Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

domingo, 21 de dezembro de 2014

"Memorial do Convento" - Era uma vez um rei, os homens que construíram o convento...

(ilustração da "passarola")


"Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra.
Era uma vez a gente que o construiu esse convento. 
Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes.
Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido.
Era uma vez."

(Imagem aérea do Convento de Mafra)

"Enfim, chegou o mais glorioso dos dias, a data imorredoira de vinte e dois de Outubro do ano da graça de mil setecentos e trinta, quando el-rei D. João V faz quarenta e um anos e vê sagrar o mais prodigioso dos monumentos que em Portugal se levantaram, ainda por acabar, é verdade, mas pela catadura se conhece o catacego. Não se descrevem tantas maravilhas, Álvaro Diogo não viu tudo, Inês Antónia tudo confundiu, Blimunda foi com eles, parecia mal não ir, mas não se sabe se sonha, se está acordada. Eram quatro da manhã quando saíram de casa para apanharem um bom lugar no terreiro, às cinco formou a tropa, ardiam archotes por toda a parte, depois começou a amanhecer, bonito dia, sim senhores, Deus cuida bem da sua fazenda, agora se vê o magnífico trono patriarcal, ao lado esquerdo do pórtico, com as suas cadeiras e dossél de veludo carmesim, com guarnições de ouro,
o chão coberto de alcatifas, um primor, e numa credência a caldeirinha e o hissope, mais os restantes instrumentos, já se armou a procissão solene que dará a volta à igreja, el-rei vai nela, atrás os infantes e a fidalgaria, conforme as suas precedências, mas o principal da festa é o patriarca, benze o sal e a água, atira água benta às paredes, porventura não foi tanta quanta devia de ser, ou não cairia Álvaro Diogo de trinta metros daqui a poucos meses, e depois vai bater por três vezes com o báculo na porta grande do meio, que estava fechada, às três foi de vez, é a conta que Deus fez, abriu-se a porta e entrou a procissão, pena temos nós de que não entrem Álvaro Diogo e Inês Antónia, e também Blimunda, apesar do nenhum gosto, veriam as cerimónias, umas sublimes, outras tocantes, umas de derrubar-se prostradamente o corpo, outras de sublimar-se aceleradamente a alma, por exemplo, estar o patriarca escrevendo com a ponta do báculo, em montes de cinza dispostos no pavimento da igreja, os alfabetos grego e latino, parece mais obra de bruxedo, eu te talho e retalho, do que ritual canónico, como é também o caso de toda aquela maçonaria que além está, ouro moído, incenso, cinza outra vez,
sal, vinho branco numa garrafa de prata, cal e pó de pedra numa bandeja, uma colher de prata, uma concha dourada, sei lá que mais, não faltam hieroglifos, gatimanhos, passos e passes, para lá e para cá, óleos santos, benzimentos, relíquias dos doze apóstolos, doze, e nisto se passou a manhã e grande parte da tarde, eram cinco horas quando o patriarca começou a missa de pontifical, que, claro está, levou o seu tempo, e não foi pouco, enfim chegou a termo, dali subiu à tribuna da casa de Benedictione para lançar a bênção ao povo que esperava cá fora, setenta mil, oitenta mil pessoas, que num grande sussurro de movimentos e vestes se derrubaram de joelhos no chão, momento inesquecível, por muitos anos que eu viva, D. Tomás de Almeida recitando lá do alto as palavras da bênção, tendo boa vista percebe-se-lhe o mexer dos beiços, ouvidos é que não há que alcancem, havia de ser hoje, clamariam por todo o orbe, urbi et orbis, as trombetas electrónicas, voz verdadeira de Jeová que teve de esperar milénios para que enfim o ouvisse a terra, mas a maior sabedoria do homem ainda continua a ser contentar-se com o que tem, enquanto não inventa melhor, por isso é tão grande a felicidade da vila de Mafra e de quem lá está, bastam-lhe os gestos compassados da mão, de cima para baixo, da esquerda para a direita, o anel faiscante, os ouros e os carmesins resplandecentes,
as alvas cambraias, o retumbar do báculo sobre a pedra que veio de Pêro Pinheiro, lembram-se, vede como ela sangra, milagre, milagre, milagre, aquele foi o último gesto, tirar o calço, retirou-se o pastor com o séquito, as ovelhas já se levantaram, a festa continuará, oito são os dias da sagração e este é o primeiro."

"Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição
Páginas 350 a 352

sábado, 20 de dezembro de 2014

José Saramago "A guerra do desprezo" - Publicado na "Crítica Marxista" (São Paulo, 1999)

A revista digital, "Blimunda", pode ser descarregada, gratuitamente, através do site da Fundação José Saramago. É lançado o número 31, que como refere «encerra o ano de 2014 da melhor maneira».
Aqui, pode ser lida a sinopse de apresentação,

"A Blimunda #31 encerra o ano de 2014 da melhor maneira."

"Em destaque, o dossier dedicado a Agustina e a Sophia, duas das grandes autoras portuguesas que este ano receberam justas homenagens da sociedade portuguesa. No caso de Sophia, com a sua entrada no Panteão Nacional, numa cerimónia de enorme beleza, fazendo jus à poesia que nos deixou. Desse momento, a Blimunda publica o texto de José Manuel dos Santos, que em representação da Cultura portuguesa leu o belo texto que agora fica perpetuado nestas páginas. No caso de Agustina, com um grande Congresso organizado pelo Círculo Literário Agustina Bessa-Luís e acolhido pela Fundação Calouste Gulbenkian, do qual publicamos os textos de Artur Santos Silva e de Mónica Baldaque.
Destaque também nesta Blimunda para a conversa de Andreia Brites com um dos grandes autores de álbuns ilustrados do século XX, o norte-americano Eric Carle, no ano em que se assinalam 45 anos da publicação de um dos seus mais aclamados livros, A lagartinha muito comilona.
A 28 de outubro deste ano, o Vaticano recebeu pela primeira vez o Encontro Mundial de Movimentos Populares, promovido pelo Papa Francisco, que contou com a participação do presidente boliviano, Evo Morales. Desse momento histórico chega-nos o relato pela voz de Ignacio Ramonet.
Espaço ainda na Blimunda para a conversa de Sara Figueiredo Costa com os responsáveis por um novo projecto editorial português, a Guilhotina, e a fechar, na Saramaguiana, o texto de Claudia Piñeiro lido na apresentação de Alabardas, que teve lugar na Feira Internacional do Livro de Gudalajara.
No fim de mais um ano, a Blimunda deseja a todos os seus leitores um 2015 de boas leituras!"


Na segunda página, da revista agora lançada, pode ser lido um excerto de um texto, publicado em 1999, a propósito de mais uma chacina prepertrada contra o povo de Chiapas.

Aqui, link original, para leitura completa,
em, http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/sumario.php?id_revista=8&numero_revista=8

"A guerra do desprezo"

O braço direito do índio Jerónimo não se pode levantar porque tem completamente destroçada a articulação do ombro. A mão direita do índio Jerónimo é um coto sem dedos. Não se sabe o que está sob a ligadura que lhe envolve o antebraço. O lado direito do tronco do índio Jerónimo mostra, de cima a baixo, uma cicatriz larga e funda que parece partir-lhe o corpo em dois. Os olhos do índio Jerónimo perguntam-me que faço ali. O índio Jerónimo tem quatro anos e é um dos sobreviventes da matança de Acteal. Não suporto ver aquele braço, aquela mão, aquela cicatriz, aquele olhar, e viro as costas para que não se perceba que vou chorar. Diante de mim, velada pelas lágrimas que me queimam os olhos, está a fossa comum onde se encontram, em duas filas paralelas, os quarenta e cinco mortos de Acteal. Não há tabuletas com nomes. Tiveram um nome enquanto viveram, agora são simplesmente mortos. O filho não saberia dizer onde estão os pais, os pais não saberiam dizer onde está o filho, o marido não sabe onde está a mulher, a mulher não sabe onde está o marido. Estes mortos são mortos da comunidade, não das famílias que a constituem. Sobre eles está a construir-se uma casa. Amanhã, um dia, nas paredes que a pouco e pouco vão sendo erguidas, veremos as imagens possíveis da carnificina, o enterramento dos cadáveres, leremos enfim os nomes dos assassinados, algum retrato, se o tinham. Debaixo dos nossos pés estarão os mortos. Trabalhosamente, descemos ao barranco onde as vítimas se esconderam, fugidas à agressão dos paramilitares que desciam a encosta disparando. A igreja, simples barracão de tábuas em bruto, sem adornos, sequer uma cruz tosca na frontaria, onde os índios, desde há três dias, estavam jejuando e rezando pela paz, mostra os sinais das balas. Dali se escaparam os espavoridos tzotziles de Acteal julgando poder encontrar refúgio mais para baixo, numa reentrância do terreno escarpado. Não sabiam que tinham entrado numa ratoeira. A horda dos paramilitares não tardou a descobrir aquele informe amontoado de mulheres, homens e crianças, dezenas de corpos trémulos, de rostos angustiados, de mãos levantadas a implorar misericórdia. (Ai de nós, o acto de apertar o gatilho de uma arma tornou-se tão habitual na nossa espécie que até o cinema e a televisão já nos dão lições gratuitas dessa arte a qualquer hora do dia e da noite.) Sobre o mísero nó humano que se contorcia e gritava, os paramilitares despejaram, a gosto, rajadas e rajadas, até que o silêncio da morte respondeu aos últimos disparos. Algumas crianças (talvez o índio Jerónimo?) escaparam à chacina por terem ficado debaixo dos corpos crivados de balas. Apenas a 200 metros dali, quarenta agentes da Segurança Pública, chefiados por um general reformado, ouviram o tiroteio e não deram um passo, não fizeram um gesto, apesar de saberem o que estava a acontecer. Foi tal a indiferença das autoridades que nem ao menos cortaram o trânsito na estrada que passa por Acteal, a pouca distância do local do múltiplo crime. A cumplicidade das diversas forças armadas mexicanas com os paramilitares ligados ao partido do Governo, por de mais evidente, não precisa de melhor demonstração. 


No município índio de Chenalhó (leia-se Chenal-hó), onde se encontra o povoado de Acteal, misturam-se as histórias pessoais e familiares, políticas e sociais. "Zapatistas" e "priístas" têm parentes e amigos no outro bando, e não é raro que as vexações recíprocas destruam os afectos. Os
deslocados, varridos brutalmente de um lado para outro, provém da destruição das pequenas aldeias em que viviam, da falta de respeito pelos campos comunais, da impossibilidade de se reunirem em assembleias e de trabalharem sem medo, das humilhações inflingidas pelas autoridades, da mudança forçada de dirigentes por outros sem mandato nem eleição, da destruição dos símbolos comunitários, da proibição de reuniões, ou toleradas sob a vigilância de paramilitares protegidos pela polícia. Na
guerra do desprezo que se está travando em Chiapas, os índios são tratados como animais incómodos. E a multinacional Nestlé espera com impaciência que o assunto se resolva: o café está à sua espera...
Perto de Acteal, em Polhó (leia-se Pol-hó), num cartaz à entrada do acampamento de deslocados zapatistas, lêem-se estas palavras: "Que será de nós quando o último de vós se for embora?. E eu pergunto: "Que será de nós quando se perder a última dignidade do mundo?".

"SARAMAGO, José. A guerra do desprezo. Crítica Marxista, São Paulo, Xamã, v.1, n.8,
1999, p.9-10."


Aqui, mais informação, via Wikipédia,

"O massacre de Acteal, ocorrido em 22 de Dezembro de 1997, consistiu na chacina de 45 indígenas tzotziles que se encontravam rezando numa igreja na localidade de Acteal, no estado mexicano de Chiapas. A opinião dominante é que este massacre terá sido executado por forças paramilitares eventualmente opostas ao Exército de Libertação Nacional Zapatista (EZLN) mas nunca realmente identificadas. Entre as vítimas contavam-se dezasseis crianças e adolescentes bem como vinte mulheres (algumas delas supostamente grávidas) e nove homens adultos.
Segundo os relatos de testemunhas as vítimas, pertencentes a um grupo comunitário denominado Las abejas (as abelhas) simpatizante do EZLN, terão sido mortas por cerca de 90 paramilitares, supostamente membros dum grupo denominado Máscara Roja (máscara vermelha), durante uma operação que se terá prolongado por cerca de 7 horas, a curta distância de um posto militar. Os militares ali estacionados não intervieram de forma a evitar o massacre, existindo relatos de que na manhã seguinte alguns deles se encontravam na igreja, lavando o sangue das paredes.
Na sequência do massacre cerca de 100 pessoas, na sua maioria indígenas, acabariam por ser detidas numa prisão de Tuxtla Gutiérrez, a capital de Chiapas.
O então bispo de San Cristóbal de las Casas, Samuel Ruiz, afirmou ser necessário que a Procuradoria Geral da República investigasse sobre quem seriam os instigadores deste massacre.
Entre os presumíveis participantes encontravam-se oito ex-oficiais das forças de segurança pública, condenados a penas de pouco mais de três anos de prisão e libertados logo de seguida.
Segundo dados não oficiais, crê-se que nessa altura em Chiapas operavam vários grupos paramilitares que combatiam o EZLN. Há quem sugira[quem?] que estariam ligados ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), então no poder havia 68 anos."


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Quadro da autoria do artista plástico Jiří "Georg" Dokoupil, na Biblioteca de José Saramago (Tías, Lanzarote)

(Quadro da autoria do artista plástico, Jiří "Georg" Dokoupil)

Extracto do texto de apresentação da biblioteca de José Saramago - Tías, Lanzarote
"A biblioteca é dominada por um retrato de José Saramago e da sua esposa, da autoria do pintor checo Jiri Dokoupil, que plasma um momento da apresentação do livro As Pequenas Memórias, que o artista viu num jornal e que, “como tudo pode ser contado de outra maneira”, como dizia Saramago, o pintor aplicou numa tela, realizando com fumo de uma vela e tinta amarela uma obra moderna e bela na qual o escritor se revia com muito gosto."



Pode ser obtida mais informação, via Wikipédia, 
"Jiří "Georg" Dokoupil (born 3 June 1954) is a contemporary Czech artist. He was founding-member of the German artist groups Mülheimer Freiheit and Junge Wilde, which arose in the late 1970s and early 1980s.
Dokoupil lives and works between Berlin, Madrid, Prague, Rio de Janerio and Santa Cruz de Tenerife." (...)



Entrevista de Adelino Gomes a Carlos Fuentes - «Divara é uma ópera estremecedora» (Público, 28/07/2001)

Adelino Gomes, entrevista Carlos Fuentes - "Público", publicado em 28 de Julho de 2001
Link, em http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/divara-e-uma-opera-estremecedora-160260

Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez, Belisario Betancourt, José Saramago 
e Eloy Martínez (foto Victor Serra, 2004)


"Divara é uma ópera estremecedora"

"É diplomata, professor em Harvard e escritor consagrado (prémios Cervantes, Príncipe das Astúrias, Picasso, entre muitos outros). Acaba de entregar à editora francesa Grasset o original de um novo livro, onde fala de tudo - da política, da religião, do sexo, da família, da globalização. Carlos Fuentes, 72 anos, é também um apaixonado de ópera. De férias por uma semana em Portugal, onde veio pela primeira vez nos anos 50, o "Público" descobriu-o esta segunda-feira, no Teatro Luís de Camões, em Lisboa, no espectáculo de encerramento da temporada lírica do Teatro Nacional de São Carlos. Ao lado de José Saramago, o escritor mexicano assistiu, entusiasmado, à última representação da ópera "Divara - Água e Sangue", de Azio Corghi, baseada na peça "In Nomine Dei", que o Nobel português escreveu a pedido do Teatro de Münster, em 1993.

Carlos Fuentes, refere:
«É emocionante, estremecedora. Não faz concessão nenhuma. Nem lírica, nem romântica. Há uma coincidência total, uma fraternidade bárbara entre o tema, a música, a interpretação. Não se separam em nenhum momento: a representação não se separa do tema, a música não se separa do tema, e este não se separa da música, de modo que fazem uma unidade perfeita sobre a cegueira, a intolerância que caracterizou a história dos homens. Temos um lado de luz e um lado obscuro e quando este lado aparece é realmente a noite que aparece.»

P - A acção desenrola-se no século XVI. Acha que tem actualidade?
R - A violência é sempre actual. A imposição de dogmas é actual. Tudo coisas que é bom ir recordando para que não se repitam, embora, na verdade, se repitam. 

P - E a figura da mulher, nesta ópera?
R - São os seres mais poderosos. Quatro mulheres estão sentadas no final e são como uma coluna, o centro do universo nesse momento.

P - Já conhecia a peça?
R - Sim, claro.

P - O espectáculo corresponde à leitura que fez da peça?
R - É perfeito.

P - A reacção do público hoje [como na representação anterior] não foi muito calorosa...
R - Nem podia ser. Não se enfrentam acontecimentos como estes facilmente. Não se lhes pode responder como se responde à "Madama Butterfly"...

P - É amante de ópera. Qual foi a última a que assistiu?
R - Tive o enorme gosto de ver num espaço de dois meses, imagine, no Metropolitan de Nova Iorque e em Glyndebourne, Inglaterra, a ópera "O Caso Makropulos" do [compositor checo Leos] Janacèk [apresentada em Portugal na Lisboa 94]. Em duas interpretações diferentes. Uma grande experiência. Antes desta...

P - Está de férias em Portugal?
R - Sim, vim com a minha mulher. O embaixador do México [escritor José María Pérez Gay, de quem acaba de sair no México "Tu nombre en el silencio", Leon y Cal editores] é um velho amigo nosso e não podíamos perder a oportunidade de ver Saramago, Pilar e a ópera.

P - É a primeira vez que vem de férias a Portugal?
R - O meu pai foi embaixador do México aqui, nos anos 67, 68. E antes já cá tinha estado. Foi a primeira cidade europeia que conheci. Vim directamente para aqui, nos anos 50. Impressionou-me esta extraordinária mescla do mundo mediterrâneo, árabe, lusitano. Ela mostrou-me desde o primeiro momento uma Europa já mestiça, nesses anos 50. Tenho muitas recordações de Portugal, muitas leituras.

P - Essa Lisboa dos anos 50, reencontrou-a agora?
R - O perfil urbano sim, mas felizmente a situação política mudou. Esta ópera não podia ter sido representada sob Salazar. Havia sempre um censor sentado a ver o que se ia dizendo e representando. Nós riamo-nos, os intérpretes riam-se dele, ele ria-se um pouco, era de certo modo uma ditadura branda. O país mudou.

P - E a cidade?
R - Mal acabo de chegar, não a vi ainda. Sinto que há um perfil novo, moderno, mas parece-me que a cidade de sempre está aí. Essa Lisboa antiga não desapareceu, felizmente.

P - O que vai fazer durante estas férias em Portugal?
R - Ler, apanhar sol, nadar. Acabo de terminar um livro.

P - Como se chama?
R - É um livro de uma série francesa, da editora Grasset, chamada "Ce Que Je Crois". Iniciou-a François Mauriac, há 40 anos. O escritor diz o que pensa, naquilo em que crê.

P - Religião, política, globalização?
R - Fala-se de tudo: literatura, sexo, família, filhos, política. Fi-lo por ordem alfabética - amizade, amor, Balzac, beleza, Buñuel, ciúmes. Também globalização...

P - O que diz da globalização?
R - Que ela está aí. E que não vai desaparecer. O desafio é convertê-la em algo que sirva o ser humano. Não que o esmague e o aliene, como está a fazer. O Renascimento foi globalização. E o descobrimento da América. Vasco da Gama foi um globalizador. Faz parte de um fenómeno que temos que dominar. Não está sujeito à política, não está sujeito a leis e isso é o que a faz tão ameaçadora. É um mercado tão desbocado que não tem nenhum limite, nenhuma lei que o domine. (...)

P - O que disse a José Saramago no final do espectáculo?
R - Que intensidade! Que intensidade!..."

Por Adelino Gomes, publicado no "Público" a 28/07/2001

Biblioteca d'A Casa, em Lanzarote, "Um altar à literatura" nas palavras de Stephanie Merritt (30/04/2006)

A biblioteca José Saramago, na sua casa em Lanzarote.
A este propósito, João Céu e Silva, em "Uma longa viagem com José Saramago", página 137, faz uma nota de rodapé à entrevista ao jornal "The Observer", realizada por Stephanie Merritt, em 30 de Abril de 2006.
Refere a jornalista: «A arquitectura da biblioteca de José Saramago, pela forma como se ergue na encosta de uma colina na sua ilha adoptiva de Lanzarote, dá a impressão de ser uma catedral moderna. A luz do sol entra por estreitas janelas altas de vidro opaco que abrangem os dois andares; as nuas paredes brancas e a fresca pedra contribuem para uma sensação de reverência na presença de tantos volumes, antigos e modernos, em tantas línguas diferentes. É um altar à literatura, uma religião alternativa para o Nobel português, o qual deixou a sua pátria há 14 anos em protesto contra a censura governamental do seu romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (...)»

(Esta biblioteca não nasceu para guardar livros, mas sim para acolher pessoas. - José Saramago)

Nas palavras de Saramago, a implementação da biblioteca pode ser encontrada na página 203 ("Uma longa viagem com José Saramago", João Céu e Silva - Porto Editora), onde são já visíveis, os esboços e planos para a concretização deste espaço.

"É também a Universidade de Granada que está a organizar a sua biblioteca?
- Sim. A biblioteca é para ficar em Lanzarote até que a Fundação seja extinta. Enquanto a Pilar for viva ela administrará a Fundação - eu já cá não estarei mas a coisa continuará -, não sei quantos anos irá durar a Instituição, mas se um dia acabar, os seus bens pertencerão à Biblioteca Nacional de Lisboa à excepção da biblioteca que será levada para a Universidade de Granada, onde constituirá um núcleo de literatura que tem a ver com a própria cátedra que se vai criar. Aliás, a Universidade já destacou funcionários para trabalhar na catalogação em Lanzarote."


Agora, atravessamos mares, e vamos em direcção à casa propriamente dita. 
Situada em Tías, cidade próxima de Arrecife, capital de Lanzarote, fica localizada a poucos quilómetros do aeroporto.

Todas as informações podem ser encontradas no site da "Casa", 

Transcrição do maravilhoso texto de apresentação da biblioteca, 

"Diz José Saramago que aos livros, há que abri-los com cuidado, porque têm dentro o autor, com toda a sua sensibilidade, com tudo o que o fez ser único e irrepetível. Diz que há que passar a ponta dos dedos pelas lombadas dos livros comum gesto cúmplice, dizer-lhes, aos escritores, que não estão esquecidos e demonstrá-lo voltando a eles, hoje um livro, amanhã outro, para que não desesperem enquanto nos aguardam e nos chamam. Esta biblioteca tem gente nas estantes e Saramago pensava passar com ela muito tempo, vir aqui para ler e conversar com os seus contemporâneos ou com os que os haviam precedido. Mas tal não foi possível. O projecto foi cortado porque a morte não é inteligente nem compassiva.

Saramago vinha à biblioteca todas as manhãs. Sentava- se na mesa da frente depois de ter colocado um disco, talvez Bach, e começava o seu trabalho de escritor lendo as últimas palavras que tinha deixado acabadas e impressas. Corrigia pouco, quase nada, porque quando escrevia tinha já a história e, inclusivamente, as palavras, ordenadas na sua cabeça. “Escrever, dizia, é como fazer uma cadeira, as quatro pernas têm que assentar no chão, deve estabelecer-se uma certa harmonia entre as várias partes, ser bela, se o talento chegar para tanto”..E então começava o ritual: reorganizar os objectos em cima da mesa, ligar o computador, recostar-se no seu cadeirão, unir as mão, olhar em seu redor, começar a escrever. E de fora ouvia-se o som leve do teclado, um ritmo lento, cadenciado, sem grandes pausas, sem ruídos. Não fumava, não precisava de um café, talvez água, quase sempre esquecida a um dos lados da mesa. Escrever, dizia, é como fazer uma cadeira, as quatro pernas têm que assentar no chão, deve estabelecer-se uma certa harmonia entre as várias partes, ser bela, se o talento chegar para tanto. E assim, como um artesão, ia criando páginas que já estão na História da Literatura, enquanto à sua volta todos se envolviam noutras tarefas mais prosaicas, como catalogar livros, abrir correspondência e receber visitas, conscientes, todos, de que assistiam como testemunhas silenciosas ao acto mágico da criação, aquele que aqui, entre estas paredes, se produziu ao longo de quatro anos.-

A biblioteca é dominada por um retrato de José Saramago e da sua esposa, da autoria do pintor checo Jiri Dokoupil, que plasma um momento da apresentação do livro As Pequenas Memórias, que o artista viu num jornal e que, “como tudo pode ser contado de outra maneira”, como dizia Saramago, o pintor aplicou numa tela, realizando com fumo de uma vela e tinta amarela uma obra moderna e bela na qual o escritor se revia com muito gosto. Da série que Santa Bárbara realizou sobre o Memorial do Convento há na biblioteca outros dois quadros, para além das quatro gravuras do artista cubano Kcho, que Saramago trouxe de Cuba tendo muito claro em que lugar da sua casa iriam ficar.os livros escritos por mulheres estão juntos e por ordem alfabética A organização dos livros baseia-se em critérios pessoais. Assim, e embora a Literatura seja universal, os livros estão colocados pelos países de origem dos autores. A filosofia, o ensaio e as memórias arrumam- -se por uma ordem temática, como história ou política. Há, no entanto, uma excepção a todas as normas: os livros escritos por mulheres estão juntos e por ordem alfabética. Saramago nunca concordou com este critério, mas respeitou a decisão da sua esposa, que não quis que autoras que não tivessem sido consideradas pelos seus pares, pelo facto de serem mulheres, estivessem condenadas a partilhar estantes com quem não as respeitou ou valorizou.

A ante-sala da biblioteca é ocupada pelas duas pessoas que trabalhavam mais perto de Saramago. Aqui se encontra parte da literatura da América e vários retratos de escritores amados: Cervantes, Camões, Pessoa, Drummond de Andrade, e até um Dom Quixote vencido, que regressa derrotado de todas as batalhas, e que no entanto é, para sempre e em todo o mundo, o mestre que se invoca quando se dá início a uma empresa ousada. A gravura de Tàpies, as palavras de Saramago em português, euskera e castelhano: Uma inesgotável esperança.Preside a esta sala um trabalho conjunto que realizaram, por iniciativa do grupo basco Elkarri, Tàpies e Saramago, e que tinha como objectivo abrir uma campanha para encontrar uma saída pacífica e digna para o conflito basco. Durante uns meses, Tàpies e Saramago percorreram vários lugares, acumulando vozes e apoios. Como testemunho, a gravura de Tàpies, as palavras de Saramago em português, euskera e castelhano: Uma inesgotável esperança.

Na biblioteca José Saramago recebeu os seus amigos. Quando recuperou da doença que em 2007 esteve a ponto de acabar com a sua vida, o primeiro acto público que organizou foi convidar María Kodama para que falasse de Borges em Lanzarote. A memória de Borges é predominante na biblioteca porque Jorge Luis Borges, com Pessoa e Kafka, eram para Saramago os escritores imprescindíveis do século XX. Mais tarde,por aqui passaram outros companheiros de letras e deixaram as suas palavras. Estão contidas neste espaço, se é verdadeira essa lei que diz que nada se perde."



Aqui, o link com a entrevista completa,
em http://www.theguardian.com/books/2006/apr/30/fiction.features1

José Saramago: "Still a street-fighting man"

"In his first interview with an English newspaper, 83-year-old Portuguese novelist José Saramago reveals that his famed radicalism is undiminished

The architecture of José Saramago's purpose-built library, as it rises from a parched hillside on his adopted island of Lanzarote, creates the impression of a modern cathedral. Sunlight splinters through high, narrow windows of opaque glass that stretch the full two storeys; the clean, white walls and cool flagstones contribute to a sense of hushed reverence in the presence of so many volumes, ancient and modern, in so many languages. Here is a shrine to literature, an alternative religion for a Portuguese Nobel laureate, who left his homeland 14 years ago in protest at the government's censorship of his novel, The Gospel According to Jesus Christ (it vetoed its submission for the European Literature Prize on the grounds that it was offensive to Catholics).



It takes some effort to believe that Saramago is about to turn 84 - not just because of his vivid physical presence, his barely-lined face and the quickness of his eyes and hands when he talks, but also because of his extraordinary productivity.

Although Seeing is published this week in English translation, he has produced another book in the meantime; Las Intermitencias de la Muerte was published last autumn in Portugal, Spain and Latin America (his Spanish wife, Pilar del Rio, translates his books as he goes along so that they can be published simultaneously for his large Spanish readership), and he is now working on an autobiography entitled Peque?Memorias (Little Memories), about his childhood in rural Portugal.

But the image of the venerable novelist shut away in his island retreat, disengaged from the world, could not be further from the truth. Saramago is about to leave Lanzarote for two months of travelling, as he does most years, in part to promote the new novel, but mainly to speak at conferences and presentations on politics and sociology. 'Most of it doesn't have much to do with literature,' he explains, 'but this is a part of my life that I consider very important, not to limit myself to literary work; I try to be involved in the world to the best of my strengths and abilities.' Still a member of the Communist party, Saramago is a vocal opponent of globalisation and many of his best known novels have taken the form of political allegory. Does he believe that the artist is obliged to take on a political role? 'It isn't a role,' he says, almost sharply.

'The painter paints, the musician makes music, the novelist writes novels. But I believe that we all have some influence, not because of the fact that one is an artist, but because we are citizens. As citizens, we all have an obligation to intervene and become involved, it's the citizen who changes things. I can't imagine myself outside any kind of social or political involvement. Yes, I'm a writer, but I live in this world and my writing doesn't exist on a separate level. And if people know who I am and read my books, well, good; that way, if I have something more to say, then everyone benefits.'

Seeing evolved into a kind of sequel to his 1995 novel, Blindness, in which the inhabitants of a republic that may or may not be Portugal are struck by a temporary epidemic of blindness and quickly revert to barbarism. Seeing revisits the same country four years later as it experiences another unprecedented phenomenon: despite the high turnout for the municipal election, when the votes are counted, more than 80 per cent have been returned blank. This wholesale vote of no confidence in any of the political parties makes a farce of the democratic process and the leaders are forced to declare a state of emergency.

'I was giving a talk about my novel, The Double, in Barcelona,' Saramago remembers. 'I have this habit of only talking about my books for a few minutes, then I prefer to spend the time talking about the world in which we find ourselves, a world which is a disaster, and usually I end up talking about the problem of democracy, whether we truly have a democratic system, and I believe that we don't. And in Barcelona, someone asked me, well then, what do you propose? Because I was saying that, in reality, the world is governed by institutions that are not democratic - the World Bank, the IMF, the WTO. People live with the illusion that we have a democratic system, but it's only the outward form of one. In reality we live in a plutocracy, a government of the rich.'

So what was his solution?

'I answered that I didn't have a solution, except that we, as citizens, do have the power of the vote, but we always use it to vote for one or other of the parties on off er. But there is another possibility, which is to cast a blank vote.' He leans forward and points a stern finger. 'And this is not at all the same as abstention. Abstention means you stayed at home or went to the beach. By casting a blank vote, you're saying that you understand your responsibility, you have a political conscience and you came to vote, but you don't agree with any of the existing parties and this is the only way you have of saying so.

'Then I thought about what would happen if the blank votes went up to 50 or more per cent. It would be a way of saying society has to change but the political powers we have at the moment are not enough to effect this change. The whole democratic system would have to be rethought.' He speaks Spanish with a heavy Portuguese inflection, each sentence composed with precision, not at all like the rather breathless, digressive narrative style that has become a hallmark of his novels. Expounding these theories, he comes across as grave and wise, though when he talks about the problems of poverty in Africa or the volatility of most employment, there flares a passionate anger that has fuelled his lifelong commitment to leftist politics.

But there's a twinkle of humour, too, in his mock sternness with his dog as she scuffles around our feet, and a warmth in his exchanges with his wife, who comes in to offer us coffee; as she turns to leave, he impulsively clutches her hand and gives it an affectionate squeeze. I point out that, for all the brave intentions of the blank voters in Seeing, the novel has a bleak end - the authorities simply revert to force, though the protest has been as peaceful as a protest could be; in the end, it seems to have been in vain. I tell him it reminded me of the anti-war demonstrations in London.

'Yes, it all ends badly, because things are not mature,' he says sadly. 'Here in Spain, 90 per cent of the population was against the war and nobody in power was interested. But look what just happened with the employment law in France - the law was withdrawn because the people marched in the streets. I think what we need is a global protest movement of people who won't give up, who won't leave the streets. In Madrid and London, we marched, we did our duty, then we went home and those in power did nothing.

'But we have to keep on demonstrating and demonstrating and demonstrating' - here he breaks into a rich, throaty laugh - 'there's no solution but to say we do not want to live in a world like this, with wars, inequality, injustice, the daily humiliation of millions of people who have no hope that life is worth anything. We have to express it with vehemence and spend days on the street if we have to, until those in power recognise that the people are not happy.'

In a lifetime of political activism, Saramago has witnessed the struggle from various angles. He grew up as the son of landless peasant labourers in a village north east of Lisbon and, although he published his first novel, Land of Sin, at the age of 23, it was another 30 years until he attempted another. In the meantime, he worked successively as a mechanic, civil servant, metalworker, production manager at a publishing house and a newspaper managing editor, until the politico-military coup of 1975 made it impossible for someone of his political colours to find work.

He turned to writing full time, publishing his second novel, Manual of Painting and Calligraphy, in 1976, and producing plays, poetry, essays and newspaper columns until his 1982 historical novel, Baltasar and Blimunda, brought him international recognition. His most successful novels were all written when he was in his sixties and he won the Nobel Prize in 1998, at the age of 76. Why, after so many years and excursions into different genres, did he decide that the novel was the best form for the ideas he wanted to express?

'I think the novel is not so much a literary genre, but a literary space, like a sea that is filled by many rivers. The novel receives streams of science, philosophy, poetry and contains all of these; it's not simply telling a story.' Saramago is often described as a pessimistic writer. I ask if he feels genuinely pessimistic about the future or if he thinks there could be hope for the left?

'We're not short of movements proclaiming that a different world is possible,' he says, heavily, 'but unless we can co-ordinate them into an organic international movement, capitalism just laughs at all these little organisations that do no damage. The problem is that the right doesn't need any ideas to govern, but the left can't govern without ideas. It's very difficult.

'At 83, I don't hope for much, but you are young, you have to keep a perspective. I don't think this novel is going to change the world, but look - those in power are there because we put them there. If they don't get it right, then out! And let others try. There are plenty of reasons not to put up with the world as it is, and if the book has any kind of message, I suppose that's it."

Marco António Guimarães - "Blindness" - Bach Preludio M1 (OST)



"Uakti, a Brazilian instrumental quintet formed in 1979, (Aguas de Amazona, Mapa & I Ching) and heard on Paul Simon's album The Rhythm of The Saints, provide this evocative score. Julianne Moore and Mark Ruffalo star in the highly anticipated Blindness based on the internationally best-selling novel by Nobel Prize winner Jose Saramago. From Academy Award® nominated director Fernando Meirelles (The Constant Gardener, City of God) comes the compelling story of humanity in the grip of an epidemic of mysterious blindness. The journey shines a light on both the dangerous fragility of society and the exhilarating spirit of humanity. Blindness has a screenplay by Tony Award® winner Don McKellar and features and ensemble cast that includes: Julianne Moore (Far From Heaven, The Hours) and Mark Ruffalo (Zodiac, Reservation Road), with Danny Glover (Dreamgirls, The Color Purple). Blindness recently debuted to critical acclaim at this years Cannes Film Festival. It opens the Toronto Film Festival this September. U.S. nationwide opening is October 3rd."

"José Saramago: o nobel, 10 anos depois" - por Anabela Mota Ribeiro

Aqui, fica o último texto da jornalista Anabela Mota Ribeiro, cujo site, onde estão compilados os seus trabalhos (entrevistas e crónicas, de e sobre personalidades relevantes; publicadas em diversos órgãos de comunicação social), aqui deixo a minha recomendação de visita e leitura.

Publicado originalmente, no Jornal de Negócios, em Outubro de 2008

Link, para consulta em, http://anabelamotaribeiro.pt/62964.html

"José Saramago: o Nobel"

"Um momento de glória. Quando chega a uma escola nova e dá um único erro ortográfico no ditado: escreve “calsse” em vez de “classe”, e passa para a carteira do melhor. “Foi aqui, agora que o penso, que a história da minha vida começou”.
Outro momento. “Quando o PEN Clube me atribuiu o seu prémio pelo romance “Levantado do Chão”, contei esta história para assegurar às pessoas que nenhum momento de glória presente ou futura poderia, nem por sombras, comparar-se àquele. Tinha publicado o “Levantado do Chão” em 1980, ainda tinham que passar 18 anos para que me dessem o Prémio Nobel... Momento de glória, o que é que isso quer dizer?”
A Glória. “Uma sensação de glória só pode ser algo muito fugaz. O que constrói a glória é a visão dos outros. Já que os outros acham que têm motivo para isso, a pessoa começa também a achar. Imaginar que por causa do Nobel é que passei a andar num virote... A minha vida antes já era essa, desde os anos 70, final dos anos 60. Só multiplicou aquilo que vinha sucedendo já. Mas multiplicou por muito, tenho que dizer. Não mudou nada. Nem me pôs defeitos que não tivesse antes, nem introduziu qualidades que não fossem as minhas. A pessoa que sou não mudou. E os meus amigos e todos os que me conhecem podem confirmá-lo. Não tenho pose. Gosto muito quando vou na rua e as pessoas me param: “É só para o cumprimentar, como vai?, gosto muito daquilo que escreve”. São pequenas glórias praticamente quotidianas. Aqui ou em Espanha”.
José Saramago, 2006, em entrevista para o Jornal de Negócios a propósito da publicação do seu livro de memórias. Um livro em que recua até um tempo que deixou de existir. Mas que vive nele, porque ele fez-se nesse “fundo movediço, composto de restos, de detritos de tudo e de todos” onde fica a infância. “E há coisas que estão aí “ipsis verbis”, frases que ficaram durante 70 anos ou mais na minha memória. Até mesmo factos, pessoas e nomes que julgava esquecidos, quando comecei a escavar, de repente, subiram à superfície. O quarto onde se dormia, a varanda que dava para a Rua Heróis de Quionga, na Mouraria, a prostituta que me disse assim, eu tinha doze anos: “O menino quer vir para o quarto?”.
Fez-se na Azinhaga, nos quartos com serventia de cozinha nas casas partilhadas de Lisboa. Fez-se na aspereza dos dias. Na necessidade. Na humilhação. O que ficou desse tempo?
Um sapateiro que lhe perguntou: «Você acredita na pluralidade dos mundos?». A memória reconfortante do avô Jerónimo: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler, nem escrever”. Citou-o no discurso do Nobel. A memória reconfortante da avó Josefa: “Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. (…) E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém”. Memória transformada em carta, publicada n’ A Capital em 1968 e publicada recentemente em postal.
Era um tempo em que José Saramago era Zezito. Que vive nele. Abeirou-se dessas memórias como quem abraça as árvores do seu quintal. “Terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. (...) Que palavra dirá então?”.
A morte rondou-o, há um ano. A gadanha pronta. Tê-lo-ia o inconsciente pressentido quando o parou nas memórias de infância? O consciente afirma que a ideia do livro existia há vinte anos. Mesmo assim. Foi um susto. Pilar agarrou-lhe pelos colarinhos e gritou-lhe que ele tinha de viver. Segurou-o. Novo milagre: o amor a prendê-lo à vida. O primeiro milagre é, segundo Eduardo Lourenço, toda a sua vida.
“Não tive estudos que estavam ao meu alcance e ao alcance da bolsa da família: estudei para ser serralheiro mecânico. Fui serralheiro mecânico. Depois fui várias coisas ao longo da vida. Li muito. Livros meus só os tive quando tinha 19 anos, quando pude comprar, com dinheiro que um amigo me emprestou. Houve dois momentos importantes na minha vida que decidiram tudo. Um deles, não muito consciente, foi o facto de ter deixado de escrever depois de ter escrito esses livros. Durante 20 anos, quase não escrevi. Só voltei a publicar em 1966. O segundo momento foi em 1975, quando, depois do 25 de Novembro, fiquei sem trabalho e sem esperança de o conseguir. “E agora, o que é que eu faço? Tenho aí alguns livros, mas não tenho uma obra, é agora ou nunca”. Durante cinco ou seis anos, talvez sete, vivi de traduções, ao mesmo tempo que ia escrevendo o “Manual de Pintura e Caligrafia”, e o “Objecto Quase”. A sorte foi que o Círculo de Leitores me tivesse convidado para escrever “Uma Viagem a Portugal”, em 1979-80. Foi bem pago, deu-me uma estabilidade económica que me permitiu afrontar durante um ano ou dois o trabalho [da escrita], sem estar a pensar que tinha que ganhar dinheiro_ ele já estava ganho”.
Pilar, “mais do que um anjo, uma mulher. Podia ser qualquer outra, dirá você. Pois, mas é esta. A diferença está aí. De anjo tem muito pouco. É de carácter demasiado forte”. A jornalista espanhola que apareceu na sua vida em 1986. Na agenda pessoal do escritor, permanece a folha de uma árvore, dourada pelo tempo, que assinala esses dias. Era para ter sido no dia 11 de Junho, e ele pensava que ela era Pilar de los Rios. Mas o encontro deu-se, na verdade, dias mais tarde, a 14, e ele riscou sobre o nome e sublinhou numa cor fluorescente: Pilar del Río.
Tudo mudou. Saramago tinha passado os 60, e não podia supor que tinha ainda uma vida inteira para viver. Nunca desligada da criança que havia sido. Nunca desligada das convicções que fizeram dele o homem de convicções que é. “Quero ter tempo para escrevê-la [a obra], reivindico tempo para escrevê-la. Mas não é a única prioridade, eu vivo neste mundo. E o que se passa, em primeiro lugar interessa-me, em segundo lugar impressiona-me, em terceiro lugar indigna-me, e tenho que dar voz a estes sentimentos. Passe-se a questão na América Hispânica, em África, na China. Não é que ande a dar lições de moral a todo o mundo. Limito-me a dizer aquilo que penso. Se tenho algum motivo de orgulho, e creio que tenho direito a tê-lo, é poder dizer que a mim não me calam”.
Pilar já estava quando a expectativa do Nobel existia. O amigo Jorge Amado escreve numa carta, em 1994: “Queridos Pilar e José, ainda não será desta que iremos os quatro, a Estocolmo, festejar o Nobel de José: um japonês nos atropelou. (…) PS: Para dizer toda a verdade, devo convir que os US$950,000 do Nobel cairiam muito bem no bolso de um romancista português ou brasileiro, pobres de marré marré”. Estava quando intelectuais como Susan Sontag os visitou em Lanzarote (1996). Ou quando se deram os encontros com Harold Bloom (2001) e George Steiner (2002).
Saramago estava no aeroporto de Frankfurt quando lhe comunicaram que “pela sua capacidade para tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas suportadas pela imaginação, a compaixão e a ironia” lhe era atribuído o Prémio Nobel da Literatura. No dia 8 de Outubro de há dez anos. O escritor quer continuar a ser o cidadão comprometido que sempre foi: “O Nobel dá-me a oportunidade de ser mais eu”. Em 2004 dirá: “Sim, tenho o Nobel, e quê? Nada mudou”. E por isso não é estranho que durante o banquete, na Suécia, tenha denunciado o incumprimento da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Foi nomeado, agraciado, reconhecido. Filho adoptivo desta e daquela cidade, sócio honorário deste e daqueloutro clube, honoris causa de mil e uma universidades. Recebeu medalhas, condecorações, títulos. Uma imensidão. Quais o terão tocado? Alguns exemplos: Leitor Emérito da Biblioteca Nacional. O Grande Colar da Ordem de Santiago, até aí reservada apenas a chefes de Estado. “Ensaio sobre a Cegueira” foi adaptado por Fernando Meirelles e abriu o último Festival de Cannes. A exposição “A consistência dos sonhos” mostrou numa sequência cronológica a sua vida, primeiro em Lanzarote, depois em Lisboa. Reconciliou-se um pouco com o país. Sócrates disse-lhe: “Gostamos muito de si”. Ele respondeu um “obrigadinho” sentido.
Há uns meses, regressou à ilha. A casa. Escreveu um romance cuja ideia é antiga. “A Viagem do Elefante” é um livro que podia não existir. Há um ano, não se acreditaria que ele existisse. Mas está pronto a sair. Terceiro milagre."

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Outubro de 2008

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Pilar del Río narradora em "La flor más grande del mundo" - Musicado por Emilio Aragón (6/11/2004)


Emilio Aragón le puso música al cuento de José Saramago "La flor más grande del mundo". 
Teatro Real de Madrid, 6 de noviembre 2004
Música: Emilio Aragón
Texto: José Saramago
Orquesta: Escuela de la Orquesta Sinfónica de Madrid
Narradora: Pilar del Rio

Crónica "O factor Deus" - Publicado nos jornais, "Público" e "El País" (18/09/2001)

Publicado nos jornais, "Público" e "El País", em 18 de Setembro de 2001

Aqui, http://www.publico.pt/destaque/jornal/o-factor-deus-161912


"O factor Deus"

"Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova Iorque. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante de tortura, da agónica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova Iorque tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefacção para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdómen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietname cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atómicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazis a vomitar cinzas, daqueles camiões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os taliban, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactado entre a Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da História. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "factor Deus", esse, está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "factor Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "factor Deus" em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "factor Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "factor Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se."

Saramago em Castril - fala de política, de Cuba, e os apelos aos estudantes presentes (24/04/2003)

Crónica no "El País", de Jesus Arias
Castril, 24 de Abril de 2003

"Saramago habla en Castril con más de 300 niños de política y letras"

Aqui, link recuperado no site do jornal "El País",
em, http://elpais.com/diario/2003/04/24/andalucia/1051136560_850215.html



"Dudo mucho que al sistema en que vivimos se le pueda llamar democracia". Así de tajante se mostró ayer el Premio Nobel de Literatura José Saramago durante la presentación del centro cultural que llevará su nombre en el pueblo granadino de Castril de la Peña, a 150 kilómetros de la capital. "No es democracia una situación en la que el poder real, que son las industrias y las multinacionales, prima sobre el poder político", señaló. Saramago también volvió a pronunciarse sobre la situación en Cuba tras la ejecución de tres personas. "No soy yo quien se ha distanciado de la revolución cubana", señaló, "sino ella la que se ha distanciado de sí misma".

José Saramago protagonizó en la mañana de ayer un curioso acto antes de visitar por la tarde la que será sede provisional del centro cultural del pueblo, un proyecto que realizará el arquitecto portugués Álvaro Siza. El escritor se desplazó hasta un colegio público y, en el patio de recreo, se expuso a las preguntas de más de 300 niños de entre cinco y trece años. "El mundo está enfermo hoy", les dijo, "con las guerras y con todo sucede. Será gracias a vosotros si en el futuro el mundo es un poco mejor". El autor de La balsa de piedra, hijo predilecto de Castril desde hace unos años, manifestó que para él era "un grandísimo honor" que el pueblo haya planeado construir un centro cultural con su nombre. Por ahora, en tanto se completa el proyecto de Álvaro Siza, la sede estará en el teatro y en la biblioteca municipal. El alcalde del pueblo, el socialista José Juan Mar, explicó que el centro albergará en el futuro diferentes exposiciones, tendrá talleres para niños, y servirá también para proyectar películas y hacer montajes teatrales. El proyecto definitivo estará concluido en dos años.

El día de ayer fue casi festivo para Castril. Todos los niños del pueblo y anejos del municipio se concentraron en el patio del colegio público Nuestra Señora del Rosario para escuchar las respuestas de Saramago a sus preguntas. "Tenéis que leer mucho, muchísimo. Para llegar a escribir bien es necesario que antes leáis todo lo que podáis". Militante radical por los derechos humanos, Saramago expuso su cruda visión de la realidad actual en el mundo desarrollado. A preguntas de un grupo de periodistas, manifestó: "Dicen que ha terminado la guerra, pero en mi opinión hay dos batallas que deben mantenerse siempre: la de la democracia y la de los derechos humanos. Sin democracia, no hay derechos humanos. Y sin derechos humanos, no hay democracia". "No es democracia una situación en la que el poder real, que son las industrias y las multinacionales, prima sobre el poder político". También criticó duramente al presidente del Gobierno, José María Aznar. "Ahora dice que han ganado la guerra. ¿Cómo se gana una guerra sin haber participado en ella?", se preguntó.

Citador #22 ... ter esperança ou impaciência?

Citador #22
"Caderno"
Caminho, 2.ª edição
Páginas 43 e 44
"Esperanças e utopias", dia 30 de Setembro de 2008

"Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias."

"História do Cerco de Lisboa" na visão do escritor Edmund White - The New York Times (13/07/1997)

Edmund White, escritor norte-americano, publicou a crítica literária, à tradução da obra "História do Cerco de Lisboa", sob o título "O revisor subversivo", alusão directa a Raimundo Silva.
Este aparece mencionado como "um humilde empregado de escritório celibatário, discreto e indeciso, neste caso um revisor que um dia quebra todas as regras da sua profissão e comete um lunático acto criativo".
João Céu e Silva, faz alusão a esta informação, em "Uma longa viagem com José Saramago" - Porto Editora, página 111. 


Aqui, via Wikipédia, link para consulta dos dados do referido escritor, 
em, http://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_White
"Edmund Valentine White III (13 de Janeiro de 1940) é um romancista, escritor de contos e crítico literário, nascido em Cincinnati, Ohio, nos Estados Unidos da América.
A sua obra mais conhecida é, provavelmente, A vida privada de um rapaz, o primeiro volume de uma trilogia autobiográfica que tem continuação com Um belo quarto vazio e Sinfonia a despedida."

Aqui link, directo para consulta do artigo, na página do "The New York Times",


"The Subversive Proofreader", by Edmund White

The story of a humble clerk who decides to rewrite Portuguese history
"The History of the Siege of Lisbon", by Jose Saramago
Translated by Giovanni Pontiero. 314 pp. 
New York: Harcourt Brace & Company


"Like his near contemporaries Franz Kafka and Constantine Cavafy, Fernando Pessoa (1888-1935) was a writer and a clerk, but he encapsulated many different literary personalities. He lived in Lisbon most of his adult life, though he'd been brought up in Durban, South Africa, and his first poems were in English. Pessoa made his living by translating business letters into Portuguese, but in his spare time he wrote poems and prose pieces under many different names and in many styles. For instance, his most famous prose work, ''The Book of Disquiet,'' was written under the name Bernardo Soares.

Although Pessoa is mentioned only once in ''The History of the Siege of Lisbon,'' by Jose Saramago, he is present everywhere in this cryptic, ingenious novel (now translated by Giovanni Pontiero). Here is the single direct reference: ''Raimundo Silva thought to himself, in the manner of Fernando Pessoa, If I smoked, I should now light a cigarette, watching the river, thinking how vague and uncertain everything is, but, not smoking, I should simply think that everything is truly uncertain and vague, without a cigarette, even though the cigarette, were I to smoke it, would in itself express the uncertainty and vagueness of things, like smoke itself, were I to smoke.'' (It should be pointed out that Pessoa smoked 80 cigarettes a day.)

The serpentine whimsicality of this passage establishes the link between Saramago and Pessoa (Saramago's novel ''The Year of the Death of Ricardo Reis'' is named after another one of Pessoa's literary ''heteronyms''; the hero of this earlier novel takes long walks and talks to the dead Pessoa). Like Bernardo Soares, like Pessoa himself, Raimundo Silva is a humble, celibate clerk, described as withdrawn, indecisive, in this case a proofreader who one day breaks with all the rules of his profession and commits a lunatic creative act. While correcting the proofs of a standard history of Portugal, he inserts a single word, ''not,'' which totally derails the national saga. As amended by Silva, the text now reads that the crusaders did not come to the aid of the 12th-century Portuguese King who was laying siege to Lisbon, aiming to expel the Moors from the kingdom.

Only 12 days later does his publishing house discover this grave folly. Now the editors above him no longer trust him, but out of consideration for his many years of faithful service, they decide to give him another chance. And his new boss, Maria Sara, who is in charge of all proofreaders, indicates she is fascinated by his subversiveness. Indeed, she even suggests that he write a new history of Portugal based on the false supposition that all but a few crusaders refused to help the King, who was now outnumbered by the Moors, though still capable of laying siege to the city and starving his enemies into submission."

(Pintura de Alfredo Roque Gameiro, "A Conquista de Lisboa", 1917)


"Raimundo Silva is haunted by her suggestion -- and by her. He writes the new, fictitious history while keeping up his proofreading. And he indulges his obsession with Maria Sara night and day. Saramago's text becomes an ever-shifting blend of straightforward narrative about Silva and Maria Sara in the present, passages from Silva's fanciful history of the past, and Silva's thoughts, which seamlessly slide between present and past, reality and fiction, between himself and Maria Sara and their counterparts in the 12th century, a Portuguese hero, Mogueime, and a concubine, Ouroana. We deduce that the fertility of Silva's historical imagination is prefigured by his long-dormant but now fully awakened feelings for a woman. He writes the happy ending that he and his lover are about to experience.

I found the verbal pierce and parry of the two proofreaders' courtship the most persuasive and vivid aspect of the novel. Saramago has a sure sense of the pleasurable danger of seduction, the fear of offending, the wild hope of wooing, and he renders the lovers' dialogue in long, virtually unpunctuated paragraphs (in which the reader is often not certain who is speaking) that superbly reproduce the delirium of desire: ''My problem in this situation is to know whether I should have blushed before or if I should be blushing now, I can recall having seen you blush once, When, When I touched the rose in your office, Women blush more easily than men, we're the weaker sex, Both sexes are weak, I was also blushing, How come you know so much about the weakness of the sexes, I know my own weakness, and something about the weakness of others.''

The rest of the writing can sometimes seem to be nothing but digressions, although the author scatters plenty of clues that he fully intends his periphrases and divagations. At some point he tells us that a story can be 10 words long or 100 or 100,000 -- that every story, in fact, is infinitely extensible. He jokingly refers to his own long-windedness -- which differs from real pomposity in that it is never dull or humorless.

If Pessoa provides Saramago with the ur-example in Portuguese of heteronymic writing (the assumption of one mask after another), then the blending of past and present and of Islam and Roman Catholicism can be traced to the influence of another living Iberian modernist, Juan Goytisolo, Spain's greatest avant-garde novelist. In book after book (''Marks of Identity,'' ''Landscapes After the Battle'') Goytisolo has played with time and imagined a Europe that embraced rather than rejected its Muslim heritage. Saramago is more a game player than Goytisolo, closer than he to the intertextual vivacity of the Borges of ''Pierre Menard,'' a story about a 20th-century dandy who reinvents ''Don Quixote,'' much as Silva has reinvented the founding myth of Portugal. Word has it that Saramago is overdue for a Nobel Prize; no candidate has a better claim to lasting recognition than this novelist who was born in 1922 but was in his mid-50's before he began to publish the fiction that has won him an international reputation."

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Carta ao "Pai Natal", digo e corrijo, a José Saramago

Carta ao "Pai Natal", a José Saramago

Escrevo-te, e desculpas antecipadas, prestadas pelo tom directo com que me dirijo, mas assim fica mais fácil de me fazer entender, e estando o ano de 2014 nos seus últimos dias, gostava de te deixar algumas perguntas.

Bem sabes, que à "força", os "grandes" gostam de incentivar os "pequenos", em casa ou nas escolas, a escrever cartas ao "Pai Natal da Coca-cola", para que peçam as prendas, os seus desejos e sonhos que só as crianças sabem ter. Elas, a criançada, contrapõem estes pedidos com inocentes e auto-elogiosos discursos de bom comportamento e vontades, geralmente, em tom de duvidosa certeza, para que possam, enfim, justificar uma carrada de presentes. Nestas alturas, os mais irrequietos, julgam-se uns santos apaziguadores, e os mais disciplinados, esses pois, levam pela mesma bitola do escrutínio do elogio dos anteriores.
Só quem não foi criança. não pode alcançar a ilusão destes pecados.

Assim, e em estilo de intróito justificativo, escrevo esta missiva, para que, de alguma forma, e tendo este ano a quem escrever, o meu destinatário possa aclarar esta mente inquieta e ávida de respostas, ou, talvez com um pouco de sorte, me agracie com novas perguntas.

Bem saberás, que sou empiricamente contra a saga do "Pai Natal da Coca-cola", esta figura criada,  e dotada de um poder inebriante junto das pessoas. Não raras vezes, se deve ouvir perguntar, em que parte da fábula do natal, entra o "velho das barbas". Ou, se, ele entra em cena, com os "três reis magos", ou, se é actor de outra versão do espírito natalício.

Por isto, e mais algumas coisas, que bem sabemos, segue esta carta para alguém como tu, tem a capacidade de dar respostas diferentes a perguntas, de tão antigas que são, e de tão gastas respostas dadas, que as mesmas perguntas continuam sem solucionar os respectivos enigmas. Parece-me, mas confesso, que sou bastante distraído, que a mesma pergunta feita durante tanto tempo, à qual as respostas também são sempre as mesmas, criam a alegoria da verdade ilusória. O problema manter-se-á, com base na resposta dada como adquirida e não questionada. Em outro paralelo, posso colocar-te isto, como a rábula da «mentira dita muitas vezes que se torna numa outra verdade».
Daí que, admiro as pessoas, que muitas das vezes não sendo iluminadas, têm o desprendimento de espírito suficiente, que lhes permita fazer perguntas diferentes ou inéditas.
As minhas dúvidas, as minhas questões, as incertezas, os medos, tudo isto e mais algumas outras coisas, têm sido, como que, o meu privilégio surreal de me manter desassossegado e inquieto, como tu bem gostavas que o mundo assim se sentisse.

Ontem, em Pashawar, no Paquistão, 141 pessoas foram executadas por um suposto comando Talibã. Destas pessoas executadas, porque não há outra forma de o expressar, a quase totalidade eram crianças. O massacre deu-se numa escola. Pelo número de mortos, a quantidade de feridos deve ter sido assustadora.
O "contador" da humanidade, fez um sonoro "plim", e deu o desconto destes mortos.
Isto, foi notícia ontem, dia 16/12/2014.
Como sabes, os meios de comunicação social dão destaque a estas atrocidades. As manchetes destes casos continuam a vender. Quanto mais sangue e corpos estropiados à hora dos telejornais, melhor. E quando acontece, as famílias reunidas à frente da televisão a jantar, têm a mesma reacção que se tem a ver um filme Hollywood. Impávidos e serenos.
As várias notícias sobre este assunto, fez a contagem, mostrou sangue e mortos, homens a carregar em braços, crianças estropiadas. Mas, e um mas, muito firme, não houve uma reportagem que perguntasse - Porque? Ou, o que é realmente necessário para que isto não aconteça, nunca mais?
As notícias de hoje, anunciam retaliações do governo paquistanês. Volta a pena de morte. Olho por olho, dente por dente.

No dia anterior, em Sidney, Austrália, aconteceu um sequestro num café. Um suposto religioso muçulmano, barricou-se dentro do estabelecimento, com uma carrada de pessoas reféns, e no final o mais que previsível banho de sangue. 3 mortos e alguns feridos.
Aqui, o "contador" da humanidade, fez outro "plim", e deu o devido desconto.
Não há outra forma de o dizer.
Parece que nestes assuntos, há os executados, as vítimas, e os outros que vão escapando até subir de nível, até serem abatidos.
Ahh, já me esquecia! Tens razão, a pergunta.
Quando, ou melhor, como será possível que deixem de existir mortos em nome de um qualquer deus?
Porque, ao que parece, em pleno século XXI, ainda subsistem alguns deuses, como se de partidos políticos diferentes se tratasse, em que se apresentam pelos seus interpostos fiéis, capazes (estes) de efectuar massacres e execuções, num sinal atroz de poder. Aconteça isto em zonas de guerra, ou num café de uma cidade em paz. 
O que poderá ser feito, para que as guerras religiosas acabem? Estas e as outras, é claro!
Será que a tua obra "In Nomine Dei", se perpetuará para sempre?
De outro lado, numa outra latitude, no Vaticano, o Papa Francisco sopra as velas do bolo de aniversário. Ao todo são 78 anos. Houve festa e tango vindo da Argentina. Orações e afins.

Mudemos de assunto, agora para questões terrenas. Não seriam as outras, também terrenas?
Levo-te até à Califórnia. Estados Unidos da América. Sim, a terra de G.W.Bush, aquele presidente a que dedicaste, no "Caderno", a 18 de Setembro de 2008, uma inserção a que deste o nome de "George Bush, ou a idade da mentira".
É também neste país, que tem como presidente Barack Obama, prémio Nobel da Paz, do ano 2009. Nesse ano, a Academia Sueca fez a seguinte menção na entrega - "for his extraordinary efforts to strengthen international diplomacy and cooperation between peoples". Pasme-se.
O que na altura não entendi, e continuo a não perceber, quais são préstimos à causa da paz que Obama realizou, ou será, que bastou a eloquência ou argumentária dos discursos que efectuou? 
Desculpa-me a franqueza, mas neste capítulo, o do prémio Nobel da Paz, a Academia Sueca deixa muito a desejar. Colocar Obama, com o mesmo título, que Mandela, Dalai Lama, Martin Luther King e mais alguns receberam, é uma afronta.
Continuando. 
Um dos itens que redigiste na "Declaração de Princípios", datada de 29 de Junho de 2007, aquando da instituição da Fundação José Saramago, e passo a citar, é que «mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo».
Vi a notícia da seca brutal, que dura há mais de 3 anos na Califórnia, e recordo-me logo, das tuas intervenções e preocupações, com o meio ambiente, a forma como os seus recursos são espoliados numa sangria desenfreada, afectando, ainda não sabemos como, as futuras gerações, tanto ao nível das alterações climáticas que se agravam a olhos vistos, como, ao nível da disponibilidade efectiva de recursos num futuro próximo.
A água, será, dizem os entendidos, muitas vezes apelidados de catastrofistas e loucos, o "ouro" das próximas décadas. Os povos do sul, tenderão a sofrer com as secas e avanço de terras desérticas, algumas florestas densas, serão cada vez mais confinadas a pequenos santuários de terras.
A noticia da seca na Califórnia, que dura há muito tempo, e com danos irreversíveis em algumas áreas, vem agora à luz do dia, porque a NASA apurou serem necessários 42 quilómetros cúbicos de água para inverter a situação. Este estado tem 38 milhões de habitantes, e estão a serem impostas multas e leis rígidas, para disciplinar/racionar o uso da água. Parece que, por lá, também se ataca a raiz dos problemas, pelo lado errado da questão.
A minha pergunta, que aqui te deixo, à qual não tenho resposta, é muito simples. Talvez, até um pequeno rapaz de tenra idade, a possa formular melhor do que eu. Porém, como é que o país supostamente, mais industrializado do mundo, talvez, o mais evoluído cientificamente; o que detém mais ilustres cientistas e investigadores galardoados com os mais prestigiados prémios; o país com mais recursos económicos, e que, cuja moeda pode ser impressa e inundar os mercados financeiros a seu belo prazer; ou, para não mencionar, o poderio militar, a indústria que o suporta, as guerras em que intervém/patrocina, ou sim, mencionar, o orçamento da Defesa, que tem tantos zeros à direita do algarismo, que torna a soma um buraco negro de recursos, dizia eu, antes de me perder, pergunto eu, como é possível, um país dotado de atributos mil, não ter conseguido inverter o desastre que assola o estado da Califórnia?
Ou, será que este assunto, a demonstração do inevitável rumo que a humanidade está a tomar, alegremente vivendo e consumindo, sob a forma de crédito da natureza, e que será pago, sabe-se lá com que custos e "apocalipses" pelas próximas gerações. Quiçá, os filhos dos nossos filhos, amanhã, muito lamentarão o tamanho egoísmo dos seus avós, homens e mulheres que somos hoje.
Será, que toda a tecnologia existente, ainda assim, neste actual elevadíssimo patamar de desenvolvimento e conhecimento, é incapaz de conseguir inverter e diminuir os impactos ambientais severos, provocados pela seca extrema?
Será que, num futuro poderemos assistir a colonização de outros planetas, sem que este, esteja devidamente curado dos males, que agora, são perceptíveis de padecer?
Sei que não gostas das utopias, consideravas as ideias utópicas, como exercícios de pensamento, algo desnecessários. O que hoje, pode ser considerado como um pensamento ou ideia para a humanidade, daqui a uns quantos séculos, nesse mesmo futuro, quando o presente se tiver tornado, poderiam as tais ideias serem consideradas absurdas ou irrealistas. Gosto da tua ideia, desmistificando o peso da utopia, em que o bem a ser praticado - deve ser para agora, já, para estes homens e mulheres.
Não sendo uma pergunta, concreta, mas um enorme ponto de interrogação, talvez do tamanho deste planeta e da lua, que a nós anda atracada; será que os Estados Unidos da América, nação de tal poder, permite que tal desgraça se manifeste de forma irreversível, no seu próprio território, num estado onde vivem mais de 38 milhões de habitantes, sem que o consigam resolver/reparar? Então, outra questão se levanta. O que será que está a passar no coração de África, onde os holofotes das notícias estão apontados para as pestes e epidemias, mas não sintonizam a devastação que por lá existe? Ou, o estado em que o desflorestação do chamado "pulmão verde do planeta", deixou a floresta Amazónica? Ou, pior ainda, a tentativa que as grandes petrolíferas fazem para avançar com a exploração do petróleo, no polo norte?
Estaremos nós, população mundial, directa e indirectamente a criar condições para o seu próprio extermínio?  
Será que, aquilo que é considerado hoje, de ficção científica, se confundirá com a realidade de um amanhã próximo? Isto, tal como aconteceu no passado, com a ideia herege do padre Bartolomeu de Gusmão, ao criar a "passarola", qual máquina ilusória que colocaria os homens a voar sem que tivessem as asas de Ícaro, quando hoje, a aviação civil é tão banal como andar de bicicleta.

Peço desculpa pelo incómodo, e pelo tempo que te tomo, mas há coisas que me fazem confusão, e as respostas às coisas que me fazem a dita confusão, são tão estranhas como as mesmas perguntas que as antecedem.

Dei por mim, lendo uma notícia, daquelas habituais dos fins de ano, onde se fazem a contabilização de tudo e de nada. Desta feita, o "monstro da espionagem universal", digo, a ferramenta de pesquisa "Google", elencou os termos mais pesquisados a nível mundial, e local, de alguns países. Portugal, também teve à sua lista, ao modo "os 10 mais pesquisados". Então, para nossa satisfação, em 2014 o "Campeonato do Mundo de Futebol", o reality show "Secret Story 5", e a morte do actor "Rodrigo Menezes", foram os três assuntos mais pesquisados. Da lista restante, fica para a história do nosso país, o "blog azul", "NOS", "Novo Banco", "Legionella", "telexfree", IPhone 6" e por fim, a morte do actor "Robin Willians".
Vi a notícia, e... deixa estar, pelos termos pesquisados, não sei que pergunta te posso fazer, a ti que colocaste uma Joana Carda a riscar o chão, o cão das lágrimas a afagar o rosto da mulher do médico, tu que deste corpo a Ricardo Reis, puseste a morte numa posição desconfortável quando se apaixonou por um mero violoncelista, ou chamaste à terra o oleiro Cipriano Algor, os Mau-Tempo, enfim... tantos deles...
Perante isto, que te poderei perguntar?

Meu amigo, José
Meu amigo José, envio-te esta carta, porque ando preocupado.
Ando inquieto com este mundo, desassossegado com tantas questões, e não sei mais o quê, e o que pense destes nossos dias.

José, envio-te esta carta, porque tenho saudades tuas.

Miguel de Azevedo
17 de Dezembro de 2014