Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Recuperação da entrevista de Clara Ferreira Alves, originalmente publicada no "Expresso" (2/11/1991)



Recuperação da entrevista de Clara Ferreira Alves, originalmente publicada no jornal "Expresso", em 2/11/1991, e que agora, foi compilada numa colecção "Grandes Entrevistas da História


«No meu caso, o alvo é Deus»

Entrevista 
"Publicado esta semana, O Evangelho Segundo Jesus Cristo contém uma história que todos conhecemos. E contém cenas e afirmações que alguns séculos atrás teriam lançado o autor na fogueira, sem direito a sepulcro. O escritor toma para si liberdades que são a substância da criação, e comporta-se, na invenção do seu mundo, como Deus. Este é o evangelho segundo Saramago... 

– Achas que os teus leitores crentes podem perguntar: que direito tem um ateu confesso, um comunista, de vir reescrever a nossa religião? 
– Eu não sei se era legítimo, agora que o fiz, fiz. O que chega a parecer incrível é que, se nós imaginarmos que Jesus não é filho de Deus, a nossa civilização está assente sobre coisa nenhuma. 

– Há uma tese escondida, no romance? 
– A tese escondida é a de que eu digo, em primeiro lugar, que o cristianismo não valeu a pena; e em segundo, que se não tivesse havido cristianismo, se tivéssemos continuado com os velhos deuses, não seríamos muito diferentes daquilo que somos. 

– O livro contém afirmações que poderão causar reacções... 
– ... Nas consciências, nas consciências... 

– ... A mais forte talvez seja a do final, em que invertes a frase de Jesus, que acaba por dizer: «Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez». Jesus rebela-se contra um Deus ao qual os homens têm de perdoar. Aqui está a tese do livro. 
— Pode ser que não esteja aí, mas é aí que tudo se fecha, que tudo vai ter. Trata-se da criação de uma nova religião, que nasce do tronco do judaísmo, e de uma decisão de Deus que não está satisfeito com o pequeno espaço e o pequeno povo que governa e que pretende alargar a sua... 

— Base de apoio? 
— Base de apoio. E necessita de um sacrifício e de um mártir. E como resulta do encontro de Deus com Jesus e com o Diabo, no Mar da Galileia — e no meio de um nevoeiro que dura quarenta dias —, Jesus obriga Deus a revelar-lhe o futuro dessa religião. que vai nascer. E esse futuro é uma carnagem, sangue que corre durante vinte séculos. De facto, como o Diabo diz em certa altura, é preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue. Deus (se existisse), sendo omnipotente, tudo teria de fazer para o bem dos homens nesta única vida que temos na terra. É condição necessária do homem sofrer e fazer sofrer para receber um prémio que não se sabe qual seja, ou se se sabe, consiste na contemplação eterna da face do Senhor, o que custa rios de sangue, renúncias à vida, clausura, sacrifício. 

— Está aqui implícita uma crítica ao cristianismo e ao catolicismo. Mas não há nessas religiões nada de bom? E serão elas diferentes de outras religiões, monoteístas ou não, na sua obsessão pela culpa, o pecado e o sacrifício? 
— Eu diria que a crítica não está implícita mas explícita. No meu Evangelho, Jesus é o filho de Deus contrariado, ao contrário dos Evangelhos em que ele sabe e age como filho de Deus. 

— Este Jesus é um homem como todos os outros; e este Deus, como é que é? É Deus uma criação dos homens, e como eles ávido de sangue, ou são os homens uma imagem de Deus? O Deus do livro é o Deus da convicção religiosa, enquanto o teu Deus pessoal não passa de uma invenção humana. 
— O do livro é um Deus derivado directamente de Jeová. 

— Tu não acreditas na existência de Deus, portanto Deus não passa de uma criação humana. Mas este Deus não servia o artificio ficcional e tiveste de ir buscar o Deus dos crentes, condição sine qua non para a existência da história narrada. No fundo, uma refutação de Deus sem dele prescindir. 
— Deus é uma criação humana e, como muitas outras criações humanas, a certa altura toma o freio nos dentes e passa a condicionar os seres que criaram essa ideia. 

— Poderíamos dizer o mesmo de todas as revoluções. 
— É inevitável, as religiões, como as revoluções, devoram os seus filhos. Há nas religiões um contínuo processo de devoramento em que Deus é como um Moloch que necessitasse do sacrifício humano. Imaginando que Deus existe — e não lhe concedo o beneficio da dúvida —, Deus não pode, por boa lógica, criar seres para os destruir. O cristianismo na sua derivante católica, que é a que conhecemos melhor, é uma história de sofrimentos contínuos. 

— Insisto: nas religiões monoteístas, é uma prática comum. 
— São todas, com excepção do confucionismo, que não é bem uma religião mas um sistema de valores, uma filosofia. O que não consigo perceber é a necessidade do sofrimento do corpo para salvar a alma. Abdicações, renúncias, cilícios, tristezas, amarguras, perseguições, vale de lágrimas. Veja-se a expressão, vale de lágrimas. 

— Se Deus é uma criação humana, o pecado não será a consequência da nossa necessidade de culpa? — É uma das questões do livro. Donde vem esse sentimento de culpa? Fomos educados na ideia de um pecado original que manchou para todo o sempre a espécie humana, cristã ou não. E assim se introduz na mente das pessoas um código sobre o que se permite ou não. Assim se cria a administração das almas, os delitos e os castigos de Deus, o código penal das religiões. O sistema tem o seu equivalente na sociedade civil, na existência de códigos de comportamento. 
Não se pode desejar a mulher do próximo — a formulação é machista, não diz que não se pode desejar o homem da próxima — como não se pode circular pela esquerda. 

— Tentas aplicar a lógica à religião e à fé? É ilógico. 
— Eu podia ter escrito um livro como este, questionando todas estas coisas de um ponto de vista apenas lógico, elementar; talvez nem mereça o nome de lógica, mas de simples bom senso. 

— Nada há de bom nas religiões? Se descontarmos a arte sacra, uma óbvia vantagem estética, não terá havido casos em que as religiões permitiram a sobrevivência e a resistência de vítimas? Veja-se o judaísmo, que todos os judeus não hesitam em afirmar ter sido o cimento da sua identidade e existência como povo, e da resistência às perseguições e às tentativas de aniquilação. 
— Mas as religiões tanto servem para sobreviver às perseguições como para fazer perseguições, e os perseguidos vão por, seu turno refugiar-se noutra religião que fará outros perseguidos. É um jogo entre poderes que se debatem em circunstâncias históricas diferentes. Veja-se as cruzadas, uma crença contra outra crença, uma guerra não entre um Deus e outro, Alá, mas entre dois livros, a Bíblia e o Corão. Do ponto de vista do meu bom senso é absurdo. 

— Racionalismo «voltairiano» ou marxismo-leninismo? E aí apetece-me dizer que o comunismo teve a sua teologia e a sua fé, os seus dogmas. E teve e tem as suas vítimas e perseguições. 
— Não creio que tivesse uma teologia, para encontrar vítimas não é necessário ir ao marxismo-leninismo ou ao cristianismo. Tens vítimas na exploração colonial, onde é indiferente se o explorado ou explorador é marxista-leninista ou católico. O meu racionalismo tem uma raiz «voltairiana». Esse cepticismo, essa ironia e essa espécie de compaixão pela loucura dos homens, vêm daí. Seria mais cómodo acreditar em Deus, mas escolhi o lugar da incomodidade. Tal como entre os crentes havia e há o «non possumus», também eu posso dizer que sou agnóstico, se ateu for uma palavra demasiado dura. 

— Vou fazer de advogado do diabo: primeiro, protegeste-te com a forma do romance do facto de estares a tentar reescrever uma religião. Ser escritor dá-te uma cobertura que o ensaísta não teria. Segundo, o projecto é ambicioso e pretensioso. Terceiro, é uma operação de marketing, depois de se saber o que aconteceu ao Salman Rushdie com Os Versículos Satânicos. 
— Dizer que tentei encontrar uma protecção no facto de ter escrito um romance e não um ensaio ignora uma circunstância: não poderia, porque não saberia, escrever esse ensaio. Aqui trata-se apenas de alguém que tendo lido os Evangelhos encontrou neles outras leituras sustentadas por alguma lógica. Um teólogo não escreveria um romance e eu não escreveria senão um romance. E penso ter chegado a resultados do ponto de vista estilístico e, até, da própria capacidade de persuadir pela via do romance. Neste livro, não se trata de fazer puras afirmações provocadoras mas de criar uma situação humana concreta, aceitando as consequências do que vai acontecendo e assumindo todos os riscos, quer o narrador, quer o autor, quer as personagens. Quanto a ser pretensioso, é possível que sim, talvez haja quem diga que não cheguei onde queria, mas não é isso que eu creio, e fiz exactamente aquilo que queria. 

— Terias a coragem de escrever um livro destes dentro da religião islâmica? 
— Talvez não tivesse essa coragem e sobretudo (peço desculpa por ter de chamar a atenção para este ponto) por causa de todas as diferenças — decerto todas elas favoráveis a Salman Rushdie — entre o livro dele e o meu. Há uma essencial que é bom que fique clara desde já: no livro de Rushdie, o alvo é Maomé. No meu caso, o alvo é Deus. E tão absurdo, para mim, pensar que quando se muda de religião se deixa para trás um deus e um diabo e uns infernos e uns paraísos e se adquire em estado novo outro deus, outros demónios e outros paraísos. E cada vez que o poder de Deus se restringe ou amplia, o poder do Demónio restringe-se ou amplia-se sem que ele tenha de fazer nada. É tão absurdo! Quando uma religião desaparece — e têm desaparecido muitas —, ao desaparecerem as entidades que representavam nessa religião o Bem e o Mal, desaparecem também o bem e o mal caracterizados por essa religião? 

— O Bem e o Mal, ou, como disseste, «fazer bem aos homens»: o que é que isto significa? O comunismo não era uma doutrina do bem contra o mal do capitalismo, não queria promover o bem entre Os homens? 
— O marxismo, não creio que se tenha apresentado nunca como o Bem. Essas categorias não são úteis quando entramos em questões como o marxismo, ou a Revolução Francesa. Eu lembrava-te a História do Cerco de Lisboa, onde a certa altura se apresenta a palavra não para negar qualquer coisa que estava antes. Os instrumentos para urna transformação, como é o caso do marxismo, representam um não, o não é o que põe em causa, rejeita, questiona. O que tem acontecido sempre é que esses nãos acabam por converter-se em sins e acabam por converter-se em sins no sentido cada vez menos positivo que a palavra sim pode assumir numa certa fase. A Revolução de Outubro foi o não ao czarismo, ao poder absoluto. Houve o momento da esperança, e depois este não transformou-se em sim, o sim que leva a burocracia, ao autoritarismo, a tudo de que deu abundantes provas a abortada tentativa de estabelecer o socialismo na União Soviética. O não inicial, mesmo que já contivesse os germes do que aconteceu depois, ficou num sim, ao qual foi preciso outra vez dizer não. 

— Uma dialéctica. Houve um momento de pureza na revolução russa? 
— Claro, também houve um momento de pureza na nossa revolução do 25 de Abril.

— A pureza não te horroriza? 
— Tu é que lhe chamaste pureza. Eu diria que há momentos em que a esperança ocupa o espaço todo. 

— Na União Soviética, quem é responsável pela perversão da ideia? Os homens, que nunca sabem servir as ideias? Ou aqueles homens em particular, que se enganaram todos e enganaram muita gente? 
— Eu sou tão pessimista (que acho que a humanidade não tem remédio. Vamos de desastre em desastre e não aprendemos com os erros. Para solucionar alguns dos grandes problemas da humanidade, os meios existem e contudo não são utilizados. 

— Que meios? Uma outra utopia? Uma doutrina? Uma ideia, ainda e outra vez? Não é altura de sermos práticos e concretos? O colapso do comunismo afectou a tua crença no comunismo? 
— Não afectou, serei dos poucos. Dantes, os comunistas eram milhões e milhões e milhões e de repente parece que são algumas centenas de milhares. Podes dizer que se trata, afinal de contas — eu que estou aqui a fazer a crítica das crenças —, de qualquer coisa em que persisto em acreditar. Acredito na possibilidade de o homem ser feliz, de viver em harmonia. 

— No comunismo, tal como nas grandes religiões, há uma espera, um tempo que não é bom e que se sacrifica ao futuro, que bom será. Uma espera do paraíso, seja ele depois da morte ou os amanhãs que cantam. Há sempre uma vida depois da morte. No comunismo há ainda uma redenção... 
— Bom, eu não lhe chamaria exactamente redenção, mas aceito. Eu chamar-lhe-ia humanismo radical, permitindo a harmonia nas relações entre os homens, na sua infinita diversidade. 

— O tempo das vacas gordas vai acabar? 
— Não sou eu quem o diz, é o Governo. 

— Teriam os comunistas administrado melhor o país? Veja-se o triste exemplo do Leste, um desastre ecológico, um desastre económico, repressão ou supressão das liberdades e garantias. Como se pode defender isto? Ou os soviéticos não eram «bons» comunistas, ou não eram sequer comunistas, e por isso é que falharam? [...] São exercícios e subtilezas que me ultrapassam. E os que ainda são comunistas dizem que o comunismo é bom e os homens é que são maus? É o mesmo que dizer que Deus é bom e os homens é que são maus. 
— Não entro nesse debate de serem comunistas ou não comunistas, chego à conclusão de que não eram, mas, a posteriori, é sempre fácil fazerem-se essas verificações. O que vou dizer soa a atitude idealista, ou ,,ignifica pôr o carro à frente dos bois: não se faz socialismo sem uma mentalidade socialista. E não se faz socialismo na mentira, na falta de respeito, em situações em que a liberdade ou a falta dela é condicionada por nomenclaturas ou privilégios de uma classe que controla... 
— Sem querer entrar pelo foro íntimo, não terá havido um momento um que tu e o dr. Cunhal olharam um para o outro e concluíram que a nomenklatura que o partido apoiava era uma enorme perversão da ideia comunista? 
— Eu não sei se ele chegou a alguma conclusão, e nunca olhámos um para o outro numa situação em que devêssemos discutir isso. Para mim, isso é claro desde há anos. E, de facto, a União Soviética não é nem nunca foi, para mim, uma referência política ou ideológica. Não é nada que eu já não tenha dito, e embora estas coisas não provem mito, a verdade é que depois do 25 de Abril não corri lá, e antes disso nunca tinha saído de Portugal. A única viagem que fiz à União Soviética foi há três anos, em plena perestroika. E quando há bocado te falei da mentira não foi por acaso, mas porque tinha em mente um caso concreto. Durante a guerra de 39-45, quando foi descoberto o massacre de Katyn, dos oficiais polacos, a informação que todos tínhamos é que tinham sido assassinados pelos nazis. Recentemente, a União Soviética veio reconhecer que tinha assassinado essa gente. Não posso aceitar que me mintam desta maneira, mesmo em nome das sujidades e sujeições da política. Mas aqui é mais grave, trata-se de um país que era uma referência ideológica, o «farol do futuro». 

— O massacre de Katyn é uma gota de água nos massacres instituídos pela União Soviética. E o gulag? E a Hungria? E a Checoslováquia? 
— Claro está. Mas a gota de água continuava no segredo e só recentemente foi revelada. E há a Hungria, a Checoslováquia, o gulag e tudo isso. E há coisas mais recentes e imperdoáveis, que é o facto de a União Soviética, por necessidades internas e pelo descalabro em que o país se viu, ter abandonado países e movimentos que cresceram e se desenvolveram à sombra do apoio e auxílio da URSS. Caso de Angola, Moçambique e Cuba, entre outros. Deixou cair povos em cujas consciências pôs esperanças e algumas realizações. 

— Essas dúvidas que te assaltaram nunca te levaram, como levaram outros intelectuais, a sair de um PC que era um fiel amigo da União Soviética? Não te sentiste mal dentro do partido? 
— Se alguma vez me tivesse sentido mal, tinha saído, e se um dia me sentir mal, saio. As minhas discordâncias, que são sérias, e nalguns casos sobre pontos essenciais, não foram suficientes para abandonar o partido. Creio que por causa da força da minha própria convicção, e sem esforço. É o único partido onde a minha convicção está à vontade e tem suficiente resposta. 

— Não estarás como o homem que não ousa prescindir da ideia de Deus, ou de uma religião, porque tudo seria mais difícil? Não terás medo de ficar órfão? 
— Não, a minha convicção é compensada por um cepticismo sólido. 

— Dir-se-ia que nunca se pode levar a lucidez às últimas consequências ou o mundo tornar-se-ia um lugar insuportável? 
— Admitamos que essa minha lucidez me levava a retirar-me do partido, de certa maneira eu não tinha resolvido nada. Perguntas-me o que resolvo dentro dele e digo-te. Chego a uma relação em que, apesar das discordâncias, existe bastante harmonia entre o que penso e o que o partido, como projecto de sociedade, contém. Não tenho medo de perder a bengala, a referência, a missa laica, mas considero que o partido tem sido um agente de intervenção na vida do nosso país antes e depois de 25 de Abril, e pode ser um instrumento de transformação da sociedade portuguesa. Mas estou consciente das limitações do partido, sem falar das minhas, e das limitações que o actual estado de coisas europeu e mundial põe, a prazo, a repetir ou renovar uma tentativa que, eventualmente, poderia vir a falhar de novo. O que não posso aceitar, e isso é visceral, é que o capitalismo seja a solução dos problemas do homem. Criará grupos, estratos, camadas prósperas, e criará desfavorecidos, misérias, carências, porque vive à custa dessas misérias e carências. 

— Onde estavas no momento do golpe de Moscovo e que sentiste? Há quem diga que ficaste muito silencioso. 
— Pensei o que continuo a pensar. Eu estava longe, a 40 km de Lisboa, a terminar este livro [...]. As [minhas] declarações estão [nos] •jornais e são muito claras: condenação do golpe, desacordo total em relação à posição que o partido tomou. O que não me achei foi tão importante que viesse a Lisboa fazer declarações à imprensa, à rádio e à televisão. 

— Sendo um escritor que faz incursões no tempo, e no passado, que consciência tens do tempo, do teu tempo histórico? Não falo da passagem do tempo. 
— Sim, eu sei. Não tenho uma ideia nada científica ao dizer isto, como não a tive nas coisas que disse antes. Muitas vezes são intuições, outras são convicções, suposições... Agrada-me pensar que o tempo não é essa diacronia, essa sucessão de momentos, agrada-me pensar no tempo como uma espécie de imensa tela onde se projectam se fixam os acontecimentos. E como se eu visse os acontecimentos projetados numa superfície única, onde tudo estivesse ao lado de tudo, onde tinhas a batalha de Maratona e a chegada do homem à Lua, ou a Clara Ferreira Alves e a Lucrécia Bórgia [risos]. 

— Obrigada. O teu livro começa com uma descrição de uma gravura de Dürer da crucificação onde está contida essa ideia de que tudo está ao lado de tudo. E como se essa gravura ilustrasse a tua noção de tempo. Estás contente com o livro que escreveste, ou estás mais contente do que com outros livros? 
— Estou tão contente como o mais contente que estive e com certeza mais contente do que algumas vezes estive. Dir-te-ia mesmo que este livro me dá um contentamento maior do que qualquer dos outros. A aposta era mais alta e tenho a impressão de não a ter perdido. Não direi que a ganhei, mas acho que não a perdi. 


Excertos da entrevista de Clara Ferreira Alves a José Saramago - Via Revista Contraste (06/1986)



(Aqui, para consulta, link original da publicação, 


"Em Junho de 1986, a revista Contraste publicava uma entrevista feita por Clara Ferreira Alves a José Saramago. O escritor tinha já duas obras muito aclamadas - Memorial do Convento e Jangada de Pedra - mas encontrava-se ainda muito longe do Prémio Nobel. Estava, se assim se pode dizer (e suponho que sim) a dar os primeiros passos da caminhada que o havia de lá levar.

Já tinha 50 anos de carreira. Mas o reconhecimento tardara a surgir. Nesta entrevista, Saramago falou principalmente sobre os seus métodos e as suas convicções enquanto escritor. Pouca gente se lembra desta publicação e menos gente ainda se lembrará deste texto. Por isso mesmo pareceu-me boa ideia divulgá-lo, com a devida vénia.

Começando pelo princípio...

«Lembro-me da minha primeira obra invisível, duplamente invisível. (...) Entrávamos no cinema para ver os cartazes - coisas que dantes se faziam e hoje não! - e lembro-me de que eu "inventava" (...) as histórias dos filmes através dos cartazes, sem os ter visto.»

«Aos 25 anos publiquei um romamce. Foi o editor que sugeriu o título e chamava-se, horrorosamente, Terra de Pecado, o que estava na linha dos filmes do Royal. E não era um romance à francesa, de cento e tal páginas, não, era um romance com trezentas e tal páginas. Acabou a sua existência nas padiolas, que, naquele tempo, tiveram a sua função cultural. Você já não se lembra disso.»

Clara Ferreira Alves (C.F.A.) - E quem é que pecava? A senhora?
José Saramago (J.S.) - A senhora, é evidente! Todas as senhoras pecam, com senhores, às vezes com outras senhoras... (Risos). Não é que me envergonhe de Terra de Pecado, mas achei que o livro não tinha nada que fazer na minha lista bibliográfica.

C.F.A. - Já pensou em reescrevê-lo?
J.S - Jamais reescreveria um livro. Um livro é um livro, pertence ao tempo da pessoa que o escreveu nesse tempo. Não posso retocar a minha imagem de 1947.

(...)

C.F.A - Esteve tanto tempo parado porquê?
J.S - É difícil responder. Se quisesse compor a minha imagem diria que a primeira publicação foi precipitada, que passei esses anos entregue à tarefa de viver primeiro para escrever depois. Mas é claro que não foi nada disso, não acredito que ninguém vá viver primeiro para escrever depois, é léria. (...) Ao viver o suficiente acaba-se por se ter qualquer coisa para dizer, que acho que sou capaz de dizer. Mas toda a minha vida literária considero-a fruto de circunstãncias. Se por volta dos 39, 40 anos não tivesse tido determinado choque sentimental talvez não tivesse escrito Os Poemas Possíveis. Com outro choque sentimental, talvez não es tivesse escrito assim.

(..)

C.F.A. - Em 75, o José Saramago...
J.S. - ... era director-adjunto do Diário de Notícias, fui-o de Abril ao 25 de Novembro e o escritor que eu hoje sou também resulta muito das circunstâncias. Se não tivesse vindo o 25 de Novembro, talvez não tivesse escrito o Levantado do Chão, nem o Memorial do Convento, nem O Ano da Morte de Ricardo Reis, embora seja impossível garantir isto. O escritor que hoje sou é um produto do 25 de Novembro, que me colocou até hoje na situação de desempregado. Achei-me, naquela altura, posto na rua, sem esperanças de encontrar emprego porque o meu empenhamento no DN me tinha queimado. (...) Então disse para mim: tens uns livritos escritos, tens a necessidade de escrever certas coisas, ou continuas a procurar emprego e a ser um escritor de fim-de-semana, ou então arricas.

(...)

C.F.A - Com que idade começou a ter uma consciência política?
J.S. - Com 20 e alguns anos, perto dos 30. Claro que empresta-se a casa para uma reunião da qual nada se sabe, e depois vai-se fazendo a ligação à prática de certos actos ditos subversivos, até chegar à militância. É melhor não falar porque nestas coisas seria uma história como as outras e há sempre alguém que me poderia dar lições de modéstia e descrição.

C.F.A. - O Saramago é um escritor que conheceu um êxito raro em Portugal e lá fora, sobretudo com Memorial e repetido em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Esse êxito não ameaça a sua modéstia?
J.S - Se o êxito tivesse vindo mais cedo talvez tivesse achado que tinha muito tempo de vida para gozar a falta de modéstia. Sou tão pouco modesto como era dantes, não creio ser um exemplo de modéstia. Só que como continuo um pouco desligado das coisas, posso fazer as vezes de uma modéstia praticante, militante. Acontece que não tenho as formas óbvias de vaidade. Talvez tenha outras. O que me ajuda a equilibrar tudo isto é a consciência muito aguda da relatividade das coisas, da sua pouca importância. Por outro lado, sinto a escrita, a actividade literária, como uma espécie de exercício na corda bamba, onde depois de um êxito nos espera o falhanço. E também porque para mim o livro mais importante é sempre o último, o que está mais próximo. (...) Amanhã pode sair um livro que não seja tão bom e lá vão dizer que Perdigão perdeu a pena, depois de ter subido tão alto.

C.F.A. - Podem dizer o contrário. Como é a sua relação com a crítica literária?
J.S - Tenho íntima consciência do que faço, não toda a consciência da bondade do que faço, embora possa dizer que este livro é melhor do que aquele. Estava tão certo da minha necessidade de escrever algumas coisas que a opinião alheia só me poderia trazer ou a confirmação do que achava ou coisas que não me interessavam. Claro que gosto que me façam festas.

C.F.A. - E como criador, não tem as angustiazinhas existenciais?
J.S. - Não me vejo ao espelho a escrever e não gostaria que alguém estivesse a olhar para o espelho onde eu estivesse reflectido a escrever. Não mitifico a escrita por algumas razões. Por exemplo, gosto tanto de pintura e sou incapaz de fazer um boneco, um desenho. Não mitifico, por isso, o pintor, ou o músico. O mesmo para o escritor.

(...)

C.F.A. - Escreve à máquina?
J.S. - Numa velhíssima Hermes.

C.F.A. - Já pensou em escrever num computador?
J.S. - Já me falaram nisso mas eu preciso da minha máquina, daquela. Está tão velha que quando vai para a oficina o mecânico tem de fabricar as peças que faltam porque já ninguém as fabrica. Deve ter aí uns 40 anos. Já tem as teclas marcadas, não marca espaços...

C.F.A. - Escreve noite dentro? De manhãzinha?
J.S. - Não escrevo a altas horas, no silêncio da madrugada. Escrevo a horas normais, quando uma pessoa que tem todo o tempo para trabalhar escreve. Não faço noitadas. Tenho um método de trabalho regular e tenho a impressão de que resulta.

C.F.A. - É portanto metódico...
J.S. - Metódico e pontual.

C.F.A. - Escreve em casa, nos cafés?
J.S. - Nos cafés, nem pensar nisso! Só sei escrever em casa no ambiente da casa, com as coisas nos seus lugares, a ouvir os rumores do prédio, da rua, com a luz do dia. Em férias sou incapaz de escrever uma linha. Sento-me de manhã à máquina e não sai nada.

C.F.A. - Nunca sentiu que era incapaz de preencher a célebre página em branco?
J.S. - Insisto o meu bocado e se não resulta não insisto mais. Outra solução é ir-me deitar. Durmo um quarto de hora, meia hora, e o problema resolve-se por si enquanto estou a dormir.

(...)

C.F.A. - Durante a adolescência, tendo nascido num ambiente nos antípodas do ambiente intelectual, já tinha consciência da sua diferença?
J.S. - Isso acontece sempre na adolescência, ter consciência das diferenças de cultura, de instrução. Tem-se uma visão do mundo provisória e insubstituível. Há uma coisa que me ajuda a manter uma relação com aquilo de que me achava diferente, que é o mundo da minha infância, ligado às minhas origens, a pessoas ou coisas. Mantive com os meus avós maternos uma relação para além de todas as diferenças de ordem cultural ou intelectual. E a consciência da diferença não levou nem leva a rupturas: sempre fui deles e sempre foram meus.

(...)

Depois, a propósito do livro que preparava, A Jangada de Pedra: «em termos de projecto é tão coerente como os anteriores, mas acho que corro o risco que toda a gente corre».

C.F.A. - É como um jogo, esse risco?
J.S. - Não, que ideia... Um comprador de lotaria não corre risco nenhum, não arrisca nada, só perder o dinheiro com que a comprou. Não sou um jogador, nunca joguei nada, excepto "King" durante algumas semanas e algum xadres, quer dizer, empurrei as pedras. Fazer da criação um jogo é complicar as coisas. Isso pode ser interessante para os outros, não para mim.

C.F.A. - O Saramago, de facto, nunca se fez interessante, no mau sentido...
J.S. - Nunca me fiz interessante antes, não me faço interessante agora. Mas, agora, é mais difícil de garantir porque estando os projectores cá virados para esta lado, qualquer gesto pode ser assim interpretado. Tendo a viver com a naturalidade de sempre. Aqueles que me conhecem mais de perto sabem que sou a mesma pessoa, digo as mesmas piadas.

C.F.A. - Nos seus romances, escapa a essa moda temível do confessionalismo agudo, que deu em tantos autores portugueses deste tempo. O que pensa da mania?
J.S. - Acho um pouco tonto, a vida dos outros não me interessa nada. Interessa-me saber aquilo que é impossível saber, aquilo que falta saber. Vivemos num mundo de tal modo vertiginoso, de tamanha complexidade que, em rigor, dele dela nada sabemos. Não sabemos em que mundo vivemos.

(...)

C.F.A - Ao aliar a ficção à História acha que a ficção pode funcionar como correctivo da História?
J.S. - O que vem a ser a História? As viagens na História comparo-as com as viagens no espaço. Eu tenho aquele livro da Viagem a Portugal e agora poderia escrever outro em que teria como preocupação não passar por nenhum daqueles lugares do primeiro livro. No tempo pode e deve fazer-se a mesma coisa.

Prossegue depois falando de História, a propósito de Memorial do Convento:

J.S. - De facto, todo o romance é um romance histórico. Agora estamos aqui, neste lugar, e se daqui a 100 anosalguém escrevesse um romance que nos tomasse como personagens, aqui, com estes conflitos, estas experiências, estaria a escrever um romance histórico só porque se projectava num tempo anterior? A partir de que altura é que o passado passa a ser História? Eu não sei o que é o presente. Estamos aqui há mais de uma hora e faço a mesma diferença entre o que se passou há uma hora e o que se passou há 100 anos. Tenho idêntica dificuldade em reconstituir ambos os momentos. Quanto ao futuro, ele é apenas tempo não vivido. Agora o presente, como fixá-lo? Ele é tão fluido.

C.F.A. - Quando está a escrever um livro tem pressa de o acabar?
J.S. - Vivo em angústia, tenho mau viver. Vivo no silêncio, é um não estar cá, um modo de não estar cá.

C.F.A. - Tem dúvidas sobre o que escreve?
J.S. - Não, sou suficientemente inconsciente.

(...)

C.F.A. - Como é que pode dizer que é inconsciente? Já sabe o que vai escrever nos próximos anos... Será que essa é ainda uma maneira de não correr riscos? Ir para o Alentejo escrever, quando ficou desempregado, foi um risco? Ser militante do PC é um risco?
J.S. - Tenho pouca imaginação para correr riscos. Quanto ao risco de ser militante do PC resumo-o assim: dantes diziam: ele é bom mas é comunista. Agora dizem: ele é comunista mas é bom!"

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Citador #21 ... o cão Achado e o oleiro Cipriano Algor ... as lágrimas presentes

... o cão Achado e o oleiro Cipriano Algor 
... as lágrimas presentes
... um que as chora, o outro que as seca

Citador #21
em, "A Caverna"
Caminho
Página 263


(...) "Do que Cipriano Algor pensou não merece a pena falar porque já o tinha pensado em outras ocasiões e desse pensar se deixou informação mais do que suficiente. Se algo de novo aqui aconteceu foi ele ter deixado escorregar pela cara abaixo umas quantas custosas lágrimas, há um ror de tempo que elas andavam lá represadas, sempre vai não vai a ponto de se derramarem, afinal estavam prometidas para esta hora triste, para esta noite sem lua, para esta solidão que não se resignou. O que realmente não foi nenhuma novidade, porque já tinha sucedido uma outra vez na história das fábulas e dos prodígios da gente canina, foi ter-se chegado o Achado a Cipriano Algor para lhe lamber as lágrimas, gesto de consolação suprema que, em todo o caso, por muito comovente que nos pareça, capaz até de tocar os corações menos propensos a manifestações de sensibilidade, não nos deveria fazer esquecer a crua realidade de que o sabor a sal que nelas estão tão presente é apreciado em grado sumo pela generalidade dos cães." (...) 

Lena Gal, artista plástica, a exposição "O feminino da escrita de José Saramago"

(Artista Plástica, Lena Gal - "Mulheres Marias", 116*89 - 
da exposição "O feminino da escrita de José Saramago") 

Informação, recolhida neste link, a propósito da exposição, aqui
"A exposição de pintura é inaugurada no próximo dia 25 de Setembro no Centro Municipal de Cultura, em Ponta Delgada, podendo ser visitada até 23 de Outubro.
São 25 quadros, 21 acrílicos sobre tela e 4 desenhos, onde a artista refaz por outra via que não a da palavra, as imagens sobre o feminino sugerido pela escrita de Saramago – escrita que sempre manteve um diálogo muito próximo com as artes plásticas e que já foi motivadora de outras trabalhos.
Como refere Pedro Fernandes de Oliveira Neto, estudioso da obra de José Saramago, no texto introdutório à exposição, o trabalho de Lena “reúne muitas peculiaridades: não somente porque estamos diante de mãos femininas já prendadas na arte da invenção de outras maneiras de ser mulher, mas porque a artista se encontra motivada em simultâneo pela escritura (…) ensaística e pela romanesca, extraindo desse encontro figurações que são síntese e limiar de uma acção interpretativa”.
“O Feminino na escrita de José Saramago” é fruto do contacto com o livro homónimo de Pedro Fernandes de Oliveira Neto e com a obra do escritor português, onde a artista sentiu um elo forte entre as personagens saramaguianas e a sua linguagem plástica, a sua pintura feminina e as mulheres reais da sua própria história de vida.  Lena Gal diz ter identificado a mesma força, os silêncios e os sentidos do olhar, a intuição, o amor, a sensualidade, a denúncia de casos de violência e do assédio sexual, a cumplicidade feminina do despertar para a consciência do ser mulher."

Consultar também, http://www.casalenagal.com/

Banda Sonora Original de "Blindness" - Marco António Guimarães (Quinteto Uakti) - "Drama 3 M1"

(Banda Sonora do filme "Blindness")


Marco António Guimarães - Blindness OST - "Drama 3 M1"

"Uakti, a Brazilian instrumental quintet formed in 1979, (Aguas de Amazona, Mapa & I Ching) and heard on Paul Simon's album The Rhythm of The Saints, provide this evocative score. Julianne Moore and Mark Ruffalo star in the highly anticipated Blindness based on the internationally best-selling novel by Nobel Prize winner Jose Saramago. From Academy Award® nominated director Fernando Meirelles (The Constant Gardener, City of God) comes the compelling story of humanity in the grip of an epidemic of mysterious blindness. The journey shines a light on both the dangerous fragility of society and the exhilarating spirit of humanity. Blindness has a screenplay by Tony Award® winner Don McKellar and features and ensemble cast that includes: Julianne Moore (Far From Heaven, The Hours) and Mark Ruffalo (Zodiac, Reservation Road), with Danny Glover (Dreamgirls, The Color Purple). Blindness recently debuted to critical acclaim at this years Cannes Film Festival. It opens the Toronto Film Festival this September. U.S. nationwide opening is October 3rd."


Anabela Mota Ribeiro entrevista Pilar del Río - Público (15/11/2009)

"Pilar del Río - A sorte é sermos os dois tão transgressores, tão rebeldes"

(fotografia de Enric Vives-Rubio)


Aqui, link via jornal Público, em http://www.publico.pt/sup-publica/jornal/pilar-del-rio-a-sorte-e-sermos-os-dois-tao-transgressores--tao-rebeldes-18147924

Aqui, link via site da entrevistadora, em http://anabelamotaribeiro.pt/pilar-del-rio-85027


"Pilar del Río"
"Mesmo depois de ser Pilar Saramago, ela continuou a ser Pilar del Río. Mesmo depois de ter abdicado em favor do talento dele, do projecto dele, continuou a ter identidade própria, vida própria. Aparentemente vive em função dele. Mas não.
É certo que abandonou o seu projecto pessoal, aquele que existia até José, para se tornar a tradutora dele, a assistente dele. Sem custo? “O Nobel complicou um pouco as coisas. Foi um período tão agitado que não era possível conciliar tudo. Eu acompanhava-o sempre. Ele não podia ir à América sozinho, ou a outros sítios”.
Mas o Nobel foi década e meia depois de ela ter chegado. Tanto tardou em chegar, escreveu ele. Entretanto ela já tinha percebido que é habilidosa para a escrita, mas não talentosa. Que o talento é dele. Com maiúscula. Era jornalista. É. Trabalha ainda para uma rádio espanhola, escreve artigos eventuais. “A terceira entrevista que cancelei, para um jornal de domingo em Espanha, (uma delas foi com a Graça Machel), deu-me tanta raiva que deixei de as fazer. Talvez tenha feito uma a Norman Mailler, mas sem continuidade”.
Gere a máquina. Ocupa-se da Fundação. Levou-o para Lanzarote. Organiza as casas de Lisboa e Madrid. Agarra-lhe pelos colarinhos e não o deixa morrer, escreveu ele. Sorri e faz o jantar. Faz telefonemas. Dá-lhe espaço para trabalhar. Tratam-se por cariño. Mas também pelo nome próprio, muitas vezes.
Fala-se muito da influência de Pilar em Saramago. Não apenas na evidente influência na vida pessoal, mas no curso da carreira do escritor. Ela recusa a sua importância, reage de forma virulenta. De certo modo, reage como ele. São muito parecidos.
Foi isso que perceberam quando se conheceram. Tarde na vida dele, escreveu ele, e tão a tempo. Como adiante se diz, ela não tem ainda a idade que ele tinha quando a conheceu. Pilar tem quase 60 anos, tem ainda a vida pela frente. Há uma vida para trás. É dessa que se fala nesta entrevista. Com Caim por perto.


Lê-se em Caim: “Os tempos do jardim do éden (…) foram-se esfumando na memória até aparecerem como inventos não vividos, como algo que teria sido outra vida, outro ser, outro diferente destino”. No seu caso, há um destino anterior a Saramago.
Todos temos a sensação de experiências não vividas, de memórias que não são nossas, mas que fomos assumindo. Eu devo ter menos imaginação que isso... Não tenho a percepção de [ter tido] uma vida anterior. Creio que tudo se encaminhou para chegar a este ponto. Tenho um fio condutor, desde que nasci, em 1950.

Quem era essa que está para trás, e que não conhecemos, e que veio dar a esta que é agora, e que conhecemos?
A maioria das minhas colegas de escola cumpriu o seu destino profissional, com êxito ou normal; sobretudo cumpriu o seu destino de esposa burguesa, bem instalada, com filhos loiros. Desde cedo soube que isso não me interessava. Porque me parecia que o mundo era muitíssimo maior. Houve um momento em que o mais sublime que podia encontrar era a religião. Ser missionária, ajudar outras pessoas, outras civilizações, outras culturas. Depois cresci, descobri a literatura, percebi que o mundo tem presente, passado, futuro, e que tudo pode estar em nós. A ler, não tenho necessariamente que ir aos sítios, posso trazer outros mundos até mim. E sempre fui recusando a ideia da mamã burguesa, da dona de casa burguesa...

Porquê essa recusa tão veemente?
Entrei cedo para a política, para a militância, para o jornalismo, juntei-me à revolta estudantil. As razões da recusa: [a vida burguesa] parecia-me uma perspectiva curta. Sou a mais velha de 15 irmãos. Aprendi uma frase de Jesus Cristo: “Quem é a minha mãe? Quem são os meus irmãos?”. Nunca me atraíram os laços biológicos tanto como os laços humanos. Estar em contacto com as pessoas pelas afinidades.

Fale-me da relação com os seus 15 irmãos, com a sua família.
A minha mãe estava sempre grávida, e eu fui sempre uma segunda mãe. Ia à escola, apenas, fazer os exames, porque passava muito tempo em casa a ajudar. Mesmo durante a faculdade, tinha aulas à noite para poder estar de manhã em casa. A relação com a minha mãe era normal, cada uma com o seu espaço. Não éramos de mostrar carinho e afecto o tempo todo. Somos gente dura e asceta, mas com muita solidariedade. Quando alguém fica doente, tem 14 a cuidar de si. Quando a minha mãe morreu, fizemos-lhe uma festa enorme, com os melhores cantores, de rock, flamenco, tradicionais, Paço Ibañez... Todos vieram a essa festa-homenagem. Mantemos a casa tal como gostava. Sabemos que manter a casa é manter a união dos 15. Fazemo-lo para que a casa tenha vida permanente. Assim, a minha mãe, de alguma forma, continua viva.

Ela era verdadeiramente a matriarca? Ou o pai era a figura tutelar?
Ela era uma matriarca, mas era uma vítima. Vítima de maus-tratos. O meu pai era um fascista, um fanático religioso – tinha tudo de Franco. Era também uma vítima; apanhou o final da guerra, foi educado no nacional catolicismo. Era uma pessoa desprezível. Encheu-nos de medo do pecado, disto e daquilo. Com o meu pai não tínhamos relação nenhuma. Víamo-nos todos os dias, mas não tínhamos relação.

Existiu uma ambivalência de sentimentos? Houve um momento em que percebeu que ele era desprezível e simultaneamente digno de amor?
Eu não amava o meu pai. Um homem que faz 15 filhos a uma mulher não é respeitável! Ele respeitava Franco, respeitava o nacional catolicismo. Era respeitado pelo Franquismo, pela igreja. Tudo isto me parecia irracional, animalesco. A partir de determinado momento, deixámos de discutir. Se tinha que o ajudar em algum aspecto, económico ou outro, ajudava-o, mas nunca teve o meu carinho, nem o meu respeito.

Nem quando era pequena? Ele nunca foi para si o pai herói? O pai-Deus, bom, grande, omnisciente, omnipotente.
Nunca tive essa ideia. Pergunto-me como é possível que haja mulheres que continuam a sentir fascinação pela figura do pai. É a figura do impositor, do guerreiro, o depositário da autoridade divina e social. Eu rebelo-me contra isso, geneticamente e ideologicamente.

Quando se apaixonou por José, que deve ser mais ou menos da idade do seu pai...
É até um pouco mais velho! [risos]

…reconciliou-se um pouco com a figura paterna?
Não! Não procurei um pai. Não o procurei em José. Procurava, e encontrei, um homem.

Qual era o seu destino quando era pequena? Aquele que o seu pai e a sua mãe, ou a sociedade em que vivia, traçaram para si?
O meu pai e a minha mãe não tinham tempo. Isso é literatura barata de filho único – o que os pais querem [para nós]... O meu pai andava a ganhar a vida, e a minha mãe estava em casa a criar filhos. O meu pai fazia muitas coisas (até pilotar aviões), mas basicamente trabalhava em seguros. E nós estávamos loucos por ser maiores de idade e poder sair de casa. O meu destino de pequena era ser missionária. O que sempre quis foi partilhar.

Porque é que quis partilhar por essa via?
Porque era católica. Depois dei um salto do catolicismo e da caridade para a solidariedade. Sou comunista. Sou uma militante que põe a sua inteligência e a sua capacidade de trabalho em função de ideias, que julgo serem aquelas que favorecem quem mais necessita.

Chegou a ser freira?
Cheguei a fazer votos privados. A igreja tem institutos seculares e ordens religiosas; a diferença entre uns e outros é que uns têm votos públicos, como as ordens das carmelitas ou dos jesuítas, e outros têm votos privados; a instituição teresiana, de que fazia parte, tem votos privados.

Porque é que decidiu por esses e não pelos públicos?
Porque era a escola onde eu andava, as pessoas que conhecia. Eram extraordinariamente modernas, não eram nada mágicas. Não se podia ser teresiana sem curso universitário. Não era importante estar com hábito de freira, o importante era o contributo que se dava. Reconhecia-se uma pessoa como cristã por ser muito boa, sólida, amável, que servia os outros. Segui o Concílio do Vaticano II com paixão, porque nessa escola seguia-se a modernização, a mudança, a fraternidade universal, o encontro com as outras religiões. A reflexão sobre Deus não ocupava muito tempo, o importante era o que estávamos a fazer.

Era isso que a atraía?
Sim. Trabalhávamos em função do outro, sem beatice nenhuma. Deixámos de levar véu para ir à missa: púnhamo-nos diante de Deus, às claras, tal como somos, sem nos encobrirmos.

Porque é que, havendo essa rejeição do que se vivia em casa, desses valores, não recusou do catolicismo?
Distinguia claramente. Uma coisa era Franco... (bem, o meu pai e Franco eram a mesma coisa); a religião era outra coisa. Por muito que Franco fosse com pompa à missa, eu não vinculava a religião e a mensagem do evangelho a Franco. O meu pai era o poder, era Franco, não era Jesus Cristo.

Quando é que se distanciou da igreja católica, ou de Cristo?
Bem, eu próxima de Cristo não estive nunca, nunca tomei café com ele! Não houve uma ruptura. Li a certa altura no evangelho: “Amai o próximo, tal como Eu amei”. O que penso é que nos amamos uns aos outros porque sim, independentemente de que nos amem ou não. É uma evolução natural, como o crescer das unhas. Mas é um senhor com quem gostaria de conversar, e ele também gostaria de conversar comigo. Há coisas nele de que não gosto, e com certeza há coisas em mim de que não gosta. Parece-me ser uma pessoa interessante, mais interessante que Maomé, que São Tomás de Aquino, que o Papa. Tal como Santa Teresa me parece mais interessante do que o Papa.

Santa Teresa?
Uma mulher forte que enfrentou o mundo, que lutou com reis, com a autoridade. Que escrevia como escrevia. Eu sonhava com fazer coisas. E continuo a ter o mesmo sonho: continuo a acreditar que tenho a vida pela frente, mesmo com 60 anos. Surpreende-me pensar no que ainda posso fazer. Não tinha sonhos de grandeza nem de heroicidade, tinha sonhos de servir. Continuo a cumpri-los. É uma vida banal.

É uma heroicidade no dia-a-dia?
Não é heroicidade. Quando se é a mais velha de 15 irmãos, é preciso fazer comida e camas, aprender a descascar batatas muito rápido, cozinhar rápido, a pôr a mesa, a levantar a mesa... Um dos poucos caprichos que tive na vida foi fazer umas aulas de teatro na faculdade. Adorei poder representar e ser outra pessoa.

Era uma pessoa discreta? Estava tão ocupada a organizar a vida dos outros que achava que ninguém olhava para si?
Continuo a achar que ninguém repara em mim. Continuo a sentir que sou invisível. Somos um clã de invisíveis, e estou na vanguarda desse clã... Em miúda era reconhecida pela capacidade de organização, as pessoas depositavam confiança em mim, votavam em mim na faculdade e no trabalho, quando organizávamos os sindicatos. Somos o que fizemos de nós mesmos – “levantados do chão”, como diria Saramago. Nós próprios, com as nossas leituras, as nossas emoções, quando escolhemos uma vida em detrimento de outra, quando optamos por uma forma de comportar-nos, de vestir-nos, somos fruto de nós mesmos, não dos nossos pais.

Não tinha a noção de ser bonita?
Não. Às pessoas da minha geração, não nos interessava se éramos altas ou baixas, gordas ou magras. Não sou capaz de dizer que tamanho vestia quando era adolescente.

Isso era considerado frívolo? E havia o Franquismo para combater…
Não fazia parte das nossas conversas. Quando casei pela primeira vez, ou quando me divorciei, não queria ser observada por alguém que eu não observasse também. Não queria ser um objecto de desejo. Fui consciente disse na maturidade. Quando me divorciei, vesti-me como uma freira. Vivi muito tempo com roupas largas, compridas. As minhas amigas, hoje, dizem-me que estou irreconhecível, se visto umas calças mais justas... Se visse tudo o que tenho em Lanzarote…, é como roupa de freira, hábitos. Eu podia estar com quem quisesse, ter namorados, fazer o que quisesse, mas tinha que ser mútuo.

Olharem para si, cobiçarem-na sexualmente, sem a sua conivência, era sentido como uma usurpação?
Sim. Incomodava-me profundamente. Era uma agressão ir na rua e ouvir um piropo. Era um problema, porque ficava como uma fera, e respondia... Mas porque é que tenho que ir na rua e ouvir alguém dizer “guapa!” ou “tia buena”?

Fez votos privados. A que é que estava obrigada? Viveu em comunidade?
Vivi em apartamentos, com as teresianas. Antes de acabar o curso, saí. Não por vontade própria, mas porque elas me disseram que eu não era feliz. Respondi que não era feliz, mas que viria a ser – “Quem é feliz?, isso é uma concepção burguesa...”. Estava empenhada em viver uma vida que não era a minha.

O que é que elas perceberam que ainda não tinha percebido? O que era isso de “não ser feliz”?
Era demasiado insubmissa, no fundo era isso. Aceitava com a razão, mas saía-me sempre a rebeldia. Não sou uma pessoa cómoda numa comunidade que precisa de ter as suas regras de submissão. Aperceberam-se que existia um conflito que mais tarde ou mais cedo iria estalar. E por isso, com amizade, disseram-me que aquilo não era para mim.

Nesses anos da faculdade, chegou a pensar em ser escritora?
Eu escrevia muito, mas o destino fez com que perdesse tudo o que tinha escrito.

Era bom?
Era adolescente. Certas coisas não estavam mal, escrevia melhor nessa altura que agora (entretanto veio o jornalismo e estragou-me). Mas não pensava em escrever romances; escrevia porque gostava. Como quem escreve um diário, ou como quem escreve contos, poemas.

José nunca chegou a ler nada desse tempo?
Não, porque os perdi numa mudança. Tinha coisas interessantes, coisas que não eram minhas. Tinha um conto de Montalbán de que gostava muito, dedicado ao meu filho.

Apesar de recusar a vida burguesa, da mulher casada com dois ou três filhos, preferencialmente loiros, a verdade é que chegou a casar e a ter um filho.
Não éramos um casal burguês. O filho era loiro, a genética tratou disso. Fui cobarde; podia ter vivido a minha vida de acordo com as minhas regras, e não o fiz para não dar um desgosto à minha mãe. A minha mãe seria a vítima da conversa insidiosa do meu pai... “Vês? A viver em pecado!” Consegui convencer o meu companheiro a casar, inclusive pela igreja, baptizámos o nosso filho.

Como viveu, no fim da adolescência, com todo esse processo, a descoberta do corpo e da sexualidade?
Não fazia parte da minha vida. Falávamos do amor romântico, se um fulanito tinha olhado para nós, ou se tínhamos ido ao cinema com alguém que nos tinha dado a mão.

Quando é que se descobriu como mulher?
Que era uma mulher, sabia desde que tinha três ou quatro anos, e me punha num banquinho e engomava. A descoberta da sexualidade, foi tardíssima. Uma vez, falando com um amigo, estávamos a comentar as “primeiras vezes”; quando chegou a minha vez disse: “Filho da puta do Franco!”. Vivíamos numa sociedade tão opressiva... Nos dois primeiros anos da faculdade, que falasse de se ter deitado com alguém, havia em Granada, um rapaz. Em Sevilha, tive uma amiga que era casada e que teve um amante; pediu-me que a ajudasse, dizendo que estava comigo... Aquilo fascinava-me, parecia coisa de livros, não era vida real.

O sexo, o corpo, de que ainda não tínhamos falado, parecia estar ausente da sua vida de todos os dias, mas é uma coisa essencial.
Não naquele tempo. Naquele tempo que fazíamos? Saíamos ao fim-de-semana, passeávamos rua acima, rua abaixo, não fumávamos, não bebíamos, sentávamo-nos nas portas das casas, líamos fragmentos de livros, tínhamos conversas sobre política. Tinha 20 anos quando descobri uma pizzaria, e parecia-me uma coisa perniciosa. Era outra vida, vínhamos de uma guerra, de duas guerras (mundial e civil).

De uma guerra fratricida. Como se em cada família houvesse um Abel e um Caim.
Na minha família eram todos Abel. Comecei a saber dos horrores que aconteciam com a gente de esquerda somente quando cheguei à faculdade.

Lê-se na obra de Saramago: “É como se fossem duas pessoas, Ninguém é uma só pessoa, tu, Caim, és também Abel”. Quando é que descobriu o Caim que há em si?
Em mim não há nenhum Caim. Nunca vou matar um irmão. Não vou matar um ser humano tal como não vou matar uma formiga, ou mosca, ou barata. Creio que José tem muito [dessa ambivalência], e por isso escreveu O Homem Duplicado. Os escritores têm essa espécie de esquizofrenia, que os leva a criar tantos personagens e mundos distintos. Eu não sou nada criadora. Posso ser, rotundamente, o Sancho Pança.

Nunca identificou em si um lado mais odioso, mais maldoso...
Ai sim, posso ser muito má, mas não é Caim. Abel era explosivo. Não tenho a pulsão fratricida, da vingança, da culpa. Posso ter zangas, gente que desprezo profundamente (os imorais, gente que põe os seus interesses antes do bem comum, gente que vive a invejar).

Consegue imaginar como leria este livro aos 20 anos?
Se tivesse 20 anos isto parecer-me-ia terrível... Não o livro. A história de Caim. Porque lhe parece que tenho tanto ódio à figura paternal? Só pelo meu pai?, serei eu assim tão tonta? Eu vi os outros pais, e os outros pais da literatura. Acha que alguma vez, como cristã, entendi que um pai mandasse o Seu filho sacrificar-se por toda a Humanidade, até morrer, em tortura e sofrimento, na cruz? “Era um acto de amor.”? Mas porque não veio Ele, porque não veio o pai? “São todos um.” Mas quem sofria era Cristo, na sua humanidade! Mesmo sendo freira e cristã, a figura de Deus Pai nunca me pareceu nada, nada simpática.

A sua simpatia era pela Virgem Mãe?
Não, a história da virgem e de virgindade dá-me muito que pensar.

Então quem é a figura referencial?
Cristo.

Encarnava a bondade e os valores que perseguia, a solidariedade...
Exactamente, e a rebelião contra a hipocrisia, contra o mercado e os mercadores, contra as instituições.

A minha pergunta era se o livro não a revoltaria, como hoje revolta os católicos que o lêem.
Li algumas coisas nessa altura que eram consideradas heréticas, e não me revoltaria porque o entenderia como uma leitura de outro ser humano. Acha que fico ofendida por Marx dizer que “A religião é o ópio do povo”? Em muitas civilizações e muitas culturas, é. Noutras, não. Todas as generalizações são injustas. Eu teria lido este livro com muitíssimo prazer, porque está bem escrito. Tal como li com imenso prazer livros de autores cuja linha de pensamento não coincide com a minha.

Quando tinha 36 anos e se deu o encontro com Saramago, já estava distante do catolicismo?
Sim.

O afastamento do catolicismo teve que ver com a aproximação ao comunismo? Quando é que se deu?
Durante a faculdade, nos meus vinte anos. Quando morreu Franco, tinha vinte e cinco anos, era militante, estava na clandestinidade.

Comemorou?
Não. Foi dito publicamente que tinha estado numa reunião a brindar com champagne. Mas não brindei. Estava grávida e o cheiro do álcool causava-me umas náuseas insuportáveis. Fiquei contente, pareceu-me fantástico que tivesse morrido esse senhor, e sobretudo que tivesse morrido o regime.

Cerca de dez anos mais tarde, pôs-se a caminho de Lisboa para conhecer o autor de uns livros que a tinham impressionado. Havia dentro de si o desejo de ser admirada por aquele homem que tanto admirava?
Sabe, os jornalistas desmistificam muito a figura humana. Eu já tinha conhecido muita gente, gente admirável. (Durante muitos anos fiz informação política. No outro dia em Itália contei que conheci o Aldo Moro). A época da mistificação já tinha passado. Para nós, [jornalistas], as pessoas são material de trabalho.

O que isso quer dizer também é que era pouco carente. Não precisava que aquele que admirava a confirmasse, a estimasse, quisesse a sua opinião.
Não, não, não. Ponto número um: não vinha ver Saramago. Vinha seguir os passos de Ricardo Reis e a linguagem de Ricardo Reis.

Conte a história da viagem.
Éramos catorze, mas à última da hora, toda a gente foi caindo. Estava tão decepcionada que um deles disse: “Não te preocupes, eu levo-te!”. Para mim era importantíssimo, já estava divorciada, tinha deixado o meu filho num sítio para poder vir, e de repente, um “não”… Quisemos ficar no Hotel Bragança, vimos que era uma casa de putas, e fomos para o Hotel Mundial.

Foi do Pessoa que foi ter a Saramago. Realmente não lhe interessava Saramago?
O amigo com quem vim perguntou-me: “Se não te interessa o escritor, por que lhe telefonaste?” Porque gosto de agradecer aos escritores. Tenho essa norma: as cartas são para responder, assim como os emails, e os livros são para agradecer. Como tinha oportunidade de chegar a Saramago, disse que vinha e que gostaria de o cumprimentar. Não era tanto para o conhecer, mas sim para lhe agradecer o prazer que me tinha proporcionado. Nunca o tinha visto, foi tudo por telefone. Combinámos ver-nos, tomámos um café, fomos visitar a campa de Fernando Pessoa, eu vinha com o meu Livro do Desassossego, e pronto. Não havia nada de mitomania, havia maturidade profissional.

Quando é que percebeu que a sua vida tinha mudado por causa do encontro com José?
Quando nos encontrámos. No dia seguinte telefonou-me para pedir a minha morada. Na época tinha um meio-namorado, e quando cheguei a Espanha disse-lhe que já não o queria ver mais. Fiquei livre, sem relações, sem amante. Sabia que algo ia acontecer. E aconteceu. Uns meses depois, José chegou, sem que tivesse havido uma carta, uma comunicação, nada. Apareceu em Sevilha. Eu sabia que ia aparecer, mais tarde ou mais cedo.

Como é que sabia?
Sabia. E de Junho a Novembro, que foi quando chegou o José, não houve mais ninguém na minha vida. Ninguém se podia aproximar. Eu estava à espera dele.

Porque é que a impressionou tanto?
Não me impressionou. Éramos tão parecidos, partilhávamos tanta coisa que era impossível que não as compartilhássemos. Não o conhecia pelas duas horas que passei com ele, conhecia-o pelo que escrevia.

O que é que conhecia? Nesses meses, continuou a procurá-lo a partir do que ele escrevia?
Não podia. Em espanhol apenas estavam traduzidos dois livros, o Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quando nos conhecemos ele estava a escrever A Jangada de Pedra. Está lá descrito o nosso encontro: de outra maneira, noutro sítio, mas há uma mulher, e de repente ele sabe que é aquela a mulher, que tem de ser. Ele sabe que algo se passou, e ela sabe, não se verbaliza, mas ambos preparam as suas vidas.

Não tem ainda a idade que ele tinha quando a conheceu. Saramago tinha 63, Pilar 36. Existe uma grande diferença de idade entre os dois; não sentiu isso nunca como uma dificuldade?
Não. A idade está no bilhete de identidade, em nenhum outro sítio. Ele tinha todas as idades, tal como eu tenho todas as idades. Num momento determinado podemos ser crianças e noutro momento dois adultos cansados.

No livro, Caim diz a Lilith que conheceu o futuro. “Era num presente que me encontrava, o que havia sido futuro tinha deixado de o ser, o amanhã era agora”. É uma espécie de ubiquidade: estar em diferentes idades, em diferentes tempos.
Pode ser outro presente, mas tudo é sempre presente. Caim está sempre com o seu burro, com a sua história, sempre na sua conversa com Deus, em distintos momentos.

Outra das ideias centrais no livro é a do desentendimento com Deus. O episódio da Torre de Babel é elucidativo a esse respeito. Pode falar dos seus desentendimentos com Deus, com José, consigo própria?
O desentendimento entre Deus e Caim foi porque cada um tinha um projecto distinto. Deus queria uma coisa inumana, e os homens queriam coisas humanas. Com José não há desentendimento, porque queremos o mesmo. E comigo mesma, tenho muitos desentendimentos, mas aprendi a superá-los cada dia, a organizar as minhas contradições, a dar-lhes forma. Para isso, pode parecer infantil…, mas serviu-me escrever muito. Para clarificar.

Ainda Caim: “Faltam-nos ainda muitas palavras para que comecemos a tentar dizer quem somos, e nem sempre daremos com as que melhor o expliquem.” Foi uma bênção terem encontrado as palavras que dissessem quem são?
Encontrar as palavras, vamos encontrando todos os dias. A sorte é sermos os dois tão transgressores, tão rebeldes, e termos tanta força vital que não nos cansamos nunca de começar. E se no dia anterior houve uma história disparatada, ou chunga, ou feia, no dia seguinte começa-se de novo. Não há nem filhos, nem pátria, nem rei, nem partido, que nos obrigue a estar juntos. Alcançámos, em todos estes anos, 20 e tal, um nível de liberdade que nos permite dizer todas estas coisas, enfrentar o que seja, e estar juntos porque queremos começar juntos. Isso é que é ser livre, para ficar e para ir. Não há uma única convenção social que nos ate. Não temos uma “puta atadura” pequeno-burguesa. Quem tem uma mente pequena não entende a nossa história, banaliza-a.

Como assim?
“A jornalista!”, “o Nobel­!”, “a jovenzinha que faz reviver o senhor velhote!”, “o velho é seu pai...!”

Pelos anos fora, por que é que não quis escrever? Porque o escritor é ele, o seu marido?
O meu projecto não passa por escrever. A educação em pequena, como missionária, era no sentido de dar a conhecer, de ajudar. E continua a ser essa: dar a conhecer a outros. Quero ser uma ponte para outros, não quero escrever o meu livrito. Quero colaborar para que as grandes obras continuem por aí, se recuperem, tenham este presente.

Nunca teve inveja por não ter aquele talento?
Não, eu tenho o meu. Não tenho o talento da escrita. Tenho a habilidade. Tenho outras coisas: sei cozinhar, sei sintetizar...

Estou a ouvir a menina que percebeu que era mulher quando a puseram a passar a ferro com três ou quatro anos…
Mas é verdade, eu adoro cozinhar! Parece-me uma arte maravilhosa. Tenho outras habilidades, não podemos ter tudo.

Foi essencial para a conquista do Nobel?
Não!

É uma ideia enraizada: a de que sem o talento organizativo da mulher que primeiro difundiu Saramago em todo o mundo hispânico, e o pôs na rota certa, o génio criativo não seria suficiente. Como é que assiste a esta lenda?
Com vergonha da estupidez e da imbecilidade de quem a diz e repete até à exaustão. Sou uma jornalista espanhola, Espanha não influencia nada, não sou agente literária de Saramago. Posso ter sido importante na vida pessoal de Saramago, mas não na literária. Saramago recebeu o Nobel porque escreveu um livro que mereceu a aprovação dos 18 membros da academia sueca, que todos os anos valorizam a produção, que discutem, e não são sensíveis a pressões, a campanhas de marketing, e muito menos ao que diga uma jornalista, duas ou três ou cinco. Os membros da academia podem enganar-se, e já se enganaram algumas vezes, mas não é o caso de Saramago.

Como é que tem assistido à polémica que envolve Caim?
Estes colunistas de merda, tão jovens, submissos, obsoletos, em vez de pensarem: “Um tipo com 86 anos que enfrenta Deus, que enfrenta a sociedade… Que sorte ter um homem com esta capacidade de rebeldia!”, perguntam: “Quem é? Quem escreve? Não gosto!”. Estou indignada, de ver o pouco livre que são os jovens, o quão convencionais são, o quão cansados estão. Estão assustados porque José tocou um livro sagrado. Mas quem disse que o livro é sagrado? Que mentes tão pequenas julgam a obra pública. Não conseguem ver a grandeza nem de uma ponte nem de um ser humano. Têm uns óculos que lhes deve dar para verem o tamanho do seu pénis... pequenino.

Saramago faz-lhe constantes dedicatórias: “À Pilar, que não deixou que eu morresse.” “A Pilar, todos os dias.” “A Pilar, que não havia nascido, e tanto tardou em chegar.” “A Pilar, minha casa.” A de Caim diz: “A Pilar, como se dissesse água.” Que acha que quer dizer?
Parece-me que água é água. Uma coisa clara, e, quem sabe, necessária. Mas que sei eu?, fiquei tão perplexa, e tive um problema para traduzir... “A Pilar, como si diciera agua.” Ou “... como dice agua”.

Se escrevesse, que dedicatória faria para José?
Sou tão discreta, tão dura, tão arisca... Imagina em casa dos meus pais, 15, a beijarem-se todas as noites e todas as manhãs? “Eu já te dei um beijinho a ti? E a ti?!”

Já assisti a manifestações de carinho entre si e José. É uma relação ternurenta, há um toque de mão, um beijo na cara...
Sim, mas mais da parte do José que da minha. Se tivesse que fazer uma dedicatória, seria “Para José, meu amigo.” Porquê “meu amigo”? Porque me parece ser o maior valor, mais que amante. Os amantes vão e vêm das nossas vidas. Os pais, vão e vêm, e por vezes nem vêm. Os irmãos, são estupendos, mas cada um tem organizada a sua própria história. Os que ficam sempre são os amigos. A amizade é o que mais defendo, acima do amor."

(Publicada originalmente no Público em 2009)

Crítica literária, de Ursula K Le Guin, no "The Guardian" ao "Ensaio sobre a Cegueira" (15/04/2006)

(cartaz do filme "Blindness", baseado na obra "Ensaio sobre a Cegueira")

Recupero a crítica literária, de Ursula K Le Guin, no "The Guardian" ao "Ensaio sobre a Cegueira" (15/04/2006).
Destaco, das suas palavras, o assombro com que foi confrontada ao ler esta obra de Saramago. 
Para primeira impressão, confessa-se assustada, ao que, não se dando por vencida, aborda outros livros do escritor, para o entender, para o enquadrar e perceber a sua posição perante a mensagem a transmitir.

(Ursula K Le Guin, aqui pequena biografia, via Wikipédia, 


"Some years ago a reliable friend told me I should read José Saramago's Blindness. Faced with pages of run-on sentences and unparagraphed dialogue without quotation marks, I soon quit, snarling about literary affectations. Later I tried again, went further, and quit because I was scared. Blindness is a frightening book. Before I'd let an author of such evident power give me the horrors, he'd have to earn my trust. So I went back to the earlier novels and put myself through a course of Saramago.

It's hard not to gallop through prose that uses commas instead of full stops, but once I learned to slow down, the rewards piled up: his sound, sweet humour, his startling imagination, his admirable dogs and lovers, the subtle, honest workings of his mind. Here indeed was a novelist worthy of a reader's trust. So at last I could read his great book - or his greatest until its sequel.

Accepting his Nobel prize, Saramago, calling himself "the apprentice", said: "The apprentice thought, 'we are blind', and he sat down and wrote Blindness to remind those who might read it that we pervert reason when we humiliate life, that human dignity is insulted every day by the powerful of our world, that the universal lie has replaced the plural truths, that man stopped respecting himself when he lost the respect due to his fellow-creatures."

This, on the face of it, is an odd description of Blindness, for in that book it is powerless people who insult human dignity - ordinary people, terrified at finding themselves and everyone else blind, everything out of control. Some behave with stupid, selfish brutality, sauve qui peut. The group of men who seize power in an asylum and use and abuse the weaker inmates have indeed abandoned self-respect and human decency: they are a microcosm of the corruption of power. But the truly powerful of our world don't even appear in Blindness. Seeing is all about them: the perverters of reason, the universal liars. It is about government gone wrong.

Very evidently Saramago's novels are not simple parables. It would be rash to "explain" what all the people (but one) in the first book were blind to, or what it is that the citizens of Seeing see. What's clear is that they're the same people, it's the same city, a few years later: one book illuminates the other in ways I can only begin to glimpse.

The story begins with those ordinary citizens, who not so long ago regained their sight and their tranquil day-to-day lives, doing something that seems quite unconnected with vision or lack of it. It is voting day, and 83% of them, after not going to the polls at all in the morning, go in the late afternoon and cast a blank ballot.

We see the dismay of bureaucrats, the excitement of journalists, the hysteria of the government, and the mild non-response of the citizens, who, when asked how they voted, refuse to say, reminding the questioner that the question is illegal. The satire is at first quite funny, and I thought it was going to be a light, Voltairean tale.

Turning in a blank ballot is a signal unfamiliar to most Britons and Americans, who aren't yet used to living under a government that has made voting meaningless. In a functioning democracy, one can consider not voting a lazy protest liable to play into the hands of the party in power (as when low Labour turn-out allowed Margaret Thatcher's re-elections, and Democratic apathy secured both elections of George W Bush). It comes hard to me to admit that a vote is not in itself an act of power, and I was at first blind to the point Saramago's non-voting voters are making. I began to see it at last, when the minister of defence announces that what the country is facing is terrorism.

Other ministers oppose him but he gets what he wants - a state of emergency, then the exodus of the government, by night, from the capital city, which is declared to be under siege. A bomb is exploded (by terrorists, of course, as the media report), killing quite a few people. An attempted evacuation of the 17% of voters who marked their ballots ends in failure, as the government forgets to tell the troops blocking all the roads to let the refugees through. The so-called terrorists in the city, still mild and peaceable, help the refugees carry back upstairs all they tried to take with them - the tea service, the silver platter, the painting, grandpa ...

The humour is still tender but the tone darkens, tension rises. Characters, individuals, begin to come to the fore - all nameless except a dog, Constant, the dog of tears from Blindness. The ministers jockey horribly for power. A superintendent of police is sent into the city to find the woman who did not go blind when everyone else did four years ago, sought as the link between the "plague of white blindness and the plague of blank ballots". The superintendent becomes our viewpoint and mediator; we begin to see as he begins to see. He brings us to the woman, the gentle light-bearer of the first book. But where that story began with an awful darkness that slowly opened into light, this one goes right down into the dark.

José Saramago will be 84 this year. He has written a novel that says more about the days we are living in than any book I have read. He writes with wit, with heartbreaking dignity, and with the simplicity of a great artist in full control of his art. Let us listen to a true elder of our people, a man of tears, a man of wisdom."

Ursula K Le Guin

"Ensaio sobre a Cegueira" - «E se nós fossemos todos cegos?»

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” - epígrafe da obra
As formas várias de olhar, as formas de ver, o que se observa e o que se repara.
Intuir, absorver informação, interpretar e desenvolver a capacidade de interagir com o mundo que nos rodeia. 
Esta obra, é, se assim se pode dizer, uma grande "porrada", naquilo a que se chama a consciência humana. Encerra em si, e abre, ao mesmo tempo, para o mundo, uma explanação sobre a evolução do ser humano. 
A cegueira que se espalha numa manifestação de epidemia galopante, coloca várias questões apresentadas em patamares diferentes. Podemos observar a questão da precariedade pessoal, quando confrontados com uma deficiência ou diminuição das capacidades individuais; a questão da solidariedade da população, nos seus diferentes planos ou relações. o "eu e o tu", o "eu e o nós", o "nós e os outros"; a intervenção das instituições que garantem e governam as sociedades perante o caos. 
Todos estes níveis de observação, foram colocados dentro de uma enorme metáfora, esquematizados de forma densamente pragmática, tendo em conta, aquilo que é a evolução do ser humano e a sua histórica incapacidade de evoluir em humanidade, num contexto global, que se pretende evoluído e (utopicamente) geradora de todas as condições e princípios básicos com que se deve reger a humanidade.
Esta epidemia, a "cegueira branca", talvez a maior limitação que o ser humano possa sofrer, aqui enquadrada num contexto de massas, de população  afectada, fará descer a "unidade", o conjunto de afectados pela mesma doença, ao seu próprio inferno - a falta de dignidade na perspectiva individual potenciada pelo caos do grupo. 
Saramago, recorre a este "castigo", para demonstrar que a lucidez de espírito dos que vêm, está afectada pela incapacidade do homem gerar e criar valores, como a humanidade, a urbanidade, a bondade, e que, adormecidos sobre o seu próprio egoísmo, perante uma brutal calamidade são obrigados a descer ao nível mais baixo da sua dignidade.
Neste patamar, onde os homens são equivalentes a todo e a qualquer animal, que sobrevive pelo instinto mais básico e primitivo, surge em contraponto com o caos, a imagem da esperança - a imagem do "cão das lágrimas" que lambe o sofrimento da "mulher do médico" e lhe transmite algum conforto.

Quem deverá ler esta obra?
Qual o público leitor alvo?
Homens e mulheres, que conseguem olhar para as atrocidades do mundo, como que, se de um reality show tratasse.

Cuidado... a cegueira... vive e sobrevive, neste pasto, neste caldo de humanidade... 

(o cão que lambe as lágrimas que escorrem
pela face da "mulher do médico")



(...) "Há muitas formas de cegueira. Estamos a falar de cegueiras metafóricas e não de cegueiras reais. Uma forma de cegueira é não querer compreender, é levantar uma barreira para que as coisas de fora não nos venham agredir e há uma infinidade de formas de ser cego. Vamos imaginar que uma pessoa não é cega... e quando diz que não se quer chatear até parece alguém que está consciente do passado do mundo e, simplesmente, não quer que o mundo o aborreça. Essa pessoa não se dá conta que essa é a sua cegueira." (...)

em, "Uma longa viagem com José Saramago"
João Céu e Silva
Porto Editora, página 85