Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

José Saramago e o seu texto no caderno/blog sobre "Eduardo Lourenço" (e notícia "BN adquire seu espólio")

No dia em que é anunciada a compra do espólio, do ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço, pela Biblioteca Nacional, recupero aqui, um texto de José Saramago, onde de forma graciosa, fala dos afectos que os unia e do apreço e estima, que por ele evidencia.



"Biblioteca Nacional adquire espólio do ensaísta Eduardo Lourenço"

Notícia, via Lusa e RTP sobre a aquisição do espólio, que pode ser consultada, aqui

"O espólio do ensaísta português Eduardo Lourenço, que inclui milhares de documentos, como manuscritos inéditos e correspondência, foi adquirido pela Biblioteca Nacional, revelou hoje a Secretaria de Estado da Cultura (SEC).
"Trata-se de um bem cultural fundamental para a investigação filosófica, literária, histórica e sociológica não só da obra de Eduardo Lourenço, mas do pensamento português dos séculos XX e XXI", afirma a tutela em comunicado, sem revelar o valor da compra.
O espólio inclui "uma grande quantidade de manuscritos do autor, alguns deles inéditos", desde finais dos anos 1940 até à atualidade, e "mais de 11.000 documentos referentes a correspondência" que Eduardo Lourenço manteve com figuras como Jorge de Sena, Vergílio Ferreira e Sophia de Mello Breyner Andresen.
O espólio passa a integrar o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional e o seu acesso está limitado, por enquanto, aos investigadores que trabalham na publicação da obra completa do ensaísta pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Eduardo Lourenço de Faria, de 91 anos, ensaísta e crítico, estudou na Universidade de Coimbra, onde deu aulas até sair do país, na década de 1950, fixando-se desde então entre França e Portugal.
Prémio Camões (1996) e Prémio Pessoa (2011) - só para citar duas das várias distinções do autor - Eduardo Lourenço escreveu obras como "Heterodoxias", "Tempo e poesia", "O fascismo nunca existiu" e "O labirinto da saudade - Psicanálise mítica do destino português".
A par do plano editorial da Gulbenkian, a Gradiva tem vindo a publicar, desde 1999, a obra de Eduardo Lourenço, planeando para este ano seis títulos do autor, entre os quais "Do Brasil: Fascínio e miragem", com textos escritos entre 1945 e 2012.
Em 2014, o ensaísta foi condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.
Este mês, o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, afirmou no Parlamento que o Estado tem tido capacidade financeira para adquirir espólios literários recorrendo a verbas do Fundo de Fomento Cultural.
No final do ano passado, o Estado adquiriu o espólio o escritor Almeida Garrett, da coleção Futscher Pereira.
Na Biblioteca Nacional estão também depositados, entre outros, os espólios dos escritores António Ramos Rosa, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Gomes Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues e de Fernando Namora, do compositor Joly Braga Santos, da compositora Constança Capdeville e do pensador Delfim Santos."


“O nosso grande problema, enquanto portugueses, neste fim de século, é integrar a realidade, a banal realidade europeia, com os seus imperativos de organização, de competitividade, de invenção. Sem perder um certo arcaísmo, um certo perfume de vida que se lembra ainda do seu passado rural, vida banhada da doce luz da Finisterra.”

em "A Nau de Ícaro, seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia", Lisboa, Gradiva, 1999
Eduardo Lourenço

Mais informação sobre o autor em:
http://www.eduardolourenco.com/index.html (site não oficial)
http://www.eduardolourenco.uevora.pt/ (projecto da Universidade de Évora)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Lourenço (via Wikipédia)


O texto de José Saramago, sobre Eduardo Lourenço, pode ser consultado, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/5878.html

"Eduardo Lourenço"

"Sou devedor contumaz de Eduardo Lourenço desde 1991, precisamente há dezassete anos. Trata-se de uma dívida um tanto singular porque, sendo natural que ele, como lesado, não a tivesse esquecido, já é menos habitual que eu, o lesante, ao contrário do que com frequência sucede em casos semelhantes, nunca a tenha negado. Porém, se é certo que jamais me fingi distraído da falta, há que dizer que ele também não consentiu que eu me deixasse enganar pelos seus silêncios tácticos, que de vez em quando interrompia para perguntar: “Então essas fotografias?” A minha resposta era sempre a mesma: “Ó diabo, tenho tido muito trabalho, mas o pior de tudo é que ainda não pude mandar fazer as cópias”. E ele, tão invariável como eu: “As fotografias são seis, tu ficas com três e dás-me as restantes”, “Isso nunca, era o que faltava, tens direito a todas”, respondia eu, hipocritamente magnânimo. Ora, é tempo de explicar que fotografias eram estas. Estávamos, ele e eu, em Bruxelas, na Europália, e andávamos por ali como quaisquer outros curiosos, de sala em sala, comentando as belezas e as riquezas expostas, e connosco ia o Augusto Cabrita, de máquina em riste, à procura do instantâneo imortal. Que pensou haver encontrado num momento em que Eduardo Lourenço e eu nos havíamos detido de costas para uma tapeçaria barroca sobre um tema desses históricos ou míticos, não sei bem. “Aí”, ordenou Cabrita com aquele ar feroz que têm os fotógrafos em situações de alto risco, como imagino que eles as consideram. Ainda hoje estou sem saber que diabinho me levou a não tomar a sério a solenidade do momento. Comecei por compor a gravata do Eduardo, depois inventei que os óculos dele não estavam bem ajustados e dediquei-me a pô-los no seu sítio, de onde nunca haviam saído. Começámos a rir-nos como dois garotos, ele e eu, enquanto o Augusto Cabrita aproveitava, com sucessivos disparos, a ocasião que lhe tinha sido oferecida de bandeja. Esta é a história das fotografias. Dias depois o Augusto Cabrita, que morreria passados dois anos, mandou-me as imagens tomadas, crendo, decerto, que elas ficariam em boas mãos. Boas eram, ou não de todo más, mas, como já deixei explicado, pouco diligentes.Tempos depois deu-me para escrever o romance Todos os Nomes, o qual, conforme pensei então e continuo a pensar hoje, não poderia ter melhor apresentador que o Eduardo. Assim lho fiz saber, e ele, bom rapaz, acedeu imediatamente. Chegou o dia, a sala maior do Hotel Altis a rebentar pelas costuras, e do Eduardo Lourenço nem novas nem mandadas. A preocupação respirava-se no ar carregado, algo deveria ter sucedido. Além disso, como toda a gente sabe, o grande ensaísta tem fama de despistado, podia ter-se equivocado de hotel. Tão despistado, tão despistado que, quando finalmente apareceu, anunciou, com a voz mais tranquila do mundo, que tinha perdido o discurso. Ouviu-se um “Ah” geral de consternação, que eu, por obra dos meus maus instintos, não acompanhei. Uma suspeita atroz me havia assaltado o espírito, a de que o Eduardo Lourenço decidira aproveitar a ocasião para se vingar do episódio das fotografias. Enganado estava. Com papéis ou sem eles, o homem foi brilhante como sempre. Pegava nas ideias, sopesava-as com o falso ar de quem estava a pensar noutra coisa, a umas deixava-as de lado para um segundo exame, a outras dispunha-as num tabuleiro invisível esperando que elas próprias encontrassem as conexões que as potenciariam, entre si e com alguma da segunda escolha, mais valiosa afinal do que havia parecido. O resultado final, se a imagem é permitida, foi um bloco de ouro puro.A minha dívida tinha aumentado, ultrapassara em tamanho o buraco de ozono. E os anos foram passando. Até que, há sempre um até que para nos pôr finalmente no bom caminho, como se o tempo, depois de muito esperar, tivesse perdido a paciência. Neste caso foi a leitura recente de um ensaio de Eduardo Lourenço, Do imemorial ou a dança do tempo, na revista “Portuguese Literary & Cultural Studies 7” da Universidade de Massachusetts Dartmouth. Resumir essa extraordinária peça seria ofensivo. Limitar-me-ei a deixar constância de que as famosas cópias já se encontram finalmente em meu poder e de que o Eduardo em poucos dias as receberá. Com a maior amizade e a mais profunda admiração." (13 de Outubro de 2008)

em "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição

sábado, 24 de janeiro de 2015

José Saramago "A Difícil Conversa" - escrito em 13/03/1986 para a revista Status (Brasil) enviado por telex

Por ocasião e assinalando o primeiro aniversário da abertura ao público, a Fundação José Saramago, colocou online este texto - A Difícil Conversa - agora com quase 30 anos.


A alusão ao progresso e à evolução das tecnologias, da escrita até à publicação de textos, no blog "Caderno", passando pela famosa "velha Hermes", máquina de escrever que pode ser apreciada na exposição da FJS.
O texto, que se transcreve, fala também, e muito, de relações e humanidades, deixa as suas preocupações e perguntas.  


Via Fundação José Saramago

"A Fundação José Saramago abriu-se ao público na Casa dos Bicos exatamente há um ano. Para assinalar este aniversário, as entradas são hoje gratuitas e a Casa fica aberta até às 20h00.
E para todos, em particular para os que não podem vir até a este novo espaço cultural da Lisboa histórica, aqui fica um texto de José Saramago, escrito em 13 de março de 1986 e enviado para a revista brasileira Status. Enviado por telex, tecnologia que na altura era muito avançada!"

(Imagem de telex escrito em 13 de Março de 1986 e enviado para a revista Status - Brasil)

"O progresso, dizia-me aquele amigo entusiasta, é o melhor que há. Estás, por exemplo, em Lisboa, e queres fazer chegar um recado a alguém que vive em São Paulo, Brasil. Se fosse aqui há duzentos anos terias de escrever trabalhosamente uma carta que atravessaria o Atlântico num barco à vela, metida em escuro porão, com risco de naufrágio, e então se perderia o negócio, ou a amada desesperaria por falta de notícias. Hoje é diferente: pairam na atmosfera uns mágicos objetos, chamados satélites, de cujo funcionamento não entendes, mas que por ares e ventos te transportam as palavras, entre telefone e telefone, em poucos minutos ficaste rico de dólares ou reforçado de sentimentos. E se, pela extensão do discurso ou sua complexidade, dúvidas que haja, embaraços na receção, tens ao teu alcance esse outro invento, o telex, que alinhará no destino, e por claro, ordens, projetos e afetos, como se os teus próprios dedos, invisíveis, fossem datilografar a mensagem a oito mil quilómetros de distância. Graças ao progresso, remata o meu amigo, a comunicação é fácil, imediata, instantânea.

Será? A pergunta exprime algum ceticismo, leva aquele trejeito de lábios de quem, por já ter vivido tanto, está de entusiasmo arrefecido, o que, apresso-me a acrescentar, não significa uma descrença radical nas virtudes da comunicação, apenas consciência do relativismo de todas as coisas, a começar por essa. Vejamos: que tem a dizer, com utilidade suficiente, um escritor português aos leitores brasileiros, separados, ele e eles, por um mar oceano e por mil acrescentadas dificuldades de navegação que não encontram compensação na comum língua e no seu aparente manejo comum? E quando aqui se escreve leitor brasileiro, que leitor é esse e de que Brasil? E se o escritor português falar do seu próprio país, da vida do povo a que pertence, da cultura que herdou e deseja ajudar, até que ponto interessa tudo isso a potenciais leitores que vivem num certo lugar do Brasil, pertencem a uma certa camada social e possuem um certo grau de instrução e educação? Mais ainda: tem o tal escritor português o direito de dirigir-se a esses leitores, se deles tão pouco ou mesmo nada sabe, como nada ou pouquíssimo nada da vida profunda da terra brasileira, provavelmente insondável para os seus próprios naturais? Porque, em verdade, que conhece do Brasil o escritor português, este? Esteve em São Paulo, para onde o recado vai, no Rio de Janeiro, em Santos e Campinas, em Belo Horizonte e Ouro Preto, a volta ao mundo. E a quem conhece? A outros escritores, a jornalistas, a professores universitários. Porém, não conhece o povo brasileiro, nem sequer a pequena parte dele que compra revistas e as folheia, que compra livros e os estima. Em Portugal, mais ou menos, o escritor conhece os leitores que tem. Dos leitores que no Brasil tiver ignora tudo.

Esta conversa é, pois, difícil. Porque uma outra questão não pode ser ocultada: para muitos brasileiros Portugal é um país do passado, e os portugueses, mesmo de novíssima geração, são todos bisavós e trisavós, talvez enternecedores, mas a quem não se deve levar muito a sério, porque com a idade vão treslendo e não compreendem o mundo em que ainda vivem. Claro que não se levam às costas oito séculos sem que os joelhos verguem um pouco, mas essa ideia de um Portugal reserva histórica e museu da língua não favorece o encontro nem o diálogo, numa palavra, não serve a comunicação que a tecnologia totalizou e globalizou. Quer dizer, não é por muito comunicar que melhor se comunica, ou então, diz-me o que comunicaste e eu te direi se vale a pena.

Do futuro destas crónicas serão julgadores e sentenciadores os que as lerem, mais ainda do que eu que as escrevo e de quem me convidou a escrevê-las. Convite e aceitação dele são, de certa maneira, questões de patrão e empregado, primeiro e segundo tempos de uma ação. O que realmente conta e importa é o que virá depois: o leitor e o seu juízo. O autor destas linhas não se decidiria a escrever numa publicação brasileira por motivos apenas materiais ou, se posso autorizar-me a palavra, de prestígio. De vozes que pregaram no deserto encheu-se a transbordar a história das relações entre Brasil e Portugal. Não é possível reprimir um sentimento de melancolia quando damos balanço aos mal-entendidos, aos equívocos, às atitudes intempestivas, às incongruências, e também aos oportunismos, aos truques e habilidades com que, de um lado e doutro, se tem tecido a capa rota dessas relações.

Mas também não se pode esquecer o que ainda existe de fé verdadeira, de amizade sem portas falsas entre tantos portugueses e brasileiros que conservam a esperança de uma fraternidade assente no conhecimento leal, na mútua compreensão, na vontade sincera de viver juntos vivendo cada um em sua casa. É a esse conhecimento, a essa compreensão, a essa vontade que estas crónicas querem servir. Pelo tempo e mérito da sua utilidade. Nem um segundo mais, nem uma palavra a mais."

Vídeo via YouTube apresenta um trabalho interessante sobre "Memorial do Convento - Personagens"


(Trabalho de Rita Neves e Inês Soares, com indicação de trabalho
para a disciplina de Português 12.º ano - 2012/13)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Fortuna crítica: Luciana Stegagno Picchio, escreve "Saramago: Momento por todos esperado" (05/12/1998)



Informação biográfica em http://pt.wikipedia.org/wiki/Luciana_Stegagno_Picchio
"Luciana Stegagno Picchio (Alessandria, Piemonte, 26 de abril de 1920 — 28 de agosto de 2008) foi uma filóloga, historiadora da cultura, crítica literária, especialista em literatura medieval portuguesa, história do teatro português e literatura brasileira.
Faleceu aos 88 anos e foi autora de mais de 500 publicações dedicadas às literaturas e culturas de língua portuguesa, o que lhe valeu o título de mais importante luso-brasileirista da Europa."

em Fortuna crítica: Luciana Stegagno Picchio
Pode ser consultado e lido 
em http://www.jornaldepoesia.jor.br/1lstegagno.html

"Saramago: Momento por todos esperado"

Ainda que este universo lusófono contasse com grandes tradições literárias tanto em Portugal como no Brasil e com uma nova impetuosa tradição de escritores africanos de expressão portuguesa. Esperávamos este momento há tempo. Esperamos que acontecesse para o velho rapsodo Jorge Amado e para poetas de elite como João Cabral de Melo Neto. Mas sobretudo para um escritor como ele, José Saramago, no qual há vários anos vivíamos o candidato mais legítimo, mais prestigioso, mais nosso: e pelo qual sofríamos esperando a cada outubro, como quem aguarda com angústia confiante a chegada de sua bagagem na esteira rolante do aeroporto, sem que ela nunca desponte.
A decepção agridoce, para nós italianos, do ano passado, quando Dario Fo ganhara na linha de chegada logo de José Saramago, nos deixara uma grande margem de esperança. A história do Nobel nos ensinou pelo menos, como já na época do prêmio para Octavio Paz, a jogar com as probabilidades. Apesar de seu corpo ágil e longilíneo de adolescente e o sorriso de quem, aos 76 anos, pensa em um futuro operoso e sereno do lado de Pilar, a jovem mulher espanhola que o acompanhará a Estocolmo, mostrando para o mundo como pode ser bonito um casal de intelectuais, Saramago em sua longa vida teve, como todos, facilidades e decepções. Sobretudo de seu país.
Comunista militante, nunca faccioso, sempre crítico, nunca trânsfuga, tivera que esperar o fim do salazarismo e a Revolução dos Cravos do abril de 1974 para poder despontar com pleno direito na cena literária portuguesa e internacional. E fora logo um sucesso, como de quem, na sombra da espera, tivesse afiado seus instrumentos. Viera antes a poesia, com os Poemas possíveis (1966) e Provavelmente alegria (1971), que, na distância de ano, revelam hoje toda sua carga humana e profética: “Só direi,/Crispadamente
recolhido e mudo,/que quem se cala quanto me calei,/não poderá morrer sem dizer tudo”. Depois apareceram as primeiras coletâneas de crônicas: Deste mundo e do outro (1971), A bagagem do viajante (1974), como provas de redação que contivessem já em seu casulo todos os motivos da narrativa futura. Em seguida o teatro (começando com A Noite, 1979), que hoje nos parece obra de um autor “outro”, tanto discursivo, referencial e polêmico quanto a prosa de invenção é misteriosa, alusiva, poética. A motivação do Nobel fala de um Saramago “que com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade
fugidia”. E talvez este seja o melhor rótulo para uma obra que, apesar de minuciosamente ambientada numa época e numa ideologia (a Lisboa inquisitorial do começo do século XVIII, a Lisboa das origens, ainda dividida entre mouros e cristãos, os anos do franquismo e de seu contágio ao Portugal salazarista, a Palestina de uma Vida de Jesus ao lado do Homem), nunca aparece como mera revisitação do fato histórico, mas sua parábola, pretexto para a interpretação de um hoje que filtra o passado com o alheamento comovido e irônico do depois.
O novo Saramago, um intelectual já amadurecido que vive desde sempre em Lisboa, mas que fora do círculo dos amigos de trabalho e de café poucos conheciam, irrompe de repente na cena literária portuguesa em 1980, com um romance singular que o coloca de imediato no primeiro plano entre os narradores nacionais. E é aquele Levantado do chão, no qual pela primeira vez aparecia, numa saga camponesa de sabor ao primeiro olhar ainda realista, a sua organizadíssima cifra estilística. O “discurso oral” de Saramago, aquelas suas páginas lotadas de signos, sem maiúsculas e pontuação, era de fato capaz de reproduzir poeticamente, em som antes até do que em letras, uma história nacional e individual; as vicissitudes de três gerações de camponeses do Alentejo, as quais, através da luta de classe, levantando-se do chão, verticalizando-se no seu reconhecer-se enquanto homens, assurgiam como protagonistas de uma história que até aquele momento fora apanágio de seus patrões. A fama internacional virá logo em seguida, em 1984, com aquele Memorial do Convento, que permanece ainda hoje como sua obra mais famosa e da qual ele sairá para uma viagem de escrita, para uma aventura
narrativa que no-lo restituirá escritor sem mais limitações regionais: um dos mais significativos narradores do nosso tempo.
O Memorial conta a construção, nas primeiras décadas do século XVIII, do Mosteiro e da Igreja de Mafra, erigidos com extraordinária magnificência nos arredores de Lisboa, por vontade do soberano absoluto D. João V. Romance histórico na minuciosa descrição da sociedade portuguesa, cortesã e popular, do começo do século, na suntuosidade barbaresca dos autos da fé promovidos por uma inquisição ainda imperante, torna-se romance social na evocação daquelas multidões de operários, carregadores braçais, canteiros,
que foram os construtores materiais do templo. Mas torna-se romance de realismo fantástico na invenção dos personagens, primeiro entre todos aqueles de Blimunda, filha de marrana dos olhos claros e do belo nome germânico que não por acaso um músico como Azio Corghi depois escolheu como protagonista de sua recriação musical do romance.
Deste momento em diante, a inspiração de Saramago torna-se urgente. O ano da morte de Ricardo Reis (1984), que ambienta em uma Lisboa atingida pela vizinha guerra da Espanha a permanência na cidade de um heteronômio de Fernando Pessoa, sobrevivido por um ano à morte do poeta, talvez seja a mais poética, comovida homenagem à memória de quem hoje é considerado o maior poeta moderno português.
Assim como A jangada de pedra (1987) representa a saborosa e polêmica profissão de fé antieuropeísta do português Saramago, a História do cerco de Lisboa (1989) é uma sua jubilosa “correção” da história no nome da liberdade da interpretação. Mas o Saramago mais próximo de nós e para nós mais universal é sem dúvida o último. Aquele que, com o sofrido e humaníssimo Evangelho Segundo Jesus (1991), agüentou a incompreensão na pátria, escolhendo desde então o caminho do exílio em Lanzarote, nas Canárias. E mesmo aquele do qual, após o voluntário afastamento de Portugal e de sua “realidade sonora”, com a conseqüente imersão num universo da
língua espanhola, todos tínhamos temido uma redução da sua sensibilidade “auditiva”: indispensável, nos parecia, para a criação daquela “literatura oral” da qual até aquele momento se substanciava a sua criação poética. Mas Saramago enxergou mais longe do que nós. E com as projeções brancas do seu romance Ensaio sobre a cegueira (1995) antes, e depois com o “burocrático” Todos os nomes (1997), soube imergir-nos em rarefeitas atmosferas de pesadelo e sonho.
Se a praxe acadêmica nos sugere por enquanto de defini-las kafkianas, no futuro talvez estas atmosferas sejam diretamente ligadas a ele, à sua fantasia, à sua humanidade, à sua capacidade de “ver” do que naturalmente de “ouvir”, naquela sua peculiaríssima recriação auditiva da realidade circunstante. Saramago gosta da Itália, onde tem muitos amigos, onde suas obras foram traduzidas até antes do que em outros países, onde recebeu os primeiros doutoramentos ad honorem e os primeiros prêmios literários. E para nós este prêmio longamente anunciado e finalmente concedido é como um Nobel para um escritor nosso. Traduzido do italiano para esta edição por Silvia La Regina, professora e ensaísta, este artigo foi publicado no jornal italiano La Repubblica e posteriormente, numa outra tradução, no Jornal de Letras de Lisboa.

[Nota de A Tarde: Luciana Stegagno Picchio, a mais importante luso-brasileira da Europa, autora, entre inúmeros outros estudos, de Histórias da Literatura Brasileira (Rio, Nova Aguilar, 1997), escreveu este artigo no dia em que foi anunciado o Prêmio Nobel para José Saramago, amigo de muitos anos]

Mais actual que nunca - "Crime (financeiro) contra a humanidade" post no livro/blog "Caderno" (19/10/2008)

Notícia de 22 de Janeiro de 2015, pode ser lida e consultada
em http://www.noticiasaominuto.com/pais/337470/clientes-do-novo-banco-protestam-junto-a-sede-do-banco

"Clientes do Novo Banco protestam junto à sede do banco"

"Perdi 100 mil euros em papel comercial, as poupanças de uma vida que guardei para a minha reforma e para poder ajudar os meus filhos", contou à Lusa António Maneiras, um reformado de 76 anos que veio do Seixal para se juntar ao protesto de hoje, que ao final da manhã reuniu pouco mais de uma dezena de pessoas.
António recordou o dia em que decidiu investir em papel comercial do banco: "A minha gestora do BES contactou-me, sabia que eu tinha vendido ações e tinha o dinheiro disponível, ofereceu-me 5% de juros e garantiu-me que não punha o meu dinheiro em risco".
Este reformado disse ainda que é nos jornais que consegue alguma informação sobre o processo do BES, uma vez que o banco não lhe faculta qualquer informação sobre quando ou como poderá reaver os seus cem mil euros.
A maioria dos que hoje se deslocaram à sede do Novo Banco para protestar é pessoas com mais de 50 anos e que vieram do norte do país.
Os manifestantes esperavam a chegada de dois autocarros vindos do Porto, que transportavam clientes do BES que subscreveram papel comercial e que se iam juntar ao protesto.
Domitila Barradas, de 53 anos, também não sabe quando pode reaver os 50 mil euros investidos em papel comercial: "Uma vida inteira de trabalho. Tenho medo de não receber este dinheiro que é meu", contou.
Alguns manifestantes exibiam cartazes dizendo "Nova Banco caloteiro" e "Onde está o meu depósito?" e "Será que o Banco de Portugal/Estado abandonaram 5.000 famílias?".
A 03 de agosto passado, o Banco de Portugal tomou o controlo do BES, após a apresentação de prejuízos semestrais de 3,6 mil milhões de euros, e anunciou a separação da instituição em duas entidades: o chamado banco mau (um veículo que mantém o nome BES e que concentra os ativos e passivos tóxicos do BES, assim como os acionistas) e o banco de transição que foi designado Novo Banco."


O universo da voz e letra de José Saramago, mostra-se, por sua razão e muita infelicidade para nós, sempre actuais e legitimados pelas acções e evolução da sociedade. Em 2008, os mercados viviam uma crise que se apelidava de sem precedentes. Em 2015, passados sete anos, esses tempos parecem uma brincadeira de alguns que subverteram as regras. Infelizmente para "nós", os outros, alheios a essas movimentações e subversões, era só mais um começo... até quando?
O post, pode ser lido e consultado online, em http://caderno.josesaramago.org/7023.html


"Crime (financeiro) contra a humanidade" (19 de Outubro de 2008)

"Pensava escrever no blog sobre a crise económica que nos lançaram para cima quando tive que me dedicar a cumprir um compromisso com outros meios de comunicação. Deixo aqui o que penso e que já foi publicado em Espanha, no jornal Público, e em Portugal, no semanário Expresso.
Crime (financeiro) contra a humanidade
A história é conhecida, e, nos antigos tempos de uma escola que a si mesma se proclamava como perfeita educadora, era ensinada aos meninos como exemplo da modéstia e da discrição que sempre deverão acompanhar-nos quando nos sintamos tentados pelo demónio a ter opinião sobre aquilo que não conhecemos ou conhecemos pouco e mal. Apeles podia consentir que o sapateiro lhe apontasse um erro no calçado da figura que havia pintado, porquanto os sapatos eram o ofício dele, mas nunca que se atrevesse a dar parecer sobre, por exemplo, a anatomia do joelho. Em suma, um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar. À primeira vista, Apeles tinha razão, o mestre era ele, o pintor era ele, a autoridade era ele, quanto ao sapateiro, seria chamado na altura própria, quando se tratasse de deitar meias solas num par de botas. Realmente, aonde iríamos nós parar se qualquer pessoa, até mesmo a mais ignorante de tudo, se permitisse opinar sobre aquilo que não sabe? Se não fez os estudos necessários, é preferível que se cale e deixe aos sabedores a responsabilidade de tomar as decisões mais convenientes (para quem?).Sim, à primeira vista, Apeles tinha razão, mas só à primeira vista. O pintor de Filipe e de Alexandre da Macedónia, considerado um génio na sua época, esqueceu-se de um aspecto importante da questão: o sapateiro tem joelhos, portanto, por definição, é competente nestas articulações, ainda que seja unicamente para se queixar, sendo esse o caso, das dores que nelas sente. A estas alturas, o leitor atento já terá percebido que não é propriamente de Apeles nem de sapateiro que se trata nestas linhas. Trata-se, isso sim, da gravíssima crise económica e financeira que está a convulsionar o mundo, a ponto de não escaparmos à angustiosa sensação de que chegámos ao fim de um época sem que se consiga vislumbrar qual e como seja o que virá a seguir, após um tempo intermédio, impossível de prever, para levantar as ruínas e abrir novos caminhos. Como assim? Uma lenda antiga para explicar os desastres de hoje? Por que não? O sapateiro somos nós, nós todos que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistarem mais e mais dinheiro, mais e mais poder, por todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, correntes ou criminosos. E Apeles? Apeles são esses precisamente, os banqueiros, os políticos, os seguradores, os grandes especuladores, que, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, responderam nos últimos trinta anos aos nossos tímidos protestos com a soberba de quem se considerava detentor da última sabedoria, isto é, que ainda que o joelho nos doesse não nos seria permitido falar dele, denunciá-lo, apontá-lo à condenação pública. Foi o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presuntivamente auto-reformável e autocorrectora encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para todo o sempre a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de o desmentir a cada hora.E agora? Irão finalmente acabar os paraísos fiscais e as contas numeradas? Irá ser implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delituosas, de investimentos opacos que, em muitíssimo casos, não são mais que maciças lavagens de dinheiro negro, de dinheiro do narcotráfico? E já que falamos de delitos… Terão os cidadãos comuns a satisfação de ver julgar e condenar os responsáveis directos do terramoto que está sacudindo as nossas casas, a vida das nossas famílias, o nosso trabalho? Quem resolve o problema dos desempregados (não os contei, mas não duvido de que já sejam milhões) vítimas do crash e que desempregados irão continuar a ser durante meses ou anos, malvivendo de míseros subsídios do Estado enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente levadas à falência gozam de milhões e milhões de dólares a coberto de contratos blindados que as autoridades fiscais, pagas com o dinheiro dos contribuintes, fingiram ignorar? E a cumplicidade activa dos governos, quem a apura? Bush, esse produto maligno da natureza numa das suas piores horas, dirá que o seu plano salvou (salvará?) a economia norte-americana, mas as perguntas a que terá de responder são estas: Não sabia o que se passava nas luxuosas salas de reunião em que até o cinema já nos fez entrar, e não só entrar, como assistir à tomada de decisões criminosas sancionadas por todos os códigos penais do mundo? Para que lhe serviram a CIA e o FBI, mais as dezenas de outros organismos de segurança nacional que proliferam na mal chamada democracia norte-americana, essa onde um viajante, à entrada do país, terá de entregar ao polícia de turno o seu computador para que ele faça copiar o respectivo disco duro? Não percebeu o senhor Bush que tinha o inimigo em casa, ou, pelo contrário, sabia e não lhe importou?O que está a passar-se é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e é desta perspectiva que deveria ser objecto de análise em todos os foros públicos e em todas as consciências. Não estou a exagerar. Crimes contra a humanidade não são somente os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassínios selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as poluições maciças, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é o que os poderes financeiros e económicos dos Estados Unidos, com a cumplicidade efectiva ou tácita do seu governo, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o dinheiro que ainda lhes resta e depois de, em muitíssimos casos (não duvido de que eles sejam milhões), haverem perdido a sua única e quantas vezes escassa fonte de rendimento, o trabalho.Os criminosos são conhecidos, têm nomes e apelidos, deslocam-se em limusinas quando vão jogar o golf, e tão seguros de si mesmos que nem sequer pensaram em esconder-se. São fáceis de apanhar. Quem se atreve a levar este gang aos tribunais? Ainda que não o consiga, todos lhe ficaremos agradecidos. Será sinal de que nem tudo está perdido para as pessoas honestas."

em, "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

"Memorial do Convento" e o episódio do "abade do norte" na alusão ao povo de Mafra

Da magnífica obra de João Céu e Silva, vários episódios podem ser recordados ou descobertos. Desta feita, a menção à alusão que Saramago inscreveu no seu "memorial", onde por palavras com origem num livro de Camilo Castelo Branco, este recupera a famosa carta de um abade beneditino de Tibães. Eis, algumas passagens alusivas à entrevista e ao excerto do texto.



"Está a falar da preparação do "Memorial do Convento", livro que, apesar do sucesso mundial, não deixou algumas pessoas de Mafra muito satisfeitas? 
O problema foi ter incluído uma carta de um abade do Norte, um beneditino acho, que criticava aquela obra gigantesca e o modo como milhares e milhares de pessoas foram levadas até lá para a fazer. 0 Camilo Castelo Branco escreveu um livro em que falava dessa carta e onde se dava a cada uma das letras que fazem a palavra Mafra um significado. Como fiz referência a este abade, quem era e o que tinha dito exactamente, isto foi transformado em algo que eu tinha dito em vez de se atribuir ao verdadeiro autor como eu fizera. Disseram que eu caluniara e que insultara os habitantes de Mafra! Ainda me ocorreu dizer «Olhem lá! Eu não disse isso», mas mesmo que mostre que não é verdade serei sempre aquele que fez isto, aquilo e aqueloutro. Ninguém aceita as provas em contrário ou os factos que se apresentem, transformou-se numa espécie de lenda urbana ou campestre. O Saramago disse isto ou o Saramago disse aquilo e ninguém vai realmente ver se foi verdade.

Sente-se injustiçado com as coisas que dizem sobre si? 
Injustiçado?! Para isso era preciso que essa gente soubesse o que significa justiça! São simplesmente caluniadores, mentirosos e nada mais. Nem vou dar grandes nomes a essas atitudes."

em, Uma longa viagem com José Saramago
de João Céu e Silva
Porto Editora, página 183 

(fotografia do interior da Biblioteca do Convento de Mafra)
Referência à descrição da biblioteca, 

"O maior tesouro de Mafra é sua biblioteca (c.1730) que, juntamente com a biblioteca de Coimbra, representam o que de mais belo e elegante há nesse tipo de arquitetura em Portugal.
As prateleiras, feitas em madeira brasileira, medem, ao todo, 83 metros de extensão. Entalhadas em estilo rococó, as estantes abrigam mais de 40 mil obras; entre elas vemos verdadeiras raridades bibliográficas, como os incunábulos.
Todas as encadernações em couro marroquino gravado a ouro, são prova viva de que as bibliotecas antigas são, na verdade, porta-jóias que guardam jóias.
A sala imensa, com 88 m de comprimento, 9,5m de largura e 13m de altura, recebe iluminação natural que até hoje impressiona pela perfeição com que a luz do dia foi aproveitada, invadindo o salão e iluminando o piso principal e a galeria, através de enormes janelas que além de funcionais, são muito belas.
A biblioteca tem planta em cruz; na parte mais a sul, ficam os livros religiosos, com manuscritos religiosos ainda em pergaminho. Prática habitual nas bibliotecas antigas, os códices e incunábulos eram acorrentados, como podemos ver na foto à esquerda.
No centro, encontramos os livros sobre os quais a inquisição tinha reservas, que vão da filosofia à anatomia, e entre eles uma preciosa relíquia: o manuscrito do “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente.
Na parte a norte da cruz, perto da entrada, estão os livros de arquitetura, direito, medicina e música. Ali fica uma primeira edição de "Os Lusíadas", impressa em 1572.
Na foto abaixo uma mesa especial para o estudo e desenho de mapas; não consegui descobrir seu nome, e olhem que já fui a Mafra algumas vezes... E quantas mais pudesse ir, iria: tudo lá é um verdadeiro deslumbramento!"


Aqui remeto para o importante desta alusão.
O episódio do abade beneditino
Excerto da obra "Memorial do Convento"

"De madrugada, muito antes de nascer o sol, e ainda bem, porque estas horas são sempre as mais frias, levantam-se os trabalhadores de sua majestade, enregelados e famintos, felizmente os libertaram das cordas os quadrilheiros, porque hoje entraremos em Mafra e causaria péssimo efeito o cortejo de maltrapilhos, atados como escravos do Brasil ou récua de cavalgaduras. Quando de longe avistam os muros brancos da basílica, não gritam, Jerusalém, Jerusalém, por isso é mentira o que disse aquele frade que pregou quando foi levada de Pêro Pinheiro a pedra a Mafra, que todos estes homens são cruzados duma nova cruzada, que cruzados são estes que tão pouco sabem da sua cruzadia. Fazem alto os quadrilheiros, para que desta eminência possam os trazidos apreciar o amplo panorama no meio do qual vão viver, à direita o mar onde navegam as nossas naus, senhoras do líquido elemento, em frente, para o Sul, está a famosíssima serra de Sintra, orgulho de nacionais, inveja de estrangeiros, que daria um bom paraíso no caso de Deus fazer outra tentativa, e a vila, lá em baixo na cova, é Mafra, que dizemos eruditos ser isso mesmo o que quer dizer, mas um dia se hão-de rectificar os sentidos e naquele nome será lido, letra por letra, mortos, assados, fundidos, roubados, arrastados, e não sou eu, simples quadrilheiro às ordens, quem a tal leitura se vai atrever, mas sim um abade beneditino a seu tempo, e essa será a razão que tem para não vir assistir à sagração da bisarma, porém, não antecipemos, ainda há muito trabalho para acabar, por causa dele é que vocês vieram das longes terras onde vivíeis, não façam caso da falta de concordância, que a nós ninguém nos ensinou a falar, aprendemos com os erros dos nossos pais, e, além disso, estamos em ,tempo de transição, e agora que já viram o que vos espera, sigam lá para adiante, que nós, ficando vocês entregues, vamos buscar mais."

em, "Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição, página 295

A Fundação José Saramago na recuperação do vidro de Castril (Centro Andaluz del Vidrio em Castril de la Peña, Granada, Espanha)

Via Youtube, video da promoção da iniciativa,

O antigo site da Fundação José Saramago, deu na altura destaque (23 de Julho de 2008), ao projecto de recuperação desta arte. 
Aqui recupera-se os dados da iniciativa, 
em http://fundjosesaramago.blogspot.pt/2008/07/centro-andaluz-del-vidrio-em-castril-de.html


"A Fundação José Saramago e o Centro Andaluz del Vidrio em Castril de la Peña, Granada, Espanha"


"Com o objectivo de recuperar a perdida indústria do vidro, pôs-se em marcha uma iniciativa que dará trabalho e visibilidade a uma zona economicamente deprimida.
Graças à iniciativa da Fundação José Saramago, do município de Castril e dos fundos obtidos através de instituições andaluzas, pôs-se em marcha um projecto que pretende recuperar e manter viva a tradição do trabalho em torno do vidro, arte que deu a conhecer Castril de la Peña à Europa e ao mundo, já que peças saídas das mãos dos criadores de Castril podem ser vistas nos museus mais importantes. Actualmente, no Centro é dada formação a cerca de 20 pessoas, que se iniciam nas artes do vidro soprado e noutras técnicas, e que serão os obreiros da indústria do vidro, tão reclamada durante anos.

O Centro e o trabalho que ali se realiza merecem uma visita, mas para quem não possas deslocar-se até Castril, pode ver este vídeo de apresentação que mostra as primeiras peças saídas do Centro Andaluz del Vidrio, já nesta data uma prometedora realidade."



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Depoimento de José Saramago em a "Janela da Alma" - Documentário de João Jardim e Walter Carvalho



Para consulta e visionamento do documentário
em http://www.contioutra.com/janela-da-alma/

“Eles vêem pouco, mas enxergam muito: ‘Janela da Alma’ é um filme luminoso.”

José Saramago, Oliver Sacks, Marieta Severo, Manoel de Barros são só alguns dos grandes nomes que falam sobre o assunto no documentário…Também encontramos depoimentos fabulosos de diversos cineastas que nos explicam como é o “seu” mundo, como aprenderam a ver a realidade. Realmente fantástico! (Mário Sérgio Conti, da Folha de S.Paulo, no Rio)

O filósofo José Arthur Giannotti disse certa vez que os cientistas sociais brasileiros não deveriam se restringir a pensar temas nacionais. Para ele, pesquisar e escrever sobre, digamos, os alfaiates do Piauí não é necessariamente sinal de nacionalismo.

A dedicação exclusiva a assuntos brasileiros pode ser indício de colonialismo: as grandes questões ficariam por conta de pensadores dos países dominantes, enquanto os periféricos se conformariam em lidar com coisas pequenas.

“Janela da Alma”, de João Jardim e Walter Carvalho, é um documentário que segue o postulado de Giannotti. Ele enfrenta um tema abstrato, a visão, sem os travos do subdesenvolvimento.

Os diretores pensam grande já no título, que alude à frase de Leonardo da Vinci: o olho é a janela da alma, o espelho do mundo.
Eles entrevistaram artistas, intelectuais e pessoas ditas comuns da Europa e do Brasil. Recorreram à filosofia, à medicina, à biologia, à música e à literatura para investigar o que é a visão.

O resultado é um filme que enriquece a visão que se tem da visão. Os 19 entrevistados, com graus de acuidade visual que vão da miopia à cegueira, discorrem sobre ver, não ver e ver de maneira única, intransferível.

O leque de entrevistados é amplo. Entre eles estão o músico Hermeto Pascoal, o escritor José Saramago, a atriz alemã Hanna Schygulla, o poeta Manoel de Barros, a cineasta Agnès Varda, o neurologista inglês Oliver Sacks.

Absolutamente tudo o que dizem ou fazem é pertinente e interessante. Não há enrolação, não se desperdiça imagem ou silêncio.

Acompanhando a torrente de discursos, as imagens são focadas, desfocadas e refocadas, alterando a percepção do espectador. O documentário mostra um mundo saturado de imagens que visam atrair o olhar para o consumo (as da propaganda) e o contrasta com paisagens desoladas, onde não há nada para ver.

A abstração também é confrontada com visões bem concretas. O vereador cego Arnaldo Godoy, de Belo Horizonte, conta com ótimo humor como é a vida sem enxergar nada. O filósofo esloveno Eugen Bavcar, também ele cego, mostra como tira ótimas fotografias. É preciso ver para crer.

Seria fácil, num filme como esse, cair na abstração pretensamente poética -citando Bergson, Borges, Milton e quetais- e dela não sair. Ou então ir para o pólo oposto, enfileirando esquisitices uma após a outra.

João Jardim e Walter Carvalho habilmente vão de um pólo ao outro, tornando o filme cada vez mais denso, cada vez mais claro e opaco. A tese central, a de que a visão é construção cultural, e não um dado da natureza, é exposta por meio de nudanças.

“Janela da Alma” está longe, contudo, de ser um filme de tese. Ele é uma expressão pessoal. João Jardim (diretor de documentários como “Terra Brasil” e “Free Tibet”) e Walter Carvalho (diretor de fotografia de “Abril Despedaçado”) são duas toupeiras míopes: o primeiro usa óculos de 8 graus; Carvalho, 7,5.

Eles vêem pouco, mas enxergam muito: “Janela da Alma” é um filme luminoso.

Volume I da Saramaguinana - Revista de Estudos Saramaguianos (Edição em português e espanhol)



Volume I da Saramaguinana
Revista de Estudos Saramaguianos
(Edição em português e espanhol)

Todas as matérias, disponíveis para consulta
em http://www.estudossaramaguianos.com/2013/02/blog-post_8.html

"APRESENTAÇÃO"

"Em A jangada de pedra, de José Saramago, uma série de acontecimentos de ordem fabular aproximam pessoas de diversos pontos da Península Ibérica que cumprirão uma longa jornada de travessia terrestre enquanto sob seus pés é a terra que corre com um destino um tanto incerto. Há, nesses indivíduos, uma mesma força que os une e não é ver o fim do percurso ou o outro lado da barca de pedra, mas aquilo que se passa consigo e ao redor de si. Movem-se como exercício de conhecer a si e ao outro e constituem uma forma cara ao homem contemporâneo que, imerso numa individualidade cada vez mais cerrada, vê no outro uma ameaça secreta a si e a sua liberdade.

O sentimento que une os que compõem essa primeira edição da REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS é o mesmo dos desbravadores desse romance. Vêm de várias partes do Brasil, unem-se a nomes de Portugal e Argentina e são já vozes em torno de uma mesma obsessão, um mesmo nome, uma mesma obra tornada sempre mais necessária ao exercício de compreensão de nós mesmos num mundo que se mostra sempre pela incoerência e pela incapacidade de reunir numa mesma unidade o sentido principal que nos irmana: a humanidade. Não é uma uniformização, evidentemente, o que queremos. É uma abertura a pontos de vista diferentes no intuito não da tolerância, que esta palavra é uma farsa cara à convivência, e sim, uma ampliação do universo de perspectivas desenhado pela obra de José Saramago.

A ideia não nasceu ao acaso e nem se construiu sozinha. É esforço de uma coletividade. E é preciso que se diga para evitar mais adiante falácias de que tudo se alcança a um passo de distância de nós mesmos. Trata-se de uma proposta que começou a ser costurada por Pedro Fernandes na noite de vigília quando lhe veio, de fato, a consciência da partida Saramago naquele 18 de junho de 2010. Foi quando o professor assumiu de si para com os livros do escritor português que estavam à sua frente naquela ocasião – quase uma profissão de fé, que a tarefa de todo crítico é dar a conhecer, pela via mais simples, o esforço de outros homens cujo desejo é sempre o de dizer sobre eles e o mundo onde estão. A tarefa de todo estudioso da literatura é irmanar-se com a obra não para catar louros de glória, mas para continuar a exercer as revisões sempre necessárias, hoje mais que sempre, de um extenso, ardoroso e mais complexo itinerário, o de humanização – esse que vimos construindo entre erros e acertos desde quando assumimos a consciência sobre o mundo e demos por inaugurado o império da razão. 

Depois, a ideia foi ter com Miguel Koleff, há muito um leitor e dedicado estudioso da obra de José Saramago, com organização de trabalhos de ampla significação para a fortuna crítica do escritor; encontrou com Pilar del Río, quem, desde que tomou contato mais concreto com a ideia, em novembro de 2013, se manteve atenta ao andamento da edição ora publicada e abriu-nos as portas da Fundação José Saramago para nos apoiar com tudo que estivesse ao seu alcance. E, claro, houve empecilhos, mas tudo se firmou no abraço prontamente dado por todos os nomes escritos ao longo destas páginas.   

É notável que desde o final dos anos oitenta a produção acadêmica em torno da obra de José Saramago, até então quase inexistente, tem se avolumado numa proporção sem limite calculável. Ao redor do mundo, não temos alcance sobre os números, mas sabemos pelas buscas breves cumpridas numa ou noutra entrada à grande Conservatória virtual, da leva de estudos desenvolvidos, de eventos realizados, de grupos de pesquisa dedicados tão somente ao exercício da leitura crítica e de perscrutar a infinita correnteza de sentidos que se desenha toda vez que decidimos entrar nesse mundo de palavras. Nunca pretenderíamos abarcar essa quantidade de trabalhos. Queremos, sim, irmanarmos com a mesma sede deles em manter viva a obra saramaguiana.

É esta uma revista acadêmica, mas sem a sisudez da academia. É resultada de uma parceria editorial entre investigadores da obra de José Saramago de Brasil (mentor da ideia), Argentina e Portugal. Sua proposta é a publicação de ensaios, documentos e recensões críticas que tenham como escopo a obra do escritor português. Seu intuito é dar a conhecer e o fortalecer as diversas correntes de estudos formadas ao redor do mundo, estabelecer intercâmbios de pesquisas e ser ponto de encontro entre os diversos leitores que se alimentam do interesse pela obra do escritor português.

Parte como a península no romance evocado à abertura dessas palavras à procura de seu próprio espaço. Quer ser um ambiente de rupturas com a calmaria dos estereótipos e propõe-se a estar sempre em trânsito frente à imobilidade das forças da consciência sobre o mundo, afinal uma literatura de desassossego como é a de José Saramago pede uma abordagem igualmente desassossegadora. Como o itinerário da jangada de pedra, é este um itinerário que, tomara, renda muitas movências e nele se produzam tantas significações sejam possíveis numa abertura de diálogo sincero com o texto literário. 

A edição aqui apresentada é organizada pelos editores da REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS, os professores Miguel Koleff e Pedro Fernandes de O. Neto; reúne parte do material editado numa tiragem impressa e limitada com chancela da Editora Patuá e da Fundação José Saramago apresentada por ocasião das celebrações do 92° aniversário do escritor português, em 16 de novembro de 2014, Dia do Desassossego."

Equipe editorial


SUMÁRIO

O fatalismo da pobreza (?): o miúdo pormenor interessa à história 
(Levantado do chão, de José Saramago)
ANA PAULA ARNAUT

Do filosofar sobre a morte: uma leitura das ideias de suicídio e morte em José Saramago
FABIANA TAKAHASHI

Figuração da personagem: a ficção meta-historiográfica de José Saramago
CARLOS REIS

Querido diário...
LÍLIAN LOPONDO

O caminho da morte na narrativa de José Saramago
MARIA VICTORIA FERRARA

Duplos paródicos na obra saramaguiana
CONCEIÇÃO FLORES

Caim decreta a morte de Deus
SALMA FERRAZ

Temas, formas e obsessões em Claraboia, de José Saramago
PEDRO FERNANDES DE OLIVEIRA NETO

O poder, a gloria e a nua vida
MIGUEL ALBERTO KOLEFF

Os espaços concentracionários e as crises da utopia: Sartre e Saramago
TERESA CRISTINA CERDEIRA


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Festival Xalapa - México - Kim Manresa expõe obra (fotografias de prémios Nobel da Literatura) - 4/10/2014






"Ojo por ojo: Genio humano"

Aqui notícia, 

"El Hay Festival Xalapa presenta la obra de Kim Manresa, quien por años ha fotografiado a ganadores del Nobel de Literatura"

Ciudad de México, 4 de octubre 2014
Mostrar la parte más humana de un escritor que ha ganado el Premio Nobel de Literatura no es sencillo. Y si además hay que hacerlo con ingenio y astucia, parece imposible. Sin embargo, el fotógrafo español Kim Manresa consiguió lo que muy pocos: eternizar las huellas de la batalla que han librado frente a la página en blanco. Para lograrlo, Manresa ha visitado a 21 escritores que han obtenido el máximo galardón literario, y ha logrado captar los rasgos inéditos del olimpo literario. Éstas son algunas de las instantáneas que conforman las más de 400 imágenes, donde es posible observar desde la sonrisa tímida de Doris Lessing y la risa franca de Mario Vargas Llosa, los pasos de José Saramago sobre la piel de Lisboa, el encanto de Wislawa Szymborska o la inocencia de Wole Soyinka al sentarse sobre un pupitre en su vieja escuela de Abeokuta.

Saramago olhando Lisboa - Fotografia de Kim Manresa

(Saramago olhando Lisboa - Fotografia de Kim Manresa) 

"Otros autores que Manresa recuerda con aprecio, son José Saramago y Doris Lessing. “Saramago nos dijo que aceptaba las fotografías siempre y cuando él hiciera su vida normal y nosotros como si no existiéramos y  lo acompañamos a un reunión del Partido Comunista y a una reunión familiar”, expresó"

Citador #24 - Blimunda de Jesus, Blimunda mulher... Sete-Luas...

Citador #24
Blimunda
(desenho representativo de Blimunda Sete-Luas e Baltasar Sete-Sóis)


(...) Deveria isto bastar, dizer de alguém como se chama e esperar o resto da vida para saber quem é, se alguma vez o saberemos, pois ser não é ter sido, ter sido não é será, mas outro é o costume, quem foram os seus pais, onde nasceu, que idade tem, e com isto se julga ficar a saber mais, e às vezes tudo. (...)

Página 102

(Quadro de José Santa-Bárbara, da exposição "Vontades")


(...) Blimunda, onde foi que aprendeste essas coisas, Estive de olhos abertos na barriga da minha mãe, de lá via tudo. (...)

Página 331

em, "Memorial do Convento
Caminho, 20.ª edição

Revista Digital "Bliminda" #32 Janeiro de 2015 - para descarregar


Link para descarregar a revista digital, de forma gratuita, 
tal como todos os anteriores números 


Apresentação do #32, via Fundação José Saramago
"O ano de 2015 será o oitavo de existência da Fundação José Saramago – o quinto sem o seu fundador – e o terceiro da Blimunda. Desde que em Junho de 2012 foi publicado o número 1, deparamo-nos todos os meses com o desafio de fazer uma revista de acesso gratuito com qualidade e relevância”, diz o editorial desta edição de janeiro da Blimunda, que começa o ano empenhada em dar voz e espaço a diversas manifestações culturais. Para isso, Sara Figueiredo Costa visita o Museu da Marioneta, em Lisboa, lugar que preserva a história – não só portuguesa, mas de boa parte do mundo – dessa antiga tradição teatral.

Ricardo Viel conversa com o escritor Mempo Giardinelli, cuja dívida de gratidão à Literatura culminou na criação de uma fundação em Resistencia, no Nordeste da Argentina, com o intuito de promover a leitura.

João Monteiro apresenta a segunda parte do seu ensaio “Saramago at the movies” sobre as várias adaptações para o cinema de obras de José Saramago.

Andreia Brites faz uma expedição ao passado e recupera uma análise publicada pelo jornal Expresso há 25 anos sobre literatura infantil e juvenil. Como era vista há um quarto de século a produção para os mais pequenos? O texto responde a essa e outras questões.

A Saramaguiana é ocupada por um texto da investigadora Fernanda Cunha intitulado “A beleza serve-se fria”, em que a autora faz uma análise de Levantado do Chão – romance de José Saramago que completa 35 anos em 2015.

A terminar, os desejos de boas leituras e de um lúcido 2015. Até fevereiro!"


José Saramago: “La paz es una militancia” - texto em homenagem a Ernest Lluch


Para ler e reflectir, via "Memórias" da página da Fundação José Saramago
em http://www.josesaramago.org/jose-saramago-la-paz-es-una-militancia/

"No dia 20 de novembro de 2001, primeiro aniversário da morte do professor e ex-ministro da Saúde espanhol Ernest Lluch, José Saramago participou em San Sebastián numa homenagem ao intelectual assassinado pela ETA. No Teatro Principal, o escritor leu um texto que tinha como título: “La paz es una militancia”. Aqui publicamos a sua intervenção na íntegra (texto em espanhol)."






"No centenário de Álvaro Cunhal" ... a serenidade crítica em tom elogioso

Para visita e consulta, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/159992.html



"No centenário de Álvaro Cunhal"

"Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Greene disse a Eduardo Lourenço: «O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal». O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta."

em. O Caderno 2, 31 de Julho de 2009


"Este texto de José Saramago, por ocasião dos 90 anos de Álvaro Cunhal, foi publicado na revista “Pública” do “Público” de 9 de Novembro de 2003"

“Não é o santo que alguns louvam nem o demónio que outros aborrecem, é, mas não simplesmente, um homem. Chama-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a comer os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e a decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos prováveis e possíveis do partido de que foi, por muitos anos, contínua e quase solitária referência. Quer no plano nacional, quer no plano internacional, não duvido de que sejam de amargura as horas que vive o meu camarada Álvaro Cunhal. Não é o único, e ele o sabe. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele foi, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultado que se visse, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Álvaro Cunhal quando ele se retirou. Agora, quando cumpre os seus noventa anos, talvez já não precisemos dele. Mas o que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso.”





segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Dom João V e o seu almoxarife... numa aula de economia e finanças - "Memorial do Convento"

El Rei Dom João V, sonha e a obra acontece. 
Custe o que custar. Alguém haverá de se lembrar de pagar.
Eis, com a devida ressalva do autor, uma suposta aula sobre a economia e finanças do reino.

"Retirou-se rasando vénias João Frederico Ludovice para ir reformar os desenhos, recolheu-se o provincial à província para ordenar os actos congratulatórios adequados e dar a boa nova, ficou o rei, que está em sua casa, agora esperando que regresse o almoxarife que foi pelos livros da escrituração, e quando ele volta pergunta-lhe, depois de colocados sobre a mesa os enormes in-Fólios, Então diz-me lá como estamos de deve e haver. O guarda-livros leva a mão ao queixo parecendo que vai entrar em meditação profunda, abre um dos livros como para citar uma decisiva verba, mas emenda ambos os movimentos e contenta-se com dizer, Saiba vossa majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, devemos cada vez mais, Já o mês passado me disseste o mesmo, E também o outro mês, e o ano que lá vai, por este andar ainda acabamos por ver o fundo ao saco, majestade, Está longe daqui o fundo dos nossos sacos, um no Brasil, outro na Índia, quando se esgotarem vamos sabê-lo com tão grande atraso que poderemos então dizer, afinal estávamos pobres e não sabíamos, Se vossa majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade, Ah, ah, ah, riu o rei, essa tem muita graça, sim senhor, queres tu dizer na tua que a merda é dinheiro, Não, majestade, é o dinheiro que é merda, e eu estou em muito boa posição para o saber, de cócoras que é como sempre deve estar quem faz as contas do dinheiro dos outros. Este diálogo é falso, apócrifo, calunioso, e também profundamente imoral, não respeita o trono nem o altar, põe um rei e um tesoureiro a falar como arrieiros em taberna, só faltava que os rodeassem inflamâncias de maritornes, seria um desbocamento completo, porém, isto que se leu é somente a tradução moderna do português de sempre, posto o que disse o rei, A partir de hoje, passas a receber vencimento dobrado para que te não custe tanto fazer força, Beijo as mãos de vossa majestade, respondeu o guarda-livros."

em, "Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição - página 283 e 284

(Iluminura de Dom João V em 1707, por Pompeo Batoni)

Breve informação biográfica, via Wikipédia

"Dom João V de Portugal, o Magnânimo (22 de Outubro de 1689—31 de Julho de 1750), foi o vigésimo-quarto Rei de Portugal desde 1 de Janeiro de 1707 até à sua morte.

O seu longo reinado de 43 anos foi o mais rico da História de Portugal, profundamente marcado pela descoberta de ouro no Brasil no final do século XVII, cuja produção atingiu o auge precisamente na última década do seu reinado.

A primeira e última década do reinado foram marcadas por guerras: 1) a Guerra da Sucessão Espanhola, que levara à tomada de Madrid em 1706, e levou à Batalha de Almansa no primeiro ano do seu reinado, e ainda a combates em África, na América, e na Ásia contra os franceses; 2) mais tarde as campanhas navais contra os turcos no Mediterrâneo, que levaram à vitória na Batalha de Matapão em 1717; e ainda 3) as guerras que Portugal ao mesmo tempo travava no Oriente, na Arábia e na Índia, contra estados asiáticos, nomeadamente contra o Império Marata e os árabes de Omã.

O longo reinado de D. João V pode de certo modo dividir-se em dois períodos: uma primeira metade em que Portugal teve um papel activo e de algum relevo na política europeia e mundial, e uma segunda metade, a partir da década de 1730, em que a aliança estratégica com a Grã-Bretanha gradualmente assumiu maior importância, e o reino começou a sofrer uma certa estagnação.

Como rei, D. João V sempre tentou projectar Portugal como uma potência de primeira grandeza, principalmente nas primeiras décadas do reinado. Exemplos disso são as faustosas embaixadas que por motivos vários enviou a Leopoldo I, Sacro Imperador Romano-Germânico em 1708, a Luís XIV da França em 1715, ao Papa Clemente XI em 1716, ou ainda ao Imperador da China em 1725. Outro exemplo foi o litígio que manteve com a Santa Sé na década de 1720, sobre a questão do cardinalato a atribuir ao núncio apostólico na capital portuguesa.

D. João V foi um grande edificador, e dotou principalmente a capital portuguesa de numerosas construções. Fomentou o estudo da história e da língua portuguesa, mas falhou em melhorar de forma significativa as condições da manufactura em Portugal; e gastou a maior parte da sua riqueza nos edifícios que construiu. Por ironia do destino, a maior parte deles desapareceria pouco depois da sua morte, no grande Terramoto de 1755. Os principais testemunhos materiais do seu tempo hoje são, em Portugal, o Palácio Nacional de Mafra, a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, o Aqueduto das Águas Livres em Lisboa, e a principal parte da colecção do Museu Nacional dos Coches, talvez a mais importante a nível mundial, também na capital portuguesa. No campo imaterial, merece destaque a extinta Academia Real da História Portuguesa, precursora da actual Academia Portuguesa da História, e ainda a criação do Patriarcado de Lisboa, um dos três patriarcados do Ocidente da Igreja Católica.

O último feito diplomático do reinado de D. João V, o Tratado de Madrid de 1750, estabeleceu as fronteiras modernas do Brasil. Vestígios do seu tempo no Brasil são cidades como Ouro Preto, então a capital do distrito do ouro das Minas Gerais, São João del-Rei, assim nomeada em sua honra, Mariana, que recebeu o nome da rainha, São José, a que foi dada o nome do príncipe herdeiro (hoje Tiradentes), e numerosas outras cidades, igrejas e conventos da era colonial."

Notícia do El País - Sevilha recebe a exposição "A Janela de Saramago" de João Francisco Vilhena (16/01/2015)


José Saramago em Lanzarote (1998) / Fotografia de João Francisco Vilhena


"Saramago vuelve sobre sus pasos a los volcanes de Lanzarote"

"Sevilla acoge una muestra con fotografías del Premio Nobel portugués realizadas por João Francisco Vilhena" - Margot Molina (16/01/2015) 


"Llegado a este punto, una duda inquietante me asalta: ¿qué sentido tengo yo?". Quien esto se preguntaba, José Saramago, es quizá uno de los escritores que más ha cargado su obra de sentido, un sentido de la necesidad de contar las cosas tal y como son, de ser fiel reflejo de la realidad que le tocó vivir, de no esconderse, que sus lectores siempre le han agradecido. La frase, junto a otras sacadas de Cuadernos de Lanzarote (1993-1995), fortalece las instantáneas realizadas por João Francisco Vilhena que se exhiben en la muestra Lanzarote: La ventana de Saramago, inaugurada este viernes en la Casa de la Provincia de Sevilla.

"Dios, definitivamente, no existe", reza una de las frases cuidadosamente entrelazadas a las primeras instantáneas en blanco y negro de la muestra que ha inaugurado la presidenta de la Junta, Susana Díaz. Y tanto Díaz como el presidente de la Diputación, Fernando Rodríguez Villalobos, se han referido a los últimos atentados terroristas en Europa. "Estoy seguro de que Saramago no se habría callado en estos días y habría alzado la voz contra la mordaza que el fanatismo está intentando poner a la libertad de expresión", dijo el responsable de la Diputación. Mientras que Díaz se mostró convencida de que el autor de Ensayo sobre la ceguera "habría levantado la voz contra el fanatismo, porque ya en su obra está escrito que el fanatismo es una forma de ceguera".

Lanzarote, la ventana de Saramago incluye tres instantáneas en color y otras 26 en blanco y negro realizadas en 1998, con el escritor portugués como protagonista; y en 2014, cuando el fotógrafo vuelve a los mismos paisajes que recorrió el autor de La balsa de piedra tras recibir el Nobel de Literatura."

José Saramago em Lanzarote (1998) / Fotografia de João Francisco Vilhena

"Están las fotos que el Gobierno de Portugal me encargó en 1998, cuando Saramago recibió el Premio Nobel, que se mostraron entonces en el Gran Hotel de Estocolmo. Junto a esas imágenes, en las que retraté al escritor durante sus paseos por el paisaje volcánico de Lanzarote, he colgado otras tomadas en 2014 en los mismos escenarios que él tanto amaba, ahora vacíos. Está el paisaje, que recuerda a la persona que, lamentablemente, ya no está", explicó este viernes João Francisco Vilhena (Lisboa, 1965).

La periodista y viuda del escritor Pilar del Río desveló la importancia que Lanzarote ejerció en la obra de Saramago. "A partir de Ensayo sobre la ceguera (1995) cambió de estilo. Él lo explicaba con la metáfora de la estatua. Hasta que escribió El evangelio según Jesucristo (1991) había estado describiendo una estatua pero, a partir de El evangelio... le interesó más la piedra de la que esa escultura estaba hecha", recordó la presidenta de la Fundación José Saramago, con sedes en Lisboa y en la casa de Tías (Lanzarote) en la que el escritor pasó la mayor parte de sus últimos 18 años de vida.

La muestra, organizada por la Diputación de Sevilla y el Consulado de Portugal, estará abierta hasta el 1 de marzo e incluye algunos "tesoros" prestados por la Fundación Saramago como los originales del primer libro, Claraboya, y el último, Alabardas, que escribió el autor portugués. Junto a estos folios llenos de tachaduras se puede ver el paisaje de Lanzarote interpretado por otro artista: David de Almeida, en homenaje al hombre que nunca tuvo miedo a desnudar su pensamiento."