Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Ecos da estreia da peça de teatro "El Hombre Duplicado" em Los Jameos del Agua - Lanzarote

Fotografia publicada pelo "Comik Teatro" - https://www.facebook.com/TeatroComiK/
"Ayer nos fuimos a ver "El hombre duplicado", adaptación teatral de la novela de José Saramago, que ha sido un éxito en su estreno mundial en Lanzarote y al que deseamos un largo recorrido"

Comentário de Victoria Rosell (via Twitter @VickyRosell )
"Saramago y César Manrique. El hombre duplicado en Los Jameos del Agua. Lanzarote. IMPRESIONANTE."


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

"O planeta dos macacos" Crónica de José Saramago publicada originalmente na revista "O Ribatejo Ilustrado" (14/12/1990)



A presente crónica foi publicada na revista "O Ribatejo Ilustrado" em 14/12/1990 e republicada na edição digital da "Blimunda" (n.º 53 de Outubro de 2016); pode ser descarregada e recuperada aqui em http://www.josesaramago.org/blimunda-53-outubro-2016/

A revista "Blimunda" é produzida pela Fundação José Saramago e todos as edições podem ser consultadas e descarregadas aqui em http://www.josesaramago.org/category/blimunda/

"O planeta dos macacos"

"Alguns leitores talvez ainda se lembrem de um romance francês, de Pierre Boulle, salvo erro, que no tempo da sua publicação foi recebido com grande favor do público e aplauso da critica, penso eu que mais pelo carácter insólito do tema do que por indiscutíveis méritos literários. Chamava-se a festejada obra O Planeta dos Macacos, e da curiosa mas afinal pouco surpreendente história, o que se pode dizer, simplificando, é que já estava, toda ela, contida no título: um planeta povoado por macacos organizados segundo modelos políticos, culturais e sociais nossos conhecidos, porquanto eram, por assim dizer, mera repetição dos sistemas que a Humanidade tem criado ao longo dos séculos. 
Na sociedade daqueles macacos podia-se encontrar tudo o que, para bem e para mal, vem definindo a sociedade dos homens: havia chefes, facções, intrigas, crimes, polícias. Havia macacos maus e macacos bons, macacos apaixonados e macacos ciumentos, macacos feios e macacos bonitos. Exactamente como cada um de nós e as pessoas que vivem na nossa rua.
Devo confessar que nunca li o livro. O que dele imagino saber, hoje, é tão-somente o que viria a ser-me explicado, anos depois, no filme que dele foi extraído, produto ingénuo entre os que mais o sejam, às vezes ridículo pela preocupação moralista de acentuar a evidência de que tudo ali se passava como se, em vez de macacos, os heróis e figurantes da história fossem representantes da nossa espécie. A intenção acabava por tornar-se pleonástica ao serem introduzidos no conflito alguns seres humanos, dos autênticos, astronautas desembarcados no planeta em consequência duma avaria da nave em que viajavam: tornava-se então medianamente claro que tudo aquilo era a mesma gente, os macacos comportando-se como homens, os homens comportando-se como macacos. E, para que não restasse a mínima dúvida sobre o derradeiro significado da mensagem, descobriríamos, nas derradeiras sequências do filme, que os astronautas, sem saberem, tinham regressado ao entretanto destruído planeta Terra, que havia sido palco duma guerra atómica e onde os macacos tinham ocupado o lugar dos homens.
Ora, é tempo de recordar, as relações de identidade entre homens e macacos começaram há muitos e muitos séculos, quando o inglês estava ainda por inventar e portanto nem podia saber-se onde estariam e quem viriam a ser os tataravós de Darwin. O que quase toda a gente ignora é que o segredo de tais relações, íntimas, no exacto sentido do termo, está inscrito e revelado, de modo maravilhoso mas edificante, nuns antiquíssimos textos sobre a criação de Adão, segundo os quais (transcrevo de Os Mitos Hebreus, de Robert Graves e Raphael Patai) «Deus tinha dado a Adão um tamanho tão grande que quando estava deitado se estendia de um extremo ao outro da Terra, e quando se levantava a sua cabeça ficava ao nível do Trono Divino. Alem disso, tinha uma beleza tão indescritível que embora posteriormente as mulheres mais belas parecessem macacas em comparação com Sara, a esposa de Abrão, e Sara tivesse parecido macaca em comparação com Eva, a própria Eva parecia uma macaca em comparação com Adão, cujos calcanhares – sem falar do rosto – brilhavam mais que o sol. No entanto ainda que Adão tenha sido à imagem de Deus, também ele parecia um macaco em comparação com Deus». A conclusão que daqui se extrai não se limita a ser lógica, é imperativa e fulminante: desde que o mundo nasceu, desde o primeiro sopro da Criação, digamos mesmo a partir do pensamento primordial concebido pelo Criador na sua transcendental cabeça, logo aí ficou providenciado, para todos os tempos vindouros, que para o homem, macaco desde Adão, sempre haveria outros homens a quem teria o direito e o poder de tratar como macacos, em conformidade com as normas e as nomenclaturas estabelecidas, de raça, cor, religião, classe, riqueza, ideologia, costume, etc.
Os exemplos, mais do que abundarem, sobejam. Bastará recordar aquele macaco que foi Giordano Bruno, queimado pela Igreja Católica,e, já que não é possível referir aqui, página por página, a História Universal, tanto a remota como a recente, lembremos apenas que para a Alemanha de Hitler os judeus eram macacos, que hoje, para os judeus, são macacos os palestinos, e que, par os muçulmanos em geral, Salman Rushdie, será macaco até ao fim da vida. Sábio, lúcido e céptico era Castelão, esse admirável galego que os Portugueses deveriam conhecer melhor, quando nos falava daquele homem que um dia resolveu comprar um cão para poder ter em quem mandar. O pobre diabo, colocado por um negro destino nos últimos lugares da escala social, fez de cão macaco para poder sentir-se homem. E eu, também macaco de macacos, começo a pensar que a Humanidade, afinal das contas, não passa de um macaco neurótico que morde sem parar a sua própria cauda.
(Páginas 101 a 108)

Memórias fotográficas


"A outra crise" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (16/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/22146.html

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

"A outra crise"
"Crise financeira, crise económica, crise política, crise religiosa, crise ambiental, crise energética, se não as enumerei a todas, creio ter enunciado as principais. Faltou uma, principalíssima em minha opinião. Refiro-me à crise moral que arrasa o mundo e dela me permitirei dar alguns exemplos. Crise moral é a que está padecendo o governo israelita, doutra maneira não seria possível entender a crueldade do seu procedimento em Gaza, crise moral é a que vem infectando as mentes dos governantes ucranianos e russos condenando, sem remorsos, meio continente a morrer de frio, crise moral é a da União Europeia, incapaz de elaborar e pôr em acção uma política externa coerente e fiel a uns quantos princípios éticos básicos, crise moral é a que sofrem as pessoas que se aproveitaram dos benefícios corruptores de um capitalismo delinquente e agora se queixam de um desastre que deveriam ter previsto. São apenas alguns exemplos. Sei muito bem que falar de moral e moralidade nos tempos que correm é prestar-se à irrisão dos cínicos, dos oportunistas e dos simplesmente espertos. Mas o que disse está dito, certo de que estas palavras algum fundamento hão-de ter. Meta cada um a mão na consciência e diga o que lá encontrou."

sábado, 14 de janeiro de 2017

"Ángel González" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (14/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/21658.html

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

"Ángel González"
"Há um ano, precisamente no dia 12 de Janeiro, num hospital de Madrid, morreu Ángel González. Hospitalizado eu próprio em Lanzarote por causa de uma doença similar à que o levou, atendi a chamada telefónica de um jornal que queria publicar umas palavras sobre a infausta notícia. Em termos que o meu interlocutor mal deve ter ouvido, tão intensa era a minha emoção, disse que havia perdido um amigo que era, ao mesmo tempo, um dos maiores poetas de Espanha. Em sua lembrança deixo hoje aqui um dos seus poemas, que traduzo do espanhol. ASSIM PARECE Acusado pelos críticos literários de realista,os meus parentes, em troca, atribuem-me o defeito contrário; afirmam que não tenho sentido algum da realidade. Sou para eles, sem dúvida, um funesto espectáculo: analistas de textos, parentes da província,pelos vistos, a todos defraudei que lhe vamos fazer! Citarei alguns casos: Certas tias devotas não se podem conter, e choram ao olhar-me. Outras muito mais tímidas fazem-me arroz doce, como quando eu era pequeno, e sorriem contritas, e dizem-me: que alto, se o teu pai te visse…,e ficam suspensas, sem saber que mais dizer. No entanto, não ignoro que os seus gestos ambíguos dissimulam uma sincera compaixão irremediável que brillha humidamente nos seus olhares e nos seus piedosos dentes postiços de coelho. E não são só elas. De noite a minha velha tia Clotilde regressa da tumba para agitar diante da minha cara os dedos como sarmentos e repetir em tom admonitório: De beleza não se come! Que julgas que é a vida? Por sua parte, a minha falecida mãe, com voz delgada e triste, augura para a minha existência um lamentável final: manicómios, asilos, calvície, blenorragia. Eu não sei que dizer-lhes, e elas regressam ao seu silêncio. O mesmo, igual que então. Como quando era pequeno. Parece que a morte não chegou a passar por nós."

Memórias fotográficas


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Recuperação da entrevista de Judite de Sousa a José Saramago (RTP2, Dezembro 1998)

A entrevista pode ser recuperada e visualizada via YouTube, aqui

"Presidentes" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (13/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/21452.html

Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

"Presidentes"
"Um, Bush, que sai e que nunca deveria ter entrado, outro, Obama, que está prestes a chegar e oxalá não venha a desiludir-nos, outro, Bartlet, que, não duvido, ficará por muito tempo. A este dedicámos nestes dias, Pilar e eu, algumas horas disfrutando os últimos episódios de “A ala oeste da Casa Branca” a que em Portugal preferiram chamar “Os homens do presidente”, título eminentemente machista, uma vez que algumas das personagens mais importantes da série são mulheres. Jed Bartlet, interpretado por Martin Sheen (lembram-se de “Apocalipse Now”?), é o nome do presidente que temos vindo a acompanhar com um interesse que nunca esmoreceu, tanto pela tensão dramática dos conflitos como também por alguns aspectos didácticos sempre presentes sobre o modo norte-americano de fazer política, quer no bom, quer no péssimo. Bartlet chegou ao fim do seu segundo mandato e portanto está de saída. Estamos em plena campanha presidencial, uma campanha em que não têm faltado os golpes baixos, mas que acabará (já o sabemos) com a vitória do melhor dos candidatos, um hispano de ideias claras e ética impecável chamado Mattew Santos. Claro que é irresistível pensar em Barack Obama. Terão os autores da história o dom da profecia? É que entre um hispano e um negro, a diferença não é tão grande"

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

El Auditorio de los Jameos se prepara para recibir la obra teatral 'El hombre duplicado” (via Lancelot Digital, 11/01/2017)

A presente notícia pode ser recuperada e consultada através da página do "Lancelot Digital" aqui em http://www.lancelotdigital.com/cultura/el-auditorio-de-los-jameos-se-prepara-para-recibir-la-obra-teatral-el-hombre-duplicado

Mais informações através da página "CACT Lanzarote - Centros de Arte, Cultura y Turismo" aqui em http://www.cactlanzarote.com/Evento/hombre-duplicado-saramago/

Publicado também na página da Fundação José Saramago em https://www.facebook.com/fjsaramago/

Vídeo de apresentação em https://www.youtube.com/watch?v=Ey6x_TZ36jw


"El consejero de Turismo del Cabildo de Lanzarote, Echedey Eugenio,  la responsable de DD&Company Producciones, Dania Dévora, el consejero delegado de los Centros de Arte, Cultura y Turismo, José Juan Lorenzo, y un elenco artístico de primer nivel encabezado por el prestigioso director José Martret, presentaron este miércoles los aspectos más destacados del estreno mundial de la adaptación teatral de la obra 'El hombre duplicado', de José Saramago, que tendrá lugar este viernes, 13 de enero, a partir de las 20.00 horas, en el Auditorio Jameos del Agua.

Tras dar la bienvenida a todos los asistentes y a los artistas que le acompañaban, Echedey Eugenio explicó algunos aspectos de “esta bonita locura que iniciamos hace unos meses, y que vincula a dos artistas tan ligados a Lanzarote como son José Saramago, autor de El hombre duplicado, y César Manrique, creador del espacio en el que se estrenará mundialmente su adaptación teatral” y animó a la población de la isla a asistir este fin de semana al Auditorio Jameos del Agua “a disfrutar de un espectáculo de primer nivel en cualquiera de las dos funciones que se representarán”."


"Dania Dévora, responsable de DD&Company Producciones y directora ejecutiva del proyecto, detalló el proceso que ha desembocado en la obra que se estrenará mundialmente el próximo viernes. Ilusión, implicación y entusiasmo fueron las palabras más utilizadas por Dévora, que agradeció especialmente la implicación de Pilar del Río, “que pensaba que en España debía haber una representación teatral de una obra de José Saramago”. Asimismo, agradeció la “implicación de los CACT, de la consejería de Turismo y del presidente del Cabildo de Lanzarote, que respaldó esta iniciativa cultural desde el primer minuto” y confirmó que durante la jornada de ayer se sumó “un nuevo productor a este proyecto que iniciamos dos, los Centros de Arte, Cultura y Turismo y DD&Company Producciones”."


"Dévora desveló el entusiasmo que siente ella y “todo el equipo” alrededor de esta obra, y finalizó animando a la ciudadanía a compartir el estreno mundial de El hombre duplicado en Lanzarote e invitando a los medios a asistir al pase gráfico que tendrá lugar mañana jueves, 12 de enero, a las 11.30 horas, en el Auditorio Jameos del Agua."


"El director de la obra, José Martret, por su parte, glosó la figura del autor de El hombre duplicado, José Saramago. Después de reconocer sentirse “muy responsabilizado”, Martret reveló que “no pudo decir no a la invitación que me hicieron para que participase en esta adaptación de la obra del Nobel portugués, que iba a estrenarse en la isla en la que vivió y escribió, y en un escenario como Jameos del Agua”.

Martret habló de los rasgos de los personajes de la obra, y avanzó algunos aspectos trascendentales “de una trama que se convierte en un thriller apasionante”.


"El actor Raúl Tejón, que da vida al personaje protagonista de El hombre duplicado, Tertuliano Máximo Alfonso, destacó la trascendencia que tiene que un espacio como el Auditorio Jameos del Agua "esté al servicio de la cultura", y animó a la población de Lanzarote a asistir y vibrar “con esta película de suspense que hemos hecho encima de un escenario”.

De igual modo, la canaria Kira Miró, que declaró sentirse "encantada" de trabajar en su tierra, Raquel Pérez, Sergio Otegui y Maribel Luis invitaron a la ciudadanía a compartir el estreno mundial de El hombre duplicado en Lanzarote.

El consejero delegado de los CACT, José Juan Lorenzo, finalizó el turno de intervenciones asegurando sentirse “encantado por haber participado en esta co-producción”, e igualmente invitando a los lanzaroteños a “disfrutar de este espectáculo artístico y cultural de primer nivel”.

El sábado 14 de enero tendrá lugar una segunda función, a la misma hora y en idéntico escenario.

Las localidades para asistir a las representación de El hombre duplicado se pueden adquirir en los canales de venta habitual de los Centros, esto es, las taquillas de la Red de Centros, la Casa Amarilla de Arrecife, y en la dirección web http://www.cactlanzarote.com/Evento/hombre-duplicado-saramago/, a la precio de 25 euros."

El hombre duplicado

"¿Qué haríamos cada uno de nosotros si nos encontráramos a un ser humano semejante, absolutamente semejante, a nosotros mismos? ¿Por qué vericuetos extraños nos adentraríamos para tratar de descifrar el misterio de esa situación imposible y, sin embargo, literariamente real? A este escenario que aparece en El hombre duplicado, de José Saramago, trata de dar respuesta la adaptación teatral –la primera de una novela del Premio Nobel de Literatura de 1998- que, acometida por Salvador Toscano y Félix Ortiz, dirige José Martret, uno de los nombres más prometedores de la actual escena española, con un atractivo reparto formado por Raúl Tejón, Kira Miró, Raquel Pérez, Sergio Otegui, Maribel Luis y Mon Ceballos, con la colaboración especial de Nathalie Poza.

El montaje teatral, como la novela, trata de dar respuesta a las incisivas preguntas que el mordaz escritor portugués planteaba: ¿En qué consiste la identidad? ¿Cómo saber quiénes somos? ¿Qué nos define como personas individuales? ¿Qué nos distingue permitiéndonos ser únicos? ¿Y qué ocurriría si no lo fuésemos? José Saramago habla sobre la búsqueda de la identidad propia y ajena. Con humor e ironía  reflexiona acerca de la capacidad humana de aceptar al otro, un tema de candente actualidad, como todas las cuestiones que lleva a su literatura el escritor luso.

En la puesta en escena de El hombre duplicado coinciden el atrevimiento de José Martret y Alberto Puraenvidia, creadores de iniciativas rompedoras como La casa de la portera o La pensión de las pulgas, la valentía de los dramaturgos Salvador Toscano y Félix Ortiz, el entusiasmo de un grupo de actores experimentados y la veteranía de la productora canaria Dania Dévora, con una firme trayectoria en los territorios musical y escénico."



"Imaginemos" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (12/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/21050.html

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

"Imaginemos"
"Imaginemos que, nos anos trinta, quando os nazis iniciaram a sua caça aos judeus, o povo alemão teria descido à rua, em grandiosas manifestações que iriam ficar na História, para exigir ao seu governo o fim da perseguição e a promulgação de leis que protegessem todas e quaisquer minorias, fossem elas de judeus, de comunistas, de ciganos ou de homossexuais. Imaginemos que, apoiando essa digna e corajosa acção dos homens e mulheres do país de Goethe, os povos da Europa desfilariam pelas avenidas e praças das suas cidades e uniriam as suas vozes ao coro dos protestos levantados em Berlim, em Munique, em Colónia, em Frankfurt. Já sabemos que nada disto sucedeu nem poderia ter sucedido. Por indiferença, apatia, por cumplicidade táctica ou manifesta com Hitler, o povo alemão, salvo qualquer raríssima excepção, não deu um passo, não fez um gesto, não disse uma palavra para salvar aqueles que iriam ser carne de campo de concentração e de forno crematório, e, no resto da Europa, por uma razão ou outra (por exemplo, os fascismos nascentes), uma assumida conivência com os carrascos nazis disciplinaria ou puniria qualquer veleidade de protesto.

Hoje é diferente. Temos liberdade de expressão, liberdade de manifestação e não sei quantas liberdades mais. Podemos sair à rua aos milhares ou aos milhões que a nossa segurança sempre estará assegurada pelas constituições que nos regem, podemos exigir o fim dos sofrimentos de Gaza ou a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos, sem piores consequências que os insultos e as provocações da propaganda israelita. As imaginadas manifestações dos anos trinta seriam reprimidas com violência, em algum caso com ferocidade, as nossas, quando muito, contarão com a indulgência dos meios de comunicação social e logo entrarão em acção os mecanismos do olvido. O nazismo alemão não daria um passo atrás e tudo seria igual ao que veio a ser e a História registou. Por sua vez, o exército israelita, esse que o filósofo Yeshayahu Leibowitz, em 1982, acusou de ter uma mentalidade “judeonazi”, segue fielmente, cumprindo ordens dos seus sucessivos governos e comandos, as doutrinas genocidas daqueles que torturaram, gasearam e queimaram os seus antepassados. Pode mesmo dizer-se que em alguns aspectos os discípulos ultrapassaram os mestres. Quanto a nós, continuaremos a manifestar-nos."

«A Maior Flor do Mundo», de José Saramago em destaque na revista "Visão Júnior"

Capa da edição Caminho Leya de 2013 com ilustrações de André Letria

Este conto infanto-juvenil publicado em 2001 foi apresentado com ilustrações de João Caetano e mais recentemente com os desenhos de André Letria.

O artigo da revista "Visão Júnior" pode ser recuperado e consultado aqui

"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

O autor começa por dizer que não sabe escrever para os mais pequenos, mas tem uma ideia para uma história, mesmo com palavras difíceis (mas não muito), e não resiste: desata a contá-la. Era uma vez um menino que vivia aventuras que o levavam a percorrer muitos caminhos, a seguir um rio, a saltitar entre as árvores, a atravessar o mundo todo. Um dia descobriu uma flor já murcha, prestes a morrer, e é então que decide salvá-la e fazer dela a maior do mundo.
Livro nomeado para o 1.º e 2.º ciclo"

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

"Com Gaza" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (11/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/20742.html

Domingo, 11 de Janeiro de 2009

"Com Gaza"
As manifestações públicas não são estimadas pelo poder, que não raro as proíbe ou as reprime. Felizmente não é esse o caso de Espanha, onde se têm visto sair à rua algumas das maiores manifestações realizadas na Europa. Honra seja feita por isso aos habitantes de um país em que a solidariedade internacional nunca foi uma palavra vã e que certamente o expressará no acto multitudinário previsto para domingo em Madrid. O objecto imediato desta manifestação é a acção militar indiscriminada, criminosa e atentatória de todos os direitos humanos básicos, desenvolvida pelo governo de Israel contra a população de Gaza, sujeita a um bloqueio implacável, privada dos meios essenciais à vida, desde os alimentos à assistência médica. Objecto imediato, mas não único. Que cada manifestante tenha em mente que já levam sessenta anos sem interrupção a violência, a humilhação e o desprezo de que têm sido vítima os palestinos por parte dos israelitas. E que nas suas vozes, nas vozes da multidão que sem dúvida estará presente, irrompa a indignação pelo genocídio, lento mas sistemático, que Israel tem exercido sobre o martirizado povo palestino. E que essas vozes, ouvidas em toda a Europa, cheguem também à faixa de Gaza e a toda a Cisjordânia. Não esperam menos de nós os que nessas paragens sofrem cada dia e cada noite. Interminavelmente."

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

"História do Cerco de Lisboa" a partir de José Saramago com dramaturgia de José Gabriel Antuñano e encenação de Ignacio García (TMJB Almada Outubro 2017)

A sinopse de apresentação da peça e respectivo prospecto para a temporada 2017, estão disponíveis para consulta aqui em http://www.ctalmada.pt/images/programa_2017.pdf
Toda a informação através do site do Teatro Municipal Joaquim Benite de Almada, aqui

Imagem alusiva ao cerco de Lisboa

COMPANHIA DE TEATRO DE ALMADA
CO-PRODUÇÃO: ACTA – A COMPANHIA DE TEATRO DO ALGARVE, COMPANHIA DE TEATRO DE ALMADA, COMPANHIA DE TEATRO DE BRAGA E TEATRO DOS ALOÉS

"HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA
a partir de José Saramago | dramaturgia de José Gabriel Antuñano
encenação de Ignacio García

A capacidade de dizer “não” é um dos temas abordados por Camus no seu Homem revoltado. E colocar um “não” onde estava escrito um “sim” é o que faz Raimundo Silva, o revisor que protagoniza a História do Cerco de Lisboa. Só que a afirmação (pela negação) desta personagem Sara Maguiana servirá de ponto de partida para a criação: no caso, a escrita de uma História do Cerco de Lisboa na qual os cruzados “não” auxiliem D. Afonso Henriques na conquista da cidade. E deste “não” surgirá também uma história de amor, entre o revisor e a directora literária Maria Sara – plasmada, de certo modo, nas personagens do soldado Mogueime e da barregã Ouroana. A adaptação de José Gabriel Antuñano vai ao encontro (e vai além) do tema central do romance de Saramago: a fronteira entre a realidade e a ficção, bem como a redenção pelo amor.

Formado pela Real Escuela Superior de Arte Dramático de Madrid, Ignacio García foi adjunto do director artístico do Teatro Español. É director artístico do Festival Dramafest, no México, e tem desenvolvido uma carreira como encenador de teatro e ópera na Europa, na Ásia e na América Latina. Entre os autores que tem levado à cena encontram-se nomes como Kataiev, Juana Inés de la Cruz, Rodriguez Méndez, Ernesto ou Dario Fo.


Intérpretes Ana Bustorff, Elsa Valentim, João Farraia, Jorge Silva, José Peixoto, Luís Vicente, Pedro Walter, Rui Madeira e Tânia Silva
Cenografia José Manuel Castanheira
Figurinos Ana Paula Rocha
Luz Guilherme Frazão
Som Miguel Laureano

12 OUTUBRO a 03 NOVEMBRO, 2017
Qua a Sáb às 21h | Dom às 16h
SALA PRINCIPAL | M/12

CONVERSAS COM O PÚBLICO Sáb 14, 21 e 28 OUTUBRO às 18h"





domingo, 8 de janeiro de 2017

"Das pedras de David aos tanques de Golias" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (8 e 9/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
Primeira parte dia 8 de Janeiro de 2009 - http://caderno.josesaramago.org/20424.html
Segunda parte dia 9 de Janeiro de 2009 - http://caderno.josesaramago.org/20584.html

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

"Das pedras de David aos tanques de Golias"
Este artigo foi publicado pela primeira vez há alguns anos. O seu pano de fundo é a segunda intifada palestina, em 2000. Atrevi-me a pensar que o texto não envelheceu demasiado e que a sua “ressurreição” está justificada pela criminosa acção de Israel contra a população de Gaza. Aí vai, portanto.

DAS PEDRAS DE DAVID AOS TANQUES DE GOLIAS
"Afirmam algumas autoridades em questões bíblicas que o Primeiro Livro de Samuel foi escrito na época de Salomão, ou no período imediato, em qualquer caso antes do cativeiro da Babilónia. Outros estudiosos não menos competentes argumentam que não apenas o Primeiro, mas também o Segundo Livro, foram redigidos depois do exílio da Babilónia, obedecendo a sua composição ao que é denominado por estrutura histórico-político-religiosa do esquema deuteronomista, isto é, sucessivamente, a aliança de Deus com o seu povo, a infidelidade do povo, o castigo de Deus, a súplica do povo, o perdão de Deus. Se a venerável escritura vem do tempo de Salomão, poderemos dizer que sobre ela passaram, até hoje, em números redondos, uns três mil anos. Se o trabalho dos redactores foi realizado após terem regressado os judeus do exílio, então haverá que descontar daquele número uns quinhentos anos, mais mês, menos mês.Esta preocupação de exactidão temporal tem como único propósito oferecer à compreensão do leitor a ideia de que a famosa lenda bíblica do combate (que não chegou a dar-se) entre o pequeno David e o gigante filisteu Golias, anda a ser mal contada às crianças pelo menos desde há vinte ou trinta séculos. Ao longo do tempo, as diversas partes interessadas no assunto elaboraram, com o assentimento acrítico de mais de cem gerações de crentes, tanto hebreus como cristãos, toda uma enganosa mistificação sobre a desigualdade de forças que separava dos bestiais quatro metros de altura de Golias a frágil compleição física do louro e delicado David. Tal desigualdade, enorme segundo todas as aparências, era compensada, e logo revertida a favor do israelita, pelo facto de David ser um mocinho astucioso e Golias uma estúpida massa de carne, tão astucioso aquele que, antes de ir enfrentar-se ao filisteu, apanhou na margem de um regato que havia por ali perto cinco pedras lisas que meteu no alforge, tão estúpido o outro que não se apercebeu de que David vinha armado com uma pistola. Que não era uma pistola, protestarão indignados os amantes das soberanas verdades míticas, que era simplesmente uma funda, uma humílima funda de pastor, como já as haviam usado em imemoriais tempos os servos de Abraão que lhe conduziam e guardavam o gado. Sim, de facto não parecia uma pistola, não tinha cano, não tinha coronha, não tinha gatilho, não tinha cartuchos, o que tinha era duas cordas finas e resistentes atadas pelas pontas a um pequeno pedaço de couro flexível no côncavo do qual a mão experta de David colocaria a pedra que, à distância, foi lançada, veloz e poderosa como uma bala, contra a cabeça de Golias, e o derrubou, deixando-o à mercê do fio da sua própria espada, já empunhada pelo destro fundibulário. Não foi por ser mais astucioso que o israelita conseguiu matar o filisteu e dar a vitória ao exército do Deus vivo e de Samuel, foi simplesmente porque levava consigo uma arma de longo alcance e a soube manejar. A verdade histórica, modesta e nada imaginativa, contenta-se com ensinar-nos que Golias não teve sequer a possibilidade de pôr as mãos em cima de David, a verdade mítica, emérita fabricante de fantasias, anda a embalar-nos há trinta séculos com o conto maravilhoso do triunfo do pequeno pastor sobre a bestialidade de um guerreiro gigantesco a quem, afinal, de nada pôde servir o pesado bronze do capacete, da couraça, das perneiras e do escudo. Tanto quanto estamos autorizados a concluir do desenvolvimento deste edificante episódio, David, nas muitas batalhas que fizeram dele rei de Judá e de Jerusalém e estenderam o seu poder até à margem direita do rio Eufrates, não voltou a usar a funda e as pedras."
(Continua)

Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

"Das pedras de David aos tanques de Golias" (e 2)
"Também não as usa agora. Nestes últimos cinquenta anos cresceram a tal ponto a David as forças e o tamanho que entre ele e o sobranceiro Golias já não é possível reconhecer qualquer diferença, podendo até dizer-se, sem ofender a ofuscante claridade dos factos, que se tornou num novo Golias. David, hoje, é Golias, mas um Golias que deixou de carregar com pesadas e afinal inúteis armas de bronze. Aquele louro David de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo o que encontra na sua frente, aquele lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestino para depois negociar com o que deles restar. Em poucas palavras, é nisto que consiste, desde 1948, com ligeiras variantes meramente tácticas, a estratégia política israelita. Intoxicados pela ideia messiânica de um Grande Israel que realize finalmente os sonhos expansionistas do sionismo mais radical; contaminados pela monstruosa e enraizada “certeza” de que neste catastrófico e absurdo mundo existe um povo eleito por Deus e que, portanto, estão automaticamente justificadas e autorizadas, em nome também dos horrores do passado e dos medos de hoje, todas as acções próprias resulatantes de um racismo obsessivo, psicológica e patologicamente exclusivista; educados e treinados na ideia de que quaisquer sofrimentos que tenham infligido, inflijam ou venham a infligir aos outros, e em particular aos palestinos, sempre ficarão abaixo dos que sofreram no Holocausto, os judeus arranham interminavelmente a sua própria ferida para que não deixe de sangrar, para torná-la incurável, e mostram-na ao mundo como se tratasse de uma bandeira. Israel fez suas as terríveis palavras de Jeová no Deuteronómio: “Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago”. Israel quer que nos sintamos culpados, todos nós, directa ou indirectamente, dos horrores do Holocausto, Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em dócil eco da sua vontade, Israel quer que reconheçamos de jure o que para eles é já um exercício de facto: a impunidade absoluta. Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá nunca ser submetido a julgamento, uma vez que foi torturado, gaseado e queimado em Auschwitz. Pergunto-me se esses judeus que morreram nos campos de concentração nazis, esses que foram trucidados nos pogromes, esses que apodreceram nos guetos, pergunto-me se essa imensa multidão de infelizes não sentiria vergonha pelos actos infames que os seus descendentes vêm cometendo. Pergunto-me se o facto de terem sofrido tanto não seria a melhor causa para não fazerem sofrer os outros.As pedras de David mudaram de mãos, agora são os palestinos que as atiram. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca se viu soldado algum na história das guerras, salvo, claro está, o amigo norte-americano. Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos terroristas suicidas… Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida, mas Israel ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba."

sábado, 7 de janeiro de 2017

"No nos abandones" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (7/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/20058.html

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

"No nos abandones"
"Vai o título em castelhano porque assim foi a frase dita. Este escrito também poderia chamar-se “Os silêncios de Marcos”, o que esclarece tudo. A prosa de hoje refere-se ao mítico, ainda que muito real, subcomandante. A poucas pessoas admirei tanto em minha vida, de pouquíssimas esperei tanto. Nunca lho disse pela simples razão de que estas coisas não se dizem, sentem-se e por aí se ficam. Questão de pudor, parece. Quando os zapatistas saíram da Selva Lacandona para chegarem ao Zócalo depois de terem atravessado meio México, eu estava ali, um entre um milhão. Conheci a exaltação, o pulsar da esperança em todo o corpo, a vontade de mudar para converter-me em algo melhor, menos egoísta, mais capaz de entrega. Marcos falou, nomeou todas as etnias de Chiapas, e a cada uma foi como se as cinzas de milhões de índios se tivessem desprendido dos túmulos e outra vez reencarnado. Não estou a fazer literatura fácil, tento, canhestramente, pôr em palavras o que nenhuma palavra pode expressar: o instante em que o humano se torna sobrehumano e, do mesmo passo, regressa à sua mais estreme humanidade.

No dia seguinte, no campus modesto de uma faculdade universitaria, houve um comício que reuniu alguns milhares de pessoas e aí se falou do presente e do futuro de Chiapas, da luta exemplar das comunidades índias que eu sonhava ver um dia estendida a toda a América (tranquilizem-se os tímidos, não aconteceu). Na tribuna estavam, entre outros, Carlos Monsivais, Elena Poniatowska, Manuel Vázquez Montalbán, eu próprio. Todos falámos, mas o que a gente queria era ouvir Marcos. O seu discurso foi breve, mas intenso, quase insuportável para o sistema emotivo de cada um. Quando tudo terminou fui abraçar Marcos e foi então que ele me disse ao ouvido, numa voz apenas sussurrada: “Não nos abandones”. Respondi-lhe no mesmo tom: “Teria que abandonar-me a mim mesmo para que isso sucedesse”. Nunca mais o vi até hoje.

Pensei, e disse-o, que Marcos deveria ter falado no Congresso. Por decisão da “comandancia” interveio a comandante Esther, e fê-lo admiravelmente. Comoveu o México inteiro, mas, repito, em meu entender, era Marcos quem deveria ter falado. O significado político da uma intervenção sua culminaria de maneira mais eficaz a marcha zapatista. Assim pensava e assim continuo a pensar. O tempo passou, o processo revolucionário variou os rumos, Marcos saiu da Selva Lacandona. Durante o último ano Marcos guardou um silêncio total, deixou-nos órfãos daquelas palavras que só ele saberia dizer ou escrever. Sentimos-lhe a falta. No dia 1 houve em Oventic um encontro para celebrar e recordar o início da revolução, a tomada de San Cristóbal de las Casas, os altos e baixos de um caminho difícil. Marcos não foi a Oventic, não mandou sequer uma mensagem, uma palavra. Não compreendi, e continuo a não compreender. Marcos, há poucos dias, anunciou para o ano que entrou uma nova estratégia política. Oxalá, se a antiga perdeu as virtudes. Oxalá, sobretudo, que não volte a calar-se. Com que direito o digo? Com o simples direito de quem não abandonou. Sim, de quem não abandonou."

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

"Sarkozy, o irresponsável" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (6/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/19894.html

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

"Sarkozy, o irresponsável"
"Nunca apreciei este cavalheiro e creio que a partir de hoje passarei a apreciá-lo ainda menos, se tal é possível. E não deveria ser assim, se, como a internet acaba de me informar, o dito sr. Sarkozy anda em missão de paz pelas torturadas terras da Palestina, esforço louvável que, à primeira vista, só deveria merecer elogios e votos do melhor sucesso. Da minha parte tê-los-ia todos se não tivesse utilizado, uma vez mais, a velha estratégia dos dois pesos e das duas medidas. Num arranco de hipocrisia política simplesmente notável, Sarkozy acusa Hamas de haver cometido acções irresponsáveis e imperdoáveis lançando foguetes sobre o território de Israel. Não serei eu quem absolva Hamas de tais acções, aliás, segundo leio a cada passo, castigadas pela quase total ineficácia da bélica operação que pouco mais tem conseguido que danificar algumas casas e derrubar alguns muros. Nunca as palavras doam na língua ao sr. Sarkozy, há que denunciar a Hamas. Com uma condição, porém. Que as suas justamente repreensivas palavras tivessem sido igualmente aplicadas aos horrendos crimes de guerra que vêm sido cometidos pelo exército e pela aviação israelita, em proporções inimagináveis, contra a população civil da faixa de Gaza. Sobre esta vergonha o sr Sarkozy parece não ter encontrado no seu Larousse as expressões adequadas. Pobre França."

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Sobre "As Pequena Memórias" - "Sigo siendo un campesino" Miguel Mora entrevista José Saramago em 13/11/2006 para o "El País" (Cultura)

A entrevista de Miguel Mora pode ser recuperada e consultada aqui
em http://elpais.com/diario/2006/11/13/cultura/1163372401_850215.html

"Sigo siendo un campesino"

Lisboa, 13 de Novembro de 2006

"El premio Nobel narra en Las pequeñas memorias su infancia plácida y pobre en Azinhaga y Lisboa. El libro (que editará Alfaguara en España y se presentará el jueves, día de su 84º cumpleaños, en su aldea natal), está encabezado por el epígrafe "Déjate llevar por el niño que fuiste".

Es un niño solitario y serio; le gusta pensar y observa mucho. Parece feliz a su manera tranquila. Sobre todo cuando va descalzo. "En el pueblo siempre andábamos descalzos los niños y las mujeres. También los hombres, pero cuando se iban a trabajar se ponían las botas. Me gustaba mucho llegar a la aldea, quitarme los zapatos y meterme en el río, pisar el lodo y los rastrojos duros... Es lo que hacía todo el mundo, todos vivíamos así entonces. Pero esa pobreza, y peor incluso, existe todavía".

Se titulan Las pequeñas memorias, y cumplen la promesa por partida triple: son cortas (150 páginas), acaban cuando el autor es aún pequeño (tiene 14 o 15 años) y son muy poco literarias; como si Saramago hubiera arrinconado al escritor para narrar su infancia.

Ese niño contado parece curioso y espabilado, pero resulta difícil adivinarle un futuro brillante, y mucho menos de escritor. Parece destinado sin remedio a ser campesino u obrero. Quizá policía como su padre. "A los 14 años, no había dinero en casa y mi padre decidió que estudiara cerrajería mecánica. A mí me pareció bien y lo hice".

La vida transcurre a caballo entre Lisboa, donde emigra su familia cuando él sólo tiene año y medio, y Azinhaga, la aldea a orillas del Almonda, muy cerca del Tajo, a una hora al norte de la capital, en la que pasaría, una tras otra, todas sus vacaciones escolares.

El niño, llamado José de Sousa (en el libro se cuenta que Saramago se lo añadió por su cuenta un empleado borrachín del Registro: era sólo el apodo de la familia en la aldea), crece en un país campesino y analfabeto y, a su manera parca, incluso entretenido: las familias son muy numerosas, hay celos abundantes, caballos y perros, algunas rebeliones militares, y el régimen salazarista obliga a los escolares a vestir el uniforme de las Mocedades Portuguesas.

También hay mujeres y niñas, a las que Saramago se aficiona pronto, y, sobre todo, dos abuelos maternos fantásticos: Josefa y Jerónimo. "Tuve la enorme suerte de tener aquellos abuelos, pero mis nietos no han tenido la suerte de tener abuelos así. Cuando llegó mi turno, no había aprendido la lección. Suelo decir 'yo no soy abuelo, sólo tengo nietos'. Y sé que soy un desagradecido porque sigo siendo el nieto de mis abuelos".

Pregunta. Sorprende la ausencia casi absoluta de literatura en el libro...
Respuesta. Imaginemos que no fuera premio Nobel, incluso que no fuera escritor, y que por un capricho a estas alturas de mi vida decido ponerme a recordar lo que fui de niño. Eso es el libro. En el fondo, he hecho lo que cualquiera puede hacer. Recordar, con más o menos precisión. En fin, soy escritor y me dieron el Nobel, pero aquel niño no sabía nada de eso y lo que he intentado es no mezclar una cosa con la otra.

P. Lo que sorprende es que haya podido volver a meterse en su piel de entonces.
R. He intentado ser lo más fiel posible a mi propia memoria, y aunque la memoria no es de fiar, esos recuerdos han estado conmigo toda mi vida. Claro que la interpretación de esos recuerdos es otra cosa. Quizá esté mediatizada. Por el Nobel y por todo lo demás.

P. Pero se nota ese esfuerzo de contención.
R. El propósito era ése. Aunque el editor (Caminho) dice que podía haberlo alargado hasta las 300 o 400 páginas, si hubiera hecho eso estaría haciendo literatura. Y sólo me interesaban los hechos. No son hechos secos, porque todo tiene una resonancia. Pero lo importante es que no hay ejercicio de estilo.

P. Queda la vida de ese niño, tan sencilla y dura a la vez, conforme con lo que hay.
R. Los hechos son esos. Hay que tener en cuenta que en los años veinte y treinta los pobres eran pobres y los ricos eran ricos y cada uno estaba en su sitio. No había interpenetración y la gente pobre aceptaba su situación. Las cosas habían sido así desde siempre. No diré que la gente se resignaba; simplemente, aceptaba ese hecho.

P. El retrato de su padre no es muy complaciente. No le dejaba ni ganarle a las chapas...
R. No tenía mala intención, la vida era así: el hombre de la casa tenía razón en todo, y los demás eran satélites. Todos nos queríamos mucho, aunque no fuéramos una familia feliz permanentemente. Mi padre vino de una aldea y se puso un uniforme de policía. Eso cambió las cosas. A mi madre el componente erótico del uniforme le producía unos celos terribles.

P. ¿No sería ese padre policía un detonante de su comunismo?
R. No creo. Cuando llegaba a casa se quedaba en calzoncillos. El uniforme no fue un trauma. Incluso debía sentir cierto orgullo de su autoridad. Llevaba la porra a un lado, la pistola a otro... Seguramente, eso me encantaba; puede incluso que presumiera.

P. Era un chico bastante solitario...
R. Ensimismado, triste. ¡Pero eso no es malo! Cuando veo a los padres preocupados porque los hijos están metidos en sí mismos, siempre les digo: "Dejadle en paz, está creciendo".

P. Muchos recuerdos denotan mucha capacidad de observación. ¿Cree que estaba ya ahí el escritor?
R. Era observador pero desde luego no escribía novelas a los seis años. Fui buen estudiante de primaria y muy bueno en primero del Liceo. Luego la cosa cambió y nunca fui muy aplicado, aunque no perdí ningún año. Después empecé a estudiar para cerrajero mecánico, pero en el programa había una asignatura de literatura y ahí empezó a despertarse el lector.

P. No hay espacio para la política en el libro.
R. En esa época no se hablaba de política. En casa, desde luego, no. Mi padre daba la opinión de los que mandaban. Y mi madre era analfabeta. No se discutía. Sólo se hablaba de la familia, del tiempo, de dónde estaban las zapatillas y de que la sopa tenía demasiada sal.

P. Las pequeñas memorias... También en cuanto a los primeros escarceos amorosos y sexuales...
R. ¿Nada extraordinario, verdad? Todos hemos vivido eso. El caso es contarlo o no contarlo. Era todo tan inocente que preferí contarlo en clave de humor. Si alguna de esas chicas está viva todavía, quizá se moleste... Pero, en fin, era pecado venial.

P. Los héroes del cuento son los abuelos.
R. Están idealizados, seguro, pero es natural. Ahora sólo hay padres (con suerte dos) y los abuelos sabrán dónde están, pero no se nota. Antes eran muy importantes. Así y todo, su destino lógico era el olvido. Si no hubiera escrito el libro, no habría quedado rigurosamente nada de ellos. Sólo un nombre en el registro. Me reconforta mucho haberlo hecho por eso, para que sigan teniendo de alguna forma una vida.

P. En el libro no se oye música, a pesar de que en Lisboa vivieron en Mouraría, un barrio fadista.
R. No teníamos radio, así que la banda sonora era la palabrería que se oía cuando cocinaban tres o cuatro mujeres a la vez y los niños estaban jugando y gritando.

P. ¿Qué queda de aquel niño?
R. De alguna forma sigo siendo un campesino. Parece disparatado decirlo pero sólo yo puedo saber lo que llevo de campesino dentro de mí. En gran parte sigo siendo ese niño. Mis raíces más auténticas son ésas. El pasado está lejos pero nunca me he podido separar de él. Lo que está entre la infancia, la adolescencia y lo que soy hoy no me marcó tanto. El carácter se forjó en aquel momento.

P. ¿Ha tratado de desmitificar el mito Saramago?
R. Es cierto que estoy un poco mitificado, aunque yo no he hecho nada para que eso pase. La idea no era ésa. Quizá quería decir "usted conoce a un hombre que es esto y aquello, pues ese hombre viene de aquello, de esa infancia tan poco extraordinaria". Todo apuntaba a que mi vida se quedaría allí. Pude ser cerrajero siempre y no ir mucho más lejos, pero por una cosa u otra... A los 17 años solté una frase estando con unos amigos que aparentemente no tenía ningún sentido: "Lo que tiene que ser mío, a mis manos llegará". Podía significar que no valía la pena esforzarse, pero me esforcé y...

P. ¿Dónde estuvo la clave?
R. El momento decisivo fue en 1975. Me había quemado mucho en la Revolución, me quedé sin trabajo y decidí intentar ver dónde podía llegar como escritor. Tenía algunos libros pero no una obra. Si hubiera muerto en 1975 quedaba poca cosa, con dos líneas en la Historia de la Literatura Portuguesa resolvían mi caso. En el 86 conocí a Pilar [del Río, su esposa y traductora al español] y ésa fue otra revolución en mi vida.

P. Y poco después fue a recoger el Nobel y habló de sus abuelos.
R. No todos tenemos un abuelo que cuando se iba a marchar a Lisboa para morirse pasó antes por su huerta para despedirse de sus árboles. Si olvidas algo como eso eres un idiota. Si no te alimentas de eso te estás perdiendo algo. Eran tan tiernos... Ponían los cerditos en la cama con ellos cuando estaban enfermos para que no se murieran. Tres o cuatro a la vez, debajo de la misma manta que ellos utilizaban. Con ese pasado, algo tenía que pasar.

* Este articulo apareció en la edición impresa del Lunes, 13 de noviembre de 2006

"Balanço" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (5/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/19548.html

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

"Balanço"
Valeu a pena? Valeram a pena estes comentários, estas opiniões, estas críticas? Ficou o mundo melhor que antes? E eu, como fiquei? Isso esperava? Satisfeito com o trabalho? Responder “sim” a todas estas perguntas, ou a mesmo só a alguma delas, seria a demonstração clara de uma cegueira mental sem desculpa. E responder com um “não” sem excepções, que poderia ser? Excesso de modéstia? De resignação? Ou apenas a consciência de que qualquer obra humana não passa de uma pálida sombra da obra antes sonhada. Conta-se que Miguel Ângelo, quando terminou o Moisés que se encontra em Roma, na igreja de San Pietro in Vincoli, deu uma martelada no joelho da estátua e gritou: “Fala!” Não será preciso dizer que Moisés não falou. Moisés nunca fala. Também o que neste lugar se escreveu ao longo dos últimos meses não contém mais palavras nem mais eloquentes que as que puderam ser escritas, precisamente essas a quem o autor gostaria de pedir, apenas murmurando, “Falem, por favor, digam-me o que são, para que serviram, se para algo foi”. Calam, não respondem. Que fazer, então? Interrogar as palavras é o destino de quem escreve. Um artigo? Uma crónica? Um livro? Pois seja, já sabemos que Moisés não responderá."

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"O convento de Mafra está habitado pelo espírito de Saramago" de João Céu e Silva com Pilar del Río (DN, 02/01/2017)

O presente trabalho de João Céu e Silva para o DN Artes de 2 de Janeiro de 2017, pode ser recuperado aqui, em http://www.dn.pt/artes/interior/o-convento-de-mafra-esta-habitado-pelo-espirito-de-saramago-5581060.html

Pilar del Rio junto ao Convento de Mafra - Gustavo Bom / Global Imagens

"Pilar del Rio foi a Mafra com o DN e recorda a construção do romance Memorial do Convento a partir das histórias que o escritor lhe contou

Maria Madalena Bárbara Xavier Leonor Teresa Antónia Josefa foi razão pela qual em Mafra se erigiu um convento de dimensões tão exageradas que só a megalomania do rei D. João V, o falso voto de pobreza dos Franciscanos, a ausência de sucessão dinástica nacional e o ouro vindo do Brasil justificaram.

Mafra não ficava assim tão distante da capital do reino: 25 quilómetros. Mas o edifício que ali se iria fazer crescer era uma coisa nunca vista. Que começa por ser pequeno, apenas para 13 frades franciscanos, número que foi engordando para 40 frades, depois 80 e fechou-se o negócio entre a Ordem e o monarca com lugar para 330 hóspedes religiosos.

Os ecos das vozes de quem construiu o convento mantém-se nas compridas alas, salas, capelas e inúmeras divisões desde que há trezentos anos foi posta a primeira pedra no local, no dia 17 de novembro de 1717. Nos treze anos seguintes, 52 mil trabalhadores fizeram as fundações, subiram os pilares e cobriram a imensa área com tetos de todos os géneros, estando a basílica pronta para ser consagrada no dia do 41º aniversário de D. João V e com festa rija durante toda a semana seguinte.

Apesar de tão desejada, a herdeira do reino, Maria Madalena Bárbara Xavier Leonor Teresa Antónia Josefa nunca conheceu a magnífica obra de Mafra. Casou com o futuro rei espanhol, D. Fernando VI, levando consigo o músico italiano Domenico Scarlatti, que fora contratado para educar a princesa.

Quem for ao Convento de Mafra hoje em dia também não deixará de ouvir esses ecos que replicam tudo o que se passou desde então entre aquelas paredes três vezes centenárias porque o edifício foi tendo várias vidas além da dos franciscanos, sendo a última a presença etérea e constante provocada pelas personagens do romance de José Saramago, o Memorial do Convento. E esses ecos que vêm de uma sala ao fim de seis lances de escadas tornam-se cada vez mais reais conforme o visitante se aproxima do antigo solário onde os frades se banhavam ao sol, porque ali está a decorrer uma representação teatral que condensa esta obra do Prémio Nobel da Literatura."

Biblioteca - Gustavo Bom / Global Imagens

"Algumas dezenas de jovens - os que hoje dominam a plateia - escutam atentos a dramatização do Memorial do Convento e absorvem as grandes linhas históricas dos acontecimentos. Há olhares de cumplicidade entre uns e outros quando se escutam as falas dos dois camareiros que recordam as dificuldades da rainha em engravidar, uma deixas brejeiras qb; surpreendem-se quando veem a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão voar, e apreendem os mistérios de uma das principais personagens femininas inventadas por Saramago: Blimunda."

"Estampa antiga onde se pode ver o Palácio Nacional de Mafra há mais de um século"

"Também percebem que o escritor não descreve a princesa como nos contos de fadas, pois esta tem cara de lua cheia e é bexigosa.

Nem o rei sai bem desta ficção em que o autor pretende mostrar o estatuto da aristocracia e do alto clero em contraponto ao do povo e dos oprimidos. Os alunos identificam-se com a peça e saem do Convento com outra opinião sobre o romance. Diogo gostou, principalmente porque o está a ler e compreendeu melhor a narrativa; Raquel ficou "com vontade de ler o livro". A responsável por estas representações, Filomena Real, já tinha avisado desta boa receção por parte das escolas que vêm de autocarro desde Bragança, por exemplo, para as duas sessões diárias: "Há dez anos que fazemos as representações e eles gostam, tal como os adultos que visitam o Convento."

Estas representações do grupo teatral Éter não acontecem apenas no Convento de Mafra, também as há na Fundação José Saramago, um local onde os atores da companhia ficam mesmo entre os visitantes da Casa dos Bicos.

Um gancho em vez da mão

Entre os personagens de o Memorial do Convento está Baltazar Sete-Sóis, que surge com a mão esquerda escondida por "um gancho de ferro que lhe havia de fazer as vezes da mão". É como Saramago o descreve ainda não vai à página 50, sendo que uma dúzia de páginas à frente surge Blimunda, aquela que de manhã é obrigada "a comer pão, de olhos fechados" para não ver o que se passa no interior de Baltazar.

No ano em que se cumprem 35 anos do lançamento do romance, Pilar del Río, a viúva de José Saramago, recorda a sensação que teve ao confrontar-se com a sua leitura: "Foi o primeiro que li dele e achei muito curioso que se intitulasse Memorial do Convento. Li a primeira página numa livraria, onde estava com quatro amigas. Gostei logo tanto que comprei quatro exemplares para lhes oferecer. Depois de acabar de ler, voltei à livraria e pedi todos os outros livros do autor. Todos, era apenas O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quando terminei de o ler o segundo, senti-me obrigada a vir a Lisboa por causa do meu deslumbramento perante o Memorial."

O que contribuiu para esse deslumbramento, pergunta-se a Pilar del Río: "O que me impressionou foi o facto de ser uma leitura tão moderna e contemporânea da História e do comportamento dos homens e das mulheres." Lembra-se de que enquanto o ia lendo parava a cada duas páginas: "Queria convencer-me de que estava a ler um autor contemporâneo. Nunca tinha ouvido falar de Saramago, não sabia quem ele era! Mas dizia para mim: isto está escrito num registo que é clássico, sublime, no entanto, é de um autor contemporâneo. Ia lendo e dizia: não, ele não é deste tempo, isto é uma leitura progressista e contemporânea da História. Por isso, li este livro num estado de exaltação."

Foi então que pediu para se encontrar com o autor: "Queria agradecer-lhe ter escrito o livro. Perguntei se podíamos tomar um café, disse-lhe que era jornalista mas vinha sem intenção de o entrevistar. Sabia de antemão que logo que o conhecesse iria querer escrever sobre ele, mas dessa vez nem gravador trouxe. O interesse era ter a perceção direta de como era o autor."

Para Pilar del Río este não é o livro mais político de José Saramago. "Livros políticos não lhe faltam", diz, e dá exemplos: Ensaio sobre a Cegueira, Caim, Evangelho segundo Jesus Cristo... "Os livros são todos políticos, este é um livro de uma beleza extraordinária, sobre o qual Saramago disse depois que estava a descrever a estátua, tal como no Evangelho, mas a partir do Ensaio sobre a Cegueira sentiu que já não queria descrever a estátua mas a pedra da qual é feita", explica.

Quanto à grande presença da religião em o Memorial, refere: "Está sempre presente na obra de Saramago, porque também o está em todos os seres humanos - sejam ou não crentes. Também existe em Levantado do Chão ou em Intermitências da Morte, quando a Igreja não quer que as pessoas sejam eternas para não deixar de ter sentido."

A história da escrita do Memorial do Convento começa com uma visita a Mafra do escritor, onde confessa aos amigos que o acompanhavam [entre eles a anterior mulher do autor, Isabel da Nóbrega] que "gostaria de meter o Convento num livro". Será que o conseguiu, questiona-se: "E de que maneira! Mas foram os amigos, sempre muito insistentes, que o lembravam da promessa e lhe perguntavam: "Então, já meteste o Convento de Mafra num romance?" Saramago sentiu-se pressionado a escrever e ainda bem, porque o livro tem uma grande beleza."

Será que o convento é olhado de um outro modo após a publicação do romance em 1982? Pilar del Río é muito direta na resposta: "Ainda há dias vim cá com vários amigos espanhóis que não o conheciam e eles ficaram fascinados com a "presença" das personagens do romance que andavam pelo edifício, a Blimunda, Bartolomeu... Não há dúvida, este convento está habitado pelo espírito de Saramago."

Essas personagens não surgiram por acaso, como explica: "A música de Scarlati está no romance porque fazia parte da vida de Saramago." Recorda a leitura de um caderno de notas do escritor em que percebe a evolução das personagens: "Elas vão entrando no livro e Saramago, que queria colocar a contradição entre os nobres e o povo, vai notando a imposição de Blimunda. Porque ela não nasce com essas capacidades que vem a ter na narrativa. Tanto Blimunda como a Mulher do Médico [do Ensaio sobre a Cegueira] são duas grandes personagens femininas, que têm muito de parecido, que vão crescendo com a obra mas não faziam parte do projeto inicial naquela dimensão."

Após a enumeração de vários títulos do escritor, pergunta-se qual é o romance de Saramago de que mais gosta? "Tem dias, Cada dia gosto mais de um livro do que doutro e depende do estado de alma. Tendo muito a ir ao Evangelho, porque é um livro que tem reflexões muito sérias e que acompanha as pessoas que possam sentir determinadas ausências", diz. Depois de relidos há os que ficam lidos para sempre? "Não, leio-os por prazer e por obrigação. Acabei de ler a Jangada de Pedra por causa da montagem de uma peça no México. Li recentemente as Intermitências." E quando os relê compreende o livro de outra forma? "Sim, principalmente aqueles a que eu não assisti enquanto Saramago os escrevia. Quando leio aqueles a que acompanhei o processo de escrita, distraio-me a pensar nos acontecimentos desses dias: se tínhamos uma visita, se cozinhei certa coisa. Por isso, nesses primeiros livros, não tenho a distração de outros pensamentos, é só o livro."

No que respeita ao Memorial, Pilar del Río não deixa de recordar "os passeios a sós ou acompanhados por todas estas salas do convento. Ele não precisou de muitas horas a fazer consultas na biblioteca, mas tomava notas sobre como se vestiam as pessoas na época ou o que comiam. Coisas que poderiam ou não entrar no livro; e muitas outras que não precisava de saber. Também passeava por aqui para se aperceber da temperatura, se era frio ou quente, detalhes que não entravam no livro, mas de que precisava de se impregnar. Explicou-me onde vivia a família de Sete-Sóis, onde decorriam os trabalhos, o caminho por onde veio a pedra desde Pero Pinheiro." Terá sido o livro que exigiu mais investigação? Não, diz: "Os romances de Saramago exigiram sempre muita investigação."

Atuações populares

Quando os ecos da representação da peça terminam, o silêncio regressa ao convento de Mafra. Mas, em muitos locais do mundo, há atores a representar José Saramago. Segundo Pilar del Río, "neste momento A Barraca interpreta Ricardo Reis, no ano passado foi Claraboia; a Viagem do Elefante, a Ilha Desconhecida e o Memorial estão a ser representados quase todos os dias da semana. No dia 12 vai estrear o Homem Duplicado em Madrid, o Ensaio sobre a Cegueira está em Itália, nos EUA estão duas óperas e no México a Jangada de Pedra."

Cá fora do convento, há quem não tenha sido atriz na peça de Saramago, mas personagem em representações comemorativas deste património. É o caso de Clara Reis (1933) que já fez de ama da princesa e até trouxe a neta para ser uma das crianças: "Já trabalhei em várias recriações históricas, com fatos de época e perante muito público. Guardo com muito carinho as fotografias desses momentos."


"Os Poemas Possíveis" a lista de poemas inseridos na compilação

Sinopse de apresentação da obra pode ser consultada na página da Fundação José Saramago aqui em http://www.josesaramago.org/os-poemas-possiveis-1966/

"A caligrafia da capa é da autoria do escritor Almeida Faria

«Este mundo não presta, venha outro. / Já por tempo de mais aqui andamos / A fingir de razões suficientes. / Sejamos cães do cão: sabemos tudo / De morder os mais fracos se mandamos, / E de lamber as mãos, se dependentes.»

Na primeira obra poética de José Saramago descobre-se uma poesia de liberdade, de fraternidade e de luta. Uma luta disfarçada, por dentro das palavras. Pelo interior labiríntico de respiração que habitam todos estes poemas, publicados pela primeira vez em 1966. Digamos que eram os «poemas possíveis» da altura, quando a censura espiava a alma dos escritores. E no entanto, as convicções profundas de Saramago já são bem visíveis em poemas como «Criação»: «Deus não existe ainda, nem sei quando / Sequer o esboço, a cor se afirmará / No desenho confuso da passagem / De gerações inúmeras nesta esfera. / Nenhum gesto se perde, nenhum traço, / Que o sentido da vida é este só: / Fazer da Terra um Deus que nos mereça, / E dar ao Universo o Deus que espera.»

Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998"

ATÉ AO SABUGO
Até ao sabugo
Arte poética
Processo
Programa
«Se não tenho outra voz...»
Balança
«Recorto a minha sombra...»
Acidente de viação
Taxidermia, ou poeticamente hipócrita
Signo do Escorpião
No coração, talvez
Dia não
Destino
Ritual
Epitáfio para Luís de Camões
Jogo das forças
Vertigem
Lugar-comum do quadragenário
Outro lugar-comum
Passado, presente, futuro 
Passeio
Psicanálise
Mais psicanálise
«Não diremos mortais palavras...»
Poema seco
Do como e do quando
Fábula do grifo
Meias-solas
Um zumbido, apenas
Ciclo
Circo
Obstinação
«Há-de haver...»
Sala de baile
Oceanografia
Hibernação
«As palavras são novas...»
Questão de palavras
Pequeno cosmos
«De mim à estrela...» 
Retrato do poeta quando jovem
O tanque
Science-fiction I
Science-fiction II
Carta de José a José
Aniversário
Testamento romântico
Premonição

POEMA A BOCA FECHADA
Poema a boca fechada
Os inquiridores
Mãos limpas
Salmo 136
Ouvindo Beethoven
Demissão
Fraternidade
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

MITOLOGIA
Mitologia
Natal
Aprendamos o rito
Criação
Quando os homens morrerem
Aos deuses sem fiéis
«Não das águas do mar...»
A um Cristo velho
Judas
Sé Velha de Coimbra
Nave
«Barro direis que sou...»
Invenção de Marte
«Não há mais horizonte...»

O AMOR DOS OUTROS
Orgulho de D. João no inferno
Lamento de D. João no inferno
Sarcasmo de D. João no inferno
Até ao fim do mundo
Dulcineia
D. Quixote
Sancho
Julieta a Romeu
Romeu a Julieta
West Side Story

NESTA ESQUINA DO TEMPO
Contracanto
Fuzil e pederneira
Enigma
Negócio
Virgindade
Regra
Outono
Adivinha
Receita
«Não me peçam razões...»
«Nesta secreta guerra...»
Craveira
«A ti regresso, mar...»
«Água que à água torna...»
Medusas
História antiga
«Não escrevas poemas de amor»
«Nesta esquina do tempo...»
«De violetas se cobre...»
Labirinto
Espaço curvo e finito
Pesadelo
Afrodite
Estudo de nu
De paz e de guerra
Em violino fado
No silêncio dos olhos
Compensação
Declaração
«Uma só prece...»
Química
Física
Intimidade
Inventário
Praia
Arte de amar
Aspa
Corpo-mundo
Balada
Jogo do lenço
Lembrança de João Roiz de Castel’Branco
Prestidigitação
Analogia
Soneto atrasado
Exercício militar
Opção
Baralho
Exílio
Cantiga de sapo
Outra vez frutos, rosas outra vez
Re-iniciação
Fim e recomeço
Metáfora
Amanhecer
Aproximação
Poente
Integral
Eloquência
«Aprendamos, amor...»
Diz tu por mim, silêncio
«Num repente, não ando...»
Corpo
Caminho
«Ergo uma rosa...»
«Pois o tempo não pára...»
Ainda que seja
Canção

"Nota da 2.ª edição
Aparece esta edição de Os Poemas Possíveis dezasseis anos depois da primeira. Não é assim tanto, comparando com os dezasseis séculos que sinto ter juntado à minha idade de então. Pode-se perguntar se estes versos (palavra hoje pouco usada, mas competente para o caso) merecem segunda oportunidade, ou se a não ficaram devendo a porventura mais cabais demonstrações do autor no território da ficção. Se, enfim, estaremos observando um simples e nada raro fenómeno de aproveitamento editorial, mera estratégia daquilo a que cos tuma chamar-se política de autores, ou se, pelo contrário, foi a constante poética do trabalho deste que legitimou a res suscitação do livro, porque nele teriam começado a definir-se nexos, temas e obsessões que viriam a ser a coluna vertebral, estruturalmente invariável, de um corpo literário em mudança. Aceitemos a última hipótese, única que poderá tornar plausível, primeiro, e justificar, depois, este regresso poético.
Poesia datada? Sem dúvida. Toda a criação cultural há-de ter logo a sua data, a que lhe é imposta pelo tempo que a produz. Mas outras datas leva sempre também, anteriores, as dos materiais herdados — quantas vezes importunamente dominantes —, e, de longe em longe, aquela impalpável data ainda pode vir, aquele sentir, aquele ver e experimentar só futuro ainda. Porém, essas entrevisões são coisa apenas para génios, e, obviamente, não é deles que se trata aqui.
Poesia do dia passado, da hora tarda, poesia não futurante. E contra isto não haveria remédio. Salvo tentar trazê-la até ao seu autor, hoje, por cima de dezasseis anos e dezasseis séculos. Assim foi feito, e esta edição aparece não só revista, mas emendada também. Quase tudo nela é dito de maneira diferente, diferente é muito do que por outra maneira se diz, e não faltaram ocasiões para contrariar radicalmente o que antes fora escrito. Mas nenhum poema foi retirado, nenhum acrescentado.
É então outro!"