Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

«Somos cuentos, de cuentos, contando cuentos: Nada» - Conferência em Oviedo (13/06/1995)


Conferencia de José Saramago (Escritor).
«Somos cuentos, de cuentos, contando cuentos: Nada». 
Presentado por Melchor Fernández, Gustavo Bueno, Miguel Munárriz y José María Laso.

"Oviedo. Casa cheia: duzentas pessoas sentadas, outras tantas de pé. Ambiente invulgarmente afectuoso. Oviedo tem dois braços abertos e um coração de amigo. Um dos dias mais perfeitos que me lembro de ter vivido como escritor «falante»..."
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III" 
Caminho, página 129 (13/06/1995)

Sebastião Salgado e José Saramago (1997)

(Sebastião Salgado, Betinho e José Saramago. 1997)

Texto e fotografia, podem ser consultados, aqui
em http://www.elfikurten.com.br/2011_03_01_archive.html
"Na realidade, acho que sempre fiz a mesma coisa desde que saí do interior, que fui estudar economia, que trabalhei como economista. Como entrei na fotografia, foi mais ou menos a mesma coisa. Eu troquei um instrumento pelo outro, troquei a máquina de cálculo pela máquina fotográfica, mas o discurso continuou mais ou menos o mesmo."
Sebastião Salgado

Ana Sofia Antunes - A primeira governante cega afirma que vivemos uma ‘cegueira branca’ como a de Saramago



"Ana Sofia Antunes protagoniza uma nova era na política portuguesa em que a integração e a inclusão já não são como verbos de encher. Um mês depois de entrar no Governo como secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia já andava pelos corredores do ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social sem fazer uso da bengala ou do braço de alguém. E se no início terá havido excesso de zelo por parte de alguns colegas, depressa todos perceberam que visão política, conhecimento, competência, autonomia e determinação são características que não lhe faltam. Ana Sofia tem andado pelo país a perceber o que deve ser alterado para que as pessoas deficientes tenham as mesmas oportunidades de todos os cidadãos, como o acesso ao trabalho - um dos seus cavalos de batalha. Adepta do rock de “Xutos e Pontapés”, quer fazer política à sua maneira como canta Tim, e revela um lado mais íntimo e pessoal neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Pode ser ouvido através da aplicação Soundcloud, aqui em 

"Logo no arranque deste episódio Ana Sofia Antunes, a primeira governante deficiente visual em Portugal, afirma que a nossa sociedade está contaminada por uma certa ‘cegueira branca’, como a descrita por José Saramago em “Ensaio Sobre a Cegueira”, uma maleita de vistas curtas que nos impede de perceber os outros [diferentes de nós]. Ana Sofia, de 34 anos, é adepta da expressão ‘nada sobre nós sem nós’ e esteve prestes a ser eleita deputada nas últimas legislativas. Colocada em 19º lugar nas listas do PS pelo círculo de Lisboa, foi por um triz que não entrou na Assembleia dado que foram apenas eleitos 18.

Agora no Governo, é o rosto e a voz de todos os portugueses com deficiência em Portugal. Cidadãos que veem nela uma esperança de mudança. "O difícil é gerir as expectativas dos outros." Desde o iníco do ano tem andado pelo país a perceber o que deve ser alterado para que as pessoas deficientes tenham as mesmas oportunidades de todos os cidadãos, como o acesso ao trabalho - um dos seus cavalos de batalha.

O seu caminho enquanto ativista pelos direitos dos deficientes é já longo. Formada em advocacia, trabalhou durante seis anos como assessora jurídica na Câmara de Lisboa (assessorou o vereador da Mobilidade na autarquia, Nunes da Silva), e por dois anos foi Presidente da ACAPO (Associação dos Cegos e Amblíoples) e provedora do cliente na EMEL (Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa).

Nesta conversa, Ana Sofia esclarece a razão por que detesta a expressão invisual. “É uma palavra que não significa absolutamente nada. É o contrário de visual. É uma expressão que fomos inventando porque achamos que é menos grosseira, menos seca. E eu não acho que haja nada de ofensivo ou duro em dizermos que uma pessoa é cega ou deficiente visual. Porque é essa a característica que marca aquela pessoa. Não temos que ter medo das palavras. As palavras dizem apenas aquilo que dizem.”

Sobre o título polémico que foi capa do Correio da Manhã onde se lia “Costa chama cega e cigano para o Governo” e que gerou 236 queixas à entidade reguladora para a comunicação social, Ana Sofia comentou: “Não lhe dei muita importância na altura. Embora me tenha agradado de alguma forma ver que havia um conjunto de população que estava atenta. Não é pelo facto de me chamarem cega, que é a palavra mais adequada. Lido perfeitamente bem com ela. Agora, enquanto pessoa que vem para o Governo assumir uma função, ser valorizada apenas por essa característica acho pouco... E fizeram [o mesmo] a outros colegas. O Carlos Miguel [Secretário de Estado das Autarquias Locais], daquilo que conheço, tem todo o orgulho em ter ascendência cigana. [Mas] ele não é apenas um cigano que vem para o governo. E digo o mesmo sobre o que disseram da ministra da Justiça [Francisca Van Dunem – a primeira mulher negra a chegar a ministra]. Acho uma palermice!”

Nos tempos de infância a secretária de Estado conta que era Maria rapaz, uma menina destemida e alegre que apesar de não ver, corria como as outras crianças, fazia tropelias e até andava de bicicleta. “Claro que caía muitas vezes de bicicleta, era uma condição da situação em concreto.”

Mas na escola era boa aluna. Com notas de excelência. “Não me lembro sequer de estudar em casa. Era daquelas alunas que apanhava no ar [a matéria]. Repare que quem tem uma deficiência visual está condicionado nos materiais que tem e nos livros que recebe em braille. Portanto muito do que eu ouvia ia retendo. Conseguia fazer asneiras na sala de aula e dar atenção [ao professor] ao mesmo tempo. Pelo menos as notas que eram muito boas diziam isso.”

Neste podcast poderá conhecer os gostos musicais de Ana Sofia, que vão de um fado mais moderno ao pop e ao rock. À pergunta se se imagina no futuro a aceitar ou concorrer a outros cargos com mais destaque no Governo responde: “Não sei. Talvez. Para já estou muito focada e condicionada por aquilo que estou a fazer e pelo muito que tenho que fazer neste mandato. Mas não digo que não. Nunca fui de virar costas a desafios. Portanto, porque não?”

Mas há muito mais para ouvir e descobrir neste episódio: para o fazer, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues."

Ana Sofia Antunes - Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência

domingo, 21 de fevereiro de 2016

"Amor não tem nada a ver com idade" de Michelle Oliveratto da revista "Obvious" (2015)

O artigo da revista "Obvious", pode ser consultado aqui,
em http://obviousmag.org/infinito_particular/2015/amor-nao-tem-nada-a-ver-com-idade.html

Link geral da página em http://obviousmag.org/

Autoria de Michelle Oliveratto, aqui mais detalhes da autora
"José Saramago e Pilar Del Río dão um exemplo que a diferença de idade é irrelevante para as escolhas do coração. “Amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira e, se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido e, que tendem a menosprezar o amor como fator de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério."


“Ela nasceu em 1950 e eu em 1922. Tenho uma sensação esquisita quando penso que houve um tempo em que eu já estava aqui e ela não. É estranho pra mim entender que foi preciso passar 28 anos desde o meu nascimento para que chegasse a pessoa que seria imprescindível em minha vida... 

Quando a conheci, eu tinha 63 anos, era um homem já velho. Ela tinha 36 anos. Os amigos me diziam: “Isso é uma loucura, um disparate! Com essa diferença de idade.” E eu sabia, mas não me incomodava. Agora não posso conceber nada se Pilar não existisse. Quando ela não está, a casa se apaga. E quando volta, se reativa”


"Se o amor é essa “coisa” que transcende a questão do tempo cronológico. Que transpõe barreiras, dificuldades e preconceito, onde a prioridade é cuidar do outro, querer o bem do outro e, o fato de estar junto se torna maior do que qualquer outra coisa. E se imaginar longe daquela pessoa é algo inadmissível.

Se o amor é aquele sentimento que contraria o castigo dado por Zeus e todos os deuses e, você vai de encontro com a sua alma gémea, que outrora estava perdida. Independente dos olhares, dedos apontados e criticas, porque sua forma de amar vai contra ao “protocolo” de socialmente aceitável.

Quando movido pelo amor, a permanência deixa de ser escolha e se torna necessidade. Porque viver sem aquela pessoa é possível, porém é inimaginável a ausência daquela presença tão especial, que a vida te preparou por 15, 20 ou 28 anos para sua chegada.

Quando a singularidade se torna plural. Quando a presença se torna luz. Quando as mãos se entrelaçam feito namorados, mesmo depois de mais de vinte anos de união. Quando um toca o rosto do outro com tanta delicadeza, que as pontas dos dedos são capazes de redigir poemas na face.
Quando os olhares se cruzam e neles é possível ver sentimentos que palavra nenhuma traduz. Não por limitação humana, mas porque o amor é santo demais, puro demais para ser traduzido com exatidão por signos linguísticos.

Assim que vejo o amor entre José Saramago e Pilar. Escritor que ultrapassou a sensibilidade demonstrada em suas inúmeras obras e, trouxe para sua vida real. Dando um testemunho de uma história de cumplicidade, amor, companheirismo, devoção e afeição, vivido ao lado de Pilar, que foi retratada em suas obras, depoimentos e até mesmo no documentário: “José e Pilar” de Miguel Gonçalves Mendes. Impossível ver o amor dos dois e não se apaixonar também.
Saramago conheceu Pilar quando tinha 63 anos e, afirma que se tivesse morrido nessa idade, antes de conhecê-la, morreria muito mais velho do que quando realmente chegasse sua hora. A chegada de Pilar em sua vida, fez com que ele ganhasse uma nova vida. Já Pilar, afirma que ao conhecê-lo, sabia que seria para sempre."


"O homem que tinha ideias para romances se uniu com a mulher que tinha ideias para vida, desconhece a linha tênue que separa qual das duas coisas que são mais importantes, optou por simplesmente viver a junção que ambas proporcionam.

Muitos olham para os dois e vê uma mulher jovem que se casou com um homem mais velho, por inúmeros outros motivos, menos amor. Já outros, conseguem ver sem as lentes do preconceito e nota que amor, ou qualquer outro sentimento, não tem nada a ver com idade.

Como Saramago mesmo cita: “Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor... Amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como fator de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.”

Acho um desperdício criar empecilho para o amor. É um fato que dificuldades existem. Nadar conforme a maré exige muito menos sacrifício, mas quem nos prometeu que a vida seria fácil? Estipular idade para relacionamento, como quem define censura indicada para filme é duvidar da capacidade de viver um sentimento tão pleno e raro.

A vida a dois já tem dificuldades suficientes para deixar que interferências externas dite sua forma de amar. Preconceito existe, ilusão seria negar esse fato. Mas a vida é tão rara e breve para fechar a porta na cara do amor só porque o tempo é relativo e para os sentimentos não há regras, não escolhe cor, sexo, idade ou momento certo para aparecer e, querer controlar, isso sim é ilusão e perda de tempo. Certas coisas aparecem simplesmente para serem vividas, desfrutadas e agradecidas.

Saramago e Pilar são um exemplo de coragem, amor que virou filme, livro, nome de rua e um testemunho que sim, não há limites para amar, basta querer e se permitir.

Não me surpreenderia saber que a pedra do jardim vive florida. Assim como essa história de amor e obra deixada por José Saramago floresce em nós."

© obvious: http://obviousmag.org/infinito_particular/2015/amor-nao-tem-nada-a-ver-com-idade.html#ixzz40owa6xVJ 
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Sobre o livro de Bernard Connoly e os ventos políticos que pairavam pela Europa de 1995 - "Cadernos de Lanzarote Diário III" (5/9/1995)

A referida edição encontra-se à venda e disponível, aqui

"The Brussels Commission has just suspended its senior economist, Bernard Connolly, for writing a book savaging the prospects for a common currency. 
There are many who now believe he should be lauded as a prophet." 
Observer, Editorial, 1 October 1995

"Mr. Connolly's longstanding proposition that the foisting of a common currency upon so many disparate nations would end in ruin is getting a much wider hearing..." 
New York Times, 17 November 2011


5 de Setembro (de 1995)

"Dentro de poucos dias será publicado em Inglaterra um livro explosivamente polémico, se a fazenda de dentro vier a corresponder à amostra de fora, isto é, ao título anunciado: O Carcomido Coração da Europa: a Guerra Suja pela Europa Monetária. O autor chama-se Bernard Connolly e faz parte do certamente qualificado grupo de altos funcionários que estão encarregados de gerir a política monetária da União Europeia. Presume-se, portanto, que seja alguém que sabe o que diz. E que diz ele? Diz, por exemplo, que o Sistema Monetário Europeu é uma «monstruosidade económica» e a união monetária um «perigoso logro». E vai mais longe: prenuncia que a união monetária levará a uma batalha aberta entre a França e a Alemanha para conseguir a hegemonia na União Europeia. A Comissão não gostou de vaticínios e opiniões tão contrários aos seus gostos e entregou o caso ao Comité de Disciplina. Ora, independentemente da substância e do mérito dos fundamentos objectivos que assistam ao funcionário rebelde (aliás, seguidor declarado de Margaret Thatcher) para ter formulado tão sombrios prognósticos (chega mesmo ao ponto de dizer que tais conflitos e contradições poderão vir a resultar numa guerra), aquilo que, a meu ver, deveria merecer toda a nossa atenção é a emergência cada vez mais exigente da questão em que toda a gente pensa, mas de que pouquíssimos têm a coragem de falar sem disfarces: a hegemonia sobre a Europa. Que a Alemanha se tenha tornado, por assim dizer, em candidato «natural» a essa hegemonia, é algo tão flagrante que parece já ter adquirido um estatuto de fatalidade inelutável; que a França comece a reagir desesperadamente à perspectiva de continuar, no quadro europeu, a ser o que é hoje, apenas o maior dos menores, e ver agravada a sua dependência política - tudo isto é mais um episódio do velho jogo chamado «quem-manda-na-Europa», a que, ingenuamente, alguns políticos «integracionistas» pensaram poder mudar as regras. E se, como dizia o Eduardo Guerra Carneiro dos antigos tempos, «isto anda tudo ligado», é caso para nos perguntarmos se as bombas atómicas que Paris vai fazer explodir no Pacífico não se destinam, afinal, a ser ouvidas em Bona." (...)

in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 149 e 150 (5/9/1995)



sábado, 20 de fevereiro de 2016

"José Saramago: La amistad y el amor nos sacan de la soledad" - Entrevista via site "Esto Es Puro Cuento"

"José Saramago: La amistad y el amor nos sacan de la soledad."


A entrevista pode ser consultada e lida aqui


—He visto que todos los relojes de esta casa siguen detenidos a las cuatro de la tarde…
—Es la hora en que Pilar y yo nos dimos cita por primera vez. Pilar es el centro de mi vida desde que la conocí hace 17 años. Fue idea mía parar los relojes de esta casa a las cuatro de la tarde. Eso no significa que el tiempo se haya quedado ahí, sino que es como si el reloj marcara la hora en la que el mundo empezó.

—En El año de la muerte de Ricardo Reis usted desliza una frase que no se puede escribir sin haber sentido profundamente lo que está diciendo: «La soledad no es estar solo; la soledad es estar donde ni uno mismo está».
—Hay una soledad ontológica —el ser está ahí—, que nos dice que somos islas, quizá en un archipiélago, pero islas de todos modos. En las islas de un archipiélago se puede establecer comunicación, fuentes, correos, pero la isla está ahí, frente a otra isla. Tal vez el símil es fácil, banal. Las personas viven con esa soledad sin darse cuenta, o dándose cuenta de ella a ratos.


«Hasta ahora hay dos únicas formas que hemos inventado, que a veces funciona y, otras, no funciona más, pero que nos sacan de la soledad: la amistad y el amor. Pero el amor tampoco es una cosa que pueda ocurrir a los 18 años, y mantenerse de la misma forma hasta los 80. Uno tiene dos, tres, o cinco, y a veces más amores en su vida, y todos son eternos.

«Pero a los 63 años, cuando he conocido a Pilar, todo lo que antes había llamado amor —incluso cuando fuera apasionado, loco, imbécil, tonto, disparatado—, todo eso en el fondo era nada, si lo comparaba con lo que me estaba ocurriendo tras el encuentro con esta mujer, extraordinaria desde todos los puntos de vista. Aunque parezca un poco dura, es la bondad en persona, en un sentido muy claro para ella: está en el mundo para ayudar.

«Hay un detalle de su biografía que podría explicar esta postura: ha sido monja, teresiana, durante seis o siete años. Lo dejó poco después de los 20 años, y yo he tenido la suerte de encontrarla.

«La verdad es que, a los 63 años, ¿qué espera la gente de la vida? Nada. Lo que ha vivido lo ha vivido y punto, y ahora a aguantar. Se tiene la idea de que lo que la vida tenía para dar, ya lo dio. Y en este caso, lo que la vida tenía para dar, finalmente, lo dio a partir de esa fecha. Y nuestra relación no es solo amorosa, sino de trabajo».


—Usted ha dicho que no tiene ninguna ilusión en la familia como institución…
—Ninguna, y no es porque en mi caso particular mi familia en el sentido biológico ya esté reducida a una hija que nació en el 1947, prácticamente contemporánea de Pilar, y a dos nietos. Por tanto, esa es la familia. Pero esto me ocurrió desde antes, aun cuando tenía mis abuelos —el abuelo Jerónimo Melrinho y la abuela Josefa Caixinha—, que se han convertido en las figuras míticas de mi vida…


«Fui un niño muy serio, melancólico. Yo salía de mi casa, solo, y me iba por los olivares que coloreaban Azinhaga, mi pueblo —que ya han sido arrancados y sustituidos por otros cultivos. Me iba hasta el río que pasa cerca de mi casa, y hasta más allá, al Tajo. Solo, siempre solo. ¿Qué ha sido verdaderamente mi familia? Mis padres me querían muchísimo, como es natural, pero siempre he tenido la sensación de que la familia no es esto, que no debe ser solo esto.

«Nuestra vida no fue, materialmente, fácil. Y eso crea tensiones. Por otro lado, la adaptación de mi padre, saliendo de un pueblo para irse a vivir a Lisboa, tampoco fue fácil. Dejó el pueblo como una especie de nuevo rico y descubrió otro mundo. Eso complicó un poco su personalidad, con reflejos en la vida íntima de la familia.

«Yo, que a la vez tengo una muy fuerte necesidad de una familia, no tengo el sentido de una familia.

«Por tanto, si hablamos de soledad, puedo decirte que en mi vida nunca he vivido solo y que, por lo tanto, podría decirse que no he tenido la experiencia real y efectiva de la soledad. 
Pero aún así yo la conozco».


—En su literatura, el Sur no es solo un espacio con el que Europa está en deuda, sino un referente ético. Por cierto, el Sur latinoamericano ha sido especialmente receptivo a su obra…
—Todo en mi vida sucedió tarde, pero como tuve y sigo teniendo la suerte de una vida larga, me ha permitido vivir lo que en circunstancias distintas no habría sido posible. Salí por primera vez de las fronteras de mi país a los 47 años, y he logrado viajar a toda la América y descubrir esa otra isla desconocida que yo quería tener. La relación que tengo con los lectores latinoamericanos es extraordinaria. En México ya no soy Saramago; soy José.


«La última novela, El hombre duplicado, se presentó en Buenos Aires, en el Teatro Colón, que es uno de los más grandes del mundo. Caben más de 4 000 personas. En la presentación de un libro que no es más que eso, un libro, y no hay copas y yo no canto, y tampoco bailo, el teatro estaba totalmente lleno y quedó gente fuera, sin poder entrar. ¿Se imagina lo que es entrar en un teatro y encontrarse 4 000 personas solo por un libro? Eso generó en mí un sentimiento apabullante de responsabilidad. No puedo defraudarlos. Lo que escribo, por tanto, es para ellos».


—Creo que fue en México donde fundamentaba la idea de que está en armonía con un mundo que no le gusta. Y, efectivamente, usted es de los pocos intelectuales que dice abiertamente lo que piensa.
—No creo que seamos tan pocos, lo que pasa es que somos pocos los que, siendo muy conocidos, tenemos esa postura. No faltaron escritores que criticaron abiertamente la guerra contra Iraq, pero eso no trasciende, no es noticia internacional. Se ha creado una opinión engañosa de que solo esos tres o cuatro que aparecen en la prensa, son los que están contra el poder. Detrás de ellos hay muchísimos. Lo que pasa es que solemos comparar fácilmente los tiempos de ahora con los de los años 60…

—Saramago sigue siendo «un comunista recalcitrante», como lo llamó L’Osservatore Romano.
—Así me llamaron, pero yo diría mejor que soy un comunista libertario. Alguien que defiende la libertad de no aceptar todo lo que venga, sino que asume el compromiso junto con tres preguntas que deben ser nuestras guías en la vida: ¿Por qué? ¿Para qué? ¿Para quién? Esas son las tres preguntas básicas, y efectivamente, uno puede aceptar un conjunto de reglas, y disciplinadamente acatarlas, pero tiene que mantener la libertad de preguntar: ¿Por qué? ¿Para qué? ¿Para quién?

—Y habiéndose hecho las preguntas, ¿ha prefigurado a partir de ahí alguna utopía?
—Le confieso que hay dos palabras que no me gustan nada: «utopía» y «esperanza». Y no me gusta «utopía» porque la misma palabra lo está diciendo: es algo que está en algún lugar que no se sabe dónde. Es algo que siempre se está posponiendo, algo así como: «llegará el tiempo en que uno será feliz, no habrá hambre y la justicia respetará la dignidad humana». Todas esas cosas tontas, toda esa retórica que ya cansa. Eso no es para ahora. Lo vas a tener. ¿Y cómo sabes tú que lo vas a tener? ¿Por qué me prometes para el año 2400 algo que tú no sabes? No digas que está ahí, esperándome. Dime mejor qué estás haciendo hoy, ahora, y si lo que estás haciendo hoy, ahora, va en esa dirección. Si es así, estupendo. Vamos a trabajar, sabiendo que hay árboles que plantamos y que tal vez su sombra no nos acoja, porque su crecimiento es muy lento, y que tal vez tampoco comeremos de su fruto. Pero, no obstante, lo plantamos porque esperará algún día por otros.

—Eso significa, que usted de todas formas no es tan pesimista como lo pintan…
—El problema, Rosa, es que el mundo no muestra ese espíritu del cual te hablaba. Digo que hemos llegado al final de una civilización, y sobre lo que viene después no tenemos ninguna idea. Puede incluso que en el futuro sobrevenga un nuevo arrianismo. ¿Quiénes se van a beneficiar, por ejemplo, de la ingeniería genética? ¿Los que se están muriendo de hambre en este mundo? —por cierto, ¿sabe que cada cuatro segundos se muere alguien de hambre? ¿Se beneficiarán los hambrientos con la ingeniería genética, o los otros, los altos, los guapos y los rubios?

—Terminemos esta entrevista rescatando algún sentido para las palabras que nos han sido robadas, como dice Eduardo Galeano. Quiero invitarlo a que las recomponga o le dé su propio significado…
—Bien…

—Izquierda.
—Duda.

—Derechos Humanos.
—Te doy una respuesta más larga. Le diría a los partidos de izquierda que todo lo que se le puede proponer a la gente está contenido en un documento burgués que se llama Declaración de los Derechos Humanos, aprobado en el año 1948 en Nueva York. No se casen con más propuestas. No se casen con más programas. Todo está dicho allí. Háganlo. Cúmplanlo.

—Libertad.
—A por ella.

—Saramago.
—Hace lo que puede.

Revista Blimunda Edição #45 Fevereiro 2016 (para ser descarregada gratuitamente)

(Capa da edição #45 Fevereiro 20016)


Sinopse da edição, apresentada pela Fundação José Saramago, e que pode ser descarregada
"A Blimunda de Fevereiro estreia uma nova secção, “Os livros do Desassossego”. A começar, o músico Mário Laginha mostra quais alguns dos livros que o acompanharam no concerto que integrou o programa dos Dias do Desassossego do passado mês de novembro.

O Museu Nacional de Arte Antiga lançou recentemente uma campanha, pioneira em Portugal, de financiamento coletivo para a aquisição do quadro «Adoração dos Magos», de Domingos Sequeira. A Blimunda entrevistou António Filipe Pimental, diretor do MNAA, sobre esta iniciativa e sobre os desafios de dar mais visibilidade a um dos mais importantes museus portugueses.

Fora dos grandes grupos editoriais e longe das cadeias livreiras dominantes há um rico universo na área da banda desenhada. Dezenas de autores asseguram os seus projetos de edição, tirando partido da democratização dos meios de produção gráfica. A Blimunda conversou com O Clube do Inferno, uma das mais conceituadas editoras underground de Portugal.

A VII edição da Ilustrarte, Bienal Internacional de Ilustração para a Infância, teve como tema involuntário as casas, com todo o poder simbólico que elas representam. Neste número da revista visitamos as várias moradas construídas por ilustradoras e ilustradores.

Neste mês de fevereiro chega às livrarias o ensaio Aprende, aprende o meu corpo. Sobre o Amor na Obra de Saramago, de autoria de Óscar Aranda. Esta edição da revista publica o prefácio da obra, um texto de Helder Macedo sobre o Feminino na obra do autor de Ensaio sobre a Cegueira.

Boas leituras e até Março."

(Epígrafe da edição)


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Cavaco Silva presta vassalagem à censura

Aqui reacção e testemunho de Pilar del Río, via Jornal de Negócios, 
em http://www.jornaldenegocios.pt/economia/politica/detalhe/pilar_del_rio_qualifica_condecoracao_de_cavaco_silva_a_sousa_lara_de_triste_fim.html

"Parece que tem uma mala cheia de condecorações que tem de entregar antes de se ir embora", ironizou Pilar del Río, em declarações ao Negócios, sobre a toada de homenagens que tem ocupado Cavaco Silva nestes dias que antecedem o fim do seu mandato presidencial.
Esta tarde, o Presidente entregou a Ordem do Infante D. Henrique a Sousa Lara, cujo mandato no último Executivo de Cavaco Silva ficou marcado pela polémica relacionada com o veto do então número dois da Cultura ao livro "O Evangelho segundo Jesus Cristo", da autoria de José Saramago, que em 1998 venceria o prémio Nobel da Literatura.
"Coitados, um e o outro", foi a frase escolhida pela jornalista espanhola para se referir à distinção hoje entregue em Belém por Cavaco Silva a Sousa Lara. Ainda assim, Pilar del Río diz-se "muito feliz que esteja a fechar-se este parêntesis da história de Portugal", referindo-se ao final do mandato de Cavaco que culmina no próximo dia 9 de Março.
Este final da era cavaquista é qualificado como um "triste fim", com Pilar del Río a acrescentar que "não é um fim pela porta pequena, mas por uma janela escondida". Mas mais do que uma crítica a Sousa Lara, a antiga companheira do consagrado escritor português considera que "o problema é de quem outorga".

Do site da Presidência da República, aqui

"Presidente (Cavaco Silva) agraciou personalidades da Academia e da Cultura e Casa do Artista
O Presidente da República condecorou, no Palácio de Belém, um grupo de personalidades da Academia e da Cultura, bem como a Casa do Artista.

Foram agraciadas as seguintes entidades, com os respetivos graus das Ordens Honoríficas:
(...)
- Prof. Doutor António Costa de Albuquerque de Sousa Lara, Professor Catedrático – Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (...)

O vídeo da polémica, via YouTube, aqui

"Quando o senhor sub-secretário de estado, Sousa Lara, era inevitável dizer o nome, me acusa a mim de ter divido os portugueses, esqueceu, esqueceu-se, ou talvez não tenha lido nunca o Evangelho segundo São Mateus, ou talvez tenha lido uma antologia dos evangelhos todos, conspurgada dos elementos perturbadores, e então talvez não tenha lido nunca que Jesus declarou que não vinha trazer a paz mas a espada."
José Saramago

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Do Cacém para o mundo... "José Saramago Memorial 2016" por Odeith

O video do "making of" do mural, pode ser visualizado via YouTube, aqui

Pintura mural dedicada a José Saramago.
Agradecimento a junta de freguesia Agualva Cacém.

"Podemos muito mais do que imaginamos"

To view more visit 
Odeith Official website - http://www.odeith.com

Fotografia de João Reis

Religião e Deus - Respostas à revista Panorama a propósito da apresentação da ópera "Divara" no Festival de Ferrara (1995)

Religião e Deus
Respostas à revista Panorama a propósito da apresentação da ópera "Divara" no Festival de Ferrara Publicado nos "Cadernos de Lanzarote Diário III" (1995)


31 de Março (de 1995)
"A propósito da próxima representação de Divara no Festival de Ferrara, a revista italiana Panorama faz-me algumas perguntas, a saber:

a) Porquê, da parte de alguém que se afirma ateu, tão grande interesse pelas questões religiosas?; 

b) Divara denuncia a intolerância religiosa no século XVI, ou é uma metáfora da actualidade?; 

c) Quais são o maior merecimento e o maior perigo da fé?; 

d) Se a fé religiosa comporta a conversão de quem não crê, pode um homem de fé ser realmente tolerante?; 

e) Tendo em conta as ameaças do integralismo, é possível esperar que chegue um tempo de respeito pelas diferenças de raça, opinião e religião?; 

f) Que pensa do antagonismo, sublinhado pelo papa na sua recente encíclica, entre «lei de Estado» e «lei moral»?; 

g) Finalmente, em que crê? 

Com a certeza de que me vou repetir, mas com a certeza igual de que a repetição nunca prejudicará a clareza, eis o que respondi: 

a) A mim o que me surpreende é precisamente o pouco interesse que os ateus demonstram em geral pelas questões religiosas. Só porque um dia se declararam ateus, passaram a comportar-se como se a questão tivesse ficado definitivamente arrumada. O meu ponto de vista é diferente. O facto de eu negar a existência de Deus não faz com que a Igreja Católica desapareça, nem tem seguramente qualquer influência nas convicções (na fé, quero dizer) dos seus fiéis. A religião é um fenómeno exclusivamente humano, portanto é natural que provoque a curiosidade de um escritor, ainda que ateu. Além disso, há uma evidência que não deve ser esquecida: no que respeita à mentalidade, sou um cristão. Logo, escrevo sobre o que fez de mim a pessoa que sou. 

b) Desgraçadamente, Divara não pode ser entendida como uma mera reconstituição histórica nem como uma metáfora. O estado do mundo mostra-nos como a evocação de manifestações de intolerância ocorridas há quatro séculos tem, afinal, uma flagrante actualidade. Realmente dá que pensar o pouco que aprendemos com a experiência. 

c) O maior merecimento da fé, como ideologia que é, está na capacidade de fazer aproximar seres humanos uns dos outros. O seu maior perigo encontra-se no orgulho de considerar-se a si mesma como única e exclusiva verdade, e portanto ceder à vontade de poder, com todas as consequências. 

d) A fé religiosa não comporta apenas a vontade de conversão de quem não crê, comporta também a vontade de conversão daqueles que seguem outra religião. Atitude, a meu ver, totalmente absurda. Se há Deus, há um só Deus. Logo, equivalem-se todos os modos de adorá-lo. Por isso mesmo, um crente, qualquer que fosse a sua religião, deveria ser um exemplo de tolerância. Não é assim, como todos os dias se vê. E ouso dizer que ninguém é mais tolerante que um ateu. 

e) O integralismo não é só islâmico, a intolerância não é praticada apenas por aqueles que andam a matar em nome de Alá. Hoje mesmo, sem chegar aos crimes que mancham o seu passado, a Igreja Católica continua a exercer uma pressão abusiva sobre as consciências. Respeito pela diferença de raça, de opinião e religião não o prevejo para um futuro imediato, nem sequer próximo. Continuaremos a ser intolerantes porque não que-remos compreender que não basta ser tolerante. Enquanto formos incapazes de reconhecer a igualdade profunda de todos os seres humanos não sairemos da desastrosa situação em que nos encontramos. 

f) A história da humanidade é um processo contínuo de transformação de valores. É verdade que o tempo que vivemos se caracteriza pelo desaparecimento de valores tradicionais, sem que apareçam, de uma forma clara, valores novos capazes de informar eticamente as sociedades. Porém, esse antagonismo apontado pelo papa não é de hoje, mas de sempre. Alguma vez, na História, a «lei de Estado» coincidiu com a «lei moral»? Ou será que o pensamento de João Paulo II se orienta agora no sentido duma «cristianização» dos Estados laicos? Se assim é, deveria começar talvez por «cristianizar» o seu próprio Vaticano. 

g) Creio no direito à solidariedade e no dever de ser solidário. Creio que não há nenhuma incompatibilidade entre a firmeza dos valores próprios e o respeito pelos valores alheios. Somos todos feitos da mesma carne sofrente. Mas também creio que ainda nos falta muito para chegarmos a ser verdadeiramente humanos. Se o seremos alguma vez..."
In, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 80 a 83 (31 de Março de 1995)

"Outra maneira de ver e ler a cidade" de Eula Carvalho Pinheiro - Sobre o "Ensaio sobre a Cegueira" Revista Blimunda #21 (Fevereiro 2014)

Recuperação do trabalho realizado por Eula Carvalho Pinheiro, académica e estudiosa da obra de José Saramago, e que elaborou esta visão e abordagem sobre a obra "Ensaio sobre a Cegueira" denominada "Outra maneira de ver e ler a cidade".
in, "Revista Blimunda"
Fundação José Saramago, páginas 60 a 69
Edição #21, Fevereiro de 2014


Capa do artigo da académica Eula Carvalho Pinheiro

O presente trabalho, pode ser consultado e descarregado, aqui

"Mas estamos realmente cegos. Cegos da razão, da sensibilidade, de tudo aquilo que faz de nós, não um ser razoavelmente funcional no sentido da razão humana, mas ao contrário, um ser agressivo, egoísta, um ser irracional. E o espetáculo que o mundo nos mostra é precisamente este. Um mundo de desigualdades, um mundo de sofrimento sem justificação." (1)
José Saramago

(Capa da obra de autoria de Eula Carvalho Pinheiro)

Há dez mil anos (aproximadamente), o homem constatou que se jogasse sementes à terra poderia multiplicar a quantidade de alimento, e, assim, aumentar as chances de sobrevivência. Acontecia, pois, a primeira grande transformação: a Revolução Agrícola, na qual o instrumento de produção era a ferramenta – movida pelo braço do homem – e a terra o bem mais precioso. Nesse período – entre 8000 a.C. e 6500 a.C. – registra-se o surgimento da cidade: entre as primeiras estão Çatalhüyük na Anatólia, atual Turquia; Mehrgarth, Paquistão, Sul, um dos assentamentos agrários mais antigos da Ásia; Jericó, a primeira cidade cercada por fosso e muro, na Palestina. 
Muitos milênios depois disso, pouco antes de 1800 d.C., surge uma nova ruptura no processo de produção: o surgimento da máquina movida por força não-humana. Esse momento foi denominado de Revolução Industrial. Lembremos, por exemplo, da invenção do trem – século XIX – e das transformações daí decorridas: o homem tem a possibilidade de conhecer mais rapidamente outros lugares viajando por terra; a Europa se faz conhecida; pintores descobrem o sol do Mediterrâneo; o homem sai de casa para trabalhar. O capital é o elemento fundamental nesse contexto. Enfim, há massiva urbanização e ascensão de novas grandes cidades (primeiramente na Europa). Isso, necessariamente, se faz representar na literatura com maior ênfase.
Renato Cordeiro Gomes afirma:
"As relações entre literatura e experiência urbana tornam-se mais contundentes e radicais na modernidade, quando a cidade transformada pela Revolução Industrial se apresenta como um fenômeno novo, dimensionado na metrópole que perde o seu métron. A desmedida do espaço afeta as relações com o humano. Sob o signo do progresso, alteram-se não só o perfil e a ecologia urbanos, mas também o conjunto de experiências de seus habitantes. Essa cidade da multidão, que tem a rua como traço forte de sua cultura, passa a ser não só o cenário, mas a grande personagem de muitas narrativas, ou a presença encorpada em muitos poemas." (2) 

Dessa segunda revolução para cá, as transformações se intensificaram sobremaneira. Hoje, estamos diante da terceira: a Revolução da Informação, na qual o conhecimento – mais que a terra e o capital – se faz imprescindível, porque as fronteiras do saber e do não-saber são tênues, ou seja, elas estão em constante processo de mudança – um conceito pode ser modificado no dia seguinte. Devemos, então, nos atualizar continuamente a fim de mantermo-nos «conectados» ao mundo: «os tempos mudaram muito ultimamente, há que atualizar os meios e os sistemas, pôr-se a par das novas tecnologias» (Intermitências da Morte, p. 137). Já não se faz preciso sair de casa: as imagens chegam em tempo real pela tela da televisão, do computador; e, assim, com semelhante precisão a comunicação se realiza entre as várias regiões do mundo; parece que voltamos a produzir dentro do nosso habitat.
O intelectual contemporâneo, consciente desse processo, lê a cidade e a materializa em linguagem: cinematográfica, pictórica, musical, discursiva. Essa representação reflete, necessariamente, esse novo mundo: um só mundo com inúmeras particularidades. Nesse sentido, a Literatura, em particular a escrita de José Saramago nos romances Ensaio sobre a Cegueira, Intermitências da Morte, A Caverna, Ensaio sobre a Lucidez, materializa em linguagem a cidade: não mais identificando, em geral, pessoas e lugares, mas constrói textos nos quais pessoas e lugares são um e todos ao mesmo tempo, ou seja, a não-nomeação, o anonimato; significa dizer que uma determinada situação pode estar ou acontecer em qualquer parte. Renato Cordeiro Gomes afirma essa tendência no título Todas as Cidades, a Cidade: literatura e experiência urbana, obra de 1994; e ratifica essa postura quando afirma:
"Percebe-se hoje, que a cidade para ser cenário da narrativa não necessita de presença encorpada. Sua ausência deixa, entretanto, todas as suas marcas: a violência, a solidão, a ausência de valores morais, a exacerbação do sexo, nenhum traço de humanismo, a perda da philia, a cidade compartilhada; enfim, são corroídos os traços que poderiam identificar uma identidade forte, traços que se tornam débeis, rarefeitos. E, essa cidade é toda e qualquer, não há mais necessidade de descrição de um cenário que localize identidades."

Fotografia junto a antigo mural, outrora situado perto da
Fundação José Saramago - Lisboa

Em Ensaio sobre a Cegueira, «A mulher do médico disse ao marido, O mundo está todo aqui dentro» (ESC, 102). O manicômio, assim, como um microcosmo, representa o que acontece ou que pode acontecer em qualquer parte. Nesse lugar estão inseridos, além das pessoas portadoras do «mal-branco», a indiferença, o isolamento, impostos pelas autoridades:
"O médico disse, As ordens que acabamos de ouvir não deixam dúvidas, estamos isolados, mais isolados do que provavelmente já alguém esteve, e sem esperança de que possamos sair daqui antes que se descubra o remédio para a doença." ESC, 51
"O médico disse, Todos ouvimos as ordens, aconteça o que acontecer, uma coisa sabemos, ninguém vos virá ajudar, por isso seria conveniente que nos começássemos a organizar já, porque não vai tardar muito que esta camarata esteja cheia de gente, esta e as outras" [...] ESC, 52 

Além disso, o fato de as personagens não possuírem nomes próprios também corrobora a ideia de que uma pessoa pode ser qualquer pessoa: «os nomes, que importa os nomes» (ESC, 65); «Um, fez uma pausa, parecia que ia dizer o nome, mas o que disse foi, Sou polícia, e a mulher do médico pensou, Não disse como se chama, também saberá que aqui não tem importância.» (ESC, 66). A personagem mais destacada do romance sempre será nomeada de «a mulher do médico». Uma vez mais, a mulher se destaca na narrativa saramaguiana, confirmando o que ficara registrado no romance Memorial do Convento: «Deus quando quer não precisa de homens, mas de mulheres ele não pode dispensar-se nunca.»
"Os outros cegos chegaram juntos. Tinham-nos apanhado nas suas casas, um após o outro, o do automóvel, primeiro de todos, o ladrão que o roubou, a rapariga dos óculos escuros, o garotinho estrábico, este não, a este foram-no buscar no hospital onde a mãe o levou. A mãe não vinha com ele, não tivera a astúcia da mulher do médico, declarar que estava cega sem o estar, é uma criatura simples, incapaz de mentir, mesmo para seu bem." ESC, 48
"Também não surpreenderá que busquem todos estar juntos o mais possível, há por aqui mais afinidades, umas que já são conhecidas, outras que agora mesmo se revelarão, por exemplo, o ajudante da farmácia foi quem vendeu o colírio à rapariga dos olhos escuros, no táxi do motorista foi o primeiro cego ao médico, este que disse ser polícia encontrou o ladrão cego a chorar como uma criança perdida e quanto à criada do hotel, foi ela a primeira pessoa a entrar no quarto quando a rapariga dos óculos escuros desatou aos gritos." ESC, 67

«A mulher do médico» será, no interior do manicômio, os «olhos», e depois de lá saírem também, pois será ela quem conduzirá pela cidade as pessoas atingidas pelo «mal-branco» (quando este mal já tiver atingido a totalidade de uma determinada população por contágio) que dela estiverem próximas:
[...] "eu sou, unicamente, os olhos que vocês deixaram de ter, Uma espécie de chefe natural, um rei com olhos numa terra de cegos, disse o velho da venda preta, Se assim é, então deixem-se guiar pelos meus olhos enquanto eles durarem, por isso o que proponho é que, em lugar de nos dispersarmos, ela nesta casa, vocês na vossa, tu na tua, continuemos a viver juntos" [...] ESC, 245

Durante uma longa caminhada pela cidade – percurso necessário para se chegar à casa do médico e de sua mulher –, «a mulher do médico» vira ruas repletas de lixo, soubera pelo «velho da venda preta» de outras calamidades, mas o que mais a chocou foi o fato de presenciar cães a comerem um homem e, por isso, ao chegarem em casa diz 
[...] "vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o" [...] ESC, 262

O romance Ensaio sobre a Cegueira do título às páginas que o compõem está permeado por palavras do campo semântico do OLHAR; a própria epígrafe – ficcionalmente criada – «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.» traz essa evidência. Nesse sentido, não bastam os olhos para ver, se não houver sensibilidade capaz de identificar o que está escrito nas ruas: «na verdade os olhos não são mais do que umas lentes, umas objectivas, o cérebro é que realmente vê» (ESC, 70). Em As Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino essa postura também está registrada
"O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso e, enquanto você acredita estar visitando Tâmara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes."

A dicotomia olhar – ver perpassa toda a narrativa; chegando, inclusive, a deixar evidente que na falta da capacidade de ver outros sentidos substituem a visão; a audição é um dos exemplos possíveis. Os ruídos da cidade são reconhecidos, identificados, mesmo que não se esteja vendo; são, pois, familiares, fazem parte do dia-a-dia de seus habitantes.
"Por experiência, o cego sabia que a escada só estaria iluminada enquanto se ouvisse o mecanismo do contador automático, por isso ia premindo o disparador de cada vez que se fazia silêncio. A luz, esta luz, para ele, tornara-se em ruído. [...] Um carro parou na rua, até que enfim, pensou, mas acto contínuo estranhou o barulho do motor, Isto é diesel, isto é um táxi, disse e carregou uma vez mais o botão da luz." ESC, 20

Leitura de trecho da obra em homenagem a José Saramago

De igual forma existe a dicotomia claro – escuro; luz – sombra; haja vista a própria condição imposta pelo “mal-branco” como ficara conhecida esse tipo de cegueira: no lugar da treva o branco absoluto.
[...] "esta cegueira é branca, precisamente o contrário da amaurose, que é treva total, a não ser que exista por aí uma amaurose branca, uma treva branca" [...] ESC, 28

"As horas foram passando, um após outro os cegos adormeceram. Alguns tinham tapado a cabeça com a manta, como se desejassem que a escuridão, pudessem apagar definitivamente os sóis embaciados em que os seus olhos se haviam tornado. As três lâmpadas, suspensas do tecto alto, fora do alcance, derramavam sobre os catres uma luz suja, amarelada, que nem era capaz de produzir sombras." ESC, 76 

Por outro lado, metáforas como «luzes escassas» são encontradas no sentido de pouco conhecimento como em «o misterioso território da neurocirurgia, acerca do qual não possuía mais do que luzes escassas» (ESC, 29); ou, ainda, «às cegas», ou seja, sem convicção, sem precisão: «Por enquanto não lhe receitarei nada, seria estar a receitar às cegas» (ESC, 24). 
A cidade se destaca em dois momentos, antes da epidemia do «mal-branco » e depois de algum tempo de permanência da cegueira total. Primeiramente descreve-se uma cidade na qual o trânsito se fazia confuso e uma provável poluição visual provocada pelos anúncios luminosos era também registrada:
[...] "os passeios estavam todos ocupados por automóveis, não encontraram espaço para arrumar o carro, por isso foram obrigados a procurar sítio numa das ruas transversais" [...] ESC, 13
"Fizera-se noite quando saiu do consultório. Não tirou os óculos, a iluminação das ruas incomodava-a, em particular a dos anúncios." ESC, 31

Depois de algum tempo, devido ao «mal-branco», tudo isso se agrava: «Os transportes estão um caos, respondeu o velho da venda preta, e passou aos pormenores, aos casos e aos acidentes » (ESC, 126); a cidade chega ao ápice do caos: pára.
[...] "daí em diante não se ouviu mais um ruído de motor, nenhuma roda, grande ou pequena, rápida ou lenta, voltou a pôr-se em movimento. Aquelas pessoas que antes costumavam queixar-se das dificuldades cada vez maiores do trânsito, peões que à primeira vista pareciam não levar rumo certo porque os automóveis, parados ou andando, constantemente lhes cortavam o caminho, condutores que, depois de terem dado mil e três voltas até conseguirem descobrir um local onde arrumar enfim o carro, se tornavam em peões e passavam a protestar pelas mesmas razões deles depois de terem andado a reclamar pelas suas" [...] ESC, 127 

O caos em que a cidade acaba por encontrar-se agrava-se ainda mais; são ruas repletas de lixo, de mau cheiro, de pessoas a vagar sem direção, indefesas, chega-se, por fim, ao fundo de uma situação de degradação e humilhação. 
No entanto, os sobreviventes dessa epidemia têm a oportunidade de voltarem a ver, pois a cegueira, segundo a narrativa, é reflexo do medo: «o medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos » (ESC, 131). O medo, então, parece acabar pois
"Se eu voltar a ter olhos, olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver-lhes a alma, A alma, perguntou o velho da venda preta, Ou o espírito, o nome pouco importa, foi então que, surpreendentemente, se tivermos em conta que se trata de pessoa que não passou por estudos adiantados, a rapariga dos óculos escuros disse, Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos." ESC, 262

No final do romance, as pessoas voltam a ver. Contudo o médico apresenta sua visão dessa situação vivida: «Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem» (ESC, 310).
Aí está, uma vez mais, uma cidade que pode ser qualquer cidade.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. 2.ª ed. Trad. Diogo Mainard. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
DOCUMENTÁRIO Janela da Alma de Jaó Jardim e Walter Carvalho, 1999.
GOMES, Renato Cordeiro. Cartografias Urbanas: representações da cidade na Literatura. In. SEMEAR (Edição eletrônica).
WWW.letras.puc-rio.br — Acesso em 14 de janeiro de 2008.
SARAMAGO. José. Memorial do Convento. 7.ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989.
SARAMAGO. José. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SARAMAGO. José. As Intermitências da Morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
NOTAS
1. Depoimento presente no documentário Janela da Alma de João Jardim e Walter Carvalho, 1999.
2. GOMES, Renato Cordeiro. Cartografias Urbanas: representações da cidade na Literatura.
3. Idem. Idem. p. 3

Ciclo "El intelectual y su memoria" com José Saramago - UGR Universidade de Granada (Facultad de Filosofía y Letras - 1999)

Pode ser visualizado aqui via YouTube, aqui

Ángela Olalla entrevista a José Saramago 
(Universidad de Granada, Facultad de Filosofía y Letras, 1999)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

"Lembranças de Saramago, meu professor" de Joan Morales Alcudia (Revista Blimunda #21 Fev./2014)


(Capa do artigo - Página 70)

O artigo de Joan Morales Alcudia, está disponível para consulta e leitura na "Revista Blimunda" (páginas 70 a 75) aqui 

"No verão do ano 2000, José Saramago orientou na Universidade Menéndez Pelayo de Santander, Espanha, um curso de literatura. Foram quatro dias de encontros, em que o escritor conversou com cerca de 170 alunos sobre a sua obra e o seu ofício. O catalão Joan Morales Alcudia foi um dos presentes. Treze anos depois, o professor espanhol decidiu compartilhar aquela experiência com os demais leitores e admiradores de Saramago. Escutou com atenção as fitas que guardava em casa e que registavam as palavras do Prémio Nobel de 1998, acrescentou ao material comentários e impressões suas, e publicou o livro Saramago por José Saramago (El Páramo, 2013). Morales escreveu para esta edição da Blimunda um texto em que recupera lembranças daqueles dias com o «professor» Saramago. 

Tive a sorte de ser aluno no curso que José Saramago orientou no Palácio da Magdalena da Universidade Menéndez Pelayo de Santander no ano 2000. Éramos por volta de 170 os privilegiados que assistimos àquelas aulas. O título do curso era «José Saramago, os modos e os fins de sua escrita». Nele, José, durante quatro dias, em jornadas de manhã e de tarde, foi-nos desfiando os segredos de cada um dos seus romances. Transcorridos mais de treze anos sobre aquele curso, a memória e as anotações que fiz na época servir-me-ão agora para ativar as recordações de dias inesquecíveis.
 
Quando penso em Saramago no papel de professor, a primeira coisa que me vem à cabeça é a capacidade didática que tinha. Como conseguia enlaçar um discurso coerente, cheio de matizes, e no qual cabia quase tudo: desde a ironia mais fina até à indignação mais sentida. Um discurso que não precisava de anotação prévia para aparecer em sala de aula com total naturalidade e que, como ele mesmo nos confessou, era construído em torno do facto de «estar pensando em voz alta».
 
O Nobel era capaz de falar horas e horas e fechar o círculo da sua intervenção com a frase com que havia começado o discurso. Jamais vi alguém falar daquela maneira. Era uma sensação agradável, singular: como se estivesse a redescobrir o valor real da linguagem e das palavras. Uma multidão de emoções surgiram naquela sala onde Saramago nos foi debulhando a sua obra. Ideias e emoções que podíamos compartilhar no momento dos debates: «São doze menos um quarto. Agora vamos às conversas. Vamos conversar, já era hora. Eu não sei como orientar isso, mas... Não sei como se organiza isso, mas vamos a organizar-nos, claro, não há um microfone? Não há?»
 
Debates nos quais houve momentos para tudo: para rebater o fundamento da crença, para tentativas de pedantismo acompanhadas de sinais mal dissimulados de promoção pessoal, para o riso, para a reflexão... Mas, acima de tudo, para a dúvida. Saramago já nos havia alertado a respeito quando afirmou, nem bem iniciado o ateliê, que não sabemos para que nascemos: «À exceção, está claro, de um príncipe que, se não vem a República, nasceu para Rei, nasceu para ser Rei.» 

No entanto, talvez nasçamos, sim, para dizer o que somos. Para que alguém nos escute. Para ficarmos fugazmente fixados na memória dos homens. Para ser um conto cuja única finalidade seja a de ir passando de geração em geração até desaparecer. Como dizia José em um dos seus escritos: somos contos de contos. 

A minha vida no Palácio da Magdalena transcorreu, naqueles dias de verão, entre o diagnóstico certeiro e uma das mais lúcidas reflexões em torno do estado do mundo que alguma vez ouvi: 
O que eu digo quando digo que «o homem não tem remédio», é que o homem não tem remédio na circunstância atual. Como vivemos, o que estamos fazendo com a vida. Não temos remédio porque o remédio ainda não foi encontrado. E eu penso que a única circunstância que poderá levar-nos a encontrar o remédio é o reconhecimento, não direi da totalidade dos seis bilhões mas de uma maioria de pessoas, de que para onde estamos a levar a Terra,o mundo, e a vida, chegaremos ao desastre. Desastre que já se anuncia, que já está por aí, mas que chegaremos ao desastre total.

Um consenso no qual, em palavras do próprio Saramago, os meios de comunicação também têm um papel muito importante a jogar: 
Os meios, os meios, o que chamamos de meios... A televisão serve-nos todos os dias o nosso prato sangrento de um, dois, três ou quatro mortos e de tudo isso. E nós lamentamos muito, protestamos inclusive contra essa violência. Ou seja: «este mundo»... Mas aonde quero chegar é que há que se fazer algo mais. Há que fazer algo mais. E volto aos meios, que têm toda a responsabilidade do mundo, porque dão a notícia e ponto, nada mais. Pode ser que comentem em algum editorial que ninguém lerá. Mas uma postura didática, no sentido positivo, mais positivo que tenha dos meios... Os meios não têm de simplesmente dar a informação e deixar que cada um faça dela o que quiser. Têm que ter uma responsabilidade, ou duas: a responsabilidade da opinião, da informação, e a responsabilidade acrescida do dever de ter uma opinião sobre isso. Porque se os meios não dão o exemplo de ter uma opinião, a cidadania não encontra motivo para tê-la. Aprendemos com o que vemos. Aprende-se com o que está a acontecer. A aprendizagem faz-se sempre com o outro. É o outro que nos ensina por aquilo que está a fazer e pelo que sabe, ou pelo que soube. Se os jornais, a televisão, dizem: aqui está a informação, e pronto, a informação não basta. E tampouco quero que um jornal, uma televisão, me deem a opinião que tenho que ter. Não se trata disso. Mas isso não os isenta de ter e de expressar uma opinião. Porque só no confronto de opiniões é que podemos ter uma ideia mais ou menos próxima do que sabemos, de que sabemos em que mundo estamos, e que, mais ou menos, sabemos que vida é esta que levamos.

No meio disso, e enquanto se gerava tal consenso, a maioria dos ali presentes gastávamos o nosso tempo buscando a felicidade:
– Perdão que o interrompa, mas somos uma história de nós mesmos, da pequena infância, das frustrações da vida, que às vezes impedem que cheguemos a ser felizes.
– Às vezes impedem o quê?
– Às vezes impedem que sejamos felizes. Perguntei no ano passado sobre isso, sobre a felicidade...
– Bom, você quer uma vida sem frustrações?
– Não, eu tenho muitas. Tenho muitas frustrações, por isso é que lhe perguntei precisamente sobre a felicidade. Ao senhor, que é um Prémio Nobel. Eu não tenho uma resposta.
– Não, mas veja só... Eu repito o que disse antes, para mim a palavra felicidade é uma palavra vazia de conteúdo. Vazia de conteúdo. O que é isso? Que é isso de felicidade? E quanto tempo dura? E em que circunstâncias? E com quem? E para quê? E como? Sim, quando eu digo que em lugar de felicidade eu prefiro dizer harmonia, harmonia onde o conflito pode estar, é uma harmonia que nasce... Olhe só, vamos ver. Se eu digo que estou mal, que estou mal no mundo onde estou a viver é difícil dizer: mas como é que você, se se sente mal no mundo em que vive, pode falar de harmonia? Eu diria que é outro tipo de relação. Eu vivo em harmonia com a minha ideia de mundo, com uma ideia de humanidade, com uma ideia de consciência que talvez um dia possa realizar-se, ou que talvez não se venha a realizar, porque é um equívoco meu. Mas a felicidade... eu às vezes digo que não resiste a uma dor de dentes. Pois, frustrações... disso a vida está cheia, não?

Também me recordo como a sala se enchia de silêncio, especialmente de cada vez que entrava Deus em cena: 
Mas eu creio que a invenção de deus, que é uma invenção humana, é realmente algo verdadeiramente assombroso. É que chegámos a inventar deus! É que não só inventámos a televisão – que é uma espécie de deus, claro: um deus um pouquinho mais pequeno, um pouquinho mais pequeno. Por causa da morte natural, pelo facto de que não podemos viver mais do que o que temos que viver, e que essa vida eterna não é a do corpo. Será outra coisa, ou seria outra coisa. Mas nós somos o corpo. Somos o corpo. Que o corpo seja o habitáculo da alma, bom, tudo bem, de acordo. É-me indiferente. Mas sem o corpo, não chegamos a lugar nenhum. Inclusive, o cérebro, onde está? É material, não é espírito. Porque se levássemos dentro da cabeça um espírito no lugar dessa coisa um pouquinho repugnante que é o cérebro humano, essa coisa cinza, mole, que não sabemos por que funciona, se no lugar disso levássemos um espírito, se a cabeça fosse oca, se fosse oca, mas tivesse dentro um espírito imaterial, porque como espírito que era... Ou seja, pois sim: tudo está muito claro! Não, é tudo química! É tudo química!

Foram dias intensos aqueles em Santander. Dias a partir dos quais a química dos nossos cérebros, provavelmente, não voltou a ser a mesma. Uma química que, no meu caso pessoal, acabou por se transformar em paixão. Nesse sentido, Saramago converteu-se, para mim, além de um referente ético imprescindível, nesse farol tão necessário para sair das trevas que nós, seres humanos, fomos criando ao longo da história. Procuremos na sua obra, e encontraremos os caminhos para abandonar o reino da escuridão. Pessoalmente posso compartilhar o seu pensamento, mas sempre me parecerá insuficiente diante do que José Saramago me ofereceu naquele verão do ano 2000. Muitíssimo obrigado por tudo, Don José."


Também pode ser consultado anterior post, sobre Joan Morales Alcudia, aqui

«Recuperação do momento do lançamento da obra 
"Saramago por José Saramago" de Joan Morales Alcúcia»

A notícia pode ser consultada e lida, através do site "La Voz de Lanzarote", aqui