Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Mísia canta fado "Nenhuma Estrela Caiu" - Letra/Poema de José Saramago



Mísia canta fado "Nenhuma Estrela Caiu"
com letra/ poema de José Saramago


"Janelas que me separam 
Do vento frio da tarde
Num recanto de silêncio 
Onde os gestos do pensar
São as traves duma ponte 
Que não paro de lançar
Vem a noite e o seu recado 
Sua negra natureza 
Talvez a lua não falte 
Ou venha a chuva de estrelas 
Basta que o sono desperte 
O sonho que deixa vê-las 
Abro as janelas por fim 
E o frio vento se esquece 
Nenhuma estrela caiu 
Nem a lua me ajudou 
Mas a ruiva madrugada
Por trás da ponte aparece."

Professores esses «Marcianos» numa sociedade deseducada (ou) Educar vs Instruir


(...) "Escolas que fecham... Eu tenho uma crónica escrita naqueles antigos anos do diário "A Capital", em 1968 ou 1969, na qual o narrador conta que tinha tido um sonho, que tinha vivido em Marte, não muito tempo  - mas o tempo em Marte é de outra maneira - e que havia coisas que ele não conseguia compreender na sociedade marciana. E uma coisa que estava lá escrito era o eu não compreender como havia uma escola num sítio qualquer que tinha dois ou três alunos e que tinha sete ou outro professores cada um com a sua matéria para ensinar aquelas crianças. É uma fábula que não tem grande importância, mas agora, em Portugal, encerra-se uma escola com uma serenidade tremenda e não satisfeitos diz-se logo «vão fechar mil e não sei quantas escolas», enquanto no século XIX se afirmava que a abertura de uma escola significava o encerramento de uma prisão. Aquela gente era realmente tonta e irrealista - o irrealismo significa tonto - porque julgavam que era certo o que faziam, mas o futuro até aos dias de hoje veio dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. (...)

"Uma Longa Viagem com José Saramago"
Porto Editora, João Céu e Silva
Pág. 90




Saramago aborda o problema da educação versus instrução, e menciona uma participação num congresso de professores, em São Paulo - Brasil,. Aborda a temática da tutela do ensino, em que no antigamente eram criados ministérios da "instrução" e que nos tempos mais próximos, passaram a chamar de Ministério da Educação.
E leva-nos a esta, pertinente e musculada, observação. 

(...) " a questão, pelo menos tal como eu a entende, é bastante simples e reduz-se a duas perguntas: pode a escola educar? Ou deve a escola fazer o que lhe compete, que é instruir? Este problema parece um capricho sofista, de separa a educação da instrução, até pode parecer que estou a brincar com as palavras mas não, porque se pensarmos que noutros tempos de uma família de analfabetos podiam sair crianças educadas por esses pais, avós e tios que não conseguiam passar conhecimentos mas podiam transmitir, inconscientemente até, valores de convivência, de trabalho, de respeito e valores de identidade pessoal. (...) Actualmente, o que aconteceu foi que a partir de certa altura e, principalmente, nos tempos mais recentes, com a crise da família - com o desaparecimento da autoridade não imposta mas reconhecida - isso acabou. Espera-se que a escola eduque e a escola não o pode fazer porque não sabe e, mesmo sabendo, não tem os meios que seriam necessários. A educação é outra coisa! Fazia parte das obrigações da família, digamos assim, e de alguma forma também de uma sociedade educada que necessariamente produziria mais ou menos cidadãos educados. Agora, vivemos numa sociedade deseducada, vivemos num processo de deseducação integral - podemos falar noutras circunstâncias de um processo de educação integral - e não somos os únicos, pois todo o mundo está todo assim. Chega ao extremo, e isso deixa-me confuso, de os professores estarem sujeitos à agressão. Onde é que já se viu que o mestre, aquele que transmite, que abres as portas para o mundo e para o conhecimento das coisas, seja tratado como é hoje em dia em toda a parte. Agressões, desprezo e pontapés e essa pobre gente - refiro-me à grande maioria dos professores - são realmente os heróis do nosso tempo. Eles podiam bater com a porta e dizer «não volto mais!» e pergunto-me «porque é que não o fazem?» Porque precisam de viver e de ganhar o seu ordenado, mas era o que deviam fazer. Não é uma greve de um dia, é fechar as portas das escolas, sair e não voltar até que o assunto se resolva." (...)

"Uma Longa Viagem com José Saramago"
Porto Editora, João Céu e Silva
Páginas. 90 e 91



Link, via Fundação José Saramago,
em http://caderno.josesaramago.org/67896.html
"Cada vez mais sós
Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro."Cada vez mais sós", in Deste Mundo e do Outro, Ed. Caminho, 7.ª ed., p. 216(Selecção de Diego Mesa)"

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Citador #15 ... referência ao Padre António Vieira e o belo na língua escrita em português - Não AO

Eu, digo NÃO ao Acordo Ortográfico - Pela Defesa de Língua Portuguesa

Eu como pato e faço pactos
Eu visto fatos e assumo outros factos
Eu ato os atacadores e gosto daquele Primeiro Acto


"Padre António Vieira
Isto a que chamam o meu estilo assenta na grande admiração e respeito que tenho pela língua que foi falada em Portugal nos séculos XVI e XVII. Abrimos os Sermões do Padre António Vieira e verificamos que há em tudo o que escreveu uma língua cheia de sabor e de ritmo, como se isso não fosse exterior à língua, mas lhe fosse intrínseco.
Nós não sabemos ao certo como se falava na época, mas sabemos como se escrevia. A língua então era um fluxo ininterrupto. Admitindo que possamos compará-la a um rio, sentimos que é como uma grande massa de água que desliza com peso, com brilho, com ritmo, mesmo que, por vezes, o seu curso seja interrompido por cataratas.
Chegam dias de férias, uma boa ocasião para entrar nesta água, nesta língua escrita pelo Padre Vieira. Não aconselho nada a ninguém, mas digo que vou mergulhar na melhor prosa e vou desaparecer estes dias. Alguém quer acompanhar-me?"
Caderno 2, 8 de abril de 2009

Link, em http://caderno.josesaramago.org/162275.html

"Digo pedra" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor "Nesta Esquina do Tempo"


Luis Pastor canta poemas de José Saramago
Álbum "Nesta Esquina do Tempo"
Poema/Musica "Digo Pedra"

«Digo pedra»

Digo pedra, esta pedra e este peso,
Digo água e a luz baça de olhos vazos,
Digo lamas milenárias das lembranças,
Digo asas fulminadas, digo acasos.

Digo terra, esta guerra e este fundo,
Digo sol e digo céu, digo recados,
Digo noite sem roteiro, interminada,
Digo ramos retorcidos, assombrados.

Digo pedra no seu dentro, que é mais cru,
Digo tempo, digo corda e alma frouxa,
Digo rosas degoladas, digo a morte,
Digo a face decomposta, rasa e roxa.

(de Provavelmente alegria, 1970)

Adelino Gomes entrevista José Saramago, para o jornal "Público" em 29/05/2002

"Escrevi o romance para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites"

(Semear palavras pelo campo,
já não cavará por entre os torrões de terra seca,
os homens que fecharam a água a montante,
jamais abrirão as suas comportas erguidas,
a juzante urge uma nova fonte,
eterna esperança para alimentar o horizonte vindouro
fazer brotar novos rebentos
que de fortes caules
que de altos troncos,
possam abraçar melhores sombras.
Semear palavras pelo campo,
para que alguém as possa ler de novo)




Aqui, pode ser consultado através do link,
em http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/escrevi-o-romance-para-resolver-o-choque-entre-uma-admiracao-e-uma-rejeicao-sem-limites-171041

Por Adelino Gomes, para o caderno Ipsilon, do jornal Público, em 29/05/2002

"José Saramago, 79 anos, acabara de regressar a casa, na ilha de Lanzarote, após mais uma das longas viagens e respectivo cortejo de compromissos que a concessão do Nobel só veio aumentar. As datas das próximas passagens por Portugal não coincidem com os prazos editoriais. Na impossibilidade de uma entrevista frente a frente, combina-se uma sessão de perguntas e respostas via Internet. Com direito a "repique", por parte do entrevistador. O tema é o livro que hoje o PÚBLICO distribui aos seus leitores. Mas Saramago aceita uma digressão pela polémica israelo-palestiniana, em que se envolveu após ter invocado Auschwitz quando se encontrava em Ramallah. JOSÉ SARAMAGO - Passaram mais de 20 anos, não recordo o nome do hotel, se alguma vez o fixei. E não se tratou de um congresso, mas de um grupo viajante, daqueles que a Associação de Amizade Portugal-RDA organizava. Calhou-me ser o "porta-voz" da delegação, o que significou ter a meu cargo os discursos de agradecimento em todos os lugares e instituições que visitámos. Foi no final de um desses dias que a "coisa" aconteceu. Tinha visto em Lisboa um filme ("Anno Domini" não sei quantos, não recordo o nome do realizador) e, não sei porquê, ele veio-me à memória quando entrei no quarto do hotel. Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás e, nesse momento, "caíram-me" do tecto as palavras "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Tinha publicado poucos meses antes "Levantado do Chão" e esta era a primeira ideia que me surgia para um novo livro. A ideia do "Memorial do Convento" veio depois. Se me perguntarem porque não os escrevi pela ordem de "nascimento", direi que me assustou o que os "pessoanos" iriam dizer da presunção deste adventício. O "Memorial" deu-me forças e confiança para arrostar depois com aquele Adamastor..."


(José Saramago com Eduardo Lourenço)


"P - É verdade que lhe acontece muitas vezes ter o título antes de escrever uma única palavra do livro?
R - Quase sempre. O Memorial esteve para chamar-se simplesmente "O Convento", mas como Agustina Bessa-Luís tinha publicado "O Mosteiro", achei que devia arredondar o título para não parecer que andava a inspirar-me em títulos alheios. Quanto a romances que começaram pelo título, são eles, por exemplo, "Levantado do Chão", "História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira", "Todos os Nomes", "A Caverna" e este em que estou a trabalhar, "O Homem Duplicado".

P - Mas para aparecer um título deve haver antes uma ideia geral para a qual ele remete. Por exemplo, "Todos os Nomes" tem relação com uma busca de dados que andava a fazer sobre o seu irmão Francisco de Sousa, morto aos dois anos. 
R - Alguns títulos, de facto, propõem imediatamente o que chama "uma ideia geral" da história. Não é, porém, o caso de "Todos os Nomes", que me apareceu num avião que me levava a Brasília. Já íamos a pouca altura, eu olhava a paisagem lá em baixo e de repente saltaram-me dentro da cabeça aquelas três palavras. Perguntei a mim mesmo que diabo quereria aquilo dizer e pensei que, tendo escrito um romance - "Ensaio sobre a Cegueira" - em que nenhuma personagem tem nome, poderia agora tentar outro em que apareceriam "todos os nomes". Uma espécie de contraponto. A ligação à busca de dados sobre o meu irmão Francisco em que andava empenhado deu-se algum tempo depois. Estava em Amherst, no estado norte-americano de Massachusetts, hospedado em casa do professor José Ornelas, e foi aí que se me desenhou na mente a história do funcionário do Registo Civil. 

P - E quanto a "O Ano da Morte de Ricardo Reis"? Andava às voltas com Pessoa? 
R - Directamente, não andava às voltas com o Fernando Pessoa, mas todos nos lembramos que por aqueles anos (cinquentenário da morte, centenário do nascimento) era o Pessoa que andava às voltas connosco...

P - Começou a escrever o livro logo a seguir? Quanto tempo lhe levou? Esse tempo foi superior ou inferior ao normal? 
R - O Ricardo Reis teve de aguardar na fila que eu me livrasse do "Memorial", sobrou-lhe portanto a espera para chegar maduro ao momento de principiar a ser escrito. Creio que o trabalho de escrita não me ocupou mais de nove meses. Aliás, é esse, pouco mais ou menos, o tempo de que necessito para pôr um romance em pé.

P - Como concilia as exigências da editora (e dos leitores) com os eventuais caprichos da inspiração?
R - A minha relação com a Editorial Caminho não é desse tipo. Eles respeitam o meu trabalho, eu respeito o trabalho deles. Os prazos fixo-os eu a mim mesmo, não eles. E se alguma vez me atrasei na entrega de um original, foram bastante compreensivos para aceitar sem reserva as razões por que isso tivesse sucedido. Quanto aos leitores, não têm eles mais remédio que esperar pacientemente. Ou impacientemente, o que será melhor ainda...

P - Qual foi o livro que lhe levou mais tempo a escrever?
R - Talvez "História do Cerco de Lisboa".

P - E o de mais rápida elaboração?
R - "A Caverna".

P - Lembra-se do seu primeiro contacto com o heterónimo de Fernando Pessoa Ricardo Reis?
R - Conheci Ricardo Reis por altura dos meus 17 ou 18 anos. Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista "Athena" em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro. Nessa altura, pensei que Ricardo Reis era uma pessoa real, não sabia nada dos heterónimos e pouquíssimo do próprio Pessoa. 

P - Um espectador da vida, Ricardo Reis é, talvez de todos, o heterónimo com o qual José Saramago se identificará menos. Porquê então este privilégio que lhe concede ao fazê-lo "herói" do seu livro?
R - Quando mais tarde avancei no conhecimento de toda aquela "gente" - foi muito importante para mim a antologia organizada por Adolfo Casais Monteiro, cuja segunda edição, a que tenho, saiu em 1945 - e sobretudo comecei a penetrar mais profundamente no espírito do Reis, achei-me diante de algo que quase por instinto rechaçava, aquela sua ideia de que a sabedoria consiste em contentar-se cada um com o espectáculo do mundo... Pensava já então, e continuo a pensá-lo, que se a alguém o espectáculo do mundo contenta, ao menos que tenha a decência de não chamar sabedoria a essa atitude. Direi que "O Ano da Morte de Ricardo Reis" foi precisamente escrito para mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo (de Portugal também) e perguntar-lhe se continuava a considerar sabedoria a mera contemplação dele... Foi portanto para resolver o choque entre uma admiração sem limites e uma rejeição sem limites que escrevi o romance.

P - O próprio Fernando Pessoa pode dizer-se que esteve nos antípodas daquilo que José Saramago defende. Tanto no seu percurso pessoal como nas intervenções que ele foi fazendo na vida cultural e política do país. A sua admiração por Pessoa faz esse "distinguo"?
R - Todos sabemos que Fernando Pessoa dá para tudo. Se quisermos viver em paz com ele, teremos de o aceitar como foram. Mas realmente é difícil suportar com serenidade certas afirmações suas, como aquela de que a escravatura, afinal, não era um sistema assim tão mau...

P - Já agora, o mesmo quanto ao Padre António Vieira, cultor da língua, defensor dos índios e visionário do Quinto Império?
R - Provavelmente, para o Padre António Vieira, as visões de um Quinto Império não passaram de uma manha política (digo "manha" no melhor sentido da palavra), hoje sem particular significado, salvo para alguns "iluminados" que ainda imaginem por aí grandiosos futuros para Portugal. Quanto ao Quinto Império pessoano, esse era puro teatro. Não se vê que diabo de espiritualidade "futurante" poderia ter ele encontrado na modorrenta Lisboa dos anos 30...

P - Da sua lista de autores preferidos, constam outros escritores em que o fascínio pela obra literária não acompanhe a admiração pela pessoa? Pode especificar?
R - Falando de autores portugueses, confesso que não consigo ler aqueles a quem ao mesmo tempo não estime e respeite como pessoas. Sou menos exigente se se trata de autores estrangeiros.

P - Tem consciência de que esse é o "drama" de numerosos fãs da sua obra, que não o acompanham nas suas opções políticas e a quem nalguns casos essas opções repugnam até?
R - Se me lêem apesar de as minhas opções políticas lhes repugnarem (outra coisa seria se lhes repugnasse a pessoa que as tem), então o "drama" não é assim tão grande...

P - Alguma vez pensou em moderar a sua militância no terreno, de forma a alargar ainda mais a base de apoio literário de que goza no mundo, sobretudo a partir do Prémio Nobel?
R - A minha base de apoio literário nasceu simplesmente daquilo que escrevo, não de uma estratégia de autor ou de uma dosagem de ingredientes narrativos supostamente "abrangentes", para usar um termo do calão político. Moderar aquilo a que chama "a minha militância no terreno" para alargar ainda mais a dita base de apoio seria um cálculo indigno. Quem me quiser, terá de aceitar-me tal qual sou. Quanto aos outros, que vivam tão bem sem mim como eu vivo sem eles.

P - Disse uma vez numa entrevista: "Eu estou nos meus livros." Como explica que numerosos leitores (como se viu agora em Israel) adiram aos seus livros entusiasticamente mas reajam tão fortemente a posições políticas públicas suas?
R - Alguns críticos literários de Israel disseram que eu escrevi "Ensaio sobre a Cegueira" pensando no Holocausto e era voz corrente que um dos meus livros, suponho que o mesmo, havia sido lá escrito... Nada disto era verdade, simplesmente era o lado imaginário de uma relação privilegiada entre leitores e autor que se estabeleceu em Israel e que nunca alimentei de caso pensado. De certa maneira, consideravam-me um deles. Mesmo que para isso tivessem de saltar por cima de alguma interpelação minha, como aquela que sobre o conflito israelo-palestino se pode ler no "Evangelho segundo Jesus Cristo" (pp. 210-211 da edição portuguesa) e cuja parte final aqui deixo: "Agora vais dizer-me, segundo o que te aconselhem as tuas luzes, se, chegando nós um dia a ser poderosos, permitirá o Senhor que oprimamos os estrangeiros que o mesmo Senhor mandou amar, Israel não poderá querer senão o que o Senhor quer, e o Senhor, porque escolheu este povo, quererá tudo quanto for bom para Israel, Mesmo que seja não amar a quem se devia, Sim, se essa for, finalmente, a sua vontade, De Israel ou do Senhor, De ambos, porque são um, Não violarás o direito do estrangeiro, palavra do Senhor, Quando o estrangeiro o tiver e lho reconheçamos, disse o escriba." Nestas últimas palavras ("lho reconheçamos") está o nó da questão: Israel não reconhece o direito dos palestinos a viverem na sua própria terra, mas os judeus que leram aquilo fizeram de conta que não era nada com eles...

P - Acha que a sua opinião sobre a situação palestiniana vale a perda de milhares de leitores israelitas dos seus livros?
R - Ai de mim se quando vou dizer ou escrever alguma coisa começasse por pensar se com isso irei vender mais ou vender menos livros... Em Março venderam-se em Israel 3000 exemplares de "Todos os Nomes", em Abril, depois das minhas declarações em Ramallah, apenas 280. A conclusão é fácil: 2720 leitores andavam equivocados a meu respeito, 280 sabiam quem eu era. Estes são os que me importam.

P - Não o impressiona o argumento daqueles que lembraram que os seus leitores se encontram em Israel e não na Palestina?
R - É um argumento estúpido e mesquinho, que denuncia uma mentalidade de avaro. A Israel não falta dinheiro para comprar livros, mas eu não me vendo a quem compre os meus, seja quem for e onde quer que esteja. Em todo o caso, que não se preocupem, estou traduzido ao árabe e alguns dos livros que escrevi circularão certamente na Palestina. É mesmo muito possível que um exemplar desses se encontre soterrado sob os escombros de Jenin... 

P - Já agora, tendo em conta o seu recente artigo "Das pedras de David aos tanques de Golias" (na imprensa internacional e no PÚBLICO de 03-05-02): reconhece que foi excessiva a comparação histórica que fez com a situação que prevalecia em Ramallah durante o cerco israelita? 
R - O meu artigo não retira nada às declarações que fiz em Ramallah. É simplesmente outra visão do problema. Se a denominada comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse na Palestina, teria de informar que não comparei os factos de Ramallah aos factos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao espírito de Ramallah... Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o prof. Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeo-nazi) não fez depois mais que confirmar. E se ainda há por aí quem tenha dúvidas, que consulte o "plano de paz" que Sharon levou a Bush para aprovação. Nele se contempla o reconhecimento de um Estado palestino sem capacidade militar e com o território reduzido, em que se criarão zonas de segurança para separar fisicamente israelitas e palestinos. O "plano" prevê um acantonamento permanente de tropas nos territórios palestinos, grades, vedações electrificadas e portas de acesso, como as que actualmente separam Gaza de Israel. Não é preciso ser um lince de inteligência para perceber que a aplicação de um tal "plano de paz" transformará definitivamente o chamado território palestino num enorme campo de concentração...

P - Voltando ao livro. Que métodos seguiu para reconstituir o ambiente de Lisboa naquele período (segunda metade dos anos 30), para além da consulta de jornais da época, abundantemente citados? Foi aos locais para melhor os descrever (Hotel Bragança, Cemitério dos Prazeres, etc.)?
R - Apesar de ter apenas 13 anos em 1936, a minha lembrança do ambiente geral da cidade naquela época mantém-se bastante viva. Essa lembrança foi o pano de fundo de que me servi para fazer representar as minhas personagens. Mas, tal como refere, a substância dos factos colhi-a nos jornais, principalmente "O Século", pelas características populares que sempre o distinguiram: enquanto o "Diário de Notícias" afirmava ser o jornal de maior tiragem, "O Século" desforrava-se dizendo ser o de maior circulação... Não só visitei o Hotel Bragança, na Rua do Alecrim, como escolhi o quarto - o 201 - em que iria alojar-se Ricardo Reis. Aos Prazeres fui também, claro. O resto teve de resolvê-lo a imaginação.

P - E quanto às personagens? Por exemplo as duas mulheres, Lídia e Marcenda, sendo figuras literárias [das "Odes" de Ricardo Reis], onde foi buscar o corpo e os tiques que lhes deu?
R - Marcenda não é uma "personagem literária" de Reis, não é sequer um nome feminino com presença nos vocabulários onomásticos. A palavra aparece na ode "Saudoso já deste Verão que vejo" designando uma rosa emurchecida. Achei que estava a carácter com a "minha" personagem. Quanto a Lídia, uma vez que me tinha proposto mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo, pensei que seria uma boa partida dar a uma criada de hotel o nome de uma das suas quase incorpóreas musas...

P - O lançamento deste livro pelo PÚBLICO vai fazê-lo chegar a muita gente que de outra forma não o leria. Tendo em conta que entre os seus novos leitores se deverão encontrar muitos estudantes, que leituras lhes aconselharia a fazer para melhor compreenderem a história?
R - A leitura que eu próprio fiz, a da imprensa da época. Aprende-se muito a ler jornais 50 anos depois de terem sido publicados...

P - Foram vários os prémios atribuídos a "O Ano da Morte...". Qual a importância de que se revestiu, para si e para a sua "carreira", ter sido o Prémio de Ficção Estrangeira do diário britânico "The Independent", num ano, 1992, em que concorriam, entre outros, livros de Gunter Grass e de Ismail Kandaré?
R - É fácil de imaginar se se souber que eu trabalhava nos Estúdios Cor quando esta editora, no princípio dos anos 60, publicou "O Tambor" de Gunter Grass. A publicação de "Terra do Pecado", em 1947, não tinha feito de mim um escritor, e "Os Poemas Possíveis" só seriam publicados em 1966. Literariamente, portanto, não existia. Ganhei em 1990 o prémio de "The Independent" em competição com Grass e, como se isto não fosse bastante, dão-me o Nobel antes de o darem a ele. É caso para dizer que não há justiça neste mundo...

P - Refere-se muitas vezes, nos "Cadernos de Lanzarote", à grande quantidade de leitores que tomam a iniciativa de lhe escrever ou de o interpelar de viva voz sobre os livros que escreve. Qual o lugar de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" nas preferências confessadas dos seus leitores?
R - Não faltam leitores que consideram ser "O Ano da Morte de Ricardo Reis" o meu melhor romance, mas não se me peça que concorde com eles, uma vez que iria contrariar aqueles outros leitores que, por razões não menos pertinentes, defendem outras preferências.

P - Qual o lugar dele na sua lista pessoal da obra escrita até agora? Porquê?
R - Apenas direi que nada poderia consolar-me se por alguma arte diabólica o "Ricardo Reis" desaparecesse da minha bibliografia. Não sei se é ele o melhor dos que escrevi, mas sei que pelo menos dessa vez toquei o tecto. E toquei algo mais, se se me permite uma nota pessoal: foi "O Ano da Morte de Ricardo Reis" que nos juntou. Refiro-me a Pilar, claro está..."

Video da Conferência "Presentación de ALABARDAS de José Saramago"


(Vídeo completo da apresentação de "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas" realizada em Guadalajara, México, no âmbito da FIL - Feira Internacional do Livro)

Pilar del Río na Feira do Livro de Guadalajara, México - Apresentação de "Alabardas"

Aqui, link do El Pais Suplemento de Cultura,
em http://cultura.elpais.com/cultura/2014/12/01/actualidad/1417401429_774095.html
PABLO DE LLANO México 1 DIC 2014


"Desde el más allá, José Saramago los invita a romper sus fusiles
Pilar del Río, viuda del Nobel portugués, presenta 'Alabarda', su obra póstuma e inconclusa contra la industria de las armas"

(Pilar del Río, na Feira do Livro de Guadalajara, México - 01/12/2014)

Al final del acto de presentación de Alabarda (Alfaguara), la novela póstuma de José Saramago contra la industria de las armas, su viuda Pilar del Río respaldó la proclama que recorre México desde hace dos meses ("Vivos se los llevaron, vivos los queremos", por los 43 jóvenes de Iguala) pero sugirió un lema alternativo. "Yo les voy a decir cómo pensaba terminar él esta novela. Con un sonoro 'vete a la mierda'. Cuando nos quieran engañar, no seamos finos y no nos andemos con subterfugios. Primero, antes que nada, digamos: 'Vete a la mierda'".

Del Río, 64 años, una mujer menuda de pelo corto, estuvo sonriente durante la charla. Habló de Saramago con el conocimiento respetuoso del auxiliar de un maestro y con la melancolía tierna de una mujer que recuerda a su marido. La acompañaron la periodista mexicana Lydia Cacho y la escritora argentina Claudia Piñeiro. Contó que su marido solía decir que leer un libro es terminar de completarlo. "Pero esta vez se pasó un poco". A Saramago la vida no le llegó para terminar Alabarda y le tocó a otros componer lo que dejó sobre la mesa de su lugar de trabajo: los papeles de una novela inconclusa. Ella se pasó un tiempo sin moverlos de ahí: "No los quería quitar porque así sentía que siempre cabía la posibilidad de que los viniera a acabar". El libro es un trabajo en conjunto a partir de ese texto sin finalizar. Las ilustraciones son de Günter Grass. Un texto de acompañamiento lo firma Roberto Saviano, el reportero italiano que retó a unos degustadores de armas como son los clanes mafiosos de Nápoles.

En la presentación, la periodista de investigación Lydia Cacho llamó la atención sobre la necesidad de reflexionar sobre la industria del armamento en una tierra tan castigada por la violencia como América Latina. Mencionó las fábricas de armas de Brasil y las clandestinas de Colombia y México, de donde puso un ejemplo: según sus averiguaciones, en el Estado de Michoacán existen centros de montaje de fusiles AK-47 en los que se adapta el manejo de estas armas a las manos, más pequeñas, de los campesinos mexicanos. Piñeiro destacó que Alabarda ratifica una vez más la coherencia de principios del autor portugués: “Siguió hasta el último momento luchando por esas causas que consideraba necesarias, y el libro contiene tanto su ideología como su prosa exquisita”. Del Río precisó que esta obra final tuvo que ver con el compromiso de Saramago con dos vectores de denuncia: la imposición de dogmas por parte de las religiones y el poder de las armas, que fue lo último que abordó. “Decía que no quería morirse sin abordar de forma directa por qué se hacen armas y cómo estas pueden ser un fracaso social y un fracaso personal”.

En una de las pesquisas de información que hizo Saramago para fundamentar el libro supo de una historia reveladora sobre una empresa de armas portuguesa. La compañía tenía que hacer una reconversión de su estrategia porque le resultaba demasiado caro hacer armas. Alguien propuso que pasasen a hacer electrodomésticos. “Pero no lo hicieron”, dijo Del Río, “porque para los hombres de poder es más importante hacer armas que lavadoras”

O "Eu" e o "Outro" em "O Homem Duplicado" como resposta à interpretação do "homem"

A concepção desta obra - "O Homem Duplicado", é mais um passo dado, por José Saramago, no aprofundamento da interpretação do homem enquanto ser social. Este é considerado à partida, seu ponto primeiro de identificação e diferenciação sobre os restantes seres vivos, como estando dotado de consciência e sentimentos, reacções e acções, inteligência e capacidade para alcançar o bem pessoal e o bem comum, através da partilha e desenvolvimento de laços harmoniosos.
Representando o período "pós-estátua", há aqui uma real preocupação em retirar as várias camadas que suportam a superfície da estátua já esculpida, descobrindo-lhe a pedra, ou o seu mais profundo âmago, o que chamamos - a Identidade. 
Com este processo, de forma intencional, Saramago, como que coloca as suas mãos de escritor, dentro das personagens, não para as comandar como fantoches, mas para as abanar e mostrar o seu interior, fazendo-as assim descobrirem-se e darem a conhecer a sua identidade. O "Eu", o "Eu e o tu", o "Eu e o nós", o "Eu e os outros", e por fim, a soma destas identidades, na visão de José Saramago, nos irá permitir conhecer e perceber, logo à nascente, o espírito global da sociedade que determinada época (tempo), ou local (espaço) apresenta. A acção de cada um é multiplicada, replicada e reproduzida, naquilo que se torna no resultado e consequente consciência social, seja sob a perspectiva do olhar de uma família (Cipriano Algor com a sua filha e genro), de uma nação (a capital em o "Ensaio sobre a Lucidez") , ou do mundo em que vivemos (Alabardas, alabardas, Espingardas, Espingardas).
Esta preocupação é reproduzida transversalmente em toda a obra de José Saramago, independentemente do momento cronológico em que é gerado, seja numa fase inicial (e interrompida durante muitos anos), ou, seja em plena década de 70, já num momento mais activo da sua produção literária, em que o primado "dúvida" sobre a real intenção ou capacidade do ser humano, prevalece sobre a visão utópica que poderia ser adoptada.
Em minha opinião, com a devida ressalva de uma eventual interpretação menos atenta, Saramago criou diversos momentos chave ou "personagens", que o não sendo, foram tornadas influentes na reorientação dos actores e seus conflitos. São momentos de consciência profunda, onde a desorientação da personagem, ou, o conflito social e consequente falta de esperança, obrigam a uma intervenção que permita estabilizar o rumo da história. Lembro-me por exemplo, das diversas figuras caninas neste universo "Saramaguiano". O Achado de Cipriano Algor, em "A Caverna", o Constante de Pedro Orce, na "Jangada de Pedra", ou o cão das lágrimas em o "Ensaio sobre a Cegueira", são determinantes para os seus "companheiros" recuperarem a sua "identidade", ou o seu "eu". Esta ascensão de uma figura animal, em primeiro lugar retira o factor místico e do "inexplicável", de uma eventual intromissão no decorrer da história, e ganha o poder de fazer chamar cada um dos seus intervenientes à "razão" - redescoberta da identidade. 

Miguel de Azevedo



Em "A Estátua e a Pedra", Fernando Gómez Aguilera, traduz esta questão de forma límpida. Atendemos às suas palavras (Fundação José Saramago, páginas 50 e 51).   

(...) "Com "O Homem Duplicado", regressaria, de certo modo, a uma questão de que se havia ocupado em "Todos os Nomes", a da alteridade, enfrentada agora a partir de um ângulo complementar, o da identidade. Sem dúvida, trata-se de um dos grandes temas da arte e da literatura contemporâneas, explorado por Saramago sob a capa de romance de intriga, para colocar em manifesto as tensões entre o «eu» que se protege e exclui o «outro» que inevitavelmente nos constrói: «O que no fundo eu quero tratar é o tema do "outro". Se o "outro" é como eu, e o "outro" tem todo o direito de ser como eu, eu pergunto-me: até que ponto eu quero esse "outro" entre e usurpe o meu espaço? Nesta história, o "outro" tem um significado que nunca antes teve. Actualmente, no mundo, entre o "eu" e o "outro" há distâncias e não é possível superar essas distâncias, e por isso o ser humano cada vez consegue menos chegar a um acordo. As nossas vidas são compostas em cerca de 95% pela obra dos outros». (2007) (...)


  

sábado, 29 de novembro de 2014

Joseph Haydn "As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz" - José Saramago e Raimon Panikkar elaboraram as "palavras"

"Colaboração de José Saramago, Jordi Savall e Raimon Panikkar a partir da música de Joseph Haydn.
Em 2007, a editora discográfica catalã AliaVox editou a gravação de “As Sete Últimas Palavras de Cristo“ de Joseph Haydn pela Orquestra Le Concert des Nations, sob a direcção do maestro e compositor Jordi Savall e acompanhado pelos textos originais de José Saramago e Raimon Panikkar.
O desafio havia sido proposto por Savall a Saramago uns anos antes e, apesar de “ambos concordarem que as palavras [que expliquem a música de Haydn] não eram necessárias”, concordaram também que deveriam sê-lo, conforme relata Pilar del Río. Saramago dedicou-se a um árduo trabalho de pesquisa, já iniciado aquando de O Evangelho segundo Jesus Cristo. No final, “escreveu sobre cada uma delas [as palavras de Cristo na cruz], não para explicar a música mas para acrescentar ao seu Evangelho as páginas que faltavam”.
Passados mais de duzentos anos desde a sua criação, uma encomenda especial feita a Haydn nos começos de 1786, “pareceu-nos apropriado dar esta responsabilidade a dois grandes mestres do pensamento espiritual e humanístico contemporâneo: Raimon Panikkar e José Saramago complementam as breves citações do texto evangélico com uns textos e comentários que reflectem as suas profundas convicções espirituais e humanísticas”, justifica Jordi Savall no texto introdutório do CD."

Via Fundação José Saramago, pode ser consultado, aqui

"A 19 de Junho de 2011, o Ministério da Cultura e a Fundação José Saramago juntaram-se para realizar um desejo antigo de José Saramago em assistir à apresentação deste trabalho na cidade de Lisboa. Como refere Gabriela Canavilhas, então Ministra da Cultura, “Querendo assinalar o aniversário da morte do nosso Prémio Nobel da Literatura, com a cumplicidade de Pilar del Río, o Ministério da Cultura apostou na realização deste desejo silencioso de Saramago, prestando-lhe justíssimo tributo, glorificando a palavra e a música, no concerto dos grandes génios que são Saramago e Haydn”.
O espectáculo ocorreu no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, com a concepção de cena de Teresa Villaverde e interpretação da Orquestra Sinfónica Portuguesa, dirigida pelo maestro Moritz Gnann."

"As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, de José Saramago"

"Palavra Primeira
Deus, Pai, Senhor, aqui me tens. Aqui me tens, finalmente, neste monte escalvado a que chamam Gólgota e aonde, passo a passo, vieste encaminhando a minha vida a fim de que todas as profecias fossem cumpridas. Sou o da cruz alta, a que está ao centro, e os homens que me fazem companhia, um de cada lado, são dois ladrões vulgares, daqueles que se contentam com roubar pouco, que se fossem dos que roubam muito de certeza não viriam aqui crucificados. O que está à minha direita protesta que não quer morrer, grita como um doido furioso, dá arrancos com o corpo como se pretendesse arrancar a cruz do chão e fugir com ela às costas, ao outro já o vejo resignado, tem a cabeça descaída, apenas geme. Penso que terei de lhe dizer alguma coisa que o console antes que isto se acabe. O bom que tem este lugar para os condenados é ser Jerusalém a última imagem que levam da vida. Não estamos sós. Entre os soldados romanos, os doutores da lei, os chefes dos sacerdotes, os anciãos, e a gente comum que acudiu ao espectáculo, distingo, embora mal porque as dores me estão nublando os olhos, minha mãe com algumas mulheres, e também, sim, está também Maria Madalena. E está João, mas aos outros não os vejo, terão fugido. À morte deveria assistir-se em silêncio, não este clamor de insultos, esta gritaria, este ódio insensato, estas palavras de escárnio: “Salva-te a ti mesmo se és o rei dos judeus, lá está aquele que deitava abaixo o templo e tornava a reconstruí-lo em três dias, que desça agora da cruz para nós vermos e acreditarmos nele”. Deus, Pai, Senhor, era isto necessário? Não te bastava a simples morte? Já que terei de perder a vida, perdoa-lhes tu o alvoroto, porque não sabem o que fazem. E eu? Virei a saber o que fiz no mundo? E tu, Deus, Pai, Senhor, tens a certeza de que tudo o que fizeste foi bem feito?

Palavra Segunda
Deus, Pai, Senhor, não sei como o poderei confessar, tão confundido e humilhado sinto o meu espírito. Compadecido do sofrimento do ladrão manso, não encontrei nada melhor para o consolar que prometer-lhe o paraíso. “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”, foram as minhas formais palavras. Mas logo me perguntei se a soberba, ou o orgulho, ou a vaidade, foi o que me levou a prometer algo que não estava em meu poder dar. Antes, numa das suas fúrias, o ladrão bravo tinha-me invectivado: “Então não és o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós!” Mas o ladrão manso repreendeu-o com estas justas palavras, em verdade inesperadas em pessoa da sua condição: “Não tens temor a Deus, tu que estás a sofrer a mesma condenação? Nós estamos aqui a pagar o justo castigo pelos actos que temos praticado, mas este não fez nada de mal”. E foi aí, Deus, Pai, Senhor, que caí em tentação: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”, disse. Como pude eu esquecer-me do Juízo Universal que, esse sim, há-de separar o trigo do joio, o bom do mau, o virtuoso do pecador? Como pude esquecer o que disse o profeta: “Eu, o Senhor, penetro no íntimo do homem, e examino o seu coração, e a cada um dou segundo o seu procedimento.”? De todo modo, sou escravo da minha promessa, este homem irá comigo, comigo se apresentará à tua porta, e tu, Deus, Pai, Senhor, se quiseres receber-me a mim, terás também de recebê-lo a ele, porque eu, sozinho, não entrarei. Honra a promessa que fiz, já que neste suplício me desonraste.

Palavra Terceira
Deus, Pai, Senhor, quando, para castigar a prosápia dos homens que estavam levantando aquela torre com a intenção de chegar ao céu, lhes desordenaste a linguagem, talvez não tenhas pensado em todas as consequências do acto a que foste movido por uma ira semelhante à do dono da vinha quando dá por que os meliantes se dispõem a assaltá-la. Talvez este pensamento, na aparência fora de lugar, seja fruto do delírio, da angústia e das terríveis dores que me trespassam, mas, nesta hora última da minha passagem pela terra, não estaria bem que entre pai e filho ficassem coisas caladas. Aquela mulher que além vês, entre João e Maria Madalena, é minha mãe, tu o saberás melhor que ninguém. Nunca vi que lhe tivesses dado atenção em todos estes anos, mas não é disso que quero falar. O meu pensamento é outro. Quando confundiste a linguagem dos homens, houve palavras que se perderam, outras que tomaram caminhos desviados, outras que deixaram de pertencer a quem, tempos atrás, havia sido seu legítimo proprietário. Houve uma época, talvez na idade de ouro, falando a língua que tu confundiste, em que as mulheres podiam ser tão justas e piedosas quanto os homens fossem capazes de o ser, mas já não o eram quando eu vim ao mundo, porque, em hebraico, por exemplo, para justo e piedoso não há formas femininas equivalentes. Tendo eu que nascer forçosamente de uma mulher, como foi possível, Deus, Pai, Senhor, não teres reparado que ela não podia ser digna de me gerar, uma vez que não era piedosa nem justa? Rogar-te-ei que mo expliques quando nos encontrarmos. Não vejo nenhum dos meus irmãos. E aquele João, já não sei eu bem se é o meu discípulo, se o filho de Zebedeu, que tem o mesmo nome. Como quer que seja, vou dizer a frase que de mim se espera: “Mulher, aí tens o teu filho. João, aí tens a tua mãe.” Oxalá se dêem bem.

Palavra Quarta
Deus, Pai, Senhor, as palavras atropelam-se na minha cabeça, a ponto de já não saber se serão realmente minhas ou se as terei lido ou ouvido em alguma parte, e agora não faça mais que repeti-las de maneira mecânica, como uma criancinha que a duras penas aprende a falar. Pelo menos, tenho a certeza de que as palavras que irei proferir me sairão da boca somente para que se possa anunciar amanhã que as escrituras foram cumpridas uma vez mais. Escuta-as e diz-me se não tenho razão: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Quem me ouvir pensará que esta é a primeira vez que tu abandonas alguém e que por isso é de justiça que a pergunta seja lançada aos quatro ventos do alto desta cruz, como um aviso às pessoas. Mas tu, Deus, Pai, Senhor, desde o princípio do mundo que criaste não tens feito outra coisa que abandonar-nos. Recorda aqueles a quem, por causa de uma maçã e uma serpente, expulsaste do paraíso terrenal, recorda o espírito vingativo com que puseste diante da porta os querubins e uma espada de fogo para que eles não pudessem regressar. Crês tu, Deus, Pai, Senhor, que ao menos uma vez na vida, e em muitos casos todos os dias e a todas as horas, a espécie humana não teve motivos para fazer esta mesma pergunta: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”? Que estás longe, dirás, que não podes acudir a tudo, que o homem foi feito para que governasse a sua vida sem depender de deus ou deuses, mas em teu nome, quando não tu mesmo, há quem afirme que nascemos servos e servos seremos até ao fim da vida porque tu és a causa primeira e porque, ao mesmo tempo que nos vai abandonando um a um, nos manténs agarrados na tua mão. Eu próprio te fiz a pergunta e tu não respondeste. Razão tinha aquele que disse que Deus é o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio. Acabe-se o homem e tudo se acabará. Abandonados já estamos, eles, eu, talvez também tu, que nem a ti próprio te podes valer. Até para alegadamente salvar a humanidade tiveste que derramar o meu sangue.

Palavra Quinta
Deus, Pai, Senhor, ainda que possa parecer extraordinário, ou mesmo incrível, que alguém à beira da morte, tal eu estou, sinta sede e imagine ter tempo e forças para beber um vaso de água, foi isto o que acabou de suceder. Talvez, em realidade, eu não tivesse autêntica sede, talvez tivesse sido apenas a recordação súbita da frescura de uma água que para sempre iria perder, a sensação de senti-la a descer por uma garganta que em breve se cerraria, o que me fez soltar aquele grito: “Tenho sede!” Sem que eu o esperasse, quase imediatamente uma esponja molhada me tocou a boca e o sabor da água misturada com vinagre me restituiu por um instante o alento. Olhando para baixo vi um homem que segurava uma cana, esta a que veio atado o misericordioso socorro, porque bem sabemos, os que nunca tivemos gelo para refrescar a água nas canículas do verão, que juntar-lhe um pouco de vinagre é remédio infalível para as piores sedes. O homem baixou a cana, tornou a empapar a esponja, e outra vez ma fez chegar aos lábios. Depois, porque os soldados romanos se acercavam com as suas lanças e faziam gestos ameaçadores, o homem retirou-se, segurando a cana ao ombro e levando o balde da água e vinagre na outra mão. Foi isto o que se passou e não qualquer outra história que venha a contar-se no futuro, como se o sofrimento de quem foi condenado a morrer na cruz não fosse já bastante para encher o livro. Talvez a alguém se lhe ocorra escrever, e por todos os modos repetir, que quiseram dar-me vinho misturado com fel ou com mirra. Não é verdade. E agora, Deus, Pai, Senhor, peço-te um último favor. Que não faças esperar este homem até ao dia do Juízo Final, que o chames a ti no preciso momento em que morrer, e que tu mesmo o vás receber à porta do paraíso. Reconhecê-lo-ás facilmente. Leva uma cana ao ombro e um balde com água e vinagre na outra mão.

Palavra Sexta
Deus, Pai, Senhor, tudo está cumprido. A cruz em que me pregaram não tardará a ter um cadáver nos seus braços, tal como, desde o princípio do mundo, foi por ti decidido que haveria de suceder. Será, por ser a minha, suficiente esta morte para a salvação da humanidade? Para salvá-la de quê ou de quem? De si mesma? Do inferno que tu mesmo fabricaste, uma vez que não havia mais ninguém que o pudesse fazer? Sou eu o cordeiro que Abel te sacrificava, ao mesmo tempo que desprezavas o trigo e o centeio que Caim te oferecia? Porquê? Não terás sido tu, Deus, Pai, Senhor, quem armou a mão de Caim para que na primeira página da história dos homens se anunciasse já o futuro que lhes estava guardado, sangue, morte, destruição e tortura desde esse dia e para sempre? E porquê ficou o crime de Caim sem castigo? Porquê teve Abel de morrer? Conhecerás tu, Deus, Pai, Senhor, o sentimento do remorso? Porquê, contra a simples justiça, prosperou o assassino, ao ponto de fundar uma cidade e ter descendência como qualquer homem comum, com as mãos limpas de sangue alheio? Sem querer faltar ao respeito, foste e serás sempre um deus dúplice, com duas caras, dois pesos e duas medidas.

Não creio que a minha morte vá servir para que os homens se salvem nem que, sem ela, se perdessem mais do que já estão. Não imaginas, Deus, Pai, Senhor, como os seres humanos são complicados e difíceis de entender. Seja como for, fiz tudo o que tinhas ordenado. Por isso está morrendo um homem nesta cruz.

Palavra Sétima
Deus, Pai, Senhor, nas tuas mãos entrego o meu espírito, que a carne que o continha, essa, ficará agarrada a este madeiro enquanto o que de mim resta não for levado ao túmulo, donde ao terceiro dia ressuscitarei, se foram certas as palavras que puseste na minha boca para que as ouvissem os que me seguiam. Censurou-mas Pedro, que me chamou de parte e disse: “Deus te livre de tal. Uma coisa assim nunca te há-de suceder.” E eu respondi-lhe: “Sai da minha frente, Satanás. Impedes-me o caminho, porque não entendes as coisas à maneira de Deus, mas à maneira dos homens.” Foi isto o que eu lhe disse, mas agora, Deus, Pai, Senhor, agora que o meu espírito já deve ter chegado às tuas mãos, permite-me que procure, também eu, entender as coisas à maneira dos homens. Poderá o meu corpo, sem um espírito que o anime, levantar-se e sair do sepulcro, arredando a pedra que lhe tapa a entrada? E outra pergunta mais. Que sucederá comigo durante esses três dias? Apodrecerei? Será já com os primeiros sinais de podridão na cara e nas mãos que me apresentarei diante de Maria Madalena? Vivi no mundo como homem durante trinta anos, primeiro criança, depois adolescente, depois adulto, até este dia. Se te digo coisas que estás farto de saber, é para que compreendas por que razão aparecerei a Maria Madalena antes que a qualquer outro.

Acabámos. Representei o meu papel o melhor que podia. O futuro dirá se o espectáculo valeu a pena. E agora, Deus, Pai, Senhor, uma última pergunta: Quem sou eu? Em verdade, em verdade, quem sou eu?"


Joseph Haydn - The Seven Last Words of Christ
"Is an orchestral work by Joseph Haydn, commissioned in 1785 or 1786 for the Good Friday service at Cádiz Cathedral in Spain. The composer adapted it in 1787 for string quartet and in 1796 as an oratorio (with both solo and choral vocal forces), and he approved a version for solo piano.
The seven main meditative sections — labelled "sonatas" and all slow — are framed by an Introduction and a speedy "Earthquake" conclusion, for a total of nine movements. 
Complete all movements."

Será "Honorato" o início da metamorfose?

Será o pseudónimo de "Honorato", o início do processo da metamorfose, do qual resultou e gerou o escritor José Saramago?
Primeiro com o romance "A Viúva", publicado em 1947, sob o nome alterado pelo editor para "Terra do Pecado", este que antecede a "construção" da obra - "Claraboia", já a década de 50 estava perfeitamente em curso (1953). 
Este livro transporta consigo a curiosa introdução da assinatura sob pseudónimo - Honorato. 
Diz a história dos acontecimentos, que o resultado final foi enviado para apreciação do editor, e que terá ficado esquecido numa gaveta. Em 2011, sessenta anos depois, ganhou nova alma e saído de um lugar esquecido, vê a luz do dia, sendo publicado a título póstumo.
A "Terra do Pecado", que ficará para outro post, e a "Claraboia", são o início de um caminho. O tal "caminho que se faz caminhando", caminho da escrita publicada, que ficou pendurada ou suspensa, entre chavetas ou parênteses da vida, talvez demasiados anos até que a constante publicação literária ganhasse vida e cadência própria. Considero, que o sustento da vida quotidiana, do homem e da sua família, obrigou como é natural a concentrar toda a atenção no trabalho minimamente remunerado, atrasando o germinar do futuro escritor, com a marca de obra tardia.
Em a "Claraboia", a história, a gestão das personagens e seu compasso de "vida" estão presentes, conjuntamente com a consciência e problemática social - o "eu e os outros", porém, o estilo da escrita e pontuação, tal como o temos subentendido quando falamos em (ou de) José Saramago, não existe em 1953. Ainda não existia. Saramago, reconhece que só na criação da obra "Levantado do Chão", às paginas 22 ou 23, se fez um "milagre" (dito por si, com a dúvida sobre o criador do milagre).
Quero com isto afirmar, que a leitura da "Claraboia" deverá ser realizada com os olhos no romance mas com o pensamento numa afirmação pessoal, que ocorre nos anos idos da década de 50 do século passado.
Boa leitura!
Miguel de Azevedo   



Referência, via Biblioteca Activa, da Fundação José Saramago,
aqui, em http://www.josesaramago.org/claraboia-2011/

"- Vivemos entre os homens, ajudemos os homens.
- E que faz o senhor para isso?
- Conserto-lhes os sapatos, já que nada mais posso fazer agora."

«Claraboia é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser.» José Saramago

"Claraboia, cuja redação José Saramago terminou a 5 de Janeiro de 1953, consiste num datiloscrito de 319 páginas, assinado com o pseudónimo de «Honorato»."

Pilar del Río, em entrevista concedida à Revista Caras (04/03/2012)

Aqui pode ser consultado o link,
em http://caras.sapo.pt/famosos/2012-03-04-pilar-del-rio-a-vida-roubou-me-de-um-so-golpe-mais-uns-dez-anos-com-o-meu-marido

Pilar del Río: "A vida roubou-me de um só golpe mais uns dez anos com o meus marido"

A viúva de José Saramago, que preside a Fundação com o seu nome, contou como foram os 24 anos que partilhou com o Prémio Nobel da Literatura, que morreu em junho de 2010.




Pilar del Río, jornalista espanhola, estava numa livraria quando se encontrou com as palavras de José Saramago. Apaixonou-se pelo génio do escritor e veio a Lisboa, onde acabou por conhecer o homem. Bastou um aperto de mão e umas horas de conversa para ficar com “a certeza absoluta de que algo ia acontecer entre nós.” Depois deste encontro, começou uma história de amor que durou 24 anos. Da mulher que o conquistou em 1986, e que era quase 30 anos mais nova, Saramago disse: “Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho.” A 18 de Junho de 2010, aos 87 anos, o escritor morreu, deixando de “estar” ao lado da mulher que amou e que lhe deu “ideias para a vida”, como partilhou no filme José e Pilar.
Pilar abriu as portas da Casa dos Bicos, futura sede da Funda­ção José Saramago, a qual preside, e recordou como foi viver ao lado do escritor português.



– O que sente quando vê a futura sede da Fundação José Saramago praticamente pronta?
Pilar del Río – Este projeto  é uma intervenção na cidade que me enche de satisfação, de orgulho e de pavor. O espólio de José Saramago e tudo o que vai acontecer aqui vai transformar toda esta zona ribeirinha. Quando abrirmos o espaço ao público, na primavera, vamos ter uma grande exposição em que se pode ver a semente e o fruto da vida de uma pessoa humilde que queria ser escritor e trabalhou muito. Vamos ter conferências, debates, reuniões, apresentações de livros... Vai ser uma casa aberta aos cidadãos com muitas atividades relacionadas com a cultura e com o pensamento. Queremos que seja um lugar vivo. O meu marido tinha muitos sonhos para este sítio e, por isso, decidimos pôr as suas cinzas diante de Os Bicos. Não podia ser em outro lugar de Lisboa... Este espaço foi o seu último sonho.

– Ainda há mais livros ou textos soltos de Saramago por publicar?
– Não. José Saramago foi escrevendo e publicando. O Claraboia [livro escrito na década de 50 e publicado o ano passado] saiu agora em Espanha, em Itália e creio que é uma porta de entrada à obra de Saramago. Este livro foi um presente que ele nos deixou.

– O facto de Saramago conti­nuar a ser recordado atenua a dor da perda?
– Não creio que assim seja. José Saramago dizia que morrer era estar e já não estar. E ele já não está. Saramago continua como escritor, intelectual, quem não está é José e isso é um assunto pessoal, privado, intransmissível.

– Alguns crí­ticos diziam que havia um Saramago antes e depois de Pilar. É verdade?
– Não. No plano literário, há um José Saramago em Claraboia e que continuou presente em toda a sua obra. No campo pessoal, claro que com a convivência nos transformamos uns aos outros. Penso que o meu marido me tornou mais contida, algo que é difícil, e eu ajudei-o a ser uma pessoa mais expansi­va. Fomos duas pessoas distin­tas que se encontraram. Mas há um só José Saramago, Levantado do Chão por si só e apenas por si!

– No filme José e Pilar vê-se por diversas vezes o seu marido a chamar por si. Havia uma dependência saudável entre vocês?
– Não. Tínhamos um saudável companheirismo. Éramos camaradas, companheiros, amigos, comentávamos tudo... Não é frequente existir uma relação entre duas pessoas que se encontraram quando já são maduras e que sabem aquilo que é importante e o que não tem importância nenhuma. Era um homem que não era vulgar, era excecional em todos os aspetos.

– Li que depois do seu primeiro encontro com Saramago saiu de lá com a sensação de uma ‘estranha paz’. Já era alguma intuição?
– Não gosto de falar de intuições ou de magias... Mas sabia que algo se ia passar e estava preparada para isso. Tinha a certeza absoluta de que algo ia acontecer entre nós. Simplesmente sabia, tinha de acontecer.

– A Pilar expressou sempre as suas opiniões e por vezes foi duramente criticada. Nunca se sentiu magoada por isso?
– Não. Podem dizer o que quiserem sobre mim. Agora, quando se tratava de interpretações maliciosas e falsas, com muitas falhas de informação sobre o meu marido, aí sim, importava-me e portava-me como uma loba!



– Era muito protetora em relação ao seu marido?
– Não. Sou jornalista e consi­dero que o único elemento que temos para nos defendermos é a honestidade. Vi muitos preconceitos em relação ao meu marido e por parte de alguns que dizem ser jornalistas. Eu sou uma defensora do jornalismo sério.

– Nos 24 anos que passaram juntos ficou alguma coisa por fazer? Tem arrependimentos?
– Podia arrepender-me de algumas coisas, mas não vale a pena pensar nisso. Depois de terminar aquele que seria o seu último livro, iríamos ficar na bibliote­ca, sentados, a ler, tranquilos, a desfrutar do nosso espaço e dos cães. E isso foi-me roubado. Sinto que a vida me roubou de um só golpe mais uns dez anos com o meu marido. Agora já não nos podemos sentar na nossa biblio­teca. Se ele não se sentou, eu também não o vou fazer!

– É por isso que está tão empenhada em perpetuar o nome e a obra de Saramago?
– Se não o fizesse não seria digna de estar onde estou. Por isso, tenho de continuar a trabalhar e a militar nesta fundação. Seria muito mais cómodo ficar em casa, como dizia o Fernando Pessoa, a “contemplar o espetáculo do mundo”, e eu podia ter ficado no sofá a viver tranquilamente, mas não quero! Podia ter tido uma vida de placidez, mas tenho uma vida de trabalho, porque é isso que devo à sociedade. E o meu marido escreveu até morrer! Ele trabalhava todos os dias e não abdicava da sua capacidade de intervenção cívica.

– José Saramago vivia para a escrita ou era um homem que tinha como prioridade os afetos?
– A sua prioridade não eram nem os afetos, nem os amigos, nem a família. Saramago não tinha pequenos sentimentos burgueses... É difícil de entender... Claro que tinha família, amigos e uma mulher, mas a sua dimensão era outra. Era um pensador e alguém que intervinha. Era Saramago por si mesmo. E militava em função das ideias.

– Depois de o seu marido mor­rer, tornou-se cidadã portuguesa. Porquê?
– Quando o meu marido morreu senti necessidade de vir para aqui e continuá-lo. Sei que o meu marido queria que eu o continuasse.

– O seu marido disse que ele próprio tinha ideias para romances e que a Pilar tinha ideias para a vida. Que ideia, ou ideias, estiveram sempre subjacentes à vossa vida?
– Ai, não sei... Foi fazer o que considerámos certo, independentemente do que os outros pensavam. José Saramago nunca se contentou com a contemplação do mundo e interveio para que ele ficasse um sítio melhor. Compartilhávamos muitas ideias e uma mesma forma de ver o mundo, e foi por isso que nos vimos uma segunda vez. Ele defendia os direitos individuais e sociais das pessoas. Era um livre pensador!

Citador #14 ... considerações escatológicas

Citador #14
... considerações escatológicas
"Correspondência 1959-1971, José Rodrigues Miguéis José Saramago"
Caminho - 2010
Página 303

"Querido Miguéis:

Se um homem vai a passar junto da Torre de Pisa e a torre lhe cai em cima e o esmaga, todo o mundo achará natural, pois a torre já estava inclinada. Até se pensará que há certa beleza em ficar esborrachado debaixo de tão ilustres pedras.
Mas se em cima desse homem desaba, sem aviso prévio, um enorme monte de merda, todo o mundo ficará espantado, pois não são costumeiros tais desabamentos, nem ninguém será capaz de perceber donde veio tão grande quantidade de trampa." (...)

Sobre a sua demissão, da Editorial COR, por nomeação da Natália Correia em sua substituição. José Saramago, na carta de 8 de Novembro de 1971, explica desta forma "estas considerações escatológicas".

Miguel de Azevedo

"Correspondência 1959-1971 - José Saramago e José Rodrigues Miguéis"

Sugestão de leitura para fim de semana
Esta obra recolhe, diversa correspondência trocada entre José Saramago (Director Literário na Editorial Estúdios COR, Lda.) e José Rodrigues Miguéis, autor considerado consagrado, de vasta obra publicada e reconhecida com diversos prémios literários.
O período de tempo conhecido, nesta vasta troca de cartas entre Lisboa e Nova Iorque, compreende o ano de 1959 (24 de Fevereiro), até 1971 (12 de Novembro).  
As cartas, reportando e abordando o trabalho literário e suas minudências, entre o editor e o editado, provoca ao longo da correspondência um tom inicialmente cauteloso e muito cordial, com um trajecto que evolui a um honesto relacionamento de amizade.
A 24 de Fevereiro de 1959, José Saramago dirige-se com um "Exm.º Sr. Dr. José Rodrigues Miguéis, até ao "Querido Miguéis" de 8 de Novembro de 1971, e 4 dias depois, de volta com um "Querido Saramago".
Foram homens das artes, da literatura e literários, de outras artes... mas sobretudo de vida, de consciência social. A questão central deste livro, transfere a questão administrativa da relação profissional, para um polo lateral e que pode ser analisado com alguma curiosidade. Não deixará por certo e decerto de ser curioso, com a distância de mais de 50 anos, observar como estes dois homens tratavam as vendas, as correcções, as sugestões, a vida que alimentava os autores e os editores. 
Mas, tal como, e numa comparação abstracta, nas "cartas de guerra" dos militares que "embarcados" num qualquer monstruoso teatro de guerra, trocavam cartas de esperança e desesperança com as famílias e suas amadas, suprimindo desta forma a incerteza do momento seguinte, aqui, e confesso o eventual forçoso paralelismo, as missivas trocadas sobem no tempo a um lugar mais pessoal e confessional, entre dois que ficam próximos.

A 21 de Agosto de 1967. José Rodrigues Miguéis, adianta...
"Meu querido Saramago
Ainda nos veremos em Lisboa, antes da sua partida para as ilhas de Afrodite e de Safo: segredo - top secret! - só para três ou quatro pessoas mais chegadas, devo aterrar na Portela na manhã de 30 (4.ª feira)... (...) 
Saudades e abraços muitos para todos os amigos e em especial para si do seu
Miguéis"

Saramago, em 8 de Novembro de 1971, confessa o seu testemunho e desapontamento pela situação que foi criada na editora, "demiti-me da editora em virtude de me terem criado uma situação vexatória, qual seja a admissão de um novo director literário (Natália Correia), imposto pelo grupo financeiro que tomou posição na firma."

"Diga-me o que puder, quando puder. E perdoe-me o laconismo. No meu desconsolo e desânimo, só a si tenho escrito e a muito poucos. Vou fazer 70 anos dentro de três semanas! Quando lá chegar saberá o que isso é...
Abraça-o o amigo certo e grato
Miguéis", 12 de Novembro de 1971

É, leitura de fim de semana... salteada... mas a rever
Miguel de Azevedo

Pequeno apontamento, de José Rodrigues Miguéis, via Wikipédia,

José Claudino Rodrigues Miguéis (Lisboa, 9 de Dezembro de 1901 - Nova Iorque, 27 de Outubro de 1980) foi um escritor português
Nascido no número 13 da Rua da Saudade, no bairro típico de Alfama, passou a sua infância e juventude em Lisboa, recordações que marcarão a sua futura obra. Ainda em Lisboa viria a formar-se em Direito em 1924. Todavia, nunca exerceria de forma sistemática profissão nesta área, tendo consagrado a sua vida à Literatura e à Pedagogia. Neste último campo viria a licenciar-se em 1933 em Ciências Pedagógicas na Universidade de Bruxelas, tendo posteriormente dirigido, com Raul Brandão, um conjunto inacabado de Leituras Primárias, obra que nunca viria a ser aprovada pelo governo.
Herdando do pai, um imigrante galego, as ideias republicanas e progressistas, cedo entrou em conflito com o Estado Novo, o que acabaria por o levar ao exílio para os Estados Unidos a partir de 1935. Desde essa altura até à sua morte apenas voltaria pontualmente a Portugal, não passando no seu país natal períodos superiores a dois anos. Em 1942 viria a adquirir a nacionalidade americana. Um ano antes do seu falecimento foi agraciado com a Ordem Militar de Santiago da Espada, no Grau de Grande Oficial. Mário Neves publicou uma biografia sua em 1990.
José Rodrigues Miguéis pertenceu ao chamado grupo Seara Nova, ao lado de grandes autores como Jaime Cortesão, António Sérgio, José Gomes Ferreira, Irene Lisboa ou Raul Proença. Colaborou em diversos jornais como O Diabo, Diário Popular, Diário de Lisboa e República. Foi, juntamente com Bento de Jesus Caraça, director de O Globo, semanário que viria a ser proibido pela censura em 1933. Nos Estados Unidos viria a trabalhar como tradutor e redactor das Selecções do Reader's Digest. Segundo os linguistas Óscar Lopes e António José Saraiva, a sua obra pode ser considerada como realismo ético, sendo claras as influências de autores como Dostoiévsky ou o seu amigo Raul Brandão. De resto, parecem claras nas suas primeiras obras as influências estéticas da Presença, podendo ler-se nas entrelinhas das suas obras simpatias com as temáticas neo-realistas portuguesas (há mesmo quem afirme que José Rodrigues Migueis tenha aderido ao partido comunista). Tem obras traduzidas em inglês, italiano, alemão, russo, checo, francês e polaco.
Em 1961 foi eleito membro da Hispanic Society of América e, em 1976, tornou-se membro da Academia das Ciências de Lisboa. Em 1979 foi agraciado com a Ordem Militar de Santiago da Espada, com o grau de Grande Oficial.

Livros publicados
A Mumia, 1971;
Páscoa feliz (Novela), 1932;
Onde a noite se acaba (Contos e Novelas), 1946
Saudades para Dona Genciana (Conto), 1956
O Natal do clandestino (Conto), 1957
Uma aventura inquietante (Romance), 1958
Léah e outras histórias (Contos e Novelas), 1958
Um homem sorri à morte com meia cara (Narrativa), 1959
A escola do paraíso (Romance), 1960
O passageiro do Expresso (Teatro), 1960
Gente da terceira classe (Contos e Novelas), 1962
É proibido apontar. Reflexões de um burguês - I (Crónicas), 1964
Nikalai! Nikalai! (Romance), 1971
O espelho poliédrico (Crónicas), 1972
Comércio com o inimigo (Contos), 1973
As harmonias do "Canelão". Reflexões de um burguês - II (Crónicas), 1974
O milagre segundo Salomé, 2 vols. (Romance), 1975
O pão não cai do céu (Romance), 1981
Passos confusos (Contos), 1982
Arroz do céu (Conto), 1983
O Anel de Contrabando , 1984
Uma flor na campa de Raul Proença, 1985
Aforismos & desaforismos de Aparício, 1996

  


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Poema "Catorze de Junho" na voz de José Saramago


(este poema declamado por Saramago, pode ser encontrado, 
no álbum "Nesta Esquina do Tempo", de Luis Pastor)


"Catorze de Junho"

Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.