Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sexta-feira, 8 de maio de 2020

"Monstro da intolerância voltou" Entrevista ao Folha de São Paulo (12/01/1994)

A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/1/12/ilustrada/2.html

"Monstro da intolerância voltou, diz Saramago" por Bob Fernandes

"Auto-exilado nas Ilhas Canárias desde que o governo português, numa manifestação de intolerância, renegou a inscrição de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" na disputa do Prêmio Europeu de Literatura, José Saramago, 71, escreve "Ensaio sobre a Cegueira". Sobre o romance, com lançamento previsto para este ano, o escritor português guarda silêncio. "Ainda está em gestação", diz. Mas, em entrevista à Folha, fala sobre a intolerância, o Brasil e os brasileiros, o amor, a cidadania, e o processo de escrever."

"Folha - O sr. está escrevendo "Ensaio sobre a Cegueira", que deve ser lançado este ano. A intolerância será, novamente, o seu tema?
Saramago - Talvez em sentido muito amplo, mas, sendo um romance, do ponto de vista da técnica narrativa difere bastante do trabalho que tenho feito até aqui. Mas eu não gostaria de ir mais longe porque eu não posso nem devo falar sobre uma coisa que ainda está em gestação.

Folha - A intolerância é uma condição inerente ao homem?
Saramago - Provavelmente é. Mas é também a consequência de uma luta pelo domínio sobre o outro. Seja qual for a natureza do domínio, seja na relação do colonizador com o colonizado, na própria estrutura de classes, isto está sempre presente no comportamento das pessoas. Mesmo que esta não seja uma intolerância ativa como é a outra, mais radical, a intolerância racial, étnica.

Folha - Como esta que a Europa começa a reviver?
Saramago - É. Nós supúnhamos que, depois da última Grande Guerra, dos campos de concentração, tivesse ficado claro até que extremos a intolerância pode levar. Mas nós não nos curamos deste mal, este é um monstro que deita outra vez as garras de fora.

Folha - Onde está o monstro? Na Rússia de Jirinovski, na França de Le Pen, na Alemanha, na ex-Iugoslávia?
Saramago - Não do mesmo modo, mas em quase toda a Europa. Não com a mesma gravidade há o problema dos ciganos na Espanha, há problemas também em Portugal.

Folha - A questão dos brasileiros em Portugal tem o tamanho que a mídia dá?
Saramago - Eu creio que não, embora seja óbvio que existam contradições. Mas não são insuperáveis. Pelo que sei, estou um pouco longe, desde a questão muito debatida dos dentistas não há um outro contencioso. Se deixarem as pessoas falarem umas às outras, sobretudo no caso de brasileiros e portugueses, as pessoas acabam se entendendo.

Folha - E as piadas de português?
Saramago - Podem estar certos os brasileiros de que os portugueses também contam anedotas sobre os brasileiros.

Folha - O sr. tem proposto o regresso do autor, a existência também do cidadão e não apenas do escritor. É isso?
Saramago - O cidadão que o escritor é não pode ocultar-se por trás da obra. Ela, mesmo importante, não pode servir de esconderijo para o autor, dar-lhe uma espécie de boa consciência graças à qual ele poderia dizer que está ocupado e não tem tempo para intervir na vida do país.

Folha - Sem tempo para ser cidadão.
Saramago - Exatamente. Embora eu não queira dizer com isto que o escritor deva se considerar, ou ser considerado, um guia espiritual.

Folha - Nem o sr. imagina a volta da arte engajada, não?
Saramago - Realmente não. O que eu digo é que eu tenho, como cidadão, um compromisso com o meu tempo, com o meu país, com as circunstancias, digamos, do mundo. Eu não posso virar as costas a tudo isso e ficar a contemplar minha obra. O futuro irá julgar a obra do autor, mas o presente tem o direito de fazer um juízo sobre o autor, o que ele é.

Folha - O que sobrou, o que é herança da velha história de Portugal e Brasil?
Saramago - Há uma coisa que é o bem comum, a língua, que é a coisa mais importante que nós deixamos no Brasil. A língua, que foi um elemento de unidade neste país imenso. A questão é saber se os portugueses e os brasileiros têm consciência deste bem comum num mundo como este em que vivemos, que é o mundo da competição, da concorrência, um mundo que luta por dominar. Temos consciência de que esta língua é a quarta ou quinta mais falada no mundo? Eu suspeito que não. Eu sinto que falta quase tudo para potencializar esta realidade. Dá até a impressão de que, uma vez que falamos a mesma língua, não precisamos dialogar.

Folha - O que falta?
Saramago - No mínimo um verdadeiro circuito de comunicação interna e, sobretudo, trabalho em comum de brasileiros, portugueses, e africanos de expressão portuguesa.

Folha - Como estamos falando em bem comum, herança cultural, como o sr. vê este processo brasileiro, hoje, de decomposição e recomposição?
Saramago - Para falar com franqueza, ou o povo brasileiro intervém na sua própria vida –o povo, não os segmentos políticos que o representam – torna isto uma prática quotidiana, ou tudo continuará como sempre foi antes. O povo brasileiro mostrou que, em circunstâncias especiais, é capaz de intervir de uma maneira extraordinária no processo.

Folha - O sr. se refere a que momento?
Saramago - A substituição de Collor de Mello, à campanha pelas eleições diretas. Nós sabemos que a carne é fraca, e os políticos são feitos de carne. O que eu me refiro é à ausência de cidadania, do uso da capacidade que cada cidadão tem de intervir na vida do seu país. A partir do momento em que o cidadão renuncia a esta intervenção, o poder real escapa-lhe das mãos.

Folha - Nos seus livros o amor sempre se realiza plenamente, ao contrário da maioria dos autores modernos. É nisto que o sr. acredita?
Saramago - Sim. Se eu não acreditasse nisto povoaria meus romances de pessoas infelizes, casamentos maus. Sei que a vida toda não é um mar de rosas, sei que há quem escreva coisas contrárias ao que acredita mas, para mim, isto é impossível.

Folha - Pessoas de 20, 18 anos. O sr. consegue entender, acompanhar, como são, hoje, as relações amorosas entre elas?
Saramago - Eu tenho dificuldades em compreender exatamente. Penso que há alguma coisa, ligada a movimentos recentes, que levam a mulher para uma posição um pouco mais próxima do lar.

Folha - O sr. pede que, no Brasil, seus livros sejam editados com a mesma grafia dos editados em Portugal. Por quê?
Saramago - Eu sou capaz de entender um livro de um autor brasileiro com sua grafia, modos e sintaxe próprios. E sei que os brasileiros também compreendem o que é escrito à maneira de Portugal. Se eu admitisse a mudança, estaria negando a identidade da língua portuguesa."

Pilar del Río: «Seremos libres si ejercemos nuestro poder cívico» - Publicado no LaMarea (07/05/2020)

Entrevista de Olivia Carballar publicado no LaMarea em 07/05/2020 e que pode ser recuperada e consultada aqui
em https://www.lamarea.com/2020/05/07/pilar-del-rio-seremos-libres-si-ejercemos-nuestro-poder-civico/

"Entrevista a la periodista y presidenta de la Fundación José Saramago 
sobre el concepto libertad en estos días de confinamiento."

"La literatura es un lugar al que siempre volvemos. Cuando empezó todo esto, corrimos a nuestras estanterías a buscar La Peste, de Albert Camus. Buscamos 1984, de George Orwell. Y buscamos, cómo no, Ensayo sobre la ceguera, de José Saramago. Quizá es buen momento también para leer, como adultos, La flor más grande del mundo, escrito por el Nobel portugués.

“Ese cuento lanza una pregunta: ¿y si los mayores tratáramos de aprender lo que venimos enseñando desde hace tanto tiempo? ¿En qué momento nos olvidamos de los valores y el respeto que nos debemos los unos a los otros? El respeto por la naturaleza, el deber de cuidado está ahí, en ese libro de una docena escasa de páginas”, reflexiona la periodista y presidenta de la Fundación José Saramago, Pilar del Río.

Antes de responder, una frase de la Carta Universal de los Deberes y Obligaciones de las Personas propuesta por el escritor: “Mientras los derechos resaltan la libertad, los deberes expresan la dignidad con la que se ejerce la libertad”. Del Río insiste: “La ciudadanía implica deberes. La Declaración de Deberes Humanos, simetría de la de Derechos, existe. Mi trabajo es difundirla como un instrumento más contra el liberticidio”.

¿Qué es para usted la libertad?
Un derecho fundamental, como la igualdad y la solidaridad. Insisto: igualdad y solidaridad junto a libertad. 

¿Cree que en esta pandemia estamos siendo todos igual de libres –o de no libres–? 
En esta pandemia hay quien se está dando cuenta de que hay valores por encima de los intereses. Y que esforzarse, trabajar por el bien común, compensa. Para disfrutar luego más. 

¿Seremos menos libres cuando acabe todo esto, si es que acaba de alguna forma?
No si seguimos ejerciendo nuestro poder cívico: el que hoy nos hace estar en casa y mañana salir a la calle en caso de que algún poder extraño y ajeno quiera conculcar derechos. La sanidad pública, por ejemplo.  

¿Le asusta que la seguridad se imponga a la libertad? ¿Ha sentido angustia en lo que llevamos de confinamiento?
No me asusta que la seguridad se imponga a la libertad, simplemente no lo permitiré. ¿Cómo? Votando. Ejerciendo mi poder. No quiero Estados policiales; quiero, sí, Estados responsables que expliquen argumentando y sin sacar fantasmas para dar miedo. El confinamiento lo llevo bien porque sé que estoy contribuyendo al bien común, aparte de a mi propia salud.

¿Qué papel debe ejercer el Estado en la libertad de todo ser humano? Hay mucha gente enamorada ahora mismo de Portugal…
El Estado debe garantizar la libertad de todos los ciudadanos ya sea en estado de emergencia o en la normalidad, así como el acceso a los bienes comunes de que los ciudadanos conscientes se han dotado y han dotado a la sociedad. De Portugal no te digo nada: desde la Revolución del 25 de Abril hasta ahora los portugueses dan ejemplos permanentemente. Otra cosa es que no los veamos. 

¿Nos acostumbramos a no ser libres con las políticas austericidas tras la crisis de 2008?
No nos acostumbramos. De hecho, se salió a las calles y la política en España cambió, pero el poder económico, ese que no nos representa porque no se presenta a las elecciones, trazó un modelo de ser ciudadano, que ahora volverán a proponer: nos quieren indiferentes, resignados o con miedo. Con ciudadanos así el sistema vive más cómodo y hace más negocios.

¿Nos cambiará el concepto de libertad esta pandemia o volveremos a nuestra individualidad?
Espero que hayamos reflexionado. Y que nuestros sentimientos se asienten en las reflexiones de los intelectuales de este tiempo, esas voces morales que estamos necesitando oír.

¿El ser humano ha sido libre alguna vez? Otro día hablamos de las mujeres…
Seres humanos libres en sociedades que esclavizan, puede ser, sí los hay. Seres humanos libres compartiendo techo con seres humanos no libres, como las mujeres, eso no lo veo. O con los pobres. O los diferentes… En fin, la libertad, sin la igualdad, me parece algo extraño. Por eso apuesto a que la libertad, junto a la igualdad y la fraternidad son derechos, bienes, que hay que conseguir ejerciéndolos cada día. No encuentro otra."

terça-feira, 5 de maio de 2020

Canal ART.TV "Invitation au voyage" - "Lanzarote, le nouvel amour de José Saramago à Lanzarote" (01/05/2020)

Pode ser visualizado e recuperado aqui
em https://www.arte.tv/fr/videos/091152-090-A/invitation-au-voyage/

"Linda Lorin nous emmène à la découverte de notre patrimoine artistique, culturel et naturel. Dans ce numéro : Lanzarote, le nouvel amour de José Saramago - Au Canada, l’épopée de la morue - En Pologne, une idée contagieuse."


"Lanzarote, le nouvel amour de José Saramago 
À la fin de sa vie, l’écrivain portugais nobélisé José Saramago trouve refuge à Lanzarote, au cœur de l’archipel des Canaries, et puise dans le caractère volcanique de l’île un nouveau souffle littéraire. 
Réalisation: Fabrice Michelin"








Assinalamos o 1.º Dia Mundial da Língua Portuguesa instituído pela UNESCO

José Saramago - Prémio Nobel da Literatura 1998


"Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura anunciou decisão nesta segunda-feira (25/11/2019) em sua sede em Paris; primeiro-ministro de Portugal, António Costa, compareceu à agência da ONU acompanhado de outros membros do governo."
Aqui via UNESCO em https://news.un.org/pt/story/2019/11/1695661

"Em 2009, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp, 
instituiu o 5 de maio como Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Cplp. 
Foto: ONU News/Alexandre Soares"

O português é língua oficial de nove países: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

É também língua oficial da Região Administrativa Especial da Macau, na China.

Segundo o Instituto Internacional de Língua Portuguesa, Iilp, existem pelo menos 7 milhões de pessoas que falam português e vivem fora de seus países de origem, na diáspora.

Desde 2008, a Cplp formalizou uma estratégia de promoção da língua portuguesa chamada de “internacionalização” do idioma para aumentar o número de pessoas que falam português no mundo como língua materna, estrangeira ou de herança.

Segundo agências de notícias, os países da Cplp esperam agora que com a decisão da Unesco de conferir um Dia Mundial ao português, aumente o interesse pelo idioma em áreas não-lusófonas, vendo crescer o poder de influência do português e dos países de língua portuguesa no cenário internacional.


segunda-feira, 4 de maio de 2020

Palácio Nacional de Mafra pela objectiva do fotografo JotaEne


Uma aproximação ao "Memorial do Convento" de José Saramago

A promessa da construção do convento de Mafra por El-Rei D. João V

Trabalho fotográfico de JotaEne

Fotografia de @JotaEne

(...) "Mas vem agora entrando D. Nuno da Cunha, que  é o bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho. Entre passar adiante e dizer o recado há vénias  complicadas, Eloreios de aproximação, pausas e recuos, que são as fórmulas de acesso à vizinhança do rei, e a tudo isto teremos de dar por feito e explicado, vista a pressa que traz o bispo e considerando o tremor inspirado do frade. Retiram-se a uma parte D. João V e o inquisidor, e este diz, Aquele que além está é frei António de S. José, a quem, falando-lhe eu sobre a tristeza de vossa majestade por lhe não dar filhos a rainha nossa senhora, pedi que encomendasse vossa majestade a Deus para que lhe desse sucessão, e ele me respondeu que vossa majestade terá filhos se quiser, e então perguntei-lhe que queria ele significar com tão obscuras palavras, porquanto é sabido que filhos quer vossa majestade ter, e ele respondeu-me, palavras enfim muito claras, que se vossa majestade prometesse levantar um convento na vila de Mafra, Deus lhe daria sucessão, e tendo declarado isto, calou-se D. Nuno e fez um aceno ao arrábido.
Perguntou el-rei, E verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um
convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábido que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disseram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade dificultosa da rainha." (Páginas 13 e 14) 

sábado, 2 de maio de 2020

Palácio Nacional de Mafra pela objectiva do fotografo Humberto Joaquim

Uma aproximação ao "Memorial do Convento" de José Saramago

Trabalho fotográfico de Humberto Joaquim 

(...) "Quando de longe avistam os muros brancos da basílica, não gritam, Jerusalém, Jerusalém, por isso é mentira o que disse aquele frade que pregou quando foi levada de Pêro Pinheiro a pedra a Mafra, que todos estes homens são cruzados duma nova cruzada, que cruzados são estes que tão pouco sabem da cruzadia." (...) Pag. 295


(...) "Vem chovendo, mas não tanto que o trabalho tenha de parar, excepto o dos pedreiros, pois a água desfaz a argamassa, empoça nas larguíssimas paredes, por isso recolhem-se os operários aos telheiros, à espera que levante, enquanto os canteiros, que são gente fina, batem abrigados o mármore, tanto para a cantaria como para o lavrado, provavelmente prefeririam descansar. A estes tanto faz que as paredes cresçam depressa como devagar, têm o risco da pedra a seguir, caneluras, acantos, festões, acrotérios, grinaldas, estando acabada a obra logo a levam os carregadores a pau e corda, para o telheiro onde com outras ficará guardada, chegando a hora a irão buscar do mesmo modo, salvo se for tão pesada que requeira cabrestante e plano inclinado." (...) Pag. 218


(...) "Enfim o rei bate na testa, resplandece-lhe a fronte, rodeia-a o nimbo da inspiração, E se aumentássemos para duzentos frades o convento de Mafra, quem diz duzentos, diz quinhentos, diz mil, estou que seria uma acção de não menor grandeza que a basílica que não pode haver. O arquitecto ponderou, Mil frades, quinhentos frades, é muito frade, majestade, acabávamos por ter de fazer uma igreja tão grande como a de Roma, para lá poderem caber todos, Então, quantos, Digamos trezentos, e mesmo assim já vai ser pequena para eles a basílica que desenhei e está a ser construída, com muitos vagares, se me é permitido o reparo, Sejam trezentos, não se discute mais, é esta a minha vontade, Assim se fará, dando vossa majestade as necessárias ordens." (...) Pags. 281/282


(...) "Estão os três voadores à proa da máquina, vão na direcção do poente, e o padre Bartolomeu Lourenço sente que a inquietação regressou e cresce, é pânico já, enfim vai ter voz é um gemido, quando o sol se puser, descerá irremediavelmente a máquina, talvez caia, talvez se despedace e todos morrerão, É Mafra, além, grita Baltasar, parece o gajeiro a bradar do cesto da gávea, Terra, nunca comparação alguma foi tão exacta, porque esta é a terra de Baltasar, reconhece-a, mesmo nunca a tendo vista do ar, quem sabe se por termos no coração uma orografia particular que, para cada um de nós, acertará com o particular lugar onde nascemos, o côncavo meu no teu convexo, no meu convexo o teu côncavo, é o mesmo que homem e mulher, mulher e homem, terra somos na terra, por isso é que Baltasar grita, É a minha terra, reconhece-a como um corpo." (...) Pag. 201

"Memorial do convento, de José Saramago: a desconstrução teológica de Saramago e o fundamentalismo religioso" Por Giselle Lourenço ao "Homo Literatus" (13/08/2016)

"Memorial do convento, de José Saramago: a desconstrução teológica de Saramago e o fundamentalismo religioso"

Pode ser recuperado e consultado aqui
aqui em https://homoliteratus.com/memorial-do-convento-de-jose-saramago-a-desconstrucao-teologica-de-saramago-e-o-fundamentalismo-religioso/

Homo Literatus - Por Giselle Lourenço (13/08/2016)


Um ensaio sobre Memorial do Convento, de José Saramago

"O autor refaz, sob uma crítica ao fanatismo religioso e ao absolutismo monárquico, a história da construção do Palácio de Mafra, Portugal. Mais precisamente, no ano de 1711 tem início a construção do convento que abrigaria, inicialmente, um modesto número de frades franciscanos, em razão de uma promessa feita pelo Rei D. João V para que a Rainha Maria Ana Josefa conseguisse lhe dar um herdeiro. Contudo, a necessidade de um rei megalômano e com medo da morte faz com que mais de quarenta mil portugueses trabalhem para construir uma obra de proporções gigantescas, no intuito de el-rei  deixar evidente a marca de sua imponência e a perenidade de sua memória.
Padre Bartolomeu Lourenço, protegido do rei, tinha novas ideias, entre elas, a construção da passarola, para realizar seu sonho de voar. Suas pesquisas voltadas para a construção da engenhoca ficavam encobertas em segredo, incluindo a cumplicidade do rei, pois ao homem, não era permitido voar, dado que isso significava uma heresia ao tentar se comparar a Deus.
Em autos-de-fé, em praça pública, o Santo Ofício executava suas vítimas do século XVIII, em geral acusados de bruxarias, feitiços ou pensamentos de afronta à religião católica. Em um desses autos, Baltasar Sete-Sóis conhece Blimunda (mais tarde chamada de Sete-Luas, pelo Padre Bartolomeu). Blimunda estava a espreitar com discrição a execução ou deportação (a história não evidencia) da própria mãe, acusada de bruxaria. Em meio ao alarido e histeria coletiva de fundo religioso, Blimunda percebe, por um tipo de comunicação com a mãe, que Baltasar era o homem com quem ela deveria viver. Assim, sob o pretexto de saber seu nome, ela o convida para ali ficar com ela.
Baltasar é um ex-soldado da guerra, em decorrência da qual lhe faltam mão e braço esquerdos. Blimunda, assim como a mãe, possuía um dom especial, do qual apenas Padre Bartolomeu sabia, e depois veio a sabê-lo também Baltasar. Em jejum, ela conseguia ver o interior dos homens e de todas as coisas, não espiritualmente ou metafisicamente, mas via a matéria escondida mesmo. Portanto, conseguia ver um tumor ou uma criança no ventre de uma mulher, por exemplo. Ao começar uma relação com Blimunda, Baltasar também se aproxima de Padre Bartolomeu e os três tornam-se amigos fortemente ligados por um segredo e vontade de realização humana: a construção da passarola. Assim, trabalham por anos, com afinco, seguindo as instruções de Padre Bartolomeu para arquitetar a máquina.
Após a conclusão do trabalho, em uma fuga inesperada do Santo Ofício, os três partem para o alto, no primeiro voo da passarola. Como o voo não saiu com toda perfeição esperada nas manobras necessárias, Padre Bartolomeu sente-se fracassado em empenhar sua vida na máquina e ainda por ter envolvido as vidas do casal Blimunda e Baltasar. Por essa razão, some no mundo, e, ao que tudo indica, comete suicídio tomado pela loucura.
Desamparados dos favores do padre, o casal passa a viver em Mafra, onde Baltasar consegue trabalho na construção do convento e de tempo em tempo, sai em misteriosas visitas para cuidar da passarola, encoberta pela mata de Monte Junto, onde caiu após a primeira tentativa fracassada de voo. Durante a narrativa da construção do convento de Mafra, são ressaltadas as diversas mortes que ocorreram em decorrência das condições de trabalho daquela gente, a hipocrisia de uma sociedade que se flagelava em público em ritos religiosos para expurgar seus pecados e o autoritarismo de um monarca que se vangloriava igualando-se a Deus, exibindo seu poder e frequentando conventos femininos em busca dos prazeres sexuais com as freiras, com quem mantinha relações, fazendo nascer vários bastardos dentro dos muros das ordens religiosas.
O que meu olhar registra sobre a obra de Saramago?
Ao relatar o autor, sob o viés de denúncia o autoritarismo real e o fanatismo religioso (este último, principalmente), adentramos o terreno que favoreceu o recrudescimento de críticas, por parte de uma ala mais conservadora do catolicismo, perante a escrita de José Saramago. Afinal, já é de conhecimento de um grande público o teor nada ortodoxo com o qual o autor aborda temas religiosos e dogmáticos.
Ateu, Saramago oferece, em Memorial do convento, uma desconstrução teológica, ou ainda, uma abordagem teológica não convencional.
Ao narrar o episódio em que Blimunda, deliberadamente, sai em jejum para a igreja no intuito de olhar para a hóstia consagrada do altar e investigar o que poderia, nela, ser encontrado, o autor destaca a visão de Blimunda a respeito da mesma nuvem de vontades que encontra na maioria dos homens, ou seja, aquela nuvem escura vista por Blimunda, contida na hóstia e que denota a vontade é também o mesmo material encontrado no interior dos homens."

"[…] E Blimunda disse, Esperava ver Cristo crucificado, ou ressurrecto em glória, e vi uma nuvem fechada, Não penses mais no que viste, Penso, como não hei-de pensar, se o que está dentro da hóstia é o que está dentro do homem, que é a religião, afinal, falta-nos aqui o padre Bartolomeu Lourenço, talvez ele soubesse explicar-nos este mistério, Talvez não soubesse, talvez nem tudo possa ser expicado […] (SARAMAGO, 1982)."

"Ao evidenciar essa semelhança de vontades entre o humano e o divino, Saramago coloca frente a frente duas visões teológicas: uma mais tradicional, que trata da vontade de Deus como algo vertical, que vem como uma ordem de cima para baixo, algo que precisa ser percebido e obedecido; e uma reconstrução teológica que trata a vontade de Deus em consonância com as vontades humanas, algo que pode ser percebido e construído na horizontal, humano e divido em harmonia e semelhança. As vontades dos homens são as mesmas que as vontades de Deus porque é na realização humana que o divino se realiza, que se concretiza. Nesse ponto, convém lembrar a visão teológica de Andrés Torres Queiruga em sua obra A revelação de Deus na realização humana. Na obra, Queiruga trata a revelação como algo que necessita da cooperação do homem para que aconteça. Na apresentação do livro, está contida uma frase de Juan Luis Segundo que diz: “Deus não se revela a não ser na e para a realização dos homens e mulheres que buscam dar sentido a suas existências. ”
Trata-se de um novo paradigma que concebe a revelação não como um ditado verbal (expressão do próprio teólogo), mas como uma percepção do ser humano sobre suas necessidades em seu processo histórico apoiada em uma escuta atenciosa para uma necessidade maior. Assim como Saramago contrasta em toda sua narrativa com sua desconstrução inusitada com a teologia clássica e seu tom solene sobre os diversos dogmas católicos, Andres Queiruga traz à baila o quanto essa solenidade e abstração afasta-se do sentido bíblico e, consequentemente, da realidade humana.
Uma personagem como Blimunda, retratada como uma mulher despojada, direta, sem pudores desnecessários, capaz de entrever a hipocrisia sustentada nas máscaras do comportamento humano e nos ritos litúrgicos excessivos e não verdadeiros, porque não em consonância com a realidade, traduz a mais inusitada desconstrução teológica do autor de Memorial do convento, que oferta ao símbolo narrativo do despojamento o poder de enxergar a essência do sagrado.
Há ainda um outro aspecto em Blimunda que convém destacar: o contraponto que essa personagem faz com a Rainha Maria Ana Josefa. Enquanto aquela é livre para lidar com a fé da maneira como sente que deve, enquanto é livre para amar e para escolher seu parceiro, enquanto é livre para pensar e para expressar seus pensamentos e aforismos, que ocupavam a reflexão até de Padre Bartolomeu Lourenço, esta estava presa em uma vida de aparências e infelicidades, ciente de que não era amada e nem desejada pelo rei, ciente das traições reais e dos bastardos que nasciam, fantasiando paixões oníricas e impondo-se, depois, a culpa, encontrando na prática da religiosidade muito mais uma maneira de conviver com a suposta culpa que ela achava que tinha do que como uma tábua de salvação para sua vida infeliz.
Ampliando as possibilidades teológicas a outras personagens, o narrador (que ora é onisciente e ora adquire a perspectiva e o foco de alguma personagem isolada) traduz nos exatos termos a amizade entre Blimunda, Baltasar Sete-Sóis e Padre Bartolomeu: uma verdadeira trindade humana. Quando toca nesse ponto, também traduz os anseios de novos paradigmas teológicos quanto à trindade, que em meados do século XVIII jamais poderia ser concebida com a participação humana em sua dínamis. Padre Bartolomeu executando o papel do Pai, porque concebe a ideia inovadora e criadora da passarola, Baltasar no papel de Filho, porque acolhe o projeto do Pai e o executa com consciência plena de que deve ir até o fim do projeto (até que, por ele, morre) e Blimunda fazendo as vezes do Espírito, porque possui os dons espirituais necessários para que o trabalho se concretize.
Ao longo da narrativa é possível entrever outras desconstruções para além dos dogmas já mencionados, como quando o narrador coloca em xeque o mito bíblico do Paraíso, a validade do sacramento da confissão e a existência do lado esquerdo de Deus:"

"[…] Que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus não senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência, portanto Deus é maneta […] (SARAMAGO, 1982)."

"Evidentemente, Saramago transpõe para sua obra a visão e os questionamentos de um livre-pensador. Quer também apontar para as armadilhas dos excessos e do fanatismo religioso, que, em vez de contribuir para que a mensagem religiosa seja melhor aproveitada, apenas colabora para um processo de desumanização e de degradação civilizatória. Antes de preconceber qualquer ideia a respeito de sua literatura, tomados por fortes raízes religiosas que temos deste lado do Atlântico (assim como as possuem também o país de origem do autor), convém saber que, apenas com o livre-pensar é possível atingir certos estágios de desenvolvimento, como tem comprovado o nosso processo civilizatório. Disse Bertrand Russell em Ensaios céticos que o livre-pensar jamais será plenamente alcançado, mas que é possível, hoje, aproximar-se bem mais dele.
Podemos dizer que um pensamento é livre quando ele é exposto a uma competição liberada entre crenças, ou seja, quando todas as crenças possam se manifestar, e não haja vantagens ou desvantagens legais ou pecuniárias associadas a elas. (RUSSELL, 1920)
Ainda sobre o tom e o teor nada aveludado da escrita de Saramago, muito provável que seu conterrâneo Eça de Queiroz pudesse apreciar, já que teceu severas críticas à cultura portuguesa de sua época a respeito de uma certa falta de prática realista nas letras.
Sabemos cantar, algumas vezes protestar, jamais explicar. Eis por que não existe crítica em Portugal. Também o romance e o drama, até os últimos tempos, eram somente obras de poesia e de eloquência, algumas vezes, ensaios filosóficos, outras vezes, elegias sentimentais. A ação era concebida fora de toda verdade social e humana. (EÇA DE QUEIROZ, 1880).
Levando em consideração que escrevo essa resenha no dia da festa de Santo Inácio de Loyola e retomando a ideia da desconstrução teológica que vai ao encontro da tese de Queiruga sobre a participação do homem na revelação, é bom ressaltar que, a despeito de muitos rumores quanto à validade do novo paradigma teológico da participação humana na revelação de Deus, foi o próprio Santo Inácio quem tratou das potências naturais humanas como primordiais para que a graça divina possa atuar – a graça pressupõe a natureza. Foi Santo Inácio quem recomendou que, ao entrar em Exercício Espiritual, o fiel o fizesse de modo a confluir nesse momento suas potências naturais humanas para que a ação de Deus pudesse ser sentida e acolhida: “[…] usa das suas potências naturais mais livremente, para buscar com diligência o que tanto deseja […]”. São essas potências: liberdade, memória, entendimento e vontade. Portanto, também para Inácio, não teria razão de ser uma religião que retirasse do homem sua capacidade racional, que junto com a memória, pudesse estabelecer uma ampliação de horizontes na vivência dessa fé e nas novas luzes teológicas que das experiências humanas pudessem resultar.
Dada esta resenha na Festa de Santo Inácio, em 31 de julho de 2016"

"Tomai, Senhor, e recebei
toda a minha liberdade, a minha memória,
o meu entendimento e toda a minha vontade,
tudo o que tenho e possuo; Vós mo destes;
a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso,
disponde de tudo, à vossa inteira vontade.
Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta.

(Oração de Santo Inácio)"

"Algumas curiosidades a respeito da obra

Em entrevista, Saramago disse que sua escrita peculiar, sem utilizar sinais de pontuação ou parágrafos, é uma tentativa de se colocar como um falante ao escrever, sentindo-se um interlocutor da própria obra e não, propriamente, um escritor. Queria colocar-se num lugar mais comum com todos nós.
A peça Memorial do convento foi apresentada pela primeira (e única?) vez no Brasil em 2013, no complexo Feliz Lusitânia, numa parceria entre a UFPA e a Fundação José Saramago. O local escolhido justifica-se pela arquitetura que melhor reproduziria o cenário da narrativa, que está ambientada no século XVIII.
Saramago, além de explicar sua estratégia peculiar de escrita, também disse em entrevista que, ao visitar o Palácio de Mafra, contemplando sua imponência, escreveria sobre os bastidores da construção do palácio-convento. Arrependeu-se logo depois de ter dito, mas deu cabo da tarefa por ter manifestado o desejo da escrita da obra em voz alta, tendo outras pessoas como testemunha. Disse ainda que, dada a complexidade que o absorveu na construção da narrativa, não a teria feito se não fosse o comprometimento ao qual se sentiu atado quando pronunciou sua vontade em alta voz diante de outras pessoas que, certamente, o cobrariam do feito mais tarde.
A imponência arquitetônica de Mafra só pôde ser erigida graças ao ouro do Brasil. Além de enriquecer os cofres portugueses, quase todo o ouro que lá está é de origem brasileira.

REFERÊNCIAS
SARAMAGO, José. Memorial do convento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
RUSSELL, Bertrand. Ensaios céticos. MOTTA, Marisa (Trad.). Porto Alegre: L&PM, 2008.
EÇA DE QUEIROZ, José Maria. O mandarim. Porto Alegre: L&PM, 2001.
INÁCIO DE LOIOLA. Exercícios Espirituais: tradução do autógrafo espanhol. DIAS PEREIRA, SJ, Dias Vital (Trad.). BAPTISTA, SJ, F. de Sales. (Org.). Braga: Livraria A. I."



sexta-feira, 1 de maio de 2020

Pilar del Río "O último livro de José Saramago é um abraço aos leitores” - Revista Estante da FNAC (24.09.2018)

"Último Caderno de Lanzarote" - Porto Editora

"O livro que Pilar del Río descreve como um abraço de José Saramago 
aos leitores foi escrito há precisamente 20 anos mas ficou esquecido até agora 
no computador do autor português. O sexto e último volume do diário de José Saramago relata as suas experiências no ano em que conquistou o Nobel." (FNAC)

Pilar del Río "O último livro de José Saramago é um abraço aos leitores”
Revista Estante da FNAC (24.09.2018) por Tiago Matos
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

Pode ser recuperado e consultado aqui  

Nasceu em Espanha e por lá se fez jornalista, mas haveria de chamar casa também a Portugal. Tudo porque um dia, depois de ler O Ano da Morte de Ricardo Reis, decidiu visitar Lisboa e acabou por se encontrar com o seu autor. O homem com quem casou. E junto de quem permaneceu até ao fim. Vinte anos após a conquista do Nobel da Literatura por parte de José Saramago, conversámos com a mulher que preside a fundação criada em seu nome. A mulher que o continua. Pilar del Río.


O livro que Pilar del Río descreve como um abraço de José Saramago aos leitores foi escrito há precisamente 20 anos mas ficou esquecido até agora no computador do autor português. O sexto e último volume do diário de José Saramago relata as suas experiências no ano em que conquistou o Nobel. Chega em outubro às lojas FNAC.

Oito anos após a morte de José Saramago, o autor ainda se mantém presente na nossa sociedade, tanto através da literatura como das ideias que apresentava. Acha que Saramago é hoje um autor mais consensual do que quando era vivo?
José Saramago era, e é, um autor lido e amado em Portugal. E também fora de Portugal. Lê-lo provoca na experiência de leitura um antes e um depois, produz aquele corte de respiração que as grandes obras proporcionam. Não há porque ser consensual, os leitores são múltiplos, com gostos e educação distinta, mas o valor literário é inquestionável. Assim como o orgulho de tantos portugueses que viram como a obra cresceu, livro a livro, e hoje faz parte do que somos, pessoal e coletivamente. Enfim, um orgulho e privilégio de que fomos testemunha.


Na sua opinião, o que torna a obra e personalidade de Saramago tão marcantes?
O estilo literário. A honestidade intelectual. A valentia pessoal. A sua potência criadora. A capacidade para criar personagens inesquecíveis. A sua força transgressora. Talvez seja necessária ainda mais perspetiva temporal para vermos a dimensão desta pessoa com quem nos cruzámos na rua, que era igual a nós e que, no entanto, tinha o dom, a extraordinária capacidade de contar o mundo. Além disso, ao contá-lo levanta-o do chão porque nos faz a todos mais lúcidos e sábios. A sua obra literária é uma constante meditação que nos enriquece.

Foi em 1986, depois de ler O Ano da Morte de Ricardo Reis, que decidiu procurar e conhecer José Saramago.
A minha reação não foi singular: como tantos outros leitores, senti novas necessidades ao ler os seus livros. Com O Ano da Morte de Ricardo Reis soube que tinha de vir a Lisboa para incorporar esta cidade ao meu mapa pessoal. Conheço muitas pessoas que fizeram o mesmo. Insisto que a característica fundamental na obra de José Saramago é não deixar os leitores indiferentes. Depois de ler o seu livro, de uma forma ou de outra continuamos a procura dentro e fora de nós. José Saramago pedia, reclamava “leitores desassossegados”. É disso que se trata.

Será isso prova do poder que a literatura tem para mudar efetivamente a vida das pessoas?
A literatura não muda o mundo. Se assim fosse, com o tanto e de tanta qualidade que se produziu desde os gregos até hoje, o mundo seria outro. Não muda o mundo, dizia, mas a grande literatura intervém, sim, na maneira das pessoas estarem na vida. A forma de olhar e analisar o contexto e o mundo influencia, de maneira categórica, os projetos pessoais: quantas pessoas não decidiram estudar ou mudar de profissão movidas por uma leitura que fizeram de um autor? Não muda o mundo mas dá mais consciência aos leitores.

Saramago acreditava nos livros enquanto instrumento ativo de mudança?
José Saramago repetia até à saciedade que ninguém está obrigado a ler, ainda que acrescentasse, com bom humor, que “ler é bom para a saúde”. A esta frase poderíamos acrescentar outra declaração sua: “Querem-nos amedrontados, resignados ou indiferentes.” Pois a leitura faz-nos capazes de pensar e de enfrentar os lugares-comuns com que o poder – económico, social, religioso – trata de nos adormecer. Sim, ler é bom para a saúde da sociedade e também para a pessoal.

"Os prémios literários são um reconhecimento e agradecem-se. 
E, no dia seguinte, continua-se a trabalhar."

Como vê o momento atual da literatura portuguesa?
Acho que a literatura portuguesa e em português goza de boa saúde. Tenho a certeza de que a participação de Portugal como país convidado da Feira do Livro de Guadalajara, no México, servirá muito bem para se mostrar ao mundo – e também a nós – o valor e a personalidade do que hoje se está a fazer aqui.

Escrever é algo solitário, publicar é uma aventura, estar na livraria é um ato heroico, e estas três lutas podem fazer com que percamos o valor do conjunto, uma plêiade de escritores que estão a dar sentido e personalidade ao momento em que vivemos. Poderiam dizer o mesmo de todas as partes, é possível. O que sei é que aqui é certo e magnífico.

Qual foi o último livro que leu?
De literatura portuguesa, o último que li foi Estuário, da Lídia Jorge. Um livro absolutamente recomendável, um romance ambicioso e profundo que resume o mundo. Também li, há dias, ensaios de vários autores: Revolução, Meu Amor, de Maria Antónia Palla, O Mundo Não Vai Acabar, de Tatiana Salem Levy, e Filhos da América, de Nélida Piñon. Curioso, são todas mulheres…

Saramago apontou um dia Gonçalo M. Tavares como um potencial futuro vencedor do Nobel da Literatura. Na sua opinião, a literatura portuguesa – ou pelo menos a lusófona – pode ter um novo Nobel nos próximos anos?
Pois é, José Saramago apontou Gonçalo M. Tavares como escritor com obra para merecer o Prémio Nobel. Também falou de Mia Couto, tão imprescindível, e de outros escritores de língua portuguesa, mas o mais importante, prémios à parte, é saber que a literatura está viva, que é feita pelos escritores e mantida por nós, leitores.

O reconhecimento de uns e outros, escritores e leitores, é o que nos distingue e fortalece. A literatura é a memória dos países. Oxalá também nós, leitores, sejamos capazes de entender esta responsabilidade e não deixemos de estar interessados naqueles que, cada um com o seu estilo e sensibilidade, nos contam.

Foi há precisamente 20 anos que Saramago foi distinguido com o Nobel. Como é que a Pilar reagiu à notícia?
Com alegria e emoção, como tanta gente no mundo. Agora será publicado um livro (Um País Levantado em Alegria) onde Ricardo Viel, da Fundação, conta as reações que o prémio suscitou em tantos lugares e leitores. Vai ser importante que nos encontremos nessas páginas. E poderemos encontrar até nomes e apelidos, porque serão publicadas reações de notáveis e também cartas de leitores que quiseram marcar presença.

O que mudou na vida de Saramago a partir da distinção?
A vida de José Saramago continuou a ser a que era, o que mudou foi a receção dos seus livros e das suas declarações. De repente o foco sobre si aumentou de maneira impressionante. Insisto: não a responsabilidade, que era um sentido que José Saramago possuía num grau máximo, mas a difusão do que dizia. E não por ser Prémio Nobel, mas sim por ser “esse” Prémio Nobel. Antes e depois outros autores foram galardoados sem que essa repercussão acontecesse.

Digo mais: o que é normal é ser notícia apenas por um dia e ponto final. José Saramago continua a ser um referente deste tempo e o Prémio Nobel reconheceu-o na sua declaração.

Se Saramago não tivesse sido distinguido com o Nobel acha que continuaria a ser tido atualmente como um dos expoentes da literatura portuguesa?
Os prémios não fazem as literaturas, os prémios reconhecem – ou não, se são negligentes – as que existem. Sem o Nobel, José Saramago continuaria a ser o autor de Memorial do Convento, de As Intermitências da Morte, de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Ensaio sobre a Cegueira, para citar alguns títulos. E continuaria a ser, de forma absoluta, literatura universal.

"Os prémios não fazem as literaturas, os prémios 
reconhecem as que existem. 
Sem o Nobel, José Saramago continuaria a ser, de forma absoluta, literatura universal."

Como vê a decisão da Academia Sueca de suspender a atribuição do Nobel da Literatura por tempo indeterminado?
Às vezes é preciso tomar decisões fortes. O famoso “quanto pior, melhor”. Os académicos forçaram uma situação para que se mude o regulamento. Era preciso fazê-lo. Adotaram uma estratégia corajosa.

Qual é, para si, a importância dos prémios literários em geral?
São um reconhecimento e agradecem-se. E, no dia seguinte, continua-se a trabalhar.

De que forma será celebrado o 20.º aniversário da conquista do Nobel por parte da Fundação José Saramago?
A Fundação, e aqueles que a nós se associaram, decidiu celebrar os leitores. Para isso será publicado o diário do ano do Nobel, esse original que poderemos ler 20 anos depois e que parece quase uma brincadeira de José Saramago, um gesto inesperado que entendo como um abraço. Também para os leitores aparecerá Um País Levantado em Alegria, que explica como vivemos aqueles dias.

Também haverá sessões literárias na Fundação, homenagens à língua portuguesa, uma sinfonia, as obras de teatro, programas de televisão, os diversos encontros em todo o país e fora de Portugal. Enfim, não queremos que a literatura e os leitores deixem de ser notícia desde o dia 8 de outubro, quando abre o Congresso Internacional sobre José Saramago organizado pelo Professor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra.

Tal como refere, em outubro chegará às livrarias um inédito de Saramago, o sexto – e aparentemente último – Caderno de Lanzarote. Como descobriu este volume esquecido?
Descobri-o no disco rígido do computador de Lanzarote. Estava ali, escondido, à espera. Não estava à procura, encontrei-o porque havia chegado a hora de partilhá-lo.

O que podemos esperar?
Ali encontramo-nos com o homem prévio à notícia do Nobel, com o que era a sua vida e o que nela fazia, e o que aconteceu naqueles dias de outubro a dezembro de 1998. Manifestar-se-á, de forma rotunda, a austeridade, que era uma característica de José Saramago, a sua forma de ver o mundo naqueles dias em que, por decisão própria, viveu para os outros, sem guardar nada. Porque era o seu prémio, eram os seus livros, mas sem os leitores nada poderia ter acontecido. Este último livro de José Saramago é um abraço aos leitores.

Por: Tiago Matos
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

Assinalamos a data histórica do 1.º de Maio

Fotografia no pós 25 de Abril de 1974
José Saramago numa intervenção e acção de esclarecimento



Cartaz do artista plástico José Santa-Bárbara alusivo ao 1.º de Maio


"Intermitencias: La muerte masiva" publicado por Miguel Koleff no HoyDía Córdoba - Argentina (30/04/2020)



A crónica de Miguel Koleff pode ser consultada e recuperada aqui
em https://hoydia.com.ar/cultura/68884-intermitencias-la-muerte-masiva.html



…em menos de quarenta e oito horas

qual rastilho de pólvora, qual nova

epidemia, alastrou a todo o país (José Saramago).


"El coronavirus es, por cierto, muy peligroso, pero si no estuviera asociado a la muerte masiva tal vez sería más llevadero. Ese es –en realidad- el verdadero problema que trae aparejada la enfermedad; contradice la idea de que morimos en el momento justo y de que nuestra muerte es individual, nos pertenece de manera unívoca. La muerte masiva degrada «mi» muerte, al decir de Heidegger, y eso es lo imperdonable. Según Byung-Chul Han, “La muerte no supondría una violencia si fuera un final resultante de la vida, del tiempo de la vida. Solo así es posible vivir la vida desde sí misma hasta el final, morir en el momento justo. Sólo las formas temporales del final generan, contra la terrible infinitud, una duración, un tiempo pleno, lleno de significado”. (Han, El aroma del tiempo. Un ensayo filosófico sobre el arte de demorarse, 2019 [2009], p. 22).

Recuperemos dos pensamientos del extracto reproducido. Por un lado, la violencia que supone que nos arranquen la existencia cuando a la Parca se le da la gana y sin consultarnos; y por otro lado, la consideración sobre la «vida plena», esa que le daría sentido y justificaría su continuidad. Aunque los dos están imbricados, sobre el segundo mucho no podemos decir ya que depende de nuestra responsabilidad y de nuestro esfuerzo en función de las circunstancias en las que nos toca actuar y/o intervenir. Pero sobre el primero cabe detenernos un poco más. Porque trasunta violencia; y porque no respeta la singularidad de cada quién; aparece así de la nada, nos fulmina y nos reduce a un cadáver de entre los muchos que se «amontonan sin cesar», según la fórmula de Walter Benjamin en su tesis 9 de “Filosofía de la Historia”. Este punto es crucial en el contexto del Covid-19 y no podemos ignorarlo: perturba, molesta y nos pone en estado de alerta.

Quien mejor se ha referido a este tópico es, posiblemente, el escritor portugués José Saramago, que, en su novela “Las intermitencias de la muerte” nos plantea alguna reflexión sobre el asunto. Al comienzo del libro, aparece «la muerte» como personaje (escrita en minúscula) que –declarada en huelga- deja de incidir en la vida humana y desaparece de escena, para luego -después de algunos meses- retomar las tareas y ponerse al día con los fallecimientos pendientes. Acción esta que ejecuta sin piedad, y sin medir la forma en que socava el sistema administrativo, político, económico y social, abarrotado de tanta demanda.

Hagamos el esfuerzo de detenernos en esta fase que, bien podríamos llamar la de la “muerte masiva”, y pensemos como se parece a la que estamos viviendo de manera global cuando, a cada minuto, el número de óbitos se extiende considerablemente por efecto de un virus incontrolable. Los féretros de cartón de Guayaquil podrían servir de ejemplo y explicar un colapso semejante sin necesidad de ahondar en detalles escabrosos. Vayamos a la cita: “Mucho más que una hecatombe. Durante siete meses, que fueron tantos los que duró la tregua unilateral de la muerte, se fueron acumulando en una nunca vista lista de espera más de sesenta mil moribundos, para ser exactos sesenta y dos mil quinientos ochenta, que descansaron en paz por obra de un instante único, de un segundo de tiempo cargado de una potencia mortífera que exclusivamente encontraría comparación en ciertas reprobables acciones humanas. A propósito, no nos resistiremos a recordar que la muerte, por sí misma, sola, sin ninguna ayuda exterior, siempre ha matado mucho menos que el hombre (Saramago, 2005, p. 141).

Tal como se expone en el fragmento, la «potencia mortífera» se desencadena con un poder aniquilador sin precedentes. Finalmente, es su prerrogativa, lo que le corresponde ejecutar después de un período de inactividad y alcanza a aquellos que ya estaban marcados. A diferencia del coronavirus, que prolonga la agonía en una curva cada vez más creciente, la «hecatombe» de Saramago afecta un solo país y se produce en una fecha concreta. Fuera de ello no hay diferencias. El ser humano desaparece como si fuera una mosca y las condiciones productivas se alteran radicalmente.

Si a la medicina le importan los vivos; a la política, la funcionalidad del sistema; y a la seguridad, el cumplimiento de las obligaciones dispuestas por el Estado; a la filosofía y a la literatura lo que le preocupa es conocer la razón de esa metamorfosis que nos hace devenir en cifra a expensas de un proyecto de vida. O, dicho de otra forma: cuál es el sentido de nuestro paso por este mundo si es tan fácil borrarnos de un plumazo. A Saramago eso no se le escapa y avanzadas algunas páginas, jaquea a la propia muerte con el amor humano que nunca pudo entender haciéndola actuar de manera más amable y generosa. Para el autor, queda claro, el modo de vivir se estrecha al modo de morir.

Algunos pensadores de la actualidad, al analizar el efecto devastador de esta pandemia, profetizan el fin del capitalismo, considerando que este sistema económico y social ha invertido las prioridades y nos ha alejado significativamente de aquello que nos constituye como especie. No podemos saber a ciencia cierta si el pronóstico es acertado o no, pero lo que sí podemos chequear –y sobra evidencia- es que para cuidarnos del virus debemos potenciar lo que este orden mundial ha querido siempre de nosotros: que seamos individualistas, que estemos solos, que mantengamos la distancia, que temamos los contactos próximos y que abandonemos la emoción y el sentimiento que comunican los besos y abrazos que antes creíamos imprescindibles. Han señala que «la revuelta contra la muerte, la hipertrofia del yo y la ciega negación de lo distinto se condicionan y refuerzan mutuamente» (Han, Muerte y alteridad, 2018 [2012, p. 10). En las medidas adoptadas para protegernos se construye este perfil, lo vemos a diario, lo que no deja de ser curioso porque va a contrapelo de lo que esta muerte, igualadora y colectiva, quiere enseñarnos. Ella avasalla las clases sociales, neutraliza las diferencias articuladas por las mañas del poder y nos hace parte de una misma comunidad de víctimas, incluso a pesar de nosotros mismos.

La novela de Saramago comienza y termina igual: «Al día siguiente no murió nadie» (Saramago, 2005, p. 274). La frase coincide pero las circunstancias no. Al final del libro, aquello que era la predicción del horror que empezaba a instalarse, se transforma en la promesa de algo distinto: un futuro que puede llegar a escribirse con mayúscula y que dependerá de los sobrevivientes.


Fuentes consultadas

Han, B.-C. (2018 [2012). Muerte y alteridad. Buenos Aires: Herder.

Han, B.-C. (2019 [2009]). El aroma del tiempo. Un ensayo filosófico sobre el arte de demorarse. (P. Kuffer, Trad.) Buenos Aires: Herder.

Saramago, J. (2005). As intermitências da morte. Lisboa: Caminho. Traducción al español de Alfaguara."

terça-feira, 28 de abril de 2020

"Não tenho esse sentido do artista torturado. Para mim escrever é um trabalho" - O Mirante (15/08/1992)


"Reportagem de Joaquim António Emídio e Alberto Bastos
Texto publicado na edição de O MIRANTE de 15 de Agosto de 1992"
Pode ser recuperado e consultado aqui
em https://omirante.pt/textos-que-fizeram-historia/2020-03-12-Nao-tenho-esse-sentido-do-artista-torturado.-Para-mim-escrever-e-um-trabalho


"José Saramago esteve na Golegã a conversar com os leitores do seu concelho.
"Cada acto cometido à nossa volta, quer pelos nossos parentes, quer pelos nossos amigos, quer pelos nossos inimigos, influi de maneira decisiva na nossa vida. Os livros que eu escrevi, existem por esta razão muito simples: porque o meu pai foi para Lisboa quando eu tinha três anos. Se não fosse assim eu, provavelmente, tinha ido para a loja do senhor Vieira vender açúcar ou para a loja defronte vender chitas e riscados. Era agora o José Saramago da Azinhaga, digno cidadão, mas não existiam os livros que escrevi.".

José Saramago, esteve na segunda-feira, 10 de Agosto de 1992, nas piscinas da Golegã e falou de si e dos seus livros. Natural de Azinhaga, freguesia daquele concelho, o autor de "O Evangelho segundo Jesus Cristo", foi o principal convidado do FTM - Encontros de Arte Contemporânea.

Falou durante mais de duas horas para perto de uma centena de pessoas. Respondeu a perguntas, contou histórias e irritou-se por duas vezes com observações, a despropósito, de um espectador. Chamam-lhe vaidoso e escritor de livros chatos. A conversa começou por aí. Sobre a pluralidade que existe em cada um de nós. Sobre quem é o José Saramago. O autor visto pelos outros e o autor visto por ele próprio.

"Cada um de nós, fisicamente, é apenas um, mas contudo, se olharmos para dentro de nós, encontramos várias pessoas e o grande esforço que fazemos ao longo da vida é para que os outros nos vejam como um só. É o esforço para controlarmos a nossa pluralidade.".

Faz uma pausa, reflecte, e retoma a resposta. "Eu tenho uma péssima reputação neste país. Não porque tenha roubado ou assassinado, mas sou tido como uma pessoa antipática, presunçosa, complicada, orgulhosa. Aqueles que me querem mesmo mal, até dizem que eu sou muito vaidoso. O que eu posso dizer de mim é que, pelo menos, sou uma pessoa bastante coerente. Quase me apetece dizer que eu sou de uma coerência total. Não renego nada do que fiz.".

Saramago foi minucioso nas respostas, como é minucioso nos livros. Nunca se importou de se alongar até sentir que todos tinham compreendido exactamente o que ele tinha para dizer. Deu conselhos sobre leituras, confessou que está a ler George Steiner e o último livro de contos do Gabriel Garcia Marques e lembrou e citou outros escritores: Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco, Gil Vicente, Alexandre O'Neil.

"O Alexandre O'Neil dizia, com muita graça e com muita inteligência, dirigindo-se aos autores, aos escritores: "Não contem a vidinha. A vidinha não tem importância nenhuma". Eu trato de ir procurar os meus temas, não na minha própria vida pessoal, mas na visão que eu tenho do mundo, da sociedade, do homem, da história e da cultura. É aí que procuro os meus temas.".

Numa conversa com José Saramago era quase inevitável falar do livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e da polémica que causou (em Abril de 1992, o subsecretário de Estado da Cultura, Sousa Lara, vetou o livro para o Prémio Literário Europeu). Saramago reconheceu que a Igreja portuguesa foi bastante discreta relativamente ao assunto e considerou que a atitude de Sousa Lara, o seu censor, foi uma atitude a nível puramente pessoal.

Sobre o livro disse ser fundamentalmente um livro sobre a culpa. "A culpa do pai de Jesus, José, que tendo sabido, conforme se conta nos evangelhos, pela visita de um anjo, que Herodes ia mandar matar os meninos de Belém, não fez aquilo que era natural, que era bater à porta dos vizinhos e dizer-lhes para porem os filhos a salvo.".

Com a noite a arrefecer, arrefeceu também a conversa. Apesar disso o escritor ainda respondeu a algumas outras questões sobre a maneira como escreve, para quem escreve e qual a relação entre escritor e leitores. "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" foi o único livro em que Saramago contrariou o seu hábito de escrever apenas de tarde. A meio do livro teve um problema numa vista, estava em Roma e esteve em risco de cegar. Depois recuperou. Recuperou da vista e da escrita que praticou em ritmo intensivo. De resto, confessa, não dramatiza no acto de escrever.

"Não tenho esse sentido do artista torturado. Escrever é uma coisa que eu faço, da parte da tarde, sem romantismo nenhum. Para mim escrever é um trabalho. Um trabalho com a matéria. Um trabalho com a palavra. Não estou à espera que o Espírito Santo me venha segredar ao ouvido como é que eu vou escrever.".

Acrescenta que também não pensa nos eventuais leitores. "Também não escrevo para ninguém. A ideia de que o escritor tem em mente um público, é uma ideia que eu considero absurda. Não há um público para o autor. O que se estabelece depois entre o escritor e os leitores é o afecto. Afecto no sentido de que para o leitor, aquele autor é necessário. A grande tarefa do leitor não está em perceber a história que está a ser contada, mas reconhecer que em cada livro vem uma pessoa, que é o autor, que é preciso conhecer.".

Reportagem de Joaquim António Emídio e Alberto Bastos

Texto publicado na edição de O MIRANTE de 15 de Agosto de 1992"

sábado, 25 de abril de 2020

"A Noite" - Peça de teatro, 1979






"A Noite" - Peça de teatro, 1979





















Sinopse que pode ser consultada e recuperada na página da Fundação José Saramago


«Depois de ter feito jornais, escreveu sobre eles. Foi em “A Noite”, a primeira obra dramática de Saramago que o escritor dedica a Luzia Maria Martins, a pessoa que o “achou capaz de escrever uma peça”. Seria mesmo. A noite de que se fala nesta peça ficou para a história: de 24 para 25 de Abril. A acção passa-se na redacção de um jornal em Lisboa e autor avisa: “Qualquer semelhança com personagens da vida real e seus ditos e feitos é pura coincidência. Evidentemente.” Nem outra coisa seria de esperar. A ironia passa também pela história desta noite em que administradores e redactores entram em conflito. Uns a gritar que a máquina “há-de parar” e outros a defender que ela “há-de andar”. Quando o escreveu, Saramago já sabia que, para o bem e para o mal, a máquina tinha continuado a andar. “A Noite” chegou aos palcos em Maio de 1979 pelo Grupo de Teatro de Campolide. Com encenação de Joaquim Benite e direcção musical de Carlos Paredes, a peça contava, entre outros, com a participação de António Assunção no papel do chefe de redacção Abílio Valadares.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)