Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Fundação José Saramago assinala a abertura da embaixada de Cuba nos EUA, com o texto "Guantánamo" de 5/11/2008

Via Fundação José Saramago, através da página oficial no Facebook, aqui

"No dia em que se restabelecem oficialmente as relações entre Cuba e os Estados Unidos, recordamos um texto de José Saramago publicado no seu blogue, O Caderno de Saramago, a 5 de novembro de 2008"

(O hastear da bandeira de Cuba, na sua embaixada - EUA)

A recordação do post, de 5 de Novembro de 2008, também publicado no livro "O Caderno", pode ser consultado e lido na integra, aqui em http://caderno.josesaramago.org/9928.html

"Guantánamo"
"No momento em que escrevo estas linhas os colégios eleitorais ainda vão continuar abertos durante mais algumas horas. Só pela madrugada dentro surgirão as primeiras projecções sobre quem será o próximo presidente dos Estados Unidos. No caso altamente indesejável de que viesse a triunfar o general McCain, o que estou a escrever pareceria obra de alguém cujas ideias sobre o mundo em que vive pecassem por um total irrealismo, por um desconhecimento absoluto das malhas com que se tecem os factos políticos e os diversos objectivos estratégicos do planeta. Nunca o general McCain, sendo, ainda por cima, como a propaganda não se cansa de lhe chamar e que um miserável paisano como eu nunca se atreveria a negar, um herói da guerra contra o Vietnam, nunca ele ousaria deitar abaixo o campo de concentração e tortura instalado na base militar de Guntánamo e desmontar a própria base até ao último parafuso, deixando o espaço que ocupa entregue a quem é o seu legítimo dono, o povo cubano. Porque, quer se queira, quer não, se é certo que nem sempre o hábito faz o monge, a farda, essa, faz sempre o general. Deitar abaixo, desmontar? Quem é o ingénuo que teve semelhante ideia?

E, contudo, é disso precisamente que se trata. Há poucos minutos uma estação de rádio portuguesa quis saber qual seria a primeira medida de governo que eu proporia a Barack Obama no caso de ele ser, como tantos andamos a sonhar desde há um ano e meio, o novo presidente dos Estados Unidos. Fui rápido na resposta: desmontar a base militar de Guantánamo, mandar regressar os marines, deitar abaixo a vergonha que aquele campo de concentração (e de tortura, não esqueçamos) representa, virar a página e pedir desculpa a Cuba. E, de caminho, acabar com o bloqueio, esse garrote com o qual, inutilmente, se pretendeu vergar a vontade do povo cubano. Pode suceder, e oxalá que assim seja, que o resultado final desta eleição venha a investir a população norte-americana de uma nova dignidade e de um novo respeito, mas eu permito-me recordar aos falsos distraídos que lições da mais autêntica das dignidades, das quais Washington poderia ter aprendido, as andou a dar quotidianamente o povo cubano em quase cinquenta anos de patriótica resistência.

Que não se pode fazer tudo, assim de uma assentada? Sim, talvez não se possa, mas, por favor, senhor presidente, faça ao menos alguma coisa. Ao contrário do que acaso lhe tenham dito nos corredores do senado, aquela ilha é mais que um desenho no mapa. Espero, senhor presidente, que algum dia queira ir a Cuba para conhecer quem lá vive. Finalmente. Garanto-lhe que ninguém lhe fará mal."
em "O Caderno"
Caminho, páginas 103 a 105, (8 de Novembro de 2008)


Revista Blimunda #26 - Mês de Julho 2014 - Recordação das edição do ano passado

Neste mês de Junho, recordamos o #26 da Revista Blimunda 
Pode ser descarregada gratuitamente, aqui
em http://blimunda.josesaramago.org/2014/07/23/blimunda-26-julho-de-2014/

(Capa da edição do mês de Julho do ano passado, #26)

Sinopse
"Neste mês de julho cumprem-se cem anos do início da Primeira Guerra Mundial, tema que a Blimunda # 26 recupera com nove meditações sobre a guerra, de autoria de José Saramago, acompanhados por ilustrações de Filipe Abranches, e com a reprodução de dez cartazes que mostram diferentes formas de abordagem gráfica ao conflito que marcou o panorama social e político mundial.

Participante de luxo desta edição da revista, o sociólogo espanhol Juan José Tamayo assina uma reflexão sobre o livro de sua autoria, Cincuenta intelectuales para una conciencia crítica. Ricardo Viel entrevista a poeta Matilde Campilho, revelação da poesia lusófona e autora do recentemente publicado Jóquei. Da Colômbia chega-nos um retrato da Carreta Literária, projeto de promoção de leitura fruto da insistência e do sonho de um vendedor de Cartagena de Índias. Na secção Infantil e Juvenil Andreia Brites relata os bastidores da Ilustratour, encontro dedicado à ilustração realizado em Valladolid que na sua sétima edição se afirma como um dos mais importantes pontos de encontro entre ilustradores e editores no país vizinho. Espaço, ainda, para a primeira parte de um artigo de João Monteiro dedicado à relação entre a Literatura Negra e o Cinema Negro, partindo da Antologia do Conto Fantástico Português, publicado na década de 1960.

Na Saramaguiana, a Blimunda publica um ensaio de Wagner Martins Madeira sobre o humor em A Viagem do Elefante, de José Saramago, ilustrado pelas imagens da peça de teatro com o mesmo nome que o Trigo Limpo Teatro ACERT leva pelo segundo ano consecutivo a mais de 14 localidades do interior de Portugal.

E como estamos no verão, Sara Figueiredo Costa explora As Praias de Portugal – Guia do banhista e do viajante, de Ramalho Ortigão, agora reeditado pela Quetzal, livro que justifica a ideia (incompreensível) de que há leituras adequadas para as férias de verão, para quem as têm, e para a praia."

domingo, 19 de julho de 2015

José Saramago "Esta es mi tierra" - Vídeo reflexão sobre os lugares a que pertencemos - TVE2

Azinhaga - Lisboa - Lanzarote

Pode ser visualizado aqui, via YouTube, 

“Habitamos físicamente un espacio, pero sentimentalmente vivimos en una memoria”. Esta es una de las tantas reflexiones que escuchamos del “viajero” –como aparece referido José Saramago en este programa– mientras recorre y presenta al espectador tres lugares que fueron significativos en su vida: Azinhaga (el pueblo donde nació), Lisboa (la ciudad en la que, nos dice, nunca llegaría a ser un extraño) y Lanzarote (donde fijó su última residencia). Como es costumbre en la serie “Esta es mi tierra”, el viaje al que asiste el espectador es también un viaje literario. En este caso son leídos fragmentos de las obras: “Viaje a Portugal”, “El año de la muerte de Ricardo Reis” y “Cuadernos de Lanzarote”.

Voz de Fernando Hernández

Uma análise da fase Estátua da obra de José Saramago, segundo o estudo da académica Eula Pinheiro

(A estátua e a pedra, imagem cénica da obra de Eula Pinheiro)

"José Saramago: Tudo, Provavelmente são Ficções; mas a Literatura é Vida"
Musa Editora, 2012

(...) é como se eu me tivesse dedicado a descrever uma estátua? O que é uma estátua? a estátua é a superfície da pedra, a estátua é só a superfície da pedra, é o resultado daquilo que foi retirado da pedra, a estátua é o que ficou depois do trabalho que retirou pedra à pedra, toda a escultura é isso, é a superfície da pedra e é o resultado dum trabalho que retirou pedra da pedra. (...)
Em "A Estátua e a Pedra" de José Saramago, aqui mencionado na obra de Eula Pinheiro

Segundo a autora, esta obra é uma análise à fase da estátua, literáriamente aqui compreendida no tempo entre a publicação do Manual de Pintura e Caligrafia, ponto de partida, e a "História do Cerco de Lisboa", onde "toda a verdade é ficção".

Prefácio da Presidenta Pilar del Río, onde descreve que "Eula Carvalho Pinheiro, que escreveu um livro indispensável para os que amam a obra de Saramago, ou seja, ao autor que construiu a realidade à base de ficções que nos fortalecem e dignificam." 

"José Saramago: Tudo, Provavelmente são Ficções; mas a Literatura é Vida", é um titulo de força e de vida, denso e concreto, que abarca muita informação para nos auxiliar na leitura e interpretação de um homem, activista e humanista.
Estruturado em 3 partes principais, somos brindados com imagens e detalhes habitualmente não inseridos nestas obras de estudo, e que neste caso introduzem o conceito de "Vida" do autor e das pessoas. É a imagem de um pedaço do manuscrito que deu origem ao "Memorial do Convento", o desenho da mão de José Saramago, feita pelo próprio e que foi objecto de leilão, fotos, locais, roteiros e momentos.



4º Aniversário da Fundação José Saramago - Leitura por Eula Pinheiro
No dia da comemoração do 4º aniversário da Fundação José Saramago,
 com uma leitura pública do livro "Palavras para José Saramago",
 que recolhe os textos publicados por todo o mundo
 nos dias que se seguiram à morte de José Saramago.

  


Projecto #unchainmee - Pela ABOLIÇÃO de animais nos circos - Saramago e a parceria da Fundação José Saramago

Já pararam para pensar....
Que os animais utilizados para diversão das plateias, SÃO TORTURADOS?
Que os animais são mantidos em absolutas condições de ENCARCERAMENTO em JAULAS?
Que os animais são sujeitos a condições de TORTURA durante os "TREINOS"?
Que as doenças e danos fisicos que condicionem a sua rentabilidade da utilização, leva ao SEU ABANDONO, MORTE e não raras vezes como ALIMENTAÇÃO para outros animais?

Projecto #unchainmee - Pela ABOLIÇÃO de animais nos circos


Actor João Lagarto lê o texto "Susi"


"Susi"
"Pudesse eu, e fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, e proibiria a utilização de animais nos espectáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás de grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a sua natureza. Isto no que toca aos zoológicos. Mais deprimentes do que esses parques, só os espectáculos de circo que conseguem a proeza de tornar ridículos os patéticos cães vestidos de saias, as focas a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados, os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto, os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis. Que é divertido, as crianças adoram, dizem os pais, os quais, para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?) suportadas até à agonia pelos pobres animais, vítimas inermes da crueldade humana. Os pais também dizem que as visitas ao zoológico são altamente instrutivas. Talvez o tivessem sido no passado, e ainda assim duvido, mas hoje, graças aos inúmeros documentários sobre a vida animal que as televisões passam a toda a hora, se é educação que se pretende, ela aí está à espera."

(Foi por esta elefanta que Saramago interveio, seu nome Susi) 

"Perguntar-se-á a que propósito vem isto, e eu respondo já. No zoológico de Barcelona há uma elefanta solitária que está morrendo de pena e das enfermidades, principalmente infecções intestinais, que mais cedo ou mais tarde atacam os animais privados de liberdade. A pena que sofre, não é difícil imaginar, é consequência da recente morte de uma outra elefanta que com a Susi (este é o nome que puseram à triste abandonada) partilhava num mais do que reduzido espaço. O chão que ela pisa é de cimento, o pior para as sensíveis patas deste animais que talvez ainda tenham na memória a macieza do solo das savanas africanas. Eu sei que o mundo tem problemas mais graves que estar agora a preocupar-se com o bem-estar de uma elefanta, mas a boa reputação de que goza Barcelona comporta obrigações, e esta, ainda que possa parecer um exagero meu, é uma delas. Cuidar de Susi, dar-lhe um fim de vida mais digno que ver-se acantonada num espaço reduzidíssimo e ter de pisar esse chão do inferno que para ela é o cimento. A quem devo apelar? À direcção do zoológico? À Câmara? À Generalitat?
P. S.: Deixo aqui uma fotografia. Tal como em Barcelona há grupos – obrigado - que têm pena de Susi, na Austrália também um ser humano se compadeceu de um marsupial vitimado pelos últimos incêndios. A fotografia não pode ser mais emocionante."

(Assistência ao Koala)

Post publicado em 19 de Fevereiro de 2009, 
Blog "Caderno" e livro "O Caderno", Caminho, páginas 198 e 199

A Fundação José Saramago associou-se a este projecto, no apoio institucional e de divulgação da iniciativa, bem como na cedência das instalações para a apresentação dos vídeos de apoio e denuncia da causa. 
Poderá pensar-se que pode ser um assunto desconexo com os princípios desta instituição, virada no seu âmago para a vida e divulgação da obra de José Saramago entre outros desenvolvimentos baseados no aspecto literário, mas cumpre desde a sua instituição e formação alicerçada no espírito do autor e sua intervenção cívica em outros aspectos sociais. 
Na "Declaração de Princípios" (ver http://www.josesaramago.org/declaracao-de-principios/), e pelo punho de Saramago é idealizado que "A direcção dos grandes valores, sim, mas também a direcção das pequenas e comuns acções que deles decorrem no quotidiano e que lhes darão a melhor validez das experiências adquiridas e das aprendizagens que não cessam. O paradoxo da existência humana está em morrer-se em cada dia um pouco mais, mas que esse dia é, também, uma herança de vida legada ao futuro, que o futuro, longo ou breve seja ele, deverá assumir e fazer frutificar.", onde reforça explicitamente outras preocupação sobre as causas da defesa do meio ambiente, e aqui nesta alínea, esta luta é o espelho da sua intervenção junto de tribos ameaçadas pelos grandes interesses económicos das multinacionais que os "governos" residentes dão secular apoio, ou na defesa pontual de um animal, como foi o texto sobre a elefanta Susi, dois exemplos entre mil. Recordando a alínea c) da "Declaração de Princípios", fica vincado o pragmatismo e desconfiança de que o tempo de intervir é cada vez mais urgente. 
"c) Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo"

O QUE É ESTE PROJECTO?

(Imagem do projecto #unchainmee)

Informação e vídeos em http://www.unchainmee.com/
“Cada Animal Preso no Circo tem uma Cara” é o início de uma campanha internacional de ajuda ao resgate de todos os Animais domésticos e selvagens que trabalham ainda em Circos por todo o mundo.

Por todo o mundo há cada vez mais países a abolir o uso de Animais no Circo, devido ao importante e eficaz trabalho de Associações de defesa de direitos dos Animais.

Muitas organizações dedicam-se também ao resgate, reabilitação física e psicológica e transferência destes Animais para santuários onde possam viver uma vida sem encarceramento nem exploração.

Para apoiar este trabalho um grupo de cidadãos da área das artes e espectáculo juntou-se para criar 12 filmes que mostram a vida de escravidão que todos os animais, sejam eles domésticos ou selvagens, continuam a viver no Circo. Além da questão moral de fundo -- não temos o direito de explorar e manter ninguém em cativeiro para nossa diversão.

Em Portugal, participam neste projecto as muito conceituadas actrizes e actores: RITA BLANCO, ADRIANO LUZ, MARIA JOÃO LUÍS, JOÃO LAGARTO, CARLA BOLITO, FILIPE DUARTE, ANA BRANDÃO, RUBEN ALVES, MITÓ MENDES, MARCELLO URGEGHE, MANUELA COUTO E DIOGO AMARAL.

Sobre #unchainmee 

#unchainmee é um grupo informal de cidadãos a nível nacional e internacional, que se juntou para esta primeira campanha que defende a abolição de animais de qualquer espécie em Circos.

Sendo todos os membros de #unchainmee admiradores do circo enquanto arte e espectáculo com humanos, consideram inaceitável que animais de tantas espécies continuem a ser encarcerados e forçados a actuar.

No seio desta iniciativa nasceu uma produção internacional da autoria da realizadora Teresa Ramos que arranca agora em Portugal com 12 filmes que relatam histórias verdadeiras de animais que viveram no circo e foram resgatados. À semelhança da primeira fase portuguesa, estas histórias serão relatadas também noutros países e representadas por prestigiados actores dos mesmos.

Sobre Regulamentação versus Resgate e Libertação

A lei portuguesa, por exemplo, esquece a defesa e libertação dos animais ainda presos no circo, apenas proíbe a sua reprodução (e apenas de espécies selvagens) permitindo ainda a sua exploração.

Mas mesmo esta lei não é cumprida, visto que, na altura do Natal, continua a ser comum ver os circos apresentarem leões e tigres bebés, para oportunidades fotográficas com espectadores, quando isso é ilegal.

Uma observação do comportamento dos animais que se encontram encarcerados nos circos permite concluir que os sintomas de confinamento, como os movimentos repetitivos, as estereotipias, a coprofragia e tantos outros que estão muito bem documentados por médicos veterinários e biólogos especializados em etologia, demonstram bem a vida de escravidão a que são forçados os animais quando são mantidos nos circos.

Uma das histórias relatadas, a da Elefanta Shirley, mostra que, se os próprios zoos mais avançados do mundo começam a reconhecer, aberta e honestamente, que não conseguem oferecer aos seus animais a qualidade de vida e o espaço suficiente para lhes darem existência decente, então não há como conceber que os circos – ambulantes por natureza e com sistemas de jaulas como únicos alojamentos para os animais – possam manter os animais em boas condições.

Por Fim 

#unchainmee salienta também que este é um problema que afecta igualmente animais de espécies selvagens e de espécies domésticas (estas muito esquecidas ao olhos da lei e do público no mundo inteiro), como de resto se demonstra através das histórias que os filmes contam. A conclusão que se apresenta é de que todos os animais – e não apenas de espécies selvagens – que se encontram nos circos devem ser resgatados e colocados em santuários onde possam recuperar e preservar a sua integridade. O público deve ser incentivado a escolher apenas circos onde não haja Animais."

(Vídeo promocional da campanha)







terça-feira, 14 de julho de 2015

"Europa Sim, Europa Não" Publicado originalmente no Jornal de Letras, Artes & Ideias (10/01/1989)

2015, o ano onde a Europa, continente, mas também símbolo de unidade política e monetária, centro de discussão das artes e culturas, terra de guerras entre povos e suas conquistas territoriais, vive de novo o paradigma de desconhecer o caminha para onde se dirige.
Da Grécia, berço das nações; dos países do sul, dos países do norte, das "Alemanhas" reunificadas que surgem como poder inquestionável pelos demais, das guerras a leste, o cemitério de refugiados no Mediterrâneo, os Balcãs, as ilhas Britânicas, a Península Ibérica, o espectro do radicalismo religioso... tanta Europa para tão pouco Europa.
Em 1989, um homem, "um humanista por acaso escritor" pensava estas questões. Agora se confirmam.
Leia-se o texto, e sentimos que foi hoje escrito.
Rui Santos
      


Mencionado na obra de Ana Paula Arnaut, "José Saramago" - Edições 70 (2008)

Capítulo 2 - Textos Doutrinários
"Europa", páginas 77 a 80

Publicado originalmente no Jornal de Letras, Artes & Ideias,
10 de Janeiro de 1989, página 32

(Capa da obra de Ana Paula Arnaut 
que republica o texto sobre a ideia de "Europa")


"Europa Sim, Europa Não"
"Algumas vezes este romancista, preso nas malhas da ficção que ia tecendo, chegou a imaginar-se transportado na delirante jangada de pedra em que transformara a Península Ibérica, flutuando sobre o mar atlântico, a caminho do Sul e da Utopia. A peculiaridade da alegoria era transparente: embora prolongando algumas semelhanças com o mais comum dos emigrantes que parte para outras terras a buscar a vida, prevalecia, neste caso, uma definitiva e substancial diferença, a de viajarem também comigo, na migração inaudita, o meu próprio país, todo ele, e, sem que aos espanhóis tivesse pedido a devida licença, portanto sem autorização nem procuração, a Espanha. Ora, embalado nestas minhas imaginações, notava eu que não tinha parte nelas qualquer sentimento de pesar, de tristeza, de aflição mais ou menos pânica, ou, para tudo dizer na inevitável [palavra] portuguesa, saudade. Compreender-se-á já porquê. É certo que, pelos vistos irremediavelmente, me ia afastando da Europa, mas os tecidos vitais da barca imensa que me levava continuavam a alimentar as raízes da minha identidade própria e da minha pertença colectiva: logo, não encontrava causa para chorar um bem perdido, se realmente podia ser assim designado o que antes ganho não fora, mesmo tendo tão pouco de bem. 
Para não cairmos nos braços da banalidade e da redundância não nos fatiguemos a repetir aqui o longuíssimo catá-logo das maravilhas europeias, desde os gregos e latinos até aos felizes dias de hoje. Por de mais sabemos que a Europa é madre ubérrima de culturas, farol inapagável da civilização, lugar onde haveria de instituir-se o modelo humano que, seguramente, mais próximo estará do projecto que Deus tinha em mente quando colocou no paraíso o mais antigo exemplar da espécie. Pelo menos é desta idealizada maneira que os europeus costumam ver-se ao espelho de si mesmos, e essa é a resposta servil que a si mesmo invariavelmente dão: «Sou eu o que de mais belo, de mais inteligente e de mais culto a Terra produziu até agora.» Dito o que seria a altura de começar a redigir a decerto não menos longa acta dos desastres e horrores europeus, que acabaria por levar-nos à deprimente conclusão de que a famosa batalha celeste, afinal, foi ganha por Lúcifer e que o único habitante do paraíso teria sido a ser-pente, encarnação tangível do mal e seu emblema gráfico, que não precisou de macho, ou de fêmea, se macho era, para proliferar em número e em qualidade. Não faremos pois a acta, como não fizemos o catálogo. Antes cobriremos piedosamente o espelho para que não venha a ser pronunciada sequer a primeira palavra da resposta. 
E agora basta de escatologias e ficções. De um ponto de vista ético abstracto, a Europa não tem mais culpas no cartório da História que qualquer outra região do mundo onde, hoje e ontem, por todos os meios, se tenham disputado o poder e a hegemonia. Mas a ética, exercendo-se, como no-lo está dizendo o senso comum, sobre o concreto social, é porventura a menos abstracta de todas as coisas e, ainda que variável no tempo e no espaço, permanece como uma presença calada e rigorosa que, com o seu olhar fixo, nos pede contas todos os dias. Suponho que estamos vivendo o tempo em que a Europa terá de apresentar a juízo o balanço da sua gestão, se não quer prolongar, com o requinte de processos que os modernos meios de comunicação de massa permitem, o seu pecado ou vício maior, que é a existência de duas Europas, a central e a periférica, mais o consequente lastro histórico da injustiça, discriminações e ressentimentos. Já não falo das guerras, das invasões, dos genocídios, das eliminações selectivas, falo sim da ofensa grosseira que é, para além dessa espécie de deformação congénita denominada eurocentrismo, aquele outro comportamento aberrante que consiste em ser a Europa eurocêntrica em relação a si mesma. Para os Estados europeus ricos e, segundo opinião narcísica em que se comprazem, culturalmente superiores, o resto da Europa é algo vago e difuso, um pouco exótico, um pouco pitoresco, merecedor, quando muito, da atenção da antropologia e da arqueologia, mas onde, apesar de tudo, contando com as adequadas colaborações locais, ainda se podem fazer alguns bons negócios. 
Ora, não haverá no futuro uma nova Europa se esta não se instituir formalmente como entidade moral, e também não haverá se não for abolido, mais do que os egoísmos nacionais, que tantas vezes não passam de meros reflexos defensivos, o preconceito da prevalência ou da subordinação das culturas. Tenho obviamente presente a importância dos factores económimicos, militares e políticos na formação das estratégias continentais e seu enquadramento nas geoestratégias globais, mas, sendo por fortuna ou desfortuna homem de literatura, é meu dever imediato lembrar que as hegemonias culturais de hoje resultam, fundamentalmente, de um processo duplo e cumulativo de evidenciação do próprio e de ocultação do alheio que teve artes de impor-se como inelutável, quase sempre, pela resignação, quando não pela cumplicidade das próprias vítimas. Nenhum país, por mais rico e poderoso que seja, deveria poder arrogar-se uma voz mais alta. E, já que de cultura esta-mos falando, também nenhum país ou grupo de países, tratado ou pacto, deveria propor-se como mentor ou guia dos restantes. As culturas, comece a Europa por entendê-lo, e entendido tente ficar de uma vez para sempre, não são melhores nem piores, não são mais ricas nem mais pobres, são, simplesmente e felizmente, culturas. Aí, valem-se umas às outras, e é só pela diferença, assumida e aprofundada, que se acharão justificadas. Não há, e esperamos que não venha a haver uma cultura una e universal. A Terra, sim, é única, mas o homem não. Cada cultura é em si mesma um universo comunicante: o espaço que as separa umas das outras é o mesmo espaço que as liga, como o mar aqui na Terra, separa e liga os continentes. Esse romance [A Jangada de Pedra] em que afasto a Península Ibérica da Europa, não precisaria dizê-lo, é o efeito último de um ressentimento histórico. Provavelmente só um português poderia ter escrito este livro. Mas o seu autor declara que estaria pronto a fazer do mar a errante jangada, depois de alguma coisa ter aprendido nesta navegação, se a Europa, reconhecendo-se incompleta sem a Península Ibérica, fizesse pública confissão dos erros cometidos, injustiças e desprezos. Porque, enfim, se de mim se espera que ame a Europa como à minha própria mãe, o mínimo que lhe posso exigir é que a ame a todos os seus filhos por igual e, sobretudo que por igual os respeite a todos." 
José Saramago
"Europa sim, Europa não", in Jornal de Letras, Artes & Ideias
10 de Janeiro de 1989, página 32 

sábado, 11 de julho de 2015

Juan Cruz do "El País" entrevistou José Saramago "Saramago vuelve a la niñez" (20/08/2006)

"No podía dar una visión idílica de tiempos que de idílicos no tenían nada", explica el escritor portugués, de 83 años, a propósito de su infancia. Acaba de terminar de escribir 'Las pequeñas memorias'.

A entrevista pode ser lida e consultada, aqui,

"Saramago vuelve a la niñez" de Juan Cruz (20 de Agosto de 2006)

(José Saramago / Associated Press)

José Saramago tiene 83 años y acaba de volver a la niñez, escribiendo Las pequeñas memorias, que terminó esta misma semana (el 15 de agosto) en su casa de Lanzarote. Hablamos con el premio Nobel portugués en la biblioteca que acaba de estrenar. "Pude haber pensado que un día tendría el Nobel, pero jamás se me pasó por la cabeza que tendría una biblioteca como ésta. Claro, es obra de Pilar". Pilar es Pilar del Río, su mujer, su traductora; ya trabaja en la traducción de Las pequeñas memorias. La biblioteca está completamente informatizada, y está conectada a la Universidad de Granada y a otras instituciones docentes y literarias del mundo. Ya Saramago ha publicado más de 40 libros; el último fue Intermitencias de la muerte (Alfaguara). Las pequeñas memorias se publicará el 16 de noviembre en su editorial portuguesa Caminho, coincidiendo con el cumpleaños del escritor, y se presentará ese mismo día en Azinhaga, su pueblo natal; en España, el libro aparecerá en Alfaguara, como toda su obra.

Pregunta. ¿Qué se siente al acabar un libro?
Respuesta. Emoción. A veces, lágrimas. Ocurrió con Ensayo sobre la ceguera, con Intermitencias de la muerte. Cuando acabas, te despides, entra una especie de vacío, ¿y ahora qué? Siempre.

P. ¿Pasó con éste?
R. Pasó. Es un libro de memorias de cuando era pequeño; se iba a llamar El libro de las tentaciones, pero me pareció pretencioso, así que le puse este título, que es idéntico a su propósito: Las pequeñas memorias. Me quedé siempre muy atado al niño que fui, y ahora me ha sorprendido la cantidad de recuerdos que tenía de aquella época. El libro me ha hecho sufrir un poco. Al final también hubo alivio.

P. ¿Sufrió escribiéndolo?
R. Porque algunas cosas que cuento son dolorosas. Recuerdos familiares que no son agradables, que me tocaron negativamente; podía haberlos omitido, pero no podía dar una visión idílica de tiempos que de idílicos no tenían nada. Eso me ha producido dolor. Y a veces me he bloqueado. Sólo me había sucedido con Manual de pintura y caligrafía.

P. Dolor en la niñez.
R. Cosas que un niño no debía haber visto. Cuando lo leas sabrás de qué estoy hablando.

P. Ochenta y tres años. ¿Qué le ha hecho volver a una edad tan remota?
R. Es una idea que ya llevaba más de veinte años en mi cabeza. Ahora o jamás. Son 150 páginas. No es literatura sobre lo que he vivido, sino lo que he vivido. Si hubiera literaturizado la vida hubieran salido 500 páginas.

P. ¿Qué efecto sentimental produce una confesión así?
R. Un adulto escribe memorias de adulto, acaso para decir: "Miren qué importante soy". He hecho memorias de niño, y me he sentido niño haciéndolas; quería que los lectores supieran de dónde salió el hombre que soy. Así que me centré en unos años, de los 4 a los 15.

(José Saramago / Consuelo Bautista)

P. ¿Y de dónde viene?
R. El libro tiene un epígrafe, que viene de un libro que me inventé, Libro de los consejos: "Déjate llevar por el niño que has sido". Si no hubiera vivido aquella infancia no sería exactamente éste que soy. Algunos puntos significativos de mi forma de ser son las de aquel niño.

P. ¿Rejuvenece escribir memorias?
R. Puede que sí. Lo que es cierto es que lo he escrito como si estuviera viviendo en aquel momento.

P. Dos Nobel, Grass y usted, escribiendo memorias.
R. Las suyas son diferentes.

P. ¿Cuál es su reacción a lo que ha sucedido con Grass?
R. Primero he tenido perplejidad. Nunca hubiera pensado que él hubiera estado en las Waffen-SS..., y menos aún que hubiera ido como voluntario. Y me ha sorprendido la violencia de las reacciones. Él tenía 17 años. ¿Y el resto de la vida no cuenta? Me parece una reacción hipócrita la que ha habido, de mucha gente que acaso no consulta su propia conciencia. Mucha gente quiere buscar pies de barro a personalidades influyentes. Me recuerdan al que iba de ciudad en ciudad, siguiendo un circo. Un día le preguntaron: "¿Por qué sigue tanto a este circo?". "Porque quiero ver cuándo se cae el trapecista y se mata". Y me parece indigna, infame, la insinuación de que Grass ahora lo dice por motivos promocionales de su libro. ¿Qué juez puede decir que una confesión viene demasiado tarde? La verdad es que lo ha dicho, ahí está su confesión.

P. Le hemos visto firmando una declaración de notables sobre Cuba. ¿Cómo ve el futuro?
R. Se observa menos crispación en el exilio. Y estamos percibiendo señales de que empieza la transición. Ojalá la haga el pueblo cubano, sin interferencias, aunque siempre cabe preguntar si Estados Unidos se va a limitar a asistir a esa transición.

P. ¿El pueblo cubano de dentro y de fuera?
R. Claro. Espero que haya negociación, diálogo, ya no hay lugar ni para invasiones ni para asesinatos, sino para que haya acuerdos básicos que contemplen también las indudables conquistas de la revolución: sanidad, cultura, educación...

P. Otro asunto de su preocupación. Estalla Oriente Próximo.
R. Mientras no se resuelva el problema de Palestina, que tenga su Estado, no habrá paz allí. Israel produce una ocupación militar de Palestina, manda a guetos a sus nacionales. No se me va de la memoria lo que dijo un intelectual judío, Leibovitz, sobre el carácter judionazi de su Ejército, de las reacciones de su Ejército; y no se va de mi memoria el dolor que produce ver niños a los que rompían los huesos de las manos, con martillos, en el curso de la primera Intifada. Cuando digo que las víctimas, con las que todos nos solidarizamos, no pueden hacer de verdugos y llamo la atención sobre ese carácter de la reacción militar israelí, siempre oigo voces -"ya está de nuevo el Saramago ese"-, pero lo que digo es la verdad, tiene que ver con los hechos...

P. ¿Qué hacer?
R. Ojalá los organismos internacionales comprendan esto de una puta vez: mientras eso no se resuelva, Israel siempre se sentirá amenazado, y responderá con la agresividad que muestra su Ejército, el más poderoso de la región. Algún signo positivo he visto últimamente: la posible alianza de Al Fatah con Hamás para gobernar.

P. Usted no es un hombre optimista.
R. ¿Cómo vas a ser optimista si lees el periódico? El mundo es el lugar del infierno; millones nacen para sufrir; no les importan nada a nadie. No soy un pesimista, soy un optimista bien informado.

Revista Blimunda #14 - Mês de Julho 2013 - Recordação de edições antigas

Revista Blimunda #14 - Mês de Julho 2013 - Recordação
Neste mês de Julho, recordamos o #14 da Revista Blimunda 
Pode ser descarregada gratuitamente, aqui
em http://blimunda.josesaramago.org/2013/07/20/blimunda-14-julho-de-2013/

(Capa da edição #14 - Julho de 2013)

Sinopse da edição
"De que forma pode o quarto poder sobreviver à encruzilhada? A Blimunda de julho tenta perceber que caminhos podem ser percorridos, através de um texto de Sara Figueiredo Costa e das respostas de três jornalistas que em Espanha, Portugal e Grécia fazem do jornalismo um processo sério, rigoroso e sem cedências. Um dossier de leitura recomendada para discutir perspectivas de futuro para um dos pilares dos estados democráticos.

No infantil e juvenil, uma viagem de Andreia Brites aos “Encontros” que Margarida Botelho promove em torno dos livros, da educação pela arte, com paragens em Moçambique e na Amazónia. Um testemunho da forma como estes caminhos considerados por muitos como alternativos assumem uma importância cada vez maior na construção de novos cidadãos, no pleno respeito pela diversidade cultural.

A fechar, a Saramaguiana de julho centra-se em dois locais fundamentais para a vida e obra de José Saramago. Nas palavras do próprio, recuperamos os textos sobre a cidade de Lisboa que integram o livroViagem a Portugal, no primeiro de três excertos que terão continuação em agosto e setembro. Sobre Lanzarote, o diário de viagem do jornalista Ricardo Viel, que visitou a ilha que tambem é de Saramago no passado mês de junho, quando se inaugurou a rotunda com o nome do Escritor.

Tudo isto e muito mais, na Blimunda de julho.

Boas leituras!"

"História do Lagarto Verde" - Maria Alzira Seixo faz a crítica a "As pequenas memórias" (JL #846 - 8/11/2006)

"Maria Alzira Seixo faz a crítica a "As pequenas memórias", 
na edição do JL 846, de 8 de Novembro de 2006"

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://visao.sapo.pt/historia-do-lagarto-verde=f562777

(Maria Alzira Seixo, José Saramago e Luiz Francisco Rebello)

"História do Lagarto Verde"

"Saramago dá-nos, com As Pequenas Memórias, o trigésimo nono volume da sua obra. Mais consagrada ao romance, é de facto obra de polígrafo: integra outros géneros de ficção (conto e novela), significativa produção de teatro, escritos opinativos e autobiográficos, livros de crónicas e de poesia que lhe marcam o início da carreira e nos quais encontramos em esboço muita da sua temática posterior, e textos híbridos que equacionam em densidade o seu modo de articular literatura e mundo: O Ano de 1993 e Viagem a Portugal. Após Cadernos de Lanzarote, o entendimento do eu como objecto de reflexão e não apenas ponto de vista dá agora outro resultado de escrita, que o autor judiciosamente apelida de memórias.
O memorialismo parte do eu, mas enquanto postura narrativa de quem dá a ver as coisas e sabe que se arrisca a ser comprovado, ou não, no que conta; o memorialismo não se ocupa do eu para o narrar como objecto privilegiado, caso em que resvala para a autobiografia, e por isso alcança a sua integração reflectida na comunidade e, nesse sentido, ultrapassa a subjectividade para traçar lugares e tempos que valem por interesse próprio, enquanto modos de vida idos que são raízes e alimento da sociedade actual. Como fez Saint-Simon, o memorialista que Proust punha acima de todos, seguindo-o na sua obra compósita de memórias, autobiografia e ensaio, que é sobretudo ficção.
Quem ler As Pequenas Memórias vê satisfeita a curiosidade de saber como viveu e cresceu este vulto das Letras, e será surpreendido pela lição de briosa humildade que elas contêm, assim como pelo exemplo de trabalho e estudo que fazem, do menino rústico e sem condições, a culta e interventiva personalidade que é Saramago no mundo de hoje. Este exemplo não pode ser entendido como expoente de regra, pois é excepção, mas permite ponderar os resultados do facilitismo no ensino actual, assim como condições que, proporcionadas sem sentido moral e afectivo, não dão frutos. Os objectivos morais não emergem na escrita do texto, mas o certo é que nele se fala muito de costumes. Que erguem diante de nós terra e gente, um estilo de vida do campesinato e de classes urbanas desfavorecidas. Sem propaganda nem miserabilismo. Na real.

Um lagarto na memória
Na real, é como quem diz. Naquela camada de real indestrinçável de factos, emoções, ecos, pressentimentos, interpretações e olvido recuperado que leva a acarinhar ou idealizar a vida passada, mesmo se foi difícil. E a isolar nela grandes acontecimentos e pormenores fortuitos que, postos por escrito, os irmanam em poder de repercussão. Por isso acho nestas memórias do "rapazinho da Azinhaga" (a que o autor chama "as memórias pequenas de quando fui pequeno") a história do lagarto verde.
Dir-se-á, com razão, que o livro dá conta da expressão indelével provocada no sujeito da escrita por pessoas (os avós maternos, o primo José Dinis, o irmão Francisco), lugares (o rio Almonda e o Tejo, o olival, ruas de Lisboa), habitações (em constantes mudanças por partes-de-casa), momentos afectivos (encontros com raparigas, a ternura dos bacorinhos que dormiam com o avô, o medo dos cães, o gosto pelos cavalos), de lazer aprazível (idas à pesca ou ao cinema "Piolho "), de contacto problemático com os outros (a maçaroca surripiada ao primo), de entrada na escrita (escrever na pedra, os ditados na escola, a primeira quadra). Tudo isso é o livro.
Mas o livro é também o lugar original formulado no começo, em estilo indirecto (como o nome que a contingência cola à pessoa), a colocar no coração da frase um caminho tosco de vida (a "azinhaga"), ligado à História e à imaginação, às águas do rio e às árvores que o bordejam, e ao extenso olival com troncos em cujas locas "se acoitavam os lagartos", destruído pelas transformações agrícolas da União Europeia. "Contam-me agora que se está voltando a plantar oliveiras", escreve o autor; "o que não sei é onde se irão meter os lagartos". E de certa forma, nestes troços despegados da recordação (como as talhadas de melancia que come, já perto do final), "o pobre de mim", como ironicamente se autoapelida ao jeito de Fernão Mendes Pinto, parece não ter em vistas um fito muito estável, oscilando entre um projectado Livro de Tentações e estas memórias do "eu pequeno", do qual não anda visivelmente à procura já que é ele que aqui o comanda. E do que a mim me parece que anda à procura é de saber mesmo onde se meteram os lagartos. Como se a própria estrutura da narrativa, dada em continuidade de discurso mas entremeada de espaços em branco, figurasse frinchas por onde esses seres vivos alapardados ao sol da memória se escapam quando pretendemos alcançá-los com os gestos das nossas sombras escritas.
A mistura de real e imaginário, dada pela memória que inventa a vida para a dar em literatura, atravessa a individualidade do memorialista para reconstituir esboços de história das mentalidades, hábitos quotidianos, crenças e modos de agir hoje raros. Quem se lembra do uso de defumadouros para afastar doenças e mau olhado? Ou do ruído da "costureira" em tardes de verão ou serões silenciosos de leitura e bordados? Eu lembro-me. Como me lembro do sistema de contabilidade dos analfabetos de então, o da avó Josefa de Saramago e da minha tia Emília, que tinha um lugar de fruta e hortaliça e não lhe falhava um tostão no rol de fiados, com aqueles sinais que mais ninguém entendia e me ensinou, de círculos fechados com uma cruz interna (um escudo), um traço diagonal interno (cinco tostões), sem traço (um tostão) e risco sem círculo nenhum (meio tostão). Ou sistemas de partilha empírico-afectiva, como a sopa que o petiz e a mãe comem do mesmo prato, com duas colheres e um de cada lado. Ou o costume, por necessidade e natureza, de andar de pé descalço; ou ainda, entre pavores e tentações, e medo do escuro como todas as crianças, dormir no chão com as baratas, "não estou a inventar nada, de noite passavam-me por cima", diz ele sem mais comentários. E passa adiante, tal como o petiz dormia. E que passou adiante vê-se em cenas do ontem dadas por ele hoje, como a do Otelo de Mouchão de Baixo ou do sapateiro que lia Fontenelle. Para pé-descalço e meio prato de sopa, não se pode dizer que José Saramago venha mal alimentado do caminho que percorreu.

Nas asas da palavra
Ao ouvir ler em voz alta o primeiro livro de que se lembra, Maria, a Fada dos Bosques, Saramago entra em contacto com a literatura, e o importante não parece ser tanto a impressão que lhe provocam cenas do livro como a sensação de ser levado a outros mundos pela articulação encantatória das frases, revigorando em experiência pessoal as "palavras aladas" de Homero que como escritor tenta também. Essa é talvez a maior das tentações neste livro onde, a certa altura, explica que a sua génese era a de ponderar sobre "a teratologia da santidade", isto é, os desejos e monstros, os pesadelos e pavores da noite que afligiam a mentalidade infantil reprimindo a sua expansão de natureza humana. É por isso que a Saramago-criança se vai contrapondo o Saramago-homem, a olhar para si de longe e para o mundo onde, pequeno, mas porque pequeno é o homem, se integra natural e artificiosamente.
Com a sua propensão para a integração na natureza (campos, animais, costumes urbanos primitivos) e a vocação da construção da arte. Quando relata as idas à pesca em petiz, e a imobilidade espelhada do pedaço de rio, é o Saramago de hoje quem escreve, a partir da indizível sensação da criança: "não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água". A recordação é por vezes confessada invenção ("senti dentro de mim, se bem recordo, se não o estou a inventar agora, que tinha, finalmente, acabado de nascer") assim se transmudando em descoberta; outras vezes acontece, inexplicável, pois "esquecemos o que gostaríamos de poder recordar" e, por outro lado, "recorrentes, obsessivas, reagindo ao mínimo estímulo, vêm-nos do passado imagens, palavras soltas, fulgurância, iluminações, e não há explicação para elas, não as convocámos, mas elas aí estão". O livro termina com uma iluminação destas, forte e concentrada, adjacente ao que se narrou, e onde o autor se dá como sujeito de observação e participante moral da acção. Aquilo, afinal, que o escritor vai ser. Passa-se nas ruínas de uma malhada de porcos, entre um homem e uma mulher não identificados, e o narrador (jovem) senta-se num valado, "a distância, perto de uma oliveira ao pé da qual, dias antes, tinha visto um lagarto verde". E quando a cena termina, com a partida das personagens, o livro finda também com a observação do autor: "nunca mais tornei a ver o lagarto verde".
Os lagartos, que de início afirmava não saber onde se tinham metido, meteram-se afinal aqui no livro, como símbolos da familiaridade terrestre e do gosto pelo sol, em lendas mediterrânicas representando a inexorabilidade da morte. Como reconhecimento também da inocência perdida, sobretudo porque a observação se segue à menção da morte de José Dinis, o primo com quem se dava como o cão e o gato, e a quem, nas penúltimas linhas, furtara a maçaroca, após saborearem ambos a bela melancia de casca verde-escura, de cujas talhadas foi ficando o "castelo" ou "coração". Isto é, o cerne da recordação. A simbólica de Saramago é sempre objectual e pede para ser lida à letra, como palavra a saber a sentidos, mas a sua notação sóbria, despojada, emerge isolada no texto, a despertar os sonhos e tentações, também no espírito do leitor."

Ler mais: http://visao.sapo.pt/historia-do-lagarto-verde=f562777#ixzz3fZVMT3l0

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Post "Armas.... Alabardas..." no livro/Blog "O Caderno 2" (26/05/2009)

O presente post pode ser consultado e lido, aqui 
em http://caderno.josesaramago.org/43247.html

(Montagem cénica)


Sinopse da obra inacabada "Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas"
Via Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/alabardas-alabardas-espingardas-espingardas/
"Aquando do seu falecimento, em 2010, José Saramago deixou escritas trinta páginas daquele que seria o seu próximo romance; trinta páginas onde estava já esboçado o fio argumental, perfilados os dois protagonistas e, sobretudo, colocadas as perguntas que interessavam à sua permanente e comprometida vocação de agitar consciências.Saramago escreve a história de Artur Paz Semedo, um homem fascinado por peças de artilharia, empregado numa fábrica de armamento, que leva a cabo uma investigação na sua própria empresa, incitado pela ex-mulher, uma mulher com carácter, pacifista e inteligente. A evolução do pensamento do protagonista permite-nos refletir sobre o lado mais sujo da política internacional, um mundo de interesses ocultos que subjaz à maior parte dos conflitos bélicos do século xx. Dois outros textos – de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano – situam e comentam as últimas palavras do Prémio Nobel português, cuja força as ilustrações de um outro Nobel, Günter Grass, sublinham.
2014 (com textos de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano, capa e ilustrações de Günter Grass)"

(Ilustração da obra mencionada)

"Armas"
"O negócio das armas, sujeito à legalidade mais ou menos flexível de cada país ou de simples e descarado contrabando, não está em crise. Quer dizer, a tão falada e sofrida crise que vem destroçando física e moralmente a população do planeta não toca a todos. Por toda a parte, aqui, além, os sem trabalho contam-se por milhões, todos os dias milhares de empresas declaram-se em falência e fecham as portas, mas não consta que um único operário de uma fábrica de armamento tenha sido despedido. Trabalhar numa fábrica de armas é um seguro de vida. Já sabemos que os exércitos precisam de armar-se, substituir por armas novas e mais mortíferas (disso se trata) os antigos arsenais que fizeram a sua época mas já não satisfazem as necessidades da vida moderna. Parece portanto evidente que os governos dos países exportadores deveriam controlar severamente a produção e a comercialização das armas que fabricam. Simplesmente, uns não o fazem e outros olham para o lado. Falo de governos porque é difícil crer que, a exemplo das instalações industriais mais ou menos ocultas que abastecem o narcotráfico, existam no mundo fábricas clandestinas de armamento. Logo, não há uma pistola que, por assim dizer, não vá tacitamente certificada pelo respectivo, ainda que invisível, selo oficial. Quando num continente como o sul-americano, por exemplo, se calcula que há mais de 80 milhões de armas, é impossível não pensar na cumplicidade mal disfarçada dos governos, tanto dos exportadores como dos importadores. Que a culpa, pelo menos em parte, é do contrabando em grande escala, diz-se, esquecendo que para fazer contrabando de algo é condição sine qua non que esse algo exista. O nada não é contrabandeável.Toda a vida tenho estado à espera de ver uma greve de braços caídos numa fábrica de armamento, inutilmente esperei, porque tal prodígio nunca aconteceu nem acontecerá. E era essa a minha pobre e única esperança de que a humanidade ainda fosse capaz de mudar de caminho, de rumo, de destino." 
(26 de Maio de 2009)

(Ilustração da obra mencionada)


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Citador #40 Pessoa e Ricardo Reis no final da obra "O Ano da Morte de Ricardo Reis" - Caminho, 11.ª edição Página 407

Citador #40
Pessoa e Ricardo Reis no final da obra "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição
Página 407

Frame do registo filmado da apresentação do livro "O Ano da Morte de Ricardo Reis",
 no café Martinho da Arcada - Lisboa, produzido e realizado pela 
Direcção Geral de Acção Cultural / Divisão de Audiovisuais.
José Saramago em 1987



"Saíram de casa, Fernando Pessoa ainda observou, Você não trouxe chapéu, Melhor da que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera."



quarta-feira, 8 de julho de 2015

Falecimento de Maria Barroso - Palavras de José Saramago sobre a visita do casal, Mário Soares e Maria de Barroso, a Tías - Lanzarote

Na data em que ocorre o falecimento de Maria Barroso, deixo aqui as palavras de José Saramago sobre a visita do casal, Mário Soares e Maria de Barroso, a Tías - Lanzarote. 

Pilar del Río e Maria Barroso, 
na inauguração da Casa dos Bicos (13/6/12)


"O presidente Mário Soares esteve hoje em Lanzarote. Quando há um ano Pilar e eu fomos a Belém para lhe comunicar que nos mudávamos para as Canárias, disse-mos-lhe: «Se alguma vez tiver de viajar para aqueles lados...» A resposta, simpática: «Lá irei.» Naquela altura pensei que se tratasse de uma promessa política, como tantas outras fadada para o cesto roto dos esquecimentos logo à nascença, mas enganei-me. Mário Soares aproveitou um convite para vir a um encontro de juristas em Tenerife e deu um salto à nossa ilha. Acompanhou-o Maria Barroso, a quem, acaso por efeito da sua conversão ao catolicismo, dei comigo a tratar familiarmente por Maria de Jesus: já no jantar da embaixada em Roma me tinha escapado, uma ou duas vezes, o confiado tratamento, mas disfarcei o lapso protocolar passando imediatamente ao «Dra. Maria Barroso» de sempre. O mais certo, porém, é a conversão não ter tido nada que ver para o caso (a ironia sem maldade é deste momento em que escrevo), e ser o meu «Maria de Jesus», simples-mente, a retribuição natural e equilibrada do seu amistoso «Zé»... Com eles vieram Manuel Alegre (que queria saber, por conta própria e alheia, por que tinha eu decidido viver em Lanzarote: o que viu deu-lhe a resposta), Maryvonne Campinos (o encontro em Tenerife homenageara Jorge Campinos), o embaixador Leonardo Matias, a Estrela Serrano, o Alfredo Duarte Costa. Levámo-los a Timanfaya e à Fundação César Manrique porque não havia tempo para mais: Javier foi um magnífico cicerone, com as datas e os factos na ponta da língua. Al-moçaram depois em nossa casa, com alguns problemas de logística causados por dois convivas não previstos, mas tudo acabou por se resolver. Falou-se da Lisboa Capital Cultural (repeti e aclarei as minhas críticas), de Europa inevitavelmente (tive a melancólica satisfação de ouvir dizer a Mário Soares que partilha hoje de algumas das minhas reservas, antigas e recentes, sobre a União Europeia: «Que será de Portugal quando acabarem os subsídios?», foi sua a pergunta, não minha). Aproveitei a ocasião e permiti-me substituir a pergunta por outras, mais inquietantes: «Para que serve então um país que depende de tudo e de todos? Como pode um povo vi-ver sem uma ideia de futuro que lhe seja própria? Quem manda realmente em Portugal?» Não tive respostas, mas também não contava com elas. A sombra veio e passou, a conversa transferiu-se para temas menos encruzilhados. Passadas estas horas, ainda me custa a acreditar que Mário Soares tenha cá estado em casa. Que voltas teve o mundo de dar, que voltas tivemos de dar nós, ele e eu, para que isto fosse possível. (1 de Março de 1994)

em, "Cadernos de Lanzarote - Diário II
Caminho, página 63 e 64


1989 - José Saramago com Mário Soares, na apresentação do seu livro 
"História do Cerco de Lisboa", no Castelo de São Jorge - Lisboa (Foto © Eduardo Tomé)



terça-feira, 7 de julho de 2015

"Do sujeito sobre si mesmo" este post tem 6 anos - "O Caderno 2" Livro/Blog a 7 de Julho de 2009

Este post faz hoje 6 anos que foi publicado. Poucas linhas para tantas palavras. 
A verticalidade do homem, do escritor e do agente social.
O mundo que não serve.
A pergunta feita, naquele dia há 6 anos - "E que problemas são esses hoje?"

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/50644.html

"Do sujeito sobre si mesmo"
"Como escritor, creio não me ter separado jamais da minha consciência de cidadão. Considero que aonde vai um, deverá ir o outro. Não recordo ter escrito uma só palavra que estivesse em contradição com as convicções políticas que defendo, mas isso não significa que tenha posto alguma vez a literatura ao serviço directo da ideologia que é a minha. Quer dizer, isso sim, que ao escrever procuro, em cada palavra, exprimir a totalidade do homem que sou.
Repito: não separo a condição de escritor da do cidadão, mas não confundo a condição de escritor com a do militante político. É certo que as pessoas me conhecem mais como escritor, mas também há aquelas que, com independência da maior ou menor relevância que reconheçam nas obras que escrevo, pensem que o que digo como cidadão comum lhes interessa e lhes importa. Ainda que seja o escritor, e só ele, quem leva aos ombros a responsabilidade de ser essa voz.
O escritor, se é pessoa do seu tempo, se não ficou ancorado no passado, há-de conhecer os problemas do tempo que lhe calhou viver. E que problemas são esses hoje? Que não estamos num mundo aceitável, bem pelo contrário, vivemos num mundo que está a ir de mal a pior e que humanamente não serve. Atenção, porém: que não se confunda o que reclamo com qualquer tipo de expressão moralizante, com uma literatura que viesse dizer às pessoas como deveriam comportar-se. Estou a falar doutra coisa, da necessidade de conteúdos éticos sem nenhum traço de demagogia. E, condição fundamental, que não se separasse nunca da exigência de um ponto de vista crítico."
(Terça-feira, 7 de Julho de 2009)

domingo, 5 de julho de 2015

"Saramago: piedra forjada, sombra de olivo y libro de la tierra" de Laura Panqueva no "El Nuevo Herald" (27/06/2015)

Pode ser consultado e lido, aqui 
em http://www.elnuevoherald.com/vivir-mejor/artes-letras/article25600342.html

De Laura Panqueva (EFE/Reportages)

El tiempo marca la ausencia. La despedida se cuenta en días. Y aun sin observar, el ser sigue presente. José de Sousa Saramago, el escritor de la conciencia, traducido a una veintena de idiomas, es inmortal. Así es para aquellos que, como su esposa, la española Pilar del Río, lo lee casi a diario.

Si bien “El maestro”, como lo llamó el crítico Harold Bloom, ya no se sienta todas las tardes a escribir dos o tres páginas, su obra se redescubre constantemente entre conversatorios, conferencias, homenajes, biografías, entrevistas, eventos culturales, y títulos póstumos como Alabardas, publicado en septiembre del 2014.

(El escritor portugués José Saramago, premio Nobel de Literatura 1998, 
durante una entrevista mantenida en 1999 - Chema Moya EFE/EFE)

"LOS GOBERNANTES DEBERÍAN LEERLO"

El jurista español Baltasar Garzón, muy cercano a Saramago y que se encargó de presentar Alabardas, asegura que todos los gobernante deberían leerlo, porque “desde la ficción refleja muy bien las contradicciones del ser humano y el inmenso poder del dinero para corromper”.

Como esta novela, que reflexiona sobre la industria armamentista, la ausencia de huelgas en fábricas de armas y la ética de quienes trabajan en ellas, han nacido diversos proyectos literarios relacionados con su pensamiento. Esto, gracias a la labor de su viuda, la periodista y traductora Pilar del Río, quien preside la Fundación José Saramago y trabaja constantemente para difundir su legado.

Pero “la presidenta” como llamó Saramago a su esposa alguna vez, muy al contrario de lo que se pensaría, lo siente cerca, vivo. Desde su despacho, ubicado en el corazón de Lisboa, todavía trabaja junto a él, porque –y así lo ha demostrado ella– la complicidad está en la memoria, en las palabras y, también, en los lugares.

Justo en frente de este edificio del siglo XVI, La Casa dos Bicos, reposan las cenizas de su esposo y padre del ensayo que declaró a la ceguera una mal universal y, que algunos años después, respondería con el de la lucidez.

Allí, en el Campo das Cebolas, con vista al río Tajo, en medio de un pequeño jardín, custodiado por un olivo centenario, en una especie de lápida, se leen las palabras tatuadas sobre un banco de piedra que reza: “Pero no subió a las estrellas, si a la tierra pertenecía”.

RECORDANDO, IMAGINANDO, CINCO AÑOS ATRÁS

El viernes 18 de junio de 2010, pasadas las 11 de la mañana, el escritor portugués José Saramago, nieto de los campesinos Jerónimo Melrinho y Josefa Caixinha, dejó de respirar. A los 87 años, el cuerpo arrugado terminaba una larga batalla contra una leucemia crónica. Para ese momento, el novelista portugués ya tocaba otra corriente. La isla de Lanzarote susurraba su adiós.

Algunos días después, en un acto solemne, la capital lusa lo despedía en el Salón de Honor del Ayuntamiento. Amigos, seguidores e intelectuales, entre los que se encontraba el líder del Partido Comunista Portugués Jerónimo de Sousa expresaron el luto, no solo de ellos, sino de “todo el pueblo al que amó y fue fiel”.

Lisboa se arropó con las letras de quien hizo los problemas sociales, suyos. Alguna tarde no muy lejana, decenas de amigos y seguidores de su obra generosa y, a la vez, rebelde, se reunieron en la Casa Fernando Pessoa, para homenajear a quien, según su biógrafo y amigo Fernando Gómez Aguilar, “resuena desde la liberad de su poderosa conciencia incómoda, irremplazable”.

Esa tarde, Pilar del Río se dispuso para compartir, una vez más, como tantas atrás, su eterna experiencia con el autor:.

“Aquí acaba el mar y empieza la tierra”, comenzó… Tras un aire profundo, continuó, “Llueve sobre la ciudad pálida, las aguas del río corren turbias de barro, están inundadas las arboledas de la orilla. Un barco asciende entre el flujo soturno, es el Highland Brigade que va a atracar en el muelle de Alcántara (...)”.

Era el principio de El año del la muerte de Ricardo Reis (1984). la obra que nació algunas décadas atrás, en una biblioteca de la escuela industrial, cuando el joven José aspiraba a mecánico cerrajero.

Su interés oculto por la poesía, lo llevó a descubrir que el nombre de quien firmaba tales versos, era ese y otros más, pero uno en particular: Fernando Pessoa, el mismo Ricardo Reis.

El autor de Manual de pintura y caligrafía (1977) contó este episodio en 1998, cuando recibía el Premio Nobel de Literatura.

Según sus palabras, “mucho, mucho tiempo después el aprendiz de escritor ya con el pelo blanco y un poco más sabio de sus propias sabidurías se atrevió a escribir una novela para mostrar al poeta de las Odas algo de lo que era el espectáculo del mundo en ese año de 1936 en que lo puso a vivir sus últimos días: la ocupación de la Renania por el Ejército nazi, la guerra de Franco contra la República española, la creación por Salazar de las milicias fascistas portuguesas”.

“A Pilar”, dedicó esta y otras tantas novelas que le significaron más que el reconocimiento, y la popularidad, la posibilidad de existir sin callar. Sus más de 30 obras, entre las que resuenan, Levantado del suelo (1982), Memorial del Convento (1982), La balsa de piedra (1986), El evangelio según Jesucristo (1991), Ensayo sobre la ceguera (1995); La caverna (2000), Las intermitencias de la muerte (2005), El viaje del Elefante (2008) y Caín (2009), reflejan la necesidad, diría su creador, de dejar “algo hecho” como “una forma de eternidad”.

LA "CONCIENCIA"

Las historias, declaraciones, inquietudes, alegatos, sentencias y pensamientos que se entretejen en cada uno de sus textos plantean una necesidad, una lucha por contarle a la humanidad sus verdaderas desgracias, aciertos y apocalípticos futuros.

Sus ideas, si bien premonitorias, eran coherentes con la realidad. Ya se había percatado este amante de las letras, que los problemas que aquejan a la humanidad, solamente pueden afrontarse con una sola palabra: “conciencia”.

Si bien su sabiduría representa un triunfo del pensamiento contemporáneo, Saramago nunca se consideró un gran experto, ni un intelectual célebre. Defendía, por el contrario, que su escritura era simplemente el camino para desasosegar.

Quizás, por eso, las palabras con las que agradeció el mayor reconocimiento literario al que puede aspirar un escritor, partían de su origen.

Contaban, con absoluta sencillez, quién era el niño, joven, adulto y anciano que, muy a pesar del tiempo, y en las metáforas mismas de sus historias, continuaba caminando descalzo sobre la tierra, preguntándose la razón, o sin razón, de la vida humana. Ese día de 1998, ya con las canas asomadas, decidió volver a ser el joven humilde que vivía en la aldea de Azinhaga, en Portugal.

Por la década de 1930, el pequeño José ayudaba a su abuelo Jerónimo en sus labores diarias. No le bastaba con cavar la tierra del huerto aledaño a la casa, o con cortar la leña para la lumbre. A veces, también, subía el agua del pozo comunitario y la transportaba al hombro.

Allá, en una sencilla parcela, en medio de la noche y junto a su abuelo, conoció la palabra imaginada. Eran leyendas –contó–, apariciones asombrosas, episodios singulares, muertes antiguas, escaramuzas de palo y piedra, palabras de antepasados, un incansable rumor de memorias que los mantenían despierto, al mismo que suavemente lo acunaban.

Nunca supo –reconoció esa vez– si su abuelo se callaba cuando descubría que se había dormido, o si seguía hablando para no dejar a medias la respuesta a la pregunta que invariablemente él le hacía: “Y después”…

Después... el universo se puso en movimiento. La belleza se reveló en sus sueños. José Saramago se aferró a la literatura, la poesía, el ensayo. Y después de algunos años, se convirtió en un verdadero contador de historias, como su abuelo Jerónimo.

En 1947 publicó su primer título Tierra de Pecado, una historia rural que parte de recuerdos, algo difusos, para narrar lo que surge misteriosamente de la imaginación.

Sería, entonces, ese poder creativo, lo que le permitió hacer memoria, pintar y repintar esa cotidianidad suya, que con el paso del tiempo, sin embargo, fue mutando para derivar en la de otros seres literarios, a quienes catalogó siempre como sus “maestros de vida”. Los que más intensamente le enseñaron el oficio de vivir.

BALTASAR GARZÓN: "EXTRAÑO A SARAMAGO, EL LUCHADOR HONESTO"

El ex juez Baltasar Garzón, relata en esta entrevista una pequeña semblanza del Nobel de Literatura portugués José Saramago, con quien compartió una entrañable amistad y sus ideales de justicia y democracia. El autor del reciente libro El Fango, lo recuerda así.

P.- ¿Qué extraña del escritor José Saramago?

R (B. Garzón).- Le extraño a él, a un luchador honesto, valiente, coherente entre la afirmación y la acción, incluso desde la discrepancia. Siempre al lado de las víctimas e implacable con el poderoso. Yo siempre pienso en él como un defensor de causas justas. «La defensa de los Derechos Humanos no es de derechas ni de izquierdas; la gente honesta puede ponerse de acuerdo», esa frase suya le definía.

Sus opiniones impulsaron a miles de personas a pensar sobre la importancia de la sociedad civil y la corresponsabilidad de todos en una sociedad democrática. Su interés por mí me hizo sentirlo muy adentro, escribió sobre mí cosas bellas que no merecía. Lo tuve por un gran hombre, fue un gran amigo.

P.-¿Por qué los gobernantes deberían leer Alabardas, Alabardas! Espingardas, Espingardas!?

R.-. Saramago utilizó, para ponerlo de manifiesto, esa relación entre el marido amante de las armas y su mujer contraria a ellas. Y es que el tráfico de armas es un capítulo pendiente, no olvidemos que se organizan guerras para promover la venta de armamento.

Los gobernantes deberían analizar las causas, desde el Derecho y la diplomacia, pero claro, es más fácil bombardear un país o una zona determinada de ese país que llevar a cabo esa reflexión. Y ya sabemos que llegar a un gran pacto mundial contra esta industria de la muerte es una pura utopía, pero considero que hay que continuar luchando desde la sociedad civil para conseguirlo.

P.-¿De qué forma se ven reflejados los problemas actuales en la obra póstuma de Saramago?

R.- Él expresó su alegato contra el poder de esta industria de la guerra que mueve miles de millones de dólares y, sin embargo, no resuelve ningún problema. Aquí es donde los Gobiernos deberían reflexionar.

P.-¿Cuál es el libro -o los libros- de Saramago que han tenido mayor influencia en su vida personal y laboral?

R.- Siempre me ha impresionado el argumento duro y clarividente del "Ensayo sobre la Ceguera". Ese recorrido desde el estadio del ser civilizado al puramente animal, a la voluntad de sobrevivir sea como sea. Y la propuesta de Saramago de que es urgente recuperar la lucidez frente al terror de descubrir los impulsos más primitivos. Al final, la pregunta que plantea es la misma que te haces a diario cuando trabajas con lo más sórdido, lo más complejo de la sociedad y no es sino la cuestión de si es factible tener esperanza. La respuesta para mi va en esa línea sugerida, de que el amor y la solidaridad pueden cambiar a las personas y a la sociedad.

P.- ¿Algún aparte de alguno de sus libros, ensayos o discursos que se le haya grabado en la memoria?

R.- Hay una frase muy descriptiva de la realidad en este libro que mencionaba: «Creo que no nos quedamos ciegos, creo que estamos ciegos, ciegos que ven. Ciegos que, viendo, no ven...» ¡Qué forma más brillante de definir esa semilla que hace brotar finalmente la maldad y que se basa en el desinterés por los demás y por lo que sucede! «Hablamos mucho de democracia y la practicamos poco», decía Saramago. Es verdad, cuando se alejan las voces críticas, las conciencias se adormecen y aparece el riesgo de la indiferencia.

Read more here:
http://www.elnuevoherald.com/vivir-mejor/artes-letras/article25600342.html#storylink=cpy