Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

João Alexandre Barbosa escreve sobre José Saramago "Até os limites da realidade" 06/12/1998)

Um texto do académico João Alexandre Barbosa

Pode ser lido e consultado em http://www.jornaldepoesia.jor.br/1jab.html

"Até os limites da realidade" (publicado em 06/12/1998)

"Vejo agora que venho lendo a obra de José Saramago há muito tempo. A prova está na mistura de edições em que tenho os seus textos publicados por duas ou três editoras portuguesas e, a partir de uma certa época, a brasileira Companhia das Letras, que, para quem lê no Brasil, seguindo aquilo que é feito, do lado de Portugal, pela Editorial Caminho, veio dar uma certa ordem no caos editorial que costumam sofrer os escritores de língua portuguesa. 
E por aí se vê que, embora tenha começado como romancista desde 1947 com "Terra do Pecado", publicado pela Editorial Minerva, somente em 1977, com "Manual de Pintura e Caligrafia, da Edição Moraes, assume a identidade de romancista que, para o público mais amplo, atinge a sua plenitude com a publicação, em 1982 e já pela Caminho, do "Memorial do Convento". Duas consequências para a reflexão: durante 30 anos entregou-se ao jornalismo e à poesia (de que dão notícias os livros "A Bagagem do Viajante", "Os Apontamentos" e "Os Poemas Possíveis", "Provavelmente Alegria" e "O Ano de 1993", respectivamente) e somente há 21 anos vem escrevendo os romances que lhe conferem, sem qualquer sombra de dúvida, a posição de um dos melhores prosadores de língua portuguesa deste século que vamos terminando -e, para dizer a verdade, o plural só está aí pela existência anterior de João Guimarães Rosa. São dez romances: além dos já citados "Terra do Pecado", "Manual de Pintura e Caligrafia" e "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "A Jangada de Pedra", "A História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira" e "Todos os Nomes". E não é muito difícil estabelecer, desde logo, uma marca narrativa que, por assim dizer, articula a variedade ficcional de cada um: a presença forte de um narrador, quase sempre no limiar da dicção autobiográfica, que busca fixar, no patamar mais objetivo da história e da realidade circunstancial, as dissonâncias das experiências subjetivas de que a linguagem tem dificuldades em dar conta.
Neste sentido, o chamado romance histórico sofre, com Saramago, um desvio fundamental: a história circunstancial não lhe serve apenas para alimentar a imaginação, mas esta, por meio de pequenos e substanciais erros de leitura, como vai estar explícito naquele "não" introduzido pelo revisor de "A História do Cerco de Lisboa", cria uma complexidade de maior realidade, pois inclui no real histórico as dissonâncias da própria linguagem que é utilizada para a sua apreensão. O que, por outro lado, permite ou mesmo imanta a presença contínua de uma desconfiança de base para com os dados históricos, freqüentemente embaralhados pelo imaginário da linguagem. E como este, no caso de um romancista, está constituído, sobretudo, pelas fontes próprias da tradição narrativa, o chamado romance histórico, em Saramago, inclui necessariamente, e de modo solidário, a história do próprio gênero. Por isso, é possível dizer que, na esteira do que há de mais inovador na narrativa moderna e pós-moderna, o romance de Saramago é uma prolongada discussão acerca das relações possíveis entre a representação da realidade pela linguagem da narrativa e as inserções operadas pela imaginação ficcional.
Quando, portanto, o próprio Saramago apontava Pessoa, Borges e Kafka como, para ele, os mais importantes escritores do século, estava sinalizando para aquilo de que a sua própria obra dá testemunho, isto é, quer para a multiplicidade de vozes ficcionais que está em Pessoa, quer para a realidade da ficção, como está em Borges, quer para a precisão do sonho e do imaginário de Kafka, tudo, no entanto, por assim dizer, sob a tensão de uma consciência dilacerante da linguagem. Veja-se, por exemplo, o modo pelo qual, no seu último romance, "Todos os Nomes", transmite ao leitor lugares e tarefas que constituem o espaço da grande sala da Conservatória Geral do Registro Civil e que serve de pórtico à narrativa:
"A disposição dos lugares na sala acata naturalmente as precedências hierárquicas, mas sendo, como se esperaria, harmoniosa deste ponto de vista, também o é do ponto de vista geométrico, o que serve para provar que não existe nenhuma insanável contradição entre estética e autoridade. A primeira linha de mesas, paralela ao balcão, é ocupada pelos oito auxiliares de escrita a quem compete atender ao público. Atrás dela, igualmente centrada em relação ao eixo mediano que, partindo da porta, se perde lá no fundo, nos confins escuros do edifício, há uma linha de quatro mesas. Estas pertencem aos oficiais. A seguir a eles vêem-se os subchefes, e estes são dois. Finalmente, isolado, sozinho, como tinha de ser, o conservador, a quem chamam chefe no trato cotidiano.
A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de cada categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo
a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte. Isto significa que os auxiliares de escrita são obrigados a trabalhar sem parar de manhã à noite, enquanto os oficiais o fazem de vez em quando, os subchefes só muito de longe em longe, o conservador quase nunca. A contínua agitação dos oito da frente, que tão depressa se sentam como se levantam, sempre às corridas da mesa para o balcão, do balcão para os ficheiros, dos ficheiros para o arquivo, repetindo sem descanso estas e outras sequências e combinações perante a indiferença dos superiores, tanto imediatos como afastados, é um factor indispensável para a compreensão de como foram possíveis e lamentavelmente fáceis de cometer os abusos, as irregularidades e as falsificações que constituem a matéria central deste relato".
Eis, portanto, um traço estilístico de Saramago em sua essência:
os dados da realidade objetiva são expostos até os seus últimos limites, não obstante as interferências irônicas, para que então possa surgir o elemento de dissonância que se introduz pela movimentação final do trecho citado e que é sua decorrente: o erro, o abuso, a irregularidade ou a falsificação que transformam a rasura do nome num motivo de procura pelo nome que é o romance e que por aí faz o leitor retornar, mesmo que não o saiba, às fontes primordiais do gênero narrativo. Mas a busca pelo nome, que é também a da identidade, tudo envolve, desde aquele que busca até o objeto que se busca e, por isso, a história se confunde com as histórias individuais, sejam as do personagem Sr. José, sejam as deste romance que dialoga com as suas origens. Nascimento e morte, fichas hierárquicas da Conservatória, diapasões pelos quais se mede o pulsar da realidade, é o espaço e o tempo que são alterados e renomeados pela presença do erro que somente o imaginário da ficção foi capaz de provocar."


* João Alexandre Barbosa é professor aposentado de teoria literária da USP. Autor, entre outros, de "A Biblioteca Imaginária" (Ateliê Editorial).

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Citador #27 ... Pessoa e Reis num hipotético diálogo envolto em inquietude...

Citador #27
em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição, página 144

(...) Se um morto se inquieta tanto, a morte não é um sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de a não ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre, não de doença, e é por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte, Meu caro Fernando Pessoa, você treslê, Meu caro Ricardo Reis, eu já não leio. Duas vezes improvável, esta conversação fica registada como se tivesse acontecido, não havia outra maneira de torná-a plausível. (...)

Ópera "Lucia de Lamermoor" de Donizetti, pronuncio de desgraça?

(...) "A entrada na sala foi unanimemente festejada com sorrisos e pequenas vénias de cabeça. Salvador, esquecido de agravos ou diplomaticamente fingidor, abriu de par em par as portas envidraçadas, à frente passaram Ricardo Reis e Marcenda, como devia ser, é ele o convidado, aqui onde nós estamos não se consegue perceber o que a telefonia toca, muito daria que pensar a coincidência se fosse a marcha nupcial de Lohengrin, ou a de Mendelssohn, ou a menos célebre, talvez por ser tocada antes de uma desgraça, a da Lucia de Lamermoor, de Donizetti." (...)

em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição (página 131)


Breve trecho ópera que pode ser vista via YouTube

"Dame Joan Sutherland performing 'Eccola!' (The Mad Scene) 
from Donizetti's Lucia di Lammermoor 
in the Australian Opera's - 1986 
production at the Sydney Opera House."

Breve informação via Wikipédia

"Lucia di Lammermoor é uma ópera em 3 atos de Gaetano Donizetti, com libreto de Salvatore Cammarano, baseada no romance "The Bride of Lammermoor" (A Noiva de Lammermoor), de Walter Scott. Juntamente com Don Pasquale e L'Elisir d'Amore, é uma das óperas mais representadas de Donizetti na atualidade. A sua estreia ocorreu no Teatro San Carlo em 26 de setembro de 1835.

Sinopse
Ato I
Jardins do castelo da família Lammermoor. Normanno, capitão da guarda do castelo, acompanhado de outros serviçais, está procurando um intruso. Ele conta logo a Enrico Ashton de Lammermoor que suspeita que tal intruso é Edgardo de Ravenswood, de uma família inimiga, que vem ao castelo para encontrar-se com Lucia, sua irmã mais nova. Ao descobrir que Normanno estava certo, Enrico dispõe-se a acabar de uma vez com a relação entre ambos.
Diante de uma fonte, na entrada próxima ao castelo, está Lucia, esperando por Edgardo. Lucia explica a Alisa, sua serviçal, que viu o fantasma de uma menina assassinada nesse mesmo lugar por um ciumento ancestral da família Ravenswood - a mesma de Edgardo. Alisa vê nisso um mau pressentimento e alerta Lucia para que desista do romance. Edgardo aparece e explica que vai à França, em missão política, acreditando poder selar a paz com Enrico e casar-se com Lucia. E, diante das dúvidas da aceitação ou não por parte de Enrico, trocam alianças selando o compromisso.

Ato II
Dentro dos aposentos de Lorde Enrico, acontecem os preparativos para o casamento arranjado de Lucia e Arturo Bucklaw. Enrico, preocupado com a reação de Lucia, forja uma carta supostamente escrita por Edgardo dizendo que ele já a esqueceu e está casado. Raimondo, o capelão, tenta convencer Lucia a esquecer Edgardo pelo bem de sua família.
Tem início a cerimônia nupcial. Arturo e Lucia, contrariada, assinam o contrato nupcial. Edgardo aparece de súbito e ameaça os presentes. Raimondo mostra a Edgardo o contrato nupcial e este, irritado, faz com que Lucia se desfaça dos anéis de compromisso. E é forçado a se retirar do castelo.

Ato III
Enrico e Edgardo marcam um duelo. Dentro do castelo, Raimondo noticia que Lucia assassinou Arturo cravando-lhe um punhal durante a noite de núpcias. Fora de si, Lucia se imagina na noite de núpcias com Edgardo e roga-lhe perdão pela traição. Lucia chegara à loucura.
Amanhece, e atrás do cemitério dos Ravenswood, Enrico e Edgardo se encontram para o duelo. Surge uma procissão lamentando a morte de Lucia (não é explícita a causa - se Lucia foi condenada à execução, suicidou-se ou adoeceu). Dobram os sinos anunciando a morte e Edgardo, que não suporta a idéia de vê-la morta, suicida-se com uma punhalada no peito."

Richard Eder (The New York Times) apresenta a obra "Todos os Nomes" (04/10/2000)

Na obra de João Céu e Silva - "Uma longa viagem com José Saramago" (Porto Editora, página 295), é recuperada o espanto pela orientação política de Saramago, muito escrutinada nestas referências. Na tradução, inserida em rodapé, o crítico Richard Eder do "The New York Times" refere: «Que o Sr. Saramago seja comunista - comunista muitíssimo raro porque é um grande escritor em todos os sentidos - é provavelmente significativo. É certo que não há nada ideologicamente programado na sua ficção, mas as suas personagens populares conseguem prevalecer sobre aquilo que as oprime. É mais importante o facto de ser ateu (decididamente um ateu católico romano, com problemas frequentes com a igreja)».
Esta análise resume em grande parte a envergadura transversal que atravessa toda a obra do escritor. A bandeira política ou a religiosa, não é imposta pelo autor como trâmite ou veículo da mensagem, antes porém, uma manifestação natural da vida que as suas personagens assumem. José Saramago, comunista para espanto dos críticos, ateu transgressor com confrontos contra os edifícios e estruturas organizacionais da igreja, manifestou-se como um elemento social, inquieto e sempre desassossegado, confuso e visceralmente crítico pela tamanha falta de bondade e justiça no mundo.
Mostra-se de particular importância, observar e enquadrar na análise da sua obra, estes testemunhos críticos, que permitem criar/justificar uma zona de distância e independência de Saramago enquanto escritor, e que por tal arte foi distinguido ao mais alto nível literário, do seu outro Saramago, enquanto agente social e gerador das suas ideias e filosofia de vida.

Miguel de Azevedo     

"Todos os Nomes", 1997, aqui capa do "Circulo de Leitores"


Sinopse apresentada no site da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/todos-os-nomes/

"1997 - O protagonista é um homem de meia idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de coleccionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas colecções, de informações exactas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que estás copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro."


"All the Names" tradução de Margaret Jull Costa - Harcourt - 238 páginas


No "The New York Times, Richard Eder, apresenta a crítica à obra "Todos os Nomes" (All the Names), na secção "Books of the Times".

A peça crítica pode ser lida e consultada aqui,
em http://www.nytimes.com/2000/10/04/books/books-of-the-times-rising-out-of-dust-a-glimmer-of-hope.html

"Rising Out of Dust, a Glimmer of Hope"

"The dismal registry where Senhor Jose works is a labyrinth of choked passageways lined with soaring banks of files, dusty and draped in cobwebs. They contain, in one wing of the dank building, the birth and marriage records of Portugal's living. In the other wing, whose outer wall needs periodically to be extended, are the yellowing records of the dead.

''The fate of all paper, from the moment it leaves the factory, is to begin to grow old,'' observes Senhor Jose, the downtrodden and upward-persisting protagonist of Jose Saramago's ''All the Names.'' It is an early hint of connection between the registry and the human condition. The faint perfume of rose and chrysanthemum that drifts through, evoked by what is written on the paper, is another signal.

An infrangible bureaucratic hierarchy runs the place. At the bottom are the clerks, furiously active as they fill out the forms and file or transfer them. Over them are the senior clerks, spared by their subordinates' efforts from any such grueling labor. Above these are the deputies, more leisured still; and finally, the registrar himself. He is a grand personage who arrives long after the others, who never touches a file, whose sporadic orders filter down through the ranks and who, to all appearances, does nothing but think and frown.

Like the maze of Kafka's ''Castle'' and the disembodied machineries of ''The Trial,'' the registry is a mythical embodiment of the human spirit, entrapped. Mr. Saramago, a recent Nobel Prize winner, is Portuguese, though, not Central European. Fog, not bleakness, regulates his lighting.

There is a blurring effect in his great novel-parables; a kind of mercy. His protagonists are caught as Kafka's are caught, but not permanently. It is not that they escape from the web but that the web loses itself.

That Mr. Saramago is a Communist -- the very rare Communist who in all senses is a great writer -- is probably significant. Certainly there is nothing ideologically programmed in his fiction, but his little people, unlike K. or Joseph K., manage to prevail over what binds them. That he is an atheist is more important (a decidedly Latin Catholic atheist, frequently in trouble with the Church).

His various versions of God -- the registrar in ''All the Names,'' actual God in ''The Gospel According to Jesus Christ'' -- are tested, rebuked and sometimes persuaded by his lowly heroes. Jesus, in fact, in ''The Gospel''; and here, the clerk Senhor Jose. Middle-aged and solitary, Jose can't accept a humanity defined by the bare facts entered on the files. This meekly servile man sneaks into the registry at night to borrow certain cards and take them back to his shabby apartment next door. He enters them in a scrapbook of newspaper clippings about the 100 most famous Portuguese (something of a numbers stretch, he admits). It is a way of expanding the pinched definitions -- only this is life, only this is death -- in the registry's universe.

Then one night he finds he has picked up the birth, marriage and divorce file card of an unknown woman by mistake. There are no clippings to work a surrogate enlargement. Only life can do it. In fear and trembling, at comically heroic cost, this mouse grows wings and teeth (both chafe) and ventures out into the world to find her.

It is the beginning of a quest worthy of Don Quixote. Senhor Jose lacks a horse; he must use his own spindly shanks and once in a while, when it is raining especially hard, and at unaffordable expense, a taxi. His Dulcinea is worse than romantically enhanced; when he finally tracks her down, she is dead -- depressively, by her own hand.

Yet the quest is the opposite of depressive. Oddly, and in a fashion too complex to expound here (but recognizable to those familiar with Mr. Saramago's brand of secular and hard-earned miracles) it succeeds, transforming in practical ways those it touches.

Senhor Jose goes to the address listed in the last entry on his quarry's card, at the time of her divorce years earlier. He questions an old neighbor who had known her from childhood. Lives spill out: the neighbor had carried on an affair with the woman's father. She gives him the location of the school the woman attended as a girl.

The search grows mythical while remaining entirely down-to-earth and modestly absurd. Senhor Jose buys lard, a towel and a glass cutter. At night, in pouring rain, he uses them to cut a hole in a window and break into the school. He spends a miserable, soggy night and day -- it is the weekend -- searching for her files. He helps himself to the contents of the school refrigerator and takes naps in the director's office.

All he comes away with is a half-dozen yearly reports, each with its photograph. Nothing is conclusive, nor is his further search: talking with shopkeepers, her parents and, finally, visiting the cemetery where she was buried after her suicide just days before.

His travels alternate with erratic appearances at his job. Strangely, his absences, meticulously noted, are not rebuked. To the contrary, the icy registrar takes an increasingly solicitous interest in his clerk, sending medicine, food and a doctor when he catches cold. The reason remains hidden; it is revealed in a final two pages that instead of closing the story, open it out.

''All the Names'' is a lesser work than some of Mr. Saramago's others: ''Gospel,'' ''The Stone Raft,'' ''Blindness'' and ''The History of the Siege of Lisbon.'' It is closest to the last. There, a modest proofreader reverses not just an oppressive bureaucracy but history itself, and finds love with a resplendent live woman instead of an elusive dead one. Here and in the other books there is an audacity and energy in the governing conceit that ''All the Names,'' occasionally as dusty as its registry, doesn't quite manage.

Mr. Saramago's unpunctuated sentences, bundling together a statement, an objection, a qualification and a digression, need a lot of narrative detonation to keep them moving. The quieter ''Names'' bogs dozily down from time to time; periodically roused, though, by the lilting surprises of this intensely mischievous and intensely humane writer."


Pintura de José Saramago - imagem alegórica onde são agregados vários aspectos da sua vida e obra


«Ao fundo, LANZAROTE !
"Onde não comem sete, não comem oito": antiprovérbio presente em LEVANTADO DO CHÃO. Sara da Conceição estava grávida uma vez mais e assim o texto ratifica a penúria do Portugal de então. Aliás, muito atual. E, por pensar em alimentos, a escrita é capaz de nos alimentar de ideias, de abrir os olhos para injustiças. Certo dia, um amigo português emprestou-me um "flyer" de um restaurante. Tal restaurante homenageava vários escritores; um deles, claro, foi José Saramago. Degustem a foto e identifiquem o nome dos pratos.»

Reflexão de Eula Carvalho Pinheiro, académica e ilustre Saramaguina

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Saramago no seu blog/livro "Caderno" dedica um texto a Federico Mayor Zaragoza

Pode ser consultado e lido em
http://caderno.josesaramago.org/6504.html

"Federico Mayor Zaragoza"
"Começa a Feira do Livro de Frankfurt: reunidas ali, as grandes indústrias do mundo do livro anunciam maus tempos para este objecto, de que tanto vivemos no passado e a que tanto ainda continuaremos a dever. Dizia que estão ali os grandes editores, mas há um número sem fim de pequenas editoras que não podem viajar, que não dispõem dos escaparates das outras e que, sem embargo, estão dificultando que se cumpra o prazo fatal de dez anos para que se acabe o livro em papel e se imponha o digital. Como será o futuro? Não sei. Enquanto não chega esse dia, que para os habitantes da Galáxia Gutemberg será duro, deixo aqui uma breve homenagem às pequenas editoras, a Ânfora, de Espanha, por exemplo, que publica por estes dias um livro do meu amigo Federico Mayor Zaragoza, esse homem que quis que a UNESCO fosse algo mais que uma sigla ou um lugar de prestígio, isto é, um foro de solução de problemas, usando a cultura e a educação como ingredientes fundamentais, senão únicos. Prologuei o livro de Mayor Zaragoza chamado “En pie de paz”, um voto mais que um título, e hoje trago-o aqui a este blog como modesta parcela a juntar a essa cifra de quantos se esforçam por melhorar a vida das pessoas. Das anónimas pessoas que são a carne do planeta."

Na Universidade de Granada, quando José Saramago e Federico Mayor Zaragoza receberam o grau de Doutor Honoris Causa

"En pie de paz"
"Federico Mayor Zaragoza traduz em poemas as dores da sua consciência. Não é, obviamente, o único poeta a proceder assim, mas a diferença, a meu ver fundamental, está no facto de eles, esses poemas, praticamente sem excepção, constituírem um apelo à consciência do mundo, por uma vez sem as ilusões de um certo optimismo quase sistemático que parecia ser o seu. Falar de consciência do mundo poderia ser facilmente entendido como mais uma vaguidade a juntar àquelas que nos últimos tempos têm vindo a infectar o discurso ideológico de alguns sectores do chamado pensamento de esquerda. Não é esse o caso. Federico Mayor Zaragoza conhece a humanidade e o mundo como poucos, não é um volúvel turista das ideias, desses que dedicam o melhor da sua atenção a saber de que lado sopra o vento e, logo, a acertar os rumos sempre que o considerem conveniente. Quando afirmo que Federico Mayor apela nos seus poemas à consciência do mundo, isso quer dizer que é às pessoas, a todas e a cada uma, que se dirige, à gente que anda por aí, perplexa, desorientada, aturdida, no meio de mensagens intencionalmente contraditórias, procurando não respirar uma atmosfera em que a mentira organizada passou a competir com o simples oxigénio e o simples azoto.Alguns dirão que a poesia de Federico Mayor Zaragoza se vem alimentando do inesgotável baú das boas intenções. Pessoalmente, não estou de acordo. Federico Mayor alimenta-se, sim, poética e vitalmente, de outro baú, esse que guarda o tesouro da sua inesgotável e extraordinária bondade. Os seus poemas, mais elaborados do que aparentam na sua simplicidade formal, são a expressão de uma personalidade exemplar que não se desligou da massa vivente, que a ela pertence pelo sentimento e pela razão, esses dois atributos humanos que em Federico atingem um nível superior. Devemos a este homem, a este poeta, a este cidadão, muito mais do que imaginamos."

em "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição, 15 de Outubro de 2008


No site da Fundación Cultura de Paz, é possível conhecer alguns dados biográficos que aqui se encaminha,

"Federico Mayor Zaragoza nació en Barcelona, en 1934. Doctor en Farmacia por la Universidad Complutense de Madrid (1958), en 1963 fue Catedrático de Bioquímica de la Facultad de Farmacia de la Universidad de Granada y en 1968 llegó a ser Rector de esta institución, cargo que desempeñó hasta 1972. Al año siguiente fue nombrado catedrático de su especialidad en la Universidad Autónoma de Madrid.  En estos años puso en marcha el Plan Nacional de Prevención de la Subnormalidad, para evitar, mediante diagnóstico precoz, enfermedades que cursan con grave deterioro mental.
Cofundador en 1974 del Centro de Biología Molecular Severo Ochoa, de la Universidad Autónoma de Madrid y del Consejo Superior de Investigaciones Científicas. Entre otras responsabilidades políticas, el Profesor Mayor ha desempeñado los cargos de Subsecretario de Educación y Ciencia del Gobierno español (1974-75), Diputado al Parlamento Español (1977-78), Consejero del Presidente del Gobierno (1977-78), Ministro de Educación y Ciencia (1981-82) y Diputado al Parlamento Europeo (1987). En 1978 pasó a ocupar el cargo de Director General Adjunto de la UNESCO y, en 1987, fue elegido Director General de dicha Organización, siendo reelegido en 1993 para un segundo mandato. En 1999, decide no presentarse a un tercer mandato y, a su regreso a España, crea la Fundación para una Cultura de Paz, de la que es Presidente.
A lo largo de los doce años que estuvo al frente de la UNESCO (1987-1999) el Profesor Mayor Zaragoza dio un nuevo impulso a la misión de la Organización -"construir los baluartes de la paz en la mente de los hombres"-, al convertirla en una institución al servicio de la paz, la tolerancia, los derechos humanos y la convivencia pacífica, mediante actividades en sus ámbitos de competencia y siempre fiel a su cometido original. Siguiendo las orientaciones del Profesor Mayor, la UNESCO creó el Programa Cultura de Paz, cuyo trabajo se organizó en cuatro vertientes principales: la educación para la paz, los derechos humanos y la democracia; la lucha contra la exclusión y la pobreza;  la defensa del pluralismo cultural y diálogo intercultural;  y la prevención de conflictos y consolidación de la paz."

El faro de alejandría: Fernando Sánchez Dragó entrevista Camilo José Cela e José Saramago


Entrevista pode ser assistida aqui
em https://www.youtube.com/watch?v=O_8DT2e2d2o

"Tertulia presentada por Fernando Sánchez Dragó con la participación de Camilo José Cela (Premio Nobel de Literatura en 1989) y José Saramago (Premio Nobel de Literatura en 1998)."

"Ouvindo Beethoven" poema de José Saramago (em "Os Poemas Possíveis") cantado por Manuel Freire

Via YouTube, para ser ouvido em https://www.youtube.com/watch?v=lZkUwF5wf6c

"Ouvindo Beethoven" 

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.

In "Os Poemas Possíveis", 1966

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Folheto da apresentação de “Que Farei com este Livro?”, em 1980 (via Fundação José Saramago)




Porque as memórias não podem ser apagadas, a Fundação José Saramago, através do seu site recorda com estas imagens, o ido ano de 1980.
Para consulta 

"Em 1980, ano em que se assinalava o quarto centenário do nascimento de Luís de Camões, José Saramago escreveu a peça teatral Que Farei com Este Livro?. A obra, que se situa no momento do regresso do autor de Os Lusíadas, foi apresentada pela primeira vez pelo Grupo de Campolide – Companhia de Teatro da Almada. Em 2007, para assinalar os 30 anos da criação do grupo teatral, a peça voltou a ser apresentada pela companhia.

A secção Memória recupera um folheto de 1980 sobre essa primeira representação do texto de José Saramago."


Ricardo Reis com uma curiosa associação de ideias perante S. Francisco de Assis (Convento de São Pedro de Alcântara)

Ricardo Reis, decide dar um passeio, saindo do hotel vê-se impedido de descer em direcção ao Cais do Sodré, por causa das inundações da noite passada, que alagaram com águas sujas e detritos todo o espaço, por tal, sobe a Rua do Mundo, futura da Misericórdia, e chegará a este maravilhoso painel.
Eis a visão do autor.


(Francisco de Assis - painel de azulejos - portão do Convento de São Pedro de Alcântara)

(...) "onde se representa S. Francisco de Assis, il poverello, pobre diabo em tradução livre extático e ajoelhado, recebendo os estigmas, os quais, na figuração simbólica do pintor, lhe chegam por cinco cordas de sangue que descem do alto, do Cristo crucificado que paira no ar como uma estrela, ou papagaio lançado por esses rapazitos das quintas, onde o espaço é livre e ainda não se perdeu a lembrança do tempo em que os homens voavam. Com os pés e as mãos sangrando, com o seu lado aberto, segura S. Francisco de Assis a Jesus da Cruz para que não desapareça nas irrespiráveis alturas, lá onde o pai está chamando pelo filho, Vem, vem, acabou-se o tempo de seres homem, por isso é que podemos ver o santo santamente crispado pelo esforço que está fazendo, e continua, enquanto, murmura, cuidando alguns que é oração, Não te deixo ir, não te deixo ir... (...)

em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição, páginas 62 e 63

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ricardo Reis e a reflexão sobre o sentir o e pensar... bastará?

(ocasião em que José Saramago apresenta a reflexão sobre a obra)


(...) Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente lugar onde se pensa e sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim  vivem, eu sou qual, quem, Quain, que pensamentos e sensações serão os que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser. Juntou os papéis, vinte anos dia sobre dia, folha após folha, guardou-os numa gaveta da pequena secretária, fechou as janelas, e pôs a correr a água quente  para se lavar. Passava um pouco das sete horas. (...)

em, O Ano da Morte de Ricardo Reis
Caminho, 11.ª edição (páginas 23 e 24)



A Fundação José Saramago anuncia o início das comemorações dos 35 anos da obra "Levantado do Chão"

(artigo em "O Diário" (25/02/1980)

Aqui pode ser consultada a iniciativa, via página da Fundação José Saramago,

"No dia 22 de fevereiro de 1980 José Saramago apresentou na Casa do Alentejo o livro Levantado do Chão. Embora já tivesse publicado dois romances, contos, teatro, poesias e crónicas, foi com esse retrato de três gerações de uma família do Alentejo que José Saramago começou a sedimentar a sua carreira literária. Aos 57 anos, o escritor português inaugurava uma maneira própria de narrar que o acompanharia até ao final da vida.

Como diz no posfácio do romance, do chão levantam-se os homens, as esperanças e os livros. E Levantado do Chão também levantou um escritor. Não apenas pela sua qualidade literária, mas também pela sua simbologia, esse é um dos títulos fundamentais na obra de José Saramago. “Penso que as duas obras que marcam a minha narrativa, que eu dividiria em dois períodos distintos, e que mostram os meus sinais de identidade são Levantado do Chão e o Ensaio sobre a Cegueira”, disse o escritor em 2007, numa entrevista a Andrés Sorel.

E é por isso que neste mês de fevereiro, quando se cumprem 35 anos da publicação dos primeiros exemplares desse título, recuperaremos na nossa secção Memória entrevistas, reportagens e outros documentos que nos ajudarão a recordar o nascimento desse livro.

Durante todo o mês a página da Fundação José Saramago será alimentada com materiais sobre esse romance. O primeiro deles é esta notícia do dia 25 de fevereiro de 1980, do jornal O Diário, sobre a apresentação do livro na Casa do Alentejo."

Intervenção de Pilar del Rio na Sessão Comemorativa dos 30 anos da lançamento de "Levantado do Chão" de José Saramago

"Levantado do Chão"

«A transformação social. A contestação. Personagens em diálogos. As cruentas desigualdades sociais. Surgem as perguntas proibidas. Vai-se adquirindo consciência e espaço, para que tudo se levante do chão. Um livro composto por 34 capítulos. No 17.º está a tortura e a morte de Germano Santos Vidigal. Germano, o nome que significa irmão, o homem da lança. Apesar de vencido, o sacrifício da sua vida indica o caminho. “Já o encontraram. Levam-no dois guardas, para onde quer que nos voltemos não se vê outra coisa, levam-no da praça, à saída da porta do sector seis juntam-se mais dois, e agora parece mesmo de propósito, é tudo a subir, como se estivéssemos a ver uma fita sobre a vida de Cristo, lá em cima é o calvário, estes são os centuriões de bota rija e guerreiro suor, levam as lanças engatilhadas, está um calor de sufocar, alto. “As mulheres são também chamadas à primeira linha das decisões neste belo romance de Saramago. O diálogo monossilábico entre marido e mulher da família Mau-Tempo vai-se alterando. Interessante observar uma narrativa que vai da submissão ao sentido de libertação, através de gerações.»

Sinopse, consultada na Biografia Activa, constante na página da Fundação José Saramago,
em http://www.josesaramago.org/levantado-do-chao/



Intervenção de Pilar del Río, na sessão comemorativa, dos 30 anos do lançamento de "Levantado do Chão" de José Saramago (4 de Novembro de 2010)

Link para consulta,
em http://www.pcp.pt/intervenção-de-pilar-del-rio-na-sessão-comemorativa-dos-30-anos-da-lançamento-de-levantado-do-chão-0

"Levantar-se do chão"

"Há alguns anos um cineasta espanhol quis retratar o sofrimento e a capacidade combativa de um grupo de trabalhadores que não aceitavam que as diversas engenharias financeiras já então em uso fechassem uma empresa rentável e com futuro. Os trabalhadores de Sintel, que assim se chamava a firma, desde os engenheiros de alto nível ao mais humilde operário, decidiram instalar-se no centro de Madrid num improvisado acampamento e ali viveram durante vários meses, assim reivindicando o seu direito ao trabalho, a manter uma empresa que com o seu esforço haviam consolidado, as suas vidas e as dos seu familiares, em resumo, em defesa da lógica humana frente à dos interesses materiais dos poderosos. Este acampamento recebeu o nome de Cidade da\Esperança e o filme que conta esta epopeia recebeu o título de “Levantados do Chão”. Também Chico Buarque de Holanda, quando quis prestar homenagem aos camponeses sem terra que ocupavam herdades no Brasil para demonstrar que o esbanjamento condena à humilhação e que o cultivo dos campos não é um luxo nem um capricho, compôs um tema a que deu o título de “Levantados do chão”, um coral que poderia ser entoado nos cinco continentes e em todos os idiomas, bastando que houvesse voz para denunciar o abuso e vontade de erguer-se, de levantar-se, apesar da ideia, habilmente difundida, de que a insubmissão não vale a pena, já que vivemos no melhor dos mundos possíveis.
Diz Saramago que o que há mais na terra é paisagem. Sim: paisagem e gente, os inúmeros Mau-Tempo com esse ou outro apelido, essa dinastia infinita de homens e mulheres cujo único património são os braços e a vontade, o imenso rio de pessoas que percorre o planeta bifurcando-se sem limites, como se fossem as suas veias, o bom sangue imprescindível para que a vida seja possível. Os Mau-Tempo vivem em Portugal e na Bolívia, na Nigéria, na Roménia, em Espanha, nos Estados Unidos, em Moçambique, na Malásia… Vivem silenciosos, emigrantes de si mesmos, escravos de trabalhos terríveis, são o sub-solo do sistema que se mantém porque eles estão presentes, embora invisíveis para quem usa estatísticas em vez de sensibilidade. Às vezes pedem socorro desde os seus países remotos ou desde a profundidade da sua condenação, outras vezes põem-se de pé e levantam as mãos ossudas e os punhos cerrados, mas sempre a máquina do poder os ignora, não importa que sejam a maioria, pertencem à casta dos Mau-Tempo, nasceram para sofrer e morrer en silêncio, enterrando-se uns aos outros, como se de uma confraria universal se tratasse. Os Mau-Tempo são as personagens centrais do romance de Saramago, são, junto com a paisagem, o que mais há na terra.
Que faremos, então? Que faremos com este livro, com este mundo, com esta gente? A virtude da literatura está em não ficar parada perante as portas do mistério, penetra-o, ilumina-o, de maneira que a consciência de quem lê, porque viu, já não poderá fingir que ignora. A pergunta impõe-se com mais veemência, rejeitando a indiferença como resposta, porque só os néscios e os maus de carácter podem virar as costas à questão que, humana e doloridamente, propõe este livro de José Saramago intitulado, e não por acaso, Levantado do chão, epopeia gigantesca de heróis não reconhecidos apesar de parecerem ter mais força que o sol que nos ilumina e serem, além do mais, a matéria de que todos somos feitos. Repitamos, pois, as perguntas desde há tanto tempo gritadas: Que faremos com esta gente? Que faremos com este mundo? Perguntemos e logo prossigamos a leitura deste livro que indaga e questiona com irreprimível força, ouvindo a história daqueles que sempre foram os sujeitos da história, embora não os protagonistas nos manuais que a contam ou nos ridículos Götha em que alguns pretendem distinguir-se. Deixemo-nos ficar na literatura, junto aos Mau-Tempo, nossos contemporâneos, e com eles vivamos ao menos o tempo que durar a leitura deste livro que é mais do que arte, e já veremos o que sucede depois, se somos iguais ao que éramos antes ou se nos damos por esclarecidos.
Existiu Monte Lavre e existiu a chuva. E Domingos Mau-Tempo e Sara da Conceição. E os seus filhos e os filhos dos seus filhos. Tinham os olhos azuis, mas outros Mau-Tempo os terão negros e continuarão a levar o mesmo apelido. Há dinastias imprevisíveis que percorrem a terra povoando-a e lavrando-a como se ela fosse gente. Esta dinastia também se pode numerar com cardinais, mais ainda, os cardinais são seus, ninguém tem mais direitos que eles, porque a aristocracia do trabalho é a única desejável, a única que revalida a sua legitimidade geração após geração sem produzir zângãos como as anacrónicas heranças de sangue dos Norbertos, Albertos, Lambertos e Dagobertos, tantas vezes abençoados pelo padre Agamedes e por toda a fauna que do alheio faz sua aspiração e sua casa, como se o mundo não começasse de cada vez que nasce um humano para remediá-lo. Falemos, pois, dos que nada têm, falemos dos nossos, dos Mau-Tempo que vêm em frágeis barquinhos desde África até à opulenta Europa, falemos dos Mau-Tempo que esperam no corredor de um hospital ou na intranquilidade da sua casa uma operação cirúrgica que nunca chega, falemos das migrações sucessivas do campo à cidade e outra vez ao campo, sempre perseguindo um sonho, falemos de nós próprios, que vemos a desesperança e não podemos evitá-la, e isso nos impede de ser felizes. Falemos, sim, do poder que nasceu para impor-se, e falemos das leis que deveriam evitar os excessos de homens que se consideram superiores, leis que tantas vezes serviram para consolidá-los e outorgar-lhes legalidade. Falemos de nós próprios, que somos capazes de ler este livro e sem embargo não podemos impedir a tortura de Germano Vidigal nem as que agora se infligem em Guantânamo contra homens de tez escura e sem nome, oculto como eles por decisões tão ilegais como criminosas, nem a dos Mau-Tempo que hoje perderão o seu trabalho na ignomínia de uma crise económica provocada e talvez não encontrem ninguém que as escreva e descreva para que a sua dor não seja absoluta, mas partilhada.
E assim, caminhando e vendo como o mundo não cresce nem em piedade nem em sabedoria apesar do tempo e dos inventos, um dia distraído chega em que te pedem algo assim como um prólogo para um grande livro que vai ser reeditado. Agradeces, dizes que o farás, mas quando te informam de que se trata de Levantado do chão experimentas os suores do homem que descobriu o fogo ou calculou a profundidade dos primeiros passos na Lua, e, já sem outro remédio que pôr-te à escrita, olharás em frente como é de lei, mas procurarás um apoio para percorrer o livro, talvez a mão de uma mulher Mau-Tempo, uma que experimentou o gozo de integrar uma manifestação sublime, embora logo, para sua desgraça, tenha descoberto que todas as festas têm um fim e às vezes, como em épocas pretéritas, a exaltação não dura mais que umas horas, o tempo necessário para que as hostes de reagrupem e o imperador mande queimar Roma. Uma mulher guia que aprendeu por experiência que os dias levantados e principais podem sê-lo todos, desde que sejam fruto do esforço e da consciência crítica, não de um tempo que não saiba assinalar factos e datas para distinguir-nos no magma confuso que nos habita e que habitamos, por esta ordem.
Ou seja, uma mulher leva-nos por dentro do livro de Saramago, esse que escreveu para contar de outra maneira a vida de gentes que se confrontam com a fatalidade como se combater fosse o seu destino e não levar um salário para casa, trabalhar em boa paz e celebrar uma boda com alguma coisa mais que uns bolos secos e a promessas de filhos que amanhã serão o sustento dos pais e hoje a aflição de ter que repartir a sardinha. Digamos então que Faustina, que se foi com o noivo e com ele, a céu aberto,"

"A Segunda Vida de Francisco de Assis" ou o paradigma da ingenuidade na luta contra "os poderes" (Peça de Teatro de 1987)

Sendo a personagem "Elias", o todo poderoso da empresa, cria o confronto directo com o "regressado" Francisco, numa luta pela manutenção dos princípios que a "companhia" deve continuar a seguir. Ser mais rica e a engordar a sua fortuna acumulada. 
A voz de "Elias", aqui, retrata essa actual predisposição, despedir reciclando, ou, como ele refere - actualizando.
Francisco assume o caminho da luta contra este aspecto, anunciando tudo tentar fazer para tornar a empresa pobre.
É sempre presente o clima de tensão, e a constante luta pela imposição do bem e do mal.


Voz de "Elias"

"Podes arrumar isto. A sessão terminou. Manda fazer já a transcrição da gravação, irei precisar dela ainda hoje. Depois trataremos da acta definitiva. (para os homens) Seria útil que se reunissem imediatamente com os chefes de sector. Não temos tempo a perder. O mais provável é que seja preciso demitir agentes, todos os que não forem recuperáveis, mas abriremos concurso para a entrada doutros, gente nova, sangue fresco. E temos de elaborar os programas de reciclagem, vamos chamar-lhe cursos de actualização, é menos bárbaro e mais convincente. Quando ouço a palavra reciclagem vejo sempre uma bicicleta a passar. (os homens saem, a mulher fica) Pedro ainda está no gabinete?"

em "A Segunda Vida de Francisco de Assis"
Caminho, página 20

(cada da obra, na edição italiana)


Sinopse da peça de teatro, mencionada na página da Fundação José Saramago,
em, http://www.josesaramago.org/a-segunda-vida-de-francisco-de-assis-1987/

1987 - «”Grande sala. Ambiente geral discreto e severo. Mesa comprida, cadeirões, cofre, telex, vários telefones, um terminal de computador. (…) Está reunido um conselho.” Assim se entra no mundo da “política”, segundo José Saramago. “A Segunda Vida de Francisco de Assis” é mais uma incursão no drama, desta vez à volta de um tema bem actual: o capitalismo, a qualidade, as chefias, a política, as eleições, a bolsa, as valorizações e desvalorizações dos produtos e das pessoas. E uma luta entre a razão e a força. Estamos em 1986, já há computadores, mas muita coisa mudou. “As coisas já não são o que eram”, diz a certa altura uma das personagens. “Houve muitas mudanças e nem todas estão à vista. Algumas nunca saem daquele cofre. São as que convém manter em segredo. “E Francisco? Também mudou, claro. Nesta segunda vida, aprendeu algumas lições e aparece a lutar contra a pobreza. “É a pobreza que deve ser eliminada do mundo”, diz. Mais uma vez Saramago usa a ironia para fazer as suas críticas. “A pobreza não é santa. Tantos séculos para compreender isto. Pobre Francisco.”»

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"Presidenta" ... e não são necessárias mais palavras (Caderno livro/blog - 16/03/2009)

(Fotografia referida datada de 1977



Pode ser consultado e lido
em http://caderno.josesaramago.org/31612.html

"Presidenta"

"Este texto cerra meio ano de trabalho. Outros trabalhos e anos sucederão a estes se os fados assim quiserem. Hoje, por coincidência dia do seu aniversário, o meu tema é Pilar. Nada de surpreendente para quem quiser recordar o que sobre ela tenho dito e escrito em já quase um quarto de século que levamos juntos. Desta vez, porém, quero deixar constância, e supremamente o quero, do que ela significa para mim, não tanto por ser a mulher a quem amo (porque isso são contas do nosso rosário privado), mas porque graças à sua inteligência, à sua capacidade criativa, à sua sensibilidade, e também à sua tenacidade, a vida deste escritor pôde ter sido, mais do que a de um autor de razoável êxito, a de uma contínua ascensão humana. Faltava, mas isso não podia imaginá-lo eu, a idealização e a concretização de algo que ultrapassasse a esfera da actividade profissional ou que dela pudesse apresentar-se como seu prolongamento natural. Foi assim que nasceu a Fundação, obra em tudo e por tudo obra de Pilar e cujo futuro não é concebível, aos meus olhos, sem a sua presença, sem a sua acção, sem o seu génio particular. Deixo nas suas mãos o destino da obra que criou, o seu progresso, o seu desenvolvimento. Ninguém o mereceria mais, nem sequer de longe. A Fundação é um espelho em que nos contemplamos os dois, mas a mão que o sustém, a mão firme que o sustém, é a de Pilar. A ela me confio como a qualquer outra pessoa não seria capaz. Quase me apetece dizer: este é o meu testamento. Não nos assustemos, porém, não vou morrer, a Presidenta não mo permitiria. Já lhe devi a vida uma vez, agora é a vida da Fundação que ela deverá proteger e defender. Contra tudo e contra todos. Sem piedade, se necessário for."

em "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição
(16 de Março de 2009)

Saramago em entrevista à Bomb Magazine (06/2001) aborda o elemento "Amor" nos seus romances

No livro de João Céu e Silva é abordada a questão da construção do novo livro (A Viagem do Elefante) e o espaço que este pode abrir para uma nova abordagem ou reformulação do seu estilo literário.

(Capa do livro de banda desenhada, baseado na obra "A Viagem do Elefante"
de João Amaral - Porto Editora)

"Vai, então, começar uma nova fase dentro do seu estilo literário?
Não, com esta idade não se vai aprender... Neste livro aconteceu, pela própria natureza e pela própria história que tenho para contar, que me tinha de afastar daquilo que fiz até agora. Tinha forçosamente de ser, basta dizer que é o meu primeiro romance em que não haverá uma história de amor. E não é porque já se tivesse dito tudo sobre o amor, é que não cabe ali e seria um postiço artificial. É a viagem de um elefante e o que é que acontece? O elefante pensa, não sei. E se pensa, não sei em que é que consiste o pensamento dele. O elefante observa, raciocina sobre o que vê ou sente, não sei. Não sabemos nada. Então não vale a pena fazer como tantas vezes se fez, com resultados esteticamente mais ou menos improváveis, onde se antropomorfizou o animal. Separa-nos um abismo e mesmo nos casos em que, como nos chimpanzés e outros símios, há motivos para ver toda esta gente como uma família mas mesmo assim a diferença existe. O que é que se pode contar sobre um elefante que está a fazer uma viagem? O elefante é levado, não vai pelo seu pé. Não vai porque não saberia aonde ir e se soubesse onde ir não saberia como lá chegar. Então, dá isto para uma história a que eu chamo A Viagem do Elefante? Eu creio que sim, que dá. E a dificuldade está em a tornar plausível."

em "Uma longa viagem com José Saramago"
Porto Editora, página 289

E esta alusão de Saramago às histórias que constrói nos seus romances, abriu espaço para que João Céu e Silva recuperasse um "momento" de uma entrevista concedida a Katherine Vaz (Bomb Magazine - 23/06/2001). O amor como elemento não planeado ou pré-existente, mas que acontece decorrente da «variável constante da humanidade». Por outras palavras, acontece porque tem que acontecer e porque as personagens assim o obrigam. Em "A Viagem do Elefante", não acontece.

(Capa da revista Bom Magazine)

Entervista pode ser consultada e lida
em, http://bombmagazine.org/article/3565/jos-saramago 23/06/2001


Katherine Vaz You once said that after winning the Nobel, all the traveling and appearances made you feel like Miss America. Is that still true?
José Saramago No, no, I’d never be Miss America. I said it was as if I was Miss Universe. Because America is not yet the universe!

KV I’d like to address your passion for writing about people who are often invisible or unrecognized. You’ve mentioned that even when Michelangelo and the Sistine Chapel are discussed, the name of the assistant who ground the paints is left out. In Baltasar and Blimunda, when you talk about the building of the gigantic monastery in Mafra, you call the reader’s attention to the silversmiths, lace-makers, clock-makers, carpenters. I think of them as the people whose blood is left hiding in the stones.
JS My intention is to not leave people who come into this world in the dark. Obviously we can’t give voice to everyone, but our culture demands that we speak only of things of obvious importance, or of those who leave the completed work of art. But often–I could say always–whether it’s a painter, writer, sculptor or musician, there are others who leave traces within any given work. You bring up Michelangelo; there had to be an apprentice who was moving the cans of paint or producing landscapes off in the atelier. Then the master came in, painted, retouched his assistant’s work, and signed his name.

KV You’ve emphasized a certain obligation toward those people and their names. For me, the most striking illustration is in Baltasar and Blimunda, when the men transport the enormous stone required to make the door of the monastery. The action continues for many pages, forcing us to be there with the men as they struggle to get the stone slab past trees and around corners. Some oxen are killed by it, and Francisco Marques’s legs are severed. This happens while he’s thinking of how much he wants to go home and make love with his wife. We’re asked to see his life and blood and desire to love literally sacrificed for King Dom João V’s arrogant request to have this door.
JS Yes, yes, Francisco Marques is fictional, he never actually existed, but I mean for him to demonstrate that complete death is the absence of remembrance. Most people will never have any record left except a bureaucratic one. What do you call it here? A “vital statistic,” nothing else. In Baltasar and Blimunda, when I present Francisco Marques or list those twenty or so names by letter–A, B, C, D, to Z–I want those fictional characters to represent all those human beings who never get mentioned. My point is to stop them from being ignored people. I write them down on the page because that’s my best means of conveying this notion; I write books. Francisco and the rest of them are there to shed light, to tear away the remaining shadow that covers the majority of humanity.

KV Where does it come from, your need to do this?
JS If I’d been born into a rich family and had had an easy life, this probably would not be an important issue for me. But since I come from poor people, a family from the working class, I consider this type of justice to be necessary.

KV I’m reminded of your speech yesterday, when you mentioned your brother who died at the age of four. You called him the co-author of All the Names. Can you explain that a little more?
JS I can’t pinpoint what stage of creation I was in, but I decided to write an autobiography–an unusual one that would cover only my first 14 years. But addressing my childhood was going to be difficult, because I had to include my brother, who was two years older and died when I was only two. I did not know the exact date of his death. I had some information about his dying of bronco-pneumonia in 1924, four or five months after my parents moved to Lisbon, and I set out to put together the facts. I requested his birth certificate from our native town (Azinhaga, in the central Ribatejo section of Portugal), and what I received went against everything I had known: it showed that my brother was alive. No date of death was written down.

I then asked for a death certificate from the hospital (Instituto Câmara Pestana) where my parents had told me that he died, and the answer came back that he’d never been there. No trace existed. But they did send me some papers showing that I myself had been a patient for four days! So I had my temperature charts. If it mattered to a biographer, he could say that on such and such a day, José Saramago ran a temperature of 38.5. At least the hospital wasn’t saying that I had died there.

After researching the eight cemeteries of Lisbon and the archives in Lisbon’s City Hall, the truth fell into place: the date of death (December 22, 1924) and the date of burial (two days later in the Cemetery of Benfica). And in fact he really had died in that hospital. But those original, central records had blank spaces. My brother was born in 1920 and today would be 80 years old. If I keep quiet, if I fail to inform the Department of Vital Statistics about their error, then two hundred years from now, some scrupulous employee will say, “Somewhere out there is an old man named Francisco who’s 240 years old! It must be a miracle!”

Tomorrow, if I request another copy of my brother’s birth certificate, it will still be issued missing the date of death. I think I’ll leave him the way he is–alive.

KV So your brother is a presence in All the Names? The main character, José, a clerical worker, becomes obsessed with tracing the life of the nameless woman whose record falls by accident into his hands.
JS My brother’s story didn’t make it into my book, but it had a direct connection to the one I told, about people’s names and the atmosphere of a central registry and the dead’s place among the living. That’s why I consider him a coauthor.

KV José eventually becomes consumed with finding out why this unknown woman committed suicide. He breaks in to spend the night at the school that she attended, where she later taught math; he speaks to her parents, her neighbors. He goes to her former residence. But no one can help him get to her essential mystery. Likewise, when the dead poet Fernando Pessoa visits his heteronym, Ricardo Reis, whom you present as a living character in The Year of the Death of Ricardo Reis, he tells him that he can’t really hope to know anything about Lídia and Marcenda. Pessoa remarks, “…the wall that separates the living from one another is no less opaque than the wall that separates the living from the dead.”
JS The “real dead” would never die if we kept on thinking about them. Maybe it comes down to this: what is it that we fear about the dead? Because what we derive from them are the same things we get from the living; we have memory connected to them, we have their work, we have whatever they left behind. If we stopped worrying about the fact that the dead are dead, we could defeat many of the oppositions we construct between the dead and the living, and we could continue life through memory. There’s memory of the past–meaning all that existed, and there’s memory of the future–the things that people have done or not done that end up leaving a mark on the future. However you want to describe it, we have a continuing relationship with past events, with people, beyond divisions of life and death.

Nowadays we’re preoccupied with not recalling the past, with declaring that memory has no importance. The new generations are not interested in what happened to their parents or grandparents: only what matters today and perhaps tomorrow. This is a disease, a mortal illness. People who have amputated themselves from their own memories become a species of zombies. The irony is that we’ve developed this consciousness–or lack thereof–according to our country, attitudes, and language–all things that could only exist through memory! A plant has no memory. We should expect better from sentient beings.

KV In terms of memory and the naming of names, I’m wondering if you’ve seen the Vietnam Memorial in Washington, D.C. There’s a scar in the earth, and–
JS That’s pure rhetoric! Pure rhetoric. You can fill the earth with evocative monuments, and for the first few times people see them they make associations; what they observe induces a feeling. But as time passes, our eyes glance indifferently over these things. What remains is the aesthetic value of the piece, but the point is not to have people think that something is a beautiful and evocative artwork; the point is to continue contemplation, toward what’s fundamental. The only authentic place to store memory is in people’s heads.

I don’t wish to be offensive, but it’s a fact that the United States has a particular talent in promoting and feeding historical memories that end up becoming quite superficial, rather than developing a committed, authentic conscience. Maybe I’m wrong. But monuments tend to be in designated areas, apart from where people actually reside, so it becomes easy for us to set any deeper meanings aside from contact with our daily lives, from affecting us in the places we occupy.

I’m also quite skeptical about flags or military music; these are designed to mobilize people. The first flag, in ancient Egypt–what we might consider the precursor of all the world’s flags–was the uterus of a cow hung on top of a stick and elevated. We’re supposed to give a cry of emotion and raise our arms against the enemy–because of that? In my opinion, if people were to look at flags from that perspective, much of the solemnity and patriotic rhetoric would fade out.

KV Can we agree that the world falls apart in small ways, but also in overwhelming, large ones? That’s the sense I get from your descriptions, that everything can come loose from its moorings without warning–the entire Iberian Peninsula in The Stone Raft. Gangs roam in Blindness and The Gospel According to Jesus Christ. In The Year of the Death of Ricardo Reis, the title character searches for his love, Marcenda, who might be at the shrine of Fátima because of her paralyzed left arm, but instead of going there, he wanders alone through a crowd beseeching God for a miracle. Then he’s enveloped in the madness of fascist Lisbon. In all these scenes of tumult the backdrop of the world often becomes like a rendition of La Guernica.
JS In fiction, the narrative is obviously about individuals, but to do that effectively, to convey the personal situation of one, two, or three people, the author must understand that everything is set in the context of history. We are “subjected,” the subjects of history. One can’t forget what is behind us and what exists now in a world that is fragmented, chaotic, corrupted, and always moving toward the unknown. We appear on this planet, we try to give our actions meaning, but when the sun finally disappears there won’t be anyone left to talk about it. The Divine Comedy and The Brothers Karamazov will be over. Don Quixote will be over, Beethoven’s Ninth Symphony will be over, as well as the Seventh and the Sixth and all the others, and therefore we will vanish. Humanity will become an insignificant episode in the universe.

KV In Fernando Pessoa’s “Tobacco Shop,” the narrator reflects that one day both he and the shop’s owner will die. The poet will leave his verses and the tobacconist his signboards, but both will perish–it’s only a matter of time–and so will the street with the shop, the language of the verses, and eventually the planet.
JS Let me add to that perspective: it doesn’t imply that there’s any orderly progression to the end of things. I don’t believe that God exists, but let’s suppose for the sake of argument that He does. How can we reasonably think that He devised a universe like this one, one that makes no sense? If He created all those distances, those billions of light-years, why are we confined to this tiny spot? There must have been a time when we populated the whole universe, but because we behaved so badly God cleared us out and put us here; the rest of His creation surpassed us. Pessoa asserts that time will end everything, but I think we ourselves will help time along. I suspect that if there is a God, He is waiting for us to put a final end to our existence. We certainly keep trying to do just that.

KV But haven’t you also implied that we can create dignity and compassion? That we can reclaim history if we respond to what passes as the official word with a “no”? Then we’ve set up an obligation to find another answer, a “yes.” Isn’t there something redemptive or creative there?
JS No, compassion is what would save us, reclaiming history would help us–so why don’t we see much of it? Let me explain myself. Most of us know already that so-called official history is a fiction. Historians write about Portugal, or Spain, or the United States of America, or wherever, by collecting some facts and a certain number of characters–and so they leave out all the rest. Deciding to write a conclusive book about “The Past” is inconceivable, because by definition it’s impossible to include everything. What if I wanted to write a book called Pilar del Rio [Saramago’s wife]? Or your “complete” story? Or mine, or anyone else’s? We pick certain facts, we try to be coherent. And then someone comes along and claims that we’ve written the truth and it gets put on television. Nothing should ever be considered so correct that we could not also reply with a “no” or “perhaps.”

But giving such a radical “no” to every answer would be considered anarchic; it would suggest that everything should be questioned. “No” creates a revolution. Raimundo (The History of the Siege of Lisbon) is curious, he’s doubtful, and he changes the entire history of a city, the lie about it, by inserting one true negative word. The reality is that a “no” often, inevitably, undergoes the process of becoming the norm. And it becomes necessary to fight the subsequent “yes” with another “no.” This isn’t destruction for the sake of destruction; it’s constructive, ongoing discourse. For instance, we’re aware that power can corrupt, that a lack of ethics can overtake the revolutionary who overthrew a power that very much needed a “no” applied to it. Today’s world, unfortunately, is one big “yes,” a self-centered “yes,” the “yes” is everything. There are very few people in today’s world who continue to bring forward the “no.”

KV What role, then, does memory serve in recalling history? In One Hundred Years of Solitude, the disease of forgetfulness infects Macondo. There is a strong undercurrent later about the need to remember in order to defeat forgotten episodes of history. In this case, that means keeping alive the memory of the massacre that occurred during a protest against the United Fruit Company. History may be inexact, but aren’t there things that exist as indisputably true, without equivocation?
JS Well, sure, yes, but the truth there wasn’t recorded, the official local history omitted the incident, that was the point; it was left to the memories of the people to say no, to provide the truth.

There cannot be any writing without memory. Writers are constantly nourished by what they remember–in fact, everyone is. Memory is our deepest actual language. It’s our storehouse of riches, our gold mine or diamond mine, and we need to keep it open, to keep in mind the importance of childhood events that will somehow condition our life and character as adults. What would happen to someone who forgot those experiences? If we have no memory, we are nobody, and nothing is possible.

KV You once said, “Perhaps it is the language that chooses the writers it needs, making use of them so that each might express a tiny part of what it is.”
JS No, I never said that!

KV Okay, okay, forgive me. The narrator of The Year of the Death of Ricardo Reis says it. Do you agree with that yourself? Did the Portuguese language choose you? What part of it have you expressed?
JS This is a common situation for writers–I’m not sure I can make sense of those words. We write things, we evaluate them later as good or terrible, we rethink. Maybe we should keep this as a metaphor instead of a rigorous belief: language needed Luís de Camões, Camilo Castelo Branco, Fernando Pessoa, and because it went looking for them, it found them. Or maybe we can say that we don’t see language creating the writer during the precise, living moment of writing, but when we observe the history of literature, our perspective enables us to observe language in its growing expressiveness.

KV Shall we finish by addressing the practical matters concerning those precise, living moments of writing? How do you manage to write while you travel?
JS When I have something to say, I have to create the conditions for writing it, and with the life I am leading, that’s not always easy. I’ve traveled lately to Italy and Germany, to Timor and America, and Pilar and I recently spent a month in Lisbon. But even with all the traveling as a result of the prize in 1998, I do manage to write, although things might take me a little longer. I only write at home. I can’t write in hotels, or at a friend’s house–totally impossible! I’m just incapable of it, nothing comes out, and that’s that. But when a work is outlined, when I have the idea, it becomes an obsession. I wanted La Caverna to be published this year (in Portugal), and fortunately that will happen. My better half would say that my focus and concentration make this possible.

KV Do you still produce two pages faithfully every day that you’re working?
JS For La Caverna, I was writing four pages a day. It’s a matter of mental organization. It may not seem like a lot, but–

KV Four pages a day every day is a lot.
JS It helps that I start out with a fairly clear idea of what I’m going to say, of certain situations. I have a relationship with my writing that is probably uncommon, which I compare to the growth of a tree that’s been planted and grows and grows in a way that seems simultaneously expected and unexpected. It’s expected, because if we’ve just planted an olive tree, we know what the result will be; olive trees are easy to recognize. But there’s a large degree of unpredictability, in that no two olive trees are alike. Similarly, a book takes root and grows with its own logic.

I don’t write 40 pages and go back to transform them into 80; I don’t go back and rewrite 120 and transform them into 200.

I don’t begin with a detailed outline. To predetermine a story too much is to oblige it to exist before it comes into existence. No, all my books begin as books and branch out by being written, and then they come to an end.

KV Without revisions?
JS I perform a final revision, editing out unpleasant repetitions or errors. I go through everything carefully. Now, what I want to say is this: my method is not haphazard. My books give the reader an impression of solidity, of a real structure. But this is not the result of pulling out a rotten passage, calling it weak, and strengthening it. It’s because the book began as itself and I guided it to grow solidly. As the author, I retain control, of course. Sometimes I say that writing a novel is the same as constructing a chair: a person must be able to sit in it, to be balanced on it. If I can produce a great chair, even better. But above all I have to make sure that it has four stable feet. A chair with three feet promises a fatal fall. No three-footed chair will last.

Writing is my job. It’s the work I do, what I build. I don’t believe in inspiration. I don’t even know what that is. What I know is that I have to decide to sit down at my desk, and inspiration isn’t going to push me there. The first condition for writing is sitting–then writing.

KV There’s a great deal of talk about your novels being books with ideas, but I find that very often–despite your claim as a pessimist–they contain beautiful stories about love and compassion.
JS It never happens that when I’m writing a new book I preplan a love story for it. But in the process of narrating something, in dealing with the circumstances, love enters in as a constant human variable. So it’s possible that in the middle of a story love will spring up, but I don’t specifically intend that. It’s different in every book.

KV In The History of the Siege of Lisbon, Raimundo’s love story grows out of his writing a “no” in a book he’s proofreading. He reverses the history of Lisbon, and suddenly his lonely personal life is turned around.
JS And he meets Maria Sara, who finds that “no” so attractive. Sometimes absolute love occurs; for instance, for Baltasar and Blimunda, and that’s a curious case. When I got to the end of writing that novel, I realized that I had composed a love story without any words of love: no “light of my eyes,” “I love you,” “star of my life”–those sorts of things. A reader might imagine that these omissions were deliberate. It wasn’t like that! I was surprised at this myself. And yet readers have found it a moving, passionate love story. It would have interfered with the book and with the integrity of the characters to have gone back and added those plain spoken words as an afterthought.

At this point in our interview, Saramago’s wife Pilar moved to the couch to sit next to him. He reached out to put his arm around her as she lowered her head to his shoulder.]

My books turn out to be unusual in matters of love. In All the Names, Senhor José has the awkward situation of being in love with someone he will never meet. Even in Blindness, in that terrible environment, we have the Doctor and his wife, and the Young Woman with the Dark Glasses and the Old Man. These are love stories out of the ordinary, but I think it’s for a reason. The love is predetermined by the character of the women who enter the picture. The women who come into my stories–it’s all thanks to them. They’re the ones, these women with their capacities and affection, who make everything extraordinary.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Revista Blimunda - Edição digital para descarregar ... recuperamos o #8 Janeiro de 2013


(Capa da edição #8 - Janeiro de 2013)

Pode ser consultada, descarregada gratuitamente ou lida directamente

Sinopse
"O primeiro número da Blimunda neste ano de 2013 centra-se nos universos da BD e do jornalismo, meios aparentemente distantes mas cada vez mais cruzados. Centrando-se em obras de Joe Sacco, Aleksandar Zograf, Jean Philippe Stassen ou Ricardo Cabral, Sara Figueiredo Costa procura apontar caminhos para novas expressões de realidades mais próximas ou mais distantes.

Na secção infantil e juvenil, Andreia Brites recorda Manuel António Pina e fala do tempo e de gatos, no mês que é o deles, visitando a coleção Gato Letrado, da editora brasileira Pulo do Gato, e quatro títulos da portuguesa Planeta Tangerina. A acompanhar os textos, as fotografias de Manuel António Pina e dos seus gatos, de autoria de Luísa Ferreira.

A terminar, a Saramaguiana volta atrás trinta anos para celebrar o trabalho do encenador Joaquim Benite, desaparecido no último mês do ano que há pouco terminou. É o “construtor de teatro”, o construtor de vida que aqui se homenageia, recordando as suas encenações de textos de José Saramago. Talvez a melhor forma de mostrar que o seu trabalho, o seu legado continua vivo na cidade de Almada, em todos os palcos e, também, nas páginas da Blimunda.

Por fim, um agradecimento a Luísa Ferreira e à Companhia de Teatro de Almada, pela disponibilidade e amizade."

Citador #26 ... cegos da razão

Citador #26
Entrevista ao JL (25/10/1995)
Citação baseada na explicação da génese da obra



"Estamos cada vez mais cegos, porque cada vez menos queremos ver.
No fundo, o que este livro quer dizer é, precisamente, que todos nós somos cegos da Razão."

(baseado na obra "Ensaio sobre a Cegueira)