si no te alimentas de eso te estás perdiendo algo. Eran tan tiernos... Ponían los cerditos en la cama con ellos cuando estaban enfermos para que no se murieran. Tres o cuatro a la vez, debajo de la misma manta que ellos utilizaban. Con ese pasado, algo tenía que pasar.

* Este articulo apareció en la edición impresa del Lunes, 13 de noviembre de 2006

"Balanço" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (5/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/19548.html

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

"Balanço"
Valeu a pena? Valeram a pena estes comentários, estas opiniões, estas críticas? Ficou o mundo melhor que antes? E eu, como fiquei? Isso esperava? Satisfeito com o trabalho? Responder “sim” a todas estas perguntas, ou a mesmo só a alguma delas, seria a demonstração clara de uma cegueira mental sem desculpa. E responder com um “não” sem excepções, que poderia ser? Excesso de modéstia? De resignação? Ou apenas a consciência de que qualquer obra humana não passa de uma pálida sombra da obra antes sonhada. Conta-se que Miguel Ângelo, quando terminou o Moisés que se encontra em Roma, na igreja de San Pietro in Vincoli, deu uma martelada no joelho da estátua e gritou: “Fala!” Não será preciso dizer que Moisés não falou. Moisés nunca fala. Também o que neste lugar se escreveu ao longo dos últimos meses não contém mais palavras nem mais eloquentes que as que puderam ser escritas, precisamente essas a quem o autor gostaria de pedir, apenas murmurando, “Falem, por favor, digam-me o que são, para que serviram, se para algo foi”. Calam, não respondem. Que fazer, então? Interrogar as palavras é o destino de quem escreve. Um artigo? Uma crónica? Um livro? Pois seja, já sabemos que Moisés não responderá."

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"O convento de Mafra está habitado pelo espírito de Saramago" de João Céu e Silva com Pilar del Río (DN, 02/01/2017)

O presente trabalho de João Céu e Silva para o DN Artes de 2 de Janeiro de 2017, pode ser recuperado aqui, em http://www.dn.pt/artes/interior/o-convento-de-mafra-esta-habitado-pelo-espirito-de-saramago-5581060.html

Pilar del Rio junto ao Convento de Mafra - Gustavo Bom / Global Imagens

"Pilar del Rio foi a Mafra com o DN e recorda a construção do romance Memorial do Convento a partir das histórias que o escritor lhe contou

Maria Madalena Bárbara Xavier Leonor Teresa Antónia Josefa foi razão pela qual em Mafra se erigiu um convento de dimensões tão exageradas que só a megalomania do rei D. João V, o falso voto de pobreza dos Franciscanos, a ausência de sucessão dinástica nacional e o ouro vindo do Brasil justificaram.

Mafra não ficava assim tão distante da capital do reino: 25 quilómetros. Mas o edifício que ali se iria fazer crescer era uma coisa nunca vista. Que começa por ser pequeno, apenas para 13 frades franciscanos, número que foi engordando para 40 frades, depois 80 e fechou-se o negócio entre a Ordem e o monarca com lugar para 330 hóspedes religiosos.

Os ecos das vozes de quem construiu o convento mantém-se nas compridas alas, salas, capelas e inúmeras divisões desde que há trezentos anos foi posta a primeira pedra no local, no dia 17 de novembro de 1717. Nos treze anos seguintes, 52 mil trabalhadores fizeram as fundações, subiram os pilares e cobriram a imensa área com tetos de todos os géneros, estando a basílica pronta para ser consagrada no dia do 41º aniversário de D. João V e com festa rija durante toda a semana seguinte.

Apesar de tão desejada, a herdeira do reino, Maria Madalena Bárbara Xavier Leonor Teresa Antónia Josefa nunca conheceu a magnífica obra de Mafra. Casou com o futuro rei espanhol, D. Fernando VI, levando consigo o músico italiano Domenico Scarlatti, que fora contratado para educar a princesa.

Quem for ao Convento de Mafra hoje em dia também não deixará de ouvir esses ecos que replicam tudo o que se passou desde então entre aquelas paredes três vezes centenárias porque o edifício foi tendo várias vidas além da dos franciscanos, sendo a última a presença etérea e constante provocada pelas personagens do romance de José Saramago, o Memorial do Convento. E esses ecos que vêm de uma sala ao fim de seis lances de escadas tornam-se cada vez mais reais conforme o visitante se aproxima do antigo solário onde os frades se banhavam ao sol, porque ali está a decorrer uma representação teatral que condensa esta obra do Prémio Nobel da Literatura."

Biblioteca - Gustavo Bom / Global Imagens

"Algumas dezenas de jovens - os que hoje dominam a plateia - escutam atentos a dramatização do Memorial do Convento e absorvem as grandes linhas históricas dos acontecimentos. Há olhares de cumplicidade entre uns e outros quando se escutam as falas dos dois camareiros que recordam as dificuldades da rainha em engravidar, uma deixas brejeiras qb; surpreendem-se quando veem a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão voar, e apreendem os mistérios de uma das principais personagens femininas inventadas por Saramago: Blimunda."

"Estampa antiga onde se pode ver o Palácio Nacional de Mafra há mais de um século"

"Também percebem que o escritor não descreve a princesa como nos contos de fadas, pois esta tem cara de lua cheia e é bexigosa.

Nem o rei sai bem desta ficção em que o autor pretende mostrar o estatuto da aristocracia e do alto clero em contraponto ao do povo e dos oprimidos. Os alunos identificam-se com a peça e saem do Convento com outra opinião sobre o romance. Diogo gostou, principalmente porque o está a ler e compreendeu melhor a narrativa; Raquel ficou "com vontade de ler o livro". A responsável por estas representações, Filomena Real, já tinha avisado desta boa receção por parte das escolas que vêm de autocarro desde Bragança, por exemplo, para as duas sessões diárias: "Há dez anos que fazemos as representações e eles gostam, tal como os adultos que visitam o Convento."

Estas representações do grupo teatral Éter não acontecem apenas no Convento de Mafra, também as há na Fundação José Saramago, um local onde os atores da companhia ficam mesmo entre os visitantes da Casa dos Bicos.

Um gancho em vez da mão

Entre os personagens de o Memorial do Convento está Baltazar Sete-Sóis, que surge com a mão esquerda escondida por "um gancho de ferro que lhe havia de fazer as vezes da mão". É como Saramago o descreve ainda não vai à página 50, sendo que uma dúzia de páginas à frente surge Blimunda, aquela que de manhã é obrigada "a comer pão, de olhos fechados" para não ver o que se passa no interior de Baltazar.

No ano em que se cumprem 35 anos do lançamento do romance, Pilar del Río, a viúva de José Saramago, recorda a sensação que teve ao confrontar-se com a sua leitura: "Foi o primeiro que li dele e achei muito curioso que se intitulasse Memorial do Convento. Li a primeira página numa livraria, onde estava com quatro amigas. Gostei logo tanto que comprei quatro exemplares para lhes oferecer. Depois de acabar de ler, voltei à livraria e pedi todos os outros livros do autor. Todos, era apenas O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quando terminei de o ler o segundo, senti-me obrigada a vir a Lisboa por causa do meu deslumbramento perante o Memorial."

O que contribuiu para esse deslumbramento, pergunta-se a Pilar del Río: "O que me impressionou foi o facto de ser uma leitura tão moderna e contemporânea da História e do comportamento dos homens e das mulheres." Lembra-se de que enquanto o ia lendo parava a cada duas páginas: "Queria convencer-me de que estava a ler um autor contemporâneo. Nunca tinha ouvido falar de Saramago, não sabia quem ele era! Mas dizia para mim: isto está escrito num registo que é clássico, sublime, no entanto, é de um autor contemporâneo. Ia lendo e dizia: não, ele não é deste tempo, isto é uma leitura progressista e contemporânea da História. Por isso, li este livro num estado de exaltação."

Foi então que pediu para se encontrar com o autor: "Queria agradecer-lhe ter escrito o livro. Perguntei se podíamos tomar um café, disse-lhe que era jornalista mas vinha sem intenção de o entrevistar. Sabia de antemão que logo que o conhecesse iria querer escrever sobre ele, mas dessa vez nem gravador trouxe. O interesse era ter a perceção direta de como era o autor."

Para Pilar del Río este não é o livro mais político de José Saramago. "Livros políticos não lhe faltam", diz, e dá exemplos: Ensaio sobre a Cegueira, Caim, Evangelho segundo Jesus Cristo... "Os livros são todos políticos, este é um livro de uma beleza extraordinária, sobre o qual Saramago disse depois que estava a descrever a estátua, tal como no Evangelho, mas a partir do Ensaio sobre a Cegueira sentiu que já não queria descrever a estátua mas a pedra da qual é feita", explica.

Quanto à grande presença da religião em o Memorial, refere: "Está sempre presente na obra de Saramago, porque também o está em todos os seres humanos - sejam ou não crentes. Também existe em Levantado do Chão ou em Intermitências da Morte, quando a Igreja não quer que as pessoas sejam eternas para não deixar de ter sentido."

A história da escrita do Memorial do Convento começa com uma visita a Mafra do escritor, onde confessa aos amigos que o acompanhavam [entre eles a anterior mulher do autor, Isabel da Nóbrega] que "gostaria de meter o Convento num livro". Será que o conseguiu, questiona-se: "E de que maneira! Mas foram os amigos, sempre muito insistentes, que o lembravam da promessa e lhe perguntavam: "Então, já meteste o Convento de Mafra num romance?" Saramago sentiu-se pressionado a escrever e ainda bem, porque o livro tem uma grande beleza."

Será que o convento é olhado de um outro modo após a publicação do romance em 1982? Pilar del Río é muito direta na resposta: "Ainda há dias vim cá com vários amigos espanhóis que não o conheciam e eles ficaram fascinados com a "presença" das personagens do romance que andavam pelo edifício, a Blimunda, Bartolomeu... Não há dúvida, este convento está habitado pelo espírito de Saramago."

Essas personagens não surgiram por acaso, como explica: "A música de Scarlati está no romance porque fazia parte da vida de Saramago." Recorda a leitura de um caderno de notas do escritor em que percebe a evolução das personagens: "Elas vão entrando no livro e Saramago, que queria colocar a contradição entre os nobres e o povo, vai notando a imposição de Blimunda. Porque ela não nasce com essas capacidades que vem a ter na narrativa. Tanto Blimunda como a Mulher do Médico [do Ensaio sobre a Cegueira] são duas grandes personagens femininas, que têm muito de parecido, que vão crescendo com a obra mas não faziam parte do projeto inicial naquela dimensão."

Após a enumeração de vários títulos do escritor, pergunta-se qual é o romance de Saramago de que mais gosta? "Tem dias, Cada dia gosto mais de um livro do que doutro e depende do estado de alma. Tendo muito a ir ao Evangelho, porque é um livro que tem reflexões muito sérias e que acompanha as pessoas que possam sentir determinadas ausências", diz. Depois de relidos há os que ficam lidos para sempre? "Não, leio-os por prazer e por obrigação. Acabei de ler a Jangada de Pedra por causa da montagem de uma peça no México. Li recentemente as Intermitências." E quando os relê compreende o livro de outra forma? "Sim, principalmente aqueles a que eu não assisti enquanto Saramago os escrevia. Quando leio aqueles a que acompanhei o processo de escrita, distraio-me a pensar nos acontecimentos desses dias: se tínhamos uma visita, se cozinhei certa coisa. Por isso, nesses primeiros livros, não tenho a distração de outros pensamentos, é só o livro."

No que respeita ao Memorial, Pilar del Río não deixa de recordar "os passeios a sós ou acompanhados por todas estas salas do convento. Ele não precisou de muitas horas a fazer consultas na biblioteca, mas tomava notas sobre como se vestiam as pessoas na época ou o que comiam. Coisas que poderiam ou não entrar no livro; e muitas outras que não precisava de saber. Também passeava por aqui para se aperceber da temperatura, se era frio ou quente, detalhes que não entravam no livro, mas de que precisava de se impregnar. Explicou-me onde vivia a família de Sete-Sóis, onde decorriam os trabalhos, o caminho por onde veio a pedra desde Pero Pinheiro." Terá sido o livro que exigiu mais investigação? Não, diz: "Os romances de Saramago exigiram sempre muita investigação."

Atuações populares

Quando os ecos da representação da peça terminam, o silêncio regressa ao convento de Mafra. Mas, em muitos locais do mundo, há atores a representar José Saramago. Segundo Pilar del Río, "neste momento A Barraca interpreta Ricardo Reis, no ano passado foi Claraboia; a Viagem do Elefante, a Ilha Desconhecida e o Memorial estão a ser representados quase todos os dias da semana. No dia 12 vai estrear o Homem Duplicado em Madrid, o Ensaio sobre a Cegueira está em Itália, nos EUA estão duas óperas e no México a Jangada de Pedra."

Cá fora do convento, há quem não tenha sido atriz na peça de Saramago, mas personagem em representações comemorativas deste património. É o caso de Clara Reis (1933) que já fez de ama da princesa e até trouxe a neta para ser uma das crianças: "Já trabalhei em várias recriações históricas, com fatos de época e perante muito público. Guardo com muito carinho as fotografias desses momentos."


"Os Poemas Possíveis" a lista de poemas inseridos na compilação

Sinopse de apresentação da obra pode ser consultada na página da Fundação José Saramago aqui em http://www.josesaramago.org/os-poemas-possiveis-1966/

"A caligrafia da capa é da autoria do escritor Almeida Faria

«Este mundo não presta, venha outro. / Já por tempo de mais aqui andamos / A fingir de razões suficientes. / Sejamos cães do cão: sabemos tudo / De morder os mais fracos se mandamos, / E de lamber as mãos, se dependentes.»

Na primeira obra poética de José Saramago descobre-se uma poesia de liberdade, de fraternidade e de luta. Uma luta disfarçada, por dentro das palavras. Pelo interior labiríntico de respiração que habitam todos estes poemas, publicados pela primeira vez em 1966. Digamos que eram os «poemas possíveis» da altura, quando a censura espiava a alma dos escritores. E no entanto, as convicções profundas de Saramago já são bem visíveis em poemas como «Criação»: «Deus não existe ainda, nem sei quando / Sequer o esboço, a cor se afirmará / No desenho confuso da passagem / De gerações inúmeras nesta esfera. / Nenhum gesto se perde, nenhum traço, / Que o sentido da vida é este só: / Fazer da Terra um Deus que nos mereça, / E dar ao Universo o Deus que espera.»

Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998"

ATÉ AO SABUGO
Até ao sabugo
Arte poética
Processo
Programa
«Se não tenho outra voz...»
Balança
«Recorto a minha sombra...»
Acidente de viação
Taxidermia, ou poeticamente hipócrita
Signo do Escorpião
No coração, talvez
Dia não
Destino
Ritual
Epitáfio para Luís de Camões
Jogo das forças
Vertigem
Lugar-comum do quadragenário
Outro lugar-comum
Passado, presente, futuro 
Passeio
Psicanálise
Mais psicanálise
«Não diremos mortais palavras...»
Poema seco
Do como e do quando
Fábula do grifo
Meias-solas
Um zumbido, apenas
Ciclo
Circo
Obstinação
«Há-de haver...»
Sala de baile
Oceanografia
Hibernação
«As palavras são novas...»
Questão de palavras
Pequeno cosmos
«De mim à estrela...» 
Retrato do poeta quando jovem
O tanque
Science-fiction I
Science-fiction II
Carta de José a José
Aniversário
Testamento romântico
Premonição

POEMA A BOCA FECHADA
Poema a boca fechada
Os inquiridores
Mãos limpas
Salmo 136
Ouvindo Beethoven
Demissão
Fraternidade
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

MITOLOGIA
Mitologia
Natal
Aprendamos o rito
Criação
Quando os homens morrerem
Aos deuses sem fiéis
«Não das águas do mar...»
A um Cristo velho
Judas
Sé Velha de Coimbra
Nave
«Barro direis que sou...»
Invenção de Marte
«Não há mais horizonte...»

O AMOR DOS OUTROS
Orgulho de D. João no inferno
Lamento de D. João no inferno
Sarcasmo de D. João no inferno
Até ao fim do mundo
Dulcineia
D. Quixote
Sancho
Julieta a Romeu
Romeu a Julieta
West Side Story

NESTA ESQUINA DO TEMPO
Contracanto
Fuzil e pederneira
Enigma
Negócio
Virgindade
Regra
Outono
Adivinha
Receita
«Não me peçam razões...»
«Nesta secreta guerra...»
Craveira
«A ti regresso, mar...»
«Água que à água torna...»
Medusas
História antiga
«Não escrevas poemas de amor»
«Nesta esquina do tempo...»
«De violetas se cobre...»
Labirinto
Espaço curvo e finito
Pesadelo
Afrodite
Estudo de nu
De paz e de guerra
Em violino fado
No silêncio dos olhos
Compensação
Declaração
«Uma só prece...»
Química
Física
Intimidade
Inventário
Praia
Arte de amar
Aspa
Corpo-mundo
Balada
Jogo do lenço
Lembrança de João Roiz de Castel’Branco
Prestidigitação
Analogia
Soneto atrasado
Exercício militar
Opção
Baralho
Exílio
Cantiga de sapo
Outra vez frutos, rosas outra vez
Re-iniciação
Fim e recomeço
Metáfora
Amanhecer
Aproximação
Poente
Integral
Eloquência
«Aprendamos, amor...»
Diz tu por mim, silêncio
«Num repente, não ando...»
Corpo
Caminho
«Ergo uma rosa...»
«Pois o tempo não pára...»
Ainda que seja
Canção

"Nota da 2.ª edição
Aparece esta edição de Os Poemas Possíveis dezasseis anos depois da primeira. Não é assim tanto, comparando com os dezasseis séculos que sinto ter juntado à minha idade de então. Pode-se perguntar se estes versos (palavra hoje pouco usada, mas competente para o caso) merecem segunda oportunidade, ou se a não ficaram devendo a porventura mais cabais demonstrações do autor no território da ficção. Se, enfim, estaremos observando um simples e nada raro fenómeno de aproveitamento editorial, mera estratégia daquilo a que cos tuma chamar-se política de autores, ou se, pelo contrário, foi a constante poética do trabalho deste que legitimou a res suscitação do livro, porque nele teriam começado a definir-se nexos, temas e obsessões que viriam a ser a coluna vertebral, estruturalmente invariável, de um corpo literário em mudança. Aceitemos a última hipótese, única que poderá tornar plausível, primeiro, e justificar, depois, este regresso poético.
Poesia datada? Sem dúvida. Toda a criação cultural há-de ter logo a sua data, a que lhe é imposta pelo tempo que a produz. Mas outras datas leva sempre também, anteriores, as dos materiais herdados — quantas vezes importunamente dominantes —, e, de longe em longe, aquela impalpável data ainda pode vir, aquele sentir, aquele ver e experimentar só futuro ainda. Porém, essas entrevisões são coisa apenas para génios, e, obviamente, não é deles que se trata aqui.
Poesia do dia passado, da hora tarda, poesia não futurante. E contra isto não haveria remédio. Salvo tentar trazê-la até ao seu autor, hoje, por cima de dezasseis anos e dezasseis séculos. Assim foi feito, e esta edição aparece não só revista, mas emendada também. Quase tudo nela é dito de maneira diferente, diferente é muito do que por outra maneira se diz, e não faltaram ocasiões para contrariar radicalmente o que antes fora escrito. Mas nenhum poema foi retirado, nenhum acrescentado.
É então outro!"     


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

"Circo" poema de José Saramago cantado por Fernando Tordo (Os Poemas Possíveis)

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

"Fernando Tordo na Sociedad General de Autores y Editores aquando da edição do disco "Tributo aos Laureados Nobel - Tordo Canta". José Saramago assiste emocionado na plateia. Canção "Circo", poema de José Saramago, arranjos e direcção musical de Josep Mas (Kitflus). Canta Fernando Tordo"

"Circo"
"Poeta não é gente, é bicho coiso 
Que da jaula ou gaiola vadiou 
E anda pelo mundo às cambalhotas, 
Recordadas do circo que inventou. 

Estende no chão a capa que o destapa, 
Faz do peito tambor, e rufa, salta, 
É urso bailarino, mono sábio, 
Ave torta de bico e pernalta 

Ao fim toca a charanga do poema, 
Caixa, fagote, notas arranhadas, 
E porque bicho é, bicho lá fica, 
A cantar às estrelas apagadas."

JOSÉ SARAMAGO 
In, "Os Poemas Possíveis", 1.ª edição de 1966 
1.ª edição da Porto Editora de 2014


Espectáculo "Quem quer ser Saramago" da Andante Associação Artística com novas datas

Via Cristina Andante e Andante Associação Artística
Aqui em https://www.facebook.com/andante.associacao.artistica/ e http://www.andante.com.pt/

"Quem quer ser Saramago" vai voltar à programação do Serviço Educativo da Fundação José Saramago e está disponível para ser realizado na sua sede, para alunos do ensino secundário, nas seguintes datas:
Segundas-feiras do mês de Janeiro: dias 16, 23 e 30. Sessões às 11h00 e às 15h00. Marcações pelo número 218 802 047 | Rita Pais ou pelo e-mail rita@josesaramago.org
Disponível para ser feito, em qualquer outra data, nas escolas de todo o país.
Marcações através do 919 347 919 ou andante@andante.com.pt

E página da Fundação José Saramago em https://www.facebook.com/fjsaramago/
"Quem quer ser Saramago, da Andante Associação Artística volta à Fundação. 
Informações e marcações pelo e-mail: secretaria@josesaramago.org ou pelo telefone 218802040"


domingo, 1 de janeiro de 2017

Interessante artigo no blog "Socialista Morena" - "10 razões para amar o cristo de saramago"

O presente artigo pode ser recuperado e consultado aqui
em http://www.socialistamorena.com.br/10-razoes-para-amar-o-cristo-de-saramago/

(José Saramago em Lanzarote. Foto: João Francisco Vilhena)

"Tem um livrinho clássico de Miguel de Unamuno, São Manuel Bueno, Mártir, que conta a história do padre de uma cidadezinha no interior da Espanha que esconde um terrível segredo. O segredo de Dom Manuel, admirado por todos os moradores graças a sua bondade, generosidade e pelas palavras que apaziguam corações, é que ele não tem fé. Imaginem: um padre que não crê. E a maior prova de fé do padre sem fé é levar o consolo da religião aos demais, sendo que ele mesmo não o possui.
“Eu estou aqui para fazer viver as almas dos meus paroquianos, para fazê-los felizes, para que sonhem ser imortais e não para matá-los. (…) Com a verdade, com a minha verdade, não viveriam. Que vivam. E isto faz a igreja, fazê-los viver. Religião verdadeira? Todas as religiões são verdadeiras enquanto forma de fazer viver espiritualmente aos povos que as professam, enquanto lhes consolam de haver tido que nascer para morrer, e para cada povo a religião mais verdadeira é a sua. E a minha? A minha é consolar-me em consolar os outros, ainda que o consolo que lhes dou não seja o meu”, diz Dom Manuel no livro, ao revelar o segredo a seu “confessor”.
Vejo esta “fé dos que não têm fé” muito presente no livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Ateu, Saramago criou um Cristo maravilhosamente falível, capaz de revigorar a fé de muitos. Na época em que foi lançado, em 1991, o livro sofreu ataques da igreja católica, porque Saramago ousou mexer com os dogmas do cristianismo. O então sub-secretário de Estado da Cultura português, Antonio Sousa Lara, chegou a vetar o romance em uma lista de indicações literárias sob o argumento de que ofendia a “moral cristã”. Quando Saramago morreu, em 2010, o jornal do Vaticano o chamou de “ideólogo antirreligioso, um homem e um intelectual que não admitia metafísica alguma”.
Leram muito mal o romance, porque não há nada mais cristão do que este evangelho de um ateu: é o retrato de um Jesus Cristo humano, demasiado humano, consciente da grandeza de sua tarefa e aterrorizado por ela. Não era esta a intenção de Deus ao mandar seu filho à Terra, que ele fosse o mais próximo possível de seus semelhantes, em vez do Cristo “divino”, milagreiro e marqueteiro de si mesmo que surge nos evangelhos?
De certa forma, o escritor português melhorou o Jesus do Novo Testamento ao desnudar a complexidade (e a crueldade) do papel que lhe cabia na história. Quem lê a obra de José Saramago não sai menos cristão e sim mais solidário a Jesus. Não dá para entender como puderam ficar contra um livro que é impregnado do mais puro, verdadeiro cristianismo. Desconfio que Saramago era como o Dom Manuel de Unamuno, só que ao contrário. Sua assumida falta de fé ocultava uma fé profunda –na humanidade.

Veja abaixo 10 razões para amar o Cristo de Saramago (ainda que você seja ateu).
1. Maria, como toda mãe, não é virgem: Jesus é gerado não pela visita de um anjo, mas pela conjunção carnal entre Maria e seu marido José. A semente de Deus está misturada à de José. “Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem a fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado”.

2. Jesus nasce da mesma maneira que todo mundo: “O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso de suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.”

3. Os “reis” magos trazem presentes úteis: os três “reis magos” são, na verdade, pastores, e, em vez de trazerem ouro, incenso e mirra, presentes absolutamente inúteis naquela situação, trazem leite, queijo e pão.

4. José e Jesus têm uma relação pai-filho: ao contrário dos relatos do Novo Testamento, que praticamente ignoram a existência de relação entre Jesus e seu pai terreno, o carpinteiro José, o evangelho de Saramago mostra que eles tinham uma proximidade especial e se irmanam na morte, crucificados injustamente ambos aos 33 anos.

5. Jesus é moreno: no Novo Testamento não há alusão à aparência de Jesus, o que favoreceu a imagem europeizada que se fez dele, louro de olhos azuis, pouco condizente com a aparência de um palestino. “Os cabelos são pretos como os do pai e da mãe, as íris já vão perdendo aquele tom branquiço a que chamamos cor de leite não o sendo, tomam o seu próprio natural, o da herança genética direta, um castanho muito escuro.”

6. O demônio não é tão feio quanto pintam: o “pastor” do romance de Saramago é um dos “reis” que visitam Jesus ainda na manjedoura e lhe leva o pão. Sua função não é representar o mal e sim a consciência sobre os sofrimentos que viverão Jesus e seus seguidores em nome de Deus. Quando Jesus o encontra no deserto, não é para “tentá-lo” e sim para ensinar a ele sobre a vida. O demônio é uma espécie de preceptor para um jovem sem experiência, o alter ego do próprio Deus. “Também se aprende com o diabo”, diz Jesus.

7. Jesus conhece o amor de uma mulher: o filho do Homem, como muitos homens no passado, se inicia sexualmente com uma prostituta, Maria Madalena, Maria de Magdala. “Nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus seios são como dois filhinhos gêmeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo.”

8. Jesus tem noção que é um sacrifício o que Deus lhe destina: ao encontrar Deus no deserto, Ele não diz que Jesus é seu filho, e sim que lhe dará glória e poder em troca de sua vida. Quem diz a Jesus que Deus é seu pai é o diabo. É só ao se aproximar a hora da crucificação que Jesus é informado do tamanho sacrifício que fará para alargar a influência no mundo de um Pai vaidoso, que desejava ser admirado por muito mais gente. “E qual foi o papel que me destinaste no teu plano”, pergunta Jesus a Deus. “O de mártir, meu filho, o de vítima, que é o que de melhor há para fazer espalhar uma crença e afervorar uma fé.”

9. Jesus tem dúvidas: ao ser informado de seu sacrifício por Deus, Jesus se comporta como qualquer ser humano naquela situação e pensa em desistir. “Rompo o contrato, desligo-me de ti, quero viver como um homem qualquer”, ele diz a Deus, mas este faz troça: “Palavras inúteis, meu filho”. O raciocínio divino é que, sendo ele um deus, não acreditariam em sua palavras; na de um homem, sim. Daí o envio do filho à Terra. “Serás a colher que eu mergulharei na humanidade para a retirar cheia dos homens que acreditarão no deus novo em que me vou tornar.”

10. Jesus se apieda dos que morrerão em seu nome: Jesus questiona Deus sobre o futuro da humanidade após sua morte, se serão mais felizes, e o Pai responde que, pelo contrário, muitos morrerão por conta desta fé, a começar por seus melhores amigos. “Será uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas”, diz o Todo Poderoso, desfiando os horrores das perseguições aos cristãos e das mortes na Inquisição, a marteladas, queimados vivos, decapitados, crucificados, empalados. Tudo em nome de Deus. “Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.”

sábado, 31 de dezembro de 2016

"Israel" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (31/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/19421.html

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

"Israel"
"Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

"Livro" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (30/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/18967.html

Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

"Livro"
"Estou às voltas com um novo livro. Quando, no meio de uma conversação, deixo cair a notícia, a pergunta que me fazem é inevitável (o meu sobrinho Olmo fê-la ontem): e qual vai ser o título? A solução mais cómoda para mim seria responder que ainda não o tenho, que precisarei de chegar ao fim para me decidir entre as hipóteses que se me forem apresentando (supondo que assim seria) durante o trabalho. Cómoda, sem dúvida nenhuma, mas falsa. A verdade é que ainda a primeira linha do livro não havia sido escrita e eu já sabia, desde há quase três anos (quando a ideia surgiu), como ele se iria chamar. Alguém perguntará: porquê esse segredo? Porque a palavra do título (é só uma palavra) contaria, só por si, toda a história. Costumo dizer que quem não tiver paciência para ler os meus livros, passe os olhos ao menos pelas epígrafes porque por elas ficará a saber tudo. Não sei se o livro em que estou a trabalhar levará epígrafe. Talvez não. O título bastará."

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

"Cunhados" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (29/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/18933.html

Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

"Cunhados"
"São perfeitos. Enfim, quase. Falam alto e sem descanso, apaixona-os a discussão pela discussão, são muitas vezes sectários, violentos de palavras, em todo o caso mais na forma que no fundo. As mulheres, que são cinco, fazem tanto ruído, senão mais ainda que os homens, que são dez. Para eles e para elas nenhum assunto ficará alguma vez suficientemente debatido. Nunca desistem. A pronúncia granadina torna com frequência ininteligível o que dizem. Não importa. Embora eu tenha as minha dúvidas, afirmam que se entendem uns aos outros perfeitamente. Têm um sentido de humor particular que muitas vezes me ultrapassa e que não raro me leva a perguntar aos meus próprios botões onde estava a graça. Os noivos e as noivas, os esposos e as esposas, grupo em que estou incluído, assistem estupefactos, e, como não podem vencê-los, acabam por juntar-se ao coro, excepto algum raro caso que prefira o discreto silêncio. Em vinte anos nunca vi que destas discussões resultasse uma zanga, um conflito a necessitar conselho de família e reconciliação. Por mais que tenha chovido e trovejado antes, o céu sempre acabará limpo de nuvens. Perfeitos não serão, mas boa gente, sim."

"José Saramago, En Sus Palabras, de Fernando Gómez Aguilera" por Roberto Maydana (Libros y Literatura, 28/12/2016)

"José Saramago, En Sus Palabras, de Fernando Gómez Aguilera" 
por Roberto Maydana (Libros y Literatura, 28/12/2016) 

Pode ser recuperado e consultado aqui
em http://www.librosyliteratura.es/jose-saramago-en-sus-palabras-de-fernando-gomez-aguilera.html


"El paso del tiempo hace que todo se olvide y ponerse a pensar en que dentro de una o dos generaciones tras nuestra partida pocos se acordarán de nosotros, es entrar en un terreno del cual uno no puede menos que salir angustiado. Para ser recordados por largo tiempo, muchos seres humanos intentan sobresalir en diversas actividades; así, disfrutaremos de por vida la música de Beethoven, los cuadros de Picasso o los goles de Maradona. En todas las formas posibles del arte, los artistas buscan el paso a la eternidad. Saramago, para quienes lo leímos, lo leemos y lo leeremos, es y será inmortal, tal vez no porque haya buscado en vida esa eternidad, sino, sobre todo, por haber vivido y honrado la vida sin pensarla como un camino a transitar para llegar a lo que, dicen, viene después, sino por haberla transcurrido con una responsabilidad terrenal y cotidiana que lo llevó a comprometerse más allá de las cómodas quejas desde el sofá.

José Saramago en sus palabras es una recopilación de centenares de frases, pensamientos y declaraciones en la prensa que el Nobel de Literatura hizo desde la segunda mitad de los años setenta hasta comienzos de 2009. De esta manera, no solo podremos ir recorriendo su pensamiento a lo largo del tiempo, sino sobre todo confirmando algo que los que lo conocemos no necesitamos ratificar: su capacidad crítica, inteligencia, lucidez y libertad a la hora de decir lo que sentía, sin censuras y poniendo siempre el eje en la defensa de los excluidos y la reivindicación de los derechos humanos.

Fernando Gómez Aguilera, poeta, ensayista y filólogo, fue el encargado de recolectar las palabras del genio portugués y es digno de destacar su trabajo, que, a lo largo de más de 500 páginas, nos ofrece un panorama completo acerca de los valores éticos de Saramago. El libro en sí, está estructurado en tres grandes capítulos (Quien se llama Saramago, Por el hecho de ser escritor y El ciudadano que soy) que a su vez se dividen en decenas de temas que abarcan todo el mundo opinable del autor, entre los que podemos destacar los dedicados a Dios, el pesimismo, la muerte, la literatura, la historia, el comunismo, Europa o Sudamérica.

Particularmente, no pude despegarme del libro en el apartado “novela” en el que se recopilan todas las declaraciones de Saramago sobre los diferentes libros que fue publicando y que me permitieron descubrir muchos datos no conocidos sobre el “detrás de escena” de la creación de sus publicaciones. “Lanzarote”, donde cuenta su relación con esa isla española en la que residió hasta el final de sus días, es también muy interesante, porque narran el dolor que le causó tener que dejar su país, pero al mismo tiempo el hecho de, a una edad avanzada, encontrar un lugar en el mundo y volver, de alguna manera, a comenzar.

Disfruté del libro tanto como sus mejores novelas y a medida que iba leyéndolo, reconocía una vez más que la línea entre escritor y ciudadano, en Saramago, no existió nunca, ya que en la vida no ficcionada mantenía los mismos valores y el mismo compromiso con el mundo que, en forma de parábolas, mostraba en sus grandes éxitos literarios.

Recomiendo Saramago en sus palabras a todos aquellos lectores del mundo que, al menos, haya leído cinco o seis de sus novelas, ya que este libro actuará como un excelente complemento para su obra literaria y al mismo tiempo como un buen compendio de su enorme y eterna sabiduría."

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"Métailié, a editora francesa que apostou em Agustina, Saramago e Lobo Antunes"

"A editora francesa Anne-Marie Métailié aposta há mais de 30 anos na publicação de autores lusófonos e foi pioneira na publicação de José Saramago e António Lobo Antunes em França."

O artigo pode ser recuperado e consultado aqui
em http://mag.sapo.pt/showbiz/artigos/metailie-a-editora-francesa-que-apostou-em-agustina-saramago-e-lobo-antunes?artigo-completo=sim

Foi "uma luta" publicar autores que a França praticamente desconhecia nos anos 1980, mas "valeu a pena", mesmo que Saramago e Lobo Antunes tenham, depois, ido para outras editoras.

"Não tinha muita gente, muitos jornalistas para falar da literatura portuguesa. Foi uma luta. Foi uma luta, mas valeu a pena (...) A editora era muito jovem. Foi fundada em 1979 para fazer ciências sociais e a literatura portuguesa foi logo no começo, depois da literatura brasileira. Num momento de dificuldades da editora, em 85, 86, os homens foram embora. Só ficaram no catálogo a Lídia Jorge e a Agustina Bessa-Luís. As mulheres foram fiéis", explicou, em português, a editora.

Apesar de os ter acompanhado na entrada do mundo editorial francês, Anne-Marie Métailié não ficou chateada com José Saramago nem com António Lobo Antunes quando a trocaram por editoras maiores e ficou amiga de Saramago, "charmoso, tão agradável, divertido, muito respeitoso do trabalho", com quem falava em português porque "ele aceitava" o seu "sotaque brasileiro", lembrou, com um sorriso.

"Com Lobo Antunes tudo era mais complicado, mas eu tinha uma admiração muito grande pela obra dele. A Lídia Jorge é outra coisa porque a gente ligou-se numa amizade muito forte (...) Os Memoráveis, o último livro que publicámos, é um livro muito importante, politicamente é importante, literariamente é importante. Je l’aime!", resumiu, entusiasticamente.

Quanto a Agustina Bessa-Luís, de quem publicou nove títulos, Anne-Marie Métailié fala em "génio" que escreveu "grandes clássicos da literatura mundial".

Fotografia da editora Anne-Marie Métailié

"Antes desse Nobel [de José Saramago], estava na Coupole almoçando com a Agustina. Um jornalista veio perguntar ‘Quem vai vencer o Nobel, o Lobo Antunes ou o Saramago?’ Ela olhou para ele e disse: ‘Eu. A única que merece o Nobel sou eu’", recordou.

Anne-Marie Métailié foi a primeira a publicar em França, em 1987, “Le Dieu Manchot” (“Memorial do Convento”) de José Saramago e, em 1998, quando o autor português venceu o Prémio Nobel da Literatura, a antiga editora estava na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, a passar no ‘stand’ de Portugal no instante em que se soube a notícia.

"Vi uma coisa tão linda, tão linda porque todos os autores estavam muito comovidos, estavam felizes de ver que um autor deles era consagrado assim. A Lídia Jorge estava a chorar de alegria. Toda a gente estava feliz. Era uma festa”, contou.

Ao lado de Pierre L’Église-Costa, diretor literário da coleção “Bibliotèque Portugaise” das Éditions Métailié, Anne-Marie publicou seis romances do angolano José Eduardo Agualusa e quatro do moçambicano Mia Couto, tendo ainda editado, no ano passado, “Os Transparentes” do angolano Ondjaki em nome do seu gosto pelas “variações em torno dos idiomas”.

"Acho que a língua portuguesa original é uma língua muito forte e o que se faz com a língua portuguesa nos países como Angola, Moçambique ou Brasil é muito interessante. O português vem com uma carga de imaginação, de imaginário, que é muito particular. Ler em português abre mais a minha imaginação que qualquer outro idioma”, explicou.

Anne Marie Métailié apaixonou-se pela língua portuguesa através do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis, que descobriu na primeira aula de português que teve na Sorbonne e que publicou em 2015.

"O método de ensino de português do professor Boisvert era bem particular. A gente não estudava assim como se faz agora, as frases que você repete... A gente pegou o Machado de Assis, Dom Casmurro, na página 1. A gente ficou a ler, a destrinçar, a gente ficou avançando no romance e no final a gente falava português", contou.

A editora, que também publicou, em francês, obras de Valter Hugo Mãe, Jorge de Sena, Pedro Rosa Mendes, Rui Zink, Eduardo Lourenço, entre muitos outros, foi receber, a 27 de outubro, a Ordem do Infante Dom Henrique na Embaixada de Portugal em Paris.

Além de escritores lusófonos, Anne-Marie Métailié publica, ainda, nomes da literatura latino-americana, islandesa, escocesa, alemã, espanhola e italiana, excluindo autores norte-americanos porque quer "fazer conhecer outros modos de pensar, outros modos de sentir o mundo".

Em 2017, as Éditions Métailié vão publicar "A Rainha Ginga" de José Eduardo Agualusa e “As Mulheres de Cinza” de Mia Couto, esperando também editar em francês uma nova obra de Valter Hugo Mãe."

O catálogo da editora pode ser consultado aqui 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

"Meditação sobre uma Jangada" publicado originalmente no jornal "Libération"

"Meditação sobre uma Jangada" publicado originalmente no jornal francês "Libération" é publicado em português na edição #55 (Dez.2016) da revista digital "Blimunda" e pode ser descarregada gratuitamente aqui em http://www.josesaramago.org/blimunda-55-dezembro-2016/

"Algumas vezes este romancista, confundido nas malhas da ficção que ia tecendo, chegou a imaginar-se transportado na fantástica jangada de pedra em que transformara a Península Ibérica, flutuando sobre o mar atlântico, a caminho do Sul e da utopia. A peculiaridade da alegoria era transparente: embora prolongando algumas semelhanças com os motivos do mais comum dos emigrantes, que parte para outras terras e busca a vida, prevalecia, neste caso, uma diferença assaz substancial, a de também comigo viajarem, em tão inaudita migração, o meu próprio País, todo ele, e, sem que aos espanhóis tivesse pedido antes a devida licença, portanto sem procuração nem autorização, a Espanha. Ora, embalado nestas minhas imaginações, notava eu que nelas não entrava qualquer sentimento de pesar, de tristeza, de aflição mais ou menos pânica, nem sequer, para tudo dizer na inevitável e tópica palavra portuguesa – saudade. Compreender-se-á já porquê. É certo que, e pelos vistos irremediavelmente, me ia afastando da Europa, mas os tecidos vitais da barca imensa que me levava continuavam a alimentar as raízes da minha identidade mais profunda e da minha pertença colectiva: logo, não encontrava em mim razões para chorar um bem perdido, se realmente assim podia ser designado o que antes ganho não tinha sido, mesmo tendo tão pouco de bem.
Para não cairmos nos cansados braços da banalidade e da redundância não nos tentaremos a repetir aqui o catálogo longuíssimo das maravilhas europeias, desde os gregos e os latinos até aos felizes dias de hoje. Por demais sabemos que a Europa foi madre ubérrima de culturas, farol inapagável de civilização, lugar onde, com o passar do tempo, haveria de instituir-se o modelo humano que, seguramente, mais próximo está do projecto que Deus tinha em mente quando colocou no paraíso o primeiro exemplar da espécie. Pelo menos, é desta maneira idealizada que os europeus costumam ver-se no espelho de si mesmos, e essa é a servil resposta que a si mesmos invariavelmente vêm dando: «Sou eu o que de mais belo, de mais inteligente e de mais culto a Terra produziu até hoje.» Dito o que seria a altura de começar a redigir a decerto não menos longa acta dos desastres e horrores europeus, que acabaria por levar-nos à conclusão deprimente de que a famosa batalha que celeste, afinal, não foi ganha por Jeová mas por Lucifer, e que o único habitante do paraíso teria sido a serpente, encarnação tangível do mal e seu emblema gráfico, que não precisou de macho, ou de fêmea, se macho era, para proliferar em número e qualidade. Não faremos pois a acta, como não fizemos o catálogo. Antes cobriremos piedosamente o espelho para que não venha a ser pronunciada, sequer, a primeira palavra da resposta.
E agora basta de escatologias e ficções. De um ponto de vista ético abstracto, a Europa não tem mais culpas no cartório da história que outra qualquer parte do mundo onde, hoje e ontem, por todos os meios, se tenham disputado o poder e a hegemonia. Mas a ética, exercendo-se, como no-lo está dizendo o senso comum, sobre o concreto social, é porventura a menos abstracta de todas as coisas que, ainda que variável no tempo e no espaço, permanece como uma presença calada e rigorosa que, com o seu olhar fixo, nos pede contas todos os dias. Suponho que estamos vivendo o tempo em que a
Europa deveria apresentar a juízo o balanço da sua gestão, se não pretende prolongar, com o requinte de processos que os modernos meios de comunicação de massa permitem, o seu pecado ou vício maior, que é a existência de duas Europas, a central e a periférica, mais o consequente lastro histórico de injustiças, discriminações e ressentimentos. Já não falo das guerras, das invasões, dos genocídios, das eliminações selectivas, falo sim da ofensa grosseira que é, além dessa espécie de deformação congénita denominada eurocentrismo, aquele outro comportamento aberrante que consiste em ser a Europa, por assim dizer, eurocêntrica em relação a si mesma. Para os estados europeus ricos e, segundo a opinião narcísica em que se comprazem, culturalmente superiores, o resto da Europa é algo vago e difuso, um pouco exótico, um pouco pitoresco, merecedor, quando muito, da atenção da antropologia e da arqueologia, mas onde, apesar de tudo, contando com as adequadas colaborações locais, ainda se podem fazer alguns bons negócios. 
Ora, não haverá no futuro próximo uma nova Europa se esta não instituir frontalmente como entidade moral, e também não a haverá se não for abolido, mais do que os egoísmos nacionais, que quantas vezes não passam de meros reflexos defensivos, o preconceito da prevalência ou da subordinação das culturas. Tenho obviamente presente a importância dos factores económicos, militares e políticos na formação das estratégias continentais e seu enquadramento nas geoestratégias globais, mas, sendo por fortuna ou desfortuna homem de livros e de letras, considero meu urgente dever lembrar que as hegemonias culturais de hoje resultam, fundamentalmente, de um processo duplo e cumulativo de evidenciação do próprio e de ocultação do alheio que teve a habilidade de impor-se como inelutável, favorecido, quase sempre, pela resignação, quando não pela cumplicidade das próprias vítimas. Nenhum país, por mais rico e poderoso que seja, deveria arrogar-se uma voz mais alta. E, já que de culturas venho falando, também nenhum país ou grupo de países, tratado ou pacto, deveria propor-se como mentor ou guia dos restantes. As culturas, é tempo de começar a entendê-lo Europa, e entendida tente ficar de uma vez para sempre, não são melhores nem piores umas que as outras, não são mais ricas nem mais pobres. Pelo destino, valem-se e equivalem-se, e pela diferença, assumida e aprofundada, é que se justificam. Não há, e esperemos que não venha a haver nunca, uma cultura una e universal. A Terra, sim, é única, mas o ser humano não o é. Cada cultura criada pelos homens deverá ser, em si mesma, um universo comunicante: o espaço que as separa umas das outras é o mesmo espaço que as liga, tal como o mar, aqui na Terra, separa e liga os continentes.
Esse romance - «Le radeau de Pierre» - em que arranco a Península Ibérica à Europa, não seria necessário dizê-lo, é o efeito, talvez último, de um ressentimento histórico. Provavelmente, só um português poderia ter escrito tal livro. Mas o seu autor, este autor, declara que estaria pronto a fazer regressar do mar a errante jangada, depois de alguma coisa ter aprendido de vitalmente necessário durante a sua navegação, se a Europa, reconhecendo-se, de facto, incompleta sem a Península Ibérica, viesse a fazer pública confi ssão dos erros cometidos, das injustiças e dos desprezos com que durante tantos anos tratou dois povos a quem deve muito mais do que aquilo que tem querido reconhecer. Porque, enfi m, se de mim se espera que ame a Europa como à minha própria mãe, o mínimo que devo exigir-lhe é que ame a todos os seus fi lhos por igual e, sobretudo, que por igual os
respeite a todos. Texto publicado originalmente no jornal Libération"

domingo, 25 de dezembro de 2016

"Ceia" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (25/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/18470.html

Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

"Ceia"
"Há muitos anos, nada menos que em 1993, escrevi nos “Cadernos de Lanzarote” umas quantas palavras que fizeram as delícias de alguns teólogos desta parte da Ibéria, especialmente Juan José Tamayo, que desde aí, generosamente, me deu a sua amizade. Foram elas: “Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio”. Reconheça-se que a ideia não está mal formulada, com o seu “quantum satis” de poesia, a sua intenção levemente provocadora e o subentendido de que os ateus são muito capazes de aventurar-se pelos escabrosos caminhos da teologia, ainda que a mais elementar. Nestes dias em que se celebra o nascimento do Cristo, outra ideia me acudiu, talvez mais provocadora ainda, direi mesmo que revolucionária, e que em pouquíssimas palavras se enuncia. Ei-las. Se é verdade que Jesus, na última ceia, disse aos discípulos, referindo-se ao pão e ao vinho que estavam sobre a mesa: “Este é o meu corpo, este é o meu sangue”, então não será ilegítimo concluir que as inumeráveis ceias, as pantugruélicas comezainas, as empaturradelas homéricas com que milhões e milhões de estômagos têm de haver-se para iludir os perigos de uma congestão fatal, não serão mais que a multitudinária cópia, ao mesmo tempo efectiva e simbólica, da última ceia: os crentes alimentam-se do seu deus, devoram-no, digerem-no, eliminam-no, até ao próximo natal, até à próxima ceia, ao ritual de uma fome material e mística sempre insatisfeita. A ver agora que dizem os teólogos."

sábado, 24 de dezembro de 2016

"Um ano depois" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (24/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/18417.html

Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

"Um ano depois"
“Morri” na noite de 22 de Dezembro de 2007, às quatro horas da madrugada, para “ressuscitar” só nove horas depois. Um colapso orgânico total, uma paragem das funções do corpo, levaram-me ao último limiar da vida, lá onde já é tarde de mais para despedidas. Não recordo nada. Pilar estava ali, estava também Maria, minha cunhada, uma e outra diante de um corpo inerte, abandonado de todas as forças e donde o espírito parecia ter-se ausentado, que mais tinha já de irremediável cadáver que de ser vivente. São elas que me contam hoje o que foram aquelas horas. Ana, a minha neta, chegou na tarde do mesmo dia, Violante no seguinte. O pai e avô ainda era como a pálida chama de uma vela que ameaçasse extinguir-se ao sopro da sua própria respiração. Soube depois que o meu corpo seria exposto na biblioteca, rodeado de livros e, digamo-lo assim, outras flores. Escapei. Um ano de recuperação, lenta, lentíssima como me avisaram os médicos que teria de ser, devolveu-me a saúde, a energia, a agilidade do pensamento, devolveu-me também esse remédio universal que é o trabalho. Em direcção, não à morte, mas à vida, fiz a minha própria “Viagem do Elefante”, e aqui estou. Para vos servir."

"Navegar até à América Latina" por Pilar del Río - sobre os 30 anos de "A Jangada de Pedra" (Revista Blimunda #54 11/2016)

Sobre os 30 anos da publicação de "A Jangada de Pedra"


O presente texto de Pilar del Río, está publicado na edição #54 (Novembro de 2016) na revista digital "Blimunda" e pode ser consultada através da página da Fundação José Saramago aqui, 

Páginas 108 a 110

"Em Novembro, a Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL), México, abrirá as suas portas com um convidado de honra tão grande quanto um continente, nada mais nada menos do que a América Latina. O motivo para tão sonoro convite tem a ver com a história da Feira, que este ano completa os seus primeiros trinta anos de vida. Os mesmos que o romance de José Saramago, A Jangada de Pedra, que nasceu em Portugal, em 1986, para dar início a uma navegação que não termina, porque os seres humanos, às vezes sem serem de todo conscientes, desejamos a aventura do encontro, de uns com outros e, oh, a magia da literatura, entre continentes. Por isso A Jangada de Pedra tinha que estar na FIL no dia de abertura, na tarde de 26 de Novembro: que bom dia para uma cerimónia levantada e principal.
A urgência da viagem fez-se tão evidente que José Saramago, para satisfazer tanta inquietação, não teve mais remédio senão lançar ao mar a terra que habitava, e assim escreveu sobre a viagem da Península Ibérica em direção à América Latina. Não fugia, ao contrário do que muitos entenderam, simplesmente apostou no poder da razão. A Península Ibérica separada do resto da Europa – IbExit radical – funcionaria como um rebocador a arrastar o continente europeu até mundos que o esperam e que são mais brilhantes que o próprio umbigo. Usou, José Saramago, o modo literário para chamar a atenção do adormecimento no qual a Europa estava submersa, uma contribuição singular para enfrentar a cegueira que prosperava com a brutalidade do passado recente. José Saramago intuía que a celebração europeísta, da forma como se estava a produzir, invocava a obscenidade da exploração, daí a importância de intervir para ratificar os valores que nos fazem livres. E agora vem a pergunta-chave: Poderia um encontro de culturas e civilizações impedir o caos? Não é isso o que está escrito no romance, mas depreende-se da sua leitura que os seres humanos, colocados em posição de entendimento e de mútua compreensão, podem alterar todos os projetos.
Navegava a jangada de pedra pelo oceano enquanto vários homens e mulheres percorriam a ilha-península como novos Quixotes, preparados para enfrentar todos os moinhos de vento. Também estes seres humanos se amam – e aqui Saramago vai mais longe que Cervantes – e geram vidas que nascerão com o maravilhoso dom do inconformismo. Eles, filhos das mães do romance, seguirão escrevendo sobre aventuras fabulosas porque sabem que navegar até aos outros é o melhor e, para além disso, é preciso. 
A Jangada de Pedra chega ao México porque é o seu destino natural e lá encontra-se com os outros países do continente americano. A festa dos trinta anos não poderia ser mais bela. Apetece agradecer à vida por permitir-nos que vivamos isto. Faço-o: gracias a la vida."