Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quinta-feira, 10 de março de 2016

José Saramago e o seu "Camões"


“Entra, chegaste à tua casa”: assim entrou Camões na vida de José Saramago. 
No momento em que Manuel Maria Carrilho, ministro da Cultura de Portugal, anunciava a José Saramago que lhe tinha sido concedido o maior galardão literário da língua portuguesa" (...)
(...) "O animal entrou pela porta aberta do jardim, mexendo sem jeito as pernas, um pouco desajeitado, feliz por ninguém o maltratar. Quando Saramago apareceu a anunciar que tinha recebido o Prémio Camões, soubemos, soubemo-lo nesse instante, que o cão que tinha encontrado a sua casa não ia ter outro nome que o do grande poeta português. E assim, pelo menos em Lanzarote, Camões foi mencionado centenas de vezes por dia, foi vida e foi homenagem. E este cão doce e nobre, que nunca aprendeu a comer devagar porque até chegar à Casa tinha tido que lutar contra a fome e o abandono, com a sua gravata branca desenhada no pelo negro, que foi o modelo para “O Achado” d’ A Caverna, um cão que, como todos os cães que Saramago inventa, é a melhor resposta animal à melhor consciência humana" (...)

O presente texto, de Pilar del Río, pode ser recuperado através da página da 
Fundação José Saramago, aqui

Feira do Livro de Oslo "Contar a vida de todos e de cada um" Ideias sobre Ficção e História (Cadernos de Lanzarote Diário III - 28/10/1995)

O presente texto, pode ser consultado na página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/contar-a-vida-de-todos-e-de-cada-um/
Está também presente no livro "Cadernos de Lanzarote Diário III", dia 28 de Outubro (Caminho, páginas 180 a 190), relacionado com a sua visita à Feira do Livro de Oslo, acompanhado por Odd Karsten Krogh (editora Cappelen).

"Contar a vida de todos e de cada um"

"Venho falar-vos de História e de Ficção. Venho falar-vos, sobretudo, das ambíguas relações que vêm mantendo nos últimos tempos, uma com a outra, a Ficção e a História, ao ponto de já nos perguntarmos se não estará a haver na História demasiada Ficção e, por outro lado, equilibrando a dúvida, se haverá na Ficção suficiente História… Parecer-vos-á talvez isto um mero jogo de palavras, mas espero, se conseguir levar ao fim os meus raciocínios antes que se acabe a vossa paciência, vir a reunir umas quantas razões que defendam o tema e o absolvam das primeiras suspeitas.

Consideremos, em primeiro lugar, a História como Ficção. Trata-se de uma proposição aparentemente temerária, que poderia mesmo introduzir de modo sub-reptício a insinuação de que não há diferenças substanciais entre Ficção e História. Concluiríamos, neste caso, provavelmente fazendo nascer um novo caos, que tudo no mundo seria Ficção, que nós próprios não seríamos mais do que produtos sempre cambiantes de todas as ficções criadas e a criar, tanto as nossas como as alheias. Seríamos, simultaneamente, os autores e as personagens de uma Ficção Universal sem outra realidade do que ter-se constituído como uma espécie de mundo paralelo. Embora reconheça existir no que acabo de dizer algo do espírito de paradoxo, tentarei pôr do meu lado alguns argumentos acaso dignos de atenção.

Desde logo, de acordo com esta hipótese, a primeira tarefa do historiador seria seleccionar factos, trabalhando sobre aquilo que denominarei tempo informe, quer dizer, esse Passado a que apeteceria chamar puro e simples, se isso não fosse uma contradição em termos. Recolhidos os dados considerados necessários, a segunda tarefa do historiador seria organizá-los de modo coerente, obedecendo ou não a objectivos prévios, mas, em qualquer caso, transmitindo sempre uma ideia de necessidade inelutável, como a expressão de um Destino. Não esqueçamos que tais selecções de factos se exercem, em regra, sobre consensos ideológicos e culturais concretos, os quais fazem da História, entre os diversos ramos do conhecimento, o menos capaz de surpreender.

É indiscutível que o historiador estará obrigado, sempre e em todos os casos, a escolher factos entre factos. É igualmente óbvio que, ao proceder a essa escolha, ele terá de abandonar deliberadamente um número indeterminado de dados, algumas vezes em nome de razões de classe ou de Estado, ou de natureza política conjuntural, outras vezes acatando, conscientemente ou não, as imposições duma estratégia ideológica que necessite, para justificar-se, não da História, mas de uma História. Esse historiador, na realidade, não se limitará a escrever História. Ele fará História. O historiador, desde que consciente das consequências políticas e ideológicas do seu trabalho, tem de saber que o Tempo que assim esteve a criar vai aparecer aos olhos do leitor como uma lição magistral, a mais magistral de todas as lições, já que o historiador surge ali como definidor de um certo mundo entre todos os mundos possíveis. Nesse outro acto de Criação, o historiador decide o que do Passado é importante e o que do Passado não merece atenção.

Algumas vezes, no entanto, este poder autoritário parece não ser bastante para libertar-nos daquele horror ao vazio que, sendo uma das características dos povos primitivos, vem, afinal, a encontrar-se em não poucos espíritos cultivados. Um historiador como Max Gallo começou a escrever romances para equilibrar pela Ficção a insatisfação que lhe causava o que considerava uma impotência real para expressar na História o Passado inteiro. Foi buscar às possibilidades da Ficção, à imaginação, à elaboração sobre um tecido histórico definido, o que sentira faltar-lhe como historiador: a complementaridade duma realidade. Não estaria muito longe deste sentimento, suponho eu, o grande George Duby, quando, na primeira linha de um dos seus livros, escreveu: Imaginemos que… Precisamente aquele imaginar que antes havia sido considerado um pecado mortal pelos historiadores positivistas e seus continuadores de diferentes tendências.

Tenho ouvido que existe uma crise da História, tão grave que ameaça matá-la, ou a matou já… Se assim é – e eu não sou ninguém para ousar pronunciar-me sobre tão transcendente questão –, interrogo-me se tal crise não será causa directa, ainda que não única, da ressurreição, em condições diferentes e com diferentes resultados estáticos, daquilo a que, erradamente a meu ver, continuamos a chamar «romance histórico». E também, se não se tratará, afinal, de uma expressão particular doutra crise mais ampla: a da representação, a crise da própria linguagem como representação da realidade.

Ora, se a crise existe (a da História, ou outra, geral, de que aquela seria apenas uma manifestação parcelar), se em tudo o que nos rodeia é possível encontrar conexões com esta impressão de fim de um tempo que andamos a sentir – então talvez se torne mais claro por que nos estamos voltando para o romance dito histórico, levados por uma ansiedade que decerto faria sorrir com algum desprezo intelectual, se ainda fossem deste mundo, os que, no século passado, fervorosamente acreditavam no Progresso. Olhar-nos-iam com piedade, perguntariam como foi possível que, das sólidas certezas que eles tinham, tivesse nascido esta insegurança que nós temos.

Sou autor de um livro que se chama Viagem a Portugal. Trata-se de uma narrativa de viagem, como tantas que se escreveram nos séculos xvii e xviii, quando a Europa começou a viajar dentro da Europa, e os viajantes descreviam as suas experiências e aventuras, produzindo de caminho alguns documentos literários preciosos, inclusive para o estudo da história das mentalidades. Foi com um espírito afim que viajei por Portugal, foi igualmente com esse espírito que escrevi Viagem a Portugal.

O livro não é, portanto, um roteiro, um guia de viajantes, embora, necessariamente, contenha muito do que se espera encontrar nesse tipo de textos. Fala-se de Lisboa, do Porto, de Coimbra, das cidades do meu país, fala-se das aldeias, das paisagens, das artes, das pessoas. Imaginemos agora que o autor resolveu fazer nova viagem para, terminada ela, escrever outro livro, mas que, nessa segunda viagem, não visitará nenhum dos lugares por onde tinha passado antes. Quer dizer, nesta segunda viagem, o autor não irá a Lisboa, não irá ao Porto, não irá a Coimbra, não irá a nenhum lugar onde já tivesse estado. Contudo, parece-lhe que, com toda a legitimidade, poderá tornar a dar, a esse novo livro, o título de Viagem a Portugal, uma vez que de Portugal continua a tratar-se… Levemos mais longe o jogo e imaginemos que o autor fará uma terceira, uma quarta, uma quinta, uma décima, uma centésima viagem, obedecendo sempre ao princípio de nunca ir aonde foi antes, e que escreverá outros tantos livros, em que, por fim, inevitavelmente, deixará de haver qualquer alusão a nomes de lugares habitados, nada a não ser a simples descrição de uma imagem, aparentemente sem quaisquer pontos de identificação com a entidade cultural e histórica a que damos o nome de Portugal. A pergunta derradeira será esta: pode ainda o centésimo livro chamar-se Viagem a Portugal? Respondo afirmativamente: podemos e devemos chamar-lhe Viagem a Portugal, mesmo que o leitor não consiga reconhecer nele, por mais atento que esteja à leitura, o país que lhe foi prometido no título…

Este jogo, ainda que à primeira vista não o pareça, tem muito que ver com a relação que mantemos com a História. Diria eu que a História, tal corno foi escrita, ou – repetindo a provocação – tal como a fez o historiador, é o primeiro livro. Não esqueço, obviamente, que o mesmo historiador poderá fazer, ele próprio, outras viagens ao tempo por onde antes viajou, esse tempo que, graças à sua intervenção, vai deixando de ser tempo informe, vai passando a ser História, e que as novas visões, os novos pontos de vista, as novas interpretações irão tornando cada vez mais densa e substancial a imagem histórica que do Passado nos vinha sendo dada. Nas grandes zonas obscuras que sempre existirão, mesmo no que se supõe já conhecido, é que o romancista terá o seu campo de trabalho.

Creio bem que o que está subjacente a esta nova inquietação é a consciência que temos da impossibilidade duma reconstituição plena do Passado. E que, não podendo reconstituí-lo, somos tentados – sou-o eu, pelo menos – a corrigi-lo. Quando digo corrigir, corrigir o Passado, não o é no sentido de emendar os factos da História (essa nunca poderia ser a tarefa de um romancista), mas sim, se se me permite a expressão, introduzir nela pequenos cartuchos que façam explodir o que até aqui parecia indiscutível; por outras palavras, substituir o que foi pelo que poderia ter sido. Certamente se argumentará que se trata de um esforço gratuito, inútil, uma vez que o que hoje somos não resultou do que poderia ter sido, mas do que efectivamente é . No entanto, é minha convicção de que se a leitura histórica feita pelo romance for uma leitura crítica, essa nova operação poderá provocar uma espécie de instabilidade, de vibração temporal, uma perturbação causada pelo confronto entre o que sucedeu e o que poderia ter sucedido, como se os factos começassem, saudavelmente, a duvidar de si mesmos…

São duas as atitudes possíveis ao romancista que escolheu, exclusiva ou acidentalmente, os caminhos da História: a primeira, discreta e respeitosa, consistirá em reproduzir, ponto por ponto, os factos históricos conhecidos, sendo a ficção, nesse caso, mera servidora duma fidelidade que se deseja a salvo de acusações de falta de rigor de qualquer tipo; a segunda, mais ousada, levará o autor a entretecer num tecido ficcional que se vai manter predominante os dados históricos que lhe servirão de suporte. Num caso como no outro, porém, estes dois vastos mundos, o mundo das verdades históricas e o mundo das verdades ficcionais, aparentemente inconciliáveis, serão harmonizados pela instância narradora.

Está aqui, a meu ver, a questão essencial. Conhecemos aquele narrador que se comporta de um modo imparcial, que vai dizendo o que acontece, conservando sempre a sua própria subjectividade fora dos conflitos de que é espectador e relator. Mas há um outro tipo de narrador, muito mais complexo, que não tem uma voz única: é um narrador que parece substituível, um narrador que o leitor vai reconhecendo constante ao longo da narrativa, mas que muitas vezes lhe dará a impressão estranha de ser outro. Digo outro porque ele variou de ponto de vista, podendo chegar até a criticar o ponto de vista daquele que foi primeiro narrador. Esse narrador instável será também o instrumento ou o sopro de uma voz colectiva. Será igualmente uma voz particular que não se sabe donde vem e que se recusa a dizer quem é, ou usa de arte bastante para levar o leitor a sentir-se identificado com ele, a ser, de algum modo, ele. E pode, enfim, mas não explicitamente, ser a voz do próprio autor: este, que fabricou todos os seus narradores, não está reduzido a saber só o que as suas personagens sabem, ele sabe que sabe e quer que isso se saiba… 

O que aconteceu, o que acontece e o que acontecerá. Graças a esta forma de conceber, não apenas o tempo histórico, mas o Tempo tout court projectando-o, por assim dizer, em todas as direcções, autorizo-me a pensar que o meu trabalho no campo do romance é capaz de produzir algo como uma oscilação contínua em que o leitor directamente participa, graças a uma contínua provocação que consiste em ser-lhe negado, por processos que são sempre de raiz irónica, o que primeiro lhe havia sido dito, criando no seu espírito uma impressão de dispersão da matéria histórica na matéria ficcionada, o que não só não significa desorganização de uma e de outra, como aspira a ser uma reorganização de ambas.

Admito que a declaração inicial, de ser o historiador um seleccionador de factos, pareça demasiado crua e chocante. Direi, então, em termos mais técnicos, citando um teórico da literatura, que «o historiador realiza uma rarefacção do referencial, criando uma espécie de malha larga, perfeitamente tecida, mas que envolve espaços de obscurecimento ou de redução dos factos». Ora, deste ponto de vista, parece-me bastante pertinente dizer que a História se nos apresenta como um parente próximo da Ficção, porquanto, ao «rarefazer o referencial», procede a omissões voluntárias de que irão resultar modificações no panorama do período observado, com a forçosa consequência do estabelecimento de relações diferentes entre os factos «sobreviventes». Aliás, é interessante verificar como certas escolas históricas recentes começaram a sentir-se inquietas quanto ao rigor efectivo duma História como a que vinha sendo feita. Lendo esses historiadores, temos a impressão de estar diante de um romancista dado aos temas históricos, não porque eles escrevam História romanceada, mas porque reflectem uma insatisfação tão profunda que, para aquietar-se, teve de abrir-se à imaginação, uma imaginação que manterá como suporte essencial os factos da História, mas que abandonará a sua antiga e exclusiva relação com eles, de sujeição resignada ao império em que se tinham instituído. Não faltará quem considere que, por esta via, a História se tornou menos científica. É uma questão em cuja discussão não me atreveria a participar. Como romancista, basta-me pensar que sempre será melhor ciência aquela que for capaz de me proporcionar urna compreensão dupla: a do Homem pelo Facto, a do Facto pelo Homem.

Quando olho o Passado, a impressão mais forte é a de estar perante um imenso tempo perdido. A História, e também a Ficção que busca na História o seu objecto, são, de alguma maneira, viagens através do tempo, percursos, definições de itinerários. Apesar de tanta História escrita, apesar de tanta Ficção sobre casos e pessoas do Passado, é esse tempo enigmático, a que chamei perdido, que continua a fascinar-me. Para dar um só exemplo, interessa-me, claro está, a batalha de Austerlitz, mas interessar-me-ia muito mais conhecer as pequenas histórias que vieram a ser consequência dessa História de formato grande, alcançar uma compreensão real das inúmeras e ínfimas histórias pessoais, desse tempo angustiosamente perdido e informe, o tempo que não retivemos, o tempo que não aprendemos a reter, a substância mental, espiritual e ideológica de que afinal somos feitos.

É fácil dizer – eu próprio cedi algumas vezes à comodidade de tão flagrante tautologia – que, sendo certo que fora da História nada existe, toda a Ficção é, e não pode deixar de ser, «histórica». Mas não têm faltado espíritos sarcásticos para insinuar que um romancista que trabalhe literariamente sobre a História procede assim por necessidade de evasão, por incapacidade de entender o Presente e de se adaptar a ele, do que resultaria ser o «romance histórico» o mais acabado exemplo de fuga à realidade. É uma acusação tão fácil quanto habitual. Pelo contrário, é precisamente uma consciência intensíssima, dolorosa, do Presente, que leva este romancista a olhar na direcção do Passado, não como um inalcançável refúgio, mas para conhecer-se melhor. Não estou a dizer nada de original. No seu livro O Mediterrâneo, Fernand Braudel escreve, com a simplicidade duma revelação, algumas linhas que resumem quanto aqui tenho dito: «A História não é outra coisa que uma constante interrogação dos tempos passados, em nome dos problemas, das curiosidades, e também das inquietações e angústias com que nos rodeia e cerca o tempo presente».

Observe-se como tal definição poderia ser transportada, palavra por palavra, para o Romance. Direi igualmente que o «romance histórico», também ele, «não é outra coisa que uma constante interrogação dos tempos passados, em nome dos problemas, das curiosidades, e também das inquietações e angústias de que nos rodeia e cerca o tempo presente». Assim sendo, História e Romance seriam tão-somente expressões da mesma inquietação dos homens, os quais, como múltiplos Janos bifrontes, voltados a uma e a outra parte, e do mesmo modo que tentam desvendar o oculto rosto do Futuro, teimam em procurar, na impalpável névoa do Tempo, um Passado que constantemente se lhes escapa e que hoje, talvez mais do que nunca, quereriam integrar no Presente que ainda são.

Benedetto Croce escreveu um dia: «Toda a História é história contemporânea». É também à luz destas palavras reveladoras que tenho vindo a realizar o meu trabalho de escritor, embora esteja pronto a reconhecer que o Mestre merecia um aluno mais capaz e que a lição teria o direito de esperar frutos mais saborosos."
José Saramago

José Saramago : «Il faudrait réformer la démocratie» - Lucie Geffroy entrevista José Saramago para o "L’Orient Littéraire" (02/08/2007)

"Primeiro, gosto das mulheres. Penso que elas são mais fortes, mais sensíveis e que elas têm mais bom-senso do que os homens. Todas as mulheres do mundo não são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são um negócio de homem. Durante séculos, a mulher teve de pedir licença ao seu marido ou ao seu pai para empreender o que quer que fosse. Como pudemos viver tanto tempo a condenar a metade da humanidade à subordinação e à humilhação?"
"José Saramago: ‘Il faudrait réformer la démocratie"
”, L’Orient le Jour, Beirute, 2 de agosto de 2007 - Entrevista realizada por Lucie Geffroy

Fotografia © Hannah / Opale

A entrevista pode ser aqui consultada, via
http://www.lorientlitteraire.com/article_details.php?cid=6&nid=5853

"Aux points cardinaux d’une bibliographie épaisse, éclectique et baroque, on compte un roman culte, Le dieu manchot, un vibrant hommage à Pessoa (L’année de la mort de Ricardo Reis), une version subversive de l’Évangile (L’Évangile selon Jésus-Christ) et une fable toute kafkaïenne (Tous les noms). La lucidité, son dernier roman traduit en français, une fois de plus mené tambour battant avec des dialogues qui s’enchaînent sans guillemets et un récit qui bascule brutalement dans le fantastique, est un autre livre de colère où l’auteur s’insurge cette fois-ci contre la prétendue démocratie... Avec la simplicité qui caractérise les grands hommes, José Saramago a reçu L’Orient Littéraire dans sa petite maison de Lisbonne. À 84 ans, il n’a rien perdu de son mordant.

Vous avez dit de La lucidité, traduit en français fin 2006, qu’il s’agissait de votre livre le plus subversif. Pourquoi ? 
Dans nos sociétés, les hommes politiques et les médias ont beaucoup de motifs de se taire. Certains sujets sont comme entourés d’une enveloppe de silence. La briser, c’est faire acte de subversion. Avec La lucidité où j’imagine que 80% des électeurs votent blanc, on a pensé que j’étais favorable à la généralisation du vote blanc et donc un ennemi de la démocratie. Je ne fais pas l’apologie du vote blanc. Je dis seulement qu’il est important de le distinguer de l’abstention. Les gens qui votent blanc prennent le soin de sortir de chez eux, de se déplacer et de déposer un bulletin qui signifie : ce que vous me proposez ne m’intéresse pas. En France, le vote blanc est considéré comme nul. Je trouve cela scandaleux !

Justement, votre roman peut se lire comme une critique acerbe d’un système démocratique en décadence. La démocratie est-elle en danger selon vous ? 
Non, elle n’est pas en danger, mais elle est amputée, dévoyée. Elle est devenue une comédie. Les candidats font des promesses et les oublient aussitôt. Ce n’est pas vrai que nous vivons en démocratie. Nous nageons en pleine ploutocratie. Or le citoyen est la première victime du mensonge généralisé. Qu’est-ce que la guerre en Irak, sinon un énorme mensonge ? Nous vivons à une époque où l’on peut discuter de tout sauf de la démocratie. Qu’est-elle devenue ? À quoi sert-elle ? Si on se posait ces questions, on arriverait à la conclusion qu’il faudrait sans doute la réformer. Aristote avait établi que dans un système démocratique, le Parlement devait être composé d’une majorité de pauvres et d’une minorité de riches. Maintenant, je me dis qu’Aristote devait être un précurseur de l’humour noir.

En épigraphe de La lucidité, vous avez inscrit : « Hurlons, dit le chien. » À la fin de l’ouvrage, il est question de nouveau d’un chien qui hurle. Pourquoi ces évocations ? 
Le chien de l’épigraphe, c’est vous, c’est moi, c’est tout le monde. C’est quelqu’un qui en a marre d’avoir parlé toute sa vie, pour qui parler ne suffit plus. Alors hurler devient une nécessité. À la fin du livre, le chien hurle parce qu’il assiste à ce qu’on peut considérer comme un crime d’État. À côté de lui, un aveugle dit avoir horreur des chiens qui hurlent. C’est une façon d’illustrer que ceux qui ne veulent pas voir la vérité en face se voilent la face. D’un point de vue littéraire, j’aime l’idée de conclure un roman sur le hurlement d’un chien. L’image symbolise la question que je pose dans tous mes romans : que signifie la vie ?

D’ailleurs dans vos œuvres, le chien est souvent un personnage à part entière, parfois doté de pouvoirs magiques.
Oui, pour moi, le chien est l’incarnation de la pureté morale. Dans La lucidité, il vient secourir sa maîtresse et lèche ses larmes. Quand je ne serai plus de ce monde, avant la fin de l’oubli de tout ce que j’ai écrit, j’aimerais que « le chien des larmes » soit toujours présent. Comme un personnage immortel. Je suis très heureux d’avoir inventé ce chien-là et de l’avoir nommé ainsi.

Vous avez participé en 1974 à la Révolution des œillets qui entraîna la chute de la dictature salazariste et n’avez jamais caché vos engagements politiques. Êtes-vous toujours membre du Parti communiste ? 
Bien sûr ! Vous vous demandez comment je peux encore être communiste presque 20 ans après la chute du mur de Berlin ? Tout simplement parce que je ne pourrais jamais être favorable au capitalisme. C’est à cause des hormones que la barbe pousse, n’est-ce pas ? Alors disons que je suis un communiste hormonal. C’est en moi. Je n’y peux rien. C’est aussi un état d’esprit. Brejnev, Staline et bien d’autres ont très vite perdu leur état d’esprit communiste. On voit ce que ça a donné...Quant à la Chine, qu’on arrête de dire qu’il s’agit d’un pays communiste alors qu’une économie ultracapitaliste s’y développe depuis des années.

Dans La lucidité, un personnage féminin se distingue par sa force morale et son insoumission. Dans Le dieu manchot, Blimunda avait la faculté de voir à l’intérieur des êtres. La plupart de vos romans mettent en scène des personnages féminins très forts. Les femmes ont-elles particulièrement marqué votre vie ? 

D’abord, j’aime les femmes. Je trouve qu’elles sont plus fortes, plus sensibles et qu’elles ont plus de bon sens que les hommes. Toutes les femmes du monde ne sont pas comme ça, mais disons qu’il est plus facile de trouver des qualités humaines chez elles que dans le genre masculin. Tous les pouvoirs politiques, économiques, militaires sont une affaire d’homme. Pendant des siècles, la femme a dû demander la permission à son mari ou à son père pour entreprendre quoi que ce soit. Comment a-t-on pu vivre aussi longtemps en condamnant la moitié de l’humanité à la subordination et à l’humiliation ? Les hommes et les femmes hier, les Juifs et les Palestiniens aujourd’hui, je suis frappé par l’incapacité des humains à vivre ensemble dans le respect mutuel. Comme si l’Autre devait nécessairement être un ennemi. L’Autre est simplement l’Autre. L’Autre est comme moi. Il a le droit de dire « je ». Nous, hommes blancs, civilisés et riches, n’acceptons pas que l’Autre dise « je ».

C’est pour leur rendre justice que vous faites cette place aux femmes dans vos romans ? 
À vrai dire, je ne le fais pas exprès. À l’heure de commencer un roman, je ne cherche pas à tout prix un personnage féminin. C’est l’histoire qui me l’impose. Quand je vois une femme arriver dans le récit pleine de force et de lucidité, je lui dis tout simplement : soyez la bienvenue.

Dans Manuel de peinture et de calligraphie, vous mettez en scène l’histoire d’un homme qui s’interroge sur les fondements de l’art. H. est un peintre qui s’accomplit par l’écriture. Vous-même, pourquoi écrivez-vous ? 
Je crois que l’écrivain écrit pour lui-même. Il n’est pas là pour sauver le monde. Tout au plus, l’écrivain établit des passerelles avec ses lecteurs. Le jour où un lecteur se reconnaît dans ce qu’il lit et qu’il pense : « Si je savais écrire, je dirais cela », alors un nouveau rapport s’établit. Le livre est un pont à sens unidirectionnel qui va du lecteur à l’écrivain et tisse un lien affectif. D’ailleurs, je trouve que dans les éditions des œuvres complètes d’écrivains, il serait bon de glisser quelques lettres de lecteurs. Ce qui est intéressant, ce n’est pas lorsque le lecteur raconte qu’il a adoré votre livre, mais quand il parle de lui. On ne peut que pleurer d’émotion. L’humanité est là, dispersée dans ces lettres.

On sait que vous êtes un admirateur de Fernando Pessoa qui vous a inspiré un roman intitulé L’année de la mort de Ricardo Réis dans lequel vous imaginez la vie de l’un de ses hétéronymes. Plus généralement, quels sont vos maîtres en littérature ? 
Si je devais composer ma famille d’esprit, j’y inscrirais Gogol, Kafka, Montaigne, Cervantès et aussi Antoniu Viél. Antoniu Viél est un jésuite portugais du XVIIe siècle. C’était un mulâtre. Selon moi, on n’a jamais écrit le portugais aussi magnifiquement. Mais si je devais choisir « mon » écrivain, je dirais sans hésiter Franz Kafka. Bien sûr il y a Faulkner, Proust, etc. Mais Kafka est, selon moi, le plus grand romancier du XXe siècle. Il a annoncé ce que nous sommes en train de vivre : l’ère de la bureaucratie totale.

Lisez-vous vos contemporains ? 
En ce moment, je lis La porte du soleil du romancier libanais Élias Khoury. C’est remarquable. J’aime beaucoup la Colombienne Laura Restrepo. En France et en Italie, je trouve moins d’auteurs qui me plaisent. Une littérature « light » a envahi les librairies. C’est bien dommage. Le problème, c’est que je n’ai plus le temps de lire. Je relis des œuvres plus que je ne découvre de nouveaux écrivains. Actuellement, je me replonge dans La vie de Samuel Johnson, de James Boswell. Un pur chef-d’œuvre.

Vos derniers romans semblent plus réalistes que les précédents. Comment expliquez- vous cette évolution dans votre écriture ? 
Je crois que L’Évangile selon Jésus-Christ (1992) a marqué un tournant. Même si presque tous mes romans ont en commun de prendre comme point de départ une situation absurde (une épidémie de cécité, un taux d’abstention record, etc.), il me semble qu’avec L’aveuglement, Les intermittences de la mort et La lucidité, je suis allé plus en profondeur dans ce que je voulais exprimer. Dernièrement, j’ai formalisé cette idée avec l’image de la statue et de la pierre. La statue représente la surface et la pierre représente la matière. Avant L’Évangile selon Jésus-Christ, je n’avais fait que décrire la surface. Après, je suis entré davantage dans l’âme humaine, là où la pierre ne sait pas qu’elle est statue.

En 1992, vous vous êtes exilé aux Canaries suite à la publication de L’Évangile selon Jésus-Christ qui, selon le gouvernement, « portait atteinte au patrimoine religieux des Portugais ». Vous n’avez jamais regretté cette décision ? 
Vous savez, je ne suis pas Salman Rushdie non plus ! À sa sortie, L’Évangile devait concourir à un prix littéraire européen, mais le gouvernement portugais a refusé d’y inscrire mon livre. J’ai trouvé ça stupide et je l’ai dit. Le problème a même été débattu au Parlement ! C’est alors que Pilar, ma femme, m’a suggéré que l’on fasse construire une maison à Lanzarote et qu’on parte vivre là-bas. Ma première réaction typique de mâle a été de répondre non. Ma deuxième réaction a été de dire : on va étudier la question. Ma troisième réaction, encore très masculine, a été de me réapproprier cette très bonne idée (rires). J’aime être là-bas, dans cette maison perdue au milieu de nulle part. Mais je n’ai jamais rompu avec mon pays d’origine. J’ai gardé une maison ici et j’y reviens souvent.

À quoi travaillez-vous actuellement ?
Mon dernier livre, Mes petits Mémoires, a été publié en décembre. Ce sont mes Mémoires reconstitués de mes 6 à 15 ans. Il est déjà sorti en Amérique du Sud, en Espagne, en Italie et devrait bientôt être traduit en français. Maintenant, j’ai une nouvelle idée. J’ai déjà commencé à prendre des notes, mais le moment de la rédaction n’est pas encore arrivé. Comme je le dis souvent, la première condition pour écrire c’est de s’asseoir. Bientôt arrivera cet instant délicieux de s’asseoir à une table et d’initier l’écriture. J’espère avoir terminé au printemps prochain. Ce ne sera ni du théâtre ni un essai...mais je ne veux pas en dire plus. Je peux seulement vous assurer qu’il s’agira d’un ouvrage difficile et aussi, peut-être, de mon dernier livre. Avec Mes petits Mémoires, c’est comme si une boucle avait été bouclée. Je croyais tenir là mon ultime livre et cela me rendait d’ailleurs très mal à l’aise. Maintenant, je sais qu’il y en aura un autre. À mon âge, ce n’est pas facile de se projeter dans l’avenir. À 70 ans, on peut encore dire « Quand j’aurai 80 ans...  ». Mais à 84 ans, que peut-on dire ?

« La mort ne vous concerne ni mort ni vif ; vif parce que vous êtes ; mort parce que vous n’êtes plus », écrivait Montaigne. Que représente la mort pour vous ? 
Comme je le répète souvent : pour vivre, il faut mourir. Mon père, ma mère, mon frère sont morts. Les faits sont les faits. On ne peut pas les contourner. Combien d’années me reste-t-il à vivre ? Trois, quatre, cinq ans ? Je n’ai pas peur de mourir, mais mon souhait serait de pouvoir écrire jusqu’au dernier jour. C’est par l’écriture que j’ai obtenu une place dans ce monde. Roger Martin du Gard disait : « Une belle vie vaut bien une belle œuvre. » J’ai la vanité de penser qu’à une belle œuvre, je peux ajouter une vie assez belle, marquée par une cohérence personnelle intègre. Un jour, l’essayiste portuguais Eduardo Lourenço a écrit que ma vie était un miracle. Je n’étais pas né pour avoir le prix Nobel. Je suis né dans une famille d’agriculteurs. J’aurais dû devenir paysan. Ma chance a été que mon père « émigre » à Lisbonne. Aujourd’hui, je suis content de mon travail et de ce que j’ai vécu. Je suis aussi très heureux d’avoir connu ma femme. J’avais 63 ans et elle 36 quand nous nous sommes rencontrés, ça a fait beaucoup jaser à l’époque. Mais c’est une femme formidable et aujourd’hui je peux témoigner que le bonheur existe."

quarta-feira, 9 de março de 2016

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"A Jangada de Pedra" no dia em que a península parou

Formação rochosa, rasgada com enseada de acesso ao mar
Cabo Espichel (Sesimbra - Portugal) - Fotografia Helena Mesquita

(...) "A península parou. Os viajantes descansarão aqui este dia, a noite e a manhã seguinte. Chove quando vão partir. Chamaram o cão, que durante todas estas horas não se afastou da cova, mas ele não foi, É o costume, disse José Anaiço, os cães resistem a separar-se do dono, às vezes deixam-se morrer. Enganava-se. O cão Ardent olhou José Anaiço, depois afastou-se lentamente, de cabeça baixa. Não o tornaram a ver. A viagem continua. Roque Lozano ficará em Zufre, irá bater à porta de sua casa, Voltei, é a sua história, alguém há-de querer contá-la um dia. Os homens e as mulheres, estes seguirão o seu caminho, que futuro, que tempo, que destino. A vara de negrilho está verde. talvez floresça no ano que vem."

in, "A Jangada de Pedra"
Caminho, 6.ª edição - Página 330

"A esquerda explicada" Texto de José Saramago publicado em "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (15/01/1996)

"José Saramago e Jorge Sampaio num acto da campanha de 1989"

15 de Janeiro (de 1996)
«A esquerda explicada». Assim chamei ao artigo, interrompido não sei quantas vezes por chamadas de Madrid a reclamá-lo com desesperadora urgência. Não sei se os leitores vão realmente encontrar a esquerda explicada. Por mim, penso que esta será uma maneira tão boa como outra de dizer o que a esquerda é: 
«Certamente são muito poucos os espanhóis que têm notícia de ter havido em Portugal, há mais de trinta anos, precisamente em 1962, um vasto movimento de protesto e reivindicação estudantil, de que a Universidade de Lisboa foi um dos principais focos. Menos ainda serão os que ouviram falar da existência, naquela época, entre o corpo docente da Universidade, de um professor que se chamava Luís Filipe Lindley Cintra, filólogo. E não há com certeza um só espanhol que tenha conhecimento de que o secretário-geral do órgão coordenador das diversas associações académicas era então um jovem licenciado em Direito, de 23 anos, chamado Jorge Sampaio. Para entender o que vem a seguir, seria preciso começar por saber isto. Aí fica, pois. 
«Não estarei a caluniar ninguém se disser que, naqueles tempos, quando o fascismo português começou a receber os primeiros golpes duros (o assalto ao navio Santa Maria, o começo da luta independentista de Angola, a invasão de Goa pelas tropas indianas), os eméritos catedráticos da Universidade não eram propriamente pessoas que se distinguissem por cultivar fortes ideais de progresso e manifestar pública ou privadamente insofridas ânsias de liberdade. Digamos que o contrário esteve sempre muito mais perto da verdade. Haveria algumas discretas excepções, e uma ou outra aberta e declarada, como foi o caso do professor Lindley Cintra, que, corajosamente, tomou o partido do movimento estudantil universitário. A gratidão dos estudantes de Direito levou-os, nesses dias, a oferecer ao professor Cintra uma pintura, um quadro em cujo verso, usando as palavras mais simples, sem retórica revolucionária ou qualquer outra, expressaram o respeito e a admiração que ele lhes merecia. 
«Passaram trinta e quatro anos. Dois filhos que o professor tinha, cresceram e tornaram-se homens (um deles, Luís Miguel Cintra, é hoje, sem dúvida, o maior actor português), há poucos anos a morte levou o professor Lindley, o quadro que tinha sido oferecido pelos estudantes de Direito, em 1962, ficou, sem o saber, à espera da segunda parte do seu destino. Que principiou há três dias: depois de obtido o consentimento e a aprovação de seu irmão, Luís Miguel Cintra procurou Jorge Sampaio para lhe entregar o quadro. Trinta e quatro anos depois, a pintura voltou às mãos que primeiro lhe tinham tocado.


«É isto suficiente para explicar a esquerda? Um leitor dirá que sim, outro dirá que não. Contemos então mais unia história, esta brevíssima. No domingo, Jorge Sampaio, já presidente eleito da República Portuguesa, teve de responder, em conferência de imprensa, a uma pergunta impertinente e mal-intencionada de uma jornalista, que quis saber que ia ele fazer agora do cartão de militante do Partido Socialista, uma vez que havia afirmado que seria o presidente de todos os Portugueses. A resposta de Sampaio foi esta: "Não é preciso entregar o cartão partidário para ser isento e responsável na mais alta magistratura do Estado." Não tenho a certeza de que a jovem aprendiza de jornalismo tenha compreendido bem aquilo que ouviu. Habituada ao espectáculo quotidiano de um exercício demagógico da política, esperaria provavelmente ouvir de Jorge Sampaio uma tirada grandiloquente sobre os deveres das altas funções em que vai ser investido, esperaria provavelmente que ele aproveitasse a ocasião para anunciar a sua retirada do partido, a fim de que no espírito dos cidadãos não pudesse perdurar qualquer dúvida sobre a futura imparcialidade das suas decisões. O que Jorge Sampaio disse, afinal, foi que o espírito, a inteligência e a sensibilidade não se definem e exercem por causa de um cartão de partido, mas que estão na cabeça e no coração, e que a coerência das ideias, o respeito pelos princípios e a isenção dos juízos não se tornaram mais sólidos pelo facto de se ter devolvido um documento que é muito mais do que a simples prova burocrática duma filiação partidária, porque é o sinal de um sentido de vida, se, quem a ele entendeu não dever renunciar, também não renunciou a si mesmo. Jorge Sampaio é esse.» 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário IV"
Caminho, páginas 23 a 25 (15/01/1996)

Lutas académicas na Universidade de Lisboa
Dia do Estudante (24 de Março de 1962)

No dia em que novo Presidente da República toma posse...



11 de Outubro (de 1995)
"Cavaco Silva saiu do PSD e anunciou a sua candidatura à presidência da República. Para não escapar ao nariz-de-cera de qualquer candidato, tanto dos passado como dos futuros, já foi prometendo que será «o presidente de todos os portugueses». Como quem diz «O que lá vai, lá vai.» Se Portugal não perdeu de todo a vergonha, este homem inculto e autoritário nunca será presidente da República. Mas se, por um absurda viesse a ser, presidente «meu» é que ele não seria, fossem quais fossem as circunstâncias. Em tal caso, exigiria simplesmente dos serviços de secretaria de Belém que retirassem o meu nome dos ficheiros que lá têm. Não quereria ter de vir a recusar a saudação a um presidente que foi primeiro-ministro do governo que exerceu censura sobre um livro. Não cabe nas minhas forças evitar a existência dos «dráculas», mas nada poderá obrigar-me a apertar-lhes a mão." 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, página 174 (11/10/1995)

terça-feira, 8 de março de 2016

Citador #45 - Alusão a Jorge de Sena

"Esta grande admiração pessoal [por Jorge de Sena] tem a ver por ele ser o tipo de pessoa que eu aprecio: frontal. Às vezes mesmo violento na expressão, basta recordar o célebre discurso da Guarda em que ele dita água gelada nas fervuras patrióticas [da Revolução de Abril] que se esperavam e que aconteceram realmente. Nessa comemoração disse: “Vocês estão a comemorar um país que não existe e eu venho aqui dizer-lhes que país temos, pelo menos em minha opinião”."

João Céu e Silva - "Uma longa viagem com José Saramago"
Porto Editora, 2009

Sobre o universo das suas personagens femininas - 8 de Março de 2009 (no Dia Internacional da Mulher)

Pilar del Río força motriz de José Saramago

O post foi publicado no blog "Outros Cadernos de Saramago", e pode ser recuperado, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/30328.html


8 de Março (de 2009)
"Acabo de ver nos noticiários da televisão manifestações de mulheres em todo o mundo e pergunto-me uma vez mais que desgraçado mundo é este em que ainda metade da população tem que sair à rua para reivindicar o que para todos já deveria ser óbvio… 

Chegam-me informações oficiais de solenes instituições que dizem que pelo mesmo trabalho a mulher cobra 16 por cento menos, e seguramente esta cifra está falseada para evitar a vergonha de uma diferença ainda maior. Dizem que os conselhos de administração funcionam melhor quando são compostos por mulheres, mas os governos não se atrevem a recomendar que quarenta por cento, já não digamos cinquenta, sejam compostos por mulheres, ainda que, quando chega o colapso, como na Islândia, chamem mulheres para dirigir a vida pública e a banca. Dizem que para evitar a corrupção na organização do trânsito em Lima vão colocar guardas mulheres, porque se comprovou que nem se deixam subornar nem pedem coimas. Sabemos que a sociedade não funcionaria sem o trabalho das mulheres, e que sem a conversação das mulheres, como escrevi há algum tempo, o planeta sairia da sua órbita, nem a casa nem quem nelas habitam teriam a qualidade humana que as mulheres colocam, enquanto os homens passam sem ver, ou, vendo, não se dão conta de que isto é coisa de dois e que o modelo masculino já não serve.
Continuo vendo manifestações de mulheres na rua. Elas sabem o que querem, isto é, não ser humilhadas, coisificadas, desprezadas, assassinadas. Querem ser avaliadas pelo seu trabalho e não pelo acidental de cada dia.

Dizem que as minhas melhores personagens são mulheres e creio que têm razão. Às vezes penso que as mulheres que descrevi são propostas que eu mesmo quereria seguir. Talvez sejam só exemplos, talvez não existam, mas de uma coisa estou seguro: com elas o caos não se teria instalado neste mundo porque sempre conheceram a dimensão do humano."

Presentadas las bases del IV Premio de Narración Corta José Saramago organizado por el IES Tías

A notícia, publicada pelo "El Periodico de Lanzarote", pode ser consultada e lida, aqui


"El Ayuntamiento de Tías, el AMPA Los Fragosos y A Casa José Saramago también colaboran en este certamen literario que está dotado con premios de hasta 350 euros. Podrán participar todos los alumnos de Educación Secundaria de Lanzarote y las obras deberán ser entregadas antes del 12 de abril"

"A Casa José Saramago acogió el pasado viernes la presentación de la cuarta edición del Premio de Narración Corta José Saramago que organiza el IES de Tías en colaboración con la concejalía de Educación del Ayuntamiento de Tías, A Casa José Saramago y el AMPA Los Fragosos. En el acto estuvieron presentes la concejal de Educación de Tías, Aroa Pérez, así como representantes de A Casa José Saramago, del AMPA Los Fragosos y del IES Tías, además de la autora del cartel de este premio narrativo, Mª Teresa Parrilla, alumna del IES Tías.

Durante la presentación de este IV Premio de Narración Corta se dieron a conocer las bases publicadas en la web del Instituto de Tías y que establecen que podrán participar todos aquellos alumnos matriculados en los diferentes centros de Enseñanza secundaria de la isla de Lanzarote, cuyo límite de edad será de 22 años.

Las obras, originales e inéditas, deberán presentarse antes del próximo día 12 de abril y tendrán una temática de libre elección. La extensión no superará las cuatro páginas DIN-A4 con un interlineado de 1.5 y a una sola cara. El tipo de fuente será Times New Roman y el tamaño de la letra, 12.

Los interesados en participar en este certamen literario deberán entregar sus obras en el IES TÍAS en un sobre cerrado con seudónimo, título en el exterior del mismo y año de nacimiento antes del próximo día 12 de abril. En ese sobre se incluirá otro sobre cerrado con el seudónimo en el exterior y adjuntando en el interior el nombre completo del autor/autora, la edad, el curso, el centro educativo y la fotocopia del DNI/NIE.

Un primer premio de hasta 350 euros

En las bases también se establecen dos categorías según edades, una para los nacidos antes de 2000, incluido, con dos premios: un primer premio dotado con 350 euros y un lote de libros del Premio Nobel José Saramago, así como un segundo premio dotado con 200 euros y un lote de libros del mismo escritor. En la segunda categoría para los nacidos a partir de 2001, se otorgará un primer premio dotado con 150 euros y un segundo premio de 100 euros.

Asimismo, el jurado estará compuesto por el profesorado del Departamento de Lengua castellana y Literatura del IES Tías. Dicho jurado podrá declarar desierto cualquiera de los premios. El fallo tendrá lugar el viernes 22 de abril de 2016 y será inapelable."




segunda-feira, 7 de março de 2016

"Claraboia" Peça de teatro baseada na obra de José Saramago no Teatro A Barraca (ÚLTIMAS REPRESENTAÇÕES)


Ilustração do cenário da peça de teatro a "Claraboia"
em cena no Teatro a Barraca (http://www.abarraca.com/)

Realizado pela "Carbono e Outros - Reportagens Gráficas"
Mais informação pode ser consultada em




Azinhada retratada na obra "As Pequenas Memórias" - (Caminho, 2006)

"Deixa-te levar pela criança que foste" - O Livro dos Conselhos

(...) "A terra é plana, lisa como a palma da mão, sem acidentes orográficos dignos de tal nome, um ou outro dique que por ali se tivesse levantado mais servia para guiar a corrente aonde causasse menos dano do que para conter o ímpeto poderoso das cheias. Desde tão distantes épocas a gente nascida e vivida na minha aldeia aprendeu a negociar com os dois rios que acabaram por lhe configurar o carácter, o Almonda, que a seus pés desliza, o Tejo, lá mais adiante, meio oculto por trás da muralha de choupos, freixos e salgueiros que lhe vai acompanhando o curso, e um e outro, por boas ou más razões, omnipresentes na memória e nas falas das famílias. Foi nestes lugares que vim ao mundo, foi daqui, quando ainda não tinha dois anos, que meus pais, migrantes empurrados pela necessidade, me levaram para Lisboa, para outros modos de sentir, pensar e viver, como se nascer eu onde nasci tivesse sido consequência de um equívoco do acaso, de uma casual distracção do destino, que ainda estivesse nas suas mãos emendar. Não foi assim. Sem que ninguém de tal se tivesse apercebido, a criança já havia estendido gavinhas e raízes, a frágil semente que então eu era havia tido tempo de pisar o barro do chão com os seus minúsculos e mal seguros pés, para receber dele, indelevelmente, a marca original da terra, esse fundo movediço do imenso oceano do ar, esse lodo ora seco, ora húmido, composto de restos vegetais e animais, de detritos de tudo e de todos, de rochas moídas, pulverizadas, de múltiplas e caleidoscópicas substâncias que passaram pela vida e à vida retornaram, tal como vêm retornando os sóis e as luas, as cheias e as secas, os frios e os calores, os ventos e as calmas, as dores e as alegrias, os seres e o nada. Só eu sabia, sem consciência de que o sabia, que nos ilegíveis fólios do destino e nos cegos meandros do acaso havia sido escrito que ainda teria de voltar à Azinhaga para acabar de nascer. Durante toda a infância, e também os primeiros anos da adolescência, essa pobre e rústica aldeia, com a sua fronteira rumorosa de água e de verdes, com as suas casas baixas rodeadas pelo cinzento prateado dos olivais, umas vezes requeimada pelos ardores do Verão, outras vezes transida pelas geadas assassinas do Inverno ou afogada pelas enchentes que lhe entravam pela porta dentro, foi o berço onde se completou a minha gestação, a bolsa onde o pequeno marsupial se recolheu para fazer da sua pessoa, em bem e talvez em mal, o que só por ela própria, calada, secreta, solitária, pode-ria ter sido feito. Dizem os entendidos que a aldeia nasceu e cresceu ao longo de uma vereda, de uma azinhaga, termo que vem de uma palavra árabe, as-zinaik, «rua estreita», o que em sentido literal não poderia ter sido naqueles começos, pois uma rua, seja estreita, seja larga, sempre será uma rua, ao passo que uma vereda nunca será mais que um atalho, um desvio para chegar mais depressa aonde se pretende, e em geral sem outro futuro nem desmedidas ambições de distância." (...)

in, "As Pequenas Memórias"
Caminho, páginas 12 e 13 - 2006

domingo, 6 de março de 2016

"A Viagem do Elefante" - o início em espanhol

«Siempre acabamos llegando a donde nos esperan». "Libro de los itinerarios"

"El viatge de l'elefant" - Col·lecció El Balancí - Catalunha
Tradução Nuria Prats Espar

"Por más incongruente que le pueda parecer a quien no ande al tanto de la importancia de las alcobas, sean éstas sacramentadas, laicas o irregulares, en el buen funcionamiento de las administraciones públicas, el primer paso del extraordinario viaje de un elefante a austria que nos proponemos narrar fue dado en los reales aposentos de la corte portuguesa, más o menos a la hora de irse a la cama. Quede ya registrado que no es obra de la simple casualidad que hayan sido aquí utilizadas estas imprecisas palabras, más o menos. De este modo, quedamos dispensados, con manifiesta elegancia, de entrar en pormenores de orden físico y fisiológico algo sórdidos, y casi siempre ridículos, que, puestos tal que así sobre el papel, ofenderían el catolicismo estricto de don Juan, el tercero, rey de Portugal y de los algarbes, y de doña catalina de Austria, su esposa y futura abuela de aquel don Sebastián que irá a pelear a alcácer-quivir y allí morirá en el primer envite, o en el segundo, aunque no falta quien afirme que feneció por enfermedad en la víspera de la batalla. Con ceñuda expresión, he aquí lo que el rey comenzó diciéndole a la reina, Estoy dudando, señora, Qué, mi señor, El regalo que le hicimos al primo Maximiliano, cuando su boda, hace cuatro años, siempre me ha parecido indigno de su linaje y méritos, y ahora que lo tenemos aquí tan cerca, en Valladolid, como regente de España, a un tiro de piedra por así decir, me gustaría ofrecerle algo más valioso, algo que llamara la atención, a vos qué os parece, señora, Una custodia estaría bien, señor, he observado que, tal vez por la virtud conjunta de su valor material con su significado espiritual, una custodia es siempre bien recibida por el obsequiado, Nuestra iglesia no apreciaría tal liberalidad, todavía tendrá presente en su infalible memoria las confesas simpatías del primo Maximiliano por la reforma de los protestantes luteranos, luteranos o calvinistas, nunca lo supe seguro, Vade retro, satanás, que en tal no había pensado, exclamó la reina, santiguándose, mañana tendré que confesarme a primera hora, Por qué mañana en particular, señora, si es vuestro hábito confesaros todos los días, preguntó el rey, Por la nefanda idea que el enemigo me ha puesto en las cuerdas de la voz, mirad que todavía siento la garganta quemada como si por ella hubiera rozado el vaho del infierno. Habituado a las exageraciones sensoriales de la reina, el rey se encogió de hombros y regresó a la espinosa tarea de descubrir un regalo capaz de satisfacer al archiduque Maximiliano de Austria. 


A Capa da edição e detalhe de páginas interiores 

João Amaral o autor do álbum de banda desenhada baseada na obra de Saramago

La reina bisbiseaba una oración, comenzaba ya otra, cuando de repente se interrumpió y casi gritó, Tenemos a salomón, Qué, preguntó el rey, perplejo, sin entender la intempestiva invocación al rey de Judea, Sí, señor, salomón, el elefante, Y para qué quiero aquí al elefante, preguntó el rey algo enojado, Para el regalo, señor, para el regalo de bodas, respondió la reina, poniéndose de pie, eufórica, excitadísima, No es regalo de bodas, Da lo mismo. El rey aseveró lentamente con la cabeza tres veces seguidas, hizo una pausa y aseveró otras tres veces, al final de las cuales admitió, Me parece una idea interesante, Es más que interesante, es una buena idea, es una idea excelente, insistió la reina con un gesto de impaciencia, casi de insubordinación, que no fue capaz de reprimir, Hace más de dos años que ese animal llegó de la india, y desde entonces no ha hecho otra cosa que no sea comer y dormir, el abrevadero siempre lleno de agua, forraje a montones, es como si estuviéramos sustentando a una bestia que no tiene ni oficio ni beneficio, ni esperanza de provecho, El pobre animal no tiene la culpa, aquí no hay trabajo que sirva para él, a no ser que lo mande a los muelles del tajo para transportar tablas, pero el pobre sufriría, porque su especialidad profesional son los troncos, que se ajustan mejor a la trompa por la curvatura, Entonces que se vaya a Viena, Y cómo iría, preguntó el rey, Ah, eso no es cosa nuestra, si el primo Maximiliano se convierte en su dueño, que él lo resuelva, suponiendo que todavía siga en Valladolid, No tengo noticias de lo contrario, Claro que hasta Valladolid salomón tendrá que ir a pata, que buenas andaderas tiene, Y a Viena también, no habrá otro remedio, Un tirón, dijo la reina, Un tirón, asintió el rey gravemente, y añadió, Mañana le escribiré al primo Maximiliano, si él acepta habrá que concretar fechas y realizar algunos trámites, por ejemplo, (...) 

in, "A viajem do Elefante"
Edição portuguesa de 2008 - Caminho, páginas 13 a 16

"Se me desenterró un lenguaje" . Ezequiel Martínez entrevista José Saramago para o "Ñ Revista de Cultura Clarín" (22/11/2008)

"Se me desenterró un lenguaje"
Saramago habla en este reportaje exclusivo sobre su nueva novela, El viaje del elefante, cuyo estilo debe en gran parte a una enfermedad que lo tuvo entre la vida y la muerte. Además del relato, el libro puede ser interesante para el lector, dice, porque está escrito en un lenguaje nuevo, desconocido.
Ezequiel Martínez, Ñ Revista de Cultura - 22/11/2008



A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em http://edant.revistaenie.clarin.com/notas/2008/11/22/_-01806877.htm

"Mi casa es mi castillo", me había dicho el día anterior José Saramago. Sólo allí logra algo semejante a un refugio levantado con muros de palabras: "Lo que más disfruto, ahora mismo, es el simple acto de estar escribiendo", aclaraba al mediodía siguiente en el "castillo" que tiene en Madrid, un departamento que más que una casa, funciona como una posada de paso durante sus trajines por el mundo. Sin embargo, el lugar está tapizado de recuerdos, fotografías, libros... Pilar del Río, la esposa y traductora al español de la obra de Saramago, se encarga de que el dúplex madrileño –al que no regresaban desde hacía un año– no tenga la apariencia de un hogar de utilería. 

Dos veces había venido a este edificio y las dos veces me perdí. Aunque está en pleno centro de la capital española, en un punto intermedio entre el Mercado de Fuencarral y la Gran Vía, la calle De la Madera se esconde en la cartografía más enredada de la ciudad. Como si deliberadamente los Saramago hubiesen querido despistar a los intrusos. Es que desde hace exactamente diez años, cuando se convirtió en el primer escritor de habla portuguesa –y hasta ahora el único– en recibir el Premio Nobel de Literatura, Don José no ha parado: "Se parte del principio de que el escritor tiene que tener una opinión sobre todo, y si ese escritor es un Premio Nobel, bueno... los pedidos de opinión llegan hasta la estratósfera", se resigna el autor de Memorial del Convento. 

El dice que la opinión que vale es la que da como ciudadano. Uno que acaba de cumplir 87 años y una decena de novelas. La más joven, El viaje del elefante, estará a fines de noviembre en casi todas las librerías de habla hispana. Esa era la excusa para esta entrevista, que de manera inevitable navegó también por la vida y por la muerte. 

Un año atrás, luego de un viaje a Buenos Aires para participar como jurado del Premio Clarín de Novela, la salud del escritor se complicó con una neumonía que lo dejó suspendido en una frontera de la que casi no regresa. Hubo mucho de ese viaje en esta charla, anudado a otro, el del elefante Salomón que protagoniza este nuevo libro, cuya travesía de Lisboa a Viena en el siglo XVII es un hecho histórico que Saramago visitó de ficción. 

–Muchas veces usted contó que lo primero que tenía de una novela era el título... 
-Bueno, primero quiero decir que yo no la llamo novela, y tampoco es un cuento. El lector decidirá lo que es este libro. Pero en este caso lo primero no fue el título, y no le encontraría otro aunque lo buscara. ¿Qué es lo que cuento aquí? Simplemente el viaje que en el siglo XVII hace el elefante que el rey Juan III de Portugal le regala a Maximiliano, archiduque de Austria. Es una historia real, que sucedió, y no podía tener otro título que El viaje del elefante . 

-¿Qué dificultades encontró a la hora de poner a un animal como protagonista del relato? 
-Mira, hay algo que para mí quedó clarísimo desde el principio, y es que yo no podía ni debía antropomorfizar al elefante. Cada vez que se habla en la literatura de animales, el autor cede a la tentación inmediata de poner sentimientos humanos en los animales. Esto ocurre constantemente, y mi preocupación para no hacerlo partió de algo muy sencillo que me dije a mí mismo: "Tú no sabes lo que es ser un elefante. ¿Vas a poner el elefante a pensar, a pensar cómo?" Un ser humano se puede decir que piensa con palabras, y si no es con palabras, sabemos que aquello que está pensando se puede traducir en palabras. ¿Se puede decir lo mismo de un elefante? Esa es una manía nuestra. Nosotros tenemos un perro, por ejemplo, y aunque creemos saber lo que es un perro, no lo sabemos. No sé lo que pasa dentro de esas cabezas. Yo sé que mi perro Camoes me quiere, pero qué es lo que significa que yo diga "Mi perro me quiere". No sé lo que pasa por esa cabeza. Yo he llorado con la muerte de uno de mis perros, ¿pero lloraría él si yo me muriera? No, que se sepa los perros no lloran. Entonces uno cae en la tentación de la antropomorfización del animal. Eso me preocupaba desde el primer momento en que se me ocurrió este libro: todo, menos poner al elefante a pensar. Concluyendo: el elefante es otro, y yo no tengo el derecho a transformarlo en algo más cercano a mí. 

-Otro detalle ajeno a sus costumbres es la de haber adelantado un fragmento del libro. Además lo hizo a través de las páginas de su blog. 
-Siempre he sido contrario a los adelantos en los periódicos o las revistas, siempre. En Portugal siempre me lo piden y nunca lo he permitido. Lo del anticipo en el blog no fue idea mía sino de Pilar, y aunque sigo sin estar muy de acuerdo, ella ha puesto un fragmento que está muy bien elegido. Habla de un hombre no identificado que se pierde en medio de la niebla, y que se salva al escuchar al elefante. Para Pilar es como una premonición de mi enfermedad. Eso es lo que piensa ella, y se puede discutir, pero hay cierto fundamento de verdad. Esa escena fue escrita después de que yo saliera del hospital, y por lo tanto llamar premonición a algo que de hecho había ocurrido, parece una contradicción... 

-Se refiere al personaje que logra atravesar una niebla muy espesa al escuchar el barrito del elefante que lo orienta para reunirse con la caravana de soldados que había perdido. 
-Sí, pero en realidad ese hombre no escucha nada, porque el elefante no ha soltado ningún barrito. Todo eso pasa en la cabeza de un señor que está perdido y que en el fondo cree que está pasando algo que no está pasando. 

-Lo salva eso que está imaginando... Pilar me comentaba que mientras usted estuvo internado también escuchaba un llamado. 
-Bueno, si seguimos con esto de la premonición, y aunque a Pilar no le guste el símil, el elefante en ese caso era ella. Una noche, en la clínica, en medio de las pesadillas más horribles que he tenido en toda mi vida, ocurrió que yo la llamaba a los gritos, pero eran gritos dentro de mi cabeza. 

-¿Recuerda esas pesadillas? 
-Sí, las recuerdo, pero son demasiado desagradables como para ser reproducidas... 

-¿Tenían que ver con el temor a la muerte? 
–No, directamente no. Además, a lo largo de esta enfermedad, en ningún momento he tenido eso que llamamos temor a la muerte, nunca. Al contrario, lo que quedó es una serenidad que yo podría explicar de esta manera: si me hablan de la muerte, yo podría contestar: "Sí, ya la conozco". 

-Uno está tentado a sugerir que aquellos gritos dentro de su cabeza eran del elefante Salomón, que le pedía siguiera contando su historia. 
-Yo ya tenía unas cuarenta páginas escritas antes de internarme. Cuando los médicos me dieron el alta, la verdad es que veinticuatro horas después de llegar a casa ya estaba escribiendo otra vez. Tenía clarísimo adónde quería llegar, cómo llegar. Puede sorprender –y creo que es muy legítimo que sorprenda– cómo es que un libro cuya escritura coincide con un período tan difícil de mi vida, con una enfermedad que podía ser mortal, puede estar tan lleno de buen humor, pueden ser halladas tantas ironías... 

-¿Y a qué lo atribuye? 
–Me da mucha pena que no hayan sido registrados los diálogos que mantenía con los médicos en la clínica. Eran unos diálogos con una total libertad de expresión y de lenguaje; yo me permitía lo que podría ser considerado como una falta de respeto: ser irónico con ellos, y en algunos casos hasta sarcástico. A veces me pregunto –y no sé cómo contestarlo– de dónde surgía esta especie de duplicación de mi mentalidad: era un señor que estaba gravemente enfermo, y otro que se permitía una absoluta libertad de lenguaje. 

-Algo así como "el hombre duplicado", el título de una de sus novelas. 
-Es que efectivamente algo había pasado en mi cabeza durante esa enfermedad. A lo largo de una vida –y en mi caso de una vida larga como persona y como escritor–, uno se reconoce por su lenguaje. Pero durante la existencia se van acumulando sedimentos de todo, incluso del lenguaje. Hay palabras y giros que desaparecen, que dejamos de usar, entonces viene otro sedimento que se superpone al sedimento anterior... Ahora, ¿qué es lo que me parece que ha sucedido? La enfermedad ha hecho aparecer en la superficie sedimentos que estaban ahí debajo, soterrados, sepultados... Esto ocurría también en el proceso mismo de la escritura: ciertas palabras, giros y expresiones que yo creía olvidados, aparecían con toda naturalidad, no es que yo los buscara con la intención de hacer algo diferente, no... Por eso pienso que además del interés que tenga el libro por la historia que cuenta, creo que uno de los motivos de atención particular del lector tendrá que ver con este lenguaje. Es un lenguaje distinto. 

-En un momento del libro, el comandante portugués encargado del traslado del elefante desde Lisboa, dice: "Algo me ha mudado por dentro en este viaje". ¿Este viaje suyo también le mudó algo por dentro? 
-Eso siempre se puede decir. Se cambia dentro de lo que se es, y yo sigo siendo el que era. Ahora, lo que me gustaría es que el lector, a la hora de leer el libro, sintiera eso, que está viajando... ¿Pero en la figura del archiduque? No. ¿En la del cornaca? Ni siquiera, aunque podría ser... Pero lo que me gustaría que el lector pensara es: "Este elefante soy yo". El epígrafe del libro, de un supuesto "Libro de los Itinerarios", dice: "Siempre llegamos adonde nos esperan". Y la pregunta es inevitable: "¿A qué se refiere eso?" Y la respuesta sólo puede ser una: a la muerte. Siempre llegamos a la muerte, ahí nos están esperando. 

-La religión es otro tema presente. Se habla de la Inquisición, también hay una discusión casi teológica sobre la Santísma Trinidad que concluye con esta frase: "Dios es el elefante". 
-Podría ser... Pero mira, yo no creo que haya podido existir alguna vez un dios, y cuando digo esto no me refiero únicamente al Dios de los cristianos, sino a cualquier dios. No hay dioses, los hemos inventado porque los necesitábamos. Pero como de todos modos le tememos a la muerte, si podemos creer que de una forma u otra habrá una existencia después de ella, entonces encantados. Pero para eso se necesita alguien superior, esa especie de autor primordial que permite que esto siga funcionando, y ese sería Dios. No creo y nunca lo he creído. En un universo en donde hay 400 mil millones de galaxias, y cada galaxia, según mis cálculos, tiene millones de estrellas, y cada estrella tiene sus sistemas de planetas en ese vacío total del universo... Bueno, bueno, si yo fuera Dios, habría inventado un universo menos complicado, más cómodo, más confortable. Es decir, me parece absurdo. Yo hablo tanto de religión porque me cuesta trabajo comprender, además por qué, si yo tengo una religión, estoy obligado a odiar a la gente de otras religiones. No debería sorprender, porque los que siguen al Real Madrid no pueden ni pensar en los que siguen al Barcelona. Si esto sucede en algo tan rudimentario como el fútbol, qué es lo que no ocurriría si yo creo en un dios y no puedo soportar la esencia de alguien que cree en otro dios. Es la prueba de que en el fondo somos bastante estúpidos, con todo respeto. Por eso a veces digo que el mundo sería mucho más pacífico si todos fuéramos ateos. 

-Usted dijo que le gustaría que la gente lo recordara como el autor del personaje del perro que enjuga las lágrimas de una mujer en "Ensayo sobre la ceguera". ¿Sigue pensando lo mismo? 
-Sí, claro, eso es algo que responde a un sentimiento más profundo de lo que parece. Cuando digo que si yo tuviera que ser recordado por algo, me gustaría que me recordaran como el creador del perro de las lágrimas, primero porque creo que a nadie se le ocurrió que en una situación como aquella, terrible, de hambre y de búsqueda de alimentos todos contra todos, un perro que se acercara a una mujer desesperada sentada en el suelo llorando, y que en un gesto de compasión, le secase las lágrimas con la lengua... Pues sí, creo que he añadido algo nuevo a las situaciones que transitan de una obra a otra, de un autor a otro, en eso que llamamos cuento, o novela... "

sábado, 5 de março de 2016

Luís Cília (Viola) e Manuel Freire (Voz) interpretam poema "Dia Não" de José Saramago

O poema pode ser ouvido, aqui via YouTube,


Dia Não
"De paisagens mentirosas
de luar e alvoradas
de perfumes e de rosas
de vertigens disfarçadas.

Que o poema se desnude
de tais roupas emprestadas
seja seco, seja rude
como pedras calcinadas

Que não fale em coração
nem de coisas delicadas
que diga não quando não
que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
se as faces tiver molhadas
para seus gritos escolha
as orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
em palavras amargadas
que o poema seja assim
portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
nestas quadras desoladas."

in, "Os Poemas Possíveis" - 1966

"A formação do escritor José Saramago - Um livro decisivo: Levantado do Chão" de Manuel Gusmão (Revista «O Militante» - Set./2010)

O presente artigo pode ser recuperado e consultado, através da Revista "O Militante", aqui
em http://www.omilitante.pcp.pt/pt/308/Cultura/502/A-formação-do-escritor-José-Saramago---Um-livro-decisivo-Levantado-do-Cão.htm

Capa da edição Nº 308 - Set/Out 2010

"A formação do escritor José Saramago - Um livro decisivo: Levantado do Chão"
por Manuel Gusmão

"No prefácio que escreveu para a edição de Uma família do Alentejo, de João Domingos Serra, José Saramago diz de si mesmo enquanto escritor por alturas de 1975: «Era esse o tempo em que não tendo feito até aí mais que uns quantos  poemas e umas quantas crónicas, obra limpa sem dúvida, mas mais do que modesta, tinha começado a dar voltas a uma ideia ambiciosa, nada menos imagine-se, que uma história sobre o campo e quem lá trabalha e malvive.»
Começa por pensar utilizar como lugar dos acontecimentos uma quinta onde dormira uma noite quando fora com seu tio Manuel vender os porcos a Santarém. O projecto esvai-se e ele continua a matutar num romance para o qual não tinha nem história nem personagens. Recorda que também se lembrou da Azinhaga, aldeia onde nasceu, mas a ideia também não durou, «reteve-me uma espécie de pudor que ainda hoje nem a mim próprio sou capaz  de explicar». 

«E, vai daí, estava eu neste era não era, andava lavrando, deu-se o 25 de Novembro».  O jornal de que fora sub-director foi fechado, o pessoal mandado para casa com uma indemnização à excepção dele e, nessa situação, toma duas decisões. A  primeira, de não procurar emprego e a segunda «perguntar para o Lavre se haveria por lá uma cama onde dormir e um canto para trabalhar num livro que pensava escrever». 

Essas duas decisões são efectivamente decisivas, desculpem-me o pleonasmo. Quero eu dizer que elas vão ter consequências, mesmo que não imediatamente.

Uma vez instalado em Lavre, continua Saramago, «o meu plano de trabalho era simples. Antes de mais, conhecer a vila e os seus arredores, a ribeira, a ponte em ruínas a que atribuíam uma origem romana, mas que foi construída no séc. XVI, a represa e o moinho, enfim pôr as mãos em cima das coisas como me habituei a dizer, depois descobrir aqueles que dariam conteúdo e substância ao futuro livro, na maior parte camponeses de vida revolucionária obscura. Mas com um cabedal único de experiências. Encontrei-os, falei com eles, gravei bobinas e bobinas de conversações […]. Esses homens tinham nome, rosto, rugas da idade e do contínuo esforço, as mãos como cepos, diria Raul Brandão. Chamavam-se uns, que eram do Lavre, outros de Montemor, João Besuga […], António Joaquim Cabecinha, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António Catarro, José Francisco Curraleira, e outros, João Machado. Herculano António Redondo, Mariana Amália Besuga, Maria Saraiva, Ernesto Pinto Ângelo…».

Estamos perante uma enumeração de nomes daqueles que vamos encontrar em vários romances de José Saramago. Esse gesto narrativo – uma lista de nomes – é uma reprodução em espelho desta enumeração, ou talvez possamos dizer que esta lista aqui é que imita as listas que surgem nesses romances. Seja como for, esta lista, aqui, exibe o seu significado de uma forma clara: (a) a lista é uma homenagem àqueles de quem é dito o nome; (b) os nomes representam a multidão, que muitas vezes supomos sem nome, anónima, das personagens do livro que será Levantado do Chão; mas são também aqui, e este é um ponto importante, (c) uma espécie de co-autores do romance, como se fossem participantes do coro ou da voz coral que conta a história.

A lista termina com o nome de João Domingos Serra, o autor desse pequeno livro, que José Saramago resolve editar. No prefácio, que temos vindo a citar, o autor escreve: 

«Com o caderno debaixo do braço corri para o meu refúgio e pus-me a ler, com a ideia de ir copiando à mão as passagens mais interessantes, mas rapidamente compreendi que nem uma só daquelas palavras poderia perder-se. Não terminei a leitura. Meti uma folha de papel na máquina e comecei a trasladar, com todos os seus pontos e vírgulas, incluindo algum erro de ortografia, o escrito de João Serra. Tinha enfim livro. Anda tive de esperar três anos para que a história amadurecesse na minha cabeça, mas o Levantado do Chão começou a ser escrito nesse dia, quando contraí uma dívida que nunca poderei pagar.» (itálicos meus)

O que é que o escritor nos diz com estas palavras? Ele diz-nos do impacto ou da comoção (movimento da emoção) nele, provocada pela leitura do livro de João Serra. A ideia de que nenhuma palavra desse texto se deve perder não leva obviamente Levantado do Chão a repetir palavra a palavra o texto do camponês, mas leva este romance a guardar a memória desse outro livro, a amplificá-lo e a ecoá-lo, em suma a homenageá-lo.

Como perceber que Saramago, lendo o livro do camponês, diga «Tinha enfim livro», referindo-se a Levantado do Chão, que, entretanto, ainda demorará três anos a amadurecer? É que, no livro de João Serra, Saramago encontra uma fonte do seu livro, um testemunho que autentifica a sua narrativa, é como se o escritor erudito tornasse seu personagem-herói o narrador popular e tomasse o seu ritmo, os sentidos do seu contar.

Entre o momento em que começa a ser escrito (presumivelmente em 1976) – o que coincide com o começo da trasladação, à maquina de escrever, do texto de João Bonifácio Serra) – e a data de publicação de Levantado do Chão vão três a quatro anos, em que Saramago publica, nomeadamente, um romance (Manual de Pintura e Caligrafia, de 1977), um livro de contos (Objecto Quase, de 1978) e um texto sobre «O Ouvido», espécie de descrição da tapeçaria «La dame à la licorne», que integra uma obra colectiva, Poética dos Cinco Sentidos, de 1979. Podemos considerar todos esses textos como textos em que o autor está em processo de formação; como se no seu corpo certa tensão muscular o preparasse para um salto. Como se José Saramago ainda não soubesse exactamente para onde vai, mas tacteasse, na superfície da rocha, a passagem por onde irá passar. Estes três livros formarão, com O ano de 1993, parte fundamental das obras de formação do escritor José Saramago.

Manual de Pintura e Caligrafia é um romance que conta a história de alguém que pinta retratos e se questiona sobre esse seu ofício e medita sobre essa prática obrigada a uma relação semelhança entre o retrato e o retratado. O romance termina por uma mudança de vida e na reflexão sobre a arte, por um encontro amoroso e pela chegada do 25 de Abril.

Objecto Quase começa com um conto, «Cadeira», que conta minuciosamente a queda da cadeira que arrasta consigo Salazar.

O Ouvido procede a um entrelaçamento de dois movimentos de sentido: por um lado, uma tentativa de descrição do sons que se ouviriam numa tapeçaria que figura o ouvido, por outro, uma narrativa do trabalho que desenhou e depois teceu a tapeçaria.

Ao trabalhar sobre o ouvido, Saramago vai ao encontro ou à descoberta  daquilo que ele próprio dirá ser a auralidade da sua escrita e o seu tom conversacional.

Em Levantado do Chão, Saramago encontra decisivamente (para a sua obra a vir) o tom dialogal e de conversa da sua narração. É como se ele, o autor-narrador, não estivesse sozinho a contar, como se as suas personagens pudessem partilhar a narração entre elas e com ele. Este efeito estilístico tem na sua base um tipo de frase pela qual reconhecemos os textos de Saramago.

Repare-se no último parágrafo do primeiro capítulo:    

«Madre de tetas grossas para grandes e ávidas bocas, matriz, terra dividida do maior para o grande, ou mais de gosto ajuntada do grande para o maior, por compra dizemos ou aliança, ou de roubo esperto, ou crime estreme, herança dos avós e meu bom pai, em glória estejam. Levou séculos para chegar a isto, quem duvidará de que assim vai ficar até à consumação dos séculos?

E esta outra gente quem é, solta e miúda, que veio com a terra, embora não registada na escritura, Almas mortas, ou ainda vivas? A sabedoria de Deus, amados filhos é infinita: aí está a terra e quem a há-de trabalhar, crescei e multiplicai-vos. Crescei e multiplicai-me, diz o latifúndio. Mas tudo isto pode ser contado doutra maneira.» 

Em casos extremos, essa frase é formada por vários segmentos dos quais varia o emissor. Aqui, em relação ao segundo parágrafo transcrito, formado por várias frases, podemos dizer que é a voz do narrador que começa por expor uma interrogação, uma dúvida e uma suspeita – quem é?/almas mortas, ou ainda vivas?/embora não registada na escritura. A seguir, o narrador como que se retrai e quem fala é um intermediário de Deus, um padre ou a própria instituição. A Igreja – A sabedoria de Deus, amados filhos, é infinita: aí está a terra e quem a há-de trabalhar, crescei e multiplicai-vos – que é em parte corrigida pelo latifúndio, cuja palavra o narrador regista – Crescei e multiplicai-me, diz o latifúndio – Até que o narrador retoma a palavra naquilo que percebemos ser a promessa  de um contar alternativo à escritura que não fala daquelas gentes que parece terem vindo com a terra. O facto de ser dada a palavra à Igreja e ao Latifúndio e o modo como a usam constituem uma operação retórica que ironiza sobre esses «falantes» e lhes opõe um dizer diferente. Levantado do Chão será uma história do latifúndio, alternativa à que o latifúndio de si conta e para si deseja. Podemos pois dizer que o texto de Saramago, Levantado do Chão, é um texto de ficção que preenche uma lacuna da historiografia oficial ou da história contada pelos vencedores, pela classe dominante.

Podemos ainda dizer que Levantado do Chão é, simultaneamente, o último livro do período de formação do escritor José Saramago e o primeiro livro da sua maturidade.

Para esta sua dupla condição contribuem as características que já apontei e que recapitulo agora:

(1) A história contada nos seus romances aparece sempre como o preenchimento de uma lacuna num texto que tem funções de autoridade.

O Memorial do Convento conta a história da construção do Convento de Mafra, mas tal como em Levantado do Chão os protagonistas dessa construção são os trabalhadores braçais que não são nomeados pela escritura, ou seja, pela historiografia oficial. Uma confirmação disto pode ser fornecida pelo facto de andar também por Mafra uma personagem Mau-Tempo (Julião). As regras e as convenções de verosimilhança, o próprio contrato de leitura negociado entre o leitor e o texto indicam que este é um antepassado da família Mau-Tempo de Levantado do Chão. Eis uma parte da sua apresentação aos seus companheiros que transportam a pedra: O meu nome é Julião Mau-Tempo, sou natural do Alentejo e vim trabalhar para Mafra por causa das grandes fomes de que padece a minha província. […] Este pequeno jogo que consiste em trazer para um romance posterior e uma distância de dois séculos antes uma personagem de um operário, é coincidente ou solidário com a estratégia de contar de outra maneira. Neste caso concreto, num romance que começa com o problema da sucessão dinástica, este aparecimento de Julião Mau-Tempo indica ao leitor que os trabalhadores, mesmo os mais humildes também têm antepassados, também vêm numa linhagem mesmo que silenciada e ignorada.

(2) Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, que é anunciado como o próximo romance, nas primeiras edições de Objecto Quase e Levantado do Chão, trabalham com o mesmo tipo de frase, que permite meter, no interior de uma frase ou de um parágrafo, um diálogo ou um conflito verbal.

Esta transformação da pontuação visa um efeito não apenas de diálogo, mas dialéctico ou dialógico. Uma vírgula seguida de uma palavra com letra inicial em maiúscula indica geralmente que se mudou de fonte da fala no interior de uma frase. No caso dos parágrafos, como vimos acima, são os próprios segmentos frásicos que produzem esse efeito.

Esta é a maneira como Saramago nos mostra a socialidade ou o carácter radicalmente social da linguagem humana.

(3) Os dois traços anteriores convergem com um terceiro também já enunciado acima que é a apresentação por vezes de listas de nomes dispostos por ordem alfabética, que se destinam a retirar do anonimato esses nomes e ao mesmo tempo sublinham nessa ordem o seu carácter artificial e residual, porque os nomes dos construtores são inúmeros.

Em Memorial do Convento, para além dos (7) nomes daqueles (sete) que num momento de descanso se apresentam uns aos outros – O meu nome é Francisco Marques, nasci em Cheleiros […], O meu nome é José Pequeno […]; Chamo-me Joaquim da Rocha, nasci no termo de Pombal […]; O meu nome é Manuel Milho, venho dos campos de Santarém […];  O meu nome é João Anes, vim do Porto […]; o meu nome é Julião Mau-Tempo, sou natural do Alentejo […]; o meu nome é Baltasar Mateus, todos me conhecem por Sete-Sóis […] – há ainda mais duas listas: 

Vão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros, Antónios e Joaquins, e Pedros, e talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Vicentes, e Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem, vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende. Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcelino, Nicanor, Onofre, Paulo; Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra por cada um, para ficarem todos representados.

A lista que apresenta os nomes próprios na forma do plural é uma amostra e dá, por esse plural aplicado a um nome, uma ideia da quantidade de homens arrolados.

Depois e na sequência daquela vem então uma outra lista que apresenta um nome por cada letra do alfabeto. O carácter arbitrário do alfabeto dá a esta lista por ordem alfabética a possibilidade de representar todos os homens portadores de nomes com aquelas letras iniciais. Inscritos num livro que lhes vai sobreviver, ficam assim imortalizados. E poderíamos dizer que em momentos como este a ficção cumpre uma função alternativa à da historiografia oficial, com a sua glorificação dos reis e dos generais, em suma, dos mais poderosos.

A formação do escritor José Saramago está quase completa e ele entrou decididamente na sua maturidade de autor. Mas talvez possamos ir um pouco mais longe. Sabendo nós que o tempo e designadamente o tempo histórico não é linear talvez se possa compreender que eu sugira que há um livro ainda importante para esta formação que se vai sobretudo traduzir em romances. Esse livro, que é publicado em 1981, entre Levantado do Chão (1980) e Memorial do Convento (1982), chama-se Viagem a Portugal.

Este livro de viagens na sua terra ajuda a estabelecer a ponte entre os dois romances e mostra como a escrita de José Saramago representa na ficção uma história do povo trabalhador português, uma história denegada e recalcada, uma histórica que, entretanto, atesta a sua caminhada persistente até à sua emancipação."
Manuel Gusmão