Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

domingo, 11 de outubro de 2015

Entrevista de Ivana Jinkings a José Saramago (1992) - Publicada na revista "Margem Esquerda Ensaios Marxistas #15"

As duas partes podem ser lidas e consultadas, nestes dois links, em
http://blogdaboitempo.com.br/2011/04/13/boitempo-entrevista-jose-saramago-parte-1/
http://blogdaboitempo.com.br/2011/04/20/boitempo-entrevista-jose-saramago-parte-2/

 "Inaugurando nossa seção de entrevistas, 
publicaremos a conversa entre o escritor português José Saramago e nossa editora, 
Ivana Jinkings, realizada em 1992 e publicada na Margem Esquerda nº15 (2010)."


Em 1992, com viagem marcada para Portugal, recebi dos editores do extinto jornal Brasil Agora, com o qual eu colaborava à época, a sugestão de entrevistar José Saramago. Tentada com a proposta, solicitei a um amigo, Benjamin Abdala, o telefone de Severino Coelho, o editor da Caminho, casa publicadora do autor em Lisboa. Telefonei para ele da Espanha, onde estive antes de ir a Portugal. Severino deu-me o número de Saramago, mas alertou que o escritor havia se retirado por uns dias para descansar, sem jornalistas por perto. Assim mesmo resolvi arriscar, e passei a ligar quase diariamente para meu “alvo”. Do outro lado da linha a resposta era sempre a mesma: a voz impessoal de uma secretária eletrônica informava que o escritor não podia atender no momento. Deixei inúmeros recados, explicando quem era, o que queria e dizendo que voltaria a telefonar.

Já em Lisboa, em pleno 25 de abril, fui como todos às ruas comemorar o aniversário da Revolução dos Cravos, mas também – e principalmente – procurar Saramago. Ele era esperado no Largo do Rocio e para lá me dirigi. Máquina fotográfica em punho, perguntava a todos que pareciam ter alguma liderança onde estaria o escritor. Uns diziam que na ala dos intelectuais, e pra lá eu me dirigia; desta sugeriam que ele estivesse com os comunistas do Porto, dali me indicavam outra ala, e assim eu caminhava de um lado a outro da imensa passeata. Passou a ser um “acontecimento”: por onde andava pessoas vinham me dar uma notícia, uma sugestão, chamar alguém que conhecia Saramago ou que conhecia “um amigo do amigo” dele, e assim por diante. Era identificada pelos manifestantes como a brasileira que buscava desesperadamente o seu mais famoso escritor.

Já quase desistia quando fui chamada por um rapaz, que me levou até um homem alto, bem vestido, com cerca de 50 anos – lamentei depois jamais ter sabido quem era –, o qual perguntou o que exatamente eu queria com Saramago. Falei da entrevista e do jornal, mencionei ser filha de comunistas e ligada ao Partido Comunista Brasileiro, o PCB. Ao final, convencido, disse com segurança: ligue para ele amanhã, às 15h.

Agradeci e fui embora com alguma esperança – mas não muita, porque já havia telefonado infinitas vezes sem sucesso. Assim mesmo fiz o que ele disse: no dia seguinte, à hora marcada, disquei. Novamente atendeu a fatídica secretária eletrônica, na qual comecei a deixar o meu já desanimado recado até ser interrompida pela voz de Saramago, que comentou, rindo, sobre minha perseverança. Marcamos um encontro para a tarde seguinte.

A segunda etapa do meu périplo seria conseguir um gravador. Talvez porque no fundo não estivesse muito confiante no método improvisado de agendamento, havia saído do Brasil sem levar o meu. Foi um amigo português, trotskista ligado à Quarta Internacional, quem conseguiu um: enorme, imitava uma maleta com alças e devia pesar cerca de três quilos. Assim paramentada fui à casa em que Saramago morava, já com Pilar del Río, no bairro lisboeta da Estrela. À época estudante de Letras na USP, tendo lido todos os livros até então escritos por ele, parecia um sonho estar diante daquele homem alto, tranquilo, que aos meus olhos pairava um pouco acima do chão. Apesar do nervosismo inicial a conversa decorreu com tranquilidade, simpatia. Saramago não se furtou a nenhuma resposta, fosse sobre seu mais recente lançamento – O Evangelho segundo Jesus Cristo –, fosse sobre Cuba ou as relações com Portugal. Ao final da entrevista, Pilar se aproximou e fomos os três tomar café. Conversamos um pouco sobre o Brasil e, em seguida, eu me despedi. Tão enlevada estava que deixei na mesa aquele imenso e desajeitado gravador. Me dei conta chegando à casa onde estava hospedada. Liguei para Saramago, que atendeu rindo muito, e no dia seguinte retirei a ‘maleta’.

Nos vimos ainda duas vezes, a primeira delas aqui no Brasil, quando lhe entreguei os dois números do jornal em que fora publicada a entrevista.

Aos 70 anos, José Saramago estava em sua plenitude como escritor. Mestre maior da literatura portuguesa contemporânea, já era àquela altura o romancista lusitano mais traduzido no mundo. Nascido em 1922, em Azinhaga, o autor de Memorial do convento, Jangada de pedra, Levantado do chão, Ensaio sobre a cegueira e muitos outros recebeu em 1998 o prêmio Nobel de Literatura. Comunista e ateu convicto, não parecia surpreendido com as reações (em particular da Igreja Católica) ao seu O Evangelho segundo Jesus Cristo, que, entre outras “heresias”, descreve Maria com uma barriga de nove meses e faz de Deus o vilão da história. A polêmica criada em torno do livro culminara, em 1992, na exclusão do romance da lista de candidatos ao Prêmio Literário Europeu.

E foi nesse contexto que Saramago concedeu a seguinte entrevista, na qual falou de seu último livro e dos anteriores. Falou também das suas convicções políticas, do ingresso de Portugal na Comunidade Econômica Europeia e das raízes comuns e trajetórias diferentes de nossas línguas portuguesas em quatro continentes. No ano da morte de Saramago, a melhor homenagem que poderíamos prestar a esse marxista libertário, que se autodenominava um comunista hormonal, é dar-lhe a palavra. – Ivana Jinkings

Por que razão um escritor comunista e ateu escreveu um evangelho?
Bem, eu não escrevi um evangelho. O livro chama-se assim, mas não é uma outra vida de Cristo, que possa colocar-se ao lado dos evangelhos propriamente ditos. Mas tendo ele nascido com esse título, e eu penso que não há nenhum mal nisso, o livro chama-se O Evangelho segundo Jesus Cristo e esse é um título como outro qualquer. Quanto ao fato de um escritor comunista tratar de um tema desses, a verdade é que, apesar de comunista, vivo num mundo e numa cultura que foi toda ela formada e conformada com o cristianismo. De certa maneira, pode-se dizer que todos nós somos cristãos.

O senhor seria, então, um comunista cristão?
No plano da mentalidade todos nós somos cristãos, vivemos dentro de uma civilização judaico-cristã que foi formada com um tipo de ética, uma rede ideológica que tem sua origem no cristianismo. Portanto, é perfeitamente natural que qualquer cidadão, seja ele comunista, socialista, liberal ou seja lá o que for, em determinado momento de sua vida, venha a interessar-se por esse aspecto da realidade. Alguns representantes da Igreja Católica têm dito que, pelo fato de eu ser ateu, marxista e comunista, não teria o direito de escrever um livro desse. E eu suponho que tenho todos os direitos do mundo de escrever sobre tudo aquilo que eu entender.

Mas o senhor estava preparado para todas essas críticas? Porque, apesar de ser uma quase unanimidade enquanto obra literária, seu livro incomodou crentes (com a figura de Maria grávida, por exemplo), ateus (pela própria escolha do tema) e até alguns comunistas, que prefeririam ver um Jesus mais socialista, mais parecido com o Jesus da Teologia da Libertação.
É verdade. Mas eu acho que há muita ingenuidade aí. Isso que nós chamamos de Deus e de Diabo são coisas que transportamos dentro de nossas cabeças. Há quem, por toda essa questão da Teologia da Libertação, gostaria de encontrar no livro um Jesus ao lado dos oprimidos, lutando pelos explorados. Eu creio que isso é pôr as coisas desejáveis no lugar das realidades. Quando eu trato Jesus como um homem que é empurrado por Deus para um certo destino, isso no fundo é uma maneira de desmistificar toda essa ideia que nós fazemos de um Deus criador, um Deus autoritário, um Deus pai, um Deus que governa. E mostro como, no exagero, isso pode levar a situações absurdas, como criar -se ou inventar-se uma religião que está toda ela assente no sofrimento, na renúncia, nas lágrimas, no sangue e em tudo aquilo que é negativo. Em vez de se levar para o homem o caminho da felicidade, da solidariedade, submete-se constantemente o homem ao que se pode e ao que não se pode fazer, à punição, ao tribunal, ao juiz. Além daquilo que temos dentro de nós, que é nossa consciência, inventou-se uma espécie de supraconsciência, que julga todos os nossos atos e nos espera para o tribunal não sei quando e para nos condenar, pelo visto em alguns casos, por toda a eternidade. Isso é de um absurdo tal que para demonstrar esse ponto de vista aos meus leitores construo essa história que é a relação de Deus com um homem escolhido para ser sua vítima, com uma outra figura que é o Diabo, que está ali para nos dizer o que é que tem de factual. Agora, penso que são reações um pouco elementares dizerem os ateus que, se o autor é ateu, não devia falar de Deus, ou os crentes que dizem: “Já que ele falou de Cristo, então que falasse de uma maneira que fosse favorável”.

Mas independentemente da posição do clero, o senhor acha que alguns leitores, crentes, podem ter se sentido ofendidos?
Sim, sobre isso não tenho dúvidas. Já sabia desde antes, quando estava escrevendo o livro, que ele iria chocar e ofender muita gente.

Sua intenção era então dar uma “sacudida” mesmo nesse tipo de leitor?
Não, não, longe de mim ter a intenção de chocar ou ofender. É a própria história contada que inevitavelmente teria de chocar e ofender crentes, mas sem que isso signifique que o autor teve essa intenção. Se falarmos de ofensa – e penso que agora que estamos a comemorar os descobrimentos –, é bom lembrar que, quando as caravelas espanholas e portuguesas iam encontrar ou descobrir outros povos, povos que tinham suas religiões, suas crenças, acontecia sempre isto: em cada caravela ia um frade, que a primeira coisa que fazia quando encontrava essa gente era dizer-lhes que “Vosso Deus é falso e eu trago-lhes aqui o Deus verdadeiro”. Isso é também uma ofensa, ninguém tem o direito de chegar ao pé de outra pessoa e dizer-lhe que o seu Deus é falso. Em nome de quê? De que verdade? Portanto, se vamos falar de ofensas, eu diria que a Igreja Católica, em muitos atos de sua vida e de sua atividade, não fez mais do que ofender os outros. E se os crentes, os católicos, se sentem ofendidos agora, o que é que eu posso fazer?

Como todo bom comunista, o senhor simpatiza com o oprimido e antipatiza claramente com o opressor. A parcialidade do autor fica muito evidente no livro.
É claro… [risos] Eu espero que fique mesmo. Em toda essa história, se há um vilão, esse vilão é Deus, e se há uma vítima, uma pobre vítima que é empurrada por Deus para o lugar do sacrifício, essa vítima é Jesus, que para mim é um homem como qualquer de nós, como Maria, Maria Madalena e José. Todos somos homens e todos somos mulheres. Acontece que inventamos deuses, vivemos sob o temor dos deuses e depois tentamos criar um deus que não seja temor, mas que seja amor… E andamos nesse vaivém, sem saber realmente que pessoas somos, não é? Mas como não sou filósofo, não sou mais que um romancista, essas reflexões eu faço pela única via em que posso ter alguma competência, alguma autoridade, algum saber, que é, enfim, o romance.

O senhor acha que se tivesse escrito esse livro anos atrás, no tempo da Inquisição, por exemplo, seu destino poderia ser o mesmo que o de Baltasar Sete-Sóis (personagem de Memorial do Convento que é jogado à fogueira)?
Pois sim, isso aconteceria com toda certeza. Mas as coisas não estão assim tão diferentes. Não quero dizer que cheguem à execração pública, à queima do livro ou à queima do autor, enfim, a isso não chegaremos, mas já que se fala tanto de direitos humanos espero que pelo menos uma parte do respeito aos direitos humanos me abranja. Mas a verdade é que a exclusão de O Evangelho da lista de candidatos ao Prêmio Literário Europeu [concedido anualmente pela CEE, Comunidade Econômica Europeia, para o qual são designados candidatos dos doze países que a compõem] foi um ato discricionário, um veto político e administrativo que no fundo não fica muito aquém das fogueiras.

A exclusão foi feita pelo secretário de Estado da Cultura, sr. Souza Lara, não? O que ele alegou para vetar o livro?
Ele simplesmente afirma que esse livro não representa Portugal. Mas eu não sei de nenhum detalhe, fiquei sabendo de tudo pelos jornais, como todo o resto das pessoas.

Foi-se a Inquisição e agora importam o fundamentalismo…
Exato, pois se é verdade que não estamos ateando fogo ao livro ou ao José Samarago, a verdade é que esse ato é um ato inquisitorial, completamente inaceitável.

Mudando de assunto e de livro, a escolha de um heterônimo de Fernando Pessoa como personagem em O ano da morte de Ricardo Reis é uma homenagem ao mestre?
Não, não é uma homenagem, eu não escreveria, com certeza, um livro movido por esse tipo de sentimento. O Fernando Pessoa é o grande poeta que nós todos conhecemos, mas não, não foi nada como uma homenagem.

O senhor não acha, como grande parte dos intelectuais de esquerda, que Pessoa era reacionário?
Não, essas coisas são importantes, de fato, no nosso dia a dia, mas depois o tempo passa e isso tudo tem de ser visto e encontrado à luz dos acontecimentos subsequentes, à luz da história e do próprio processo de críticas. Portanto, não vale a pena dizer se Fernando Pessoa é ou não reacionário, a ideia do meu livro não tem, de fato, o que ver com isso. De resto, o livro nasceu de uma ideia súbita, não sou pessoa de programar muito meus livros.

E por que Ricardo Reis e não Alberto Caeiro, por exemplo?
O caso de Ricardo Reis é uma ideia que me veio de repente, eu nem andava a pensar em Pessoa. E se é Ricardo Reis e não outro, foi, digamos, por uma relação que vem desde a adolescência, uma relação muito particular, muito especial com esse heterônimo, desde que li algumas de suas odes e lembro de ter ficado deslumbrado com a beleza formal e com alguns conceitos. Mas ao mesmo tempo havia qualquer coisa que me irritava um pouco em Ricardo Reis.

Uma certa indiferença, talvez?
É tudo aquilo que ele veio a condensar naquela ode que começa com “Sábio é o homem que se contenta com o espetáculo do mundo…”. De maneira que havia essa espécie de contradição. Digamos da contradição no caso dele, mas também de contradição minha, porque, se por um lado me interessava muito aquela poesia, por outro me irritava seu autor.

E por isso o senhor resolveu matá-lo…
Exatamente. Digamos que O ano da morte não resolve nenhuma dessas contradições, mas é o lugar onde eu pretendi, para além do mais que o livro tenha – e tem mais coisas –, dizer ao Ricardo Reis: “Sábio é o homem que se contenta com o espetáculo do mundo? Se tu achas isso, aqui tens o espetáculo do mundo que é o ano da tua morte, o ano de 1936”.

Todo mundo sabe que o senhor nunca teve simpatia pelo ingresso de Portugal na Comunidade Econômica Europeia. Aquela coisa meio fantástica do afastamento da Península Ibérica do resto da Europa, em Jangada de pedra, mostra no fundo a vontade de que isso acontecesse de verdade? Portugal e Espanha perdem muito de sua identidade com a integração?
Isso que nós chamamos de identidade nacional é uma coisa que ao mesmo tempo varia e se mantém. É evidente que um processo como esse que está a correr com a integração europeia vai ter consequências a curto prazo muitíssimo fortes, nisso da identidade nacional e em outros planos – no político, a soberania nacional. E na minha opinião a Europa não passa de um conselho administrativo governado pelos países mais fortes. E o resto é retórica. No fundo mantêm-se as relações de poder no seu interior.

Porque, apesar de formalmente organizada de uma outra forma, a Europa repete hoje esquemas anteriores, mantém todo o aparato militar da OTAN…
E não só o militar. Os pequenos países vão continuar, e serão sempre cada vez mais, subordinados a uma lógica centralista, de centralização de poder econômico, financeiro,  militar, e que vai ser orientado como no caso das grandes empresas, em que os pequenos acionistas não estão lá para dizer outra coisa a não ser “sim”. Resistem naquilo que podem, mas acabam sempre por fazer o que os mais fortes mandam. Mas aquilo que o Jangada de pedra tenta mostrar não é tanto a separação da Europa. É certo que o livro é, e isso eu confirmo, o testemunho de um acontecimento histórico. A Europa não nos legou importância ao longo desses séculos e é como se nós disséssemos: “Bem, vocês não nos legaram importância, então nós vamos embora para outro lugar”. Mas isso é uma leitura óbvia demais e a questão que está aí é outra e tem que ser vista à luz exatamente do lugar onde a Península Ibérica, depois de fazer aquela viagem toda, vai se fixar, que é entre a África e a América do Sul. Portanto, o objetivo é mostrar que nós, os peninsulados, temos raízes, temos laços culturais e linguísticos justamente nessa região. Então digamos que fazer da Península Ibérica uma jangada nessa direção seria a proposta que o autor faz nesse livro, que é renovar o diálogo com esses povos irmãos. Mas sem qualquer intuito de neocolonialismo. Se o entendimento que algumas pessoas fazem é esse, é um perfeito disparate e não há nada no livro que fundamente essa interpretação. É, pelo contrário, um diálogo entre iguais, entre gente que se conhece, e nas coisas que são comuns. E, do ponto de vista cultural e linguístico, sabemos de tudo aquilo que nasceu ali, pelo bem e pelo mal (sei que levamos coisas boas, coisas más, coisas terríveis). Enfim, levar um povo a outro povo coisas boas e coisas más, coisas terríveis e coisas magníficas é da história dos homens, porque os homens é que são terríveis e são magníficos. E, portanto, é inevitável o sofrimento, o sangue, o genocídio, porque o homem não é bom, pronto! Houve um crítico espanhol que disse certa vez uma coisa inteligente. Que ler esse livro como apenas que a Península Ibérica separou-se da Europa é muito pouco. Que o livro deve ser entendido como se a Península Ibérica fosse uma espécie de rebocador, que tenta arrastar a Europa para o sul, tirá-la para um diálogo novo, uma compreensão nova e, de certa maneira, uma descoberta nova, dos povos que têm sido, enfim, dominados, explorados. E não vale a pena guardar ilusões, não foram, ou melhor, não são os colonizadores portugueses e espanhóis que dominam a América Latina hoje. Portanto, não vale a pena atirarem pedras nos nossos antepassados dos séculos XVI, XVII, XVIII e mesmo do século XIX.

Eu fiquei com a impressão, aqui em Portugal, que, para além da simpatia com que as pessoas tratam os brasileiros, existe um sentimento quase paternal. Assim meio como quem se sente culpado por ter colonizado.
Pois é, existe esse sentimento sim. Mas vou te dizer que eu acho isso péssimo. Porque é reconhecer uma culpa que não temos. E a gente não pode andar a carregar culpas que não são nossas. O diálogo é entre vivos e não entre mortos e mortos. Eu verifico que isso acontece muito, que é uma espécie de má consciência que faz com que nós andemos como que a pedir desculpas.

E há culpas mais recentes?
Sim, é possível até que tenhamos que pedir desculpas, mas das nossas culpas de hoje e não das culpas do século XVI, essas não têm remédio. Não temos de carregar nas costas as culpas de nossos pais e avós.

As pessoas costumam apontar Jangada de pedra e Levantado do chão como seus livros mais políticos. O senhor concorda com isso?
É possível que sejam, sim. Digamos que o Jangada de pedra tenha uma leitura imediata, que é uma leitura política. Não é por acaso que o autor decide tirar a Península Ibérica de onde ela está e levá-la para outro lado. Portanto, é um livro que nesse aspecto tem uma leitura política mais imediata. O Levantado do chão também, pelo próprio tema, em que é perfeitamente explícita a relação do senhor e do servo, de explorador e explorado. Mas eu creio que de todos os meus livros se pode fazer uma leitura política, ainda que não seja esse o objetivo de nenhum deles. E que, sendo eu um homem política e ideologicamente muito definido, seria impossível que as minhas ideias ou as minhas preocupações não passassem para aquilo que eu faço, mesmo que o tema não seja obviamente político.

O senhor se sente muito pressionado por essa definição ideológica? É difícil fugir da propaganda fácil, do realismo socialista?
Não, no plano estético o meu comportamento de escritor não se subordinou nunca a preceitos, a regras de escola. Diz-se, por exemplo, que o tema de Levantado do chão faz dele um livro próximo do chamado realismo socialista, mas a verdade também é que o tratamento do tema não tem nada a ver com isso.

Ele é o único dos seus livros que se aproxima do realismo socialista, não é?
Sim, se há algum, é só esse. Quanto à outra pergunta, nunca confundi minha postura ideológica com qualquer obrigação de escrever de acordo com um modelo, com uma regra. Não aceito nem os dez mandamentos da Igreja Católica nem os dez mandamentos, se os houvesse, que me viessem do Partido. Eu não conheço no meu partido – que eu respeito, e se não o respeitasse eu não estaria lá – qualquer autoridade, qualquer competência no domínio literário ou estético. Não reconheço, ainda que isso possa insultar alguns dos meus companheiros, dos meus camaradas.

Quem são os contemporâneos brasileiros que tem lido, os que gosta mais?
Não ando muito a par do que se tem feito ultimamente, mas gosto de muitos escritores brasileiros. Gosta-se mais de uns por uma coisa, gosta-se mais de outros por outra coisa, enfim, agora mesmo acabei de ler o Romance negro, do Rubem Fonseca, e achei alguns contos magníficos. Posso também falar da Lygia Fagundes Telles, do Ignácio de Loyola, da Nélida Piñon. Li recentemente o Estorvo, do Chico Buarque, achei-o muito bem escrito, de uma invenção notável.

E entre os seus, existe um preferido?
Não sei, é difícil dizer. Eu tenho um fraco pelo Ano da morte. Não sei por que razão; se me perguntarem, não sou capaz de dizer. Mas também é verdade que tenho uma ligação muito forte com o História do cerco de Lisboa e, enfim, com este último [O Evangelho segundo Jesus Cristo] também.

O personagem central do História do cerco de Lisboa é um revisor que comete um terrível erro. Alguma vingança pessoal?
Não, não [risos], até que não. Eu tenho uma revisora magnífica, que nunca me fez uma maldade dessas e, portanto, não tenho qualquer razão de queixa. Pelo contrário, nesse caso o revisor é elemento positivo porque sendo o revisor por definição o conservador do texto; este, ao contrário, é subversível, altera o texto e, portanto, altera tudo quanto vem depois, a história de Portugal.

Com essa crise toda do Leste, com a queda do chamado socialismo real, como anda sua convicção de comunista?
A minha convicção se mantém inalterável. Estamos diante de um desastre, que alguns de nós não vimos a tempo, não compreendemos a tempo e, sobretudo, não criticamos a tempo. Mas disso tudo penso ter tirado algumas conclusões; e uma delas, a conclusão central, aquela que do meu ponto de vista é a mais importante, é que não é possível construir o socialismo sem uma mentalidade socialista. E hoje está aí, diante dos olhos: olhamos para os antigos países socialistas e verificamos que do ponto de vista cívico, do ponto de vista moral, da ética, da convivência dos cidadãos uns com os outros, o socialismo não modificou em nada a mentalidade das pessoas, não as orientou.

Mas também não é verdade que, para haver uma mentalidade socialista, é preciso que existam condições objetivas, uma vivência socialista?
Sim, é certo. Sem as condições materiais, de educação, que levarão à criação da mentalidade socialista. Mas se nós colocarmos a situação dessa maneira, encontraremo-nos num problema sem solução. Se dizemos que, por um lado, não é possível construir o socialismo sem uma mentalidade socialista e, por outro lado, dizemos que para que exista uma mentalidade socialista é preciso o socialismo, então ficamos paralisados como um burro entre dois fardos de palha, um burro com fome que fica paralisado porque não sabe se há de comer do fardo de palha desse lado ou do fardo de palha do outro lado. Na minha opinião, é preciso que isso a que eu chamo de mentalidade socialista preexista. Houve um tempo em que nós pensávamos que essa capacidade de apreensão dos fenômenos do mundo, da sociedade, nos levaria a nossa mentalidade. Nós colocávamos tudo isso na classe operária, mas hoje penso que deve haver uma reflexão mais abrangente.

Dos partidos comunistas?
Mas sem converter os PC sem outra coisa. Um PC é um PC e, se não é isso, deixa de ser isso, passa a ser outra coisa, como no caso da Itália, em que não se sabe o que é aquilo em que se transformou o PCI. O que eu acho é que a criação de uma mentalidade socialista é de fato indispensável para que não se repitam os erros, as falhas, os crimes, os desastres que nós tivemos de assistir ao longo desses setenta anos. Tudo por uma posição demasiado idealista – provavelmente é –, mas a verdade é que, se não existir essa mentalidade, nunca teremos o socialismo.

Existe algum movimento de intelectuais portugueses de solidariedade a Cuba?
Não. Cuba, neste momento, não se fala dela. São pouquíssimas as pessoas que se interessam por Cuba, são raríssimas as que saemem sua defesa. Nofundo é assim: quando as revoluções estão no auge os intelectuais aderem muito, juntam-se muito. Aqui, nos anos da Revolução – e até antes dela, nos tempos do fascismo –, Cuba para os intelectuais era uma espécie de farol. Agora já toda a gente se cansou e, no fundo, julgo que estão todos à espera da sua liquidação.

Mas o senhor não acha que neste momento é vital o apoio a Cuba, independentemente até de qualquer crítica que possa ser feita ao governo de Fidel? O que está em jogo não é a dignidade do socialismo?
Sim, sem dúvida. Romper o cerco internacional que se está a fazer a Cuba é inadiável. Há uma hipocrisia mundial no que se refere a Cuba que é de fato vergonhosa, mas pelo menos aqui não há maneira de romper. Mas é evidente, alguma coisa precisa ser feita, e logo.

Em quase toda a sua obra é possível encontrar uma referência, uma opinião sobre a Igreja e o poder da Igreja. Por que isso, se o senhor é declaradamente ateu?
Essa preocupação com a Igreja como instituição de poder sempre esteve presente em mim, mesmo sendo eu, como de fato sou, ateu. O fato é que a Igreja nos governa muito mais do que aquilo que imaginamos no nosso dia a dia. Então, digamos que tudo aquilo que era tratado de uma maneira avulsa nos meus livros anteriores veio encontrar-se em O Evangelho segundo Jesus Cristo de uma forma mais radical, e o tema central é também o mais radical. Mas não porque eu tivesse a intenção antes de escrever o livro. Ele nasceu de uma ideia súbita, em maio de 1987, que podia não ter sequência, mas que foi pouco a pouco sendo elaborada.

Jesus é retratado como um ser oprimido e, em contrapartida, o Deus de O Evangelho é um Deus excessivamente autoritário…
Eu não acho que ele seja excessivamente autoritário. Quando certos teólogos escrevem artigos nos jornais – também eles muitas vezes ofensivos e insultuosos –, um dos argumentos é o de que Deus não é isso. Bem, independentemente da pergunta que eu inevitavelmente faço sobre o que é realmente Deus para essas pessoas ou que Deus é esse de quem as pessoas julgam poder falar, há uma questão que nos separa. O Deus de que eu trato no livro é o Deus do Velho Testamento, e o Deus do Velho Testamento em si mesmo é autoritário, é rancoroso, é vingativo. Basta ler a Bíblia com atenção suficiente para saber que o Deus dos judeus, o Deus do Velho Testamento, é o mesmo de quem eu falo.

Deus, no livro, representa o poder autoritário?
Sim, mesmo que Ele não represente a opressão, porque pode não ter sido sempre opressor, ele representa, insofismavelmente, o poder. E um poder discricionário. Um poder que, sendo divino, é absoluto. Olha, quando as pessoas dizem hoje que Deus não é aquilo de que eu falo, esquecem que o que aconteceu a Deus ao longo desses dois mil anos é que Ele foi se transformando para se parecer com Jesus. Quer dizer, não há nenhuma semelhança entre a ideia de Deus no ano de 1992 e a ideia de Deus que tinham Jesus e seus contemporâneos. Então, tudo quanto se expressou em toda a mudança, a transformação lenta desse para o Deus do perdão e do amor, no fundo é para fazer parecer o Pai ao Filho. E eu não tenho nem que provar a existência de Deus nem a sua inexistência.

Então por que o senhor precisou do elemento divino? O livro mostra todo um lado em que Jesus parece mais humano e, no entanto…
Mas é que surge aí uma questão que do meu ponto de vista é central. Jeová é o Rei dos judeus, apenas. É o criador do universo, mas é um criador um pouco estranho, porque escolheu para seu povo apenas aquele, os judeus. E na minha ficção o que acontece é isto: Deus está cansado de pagar aqui todo um olhar irônico, para não dizer sarcástico, sobre todas essas coisas, está cansado de ser apenas o Deus de um povo e quer ser um Deus universal, católico, e, para isso, como bom político que é…

Ele era um bom político, mesmo sendo autoritário?
O que eu quero dizer é que, tendo conservado sua relação com o povo judeu, por outro lado esse mesmo Deus – supondo que estamos a falar de qualquer coisa real – conseguiu efetivamente (não direi tornar-se católico, porque o catolicismo também não cobre todo o mundo) alargar aquilo que nós costumamos chamar de sua “área de influência”, que estava limitada a Israel, à Palestina, e que evidentemente hoje cobre uma grande parte do mundo. E, portanto, é esse o sentido crítico de uma operação política que leva a encontrar uma vítima, a encontrar um mártir, para poder sobre o sangue, sobre a vida dessa vítima, construir o edifício de poder que é a Igreja Católica. Agora, é claro que os católicos não gostam disso, eu já sei. A Igreja, quer aqui, quer no Brasil, não escuta nada, é incapaz de pensar nas coisas sem insultar. Mas, enfim, eu já esperava por isso.

Na edição brasileira do livro está escrito que “A pedido do autor mantém-se a ortografia vigente em Portugal”. Por que razão? O senhor acha que a obra perderia qualidade com a adaptação?
Não, eu não acho que perderia. Mas acho que a situação ideal na comunicação entre irmãos portugueses e brasileiros seria a comunicação em que nenhum de nós tivesse de modificar fosse o que fosse na sua maneira de falar ou de escrever, na construção sintática, na norma gráfica, que pudéssemos continuar fazendo aquilo que fazemos e sendo compreendidos sem dificuldade de um lado e de outro. Considero absurdo obrigar num país ou noutro que edições do outro país se sujeitem às normas do país onde o livro vai ser editado. Para mim, quero ler um livro brasileiro tal qual ele foi escrito e quero que os brasileiros leiam meus livros tal como os escrevi.

Mas o senhor não acha que isso pode dificultar a leitura para algumas pessoas? Afinal existem muitos termos de uso diferente na língua.
A língua portuguesa enriquece-se com os termos diferentes de um país e de outro e vão entrar nessa arena linguística – ou melhor, já estão, mas vão entrar agora com muito mais presença – os cinco países, antigas colônias portuguesas, onde o português vai seguir seu próprio caminho e, portanto, vai ser uma língua portuguesa cheia de diferenças de país para país, e o enriquecimento dela não está na imposição de uma norma – fosse ela do Brasil, nossa ou de quem quer que seja –, mas justamente na contradição de que cada país vai levar o corpo comum da língua, que admite ou tem de admitir tudo. E nossa riqueza lingüística de leitores será tanto maior quanto conhecidas as diferenças do português falado nesses sete países. Não podemos ir para uma solução de comodidade, que seria reduzir todas as diferenças de seis países à norma de um. Porque isso é empobrecer a própria língua. Se amanhã um acordo ortográfico se estabelecer – melhor do que aquele que andou a ser discutido, debatido, quase uma espécie de guerra santa –, que possa merecer a aprovação de todos esses países, então aí estou de acordo em que o meu livro se vá sujeitar a essa norma, que será comum de todos. Enquanto isso não acontecer, eu quero ler em Portugal livros de autores brasileiros e reconhecer naquela língua a minha, na forma brasileira. Enriqueço-me com isso, aprendo mais do que sabia antes.

O senhor acha então que a nossa questão é muito diferente da colocada pelos movimentos autonomistas da Espanha, por exemplo, que hoje se voltam contra os acordos feitos para a unificação da língua? Os bascos, os galegos, os catalães querem o direito de falar sua própria língua.
Mas eles têm cada um uma língua diferente. No nosso caso não, e para além das histórias contadas, do estilo e tudo o mais de cada país, há de se mostrar no modo de escrever essa mesma diferença. O que eu peço aos meus leitores brasileiros é que recebam o livro como é e que, se tiverem de fazer um esforço, pois que façam.

Qual será seu próximo livro?
Estou a escrever o livreto de uma ópera que será apresentada em outubro de 1993, numa cidade alemã chamada Münster.

É uma obra encomendada?
Sim, pelo mesmo grupo que criou em Milão, há dois anos, e aqui em Lisboa, no ano passado, a ópera Blimunda, baseada no Memorial do convento.

E essa próxima, como se chama?
Não tem título ainda. Mas o tema é religioso – não fui eu que escolhi…

Desse jeito o senhor vai acabar virando especialista em temas religiosos…
É… [risos] Eu não ando assim tão preocupado com a religião, mas dá uma ideia de que estou a me tornar especialista nisso. Essa história se passa no século XVI, no movimento de Lutero, e depois as várias seitas que surgiram no interior do luteranismo, do protestantismo, e uma muito especialmente, que teve uma importância muito grande no norte da Alemanha e na Holanda e que, neste caso, nos anos de 1534 e 1535, foi um verdadeiro drama, que acabou de fato numa tragédia e numa carnificina, que foi o movimento dos anabatistas. É sobre isso que trata o livro.

E para o próximo romance, já existe um projeto?
Tenho algumas ideias, mas, enquanto eu não acabar esse livreto, prefiro não falar disso.

sábado, 10 de outubro de 2015

"As Intermitências da Morte" Excerto da entrevista de Luísa Mellid-Franco a Saramago (Expresso, 19/11/2005)



(...) "A morte não é uma entidade, a morte não é «alguém». Aquilo a que nós chamamos morte é algo de impalpável, de indefinível, que habita, desde que nascemos, dentro de cada um de nós. Talvez preferíssemos um sinal, um esqueleto envolto num lençol. Reconhecê-la-íamos e isso seria tranquilizador. Talvez. Mas não passaria de uma representação. No limite, é algo que mata, e quando chega o momento ela manifesta-se e a gente sai de cena." (...) 

Entrevista de Luísa Mellid-Franco, Expresso (19/11/2005)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Assinala-se hoje os 17 anos da data do anúncio da atribuição do prémio Nobel a José Saramago (8/10/1998)

Via YouTube, aqui

"Bem vindos à Academia.
Este ano. a Academia atribuiu o prémio Nobel da Literatura ao escritor português José Saramago... José Saramago.
... que através de parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia, nos permite apreender continuamente uma realidade ilusória."

Breve discurso no anuncio da atribuição do prémio Nobel, em 8 de Outubro de 1998

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Montagem cénica da obra "As Intermitências da Morte" - Ler Saramago Comunidade de Leitores

Ler Saramago Comunidade de Leitores 
Fundação José Saramago - Serviço Educativo 2015/16

Montagem cénica da obra 
"As Intermitências da Morte"


"«No dia seguinte ninguém morreu».
Assim começa este novo romance de José Saramago.
Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas consequências, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência."
Sinopse via Fundação José Saramago,





terça-feira, 6 de outubro de 2015

"Comunidade de Leitores sobre a obra de José Saramago" - Fundação José Saramago - Serviço Educativo 2015/16

"Comunidade de Leitores sobre a obra de José Saramago" 
- Fundação José Saramago - 
Serviço Educativo 2015/16

A Fundação José Saramago apresentou o Programa "Serviço Educativo 2015/16"

O programa completo pode ser consultado aqui  
em http://www.josesaramago.org/servico-educativo-2015-2016/


"Comunidade de Leitores sobre a obra de José Saramago" - Fundação José Saramago - Serviço Educativo 2015/16
A Fundação José Saramago apresentou o Programa "Serviço Educativo 2015/16"

O programa completo pode ser consultado aqui  
em http://www.josesaramago.org/servico-educativo-2015-2016/

Damos especial destaque à "Comunidade de leitores sobre a obra de José Saramago" que tem como
orientadora da Comunidade, a Professora de Língua e Literatura Portuguesa, Maria Leiria

Preço: 15,00 € / mês (O preço inclui documentação da Comunidade. Os participantes poderão adquirir os livros com desconto de 20% na livraria da Fundação)
Informações e marcações pelo número

917 462 561 (Maria Leiria)
ou pelo e-mail marialeiria@gmail.com

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

FOLIO 1ª edição do Festival Literário de Óbidos - Destaque para José Saramago nas suas várias vertentes

Através da página da Fundação José Saramago e do Folio Festival Literário, foi apresentada a programação do evento. A 1.ª edição do festival, dá amplo destaque à obra de José Saramago.
Aqui, os principais eventos relacionados, 



"Entre os dias 15 e 25 de outubro a vila de Óbidos será o ponto de encontro de manifestações artísticas em língua portuguesa e castelhana. Na primeira edição do Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, mais de 200 autores e artistas darão voz, ritmo e corpo a dezenas de atividades em redor da palavra.

Além de tertúlias, mesas redondas, aulas e conversas, quem visitar a “vila literária” poderá assistir a espetáculos musicais e teatrais, performances, filmes e exposições.

José Saramago, o único prémio Nobel de Literatura em língua portuguesa, será recordado com uma série de iniciativa ao longo dos 11 dias de festival, são elas:

No dia 15 de outubro, às 18h, na galeria Museu Abílio, o fotógrafo João Francisco Vilhena inaugura a exposição de fotografia e instalações intitulada 20 anos Ensaio Sobre a Cegueira.

No mesmo dia 15, também às 18h, na Casa Porto da Vila, André Letria inaugura uma exposição com as suas ilustrações feitas para o livro A Maior Flor do Mundo, de José Saramago.

No dia 17, às 22h, o grupo teatral Acert/Trigo Limpo apresenta, na Igreja de Santiago, o livro/cd “A viagem do Elefante”, a partir do livro homónimo de José Saramago.

No dia 22, o escritor Gonçalo M. Tavares, Prémio José Saramago, dará uma aula que terá como ponto de partida o romance Ensaio sobre a Cegueira. O escritor abordará vários tipos de cegueira na literatura e nas artes.

No dia 24, às 20h, o cantautor Luis Pastor apresentará o seu disco Nesta esquina do tempo, a partir de poemas de José Saramago.

No dia 25, último dia do festival, às 15h, será exibido o filme José e Pilar, do realizador Miguel Gonçalves Mendes. Sérgio Machado Letria, diretor da Fundação José Saramago, estará presente para apresentar a obra.

Durante os dias do festival a companhia Acert/Trigo Limpo estará na vila de Óbidos com o seu elefante Salomão, personagem da adaptação A Viagem do Elefante. Atores da Acert farão diariamente performances em torno da obra."

Mais informação e consulta detalhada de todo o programa, pode ser acedido aqui via página oficial do Folio Festival Internacional de Óbidos, em http://foliofestival.com/



"Manifesto
Todos os livros se escolhem pelo primeiro parágrafo. 
O Folio é o nosso.
Folio é o primeiro capítulo de um projeto ambicioso. É nele que se está a escrever a história de uma Vila Literária que se transforma num dos lugares obrigatórios para a literatura mundial. O Folio é onde se apresenta Óbidos Vila Literária. É a sua capa e o maior cartaz.

Mas Óbidos já era a Vila Literária mesmo quando ainda lá não havia livros. Há três anos eles chegaram. O projeto Folio é a expressão maior de quem fez da literatura e dos livros, durante décadas, a sua profissão.

O Folio é o projeto – e a marca – mais importante para uma terra que escolhe a Literatura e os livros como bandeira. Uma terra que pelas suas características e história únicas é, ela própria, também um best seller.

Nesta primeira edição (Out 15 – 25) o Folio prepara-se para receber 200 autores em 11 dias, portugueses e estrangeiros. Alguns nomes maiores da literatura mundial. São 11 dias em que o verbo “literar” enche páginas de livros e as ruas de Óbidos com música, teatro, performance, cinema, tertúlias, mesas redondas e exposições.

Depois do Folio acabar, para voltar no ano seguinte, a Vila Literária continua. Essa nunca pára.

Todos os livros se escolhem pelo primeiro parágrafo. O Folio é o nosso."



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Primeira edição de “História do Cerco de Lisboa” em finlandês - Tammi (editora)

Informação via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/primeira-edicao-de-historia-do-cerco-de-lisboa-em-finlandes/

"Primeira edição de “História do Cerco de Lisboa” em finlandês

Acaba de dar à estampa, e pela primeira vez na Finlândia, a tradução de História do Cerco de Lisboa, com a chancela da Tammi. Este é o terceiro título publicado por esta editora depois de A Viagem do Elefante e O Ano da Morte de Ricardo Reis, renovando, assim, o interesse em levar José Saramago aos leitores fínicos. A tradução deste romance é da responsabilidade de Antero Tiittula.
O livro já se encontra na Biblioteca da Fundação José Saramago, em Lisboa, gentilmente oferecido por 2 leitores finlandeses, admiradores profundos da obra de Saramago."

(Capa de "O Ano da morte de Ricardo Reis")

Mais informação da editora, aqui

(Capa de "A Viagem do Elefante")

Programa "Ler Mais, Ler Melhor" Livro da vida de Pilar del Río - "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago

Programa "Ler Mais, Ler Melhor"
Livro da vida de Pilar del Río
"O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago (Editorial Caminho)


Pode ser visualizado via YouTube, 

No dia Internacional da Tradução - Revista Blimunda #37 «Pilar tens um trabalho» Entrevista de Ricardo Viel a Pilar del Río

No dia Internacional da Tradução (30/09) destaque à edição #37 da Revista Blimunda, com a entrevista de Ricardo Viel a Pilar del Río - «Pilar tens um trabalho»

Via página do Facebook da Fundação José Saramago (30/09)

"José Saramago dizia que os escritores construíam a literatura nacional e os tradutores eram os responsáveis por fazerem a literatura internacional. 
Neste Dia Internacional da Tradução, a Blimunda recupera as palavras de vários tradutores da obra de José Saramago publicadas no número 37 da revista. 



Conheceram-se em 1986, em Lisboa, graças aos livros. Alguns meses depois a espanhola Pilar del Río, leitora de José Saramago, transformar-se-ia em sua companheira. E passados dez anos seria
«promovida» a tradutora, o que lhe trouxe, além de muito trabalho, a possibilidade de acompanhar ainda mais de perto o processo de criação do autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis – livro que, como costuma contar, a levou a Lisboa para conhecer os lugares do romance e o homem que o havia escrito.
Pilar del Río, jornalista, tradutora e presidenta da Fundação José Saramago, conversou com a Blimunda sobre essa difícil e bela tarefa que é a tradução. «Gosto muito de traduzir, é partilhar amores», dirá no final da entrevista que pode ser lida a seguir:



O seu primeiro contato com o idioma português foi a partir de José Saramago ou não? Lembra-se do primeiro livro que leu?
Os primeiros livros que li em português, por recomendação de José, foram Agosto, de Rubem Fonseca, e Uma Família Inglesa, de Júlio Dinis.

E o primeiro livro de Saramago?
Foi o Levantado do Chão, que na altura em que li ainda não estava traduzido para espanhol.

A primeira tradução que fez foi a de Todos os Nomes, não? Como e por que se decidiu que Pilar del Río seria a tradutora de José Saramago?
Porque Basílio Losada, que era quem o traduzia para o castelhano, anunciou na apresentação de Ensaio sobre a Cegueira que estava a ficar cego e que não voltaria a traduzir. Foi nesse momento que José me disse: «Pilar, tens um trabalho.» Antes, já havia traduzido conferências, artigos e correspondências suas.

Costumava traduzir a obra enquanto Saramago a escrevia, o que penso que não é algum muito habitual entre os tradutores. O que ganhava e o que perdia nesse processo?
Ganhava sempre. Tinha a sorte de assistir de dentro ao processo criativo. Era emocionante.

E quais eram as vantagens de ter o autor tão perto no momento de traduzi-lo?
A vantagem era essa: ter o autor ao lado. É claro, isso intimidava-me e tirava-me liberdade. Eu ouvia a voz do autor e a música do texto, e diante dessa sinfonia sentia-me pobre e pequena. Por sorte também era o suficientemente ousada para não ter um bloqueio de pânico.



E medo, nunca teve?
Sim, sempre me acompanha a sensação de não estar à altura do autor. É o drama, a tragédia dos tradutores.

Não teve nunca vontade de fazer como o revisor da História do Cerco de Lisboa e mudar o rumo de um relato?
Não! Já disse que sou ousada, mas não a este ponto. Quando José escreveu a  História do Cerco de Lisboa ele estava efabulando com a liberdade do escritor e partia de uma ideia tão forte como a separação da Península Ibérica da Europa. Que um revisor ou tradutor modifique um texto até ao ponto de colocar um não onde há um sim é a situação impossível que  José Saramago necessitava para escrever as suas ficções. Tive vontade, como imagino que todos os leitores têm, de dar um empurrão numa personagem, ou puxar-lhe as orelhas, gritar-lhe, mas isso é experiência de leitora, não de tradutora.

Nunca sequer sugeriu mudanças enquanto acompanhava a evolução do livro?
O melhor tradutor é o mais invisível, mas tive duas intervenções na obra de José Saramago que conto com muito orgulho. A primeira foi convencê-lo, quando escrevia Todos os Nomes, que sem luz elétrica um atendedor de chamadas não funciona. Para isso tive que demonstrar-lhe na prática, cortando a luz da casa, e assim evitei que fosse publicado um erro no romance. A outra intervenção foi na última palavra do livro A Caverna. José havia escrito «bilhete». Quando viu que, ao traduzir, eu havia colocado «entrada», ele trocou a palavra e ficou com a minha. E pronto, assim acaba minha influência na obra literária de José Saramago.


As dedicatórias, José Saramago colocava-as no final ou no começo da escrita do livro? E emocionava-se enquanto as traduzia?
Ele colocava-as ao final. E sim, sentia pudor ao traduzi-las, mas jamais lhe pedi que fosse mais ou menos discreto, sim-plesmente agradecia, com a mesma emoção que ele mas entregava. Vinha sempre até ao meu escritório, aproximava-se por trás enquanto eu traduzia o que me havia entregado antes, esperava em silêncio o meu próprio silêncio e... enfim, não digo mais. Duas pessoas diante de uma obra e uma vida compartilhadas.

Dos livros que traduziu algum foi especialmente difícil? Porquê?
Todos os Nomes foi o mais difícil, talvez por ser o primeiro e porque perdi um ficheiro com cerca de 80 páginas traduzidas e que me tinha dado muito trabalho fazer. Fiquei tão deprimida que preferi fazer uma pausa, e viajei para visitar a minha mãe. Desfrutei de uns dias a seu lado, as últimas férias que tivemos juntas. Precisei afastar-me do texto para não desistir. No regresso, decidi deixar para o final as páginas que havia perdido e continuei a tradução. E confesso que encontrei as mesmas dificuldades e dúvidas de quando me propus traduzir aquelas páginas perdidas. Não tinha aprendido nada.

Não teve vontade de traduzir os livros anteriores a Todos os Nomes? E os poemas, arriscar-se-ia?
Não, nunca quis nem quero traduzir obras já traduzidas, ainda que esteja consciente de que serão feitas outras tradu-ções, começando pelos títulos de que me ocupei. E quanto a poesia, jamais me arriscaria, o meu atrevimento tem limites. Para traduzir poesia é preciso ser poeta, acho.

É a tradutora de um só autor?
Quis traduzir o Chico Buarque, mas ainda não era o seu momento em Espanha. E agora estou com um livro do José Luís Peixoto. E sim, já traduzi outros autores e autoras. Gosto muito de traduzir, é partilhar amores.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Roteiro de Leitura da obra "O Evangelho segundo Jesus Cristo"

Roteiro de Leitura
"O Evangelho segundo Jesus Cristo"
Caminho, 1991

Um roteiro não nos mostra o local físico, porém, 
nos orienta pelos caminhos a percorrer até ao seu destino.
São 85 pontos de interesse, em sucessão e não antecipáveis, tal como se pode imaginar e idealizar num trajecto entre o ponto de partida e o de chegada. Pelo meio, um caminho percorrido. 
Mil vozes e imagens transporta este "O Evangelho segundo Jesus Cristo".


1. Quadro de Dhurer


2. O amanhecer e o sexo consumado

3. Nazaré na Galileia e a casa feita na encosta

4. O mendigo que bate à porta pedindo comida e que se despede na forma de anjo

5. A tigela com a luz brilhante

6. Por dúvidas quanto à intenção do mendigo José consulta o conselho de anciãos

7. Os anciãos que vão a casa de José interrogar
Maria e decidem cavar um buraco para esconder a terra brilhante


8. A passagem dos meses, as chuvas, os soldados de Roma que preparam
o recenseamento com vista à colecta dos impostos

9. O caminho em direcção a Belém, José e o grupo dos homens,
Maria a burro no grupo atrasado das mulheres

10. O ancião Simeão questiona José sobre a questão de recensear a família,
e se não nasce até ao último dia do recenseamento.
A discussão e a perda de razão, a argumentária do ancião

11. Maria e a gestação

12. A revelação de Simeão o filho deve ser escondido

13. A caminhada onde José terá a alucinação de ver
o seu futuro filho já homem a acompanhar a mãe,
ou a presença do mendigo da terra brilhante

14. Jerusalém, as primeiras dores e o trabalho de parto

15. Belém o tempo urge

16. A parideira escrava Zelomi que ajudará no parto,
a estada na gruta quando faltou outro tipo de guarida


17. Maria pariu, 3 pastores trouxeram o leite e o queijo, o terceiro pastor trouxe o pão,
Maria reconhece-o como sendo o mendigo

18. O rei Herodes, o retrato da loucura e doença

19. Jesus levado pelo pai à sinagoga para ser circuncidado.
Passaram 8 dias após o nascimento e faltarão 33 dias
 a contar desse momento para purificação da mãe

20. Maria purificada através do sacrifício de 2 rolas no Templo

21. A profecia que cai sobre rei Herodes

22. José ouve da boca de 3 soldados, falam de uma ordem de matança
de todos os nascidos com menos de 3 anos.
A urgência de fugir em direcção à gruta para colocar o filho a salvo da matança

23. Numa ausência de José aparece o mendigo sob a forma de pastor e anuncia a culpa,
por salvarem Jesus e esqueceram as restantes crianças

24. Os pesadelos e culpa de José. Mais filhos e a vida segue.
Jesus tem 5 anos e vai à escola

25. Jesus com 11 anos, a intifada de Judas Galileu e seus homens
contra o rei David na Galileia e Judeia


26. O vizinho Ananias pede a José que lhe cuide da casa na sua ausência.
Vai para a guerra contra os romanos e alista-se nas tropas de Judas Galileu

27. Passado tempo chega a José que Ananias está em Séforis ferido e que as tropas romanas prestam-se a avançar. José decide ir procurá-lo, encontra-o às portas da morte. Morre.

28. José foi crucificado. As tropas romanas apanharam-no vagueando por Séforis à procura do seu burro roubado na noite em que esteve de vigília a Ananias. 40 homens levados para fora da cidade morreram. José morreu aos 33 anos.

29. Maria e Jesus vão de caminho saber de José. O crucificado morto e descido da cruz. O choque. Jesus recolhe as sandálias de José, agora já homem. José sepultado numa vala comum

30. Os pesadelos de Jesus. Maria revela a Jesus os pesadelos de José e que Jesus acabara de herdar. Jesus fica sozinho no deserto e é observado de longe por um pastor.

31. Jesus assume a ruptura com a família e decide sair de casa. Numa noite seguinte o mendigo que se tinha anunciado a Maria volta a casa para arrancar a planta pela raiz que tinha nascido onde a terra brilhante estava depositada.

32. O caminho para Jerusalém


33. A chegada ao Templo e sua esplanada de acesso.
O Átrio dos Gentios, o Átrio das Mulheres, a Sala dos Óleos e a dos Nazarenos e finalmente os anciãos e os escribas que conhecedores das leis dão conselhos

34. Jesus questiona sobre a culpa

35. Segue para Belém

36. Pára no túmulo de Raquel como aconteceu com seus pais faz 13 anos e descobre numa praça o túmulo das 25 crianças mandadas matar pelo rei Herodes. Jesus chega aos lugares que os seus passos os leva sem procurar.

37. Encontra uma escrava velha, agora velha mas que vem a descobrir que foi a sua parteira Zelomi. Do túmulo das 25 crianças sepultadas vai conhecer a cova onde nasceu.

38. Jesus é surpreendido pelo pastor que se apresentou a Maria.
Do susto inicial a ficar como seu ajudante

39. Passado um dia e noite Jesus decide confrontar o pastor que não cumprindo com as praxes das bênçãos anuncia a sua ida para outras paragens.

40. Confronto ético e teológico constante com o pastor... será um emissário do Diabo?
A ausência de resposta leva Jesus a segui-lo

41. O acidente com o pequeno cabrito morto por jesus por acidente

42. Aproxima-se a Páscoa. Jesus segue para Jerusalém. Em Emaús pede para comprar o cordeiro que deverá ser sacrificado. Recebe um de oferenda.

43. Jerusalém e os odores da queima e seus sacrifícios. Jesus questiona-se sobre estes rituais. O cordeiro não morrerá. De volta para o deserto onde está o pastor e seu rebanho.


44. O cordeiro já é ovelha. Esta desaparece no deserto. Jesus vai em sua procura e encontra.
Deus que exige que a seja sacrificada.

45. Pastor expulsa Jesus do rebanho. Seguirá pelas margens do rio Jordão

46. Passa uns dias e ajuda os pescadores. Junta-se a André e Simão numa ida ao
mar Genesaré e o milagre da pescaria farta

47. Caminho para Nazaré passando por Magdala.

48. As feridas nos pés obrigam a pedir ajuda. Bate à porta da casa de uma prostituta.

49. Maria de Magdala disse a Jesus aprende o meu corpo.  Assim foi. Uma semana.

50. Voltou a Nazaré

51. De volta a casa descobre que no fundo do alforge lhe aparecem
20 moedas colocadas por Maria de Magdala

52. Maria e os filhos Tiago e José acabam por duvidar de Jesus que acaba por sair de novo de sua antiga casa e família. A tigela escolhida.

53. Volta para Magdala. Passado pouco tempo fogem da casa e partem para junto do mar.
A casa de Maria foi incendiada .

54. Mãe de Jesus recebe de novo o visitante que já lhe anunciou a gravidez de Jesus. Agora para lhe dizer que devia ter acreditado no filho. Ele viu Deus. Chega a hora do arrependimento. Maria manda Tiago e José para os lados do mar da Galileia procurar o irmão e pedir que regresse.

55. O encontro entre os 3 rapazes. Jesus, Tiago e José. O confronto leva-os de volta a casa e a Jesus aos milagres da pescaria. As terras e populações que tentam ficar com Jesus por ser sinónimo de abundância. A necessidade de Jesus em repartir a sua presença pelo máximo de embarcações.
56. A tempestade no mar que Jesus faz abrandar. A aclamação popular

57. Jesus tem 25 anos



58. Continua a obrar milagres. Visita a outra margem e se depara com um homem imundo que lhe pede que lhe liberte os demónios que carregava dentro. Era a Legião.  Foram enviados para uma vara de porcos que pouco depois se afogaram no mar.
Os porcos morreram e os demónios foram libertos e soltos. Jesus e seus seguidores sentam-se a debater quem é ele afinal e para que servirá sendo filho de Deus. 

59. O milagre falhado da figueira

60. Já era tempo disse Jesus. O nevoeiro chama-o ao mar aonde os pescadores permanecem em terra.

61. Atravessando o nevoeiro chega ao centro do mar. Deus está sentado na popa do barco.
Saber quem é Jesus e o que Deus lhe tem destinado.

62. Diálogo e argumentação

63. Ouvem-se braçadas de algo que se aproxima do barco. Interrompe-se o diálogo com o fim da resposta à primeira questão. É o pastor que aparece. Deus apresenta-o a Jesus. É o Diabo. Continua o diálogo.

64. No final ficará a saber a resposta às duas perguntas.
Que é filho de Deus e será mártir e vítima.

65. A lista dos nomes que morreram em nome ou por causa de Deus,
os martírios e sacrifícios, as guerras e cruzadas

66. O Pastor tentou fazer sem sucesso uma aliança com Deus.
Acabar com o mal e evitar as desgraças futuras.


67. Levantou o nevoeiro. Jesus dirige-se para terra onde uma multidão o espera. Simão lhe diz que esteve quarenta dias fora no mar sem que os pescadores pudessem pescar

68. Jesus parte com seus companheiros. Ele e Maria de Magdala vão discretamente a caminho de Betânia visitar os irmãos dela. Desde que se tornou prostituta ficaram desavindos.
A irmã Marta e Lázaro que é curado.

69. Chegam multidões para o ver e obter os milagres. O Templo está atento.

70. Jesus seguirá com Judas Escariote e Tomé à procura de João
que anda a pregar a chegada do filho de Deus e ajudará Jesus

71. Perto de Betânia em Betabara Jesus encontra João.
Apresentam-se e seguem os seus caminhos. Jesus é baptizado por João, este lhe dirá Não é preciso que o Messias faça tanto desde que faça o que deve.

72. Recolhe-se durante 8 dias
73. Decide que chegou a hora de ir para Jerusalém. Segue com os seus 12 companheiros.
Chegam e provocam um tumulto juntos dos cambistas.
Derruba as mesas e diz que o templo está repleto de ladrões.

74. Regressa a Betânia. Chega a casa de Marta e Lázaro. Este morreu. Marta pede que o ressuscite. Maria diz que ninguém fez tanto mal que mereça duas mortes. Assim fica.

75. Jesus vive a indefinição e a tristeza.

76. Chega a notícia que João o Baptista foi preso e degolado, não porque andasse a pregar a chegada do Messias mas porque denunciou o adultério do rei Herodes.
Causa mesquinha que perturbou Jesus e os seus discípulos.

77. Jesus com todos os discípulos em reunião sem a presença das mulheres e por desafio de Judas Escariote, anunciará a morte ou sortes de todos. Todos serão executados de forma horrível mas João chegará a velho e Judas Escariote saberá que se enforcará numa figueira.

78. Durante a assembleia com os discípulos Judas Escariote oferece-se para ir a Jerusalém,  anunciar junto das tropa do rei Herodes a chegado do Messias, filho de Deus.

79. Jesus é preso e levado para Jerusalém.
À saída de Betânia Jesus vê Judas Escariote pendurado pelo pescoço na anunciada figueira.

80. Em Jerusalém, Jesus é levado à presença dos anciãos. Depois enviado ao palácio de Pilatos onde este procurador aguardava aquele que se dizia rei dos Judeus e atacado os cambistas às portas do templo finalmente para ser julgado


81. A assembleia, o julgamento, o diálogo do acusador e acusado.
O filho do Homem e rei dos Judeus como Jesus se apresenta

82. Pilatos dá a Jesus a escolha da sua morte.
Crucificado e pede um letreiro sobre a sua cabeça. Jesus de Nazaré Rei dos Judeus

83. A crucificação, retornar ao pai José crucificado em Séforis.
Pendurado na cruz. Os céus abrem-se e Deus aparece.
E pela terra dá a sua voz ao filho Jesus.

84. Jesus nascido para morrer e o rio de sangue que percorrerá a terra em seu nome.

85. Num assomo de vida última Jesus vê um homem e a tigela negra a seus pés recolhendo o sangue. 

Luis Pastor "Con Saramago en la voz" - entrevista à Revista Ñ Clarín (Irene Amuchastegui 23/09/2015)


(Foto de Luis Pastor que acompanha a entrevista)

A entrevista pode ser consultada aqui, 

De Irene Amuchastegui, 23/09/2015

"En su comentario para el álbum En esta esquina del tiempo , José Saramago compara la voz del español Luis Pastor, “áspera y al mismo tiempo suave”, con las de “los grandes trovadores del siglo pasado”. Y formula una invitación de la concisión más contundente: “Oigámoslo”. El disco reúne poemas del escritor portugués, musicalizados e interpretados por Pastor. El texto de presentación sentencia: “El tiempo cabe todo en la duración de un disco”. Este se publicó en edición bilingüe en 2006, en Europa, y acaba de aparecer en español en la Argentina, donde Luis Pastor nunca había actuado, hasta ahora. En su primera visita a Buenos Aires, también estrena su primer tango y su propia cuenta de Facebook. La cuenta acaba de crearla su hijo Pedro, también músico, en la computadora del lobby del hotel, y debuta en la red con un anacrónico: “Nos modernizamos”, lleno de irónico encanto para un cantautor de los de la vieja guardia. En cuanto al tango, “Uno de mayo”, es un poema de Luis García Montero, granadino de su misma generación, a quien conoció por un libro que le regaló Joaquín Sabina. “Me va a acompañar mi hijo, que toca mejor que yo. Yo no sé tocar un tango. Yo estoy en la frontera de todas las músicas: hago mornas de Cabo Verde sin haber estado allí, hago fados de Portugal y ahora he dejado fluir la copla, que está en mi origen, y de la que había escapado para convertirme en el cantautor que quería ser. Entre España, Cabo Verde y Lisboa, vienen y van las músicas que hago, Atlántico por medio. A veces, tocan también estas costas, porque más allá de todas mis influencias portuguesas y africanas, tengo algo muy latino. Cuando tenía 16, como era un ‘niño de copla’ que tenía que aprender a ser otro cantante, además de los nuestros, como Paco Ibáñez, o de los portugueses, como José Afonso, yo cantaba “A desalambrar” de Viglietti y escuchaba a Mercedes Sosa, a Atahualpa, a los grandes. Yo siempre he estado ahí”.

–Es curioso, entonces, que no hayas venido antes.
–Lo explica mi propia trayectoria: soy un cantautor que viene de una tradición de finales de los años 60 y de los 70, donde la canción no era una vía para volverse famoso, ganar dinero, dar “el salto”. He viajado sólo cuando me han llamado: a Nicaragua en los 80, con mi banda, a Chile, a Brasil… Pero nunca me había planteado hacer una gira. No soy ambicioso. Nunca me he fiado de oficinas ni representantes… Mi primer manager ha sido un cura obrero. El anti-manager. Por otro lado, en los 90 sentía que había mucha gente que me tenía que descubrir en España misma, porque las nuevas generaciones no se paraban a escuchar. El cantautor había quedado estigmatizado como un tipo aburrido, un matraquero, un panfletero… un coñazo.

–En “¿Qué fue de los cantautores?” hablás de aquellos que aún resisten “en sus trincheras”. ¿Recuperaron espacio?
–En la España de fines de los 70, el cantautor empieza a ser denostado, como un tipo que, muerto Franco, no tenía razón de ser. Yo lo sufrí en mi persona, cuando me retiré tres años en el 79 y volví en el 81 con disco nuevo: aquella misma gente que antes había hablado bien de mí en las radios y en los medios, de pronto me negaba el pan y la sal. Pero a mí me ha salvado que soy, sobre todo, un ser musical: más allá de toda mi historia política y de barrio, de trabajador, de obrero y de militante, fui un niño que a los 7 años cantaba a Joselito. Me transformé en el cantautor que quería ser y he persistido en ese camino. En los 90 hice la obra más bonita posible. Yo creo que ahí está por fin mi triunfo: haber aprendido con los años a contarme en canciones. Porque yo era un niño sin estudios. Fui un trabajador desde los 9 años, sólo estuve en la escuela 4 años.

–¿Te faltaban herramientas para lograr la expresión a la que aspirabas?
–No me faltaban porque descubrí a los poetas y fui a por ellos, buscando lo que yo quería decir y ellos decían mejor que yo. Me prohibieron el primer disco, cuando tenía 20 años: de once canciones, me prohibieron diez. Mi primer single fue “Con dos años”, de Miguel Hernández, y un poema de Pablo Neruda que se llamaba “La huelga” y para pasar la censura tuve que rebautizar “La huelga del ocio”. Claro, el hecho de musicar a grandes poetas a mí me puso el listón muy alto y me he exigido siempre cierto nivel en mis letras. La vida a veces es circular: en los últimos diez años, desde el disco de Saramago, siento que vuelvo al punto de partida. He vuelto a musicar poetas y escribo menos yo. Aunque las letras del último disco ( ¿Qué fue de los cantautores?) son todas mías y tengo otras cosas esperando por ahí, he vuelto a los poetas. Cuando terminé En esta esquina del tiempo me puse a leer a los poetas canarios y encontré todo un mundo. Luego, hace unos años fue el centenario del nacimiento de Miguel Hernández. Yo no lo leía desde el 79. Lo releí y descubrí a otro Miguel: cuando era joven, yo iba buscando la lucha, la cárcel, la guerra y ahora encontré a un Miguel pletórico de imágenes de una fuerza que ningún poeta ha sabido expresar. Miraba los versos y decía: esto es una copla, esto es flamenco… He musicado de una pegada veinte poemas y se los he regalado a Carmen Linares, la más grande cantaora de flamenco, que montó un espectáculo en el que la mitad del repertorio es ese. Al grupo Jarcha le di otros nueve poemas musicados de Miguel. Yo nunca los grabé, pero quiero hacerlo.

–¿Cómo surgió el proyecto de En esta esquina del tiempo?
–Con Saramago nos conocimos en un programa de televisión y quedamos amigos para siempre. Cada vez que íbamos a cantar a Lanzarote con Lourdes, mi mujer, lo visitábamos. Uno de esos días me ha regalado su poesía completa. Al despedirme le he dicho: “Te voy a musicar”. Y él me ha dicho: “A ver si es verdad”. Ahí arrancó todo. Cuando monté en el avión y vi esos poemas, que tienen 45 años, pues él no volvió a escribir poesía, sentí que me estaban esperando. Eran para mí. Al leerlos me parecía que ya la música estaba puesta. Ha surgido sin pretenderlo. Al llegar a casa, he compuesto 18 temas en tres días de una semana: lunes, miércoles y viernes.

–¿Cómo reaccionó Saramago al escuchar por primera vez el material?
–Estábamos en mi casa con José, Pilar del Río, Miguel Ríos y su mujer. Yo había grabado una maqueta en una hora. Nos sentamos a escuchar, pongo la primera canción y Miguel dice: “Qué bonita música”. La segunda y Miguel comenta: “Qué música más bonita”. Ya a la tercera, José le retruca: “Bueno, las letras tampoco están mal…”

–Volviste a trabajar sobre poemas de Saramago para una versión teatral de El viaje del elefante. ¿Cómo fue eso?
–Vino un director de teatro a pedirme que hiciera las músicas y las letras para esa obra. Y yo le he dicho: “No, Saramago apunta en sus poemas lo que luego desarrolla en sus novelas. Verás cómo para cada escena vamos a encontrar dos o tres poemas”. Y así fue. Es maravilloso el encuentro de una novela convertida en obra de teatro que a su vez se nutre de su poesía… José hubiera flipado."

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Nova edição espanhola de “O Evangelho segundo Jesus Cristo” com novo capítulo

(Apresentação da capa - nova edição)


Informação via Fundação José Saramago, aqui para consulta

"Nova edição espanhola de “O Evangelho segundo Jesus Cristo” com novo capítulo

A nova edição espanhola de O Evangelho segundo Jesus Cristo, agora com a chancela da Penguin Random House, publicada este mês de setembro, inclui um novo capítulo. Este texto foi originalmente publicado em O Caderno 2, na entrada do blog correspondente ao dia 24 de julho de 2009, com o título “Um capítulo para o Evangelho“, e começa assim:

De mim se há-de dizer que depois da morte de Jesus me arrependi do que chamavam os meus infames pecados de prostituta e me converti em penitente até ao fim da vida, e isso não é verdade. Subiram-me despida aos altares, coberta unicamente pela cabeleira que me desce até aos joelhos, com os seios murchos e a boca desdentada, e se é certo que os anos acabaram por ressequir a lisa tersura da minha pele, isso só sucedeu porque neste mundo nada pode prevalecer contra o tempo, não porque eu tivesse desprezado e ofendido o mesmo corpo que Jesus desejou e possuiu. Quem aquelas falsidades vier a dizer de mim nada sabe de amor."


Recuperação da continuação do post publicado no Livro/Blog "O Caderno 2"
Pode ser consultado aqui em http://caderno.josesaramago.org/53850.html
"Deixei de ser prostituta no dia em que Jesus entrou na minha casa trazendo-me a ferida do seu pé para que eu a curasse, mas dessas obras humanas a que chamam pecados de luxúria não teria eu que me arrepender se foi como prostituta que o meu amado me conheceu e, tendo provado o meu corpo e sabido de que vivia, não me virou as costas. Quando diante de todos os discípulos Jesus me beijava uma e muitas vezes, eles perguntaram-lhe porque me queria mais a mim que a eles, e Jesus respondeu: “A que se deve que eu não vos queira tanto como a ela?” Eles não souberam que dizer porque nunca seriam capazes de amar Jesus com o mesmo absoluto amor com que eu o amava. Depois de Lázaro ter morrido, o desgosto e a tristeza de Jesus foram tais que, uma noite, debaixo do lençol que tapava a nossa nudez, eu lhe disse: “Não posso alcançar-te onde estás porque te fechaste atrás de uma porta que não é para forças humanas”, e ele disse, queixa e gemido de animal que se escondeu para sofrer: “Ainda que não possas entrar, não te afastes de mim, tem-me sempre estendida a tua mão mesmo quando não puderes ver-me, se não o fizeres esquecer-me-ei da vida, ou ela me esquecerá”. E quando, alguns dias passados, Jesus foi reunir-se com os discípulos, eu, que caminhava a seu lado, disse-lhe: “Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti”, e ele respondeu: “Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos”. Amávamo-nos e dizíamos palavras como estas, não apenas por serem belas e verdadeiras, se é possível serem uma coisa e outra ao mesmo tempo, mas porque pressentíamos que o tempo das sombras estava a chegar e era preciso que começássemos a acostumar-nos, ainda juntos, à escuridão da ausência definitiva. Vi Jesus ressuscitado e no primeiro momento julguei que aquele homem era o cuidador do jardim onde o túmulo se encontrava, mas hoje sei que não o verei nunca dos altares onde me puseram, por mais altos que eles sejam, por mais perto do céu que alcancem, por mais adornados de flores e olorosos de perfumes. A morte não foi o que nos separou, separou-nos para todo o sempre a eternidade. Naquele tempo, abraçados um ao outro, unidas pelo espírito e pela carne as nossas bocas, nem Jesus era então o que dele se proclamava, nem eu era o que de mim se escarnecia. Jesus, comigo, não foi o Filho de Deus, e eu, com ele, não fui a prostituta Maria de Magdala, fomos unicamente aquele homem e esta mulher, ambos estremecidos de amor e a quem o mundo rodeava como um abutre babado de sangue. Disseram alguns que Jesus havia expulsado sete demónios das minha entranhas, mas também isso não é verdade. O que Jesus fez, sim, foi despertar os sete anjos que dentro da minha alma dormiam à espera que ele me viesse pedir socorro: “Ajuda-me”. Foram os anjos que lhe curaram o pé, eles foram os que me guiaram as mãos trementes e limparam o pus da ferida, foram os que me puseram nos lábios a pergunta sem a qual Jesus não poderia ajudar-me a mim: “Sabes quem eu sou, o que faço, de que vivo”, e ele respondeu: “Sei”, “Não tiveste que olhar e ficaste a saber tudo”, disse eu, e ele respondeu: “Não sei nada”, e eu insisti: “Que sou prostituta”, “Isso sei”, “Que me deito com homens por dinheiro”, “Sim”, “Então sabes tudo de mim” e ele, com voz tranquila, como a lisa superfície de um lago murmurando, disse: “Sei só isso”. Então, eu ainda ignorava que ele fosse o filho de Deus, nem sequer imaginava que Deus quisesse ter um filho, mas, nesse instante, com a luz deslumbrante do entendimento pelo espírito, percebi que somente um verdadeiro Filho do Homem poderia ter pronunciado aquelas três palavras simples: “Sei só isso”. Ficámos a olhar um para o outro, nem tínhamos dado por que os anjos se tinham retirado já, e a partir dessa hora, pela palavra e pelo silêncio, pela noite e pelo dia, pelo sol e pela lua, pela presença e pela ausência, comecei a dizer a Jesus quem eu era, e ainda me faltava muito para chegar ao fundo de mim mesma quando o mataram. Sou Maria de Magdala e amei. Não há mais nada para dizer."



segunda-feira, 28 de setembro de 2015

"Comunidade de Leitores sobre a obra de José Saramago" - Fundação José Saramago - Serviço Educativo 2015/16

A Fundação José Saramago apresentou o Programa "Serviço Educativo 2015/16"

O programa completo pode ser consultado aqui  

Damos especial destaque à "Comunidade de leitores sobre a obra de José Saramago" que tem como
orientadora da Comunidade, a Professora de Língua e Literatura Portuguesa, Maria Leiria

Preço: 15,00 € / mês (O preço inclui documentação da Comunidade. Os participantes poderão adquirir os livros com desconto de 20% na livraria da Fundação)
Informações e marcações pelo número

917 462 561 (Maria Leiria)
ou pelo e-mail marialeiria@gmail.com

Calendário das Sessões agendadas:

Sessões destinadas a um público mais familiarizado com a obra do autor.

Mês de outubro: As Intermitências da Morte
Dias: 8 e 29 (das 14h30 às 16.00 horas)
Sinopse da obra http://www.josesaramago.org/as-intermitencias-da-morte-2006/
(Imagem da borboleta, presenta em algumas capas da obra)


Mês de novembro: O Homem Duplicado
Dias: 5 e 26 (das 14h30 às 16.00 horas)
Sinopse da obra http://www.josesaramago.org/o-homem-duplicado-2002/
(Imagem do cartaz que apresentou o filme "Enemy" 
baseado na obra de Saramago)

Mês de dezembro: A Noite
Dias: 3 e 17 (das 14h30 às 16.00 horas)
Sinopse da obra http://www.josesaramago.org/a-noite-1979/
(Imagem da peça representada no teatro A Trindade)






domingo, 27 de setembro de 2015

Programa "Ler Mais, Ler Melhor" - "Memorial de Convento" livro da vida de Miguel Real


"Programa Ler Mais, Ler Melhor"
Livro da vida de Miguel Real "Memorial do Convento" de José Saramago (Editorial Caminho)

Pode ser visualizado, aqui via YouTube

"El voto en blanco" de Miguel Koleff publicado no HoyDía Córdoba (Argentina - 24/09/2015)

Baseado no romance de José Saramago "Ensaio sobre a Lucidez", e que pode ser consultado, aqui em http://www.hoydia.com.ar/magazine/9618-el-voto-en-blanco

«…que pesaba mucho más como ausencia» (Adriana Lisboa)
por Miguel Koleff
Especial para HDC

"Transitamos jornadas electorales, de modo que no viene nada mal pararnos un minuto para pensar en lo que realmente significa el derecho de votar. Nos han enseñado que a través del sufragio contribuimos –de manera soberana- a elegir nuestras autoridades. La ley nos impone esa obligación al tiempo que ratifica un derecho. Es cierto que también prevé la posibilidad de introducir un sobre vacío si no nos identificamos con los partidos en pugna. Sin embargo el voto en blanco –de él estamos hablando- no goza de mucha simpatía en general. Incluso, se lo homologa a una falta de coraje ciudadano. Si uno confiesa abiertamente esa opción, a la salida de un comicio, puede ser tildado de irresponsable y genuflexo cuando no de traidor y poco comprometido con las instituciones. Pesa un mal irremediable sobre este ejercicio de libertad que es tan lícito como el voto efectivo. Saramago no se salvó de ese estigma cuando en el año 2004 publicó “Ensayo sobre la lucidez” y llevó el tópico a la ficción, ya que los medios oficiales de entonces –envalentonados como estaban contra su persona- rápidamente lo fustigaron acusándolo de anarquista, antidemócrata, e instigador de actos de rebelión al orden constitucional.  Nada más desacertado que todo eso. La sutil ironía saramaguiana pasaba y pasa todavía, por un costado ignorado que es difícil de asumir con idoneidad: la capacidad de decir «no» a un orden de cosas que conspira contra los propios principios.

La novela en cuestión se concentra en las elecciones municipales de una capital en la que la mayoría de los habitantes se inclina por el voto en blanco, superando el 73% en la primera vuelta y el 80% en la segunda. Son circunstancias imprevistas ante las cuales el poder de turno se rinde por el atenazamiento de la gobernabilidad puesta en discusión. Ahora bien, antes de hipotetizar sobre el curso de los acontecimientos narrativos, es oportuno preguntarse qué pasa en realidad cuando se apela a ese recurso en una convocatoria cívica en lugar de escoger la abstención. O sea, ¿qué se quiere expresar en ese acto? Por lo pronto, un rechazo voluntario a una o a más opciones que se presentan y que no se adecuan ni al pensamiento ni a la ideología ni tampoco a la escala de valores y credibilidad de quien lo hace carne. Hay que decir –en este sentido-  que, a través de esa acción, el votante  está sincerando un punto de vista y actuando en consecuencia. Está también cumpliendo un deber cívico y ejerciendo el derecho que le es concomitante. Algo muy distinto de lo que supone negarse a votar, ignorar los comicios o anular un voto manipulando contra él. 

Si nos tomáramos un poquito de tiempo y analizáramos esta cuestión con diligencia veríamos que la opción traída a colación no es desdeñable, pero para ello hay que desnaturalizar el sesgo de tibieza que se le imprime y, sobre todo, arremeter contra su destino de ignominia. Lo podemos hacer, extrapolando los contextos y considerando una situación diferente de la electoral. Por ejemplo, es un buen recurso para sentar nuestra perspectiva y hacerlo sin violencia manifiesta cuando nos sentimos ninguneados: se está por cortar una torta a la que tenemos derecho pero no fuimos invitados al ágape. En lugar de reclamar, hipostasiar, juzgar o estereotipar al enemigo, podemos «votar en blanco», esto es, no asentir con el procedimiento de exclusión y hacerlo saber, sin propiciar una desbandada. La declaración de ausencia vale por lo que pesa y evita la indigestión. La metáfora del color blanco –sin que implique la idea de rendición a la que se suele asociar- tiene alguna fuerza expeditiva en este marco. No ofende ni afrenta abiertamente, pero protege y efectiviza de manera explícita el desacuerdo. Nos hace saber a nosotros y también a nuestros interlocutores que el juego se está realizando por fuera del tablero y que las posiciones están lejos de llegar a un consenso. Puede tener efectos inmediatos o no pero a la larga instalan legitimidad por la omisión. Es un vacío que llena fácilmente las entrelíneas. 

Una lectura más profunda del texto de Saramago permite avanzar en esta dirección al remarcar –en todo momento- la responsabilidad del acto, en primer lugar, y la autodeterminación, en segunda instancia. Viendo las cosas desde este prisma hasta puede tratarse de una acción noble y digna de alguien que sabe lo que está haciendo y por qué lo hace, diferente de aquella dictada por el oportunismo político de ocasión. No estamos obligados de manera ninguna a comulgar con proyectos que nos resultan ajenos e incluso atentatorios a nuestra identidad cívica.

Por el contrario, tan responsable y vehemente puede ser el acto de votar en blanco en una elección o en otra situación particular de la vida, que despierta la intolerancia acallada de muchos co-partícipes. Y si no, veamos lo que pasa en la novela de Saramago. en la que el gobierno opta por acusar a la población de practicar un crimen contra la democracia en lugar de hacer un examen de consciencia sobre las eventuales causas que llevaron a esa situación. Y –además- le hace pagar caro el error, imputándole responsabilidades que le exceden. El atentado terrorista auto-gestado en la estación de metro a raíz de una bomba colocada en las inmediaciones es una muestra. Y la elección de un chivo expiatorio, el pathos que lo demuestra, ya que sin la construcción de un culpable es imposible garantizar el orden y restituir el control. Por este motivo, la «mujer del médico» es elegida como carnada y víctima propiciatoria, acusada de ser la líder intelectual de la revuelta cívica. Este personaje, recuperado de una novela anterior (“Ensayo sobre la ceguera”, 1995) no padeció la ceguera blanca que infligió a todos los habitantes de la misma ciudad cuatro años antes de estos sucesos. La identidad  del color –de la ceguera y de los votos- funciona como una buena coartada para hacer justicia por manos propias. El juego saramaguiano, como vemos, se direcciona hacia una fórmula que invierte el sentido común: 

«El voto en blanco es una manifestación de ceguera tan destructiva como la otra, O de lucidez, dijo el ministro de justicia, Qué, preguntó el ministro del interior, que creyó haber oído mal, Dije que el voto en blanco puede ser apreciado como una manifestación de lucidez por parte de quien lo usó». (Saramago, 2004, p. 172) 

Aun puesta en boca de un personaje secundario, la alocución del ministro de justicia dice mucho más de lo que sus detractores quieren que diga. Y el autor portugués se encarga de ratificar estas palabras al afirmar el poder de pronunciamiento del colectivo a través de su lábil gesto de resistencia." 

"Fuentes Consultadas:  
Saramago, J. (2004) 
Ensaio sobre a lucidez. São Paulo: Companhia das Letras. 
Traducción al español de Alfaguara."

"Viagem Literária" - Pilar del Río e José Luís Peixoto em Évora (18/10/2015)


Para anotar na agenda:
No dia 18 de outubro, Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago, 
e o escritor José Luís Peixoto participarão de uma conversa em Évora, 
em mais uma sessão das "viagens literárias" promovidas pela Porto Editora.

"É preciso recomeçar a viagem. Sempre.". 
À boleia das palavras de José Saramago, a Viagem Literária não pára e segue para Évora. 
A próxima sessão junta José Luís Peixoto e Pilar del Río, 
no Palácio D.Manuel, no dia 18 de outubro.
Contamos convosco?

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