Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Pilar del Río narradora em "La flor más grande del mundo" - Musicado por Emilio Aragón (6/11/2004)


Emilio Aragón le puso música al cuento de José Saramago "La flor más grande del mundo". 
Teatro Real de Madrid, 6 de noviembre 2004
Música: Emilio Aragón
Texto: José Saramago
Orquesta: Escuela de la Orquesta Sinfónica de Madrid
Narradora: Pilar del Rio

Crónica "O factor Deus" - Publicado nos jornais, "Público" e "El País" (18/09/2001)

Publicado nos jornais, "Público" e "El País", em 18 de Setembro de 2001

Aqui, http://www.publico.pt/destaque/jornal/o-factor-deus-161912


"O factor Deus"

"Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova Iorque. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante de tortura, da agónica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova Iorque tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefacção para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdómen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietname cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atómicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazis a vomitar cinzas, daqueles camiões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os taliban, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactado entre a Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da História. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "factor Deus", esse, está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "factor Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "factor Deus" em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "factor Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "factor Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se."

Saramago em Castril - fala de política, de Cuba, e os apelos aos estudantes presentes (24/04/2003)

Crónica no "El País", de Jesus Arias
Castril, 24 de Abril de 2003

"Saramago habla en Castril con más de 300 niños de política y letras"

Aqui, link recuperado no site do jornal "El País",
em, http://elpais.com/diario/2003/04/24/andalucia/1051136560_850215.html



"Dudo mucho que al sistema en que vivimos se le pueda llamar democracia". Así de tajante se mostró ayer el Premio Nobel de Literatura José Saramago durante la presentación del centro cultural que llevará su nombre en el pueblo granadino de Castril de la Peña, a 150 kilómetros de la capital. "No es democracia una situación en la que el poder real, que son las industrias y las multinacionales, prima sobre el poder político", señaló. Saramago también volvió a pronunciarse sobre la situación en Cuba tras la ejecución de tres personas. "No soy yo quien se ha distanciado de la revolución cubana", señaló, "sino ella la que se ha distanciado de sí misma".

José Saramago protagonizó en la mañana de ayer un curioso acto antes de visitar por la tarde la que será sede provisional del centro cultural del pueblo, un proyecto que realizará el arquitecto portugués Álvaro Siza. El escritor se desplazó hasta un colegio público y, en el patio de recreo, se expuso a las preguntas de más de 300 niños de entre cinco y trece años. "El mundo está enfermo hoy", les dijo, "con las guerras y con todo sucede. Será gracias a vosotros si en el futuro el mundo es un poco mejor". El autor de La balsa de piedra, hijo predilecto de Castril desde hace unos años, manifestó que para él era "un grandísimo honor" que el pueblo haya planeado construir un centro cultural con su nombre. Por ahora, en tanto se completa el proyecto de Álvaro Siza, la sede estará en el teatro y en la biblioteca municipal. El alcalde del pueblo, el socialista José Juan Mar, explicó que el centro albergará en el futuro diferentes exposiciones, tendrá talleres para niños, y servirá también para proyectar películas y hacer montajes teatrales. El proyecto definitivo estará concluido en dos años.

El día de ayer fue casi festivo para Castril. Todos los niños del pueblo y anejos del municipio se concentraron en el patio del colegio público Nuestra Señora del Rosario para escuchar las respuestas de Saramago a sus preguntas. "Tenéis que leer mucho, muchísimo. Para llegar a escribir bien es necesario que antes leáis todo lo que podáis". Militante radical por los derechos humanos, Saramago expuso su cruda visión de la realidad actual en el mundo desarrollado. A preguntas de un grupo de periodistas, manifestó: "Dicen que ha terminado la guerra, pero en mi opinión hay dos batallas que deben mantenerse siempre: la de la democracia y la de los derechos humanos. Sin democracia, no hay derechos humanos. Y sin derechos humanos, no hay democracia". "No es democracia una situación en la que el poder real, que son las industrias y las multinacionales, prima sobre el poder político". También criticó duramente al presidente del Gobierno, José María Aznar. "Ahora dice que han ganado la guerra. ¿Cómo se gana una guerra sin haber participado en ella?", se preguntó.

Citador #22 ... ter esperança ou impaciência?

Citador #22
"Caderno"
Caminho, 2.ª edição
Páginas 43 e 44
"Esperanças e utopias", dia 30 de Setembro de 2008

"Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias."

"História do Cerco de Lisboa" na visão do escritor Edmund White - The New York Times (13/07/1997)

Edmund White, escritor norte-americano, publicou a crítica literária, à tradução da obra "História do Cerco de Lisboa", sob o título "O revisor subversivo", alusão directa a Raimundo Silva.
Este aparece mencionado como "um humilde empregado de escritório celibatário, discreto e indeciso, neste caso um revisor que um dia quebra todas as regras da sua profissão e comete um lunático acto criativo".
João Céu e Silva, faz alusão a esta informação, em "Uma longa viagem com José Saramago" - Porto Editora, página 111. 


Aqui, via Wikipédia, link para consulta dos dados do referido escritor, 
em, http://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_White
"Edmund Valentine White III (13 de Janeiro de 1940) é um romancista, escritor de contos e crítico literário, nascido em Cincinnati, Ohio, nos Estados Unidos da América.
A sua obra mais conhecida é, provavelmente, A vida privada de um rapaz, o primeiro volume de uma trilogia autobiográfica que tem continuação com Um belo quarto vazio e Sinfonia a despedida."

Aqui link, directo para consulta do artigo, na página do "The New York Times",


"The Subversive Proofreader", by Edmund White

The story of a humble clerk who decides to rewrite Portuguese history
"The History of the Siege of Lisbon", by Jose Saramago
Translated by Giovanni Pontiero. 314 pp. 
New York: Harcourt Brace & Company


"Like his near contemporaries Franz Kafka and Constantine Cavafy, Fernando Pessoa (1888-1935) was a writer and a clerk, but he encapsulated many different literary personalities. He lived in Lisbon most of his adult life, though he'd been brought up in Durban, South Africa, and his first poems were in English. Pessoa made his living by translating business letters into Portuguese, but in his spare time he wrote poems and prose pieces under many different names and in many styles. For instance, his most famous prose work, ''The Book of Disquiet,'' was written under the name Bernardo Soares.

Although Pessoa is mentioned only once in ''The History of the Siege of Lisbon,'' by Jose Saramago, he is present everywhere in this cryptic, ingenious novel (now translated by Giovanni Pontiero). Here is the single direct reference: ''Raimundo Silva thought to himself, in the manner of Fernando Pessoa, If I smoked, I should now light a cigarette, watching the river, thinking how vague and uncertain everything is, but, not smoking, I should simply think that everything is truly uncertain and vague, without a cigarette, even though the cigarette, were I to smoke it, would in itself express the uncertainty and vagueness of things, like smoke itself, were I to smoke.'' (It should be pointed out that Pessoa smoked 80 cigarettes a day.)

The serpentine whimsicality of this passage establishes the link between Saramago and Pessoa (Saramago's novel ''The Year of the Death of Ricardo Reis'' is named after another one of Pessoa's literary ''heteronyms''; the hero of this earlier novel takes long walks and talks to the dead Pessoa). Like Bernardo Soares, like Pessoa himself, Raimundo Silva is a humble, celibate clerk, described as withdrawn, indecisive, in this case a proofreader who one day breaks with all the rules of his profession and commits a lunatic creative act. While correcting the proofs of a standard history of Portugal, he inserts a single word, ''not,'' which totally derails the national saga. As amended by Silva, the text now reads that the crusaders did not come to the aid of the 12th-century Portuguese King who was laying siege to Lisbon, aiming to expel the Moors from the kingdom.

Only 12 days later does his publishing house discover this grave folly. Now the editors above him no longer trust him, but out of consideration for his many years of faithful service, they decide to give him another chance. And his new boss, Maria Sara, who is in charge of all proofreaders, indicates she is fascinated by his subversiveness. Indeed, she even suggests that he write a new history of Portugal based on the false supposition that all but a few crusaders refused to help the King, who was now outnumbered by the Moors, though still capable of laying siege to the city and starving his enemies into submission."

(Pintura de Alfredo Roque Gameiro, "A Conquista de Lisboa", 1917)


"Raimundo Silva is haunted by her suggestion -- and by her. He writes the new, fictitious history while keeping up his proofreading. And he indulges his obsession with Maria Sara night and day. Saramago's text becomes an ever-shifting blend of straightforward narrative about Silva and Maria Sara in the present, passages from Silva's fanciful history of the past, and Silva's thoughts, which seamlessly slide between present and past, reality and fiction, between himself and Maria Sara and their counterparts in the 12th century, a Portuguese hero, Mogueime, and a concubine, Ouroana. We deduce that the fertility of Silva's historical imagination is prefigured by his long-dormant but now fully awakened feelings for a woman. He writes the happy ending that he and his lover are about to experience.

I found the verbal pierce and parry of the two proofreaders' courtship the most persuasive and vivid aspect of the novel. Saramago has a sure sense of the pleasurable danger of seduction, the fear of offending, the wild hope of wooing, and he renders the lovers' dialogue in long, virtually unpunctuated paragraphs (in which the reader is often not certain who is speaking) that superbly reproduce the delirium of desire: ''My problem in this situation is to know whether I should have blushed before or if I should be blushing now, I can recall having seen you blush once, When, When I touched the rose in your office, Women blush more easily than men, we're the weaker sex, Both sexes are weak, I was also blushing, How come you know so much about the weakness of the sexes, I know my own weakness, and something about the weakness of others.''

The rest of the writing can sometimes seem to be nothing but digressions, although the author scatters plenty of clues that he fully intends his periphrases and divagations. At some point he tells us that a story can be 10 words long or 100 or 100,000 -- that every story, in fact, is infinitely extensible. He jokingly refers to his own long-windedness -- which differs from real pomposity in that it is never dull or humorless.

If Pessoa provides Saramago with the ur-example in Portuguese of heteronymic writing (the assumption of one mask after another), then the blending of past and present and of Islam and Roman Catholicism can be traced to the influence of another living Iberian modernist, Juan Goytisolo, Spain's greatest avant-garde novelist. In book after book (''Marks of Identity,'' ''Landscapes After the Battle'') Goytisolo has played with time and imagined a Europe that embraced rather than rejected its Muslim heritage. Saramago is more a game player than Goytisolo, closer than he to the intertextual vivacity of the Borges of ''Pierre Menard,'' a story about a 20th-century dandy who reinvents ''Don Quixote,'' much as Silva has reinvented the founding myth of Portugal. Word has it that Saramago is overdue for a Nobel Prize; no candidate has a better claim to lasting recognition than this novelist who was born in 1922 but was in his mid-50's before he began to publish the fiction that has won him an international reputation."

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Carta ao "Pai Natal", digo e corrijo, a José Saramago

Carta ao "Pai Natal", a José Saramago

Escrevo-te, e desculpas antecipadas, prestadas pelo tom directo com que me dirijo, mas assim fica mais fácil de me fazer entender, e estando o ano de 2014 nos seus últimos dias, gostava de te deixar algumas perguntas.

Bem sabes, que à "força", os "grandes" gostam de incentivar os "pequenos", em casa ou nas escolas, a escrever cartas ao "Pai Natal da Coca-cola", para que peçam as prendas, os seus desejos e sonhos que só as crianças sabem ter. Elas, a criançada, contrapõem estes pedidos com inocentes e auto-elogiosos discursos de bom comportamento e vontades, geralmente, em tom de duvidosa certeza, para que possam, enfim, justificar uma carrada de presentes. Nestas alturas, os mais irrequietos, julgam-se uns santos apaziguadores, e os mais disciplinados, esses pois, levam pela mesma bitola do escrutínio do elogio dos anteriores.
Só quem não foi criança. não pode alcançar a ilusão destes pecados.

Assim, e em estilo de intróito justificativo, escrevo esta missiva, para que, de alguma forma, e tendo este ano a quem escrever, o meu destinatário possa aclarar esta mente inquieta e ávida de respostas, ou, talvez com um pouco de sorte, me agracie com novas perguntas.

Bem saberás, que sou empiricamente contra a saga do "Pai Natal da Coca-cola", esta figura criada,  e dotada de um poder inebriante junto das pessoas. Não raras vezes, se deve ouvir perguntar, em que parte da fábula do natal, entra o "velho das barbas". Ou, se, ele entra em cena, com os "três reis magos", ou, se é actor de outra versão do espírito natalício.

Por isto, e mais algumas coisas, que bem sabemos, segue esta carta para alguém como tu, tem a capacidade de dar respostas diferentes a perguntas, de tão antigas que são, e de tão gastas respostas dadas, que as mesmas perguntas continuam sem solucionar os respectivos enigmas. Parece-me, mas confesso, que sou bastante distraído, que a mesma pergunta feita durante tanto tempo, à qual as respostas também são sempre as mesmas, criam a alegoria da verdade ilusória. O problema manter-se-á, com base na resposta dada como adquirida e não questionada. Em outro paralelo, posso colocar-te isto, como a rábula da «mentira dita muitas vezes que se torna numa outra verdade».
Daí que, admiro as pessoas, que muitas das vezes não sendo iluminadas, têm o desprendimento de espírito suficiente, que lhes permita fazer perguntas diferentes ou inéditas.
As minhas dúvidas, as minhas questões, as incertezas, os medos, tudo isto e mais algumas outras coisas, têm sido, como que, o meu privilégio surreal de me manter desassossegado e inquieto, como tu bem gostavas que o mundo assim se sentisse.

Ontem, em Pashawar, no Paquistão, 141 pessoas foram executadas por um suposto comando Talibã. Destas pessoas executadas, porque não há outra forma de o expressar, a quase totalidade eram crianças. O massacre deu-se numa escola. Pelo número de mortos, a quantidade de feridos deve ter sido assustadora.
O "contador" da humanidade, fez um sonoro "plim", e deu o desconto destes mortos.
Isto, foi notícia ontem, dia 16/12/2014.
Como sabes, os meios de comunicação social dão destaque a estas atrocidades. As manchetes destes casos continuam a vender. Quanto mais sangue e corpos estropiados à hora dos telejornais, melhor. E quando acontece, as famílias reunidas à frente da televisão a jantar, têm a mesma reacção que se tem a ver um filme Hollywood. Impávidos e serenos.
As várias notícias sobre este assunto, fez a contagem, mostrou sangue e mortos, homens a carregar em braços, crianças estropiadas. Mas, e um mas, muito firme, não houve uma reportagem que perguntasse - Porque? Ou, o que é realmente necessário para que isto não aconteça, nunca mais?
As notícias de hoje, anunciam retaliações do governo paquistanês. Volta a pena de morte. Olho por olho, dente por dente.

No dia anterior, em Sidney, Austrália, aconteceu um sequestro num café. Um suposto religioso muçulmano, barricou-se dentro do estabelecimento, com uma carrada de pessoas reféns, e no final o mais que previsível banho de sangue. 3 mortos e alguns feridos.
Aqui, o "contador" da humanidade, fez outro "plim", e deu o devido desconto.
Não há outra forma de o dizer.
Parece que nestes assuntos, há os executados, as vítimas, e os outros que vão escapando até subir de nível, até serem abatidos.
Ahh, já me esquecia! Tens razão, a pergunta.
Quando, ou melhor, como será possível que deixem de existir mortos em nome de um qualquer deus?
Porque, ao que parece, em pleno século XXI, ainda subsistem alguns deuses, como se de partidos políticos diferentes se tratasse, em que se apresentam pelos seus interpostos fiéis, capazes (estes) de efectuar massacres e execuções, num sinal atroz de poder. Aconteça isto em zonas de guerra, ou num café de uma cidade em paz. 
O que poderá ser feito, para que as guerras religiosas acabem? Estas e as outras, é claro!
Será que a tua obra "In Nomine Dei", se perpetuará para sempre?
De outro lado, numa outra latitude, no Vaticano, o Papa Francisco sopra as velas do bolo de aniversário. Ao todo são 78 anos. Houve festa e tango vindo da Argentina. Orações e afins.

Mudemos de assunto, agora para questões terrenas. Não seriam as outras, também terrenas?
Levo-te até à Califórnia. Estados Unidos da América. Sim, a terra de G.W.Bush, aquele presidente a que dedicaste, no "Caderno", a 18 de Setembro de 2008, uma inserção a que deste o nome de "George Bush, ou a idade da mentira".
É também neste país, que tem como presidente Barack Obama, prémio Nobel da Paz, do ano 2009. Nesse ano, a Academia Sueca fez a seguinte menção na entrega - "for his extraordinary efforts to strengthen international diplomacy and cooperation between peoples". Pasme-se.
O que na altura não entendi, e continuo a não perceber, quais são préstimos à causa da paz que Obama realizou, ou será, que bastou a eloquência ou argumentária dos discursos que efectuou? 
Desculpa-me a franqueza, mas neste capítulo, o do prémio Nobel da Paz, a Academia Sueca deixa muito a desejar. Colocar Obama, com o mesmo título, que Mandela, Dalai Lama, Martin Luther King e mais alguns receberam, é uma afronta.
Continuando. 
Um dos itens que redigiste na "Declaração de Princípios", datada de 29 de Junho de 2007, aquando da instituição da Fundação José Saramago, e passo a citar, é que «mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo».
Vi a notícia da seca brutal, que dura há mais de 3 anos na Califórnia, e recordo-me logo, das tuas intervenções e preocupações, com o meio ambiente, a forma como os seus recursos são espoliados numa sangria desenfreada, afectando, ainda não sabemos como, as futuras gerações, tanto ao nível das alterações climáticas que se agravam a olhos vistos, como, ao nível da disponibilidade efectiva de recursos num futuro próximo.
A água, será, dizem os entendidos, muitas vezes apelidados de catastrofistas e loucos, o "ouro" das próximas décadas. Os povos do sul, tenderão a sofrer com as secas e avanço de terras desérticas, algumas florestas densas, serão cada vez mais confinadas a pequenos santuários de terras.
A noticia da seca na Califórnia, que dura há muito tempo, e com danos irreversíveis em algumas áreas, vem agora à luz do dia, porque a NASA apurou serem necessários 42 quilómetros cúbicos de água para inverter a situação. Este estado tem 38 milhões de habitantes, e estão a serem impostas multas e leis rígidas, para disciplinar/racionar o uso da água. Parece que, por lá, também se ataca a raiz dos problemas, pelo lado errado da questão.
A minha pergunta, que aqui te deixo, à qual não tenho resposta, é muito simples. Talvez, até um pequeno rapaz de tenra idade, a possa formular melhor do que eu. Porém, como é que o país supostamente, mais industrializado do mundo, talvez, o mais evoluído cientificamente; o que detém mais ilustres cientistas e investigadores galardoados com os mais prestigiados prémios; o país com mais recursos económicos, e que, cuja moeda pode ser impressa e inundar os mercados financeiros a seu belo prazer; ou, para não mencionar, o poderio militar, a indústria que o suporta, as guerras em que intervém/patrocina, ou sim, mencionar, o orçamento da Defesa, que tem tantos zeros à direita do algarismo, que torna a soma um buraco negro de recursos, dizia eu, antes de me perder, pergunto eu, como é possível, um país dotado de atributos mil, não ter conseguido inverter o desastre que assola o estado da Califórnia?
Ou, será que este assunto, a demonstração do inevitável rumo que a humanidade está a tomar, alegremente vivendo e consumindo, sob a forma de crédito da natureza, e que será pago, sabe-se lá com que custos e "apocalipses" pelas próximas gerações. Quiçá, os filhos dos nossos filhos, amanhã, muito lamentarão o tamanho egoísmo dos seus avós, homens e mulheres que somos hoje.
Será, que toda a tecnologia existente, ainda assim, neste actual elevadíssimo patamar de desenvolvimento e conhecimento, é incapaz de conseguir inverter e diminuir os impactos ambientais severos, provocados pela seca extrema?
Será que, num futuro poderemos assistir a colonização de outros planetas, sem que este, esteja devidamente curado dos males, que agora, são perceptíveis de padecer?
Sei que não gostas das utopias, consideravas as ideias utópicas, como exercícios de pensamento, algo desnecessários. O que hoje, pode ser considerado como um pensamento ou ideia para a humanidade, daqui a uns quantos séculos, nesse mesmo futuro, quando o presente se tiver tornado, poderiam as tais ideias serem consideradas absurdas ou irrealistas. Gosto da tua ideia, desmistificando o peso da utopia, em que o bem a ser praticado - deve ser para agora, já, para estes homens e mulheres.
Não sendo uma pergunta, concreta, mas um enorme ponto de interrogação, talvez do tamanho deste planeta e da lua, que a nós anda atracada; será que os Estados Unidos da América, nação de tal poder, permite que tal desgraça se manifeste de forma irreversível, no seu próprio território, num estado onde vivem mais de 38 milhões de habitantes, sem que o consigam resolver/reparar? Então, outra questão se levanta. O que será que está a passar no coração de África, onde os holofotes das notícias estão apontados para as pestes e epidemias, mas não sintonizam a devastação que por lá existe? Ou, o estado em que o desflorestação do chamado "pulmão verde do planeta", deixou a floresta Amazónica? Ou, pior ainda, a tentativa que as grandes petrolíferas fazem para avançar com a exploração do petróleo, no polo norte?
Estaremos nós, população mundial, directa e indirectamente a criar condições para o seu próprio extermínio?  
Será que, aquilo que é considerado hoje, de ficção científica, se confundirá com a realidade de um amanhã próximo? Isto, tal como aconteceu no passado, com a ideia herege do padre Bartolomeu de Gusmão, ao criar a "passarola", qual máquina ilusória que colocaria os homens a voar sem que tivessem as asas de Ícaro, quando hoje, a aviação civil é tão banal como andar de bicicleta.

Peço desculpa pelo incómodo, e pelo tempo que te tomo, mas há coisas que me fazem confusão, e as respostas às coisas que me fazem a dita confusão, são tão estranhas como as mesmas perguntas que as antecedem.

Dei por mim, lendo uma notícia, daquelas habituais dos fins de ano, onde se fazem a contabilização de tudo e de nada. Desta feita, o "monstro da espionagem universal", digo, a ferramenta de pesquisa "Google", elencou os termos mais pesquisados a nível mundial, e local, de alguns países. Portugal, também teve à sua lista, ao modo "os 10 mais pesquisados". Então, para nossa satisfação, em 2014 o "Campeonato do Mundo de Futebol", o reality show "Secret Story 5", e a morte do actor "Rodrigo Menezes", foram os três assuntos mais pesquisados. Da lista restante, fica para a história do nosso país, o "blog azul", "NOS", "Novo Banco", "Legionella", "telexfree", IPhone 6" e por fim, a morte do actor "Robin Willians".
Vi a notícia, e... deixa estar, pelos termos pesquisados, não sei que pergunta te posso fazer, a ti que colocaste uma Joana Carda a riscar o chão, o cão das lágrimas a afagar o rosto da mulher do médico, tu que deste corpo a Ricardo Reis, puseste a morte numa posição desconfortável quando se apaixonou por um mero violoncelista, ou chamaste à terra o oleiro Cipriano Algor, os Mau-Tempo, enfim... tantos deles...
Perante isto, que te poderei perguntar?

Meu amigo, José
Meu amigo José, envio-te esta carta, porque ando preocupado.
Ando inquieto com este mundo, desassossegado com tantas questões, e não sei mais o quê, e o que pense destes nossos dias.

José, envio-te esta carta, porque tenho saudades tuas.

Miguel de Azevedo
17 de Dezembro de 2014

"O conto da Ilha Desconhecida" ou a arte de nos encontrarmos

"O conto da Ilha Desconhecida"

(ilustração de Bartolomeu dos Santos)

... um rei que não gostava de ser incomodado
... um reino muito burocrata
... o homem que queria um barco
... a mulher da limpeza que tudo decidia
... a porta dos obséquios e a das decisões
... o sonho
... o amor

"Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós,
Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer..."
(em, "O conto da Ilha Desconhecida, Caminho - 4.ª edição, pág 31)


«O que é um ser humano?» ou a grande interrogação ... conseguirá ser explicado?

(imagem do filme, Blindness de Fernando Meirelles)


(...) "Nos seus primeiros livros há personagens típicos de uma época mas actualmente confrontamo-nos com novos protagonistas. Como é quando está a criar os personagens, fica preocupado com a actualidade do que está a escrever?"

Nada! Nada preocupado. Eu só posso escrever sobre aquilo que conheço. Eu não posso pôr como personagem um capitalista, não sei como é um capitalista e não saberia pô-lo a viver, a falar ou a sentir. Portanto, não haverá nunca um capitalista num romance meu! De certa maneira o meu trabalho pode dividir-se em duas fases, a que começa com o Manual de Pintura e Caligrafia e vai até ao Evangelho e aí acaba um período. Com o Ensaio sobre a Cegueira começa outro período. O que é que distingue um do outro? Numa conferência que dei na universidade de Turim tentei explicar isso através da metáfora da estátua e da pedra, onde eu dizia que a estátua é a superfície da pedra. Portanto, é como se eu até ao Evangelho estivesse a descrever estátua, quer dizer a superfície da pedra, e que a partir do Ensaio sobre Cegueira tivesse sabido passar para o interior da pedra. Isto como metáfora de que passou a preocupar-me mais o ser humano e a interrogação «O que é um ser humano?». Ainda há pouco estava a falar do hidrogénio, que é uma resposta e que pode ser essa, mas também somos inteligência e sensibilidade. A matéria que se organiza e se organizou de forma que nos fez como somos, e não se tratou apenas de transformações na ordem do físico mas também na ordem do mental, do desenvolvimento psíquico, da capacidade de sentir, de associar não apenas ideias mas também sensações, imaginações e tudo o mais. Isso é a criação do homem, não foi Deus quem criou o ser humano mas foi o ser humano que se criou a si mesmo, fizemo-nos. A grande maravilha do ser humano é exactamente essa, fez-se a si próprio." (...)

em, ""Uma longa viagem com José Saramago"
de João Céu e Silva
Porto Editora, página 123


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A mitologia grega dos "Cães de Cèrbero" e o professor Ismael Gonçalves

Ismael Gonçalves, antigo padre, tornado professor de português na Escola Secundária de Mafra, foi um incansável lutador, naquilo que considerava, isto na década de 80, a obrigação do reconhecimento da vila de Mafra ao escritor José Saramago, este, que tendo publicado o "Memorial do Convento", teria colocado o nome da vila, num alto patamar de reconhecimento nacional e internacional. 
Este professor de português, que leccionava o "Memorial do Convento", aos seus alunos do 12.º ano de escolaridade, com base nos seus apontamentos e auxiliares educativos, compilados ao longo dos anos, realizou em 2005, a publicação dos seus rascunhos. Este livro, terá feito parte da exposição "A Consistência dos Sonhos".
Estes dados, que me eram, em parte conhecidos, são esplendidamente anotados e identificados por João Céu e Silva, no seu livro "Uma longa viagem com José Saramago" - (Porto Editora, páginas 184 a 189).
Aqui, é também retratada, a censura que o presidente da Câmara de Mafra, Dr. Ministro dos Santos, exerceu sobre a atribuição da Medalha de Mérito da cidade, a José Saramago. Terá ficado para a história a célebre frase, «enquanto eu for presidente Saramago nunca receberia a medalha». Fica também, a menção ao secretário de estado da Cultura, Dr. Guilherme d' Oliveira Martins, a fundamentar um despacho para a atribuição do nome do escritor à Escola Secundária.
Politiquices e caciques, sempre nortearam os desmandos deste país.
Porém, e o que aqui trago, para enquadrar a pessoa, Ismael Gonçalves, será a sua curiosidade e admiração por José Saramago, onde tem estas elogiosas palavras:
«Eu interrogo-me sempre como é que um homem que não tem formação universitária veio a ganhar a vastidão de cultura que manifesta nos seus romances, inclusive de cultura clássica! Conhece os gregos como ainda confirmei logo na primeira página de "A Jangada de Pedra", quando fala do cão Cerbero, da Eneida de Vergílio, Conhece e cita latim nas suas obras com grande rigor, nunca se encontra um erro.»

O mesmo, aqui demonstro, como é possível acumular, vasto e diverso conhecimento, para além da capacidade de o interpretar e questionar, quando assim achou necessário.
Aqui fica a menção aos Cães de Cèrbero. 


"Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se. Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda, embora, por obra e fortuna daquele conhecido jogo de ouvir o conto e repeti-lo com vírgula nova, usassem distrair as avós francesas a seus netinhos com a fábula de que, naquele mesmo lugar, comuna de Cerbère, departamento dos Pirenéus Orientais, ladrara, nas gregas e mitológicas eras, um cão de três cabeças que ao dito nome de Cerbère respondia, se o chamava o barqueiro Caronte, seu tratador. Outra coisa que igualmente não se sabe é por que mutações orgânicas teria passado o famoso e altissonante canídeo até chegar à mudez histórica e comprovada dos seus descendentes de uma cabeça só, degenerados. Porém, e este ponto de doutrina só raros o desconhecem, sobretudo se pertencem à geração veterana, o cão Cérbero, que assim em nossa portuguesa língua se escreve e deve dizer, guardava terrivelmente a entrada do inferno, para que dele não ousassem sair as almas, e então, quiçá por misericórdia final de deuses já moribundos, calaram-se os cães futuros para a toda restante eternidade, a ver se com o silêncio se apagava da memória a ínfera região." (...)

em, "A Jangada de Pedra"
Caminho, 6.ª edição
Páginas 9 e 10

(O monstro tricéfalo Cérbero presidindo sobre o terceiro ciclo infernal, 
aquele dos glutãos e dos epicúrios; uma aquarela do londrino William Blake (1757-1827); 
National Gallery of Victoria, Austrália.)


(...) "Para os Estados Unidos qualquer pessoa, seja emigrante ou simples turista, indiferentemente da sua actividade profissional, é um delinquente potencial que está obrigado, como em Kafka, a provar a sua inocência sem saber de que o acusam. Honra, dignidade, reputação, são palavras hilariantes para os cães cerberos que guardam as entradas do país." (...)

em, "O Caderno"
Entrada de dia 26 de Setembro de 2008, "A Prova do Algodão"
Caminho, 2.ª edição
Página 39



Informação, recolhida via Wikipédia, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Cérbero
"Na mitologia grega, Cérbero ou Cerberus (em grego, Κέρβερος – Kerberos = "demónio do poço") era um monstruoso cão de múltiplas cabeças e pescoço que guardava a entrada do inferno(mundo inferior), o reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem e despedaçando os mortais que por lá se aventurassem.
Cérbero era filho de Tífon (ou Tifão) e Equídina, irmão de Ortros e da Hidra de Lerna. Da sua união com Quimera, nasceram o Leão da Nemeia e a Esfinge.
A descrição da morfologia de Cérbero nem sempre é a mesma, havendo variações. Mas uma coisa que em todas as fontes está presente é que Cérbero era um cão que guardava as portas do Tártaro, não impedindo a entrada e sim a saída. Quando alguém chegava, Cérbero fazia festa, era uma criatura adorável. Mas quando a pessoa queria ir embora, ele a impedia; tornando-se um cão feroz e temido por todos. Os únicos que conseguiram passar por Cérbero saindo vivos do submundo foram Héracles, Orfeu, Eneias e Psiquê.
Cérbero era um cão com várias cabeças, não se têm um número certo, mas na maioria das vezes é descrito como tricéfalo (três cabeças). Sua cauda também não é sempre descrita da mesma forma, às vezes como de dragão, como de cobra ou mesmo de cão. Às vezes, junto com sua cabeça são encontradas serpentes cuspidoras de fogo saindo de seu pescoço, e até mesmo de seu tronco.
Quanto à vida depois da morte, os gregos acreditavam que a morada dos mortos era o Sub-mundo, o reino de Hades, o deus do pós-morte, ao lado de Perséfone(Deusa da primavera, filha de Zeus e Deméter). Hades era irmão de Zeus. Localizava-se nos subterrâneos, rodeado de rios, que só poderiam ser atravessados pelos mortos. Os mortos conservavam a forma humana, mas não tinham corpo, não se podia tocá-los. Os mortos vagavam pelo Hades, mas também apareciam no local do sepultamento. Havia rituais cuidadosos nos enterros, e os mortos eram cultuados, principalmente pelas famílias em suas casas. Quando os homens morriam eram transportados, na barca de Caronte para a outra margem do rio Aqueronte, onde se situava a entrada do reino de Hades. O acesso se dava por uma porta de diamantes junto a qual Cérbero montava guarda.
Para acalmar a fúria de Cérbero, os mortos que residiam no submundo jogavam-lhe um bolo de farinha e mel que os seus entes queridos haviam deixado no túmulo.
Seu nome, Cérbero, vem da palavra Kroboros, que significa comedor de carne. Cérbero comia as pessoas. Um exemplo disso na mitologia é Pirítoo, que por tentar seduzir Perséfone, a esposa de Hades e filha de Deméter, deusa da fertilidade da Terra, foi entregue ao cão. Como castigo Cérbero comia o corpo dos condenados.
Cérbero, quando a dormir, está com os olhos abertos, porém, quando o mesmo está de olhos fechados, está acordado."





Recuperação da entrevista de Clara Ferreira Alves, originalmente publicada no "Expresso" (2/11/1991)



Recuperação da entrevista de Clara Ferreira Alves, originalmente publicada no jornal "Expresso", em 2/11/1991, e que agora, foi compilada numa colecção "Grandes Entrevistas da História


«No meu caso, o alvo é Deus»

Entrevista 
"Publicado esta semana, O Evangelho Segundo Jesus Cristo contém uma história que todos conhecemos. E contém cenas e afirmações que alguns séculos atrás teriam lançado o autor na fogueira, sem direito a sepulcro. O escritor toma para si liberdades que são a substância da criação, e comporta-se, na invenção do seu mundo, como Deus. Este é o evangelho segundo Saramago... 

– Achas que os teus leitores crentes podem perguntar: que direito tem um ateu confesso, um comunista, de vir reescrever a nossa religião? 
– Eu não sei se era legítimo, agora que o fiz, fiz. O que chega a parecer incrível é que, se nós imaginarmos que Jesus não é filho de Deus, a nossa civilização está assente sobre coisa nenhuma. 

– Há uma tese escondida, no romance? 
– A tese escondida é a de que eu digo, em primeiro lugar, que o cristianismo não valeu a pena; e em segundo, que se não tivesse havido cristianismo, se tivéssemos continuado com os velhos deuses, não seríamos muito diferentes daquilo que somos. 

– O livro contém afirmações que poderão causar reacções... 
– ... Nas consciências, nas consciências... 

– ... A mais forte talvez seja a do final, em que invertes a frase de Jesus, que acaba por dizer: «Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez». Jesus rebela-se contra um Deus ao qual os homens têm de perdoar. Aqui está a tese do livro. 
— Pode ser que não esteja aí, mas é aí que tudo se fecha, que tudo vai ter. Trata-se da criação de uma nova religião, que nasce do tronco do judaísmo, e de uma decisão de Deus que não está satisfeito com o pequeno espaço e o pequeno povo que governa e que pretende alargar a sua... 

— Base de apoio? 
— Base de apoio. E necessita de um sacrifício e de um mártir. E como resulta do encontro de Deus com Jesus e com o Diabo, no Mar da Galileia — e no meio de um nevoeiro que dura quarenta dias —, Jesus obriga Deus a revelar-lhe o futuro dessa religião. que vai nascer. E esse futuro é uma carnagem, sangue que corre durante vinte séculos. De facto, como o Diabo diz em certa altura, é preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue. Deus (se existisse), sendo omnipotente, tudo teria de fazer para o bem dos homens nesta única vida que temos na terra. É condição necessária do homem sofrer e fazer sofrer para receber um prémio que não se sabe qual seja, ou se se sabe, consiste na contemplação eterna da face do Senhor, o que custa rios de sangue, renúncias à vida, clausura, sacrifício. 

— Está aqui implícita uma crítica ao cristianismo e ao catolicismo. Mas não há nessas religiões nada de bom? E serão elas diferentes de outras religiões, monoteístas ou não, na sua obsessão pela culpa, o pecado e o sacrifício? 
— Eu diria que a crítica não está implícita mas explícita. No meu Evangelho, Jesus é o filho de Deus contrariado, ao contrário dos Evangelhos em que ele sabe e age como filho de Deus. 

— Este Jesus é um homem como todos os outros; e este Deus, como é que é? É Deus uma criação dos homens, e como eles ávido de sangue, ou são os homens uma imagem de Deus? O Deus do livro é o Deus da convicção religiosa, enquanto o teu Deus pessoal não passa de uma invenção humana. 
— O do livro é um Deus derivado directamente de Jeová. 

— Tu não acreditas na existência de Deus, portanto Deus não passa de uma criação humana. Mas este Deus não servia o artificio ficcional e tiveste de ir buscar o Deus dos crentes, condição sine qua non para a existência da história narrada. No fundo, uma refutação de Deus sem dele prescindir. 
— Deus é uma criação humana e, como muitas outras criações humanas, a certa altura toma o freio nos dentes e passa a condicionar os seres que criaram essa ideia. 

— Poderíamos dizer o mesmo de todas as revoluções. 
— É inevitável, as religiões, como as revoluções, devoram os seus filhos. Há nas religiões um contínuo processo de devoramento em que Deus é como um Moloch que necessitasse do sacrifício humano. Imaginando que Deus existe — e não lhe concedo o beneficio da dúvida —, Deus não pode, por boa lógica, criar seres para os destruir. O cristianismo na sua derivante católica, que é a que conhecemos melhor, é uma história de sofrimentos contínuos. 

— Insisto: nas religiões monoteístas, é uma prática comum. 
— São todas, com excepção do confucionismo, que não é bem uma religião mas um sistema de valores, uma filosofia. O que não consigo perceber é a necessidade do sofrimento do corpo para salvar a alma. Abdicações, renúncias, cilícios, tristezas, amarguras, perseguições, vale de lágrimas. Veja-se a expressão, vale de lágrimas. 

— Se Deus é uma criação humana, o pecado não será a consequência da nossa necessidade de culpa? — É uma das questões do livro. Donde vem esse sentimento de culpa? Fomos educados na ideia de um pecado original que manchou para todo o sempre a espécie humana, cristã ou não. E assim se introduz na mente das pessoas um código sobre o que se permite ou não. Assim se cria a administração das almas, os delitos e os castigos de Deus, o código penal das religiões. O sistema tem o seu equivalente na sociedade civil, na existência de códigos de comportamento. 
Não se pode desejar a mulher do próximo — a formulação é machista, não diz que não se pode desejar o homem da próxima — como não se pode circular pela esquerda. 

— Tentas aplicar a lógica à religião e à fé? É ilógico. 
— Eu podia ter escrito um livro como este, questionando todas estas coisas de um ponto de vista apenas lógico, elementar; talvez nem mereça o nome de lógica, mas de simples bom senso. 

— Nada há de bom nas religiões? Se descontarmos a arte sacra, uma óbvia vantagem estética, não terá havido casos em que as religiões permitiram a sobrevivência e a resistência de vítimas? Veja-se o judaísmo, que todos os judeus não hesitam em afirmar ter sido o cimento da sua identidade e existência como povo, e da resistência às perseguições e às tentativas de aniquilação. 
— Mas as religiões tanto servem para sobreviver às perseguições como para fazer perseguições, e os perseguidos vão por, seu turno refugiar-se noutra religião que fará outros perseguidos. É um jogo entre poderes que se debatem em circunstâncias históricas diferentes. Veja-se as cruzadas, uma crença contra outra crença, uma guerra não entre um Deus e outro, Alá, mas entre dois livros, a Bíblia e o Corão. Do ponto de vista do meu bom senso é absurdo. 

— Racionalismo «voltairiano» ou marxismo-leninismo? E aí apetece-me dizer que o comunismo teve a sua teologia e a sua fé, os seus dogmas. E teve e tem as suas vítimas e perseguições. 
— Não creio que tivesse uma teologia, para encontrar vítimas não é necessário ir ao marxismo-leninismo ou ao cristianismo. Tens vítimas na exploração colonial, onde é indiferente se o explorado ou explorador é marxista-leninista ou católico. O meu racionalismo tem uma raiz «voltairiana». Esse cepticismo, essa ironia e essa espécie de compaixão pela loucura dos homens, vêm daí. Seria mais cómodo acreditar em Deus, mas escolhi o lugar da incomodidade. Tal como entre os crentes havia e há o «non possumus», também eu posso dizer que sou agnóstico, se ateu for uma palavra demasiado dura. 

— Vou fazer de advogado do diabo: primeiro, protegeste-te com a forma do romance do facto de estares a tentar reescrever uma religião. Ser escritor dá-te uma cobertura que o ensaísta não teria. Segundo, o projecto é ambicioso e pretensioso. Terceiro, é uma operação de marketing, depois de se saber o que aconteceu ao Salman Rushdie com Os Versículos Satânicos. 
— Dizer que tentei encontrar uma protecção no facto de ter escrito um romance e não um ensaio ignora uma circunstância: não poderia, porque não saberia, escrever esse ensaio. Aqui trata-se apenas de alguém que tendo lido os Evangelhos encontrou neles outras leituras sustentadas por alguma lógica. Um teólogo não escreveria um romance e eu não escreveria senão um romance. E penso ter chegado a resultados do ponto de vista estilístico e, até, da própria capacidade de persuadir pela via do romance. Neste livro, não se trata de fazer puras afirmações provocadoras mas de criar uma situação humana concreta, aceitando as consequências do que vai acontecendo e assumindo todos os riscos, quer o narrador, quer o autor, quer as personagens. Quanto a ser pretensioso, é possível que sim, talvez haja quem diga que não cheguei onde queria, mas não é isso que eu creio, e fiz exactamente aquilo que queria. 

— Terias a coragem de escrever um livro destes dentro da religião islâmica? 
— Talvez não tivesse essa coragem e sobretudo (peço desculpa por ter de chamar a atenção para este ponto) por causa de todas as diferenças — decerto todas elas favoráveis a Salman Rushdie — entre o livro dele e o meu. Há uma essencial que é bom que fique clara desde já: no livro de Rushdie, o alvo é Maomé. No meu caso, o alvo é Deus. E tão absurdo, para mim, pensar que quando se muda de religião se deixa para trás um deus e um diabo e uns infernos e uns paraísos e se adquire em estado novo outro deus, outros demónios e outros paraísos. E cada vez que o poder de Deus se restringe ou amplia, o poder do Demónio restringe-se ou amplia-se sem que ele tenha de fazer nada. É tão absurdo! Quando uma religião desaparece — e têm desaparecido muitas —, ao desaparecerem as entidades que representavam nessa religião o Bem e o Mal, desaparecem também o bem e o mal caracterizados por essa religião? 

— O Bem e o Mal, ou, como disseste, «fazer bem aos homens»: o que é que isto significa? O comunismo não era uma doutrina do bem contra o mal do capitalismo, não queria promover o bem entre Os homens? 
— O marxismo, não creio que se tenha apresentado nunca como o Bem. Essas categorias não são úteis quando entramos em questões como o marxismo, ou a Revolução Francesa. Eu lembrava-te a História do Cerco de Lisboa, onde a certa altura se apresenta a palavra não para negar qualquer coisa que estava antes. Os instrumentos para urna transformação, como é o caso do marxismo, representam um não, o não é o que põe em causa, rejeita, questiona. O que tem acontecido sempre é que esses nãos acabam por converter-se em sins e acabam por converter-se em sins no sentido cada vez menos positivo que a palavra sim pode assumir numa certa fase. A Revolução de Outubro foi o não ao czarismo, ao poder absoluto. Houve o momento da esperança, e depois este não transformou-se em sim, o sim que leva a burocracia, ao autoritarismo, a tudo de que deu abundantes provas a abortada tentativa de estabelecer o socialismo na União Soviética. O não inicial, mesmo que já contivesse os germes do que aconteceu depois, ficou num sim, ao qual foi preciso outra vez dizer não. 

— Uma dialéctica. Houve um momento de pureza na revolução russa? 
— Claro, também houve um momento de pureza na nossa revolução do 25 de Abril.

— A pureza não te horroriza? 
— Tu é que lhe chamaste pureza. Eu diria que há momentos em que a esperança ocupa o espaço todo. 

— Na União Soviética, quem é responsável pela perversão da ideia? Os homens, que nunca sabem servir as ideias? Ou aqueles homens em particular, que se enganaram todos e enganaram muita gente? 
— Eu sou tão pessimista (que acho que a humanidade não tem remédio. Vamos de desastre em desastre e não aprendemos com os erros. Para solucionar alguns dos grandes problemas da humanidade, os meios existem e contudo não são utilizados. 

— Que meios? Uma outra utopia? Uma doutrina? Uma ideia, ainda e outra vez? Não é altura de sermos práticos e concretos? O colapso do comunismo afectou a tua crença no comunismo? 
— Não afectou, serei dos poucos. Dantes, os comunistas eram milhões e milhões e milhões e de repente parece que são algumas centenas de milhares. Podes dizer que se trata, afinal de contas — eu que estou aqui a fazer a crítica das crenças —, de qualquer coisa em que persisto em acreditar. Acredito na possibilidade de o homem ser feliz, de viver em harmonia. 

— No comunismo, tal como nas grandes religiões, há uma espera, um tempo que não é bom e que se sacrifica ao futuro, que bom será. Uma espera do paraíso, seja ele depois da morte ou os amanhãs que cantam. Há sempre uma vida depois da morte. No comunismo há ainda uma redenção... 
— Bom, eu não lhe chamaria exactamente redenção, mas aceito. Eu chamar-lhe-ia humanismo radical, permitindo a harmonia nas relações entre os homens, na sua infinita diversidade. 

— O tempo das vacas gordas vai acabar? 
— Não sou eu quem o diz, é o Governo. 

— Teriam os comunistas administrado melhor o país? Veja-se o triste exemplo do Leste, um desastre ecológico, um desastre económico, repressão ou supressão das liberdades e garantias. Como se pode defender isto? Ou os soviéticos não eram «bons» comunistas, ou não eram sequer comunistas, e por isso é que falharam? [...] São exercícios e subtilezas que me ultrapassam. E os que ainda são comunistas dizem que o comunismo é bom e os homens é que são maus? É o mesmo que dizer que Deus é bom e os homens é que são maus. 
— Não entro nesse debate de serem comunistas ou não comunistas, chego à conclusão de que não eram, mas, a posteriori, é sempre fácil fazerem-se essas verificações. O que vou dizer soa a atitude idealista, ou ,,ignifica pôr o carro à frente dos bois: não se faz socialismo sem uma mentalidade socialista. E não se faz socialismo na mentira, na falta de respeito, em situações em que a liberdade ou a falta dela é condicionada por nomenclaturas ou privilégios de uma classe que controla... 
— Sem querer entrar pelo foro íntimo, não terá havido um momento um que tu e o dr. Cunhal olharam um para o outro e concluíram que a nomenklatura que o partido apoiava era uma enorme perversão da ideia comunista? 
— Eu não sei se ele chegou a alguma conclusão, e nunca olhámos um para o outro numa situação em que devêssemos discutir isso. Para mim, isso é claro desde há anos. E, de facto, a União Soviética não é nem nunca foi, para mim, uma referência política ou ideológica. Não é nada que eu já não tenha dito, e embora estas coisas não provem mito, a verdade é que depois do 25 de Abril não corri lá, e antes disso nunca tinha saído de Portugal. A única viagem que fiz à União Soviética foi há três anos, em plena perestroika. E quando há bocado te falei da mentira não foi por acaso, mas porque tinha em mente um caso concreto. Durante a guerra de 39-45, quando foi descoberto o massacre de Katyn, dos oficiais polacos, a informação que todos tínhamos é que tinham sido assassinados pelos nazis. Recentemente, a União Soviética veio reconhecer que tinha assassinado essa gente. Não posso aceitar que me mintam desta maneira, mesmo em nome das sujidades e sujeições da política. Mas aqui é mais grave, trata-se de um país que era uma referência ideológica, o «farol do futuro». 

— O massacre de Katyn é uma gota de água nos massacres instituídos pela União Soviética. E o gulag? E a Hungria? E a Checoslováquia? 
— Claro está. Mas a gota de água continuava no segredo e só recentemente foi revelada. E há a Hungria, a Checoslováquia, o gulag e tudo isso. E há coisas mais recentes e imperdoáveis, que é o facto de a União Soviética, por necessidades internas e pelo descalabro em que o país se viu, ter abandonado países e movimentos que cresceram e se desenvolveram à sombra do apoio e auxílio da URSS. Caso de Angola, Moçambique e Cuba, entre outros. Deixou cair povos em cujas consciências pôs esperanças e algumas realizações. 

— Essas dúvidas que te assaltaram nunca te levaram, como levaram outros intelectuais, a sair de um PC que era um fiel amigo da União Soviética? Não te sentiste mal dentro do partido? 
— Se alguma vez me tivesse sentido mal, tinha saído, e se um dia me sentir mal, saio. As minhas discordâncias, que são sérias, e nalguns casos sobre pontos essenciais, não foram suficientes para abandonar o partido. Creio que por causa da força da minha própria convicção, e sem esforço. É o único partido onde a minha convicção está à vontade e tem suficiente resposta. 

— Não estarás como o homem que não ousa prescindir da ideia de Deus, ou de uma religião, porque tudo seria mais difícil? Não terás medo de ficar órfão? 
— Não, a minha convicção é compensada por um cepticismo sólido. 

— Dir-se-ia que nunca se pode levar a lucidez às últimas consequências ou o mundo tornar-se-ia um lugar insuportável? 
— Admitamos que essa minha lucidez me levava a retirar-me do partido, de certa maneira eu não tinha resolvido nada. Perguntas-me o que resolvo dentro dele e digo-te. Chego a uma relação em que, apesar das discordâncias, existe bastante harmonia entre o que penso e o que o partido, como projecto de sociedade, contém. Não tenho medo de perder a bengala, a referência, a missa laica, mas considero que o partido tem sido um agente de intervenção na vida do nosso país antes e depois de 25 de Abril, e pode ser um instrumento de transformação da sociedade portuguesa. Mas estou consciente das limitações do partido, sem falar das minhas, e das limitações que o actual estado de coisas europeu e mundial põe, a prazo, a repetir ou renovar uma tentativa que, eventualmente, poderia vir a falhar de novo. O que não posso aceitar, e isso é visceral, é que o capitalismo seja a solução dos problemas do homem. Criará grupos, estratos, camadas prósperas, e criará desfavorecidos, misérias, carências, porque vive à custa dessas misérias e carências. 

— Onde estavas no momento do golpe de Moscovo e que sentiste? Há quem diga que ficaste muito silencioso. 
— Pensei o que continuo a pensar. Eu estava longe, a 40 km de Lisboa, a terminar este livro [...]. As [minhas] declarações estão [nos] •jornais e são muito claras: condenação do golpe, desacordo total em relação à posição que o partido tomou. O que não me achei foi tão importante que viesse a Lisboa fazer declarações à imprensa, à rádio e à televisão. 

— Sendo um escritor que faz incursões no tempo, e no passado, que consciência tens do tempo, do teu tempo histórico? Não falo da passagem do tempo. 
— Sim, eu sei. Não tenho uma ideia nada científica ao dizer isto, como não a tive nas coisas que disse antes. Muitas vezes são intuições, outras são convicções, suposições... Agrada-me pensar que o tempo não é essa diacronia, essa sucessão de momentos, agrada-me pensar no tempo como uma espécie de imensa tela onde se projectam se fixam os acontecimentos. E como se eu visse os acontecimentos projetados numa superfície única, onde tudo estivesse ao lado de tudo, onde tinhas a batalha de Maratona e a chegada do homem à Lua, ou a Clara Ferreira Alves e a Lucrécia Bórgia [risos]. 

— Obrigada. O teu livro começa com uma descrição de uma gravura de Dürer da crucificação onde está contida essa ideia de que tudo está ao lado de tudo. E como se essa gravura ilustrasse a tua noção de tempo. Estás contente com o livro que escreveste, ou estás mais contente do que com outros livros? 
— Estou tão contente como o mais contente que estive e com certeza mais contente do que algumas vezes estive. Dir-te-ia mesmo que este livro me dá um contentamento maior do que qualquer dos outros. A aposta era mais alta e tenho a impressão de não a ter perdido. Não direi que a ganhei, mas acho que não a perdi. 


Excertos da entrevista de Clara Ferreira Alves a José Saramago - Via Revista Contraste (06/1986)



(Aqui, para consulta, link original da publicação, 


"Em Junho de 1986, a revista Contraste publicava uma entrevista feita por Clara Ferreira Alves a José Saramago. O escritor tinha já duas obras muito aclamadas - Memorial do Convento e Jangada de Pedra - mas encontrava-se ainda muito longe do Prémio Nobel. Estava, se assim se pode dizer (e suponho que sim) a dar os primeiros passos da caminhada que o havia de lá levar.

Já tinha 50 anos de carreira. Mas o reconhecimento tardara a surgir. Nesta entrevista, Saramago falou principalmente sobre os seus métodos e as suas convicções enquanto escritor. Pouca gente se lembra desta publicação e menos gente ainda se lembrará deste texto. Por isso mesmo pareceu-me boa ideia divulgá-lo, com a devida vénia.

Começando pelo princípio...

«Lembro-me da minha primeira obra invisível, duplamente invisível. (...) Entrávamos no cinema para ver os cartazes - coisas que dantes se faziam e hoje não! - e lembro-me de que eu "inventava" (...) as histórias dos filmes através dos cartazes, sem os ter visto.»

«Aos 25 anos publiquei um romamce. Foi o editor que sugeriu o título e chamava-se, horrorosamente, Terra de Pecado, o que estava na linha dos filmes do Royal. E não era um romance à francesa, de cento e tal páginas, não, era um romance com trezentas e tal páginas. Acabou a sua existência nas padiolas, que, naquele tempo, tiveram a sua função cultural. Você já não se lembra disso.»

Clara Ferreira Alves (C.F.A.) - E quem é que pecava? A senhora?
José Saramago (J.S.) - A senhora, é evidente! Todas as senhoras pecam, com senhores, às vezes com outras senhoras... (Risos). Não é que me envergonhe de Terra de Pecado, mas achei que o livro não tinha nada que fazer na minha lista bibliográfica.

C.F.A. - Já pensou em reescrevê-lo?
J.S - Jamais reescreveria um livro. Um livro é um livro, pertence ao tempo da pessoa que o escreveu nesse tempo. Não posso retocar a minha imagem de 1947.

(...)

C.F.A - Esteve tanto tempo parado porquê?
J.S - É difícil responder. Se quisesse compor a minha imagem diria que a primeira publicação foi precipitada, que passei esses anos entregue à tarefa de viver primeiro para escrever depois. Mas é claro que não foi nada disso, não acredito que ninguém vá viver primeiro para escrever depois, é léria. (...) Ao viver o suficiente acaba-se por se ter qualquer coisa para dizer, que acho que sou capaz de dizer. Mas toda a minha vida literária considero-a fruto de circunstãncias. Se por volta dos 39, 40 anos não tivesse tido determinado choque sentimental talvez não tivesse escrito Os Poemas Possíveis. Com outro choque sentimental, talvez não es tivesse escrito assim.

(..)

C.F.A. - Em 75, o José Saramago...
J.S. - ... era director-adjunto do Diário de Notícias, fui-o de Abril ao 25 de Novembro e o escritor que eu hoje sou também resulta muito das circunstâncias. Se não tivesse vindo o 25 de Novembro, talvez não tivesse escrito o Levantado do Chão, nem o Memorial do Convento, nem O Ano da Morte de Ricardo Reis, embora seja impossível garantir isto. O escritor que hoje sou é um produto do 25 de Novembro, que me colocou até hoje na situação de desempregado. Achei-me, naquela altura, posto na rua, sem esperanças de encontrar emprego porque o meu empenhamento no DN me tinha queimado. (...) Então disse para mim: tens uns livritos escritos, tens a necessidade de escrever certas coisas, ou continuas a procurar emprego e a ser um escritor de fim-de-semana, ou então arricas.

(...)

C.F.A - Com que idade começou a ter uma consciência política?
J.S. - Com 20 e alguns anos, perto dos 30. Claro que empresta-se a casa para uma reunião da qual nada se sabe, e depois vai-se fazendo a ligação à prática de certos actos ditos subversivos, até chegar à militância. É melhor não falar porque nestas coisas seria uma história como as outras e há sempre alguém que me poderia dar lições de modéstia e descrição.

C.F.A. - O Saramago é um escritor que conheceu um êxito raro em Portugal e lá fora, sobretudo com Memorial e repetido em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Esse êxito não ameaça a sua modéstia?
J.S - Se o êxito tivesse vindo mais cedo talvez tivesse achado que tinha muito tempo de vida para gozar a falta de modéstia. Sou tão pouco modesto como era dantes, não creio ser um exemplo de modéstia. Só que como continuo um pouco desligado das coisas, posso fazer as vezes de uma modéstia praticante, militante. Acontece que não tenho as formas óbvias de vaidade. Talvez tenha outras. O que me ajuda a equilibrar tudo isto é a consciência muito aguda da relatividade das coisas, da sua pouca importância. Por outro lado, sinto a escrita, a actividade literária, como uma espécie de exercício na corda bamba, onde depois de um êxito nos espera o falhanço. E também porque para mim o livro mais importante é sempre o último, o que está mais próximo. (...) Amanhã pode sair um livro que não seja tão bom e lá vão dizer que Perdigão perdeu a pena, depois de ter subido tão alto.

C.F.A. - Podem dizer o contrário. Como é a sua relação com a crítica literária?
J.S - Tenho íntima consciência do que faço, não toda a consciência da bondade do que faço, embora possa dizer que este livro é melhor do que aquele. Estava tão certo da minha necessidade de escrever algumas coisas que a opinião alheia só me poderia trazer ou a confirmação do que achava ou coisas que não me interessavam. Claro que gosto que me façam festas.

C.F.A. - E como criador, não tem as angustiazinhas existenciais?
J.S. - Não me vejo ao espelho a escrever e não gostaria que alguém estivesse a olhar para o espelho onde eu estivesse reflectido a escrever. Não mitifico a escrita por algumas razões. Por exemplo, gosto tanto de pintura e sou incapaz de fazer um boneco, um desenho. Não mitifico, por isso, o pintor, ou o músico. O mesmo para o escritor.

(...)

C.F.A. - Escreve à máquina?
J.S. - Numa velhíssima Hermes.

C.F.A. - Já pensou em escrever num computador?
J.S. - Já me falaram nisso mas eu preciso da minha máquina, daquela. Está tão velha que quando vai para a oficina o mecânico tem de fabricar as peças que faltam porque já ninguém as fabrica. Deve ter aí uns 40 anos. Já tem as teclas marcadas, não marca espaços...

C.F.A. - Escreve noite dentro? De manhãzinha?
J.S. - Não escrevo a altas horas, no silêncio da madrugada. Escrevo a horas normais, quando uma pessoa que tem todo o tempo para trabalhar escreve. Não faço noitadas. Tenho um método de trabalho regular e tenho a impressão de que resulta.

C.F.A. - É portanto metódico...
J.S. - Metódico e pontual.

C.F.A. - Escreve em casa, nos cafés?
J.S. - Nos cafés, nem pensar nisso! Só sei escrever em casa no ambiente da casa, com as coisas nos seus lugares, a ouvir os rumores do prédio, da rua, com a luz do dia. Em férias sou incapaz de escrever uma linha. Sento-me de manhã à máquina e não sai nada.

C.F.A. - Nunca sentiu que era incapaz de preencher a célebre página em branco?
J.S. - Insisto o meu bocado e se não resulta não insisto mais. Outra solução é ir-me deitar. Durmo um quarto de hora, meia hora, e o problema resolve-se por si enquanto estou a dormir.

(...)

C.F.A. - Durante a adolescência, tendo nascido num ambiente nos antípodas do ambiente intelectual, já tinha consciência da sua diferença?
J.S. - Isso acontece sempre na adolescência, ter consciência das diferenças de cultura, de instrução. Tem-se uma visão do mundo provisória e insubstituível. Há uma coisa que me ajuda a manter uma relação com aquilo de que me achava diferente, que é o mundo da minha infância, ligado às minhas origens, a pessoas ou coisas. Mantive com os meus avós maternos uma relação para além de todas as diferenças de ordem cultural ou intelectual. E a consciência da diferença não levou nem leva a rupturas: sempre fui deles e sempre foram meus.

(...)

Depois, a propósito do livro que preparava, A Jangada de Pedra: «em termos de projecto é tão coerente como os anteriores, mas acho que corro o risco que toda a gente corre».

C.F.A. - É como um jogo, esse risco?
J.S. - Não, que ideia... Um comprador de lotaria não corre risco nenhum, não arrisca nada, só perder o dinheiro com que a comprou. Não sou um jogador, nunca joguei nada, excepto "King" durante algumas semanas e algum xadres, quer dizer, empurrei as pedras. Fazer da criação um jogo é complicar as coisas. Isso pode ser interessante para os outros, não para mim.

C.F.A. - O Saramago, de facto, nunca se fez interessante, no mau sentido...
J.S. - Nunca me fiz interessante antes, não me faço interessante agora. Mas, agora, é mais difícil de garantir porque estando os projectores cá virados para esta lado, qualquer gesto pode ser assim interpretado. Tendo a viver com a naturalidade de sempre. Aqueles que me conhecem mais de perto sabem que sou a mesma pessoa, digo as mesmas piadas.

C.F.A. - Nos seus romances, escapa a essa moda temível do confessionalismo agudo, que deu em tantos autores portugueses deste tempo. O que pensa da mania?
J.S. - Acho um pouco tonto, a vida dos outros não me interessa nada. Interessa-me saber aquilo que é impossível saber, aquilo que falta saber. Vivemos num mundo de tal modo vertiginoso, de tamanha complexidade que, em rigor, dele dela nada sabemos. Não sabemos em que mundo vivemos.

(...)

C.F.A - Ao aliar a ficção à História acha que a ficção pode funcionar como correctivo da História?
J.S. - O que vem a ser a História? As viagens na História comparo-as com as viagens no espaço. Eu tenho aquele livro da Viagem a Portugal e agora poderia escrever outro em que teria como preocupação não passar por nenhum daqueles lugares do primeiro livro. No tempo pode e deve fazer-se a mesma coisa.

Prossegue depois falando de História, a propósito de Memorial do Convento:

J.S. - De facto, todo o romance é um romance histórico. Agora estamos aqui, neste lugar, e se daqui a 100 anosalguém escrevesse um romance que nos tomasse como personagens, aqui, com estes conflitos, estas experiências, estaria a escrever um romance histórico só porque se projectava num tempo anterior? A partir de que altura é que o passado passa a ser História? Eu não sei o que é o presente. Estamos aqui há mais de uma hora e faço a mesma diferença entre o que se passou há uma hora e o que se passou há 100 anos. Tenho idêntica dificuldade em reconstituir ambos os momentos. Quanto ao futuro, ele é apenas tempo não vivido. Agora o presente, como fixá-lo? Ele é tão fluido.

C.F.A. - Quando está a escrever um livro tem pressa de o acabar?
J.S. - Vivo em angústia, tenho mau viver. Vivo no silêncio, é um não estar cá, um modo de não estar cá.

C.F.A. - Tem dúvidas sobre o que escreve?
J.S. - Não, sou suficientemente inconsciente.

(...)

C.F.A. - Como é que pode dizer que é inconsciente? Já sabe o que vai escrever nos próximos anos... Será que essa é ainda uma maneira de não correr riscos? Ir para o Alentejo escrever, quando ficou desempregado, foi um risco? Ser militante do PC é um risco?
J.S. - Tenho pouca imaginação para correr riscos. Quanto ao risco de ser militante do PC resumo-o assim: dantes diziam: ele é bom mas é comunista. Agora dizem: ele é comunista mas é bom!"

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Citador #21 ... o cão Achado e o oleiro Cipriano Algor ... as lágrimas presentes

... o cão Achado e o oleiro Cipriano Algor 
... as lágrimas presentes
... um que as chora, o outro que as seca

Citador #21
em, "A Caverna"
Caminho
Página 263


(...) "Do que Cipriano Algor pensou não merece a pena falar porque já o tinha pensado em outras ocasiões e desse pensar se deixou informação mais do que suficiente. Se algo de novo aqui aconteceu foi ele ter deixado escorregar pela cara abaixo umas quantas custosas lágrimas, há um ror de tempo que elas andavam lá represadas, sempre vai não vai a ponto de se derramarem, afinal estavam prometidas para esta hora triste, para esta noite sem lua, para esta solidão que não se resignou. O que realmente não foi nenhuma novidade, porque já tinha sucedido uma outra vez na história das fábulas e dos prodígios da gente canina, foi ter-se chegado o Achado a Cipriano Algor para lhe lamber as lágrimas, gesto de consolação suprema que, em todo o caso, por muito comovente que nos pareça, capaz até de tocar os corações menos propensos a manifestações de sensibilidade, não nos deveria fazer esquecer a crua realidade de que o sabor a sal que nelas estão tão presente é apreciado em grado sumo pela generalidade dos cães." (...) 

Lena Gal, artista plástica, a exposição "O feminino da escrita de José Saramago"

(Artista Plástica, Lena Gal - "Mulheres Marias", 116*89 - 
da exposição "O feminino da escrita de José Saramago") 

Informação, recolhida neste link, a propósito da exposição, aqui
"A exposição de pintura é inaugurada no próximo dia 25 de Setembro no Centro Municipal de Cultura, em Ponta Delgada, podendo ser visitada até 23 de Outubro.
São 25 quadros, 21 acrílicos sobre tela e 4 desenhos, onde a artista refaz por outra via que não a da palavra, as imagens sobre o feminino sugerido pela escrita de Saramago – escrita que sempre manteve um diálogo muito próximo com as artes plásticas e que já foi motivadora de outras trabalhos.
Como refere Pedro Fernandes de Oliveira Neto, estudioso da obra de José Saramago, no texto introdutório à exposição, o trabalho de Lena “reúne muitas peculiaridades: não somente porque estamos diante de mãos femininas já prendadas na arte da invenção de outras maneiras de ser mulher, mas porque a artista se encontra motivada em simultâneo pela escritura (…) ensaística e pela romanesca, extraindo desse encontro figurações que são síntese e limiar de uma acção interpretativa”.
“O Feminino na escrita de José Saramago” é fruto do contacto com o livro homónimo de Pedro Fernandes de Oliveira Neto e com a obra do escritor português, onde a artista sentiu um elo forte entre as personagens saramaguianas e a sua linguagem plástica, a sua pintura feminina e as mulheres reais da sua própria história de vida.  Lena Gal diz ter identificado a mesma força, os silêncios e os sentidos do olhar, a intuição, o amor, a sensualidade, a denúncia de casos de violência e do assédio sexual, a cumplicidade feminina do despertar para a consciência do ser mulher."

Consultar também, http://www.casalenagal.com/