Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Hoje, tal como ontem, há 16 anos atrás...


José Saramago - Discursos Estocolmo - Português

Publicado por Fundação José Saramago
Discursos proferidos por José Saramago a 7 e a 10 de Dezembro de 1998, por altura da entrega do Prémio Nobel de Literatura, pela primeira vez atribuído a um escritor de língua portuguesa.


(Artista Bo Larsson
Caligrafista Annika Rücker)

“O Mago que era Mestre” a minha homenagem ao Mestre José Saramago - Evocação dos 16 anos da entrega do Prémio Nobel

Texto poema, escrito para assinalar o 16.º aniversário
Da cerimónia de entrega do prémio Nobel
Na Academia Sueca



“O Mago que era Mestre”

Não roubei palavras, as palavras nunca têm dono
Todos somos donos de todas as palavras
Uso-as como retratos do meu ser
Às vezes peço-as emprestadas
Outras vezes são-me oferecidas
Um dia, lá longe, tão longe, tão longínquo
Que da memória apenas guardo um afago
Um mago bateu à minha porta
Deixei-me abrir, abri a porta, como teria aberto antes
Abrirei se assim voltar a acontecer
Estupidamente não perguntei quem era, como que já o esperasse
Estupidamente não perguntei ao que vinha
Deixei-me abrir assim a porta, como quem abre o coração da sua casa
Ele não estava, estando, não estava
Não bateu só à minha porta
Não iria bater só à minha porta
O mago seguia o seu caminho
Por cada porta que passava, batia três vezes
Três vezes, como os antigos carteiros faziam para anunciar as novas que traziam
Quando abri a porta, o mago já ia longe
Percebi-lhe a sombra, caminhava, seguia
Percebi que a sombra de um homem é tão grande, quanto ele a possa imaginar
A sua sombra caminhava e crescia 
O mago seguia o seu caminho, caminhava, caminhando
Deixava as suas palavras
Colocava-as à beira de cada porta com cuidado
Não eram peças que pudessem ser arremessadas
Algumas portas estavam fechadas, numa eternidade enclausurada,
Eternamente cerradas em si
Nem toda ou qualquer pessoa está precisada de palavras
Nem toda a gente, debaixo da sua própria sombra, procura palavras
Muitas portas ficam fechadas
Muitas portas ignoram
Muitas portas procuram ficar fechadas para sempre, com suas janelas quais com olhos fechados
Janelas fechadas com mentes inertes, imóveis e estanques no que são
Alguns vêm à porta, escutar se os passos já foram, ignorando que as palavras podem ser mudas
Outros abrem a medo o postigo
Não raros, entreabrem a porta presa por uma corrente, não vão as palavras assaltar sem avisar e invadir esses antros receosos
Incautos e surpreendidos, muitos barram passagem à espuma das palavras
Essas, que de umas, trazem companhia, outras e mais outras, e mais e mais que se aproveitam
Ouvem-se portas bater
Que batam, quem das palavras não aprouver necessidade
Que batam, quem medo tenha de novas palavras
Que batam, por deseducação
Que batam, porque sim, e por distracção 
Ouvem-se portas bater
Confusos por não estar ninguém, que estando, deixava cuidadosamente as suas palavras
Uns que ainda as aproveitavam, outros nem tanto
Tantas palavras que assim esmoreciam e esfumavam, regressariam ao caminhante, talvez
Aqui e ali, pelo caminho fora, observa-se que muitos,
Muitos, mas muitos, tantos, mais do que o mago previra ou iria algum dia vir a prever 
Seguem o mesmo caminho
Colhendo-as, como que, quais pardais que esmiúçam as migalhas do chão

Tantos que seguem esse caminho
Também existem homens e mulheres, que com palavras dadas procuram outros significados
Mais significados para as respostas já dadas
Mais significados, que descobrem novas perguntas
Que buscam mais certezas para avolumar às suas incertezas primeiras
Que dos pesadelos das terras áridas buscam novos sonhos
Mas que mago será este, será mesmo um mago?
Se as suas palavras entregues a quem as aprouver não têm respostas
Não dará um mago a resposta a todas as perguntas?
Se as suas palavras depositadas mais perguntas levantam
Dizem que ouviram perguntar – para quê e o porquê de mais perguntas?
Não bastava já as que os idos tempos ainda não tinham resolvido
Mas que mago será este?
Quando os que abriram as portas, que das entranhas sopram urgência de respostas
Quando os que desorientados procuram novos sentidos e indicações que façam sentido
Um dia, lá longe, de tão longe, tão longínquo
Que das memórias guardo apenas um afago
 Tive a sorte de me baterem à porta
Tive a necessidade de procurar palavras
Muitos de nós tivemos a sorte de nos bateram à porta
Terríveis palavras, tormentas e atormentados
Cruas verdades, para os que se levantam do chão e das suas terras
Mais palavras para os que tentam construir “empresas” maiores que as suas capacidades,
Recordando de igual forma, os tempos dos caminhantes marítimos que empreendiam viagens longínquas
Viagens quem prometiam descobrir novos horizontes promissores 
O mago caminha, vai caminhando, altruísta, o caminho que o escolhia para que seus passos o seguissem
Não pedia que o seguissem
Não assobiava para se anunciar
Não havia qualquer murmúrio de chamamento
Não há memória que alguém testemunhasse 
O mago será mago?

Estranhamente o mago não era mago, que o sendo, não era
Não era feiticeiro, nem paladino, nem profeta de outras causas gastas
O mago que não era mago, abominava as outras palavras, as palavras que anunciavam as certezas
Seguia o seu caminho
Seguia… não carregava paus, cruzes e amuletos,
Seguia…  tocava às portas, e não estando para quem as abrisse, estava
Ouviram dizer muitos murmúrios sobre o mago
Ouviram dizer que o mago procurava que as pessoas saíssem debaixo da própria sombra e se libertassem
Abandonassem a caverna dos sentidos ensombrados onde se permitiram mergulhar
Sabe-se lá quantos são, os amarrados e mergulhados nesse assombro
Ouviram dizer, que alguns tinham visto um belo sol, tão belo, quanto aquele sol que se vê pela primeira vez
Outros tinham sentido um sol tão forte, como aquele que nos aquece a alma
Ou que o sol luminoso, tão luminoso como aquele que nos obriga a tapar o olhos com os dedos entreabertos 
Quanto sol seria necessário existir para que as pessoas o pudessem vislumbrar por cima das suas sombras
Houvera também quem tivesse dito que o vento que varre as folhas das árvores
Esses ventos fortes, tão fortes, poderiam não ser suficientes para abanar as consciências nubladas
Eólo poderia soprar eternamente, mas poderia não bastar para esta gesta
Mas o mago não trazia nenhum sol
Mas o mago não colocava nenhum floco de luz ao lado das palavras depositadas
O mago não deixava correr nenhum vento, maior que aquele que soprava na rua
Iluminava a alma de muitos sem anunciar a luz
Soprava a consciência de outros tantos sem lhes soprar 
Tocava à porta três vezes como os carteiros ainda fazem para anunciar as novas
Deixava as palavras a quem as procurava
Deixava palavras a quem por assombro as pudesse recolher
Deixava um trilho já caminhado a quem procura um novo sol
Que das sombras das casas fechadas, as janelas pudessem ser finalmente abertas de par em par
O mago batia às portas e seguia
As mentes que se agigantavam de novo, agora maiores que a sua própria sombra
Os medos que não desapareciam, mas que eram enfrentados
As consciências que subiam das cavernas
As sombras que subiam chaminés e trepavam muros intransponíveis
As sombras que eram obrigadas a desvanecer e a criar corpo
O mago, que mago será este?
Aqui e ali ia trazendo pessoas a uma nova luz a um novo sol
Sem querer ia destapando buracos de onde emergiam sombras
Outros que iam somando a mais alguns
Havia palavras havia luz
Havia perturbação havia inquietação
Inquietos que procuravam novas palavras
Iluminados que assumiam novas inquietudes
Qual legião de desassossegados brotavam das suas almas
Um dia, depois de muitas portas ter batido
Regressou, regressou… o caminho devolveu-lhe o regresso
O caminho conduziu-o pela tal encosta acima
O mago que não era mago, foi obrigado a pausar o seu passo de caminhante
O mago que não era mago, conduzido, regressou ao seu espaço
Sentou-se numa pedra, perto da sua Oliveira, ainda apanhando um pouco da sua sombra
Sua que não sendo, porque as árvores são como as pedras, e as pedras não são de ninguém 
Mas o mago pedia este espaço emprestado e dele ser servia
Os seus olhos apontavam o horizonte, para lá, muito para lá, 
Um horizonte, para lá de onde os nossos olhos alcançam
Aí é o horizonte, o lugar para onde enviamos a nossa mente quando buscamos um local para pensar
As pernas cansadas, de tanto percorrer caminhos
Os pés, doridos de tantos sulcos terem cavado pelas terras que pisaram
As mãos, essas pobres coitadas, poderiam estar esvaídas em sangue de a tantas portas terem batido
A sua Oliveira, porto de abrigo, como se de uma jangada tratasse
A sua Oliveira, que tão torcida estava, abria largas pernadas disformes
Desde tempos, que o tempo deste mago desconhecia, que já as suas raízes tinham cavado as terras fundas
Cada vez que o mago, aqui tornava
Cada vez que o mago por aqui passava
Aproximava-se da Oliveira e abraçava-a
Era assim que o mago pensava sentir o mundo, o pulsar das gentes e das terras
Seria aqui, que o mago que não era mago, vinha buscar mais palavras?
A árvore que sempre esperava o seu abraço, mesmo que o não pudesse esperar
Por um momento, tudo se fundia num só sentido, num sentir diferente
O homem, a sua árvore, a sua pedra… todos seus e uns dos outros
 As raízes da Oliveira, que sentem o pulsar do sangue bombeado
Os braços do mago que asfixiam o tronco, se mais pudessem, para sentir a seiva desta raiz profunda
Assim era desde que há memória, e que alguém estivesse presente para agora testemunhar
Mal o mago se pôs a caminho, que assim passou a ser
Desta vez, o mago pausou antes, a urgência impunha que se sentasse na pedra
Desta vez a árvore não foi abraçada
Este homem que habitualmente aqui passava para abraçar a Oliveira, desta vez, sentou-se
Simplesmente, unicamente, sem mais olhares para mascarar o remorso
Foi a pedra, cuja face estava enterrada no chão, sentiu a urgência de quem lhe chegava
A urgência tem um sentir diferente, o frio marmóreo 
Nada vibrava, nada tremia, faltava a energia, faltava a pressa de quem se lhe apoiava para descansar entre jornadas
Desta vez, aqui chegado, o mago que não era mago, não tinha urgência de seguir
Teria perdido a impaciência de retomar caminho
Naquela rua, naquela qualquer rua, o mago não bateu três vezes à porta
Naquela rua, lá longe, a gigante sombra do caminhante não está seguindo
Naquela rua, onde os cães não ladram, agora poisam as suas cabeças em cima das patas
Naquela rua, ali mesmo, os cães deixam cair lágrimas
Ali, como em todas as outras ruas, onde alguns tinha aberto a porta
Onde alguns recolheram palavras depositadas
Onde alguns, espalhados por todas as ruas
Abriram as suas portas e janelas, deixando entrar a luz que de lá de fora aprouvera existir
E desta vez, o mago que não era mago, não pôde testemunhar
Não testemunhou as portas e janelas abrindo, como se fossem peças de dominó, caindo, umas atrás das outras
A luz que entrava pelas portas dentro, a luz que servia para iluminar as palavras depositadas
Hoje as palavras não foram deixadas
Hoje alguns não recolheram as palavras
Não foram depositadas palavras emprestadas, para novas perguntas fazer amanhecer
Hoje, alguns, os que sentiram necessidade de abrir a porta,
Os outros, que entretanto, chegando e aproximando aos poucos, destes alguns
Largaram um suspiro ao vento
Largaram ao sopro do vento, uma força para que pelas terras pudesse empurrar novos ventos
Largaram um suspiro que levantasse todas as palavras semeadas
Palavras ditas, agora murmuradas entre lábios fechados, sussurrando pelos caminhos da sombra do mago
Um murmúrio silencioso e abafado ecoava
Tal não é a força do som do silêncio
O mago que não era mago, sentiu ao longe, tão longe, os murmúrios que ecoavam
A aragem que não era uma brisa, deixou de ser aragem
A brisa que não era vento, deixou de ser uma brisa
O vento que não era vento, era outra coisa
O mago que não era mago, adivinhava a chegada, sentia um regresso
Regressou, chegava até si…
Lá em baixo, os juncos e as canas oscilavam e adornavam junto ao riacho
Regressou, subia até si…

Era a hora, tinha chegado a hora
O mago que não era mago, levantou-se, ergue-se sobre si
Dos seus pés nascia uma sombra, uma sombra que o acompanhava, sua companheira
A sombra com que muitos homens e mulheres se sentiam encaminhados
Esta sombra que nascia dos seus pés, regressava também
A sua sombra que sempre abriu caminho para novas palavras
A sua sombra que sempre abriu novos caminhos a outras perguntas
Regressava agora ao tamanho do seu mundo
O mago que não era mago, que não o sendo, era
Erguido sobre a sua sombra que o ampara
Da algibeira retirou o coto, aquele que ontem teria sido o lápis com que ia depositando as palavras
Este coto depositado em cima da pedra, que aqui ainda se agiganta através da sua sombra
Da mesma pedra sentinela, de onde se contemplava o horizonte
Agora esta pedra, que deixará de observar o ali, lá longe, será guardiã do lápis que teria oferecido palavras
A sombra regressou ao tamanho do homem
O seu a seu dono, o lápis e a réstia de grafite em cima da pedra
A sombra regressada, fraca e assustada com a finitude do caminhante
O seu a seu dono, o mago que não era mago, era tornado mestre,
De mestre vestiu tal pele durante a vida
O mago que era mago, pela força da sua sombra que abraçava os homens e mulheres que escolhiam abrir as suas portas
O mago que caminhava, e que a sua sombra tantos caminhos teria desbravado para novas perguntas 
O mago que batia três vezes à porta, depositava cuidadosamente as palavras e seguia a sua sombra
O mago que se sentia mestre
O mestre erguido, dobrou-se e apanhou com as duas mãos um punhado de terra negra
Terra que é o princípio e o seu fim
A terra, a mãe original de todos nós e onde acabamos por ficar
Levantou as mãos e lançou ao ar o punhado de terra negra
Lançou ao vento, ao vento que era a força das vontades, estes grãos de terra
O vento carregado de murmúrios e de palavras ditas em silêncio
As palavras empurradas pelo vento, abraçavam agora cada grão de terra
Os ventos aqui chegados, com suas línguas melancólicas, deixaram cair lágrimas
Cada lágrima caída, cada palavra abraçada, cada gota entornada como uma troca
O mestre que terra mãe tinha acabado de lançar
O mestre que erguido sobre a sua sombra, sentia tocar sobre si o afago de todos os homens e mulheres
O mestre que de pé, sentia as gotas abraçadas e entrelaçadas com palavras dentro,
Sabia da urgência que o tinha feito sentar naquela pedra onde jaz o coto do lápis
Os ventos que ali depositaram as nossas gotas sofridas de tantas perguntas
Os ventos que ali descarregaram as nossas lágrimas 
Estes ventos retornaram os mesmos caminhos
Os ventos regressaram com estas novas
O carteiro que também era companheiro deste mestre, que mago não era
Regressou depois de passar os ventos
Regressou à sua gesta de todos os dias, todos os dias batia três vezes a cada porta
Tinha chegado a hora,
Chegava o tempo em que a urgência esmorecia a sua pressa
O mestre aproximou-se da sua Oliveira, e abraçou-a
Abraçou esta sua amiga, abraçou o seu tronco nodoso 
Apertou sobre o seu peito, apertou e entrelaçou os seus dedos
Encostou a face, e deixou-a descair
Tanto para a Oliveira como para o mestre foram segundos de eternidade
Foi um tempo sem fim
Foi um momento em que as raízes sentiram o lento pulsar do mestre
Foi um momento em que o mestre sentiu a paz em que esta Oliveira sempre viveu
A eternidade estava de regresso 
A eternidade tinha poisado sobre este mestre
A eternidade tinha poisado sobre o mestre, discípulo da pedra e da Oliveira
A Oliveira enraizada e entranhada na terra mãe, que sempre espera o nosso regresso
O outro enraizado sobre a sua Oliveira, donde todas as palavras tinham sido colhidas
Sentado à sua beira
Desta vez não depositou palavras
Desta vez, simplesmente se despediu…

Um dia um menino, subiu este monte, e ao lado da Oliveira colheu uma flor
Disse … sentiu dentro de si…, disse estas palavras
Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam

(Escrito por Miguel de Azevedo)

Texto poema, escrito para assinalar o 16.º aniversário
Da cerimónia de entrega do prémio Nobel
Na Academia Sueca

16 anos da cerimónia de entrega do prémio Nobel...


... é como se fosse hoje

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Entrevista de Pilar del Río ao SinEmbargo (México) - Lançamento do livro "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas"

Pilar del Río em entrevista ao SinEmbargo (México), como reportagem sobre o lançamento do livro "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas"

Link para visita do site, em http://www.sinembargo.mx/

Link, para a entrevista, aqui em http://www.sinembargo.mx/07-12-2014/1184977

(Pilar del Río presentó el último libro de Saramago en la FIL, 
acompañada por Lydia Cacho y Claudia Piñeiro. Foto: FIL)


"Guadalajara, Jalisco (SinEmbargo).– No hacía falta ningún pretexto para que la periodista española Pilar del Río expresara abiertamente su solidaridad con los estudiantes desaparecidos de la escuela Normal Rural de Ayotzinapa, pero la presentación del libro póstumo de su marido José Saramago (1922-2010) fue un ámbito ideal para ello.

Acompañada por la periodista y activista mexicana Lydia Cacho y por la escritora argentina Claudia Piñero, Del Río se refirió a Alabardas, el último regalo del Nobel portugués, inspirado en una anécdota de la Guerra Civil española, cuando una bomba que cayó en Extremadura, en lugar de explotar dejó ver una leyenda que decía “esta bomba no matará a nadie”. 

El explosivo había sido “intervenido” por la Resistencia y su historia  dio origen al último libro de Saramago, un tratado antiarmas que resulta muy oportuno para el difícil momento político y social que atraviesa nuestro país y que fue presentado este miércoles en la 28 Feria Internacional del Libro en Guadalajara que transcurre aquí hasta el próximo 7 de diciembre.  

Alabardas es un libro inconcluso. Está integrado por 20 cuartillas ordenadas por el propio escritor y se completa con textos de Roberto Saviano y Fernando Gómez Aguilera e ilustraciones de Günter Grass. En él, el autor portugués de Memorial del convento y Ensayo sobre la ceguera, entre otros, expresa  “su coherencia literaria e ideológica. Está su prosa exquisita, su ideología y en el apartado de notas puedes ver cómo fue construyendo el libro. Es toda una clase de escritura”, según Piñeiro. 

“Queda la sensación de que este libro llega inacabado para que nosotros lo terminemos. Vivimos en un momento en el que el gobierno parece empeñado en instalar el miedo. Tendremos que escribir la segunda parte y entregársela a Pilar”, dijo a su tiempo Lydia Cacho. “ 

Nos dicen que las armas vienen de Estados Unidos, pero los que estamos investigando por todo el país sabemos que hay armas hechas en Brasil. Es necesario que discutamos lo que estamos haciendo en Latinoamérica con este tema”, agregó la autora de Los demonios del edén. 

En la novela, Arthur Paz Semedo descubre una caja de la que es imposible saber qué contiene porque Saramago murió. A partir de este hecho, Claudia Piñeiro leyó un texto en el que creó un paralelismo entre el personaje y los normalistas desaparecidos en Iguala, Guerrero. 

“Así como no podemos saber qué contenía la caja porque la muerte sorprendió a Saramago, tampoco podemos saber qué tipo de maestros hubieran sido esos normalistas porque los desaparecieron. No digo la muerte porque vivos se los llevaron y vivos los queremos”, afirmó la autora de Betibú. 

La escritora anunció además que la delegación de escritores argentinos había firmado un comunicado en solidaridad con las familias de Ayotzinapa “porque nos parece imposible estar acá y no opinar. Sabemos que hay una ley mexicana que prohíbe que los extranjeros opinen sobre los temas nacionales, pero no nos van a poder llevar a la cárcel porque tantos argentinos juntos en un mismo lugar nadie los soporta”, bromeó, para luego agregar más seria que “la literatura nos hermana, sobre todo en este tema que nos es tan cercano”. 



"Ya en entrevista con SinEmbargo, Pilar del Río mostró su “nostalgia y satisfacción” porque pese “a  que ya no están las figuras tutelares”, ha disfrutado mucho esta edición donde presentó el libro póstumo de José Saramago. 

“He visto mucha complicidad entre los autores. No conozco cómo va la parte de los negocios, pero vi a mucha gente en los salones y sobre todo he visto una gran necesidad de la gente para festejarse entre sí. Supongo que tiene que ver con la situación que estamos viviendo en el mundo. Si encontramos una ocasión de ser felices, ¿por qué la vamos a desaprovechar?”, se  Del Río en forma retórica. 

–José Saramago hubiera sido el primero en manifestarse en solidaridad con los 43 estudiantes desaparecidos, ¿verdad? 

–Pues, es muy difícil decir lo que hubiera hecho una persona que ya no está, pero sí podemos ver lo que ha hecho. Él vino a Acteal desde Lanzarote, España, para estar con los sobrevivientes de aquella masacre. Fue a Palestina cuando Ramala estaba rodeado. Fue a Timor cuando Indonesia había rodeado a los habitantes descendientes de portugueses, aunque no sólo a ellos; estuvo con los saharauis… Creo que Saramago estaba con las personas que buscaban la autonomía, la independencia, con los que no querían ser tutelados y, por supuesto, condenaba la violencia. 

–¿Qué le daba a él este instinto para estar siempre del lado correcto, por decirlo así? 

–Me parece que siempre supo distinguir muy bien quién era su gente y quién no. Solía decir que no conocía los entresijos del poder ni el poder en sí. Sin embargo, en los ’80 escribió un libro como Levantado del suelo  (Relata la historia del pueblo de Lavre en el Alentejo portugués desde 1910 hasta 1979, incluyendo la Revolución de los Claveles el 25 de abril de 1974). Y siempre escribió sobre hombres y mujeres que buscaron ser ellos mismos en su memoria, en su identidad, desde la libertad usando la razón y la conciencia. 

–Eso te unió mucho a él, ¿verdad? Tú eres alguien muy interesado también en luchas sociales… 

–Bueno, nos conocimos porque a mí sus libros me resultaron como un mazazo en la conciencia. Independientemente de hacerme más lectora, no podía entender que se escribiera de esa manera, tan absolutamente deslumbrante, y luego con tanta compasión, tanta belleza y una visión de la historia que compartía. Eso es lo que me llevó a él. 

–¿Qué te despierta la situación que se vive en México? 

–Primero el horror por los 43 estudiantes desaparecidos, pero después el horror por la cantidad de fosas comunes llenas de cadáveres de personas cuyas desapariciones no fueron denunciadas. No son 43, ni mil, son 100 mil, 150 mil, y eso me aterra. Me resuena el grito de Elena Poniatowska en el sentido de qué se puede esperar de un país que siempre cadáveres por todo su territorio. Si siembras cadáveres recogerás muerte. José Saramago, en una situación similar en Colombia, dijo que Colombia tenía que vomitar a sus , porque si ellos no sabían por qué habían muerto nosotros teníamos que saber por qué habían vivido y por qué habían sido asesinados. Cuáles eran sus nombres, sus señas de identidad. ¿Cómo es posible que un país tan culto como México permita esto? 

–En este contexto presentas la última novela de José. ¿Cuándo la leíste? 

–La iba leyendo mientras la iba escribiendo. Luego de que él murió tardé mucho tiempo en retomarla, me daba prurito, era casi como una intromisión. 

–¿Estaba acordado con él que iba a salir Alabardas? 

–No. Él murió en junio y en agosto tuvimos una reunión en Lanzarote con todos sus editores y ahí acordamos sacarla, sin prisa. La verdad es que no teníamos prisa. La hemos sacado ahora porque estamos en el centenario de la Segunda Guerra Mundial y esta es una novela cuya acción transcurre en una empresa de armas que existen en México, que existen en otros países y con las que convivimos a diario como si fabricaran golosinas o jabones. Como si fueran una pastelería cuando en realidad son empresas que fabrican máquinas para matar. 

–¿Qué aporta la novela de Saramago a este contexto de mundo donde la gente está más preocupada en armarse que en vivir? 

–Saramago decía que no había que volver al individualismo, pero sí que había que volver al individuo, destacar la importancia del ser humano. Nosotros sabemos que hay fábricas que hacen armas, que se fabrican armas bajo una cortina legal, que hay trabajadores abocados a la tarea de que esa arma que va a matar al prójimo quede perfecta, sea eficaz. Convivimos a diario con las armas y sólo cuando nos afecta a nosotros nos extrañamos de esa situación. Los mayores conflictos no están representados por las luchas armadas en distintas partes del mundo sino por la muerte individual. ¿Qué podemos hacer ante eso? Creo que necesitamos un stop ya. Frenar. Habrá que buscar otra forma de gobierno y de defensa, pero hay que parar con el armamentismo ya. No podemos volver a la ley de la selva porque nos falta un paso para llegar a la horda. 

–La novela llega entonces en el momento adecuado 


–Sí. José Saramago tenía esa misión. En el mundo desarrollado, cuando todos parecían felices, él publica Ensayo sobre la ceguera. Publicó Ensayo sobre la lucidez cuando hacía falta reforzar el poder ciudadano."


Biografia, para consulta no site da Direcção Geral do Livro, dos Arquivos e Bibliotecas

Biografia, para consulta no site da Direcção Geral do Livro, dos Arquivos e Bibliotecas,


"José de Sousa Saramago nasceu em Azinhaga, no Ribatejo, no dia 16 de Novembro de 1922, e morreu em 18 de Junho de 2010, em Lanzarote, Canárias.
Em 1924, José Saramago, com dois anos de idade, parte, juntamente com os pais, para Lisboa. Uma infância vivida sem desafogo económico e passada entre Lisboa e a casa dos avós maternos – Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha. Por falta de meios económicos, abandona o Liceu com doze anos e ingressa numa escola de ensino profissional onde, durante cinco anos, aprendeu o ofício de serralheiro mecânico. Ainda que frequentasse um curso técnico-profissional, as disciplinas de Francês e de Língua Portuguesa integravam os planos curriculares e Saramago pôde, assim, iniciar-se no gosto pela leitura. Em 1939, depois de terminado o curso, exerceu durante dois anos a profissão de serralheiro mecânico. Em 1944, trabalhou num organismo de Segurança Social como empregado administrativo. Neste mesmo ano, casa-se com Ilda Reis, de quem viria a ter, em 1947, a sua única filha, Violante. Publica o primeiro romance para adultos – Terra do pecado (1947) –, não voltando a publicar até 1966, ano em que é dado à estampa Os poemas possíveis.
Um ano depois, em 1950, José Saramago passa a trabalhar, como responsável pela produção, na editora Estúdios Cor, o que lhe proporcionou um contacto directo com alguns dos principais escritores da época. De 1955 a 1981, intercalou a sua actividade editorial com trabalhos de crítica literária na revista Seara Nova (1967-68) e de tradução. Em 1969 filia-se no Partido Comunista Português. 1970 é o ano que marca o seu divórcio e a publicação de mais três livros: Provavelmente alegria (poesia, 1970), Deste mundo e do outro (crónicas, 1971) e A bagagem do viajante (crónicas, 1973). Entretanto, em 1971, abandona a editora e torna-se coordenador e editor de um suplemento literário do Diário de Lisboa até 1973. Nos meses que se seguiram à Revolução de 1974, Saramago coordena o FAOJ (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis), sob a dependência do Ministério da Educação. De Abril a Novembro de 1975, desempenhou também funções de director-adjunto no Diário de Notícias, mas foi demitido devido às mudanças operadas pelo golpe militar de 25 de Novembro e que travou o processo revolucionário. Sob a acusação de marxista radical, fica de novo sem emprego e sem perspectivas de o arranjar, resolvendo dedicar-se inteiramente à literatura.
Os finais da década de setenta e toda a década de oitenta ficam assinalados pela publicação de vários títulos, entre eles, Levantado do chão (romance, 1980; Prémio Internacional Ennio Flaiano 1992), Memorial do convento (romance, 1982; Prémio Pen Club 1983 e Prémio Literário do Município de Lisboa 1983), O ano da morte de Ricardo Reis (romance, 1986; Prémio Pen Club 1985, Prémio Dom Dinis 1986, Prémio Grinzane-Cavour 1987), A jangada de pedra (romance, 1986) e História do cerco de Lisboa (romance, 1989). Em 1992, Saramago vê vetada pelo Governo Português a candidatura ao Prémio Literário Europeu do romance O evangelho segundo Jesus Cristo (1991; Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 1991 e Prémio Brancatti 1991) e decide fixar residência na ilha de Lanzarote com Pilar del Río, jornalista espanhola com quem casara em 1988. Nas Canárias, publica a peça de teatro In nomine Dei (1993), que dará origem a um libreto da ópera Divara, com música do conceituado compositor italiano Azio Corghi (1937), estreada nesse mesmo ano em Münster (Alemanha). De resto, foram sete as obras que Saramago viu adaptadas à ópera por este compositor. Com a atribuição do Prémio Nobel de Literatura, em 1998, a obra de José Saramago começa a ser traduzida em várias línguas e a ser adaptada ao teatro e ao cinema. Em 2007, surge a Fundação com o seu nome, sediada em Lisboa, na Casa dos Bicos, apresentando, entre vários objectivos, o de preservar e difundir a literatura portuguesa contemporânea.
Na vasta bibliografia de José Saramago, encontramos livros que se salientam pelas incursões na narrativa de fundo histórico (Memorial do convento (1982), História do cerco de Lisboa (1989), A viagem do elefante (2008)), por investimentos semânticos que configuram as ideias de efemeridade da vida, de eros e thanatos, da busca da identidade e do sentido da existência [Todos os nomes (1997), O conto da ilha desconhecida (1998), O homem duplicado (2002), As intermitências da morte (2005)] de contestação e de transformação social [Manual de pintura e de caligrafia (1977), Objecto quase (1978), A noite (1979), Levantado do chão (1980), O ano da morte de Ricardo Reis (1986), A jangada de pedra (1986), O ano de 1993 (1987), Ensaio sobre a cegueira (1995), A caverna (2000), Ensaio sobre a lucidez (2004)], mas também de denúncia da intransigência religiosa e revisitação de acontecimentos bíblicos [A segunda vida de Francisco de Assis (1987), O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), In nomine Dei (1993), Caim (2009)]. Em suma, releituras de um mundo que não «estava bem» e que, dezasseis anos volvidos sobre o Ensaio sobre a cegueira, continua a estar mal, construídas num tom alegórico e sem condescendências.
Mas encontramos também nas estantes um conto infantil singelo e mágico, direccionado a leitores entre os seis e os dez anos, e esquecido pelo seu Autor desde os inícios da década de setenta – A maior flor do mundo (2001). No conto, observa-se a configuração de uma enunciação discursiva que paulatinamente se afasta daquela que será, inicialmente, a voz do autor textual – a qual, assumindo uma deixis pessoal, confessa a sua incapacidade para escrever histórias para crianças (pois «Além de ser preciso saber escolher as palavras, faz falta um certo jeito de contar, uma maneira muito certa e muito explicada, uma paciência muito grande») – e que se transforma em narrador declaradamente heterodiegético, abandonando todas as marcas discursivas anteriores e instaurando um segundo nível diegético («Dali para diante, para o nosso menino, será só uma pergunta sem literatura: "vou ou não vou?" E foi.»). E, com ele, também nós, leitores, iniciamos essa viagem, atravessamos o mundo todo, chegamos ao grande rio Nilo, recolhemos a água com as mãos, voltamos a atravessar o mundo, e damos de beber três gotas de água à plantinha sedenta, e repetiremos essa viagem «vinte vezes» ou «cem mil», não importa, pois o que interessa é ver «a flor aprumada» a dar «cheiro no ar», é realizarmos algo maior do que nós mesmos.
As ilustrações de João Caetano (v.), em técnica mista – pintura e colagem – valeram-lhe o Prémio Nacional de Ilustração 2001 e ampliam magnificamente os sentidos do texto, demarcando os dois níveis diegéticos ao mesmo tempo que dissolvem regras pragmáticas atinentes ao processo de comunicação literária. Neste caso, a representação pictural da voz discursiva que se apresenta no primeiro nível diegético plasma o autor empírico José Saramago, estatuindo uma relação de identidade. Ainda no que respeita às ilustrações, é também curiosa a primeira imagem, de uma sequência de três, que encerra o livro: o narrador do primeiro nível diegético, sentado à secretária, com um copo vazio, olhando, perplexo, o milagre – a maior flor do mundo –, e testemunhando ser a literatura o lugar de todos os possíveis.
A maior flor do mundo obteve a distinção «altamente recomendado» da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, do Brasil, em 2001. E é «de leitura obrigatória para os adultos», a fim de aprenderem «o que há tanto tempo têm andado a ensinar», como se afirma no paratexto da contracapa.
Em 2007, o realizador galego Juan Pablo Etcheverry transformou este conto infantil numa curta-metragem, utilizando plasticina tradicional 2D. A banda sonora de Emílio Aragón harmoniza-se com a poeticidade do texto. 

Bibliografia: A maior flor do mundo (2001), Lisboa: Caminho.

[Ana Cristina Vasconcelos] - 05/2013"

Outro apontamento,

Prémio Nobel de Literatura 1998. Nascido no Ribatejo, mas desde muito novo a residir em Lisboa, José Saramago é um caso paradigmático de escritor autodidacta: com um curso em serralharia mecânica concluído em 1939, vai, ao longo dos anos, repartir a sua actividade profissional pela tradução, a direcção literária e de produção numa casa editora, colaborações várias em jornais e revistas (salientando-se a função de crítico literário que manteve na Seara Nova e o jornalismo propriamente dito, tendo orientado o «Suplemento Literário» do Diário de Lisboa e sido director-adjunto do Diário de Notícias, já no período pós-revolucionário de 1974-75). 
Tendo embora iniciado a sua carreira nas letras em 1947, com o livro Terra do Pecado, é em 1980, com o romance Levantado do Chão, história da vida de uma família camponesa do Alentejo desde o início do século até à revolução de Abril e ao advento da reforma agrária, que José Saramago produz aquilo a que já se convencionou chamar o seu «primeiro grande romance». Primeiro porque a partir daí eles se têm sucedido regularmente como outros tantos «grandes romances», o maior dos quais, por ter constituído um autêntico «caso» de celebridade tanto nacional como internacional, com tradução para uma vintena de línguas e adaptação a libretto de ópera, foi sem dúvida Memorial do Convento (1982). 
Fascinante relato da construção do convento de Mafra e do esforço dos homens que o construíram, Memorial do Convento trata também do sonho do «padre voador», Bartolomeu de Gusmão, e da construção da sua Passarola, que voará mercê das vontades dos homens que Blimunda, a que vê através dos corpos e da terra, irá, pacientemente, aprisionando num frasco. Tudo isto é servido por um estilo que passará a constituir forte marca do autor e que se define, basicamente, pela supressão de alguns sinais de pontuação, nomeadamente pontos finais e travessões para introduzir o diálogo entre as personagens, o que vai resultar num ritmo fluido, marcadamente oral e muito próprio, tanto da escrita como da narrativa. 
Estas características irão, aliás, contribuir para transformar os seus livros em objecto de interesse para encenadores, músicos e realizadores de cinema: Memorial do Convento, de que o autor recusou autorizar uma adaptação cinematográfica, foi já adaptado a ópera pelo compositor italiano Azio Corghi, com o título «Blimunda». A estreia mundial, com encenação de Jérôme Savary, realizou-se no Teatro alla Scala, de Milão, em Maio de 1990. Também da peça In Nomine Dei foi extraído um libretto: o da ópera «Divara», estreada em Münster (Alemanha), em 31 de Outubro de 1993, com música de Azio Corghi e encenação de Dietrich Hilsdorf. 
De romance histórico se tem inevitavelmente falado em relação à produção romanesca de Saramago, embora o próprio autor recuse tal etiqueta aplicada às suas obras. E se os romances de José Saramago estão definitivamente modelados numa dimensão histórica (quer os que remetem para o passado – a maioria – quer, por exemplo A Jangada de Pedra (1986), que surge como ficção de uma hipótese fantástica situada num futuro), não o estarão menos numa dimensão propriamente humana, naquilo em que a acção e reflexão dos homens, mesmo, ou principalmente, dos mais modestos no interior de cada época histórica, pode pesar para ocasionar desvios, ainda que ficcionais, da «verdade» que a História consignou. Na opinião de Maria Alzira Seixo, será precisamente «desta conjunção entre continuidade temporal e intervenção humana» que Saramago irá «extrair uma noção de alteridade que [...] é a proposta de diálogo entre todo o diverso, ou melhor, de conjunção acertada e dramática das várias condições que situam o homem no mundo, seu entrecruzar doce e fecundo, sua irreparável desarmonia que se deplora e compensa em literatura». 
Se o romance de José Saramago é histórico, pela dimensão histórica, e fantástico, pela dimensão fantástica, ele é principalmente dos homens e das mulheres na história e da sua capacidade de ver e agir sobre o real para além do crível e do evidente. Parte da extraordinária receptividade que as suas obras têm merecido em todo o mundo, e que culminou com a atribuição do Nobel, dever-se-á, sem dúvida, a esse carácter humanista, a esse reduto de confiança e esperança no poder do humano que a sua obra projecta. 
De facto, mesmo antes da consagração máxima trazida pelo Nobel, Saramago era já o autor português contemporâneo mais traduzido, com livros editados em todo o mundo, da América do Norte à China, e detinha já um capital de prestígio reconhecido pela atribuição de vários prémios literários internacionais e nacionais – de onde se destacam o Prémio Camões, em 1995 e os prémios Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (1993) e de Consagração de Carreira, da Sociedade Portuguesa de Autores (1995) –, doutoramentos honoris causa pelas Universidades de Turim (Itália), Manchester (Inglaterra), Sevilha, Toledo e Castilla-La Mancha (Espanha) e graus honoríficos, como o de Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada e Chevalier de l'Ordre des Arts e des Lettres (atribuído pelo governo francês). É, além disso, membro honoris causa do Conselho do Instituto de Filosofia do Direito e de Estudos Histórico-Políticos da Universidade de Pisa (Itália); membro da Academia Universal das Culturas (Paris); membro correspondente da Academia Argentina das Letras e membro do Parlamento Internacional de Escritores (Estrasburgo). 

Parte do espólio de José Saramago encontra-se no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998

Fernando Gómez Aguilera destapa um pouco de "A Viagem do Elefante"

(Imagem de João Amaral, "A Viagem do Elefante" em BD)



(...) "Depois para deixar para trás um período de hospitalização em Lanzarote, que coincidiu com a fase mais aguda da sua doença, no início de 2008, retomou a escrita entretanto interrompida de "A Viagem do Elefante". E regressaria à ficção alentando por uma atitude de plena liberdade, descosendo, uma vez mais, as costuras do género, com uma nouvelle abordada desde o seu interior, ratificando o papel desempenhado pelo majestático e libérrimo autor-narrador por quem Saramago se sentia tão encantado. O arranque do conto, que se desenvolveria com um declarado propósito simbólico, parte de uma passagem por Salzburbo, cuja universidade o escritor visitou, em 1999, para pronunciar uma conferência. No hotel onde estava alojado - o Zum Elefanem -, reparou um diferentes reproduções que representavam um elefante em plena viagem, pelas quais se interessou. Tomou assim contacto com a aventura do exótico animal que, no século XVI, havia viajado de Lisboa até  Viena, como presente do rei D. João III de Portugal o Arquiduque Maximiliano de Áustria pelo seu casamento com Maria de Habsburgo. Mas, sobretudo, impressionou-o o grotesco final do admirável e sofrido viajante: as suas patas convertidas em recipiente para sombrinhas. Adoptando intelectualmente a atitude de ensaísta, Saramago articulou o relato com a expressa vontade de penetrar na medula da literatura, numa das metáforas mais substantivas, a da viagem, e dar à luz o seu texto mais cervantino, detendo-se no prazer da literatura pela literatura, quando a palavra e a invenção se convertem em puro discurso autónomo sobre a nossa existência, pois, como ele próprio admitiria, «ao falar do elefante, falo da vida humana». Nada de estranhar, pois desse mesmo modo havia lido o grande livro das letras hispânicas, interpretando Dom Quixote nascia quando Alonso Quijano partia, quando verdadeiramente começava a sua viagem de liberdade. (...)
Com uma frescura tonificante, retoma a circunstância portuguesa, para além de se fixar em figuras concretas, para levar ao leitor um humor desinibido, por vezes burlesco, que serve de contraponto à épica melancolia do paquiderme, cujo discreto e terno heroísmo não o eximirá de um destino implacável, se exceptuarmos o poder redentor da literatura, porque, tal como indica Saramago na epígrafe que ilumina o sentido da narrativa, «sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam». (...)

Em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Ensaio de Fernando Gómez Aguilera
Páginas 56 e 57

(Imagem da encenação da peça de teatro, baseada na obra, pela ACERT)

Quem é Alonso Quijano, referido por Fernando Gómez Aguilera?
Aqui uma breve explicação, via Wikipédia em http://es.wikipedia.org/wiki/Alonso_Quijano

(Iluminura de Dom Quixote e seu fiel escudeiro)


"Alonso Quijano era el auténtico nombre del hidalgo don Quijote, personaje ficticio principal en la novela Don Quijote de la Mancha. Su procedencia se desconoce. Familiarmente, en su aldea natal se le conocía por el nombre de Alonso Quijano, el Bueno.
El porqué del nombre
Investigadores españoles han encontrado documentos históricos que avalan la historia de 'Don Quijote de la Mancha' y de las personas reales en que se basó Miguel de Cervantes para crear su célebre novela. Según 'ABC', en 1581 Pedro de Villaseñor, amigo de Cervantes, y Francisco de Acuña, intentaron matarse a lanzazos en el camino que unía los municipios manchegos de El Toboso y Miguel Esteban.
A diario, Villaseñor y Acuña, coetáneos de Cervantes, iban vestidos como caballeros medievales, y el historiador Francisco Javier Escudero y la arqueóloga Isabel Sánchez Duque consideran que el célebre dramaturgo pudo conocer estos hechos y parodió con su novela una historia y personajes reales.
"Encontramos que los Acuña intentaron matar a los Villaseñor vestidos de caballeros, con todo el aparataje medieval, y nos dimos cuenta de que la historia de Don Quijote no es inventada, es real: es lo que hacían los enemigos de los Villaseñor contra ellos. Increíble pero cierto, está documentado", afirmó Escudero.
Pero en 1573, según textos del Archivo Histórico Nacional español, se produjo un intento de asesinato de otro Villaseñor, Diego, y aquí aparece un tercer personaje, Rodrigo Quijada, que fue procesado aquel año. A su apellido, Quijada, pudo añadir Cervantes un sufijo despectivo que derivó en Quijote.
Escudero explica que El Quijote es "una parodia, una burla" y teniendo en cuenta que no se escriben novelas para burlarse de amigos, Cervantes debió crearla para "ridiculizar" a los enemigos de los Villaseñor, amigos de una de las máximas figuras de la literatura española.
"Todavía estamos en la fase preliminar y puede aparecer mucho más, pero lo que parece evidente es que El Quijote está dedicado a burlarse de esos enemigos de los Villaseñor que, posiblemente, también sean enemigos de Cervantes o a quienes Cervantes consideraba enemigos", añadió el historiador.
Los investigadores han encontrado media docena de documentos de Rodrigo Quijada, en los que se le retrata como "un personaje muy polémico que estuvo muy mal visto en todos los pueblos de la zona", y que, según su biografía, se merecía el maltrato que se le da al Quijote en la novela.
Además, todos estos personajes confluyen en un entorno geográfico conocido por Cervantes."


domingo, 7 de dezembro de 2014

Citador #18 ... da fealdade segundo o cão Achado, em "A Caverna"

Citador #18
... da fealdade segundo o cão Achado
"A Caverna"
Caminho, página 143



(...) "embora deva observar-se que esta opinião não a formulou o Achado, isso de feio e bonito são coisas que não existem para ele, os cânones de beleza são ideias humanas, Mesmo que fosses o mais feio dos homens, diria o cão Achado do seu dono se falasse, a tua fealdade não teria nenhum sentido para mim, só te estranharia realmente se passasses a ter outro cheiro ou passasses doutra maneira a mão pela minha cabeça." (...) 

A Porto Editora lança a 55.ª edição do "Memorial do Convento"

(Caligrafia da capa por José Mattoso)

Aqui, o link da editora, 

«Um romance histórico inovador. Personagem principal, o Convento de Mafra. O escritor aparta-se da descrição engessada, privilegiando a caracterização de uma época. Segue o estilo: "Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra... Era uma vez a gente que construiu esse convento... Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes... Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido". Tudo, "era uma vez...". Logo a começar por "D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa a até hoje ainda não emprenhou (...). Depois, a sobressair, essa espantosa personagem, Blimunda, ao encontro de Baltasar. Milhares de léguas andou Blimundo, e o romance correu mundo, na escrita e na ópera (numa adaptação do compositor italiano Azio Corghi). Para a nossa memória ficam essas duas personagens inesquecíveis, um Sete Sóis e o outro Sete Luas, a passearem o seu amor pelo Portugal violento e inquisitorial dos tristes tempos do rei D. João V.» (Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998).

(Fotografia de José Saramago, nas imediações do Convento de Mafra)


Aqui, link da notícia, em http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=749930

«Memorial do Convento», de José Saramago (Porto Editora)
A Porto Editora continua a lançar as obras de José Saramago, com novas capas e novas revisões. O mais recente livro desta nova etapa é “Memorial do Convento”, um dos livros mais marcantes da carreira do Prémio Nobel da Literatura, em 1998. Desta vez, cabe ao historiador José Mattoso “assinar” a caligrafia da capa (recorde-se que todos os títulos das obras editadas são assinadas por grandes figuras da literatura e da cultura portuguesa, além de amigos de Saramago). Editado em 1982 (já vai na sua 55.º edição, a primeira na Porto Editora), “Memorial do Convento” apresenta como nenhum outro o equilíbrio entre a História, a ficção e o imaginário. É verdade que Blimunda (que tem a aptidão de ver o interior das pessoas aquando em jejum) e Baltazar (ex-militar que perdeu uma mão) assumem os papéis principais do livro, mas não podemos ficar indiferentes, por exemplo, ao Padre Bartolomeu de Gusmão (que abençoa o amor infiel de Baltazar e Blimunda), mas também ao povo, faminto devido aos caprichos de um Rei e de uma Igreja que não olham a meios para alcançarem os seus desejos, muitas vezes irreais. Um livro absolutamente obrigatório!

Apresentação do Cd-Livro do espectáculo "A Viagem do Elefante" - Acert Tondela

CD-Livro do espectáculo A Viagem do Elefante
"14 canções do espectáculo A Viagem do Elefante", do Trigo Limpo - Teatro ACERT, a partir do conto de José Saramago. 
Luis Pastor e A Cor da Língua, na ACERT, Tondela

Aqui link, http://issuu.com/acert/docs/14cancoesve_issuu-2



"A Viagem do Elefante"

Espectáculo teatral de rua, do Trigo Limpo - Teatro ACERT, em coprodução musical com Flor de Jara (Espanha) e parceria da Fundação José Saramago

APÓS A DIGRESSÃO DE SUCESSO EM 2013, O ANO DE 2014 É MARCADO PELA VIAGEM DE SALOMÃO POR VISEU DÃO LAFÕES

Ver o site de 'a viagem do elefante'

SEMPRE CHEGAMOS AO SÍTIO AONDE NOS ESPERAM[1]

Foi este o pulsar afetivo que gerou no Trigo Limpo teatro ACERT a ideia da montagem teatral do conto de José Saramago. Primeiro, a paixão compartilhada pela leitura. Depois, as visões encantatórias que faziam de cada momento lido um momento teatral. Tudo mexia. Os personagens passaram a conviver connosco e a segredarem-nos intenções de saírem do conto para lhes darmos vida. O elefante Salomão povoava-nos sonhos e dava-nos carícias de uma humanidade singular. Agigantá-lo seria um justo merecimento. José Saramago semeava em nós o prazer duma aventura imaginosa e arrojada. Tão somente o escutámos: “As pessoas não escolhem os sonhos que têm, São, pois, os sonhos que escolhem as pessoas”.[2]

Assim sucede quando a literatura, sem mais pretensão que ser literatura, se converte em expressão de vida. A partir desse momento, será já, para sempre, por obra e graça da vida dos leitores, grande literatura, destinada a fortalecer, com audácia, a experiência da liberdade humana e da expressão criadora, essa vontade lúcida que tanto ajuda a sonhar e a construir a realidade desejada.[3]

O QUE DÁ O VERDADEIRO SENTIDO AO ENCONTRO É A BUSCA E QUE É PRECISO ANDAR MUITO PARA ALCANÇAR O QUE ESTÁ PERTO[4]

Caminhos de partilha se impuseram. Convidados, Luis Pastor e Flor de Jara, entraram na aventura afetuosa e generosamente. O cantautor criou com José Saramago “Nesta Esquina do Tempo”, livro/disco em que musicou os seus poemas e que encerra com a voz do nosso escritor. Deitou mãos à guitarra e a sua voz encantou-nos nesta nova viagem.
Delicadamente, contámos o sonho a Pilar del Río que se encantou, maravilhando-nos com sua generosidade. Cumpria-se mais um momento onírico: “Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós”.[5]

Escrevê-lo [A Viagem do Elefante] não foi um passeio ao campo: Saramago lançou-se a esta tarefa quando estava incubando uma doença que tardou meses a deixar-se identificar e que acabou por manifestar-se com uma virulência tal que nos fez temer pela sua vida. Ele próprio, no hospital, chegou a duvidar que pudesse terminar o livro. Não obstante, sete meses depois, Saramago, restabelecido e com novas energias, pôs o ponto final numa narração que a ele não lhe parece romance, mas conto, o qual descreve a viagem, ao mesmo tempo épica, prosaica e jovial, de um elefante asiático chamado Salomão, que, no século XVI, por alguns caprichos reais e absurdos desígnios teve de percorrer mais de metade da Europa.[6]

“FISICAMENTE, HABITAMOS UM ESPAÇO, MAS, SENTIMENTALMENTE, SOMOS HABITADOS POR UMA MEMÓRIA …” [7]

A adaptação dramatúrgica não dispensa a leitura integral do conto “A Viagem do Elefante”. Procurou-se encontrar os trilhos que, literariamente, respeitassem a bússola do itinerário de Salomão, evidenciassem as tensões que, teatralmente, exprimissem a riqueza dos personagens e os momentos mais salientes da aventura transfronteiriça. O paquidermísmo humano e a humanização afetuosa do Salomãozinho, cruzam a narrativa teatral assimilada do texto literário de José Saramago que se caracteriza pelo “humor irreverente, a ironia distanciadora, a compaixão, o humanismo cético e a ternura”, contrabalançada com “a mesquinhez, os inconvenientes próprios do caminho e o desconsolo provocado pelos poderes terrenos e divinos”.[8] Contra factos tão literários, que argumentos restam ao teatro? Somente navegar na narrativa, bem como devolver ao palco os diálogos já tão magnificamente elaborados e o carácter ficcional das situações que, estando a viver nas páginas do livro, pertencem ao imaginário daqueles que, na leitura, assumem a encenação singular que a sua fantasia reclama. Por isso, estamos confrontados não com público desprevenido, mas, em muitos casos, com guardadores de memórias do que leram. Encenadores duma fílmica leitura. Mediadores zelosos que querem identificar a leitura na visão teatral que lhes é proposta.

Mas não será excessivo, sem embargo, observar que onde poderia parecer que há pouco de Saramago, aqui se encontra todo ele, o mais relevante, a palavra descoberta, sem alardes nem arranjos, sem argumentos nem propósitos que não sejam habitar o centro da língua portuguesa e, uma vez mais, dar a sua versão heterodoxa e complementar da História a partir de ressurreições marginais imaginadas, de uma vontade humanista, de substituir a crónica pela invenção e forçar a alteração da perspectiva acomodada.[9]

[1] José Saramago, A Viagem do Elefante,
[2] idem, O Evangelho Segundo Jesus Cristo,
[3] Jornal de Letras, Artes e Ideias, Testemunho de Fernando Gomez Aguilera sobre obra literária de Saramago, 5/11/08,
[4] José Saramago, Todos os Nomes,
[5] Idem, ibidem,                                  
[6] Mensagem de Pilar del Rio, José Saramago terminou um novo livro. Chama-se A viagem do elefante.
[7] José Saramago, Palavras para uma cidade
[8] Fernando Gomez Aguilera, “Testemunho de sobre obra literária de Saramago”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 5/11/08
[9] Idem, ibidem

INICIOU A GRAVAÇÃO DO LIVRO/CD " A VIAGEM DO ELEFANTE"
A LOUCURA CONTINUA!



"A VIAGEM DO ELEFANTE" POR VISEU DÃO LAFÕES
Um Roteiro em 2014
Lançamento do Livro

Um espetáculo, uma viagem, um território.

Apresentação integrada no 20º FINTA - Festival Internacional Teatro ACERT

A propósito da circulação do espectáculo “A Viagem do Elefante” criado pelo Trigo Limpo teatro ACERT e promovida pela Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões, é apresentado o livro/roteiro “A viagem do elefante por Viseu Dão Lafões”.
Mais do que um trabalho sobre o eespectáculo é um trabalho sobre o território e o que dele se destacou ao longo desta digressão. Um apelo à visita guiada por um elefante indiano. Um guia por locais habitados por gente boa, com recursos únicos, memórias e identidades que se cruzaram na passagem do elefante Salomão por cada terra. Um território que faça cumprir, citando José Saramago, que “No interior de cada país está o seu destino”.

Quatro criadores (dois fotógrafos, Carlos Teles e Ricardo Chaves, e dois jornalistas, Sara Figueiredo Costa e Ricardo Viel) que acompanharam toda a digressão, mostram-nos o que de melhor descobriram em cada local, apelando ao visitante para que descubra por si um território diverso, rico, estimulante. Um território cheio de sinais de enorme vitalidade, que ousou, demonstrar a cultura como ferramenta essencial de desenvolvimento. Uma comunidade que assumiu, com ousadia, apostar na criação artística como projecto comum aos catorze municípios que a integram. Um território que deixa marcas em quem o visita e que tem como “primeiro cidadão em comum” o elefante Salomão.

O projeto não se confinou às apresentações nem se esgotou numa digressão teatral. A riqueza do processo, nas suas vertentes sociológicas, turísticas e de desenvolvimento regional mereceram, desde o primeiro instante, uma atenção particular.

Uma obra pioneira, reflexo de um projecto pioneiro, que tenta demonstrar a importância de fazer/ pensar diferente em áreas como o trabalho colaborativo, o turismo, o desenvolvimento local e comunitário e das práticas artísticas descentralizadas com repercussões na valorização dos territórios e das suas gentes.

Assim, esta edição literária e fotográfica não é o diário de bordo do eespectáculo“A Viagem do Elefante”. É sim um cicerone que dá conta duma experiência integradora, dando visibilidade aos locais e suas riquezas materiais e imateriais de forma singular. Esta edição desvia se propositadamente do sentido do habitual guia turístico, uma vez que é o Elefante Salomão que ficcionalmente corporiza cumulativamente o papel de viajante e do residente. Com as devidas ressalvas, a opinião de José Saramago na sua “Viagem a Portugal” está subjacente ao que se pretende:

“História de um viajante no interior da viagem que fez, história de uma viagem que em si transportou um viajante, história de viagem e viajante reunidos em uma procurada fusão daquele que vê e daquilo que é visto, encontro nem sempre pacífico de subjectividades e objectividades. Logo: choque e adequação, reconhecimento e descoberta, confirmação e surpresa.”

Aqui o link, http://www.acert.pt/programacao/registo.php?id=795