Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sábado, 23 de maio de 2015

Aprsentação da peça de teatro "A Maior Flor e Outras Histórias Segundo José" - dia 23/05 na Fundação José Saramago



Informação via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/2305-apresentacao-de-a-maior-flor-e-outras-historias-segundo-jose/

"Mais sobre a obra:
Inspirado na obra de José Saramago e tendo como base de trabalho dramatúrgico o seu livro A Maior Flor do Mundo, o Teatro Art´Imagem apresenta uma peça de teatro para ser vista por adultos e crianças em conjunto. Uma boa oportunidade para homenagear e divulgar o autor e a sua obra, na esteira do Teatro Art´Imagem cujo lema tem sido apresentar os grandes autores e textos da literatura universal, transformando-os em teatro.

Acrescentando outros textos que vão desde As Pequenas Memórias aos contos Deste Mundo e do Outro, dos Cadernos de Lanzarote aos Poemas Possíveis e ao Discurso de aceitação do Prémio Nobel, ao aparecimento de personagens literárias inesquecíveis do universo do autor, como o par Blimunda e Baltazar, os Sete Sóis e Sete Luas, do Memorial do Convento, a Mulher do Médico e o Cão das Lágrimas, de O Ensaio Sobre a Cegueira, até às criaturas reais, mais ou menos fantasiadas, que povoaram a sua infância, como os seus avós Jerónimo e Josefa e outros familiares, bem como as recordações do que era viver, trabalhar e brincar na aldeia de Azinhaga do Ribatejo, ao despertar dos primeiros amores. Dois actores, uma mulher e um homem, interpretam e representam em palco e na plateia, as palavras e acções escritas e descritas pelo autor, ganhando estas outra dimensão artística de comunicação e partilha. Há corpos em presença, olhos que se cruzam, pessoas de corpo presente, membros que se tocam, vozes que se ouvem, respirações e tempos comuns entre espectadores e artistas, acção dramática, movimento e vida em misturando-se teatro e literatura, palavras e actos, deambulação e realidade, sentimentos, medos e perguntas, recordações e memórias. Em palco toda a humanidade que Saramago descreve e defende nos seus romances e na sua própria vida, à procura de um mundo diferente, melhor."



Aqui via Teatro Art'Imagem, aqui 

"A MAIOR FLOR E OUTRAS HISTÓRIAS SEGUNDO JOSÉ"

«Havia uma aldeia e um menino (ou uma menina?).
Havia também os avós com quem a menina (menino?) vivia, mais os vizinhos.
Um dia sai o menino (menina?) pelos fundos do quintal e toca a andar, toca a andar.
Caminhou, caminhou, correu, correu, parou, parou...
Até que chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinha ( sozinho?).
– Vou ou não vou?
Foi!
À descoberta de si, à descoberta do mundo.»

Inspirado na obra de José Saramago e tendo como base de trabalho dramatúrgico o seu livro para crianças “A Maior Flor do Mundo”, o Teatro Art´Imagem apresenta uma peça de teatro para ser vista por adultos e crianças em conjunto. Uma boa oportunidade para homenagear e divulgar o autor e a sua obra, na esteira do Teatro Art´Imagem cujo lema tem sido apresentar os grandes autores e textos da literatura universal, transformando-os em teatro. 
Acrescentando outros textos que vão desde “Pequenas Memórias” aos contos “Deste Mundo e do Outro”, dos “Cadernos de Lanzarote” aos “Poemas Possíveis” e ao Discurso de aceitação do Prémio Nobel, ao aparecimento de personagens literárias inesquecíveis do universo do autor, como o par Blimunda e Baltazar, os Sete Sóis e Sete Luas, do “Memorial do Convento”, a Mulher do Médico e o Cão das Lágrimas, de “O Ensaio Sobre a Cegueira”, até às criaturas reais, mais ou menos fantasiadas, que povoaram a sua infância, como os seus avós Jerónimo e Josefa e outros familiares, bem como as recordações do que era viver, trabalhar e brincar na aldeia de Azinhaga do Ribatejo, ao despertar dos primeiros amor. Dois actores, uma mulher e um homem, interpretam e representam em palco e na plateia, as palavras e acções escritas e descritas pelo autor, ganhando estas outra dimensão artística de comunicação e partilha. Há corpos em presença, olhos que se cruzam, pessoas de corpo presente, membros que se tocam, vozes que se ouvem, respirações e tempos comuns entre espectadores e artistas, acção dramática, movimento e vida em misturando-se teatro e literatura, palavras e actos, deambulação e realidade, sentimentos, medos e perguntas, recordações e memórias. Em palco toda a humanidade que Saramago descreve e defende nos seus romances e na sua própria vida, à procura de um mundo diferente, melhor.

Ficha artística e técnica

» Inspirado na Obra de José Saramago 
» Dramaturgia e encenação José Leitão 
» Interpretação Daniela Pêgo e Flávio Hamilton
» Pintura Agostinho Santos
» Música Alfredo Teixeira
» Cenário Fátima Maio, José Leitão e José Lopes 
» Figurinos e adereços Fátima Maio
» Apoio ao movimento Renato Vieira e Ana Lígia
» Desenho de Luz Leunam Ordep
» Operação Técnica Sandra Sousa

» Produção Sofia Leal

Classificação Etária: M/6
Duração Aproximada: 50m

104ª Criação do Teatro Art'Imagem - 2014

terça-feira, 19 de maio de 2015

Blimunda #36 - Maio de 2015 - Revista Digital para descarregar gratuitamente



Pode ser lida e descarregada, via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/blimunda-36-maio-2015/

Sinopse
"O número 36 da revista Blimunda arranca com uma revelação. Em Junho realizar-se-á no México um encontro entre académicos, intelectuais e pensadores de várias nacionalidades para colocar em marcha um desafio lançado por José Saramago: a criação de uma Carta dos Deveres Humanos. É sobre essa iniciativa que o editorial da revista se debruça.

Mais adiante, a Blimunda desembarca em Matosinhos para acompanhar o LeV – Festival Literatura em Viagem, de lá trazendo histórias contadas por Sara Figueiredo Costa e imagens de Pedro Loureiro.

Na secção cinema, o Capitão Falcão, “o primeiro super-herói português”, entra na mira de João Monteiro, que coloca o irreverente filme que acaba de chegar aos cinemas de Portugal em diálogo com um outro filme, A Revolução de Maio, de António Lopes Ribeiro, de 1937.

Colaboram nesta edição da revista o jornalista Fernando Alves, com um texto sobre o livro que narra a digressão do elefante Salomão e do Trigo Limpo Teatro ACERT, de Tondela, por terras de Dão Lafões, e também a professora Ana Paula Arnaut, da Universidade de Coimbra, que na secção Saramaguiana analisa o livro Diálogos com José Saramago, de Carlos Reis, agora reeditado.

Para a secção Infantil e Juvenil, Andreia Brites preparou uma seleção de novidades literárias que serão lançadas no final do mês na Feira do Livro de Lisboa.
Boas leituras, e até Junho, mês do terceiro aniversário da Blimunda e dos cinco anos da morte de José Saramago, a quem dedicaremos grande parte da próxima edição desta nossa e vossa Blimunda."

domingo, 17 de maio de 2015

«Todos os Nomes» de José Saramago ... do Sr. José e o início




(...) «O verbete é de uma mulher de trinta e seis anos, nascida naquela mesma cidade, e dele constam dois averbamentos, um de casamento, outro de divórcio. Como este verbete há de certeza centenas no ficheiro, senão milhares, portanto não se compreende por que estará o Sr. José a olhar para ele com uma expressão tão estranha, que à primeira vista parece atenta, mas que é também vaga e inquieta, possivelmente é este o modo de olhar de quem, aos poucos, se desejo nem recusa, se vai desprendendo de algo e ainda não vê aonde poderá deitar a mão para tornar a segurar-se.» (...)

em "Todos os Nomes"
Caminho, página 37


domingo, 10 de maio de 2015

"O último tiro" publicado em "Rascunho jornal de literatura do Brasil" sobre a obra "Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas"

"O último tiro" de Ovídio Poli Junior

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://rascunho.gazetadopovo.com.br/o-ultimo-tiro/


"Em seu inacabado e póstumo romance, 
José Saramago combate o universo sombrio da indústria armamentista"

"O silêncio é a mais poderosa das armas, parece insinuar o narrador criado por José Saramago a propósito de Felícia, ativista com ideais pacifistas e ex-mulher de Artur Paz Semedo, funcionário de uma indústria de armas. Esse é o núcleo em torno do qual o autor constrói a última narrativa que nos deixou — Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas.
Artur Paz Semedo é um homem comum, cumpridor de suas obrigações na chefia do setor de contabilidade de armas leves e munições da Belona S. A. Igual a meu pai, que foi contador em uma pequena indústria têxtil, ele passa os dias encenando a rotina universal da profissão: a organização meticulosa, o cálculo das faturas, a precisão dos apontamentos, o rame-rame dos papéis, a regularidade dos registros, a segurança fria e confortável proporcionada pelos números.
O protagonista é uma espécie de Bartleby, o escrivão de Herman Melville, só que possuidor de alguma determinação e iniciativa. Não questiona os seus superiores e tem certo orgulho do renome da empresa e de trabalhar em seu ofício. É discretamente ambicioso e sonha em chefiar o setor de armamentos pesados da empresa:
Os efeitos psicológicos desta entranhada e não satisfeita ambição intensificam-se até à ansiedade nas ocasiões em que a administração da fábrica apresenta novos modelos e leva os empregados a visitar o campo de provas, herança de uma época em que o alcance das armas era muito menor e agora impraticável para qualquer exercício de tiro. Contemplar aquelas reluzentes peças de artilharia de variados calibres, aqueles canhões antiaéreos, aquelas metralhadoras pesadas, aqueles morteiros de goela aberta para o céu, aqueles torpedos, aquelas cargas de profundidade, aquelas lançadeiras de mísseis (…), era o maior prazer que a vida lhe podia oferecer.
Em seu último romance, inacabado e publicado postumamente, Saramago nos leva a refletir sobre os descaminhos do mundo moderno escarafunchando o universo sombrio da indústria armamentista. Mais que isso, nos leva a refletir sobre a microfísica do poder, o dever de consciência escondido sob a capa da indiferença e do conformismo burocrático.
O título da obra, extraído de uma tragicomédia de Gil Vicente (Exortação da guerra), soa como uma espécie de reverberação a demarcar a insistência humana na destruição sempre renovada dos semelhantes e na construção de instrumentos letais: alabardas, alabardas, espingardas, espingardas. Soa também de forma irônica, pois sabemos que nas guerras modernas não se matam homens como antigamente, os mísseis e obuses tornando a morte cada vez mais distante e impessoal, quase científica em sua pretensão cirúrgica.
Indústria da morte
Nos três capítulos que Saramago nos deixou, não há cenas de combate e a guerra não aparece em sua face mais cruel. O que o escritor quer mostrar são os bastidores dessa indústria da morte, ou, mais precisamente, a responsabilidade humana no interior desse universo: o administrador que herdou o empreendimento familiar, a secretária que de forma calculada estende o tempo de espera dos que procuram a direção da empresa, os funcionários do arquivo vivendo como toupeiras nos subterrâneos da Belona S. A.
Mais que isso, Saramago mostra como os personagens se desvencilham dos dramas de consciência que o seu trabalho poderia desencadear. A naturalidade desse processo é aterradora: “Nada que outra pessoa não pudesse fazer”, diz Artur Paz Semedo ao administrador. É nesse terreno insípido que nasce a indiferença e se assentam os pilares sobre os quais o nazismo, o fascismo, o stalinismo e as ditaduras de toda espécie se sustentam.
Contra esse silêncio se insurge Saramago em seu derradeiro escrito, a palavra e o pensamento fazendo frente à barbárie perpetrada pelas guerras. A certa altura da narrativa, incomodado ao assistir a um filme dos anos 30 e saber que operários de Milão haviam sido fuzilados por terem sabotado obuses, Artur Paz Semedo é autorizado a investigar os arquivos da Belona S. A. relativos ao período da guerra civil espanhola.
Vale destacar a forma pela qual o narrador retrata os subterrâneos em que se localiza o arquivo da fábrica onde está enterrado o passado ignoto da empresa. É magistral a caracterização dos personagens que vivem na cave: Arsénio e Sesinando, chefe e assistente, passam os dias em meio a prateleiras carregadas de caixas de papelão cultivando uma relação de distanciamento respeitoso, feito de pequenos gestos e códigos, vicejando entre os dois uma fina e precisa hierarquia, sempre presente, minúscula, indelével. Saramago parece pagar um tributo a Kafka nesse capítulo, compondo um cenário a um só tempo sufocante e respeitoso não bastasse o jogo onomástico contido na designação do chefe da seção (arsênio | arsenal).
Há no livro algumas anotações de trabalho feitas por Saramago durante a escritura da narrativa, que indicam possíveis caminhos para a trama. Como se trata de obra inconclusa, ficamos a nos perguntar se o personagem ficará ou não angustiado ao questionar a finalidade dos artefatos produzidos pela fábrica, se sofrerá consequências ao tomar contato com alguma informação mais contundente que comprometa a empresa ou seus dirigentes ou se vai aquietar-se diante daquilo que porventura descobrir.
O livro vem acompanhado de três ensaios que abordam aspectos da narrativa interrompida e da obra de Saramago.
O primeiro ensaio, do escritor espanhol Fernando Gómez Aguilera, explora a habilidade do autor português em refletir sobre a banalização do mal.
O escritor e jornalista italiano Roberto Saviano (autor de Gomorra) explora correlações entre a encruzilhada em que parece meter-se o pacato personagem de Saramago e casos de perseguição a jornalistas em várias partes do mundo por investigarem o tráfico de drogas e o comércio de armas.
Já o antropólogo e cientista político brasileiro Luiz Eduardo Soares mostra como a interrupção da redação da narrativa pela morte do autor instaura uma espécie de jogo de espelhos durante a leitura:
Eis o autor diante de nós, imprescindível, evocando, involuntariamente, sua falta por meio do narrador que se esquiva, mas acena e promete, e de novo põe-se a retirar-se, estendendo ainda um pouco o fio de voz, numa emocionante e hipnótica coreografia em espiral, até o abismo.
As ilustrações são do escritor Günter Graas e foram extraídas de uma obra publicada em 2013 na Alemanha — os traços negros e cinzas instauram um diálogo intenso com a narrativa, a paisagem sombria e desolada devastada pela guerra.
Ao que parece as gravuras do romancista alemão não foram feitas especialmente para o livro, mas isso não tem importância: poderiam muito bem retratar o morticínio atual em que o mundo se lança na África, no Oriente Médio e em outras latitudes."

"Ovídio Poli Junior, é escritor e doutor em literatura brasileira pela USP. Ministra oficinas de criação literária e mora em Paraty (RJ). É curador da Off Flip das Letras e editor do Selo Off Flip."

Manifesto "Não ao Desemprego" publicado no livro/blog "Caderno" (10 de Novembro de 2009)

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/61468.html

"Não ao Desemprego"
"Diante das manifestações que se estão preparando em toda a Europa, de protesto contra o desemprego, escrevi, a pedido de um grupo de sindicalistas, o texto que a seguir se reproduz.
Não ao Desemprego
A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?Podemos deixar a saída da crise nas mãos dos peritos? Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam? Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados? Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas? Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas? E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cobertas por contratos blindados?O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos fóruns públicos e nas consciências. Não é exagero. Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações massivas, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita de os governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimento, quer dizer, o seu trabalho.Dizer “Não ao Desemprego” é um dever ético, um imperativo moral. Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são os empregados os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.Dizer “Não ao Desemprego” é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas. Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua. E sabemos que temos voz para usá-la. Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto. Eles não sabem tudo. Equivocaram-se. Enganaram-nos. Não toleremos ser suas vítimas. 
José Saramago
a 10 de Novembro de 2009

quinta-feira, 7 de maio de 2015

"Homem novo" post do blog/livro "Caderno"

Faz hoje 6 anos que José Saramago, colocou na roda livre da internet este post, intitulado "Homem Novo". (no livro "O Caderno 2" e no blog "Caderno")
6 anos depois, não sei se a esperança num homem socialmente pacífico e mais evoluído, não seja mais do que uma urgente miragem. 
José Saramago, infelizmente, antecipava-se ao tempo que viria. O nosso futuro foi sempre o seu presente.
José Saramago com a resistente e activista Saharaui Aminatou Haidar
Na morte de Saramago deixou estas palavras 
“El mundo entero es pobre sin José Saramago”

Pode ser consultado e lido aqui 
em http://caderno.josesaramago.org/39728.html

"Homem novo"
"Culturalmente, é mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz. Ao longo da história, a Humanidade sempre foi levada a considerar a guerra como o meio mais eficaz de resolução de conflitos, e sempre os que governaram se serviram dos breves intervalos de paz para a preparação das guerras futuras. Mas foi sempre em nome da paz que todas as guerras foram declaradas. É sempre para que amanhã vivam pacificamente os filhos que hoje são sacrificados os pais…

Isto se diz, isto se escreve, isto se faz acreditar, por saber-se que o homem, ainda que historicamente educado para a guerra, transporta no seu espírito um permanente anseio de paz. Daí que ela seja usada muitas vezes como meio de chantagem moral por aqueles que querem a guerra: ninguém ousaria confessar que faz a guerra pela guerra, jura-se, sim, que se faz a guerra pela paz. Por isso todos os dias e em todas as partes do mundo continua a ser possível partirem homens para a guerra, continua a ser possível ir ela destruí-los nas suas próprias casas.

Falei de cultura. Porventura serei mais claro se falar de revolução cultural, embora saibamos que se trata de uma expressão desgastada, muitas vezes perdida em projectos que a desnaturaram, consumida em contradições, extraviada em aventuras que acabaram por servir interesses que lhe eram radicalmente contrários. No entanto, essas agitações nem sempre foram vãs. Abriram-se espaços, alargaram-se horizontes, ainda que me pareça que já é mais do que tempo de compreender e proclamar que a única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo." (Quinta-feira, 7 de Maio de 2009)

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A morte, a mulher morte, a mulher... "As Intermitências da Morte"


(...) «A morte, porém, esta que se fez mulher, tira da bolsa uns óculos escuros e com eles defende os seus olhos agora humanos dos perigos de um oftalmia mais do que provável em quem ainda terá de habituar-se às refulgências de uma manhã de verão.» (...) Página 190

(...) «Então, apareceu o violoncelista, Ao vê-la, estacou, chegou mesmo a esboçar um movimento de recuo, como se vista de perto, a mulher fosse outra cousa que mulher, algo de outra esfera, de outro mundo, da face oculta da lua.» (...) Página 199

(...) «Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta cor violeta. (...) A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras.» (...) Página 214

"As Intermitências da Morte"
Caminho, 1.ª edição

sábado, 2 de maio de 2015

Pedro Gonçalves - "A Pilar até ao último instante" - banda sonora do filme"José & Pilar"


Banda Sonora do filme "José e Pilar" interpretada pela orquestra do Algarve.

Pedro Gonçalves
"A Pilar até ao último instante"

Noiserv - "A Viagem do Elefante", da banda sonora do filme "José & Pilar"


Banda Sonora do filme "José e Pilar" interpretada pela orquestra do Algarve.

Noiserv
"A Viagem do Elefante"

"Carlos Paredes", evocação do mestre da guitarra portuguesa no livro/blog "O Caderno 2"

(Via YouTube, para ser assistido aqui, 

Evocação de José Saramago, a um dos maiores mestres da guitarra portuguesa.
Para ser lido aqui, 

"Carlos Paredes"
"Não o pensava antes, quando escutava a guitarra de Carlos Paredes, mas hoje, recordando-a, compreendo que aquela música era feita de alvoradas, canto de pássaros anunciando o sol. Ainda tivemos de esperar uma década antes que outra madrugada viesse abrir-se para a liberdade, mas o inesquecível tema de Verdes Anos, esse cantar de extática alegria que ao mesmo tempo se entretece em harpejos de uma surda e irreprimível melancolia, tornou-se para nós numa espécie de oração laica, um toque a reunir de esperanças e vontades. Já seria muito, mas ainda não era tudo. O resto que ainda faltava conhecer era o homem de dedos geniais, o homem que nos mostrava como podia ser belo e robusto o som de uma guitarra, e que era, a par de músico e intérprete excepcional, um exemplo extraordinário de simplicidade e grandeza de carácter. A Carlos Paredes não era preciso pedir que nos franqueasse as portas do seu coração. Estavam sempre abertas." (18 de Agosto de 2009)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Blog/Livro O Caderno 2 - "Poetas e Poesia" post de homenagem a Mario Benedetti, com Prólogo de José Saramago para a música de Tania Libertad "La Vida Ese Paréntesis"

Tania Libertad com Mario Benedetti

Pode ser consultado e lido, aqui em http://caderno.josesaramago.org/41965.html
"Poetas e poesia"
"Não será com todos nem será sempre, mas às vezes acontece o que estamos vendo nestes dias: que, por ter morrido um poeta aparecem, em todo o mundo, leitores de poesia que se declaram devotos de Mario Benedetti e que precisam de um poema que expresse o seu desconsolo e talvez também para recordar um passado em que a poesia teve lugar permanente, quando hoje é a economia que nos impede de dormir. Assim, vemos que de repente se estabelece um tráfico de poesia que deve ter deixado perplexos os medidores oficiais, porque de um continente a outro saltam mensagens estranhas, de factura original, linha curtas que parecem dizer mais do que à primeira vista se crê. Os decifradores de códigos não têm mãos a medir, há demasiados enigmas para decifrar, demasiados abraços e demasiada música acompanhando sentimentos que são demasiados: o mundo não poderia suportar muitos dias desta intensidade emocional, mas tão-pouco, sem a poesia que hoje se expressa, seríamos inteiramente humanos. E isto, em poucas linhas, é o que está sucedendo: morreu Mario Benedetti em Montevideo e o planeta tornou-se pequeno para albergar a emoção das pessoas. De súbito os livros abriram-se e começaram a expandir-se em versos, versos de despedida, versos de militância, versos de amor, as constantes da vida de Benedetti, junto à sua pátria, aos seus amigos, ao futebol e alguns boliches de trago largo e noites mais largas ainda.Morreu Benedetti, esse poeta que soube fazer-nos viver os nossos momentos mais íntimos e as nossas raivas menos ocultas. Se com os seus poemas saímos à rua – lado a lado somos muito mais que dois –, se lendo “Geografias”, por exemplo, aprendemos a amar um país pequeno e um continente grande, agora, segundo as cartas que chegam à Fundação, recuperaram-se momentos de amor que deram sentido a tempos passados, e quem sabe se presentes. Isso também o devemos a Benedetti, ao poeta que ao morrer fez de nós herdeiros da bagagem de uma vida fora do comum." (19 Maio de 2009)

* Prólogo de José Saramago
(La Vida Ese Paréntesis - Intro - Tania Libertad/Mario Benedetti)

"Tania y Mario: la libertad"*

"No es verdad que el mundo está todo descubierto. El mundo no es sólo la geografía con sus valles y montañas, sus ríos y sus lagos, sus planicies, los grandes mares, las ciudades y las calles, los desiertos que ven pasar el tiempo, el tiempo que nos ve pasar a todos. El mundo es también las voces humanas, ese milagro de la palabra que se repite todos los días, como un corona de sonidos viajando en el espacio. Muchas de esas voces cantan, algunas cantan verdaderamente. La primera vez que oí cantar a Tania Libertad tuve la revelación de las alturas de la emoción a que puede llevarnos una voz desnuda, sola delante del mundo, sin ningún instrumento que la acompañara. Tania cantaba a capella "La paloma" de Rafael Alberti, y cada nota acariciaba una cuerda de mi sensibilidad hasta el deslumbramiento.Ahora Tania Libertad canta a Mario Benedetti, ese gran poeta a quien tan bien le sentaría el nombre de Mario Libertad...Son dos voces humanas, profundamente humanas, que la música de la poesía y la poesía de la música han reunido. De él la palabras, de ella la voz.Oyéndolas estamos más cerca del mundo, más cerca de la libertad, más cerca de nosotros mismos."



Exposição Lanzarote "A Janela de Saramago" em Santo Tirso na Fábrica Santo Thyrso (8/5 a 16/6)


(Capa da obra de João Francisco Vilhena)


Para ser consultado aqui,
em http://www.jornaldoave.pt/index.php/santo-tirso/241-inauguracao-da-exposicao-lanzarote-a-janela-de-saramago

"Fábrica de Santo Thyrso acolhe exposição de fotografia até 16 de junho
A Câmara Municipal de Santo Tirso, inaugura na sexta-feira, dia 8 de maio, pelas 18h30, a exposição Lanzarote a Janela de Saramago, do fotógrafo João Francisco Vilhena. Patente na Fábrica de Santo Thyrso até dia 16 de junho, “Lanzarote a Janela de Saramago” é um diário/caderno de notas sobre o olhar sensorial e apaixonado do escritor, visto e filtrado pelo olhar de um fotógrafo que em 1998 esteve em Lanzarote para o retratar, e que 15 anos depois regressa para capturar novas imagens e sentir o que aquela terra, no meio do oceano, representou para o único prémio Nobel de Literatura da língua portuguesa.
Nos seus diários sobre Lanzarote, em entrevistas e conferências, Saramago declarou o seu amor pela ilha e confessou um imaginário regresso aos lugares da infância perdida. Em Lanzarote um novo homem revela-se e é revelado. “Quantas maneiras haverá de ser feliz? Começo a crer que as conheço a todas.” É essa atmosfera que João Francisco Vilhena retrata e apresenta no seu trabalho. A tranquilidade, refletida nas palavras, a influência da paisagem, a luz e as nuvens, o mar e o silêncio, a temperatura das cores, tudo isso influenciou a escrita e a vida de Saramago. Através das suas imagens João Vilhena procura retratar Lanzarote como uma janela aberta por Saramago. O lugar e sua paisagem como símbolo de uma nova fase; uma nova literatura, uma nova vida, um momento diferente de criação e do homem.
Esta é ainda uma exposição/instalação visual e sonora, composta por fotografias a preto e branco e sépia interagindo com frases de José Saramago. A exposição conta ainda com uma instalação sonora em que ouvimos a voz de José Saramago, integrada numa partitura musical criada para a exposição pelos Cindy Kat. 
A exposição tem entrada gratuita e pode ser vista de segunda a sexta-feira entre as 9h00 e as 18h00, e ao fim de semana entre as 14h00 e as 18h00.
JOÃO FRANCISCO VILHENA nasceu em Lisboa, em 1965.
Trabalhou como fotojornalista e colaborou com diversos jornais e revistas, em Portugal e no estrangeiro, tais como Ler, Elle, Máxima, Marie Claire, Oceanos, Visão, Grande Reportagem, Colóquio-Letras, Der Spiegel, o suplemento cultural DNA e Le Monde. Foi editor fotográfico do semanário O Independente e do semanário Sol, bem como diretor de arte da Tabacaria – revista literária da Casa Fernando Pessoa. Tem realizado diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. Assinou vários livros em coautoria. Tem participado como júri em prémios de fotografia." 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A pedra, seu interior e o caminho da descoberta ou lucidez... em Raul Brandão e José Saramago

(...) "A pedra depois de talhada é uma expressão. Entro na catedral. Silêncio e um cheirinho a floresta apodrecida. As lajes estão gastas de um lado pelos passos dos vivos, do outro pelo contacto dos mortos. Tudo aqui gira em torno da mesma ideia. A pedra esboroa-se, mas eu contemplo-a viva, com um povo de estátuas em cima, com um povo de mortos em baixo. Nos alicerces uma geração, outra geração, todos apodrecendo juntos na mesma terra misturada e revolvida. A parte exterior é maravilhosa, a parte subterrânea e mais maravilhosa ainda. É a única raiz que a conserva intacta." (...)
em "Húmus" de Raul Brandão, publicado em 1917

Existe aqui um paralelo, na interpretação e busca da lucidez. A "pedra", como elemento exterior, material e matéria, mas também, o que protege o "interior".

(...) "Com este livro terminou a estátua. A partir de "O Evangelho segundo Jesus Cristo", e isto sei-o agora que o tempo passou, começou outro período da minha vida de escritor, no qual desenvolvi novos trabalhos com novos horizontes literários, dispondo portanto de elementos de juízo suficientes para afirmar com plena convicção que houve uma mudança importante no meu ofício de escrever. Não falo da qualidade, falo de perspectiva. É como se desde o "Manual de Pintura e Caligrafia" até a "O Evangelho segundo Jesus Cristo", durante catorze anos, me tivesse dedicado a descrever uma estátua. O que é a estátua? A estátua é a superfície da pedra, o resultado de tirar pedra da pedra. Descrever a estátua, o rosto, o gesto, as roupagens, a figura, é descrever o exterior da pedra, e essa descrição, metaforicamente, é o que encontramos nos romances a que me referi até agora. Quando terminei "O Evangelho" ainda não sabia que até então tinha andado a descrever estátuas. Tive de entender o novo mundo que se me apresentava ao abandonar a superfície da pedra e passar para o seu interior, e isso aconteceu com "Ensaio sobre a Cegueira". Percebi, então, que alguma coisa tinha terminado na minha vida de escritor e que algo diferente estava a começar." (...)
em "A estátua e a pedra" de José Saramago
Fundação José Saramago, 2013
Páginas 33 e 34

"Leituras para o Verão" Post com sugestões de leitura no blog/livro (10/09/2009)

(do meu espólio, três obras mencionadas)

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/51374.html

"Leituras para o Verão"
"Com os primeiros calores, já se sabe, é fatal como o destino, jornais e revistas, e uma vez por outra alguma televisão de gostos excêntricos, vêm perguntar ao autor destas linhas que livros recomendaria ele para ler no Verão. Tenho-me furtado sempre a responder, porquanto considero a leitura actividade suficientemente importante para dever ocupar-nos durante todo o ano, este em que estamos e todos os que vierem. Um dia, perante a insistência de um jornalista teimoso que não me largava a porta, resolvi ladear a questão de uma vez por todas, definindo o que então chamei a minha “família de espírito”, na qual, escusado será dizer, faria figura de último dos primos. Não foi uma simples lista de nomes, cada um deles levava a sua pequena justificação para que melhor se entendesse a escolha dos parentes. Incluí nos Cadernos de Lanzarote a imagem final da “árvore genealógica” que me tinha atrevido a esboçar e repito-a aqui para ilustração dos curiosos. Em primeiro lugar vinha Camões porque, como escrevi em O Ano da Morte de Ricardo Reis, todos os caminhos portugueses a ele vão dar. Seguiam-se depois o Padre António Vieira, porque a língua portuguesa nunca foi mais bela que quando a escreveu esse jesuíta, Cervantes, porque sem o autor do Quixote a Península Ibérica seria uma casa sem telhado, Montaigne, porque não precisou de Freud para saber quem era, Voltaire, porque perdeu as ilusões sobre a humanidade e sobreviveu ao desgosto, Raul Brandão, porque não é necessário ser um génio para escrever um livro genial, o Húmus, Fernando Pessoa, porque a porta por onde se chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal (já tínhamos Camões, mas ainda nos faltava um Pessoa), Kafka, porque demonstrou que o homem é um coleóptero, Eça de Queiroz, porque ensinou a ironia aos portugueses, Jorge Luis Borges, porque inventou a literatura virtual, e, finalmente, Gogol, porque contemplou a vida humana e achou-a triste.Que tal? Permitam-me agora os leitores uma sugestão. Organizem também a sua lista, definam a “família de espírito” literária a que mais se sentem ligados. Será uma boa ocupação para uma tarde na praia ou no campo. Ou em casa, se o dinheiro não deu para férias este ano." 
(10 de Julho de 2009)

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Primeira pedra para a constituição da "Cátedra José Saramago" na Universidade Vigo (Galiza / Espanha)

(Reitor Salustiano Mato e Pilar del Río na assinatura do acordo)

Notícia via Fundação José Saramago, aqui

"Realizou-se hoje na Universidade de Vigo a assinatura de um protocolo de colaboração com a Fundação José Saramago, formalizando a constituição da Cátedra com o nome do Prémio Nobel português que arrancará em pleno nos próximos meses.
Fruto de uma proposta dos Professores Burghard Baltrusch e Carlos Nogueira, o convénio hoje assinado pelo reitor Salustiano Mato e por Pilar del Río dá início a um trabalho conjunto entre as duas entidades em torno dos múltiplos signficados do pensamento e da obra de José Saramago."

e através do site informativo da Universidade de Vigo ( http://www.uvigo.es/ )

"Universidade e Fundação José Saramago asinaron un primeiro convenio de colaboración
Primeira pedra para a constitución en Vigo da Cátedra José Saramago
Pilar del Río lembra en Vigo a “devoción” do Premio Nobel de Literatura por Galicia e os seus autores

A constitución en Vigo dunha Cátedra José Saramago é aínda un proxecto, pero a sinatura este luns dun primeiro convenio de colaboración entre a Universidade de Vigo e a Fundaçao José Saramago pon a pedra de arranque a unha iniciativa que ambas institucións agardan se converta en realidade nos vindeiros meses, tal e como subliñaron tras a sinatura do acordo, o reitor vigués, Salustiano Mato, e a presidenta da Fundaçao José Saramago, Pilar del Río, tradutora e viúva do Premio Nobel, que acudiu a Vigo acompañada do director xeral da fundación, Sérgio Machado.

“Con este acordo comeza un proxecto moi bonito e engaiolante, un proxecto de apoio mutuo e traballo a prol da difusión de todo o que significa a figura e a obra de José Saramago”, explicou tras a sinatura do acordo Salustiano Mato, que puntualizou que o obxectivo do convenio é regular a colaboración entre ambas institucións, aspecto no que tamén fixeron fincapé os profesores Burghard Baltrusch, director de Departamento de Filoloxía Galega e Latina, e Carlos Nogueira, dous dos principais impulsores da iniciativa, que asistiron tamén á sinatura do convenio no despacho do reitor.

Un autor universal con estreita relación con Galicia
“José Saramago practicaba devoción por algúns autores de Galicia, sobre todo polos seus poetas e aquí tiña moi bos amigos”, apuntou Del Río, que asinou o acordo cunha das plumas que empregaba o Premio Nobel e que aproveitou a súa visita ao campus de Vigo para lembrar que a primeira parada de Saramago tras recoller o Premio Nobel en Estocolmo no 1998 foi Santiago de Compostela, pois non quixo deixar de asistir ao enterro dun dos seus grandes amigos, Gonzalo Torrente Ballester. “Alí viviu con tristura a despedida ao amigo e emocionouse escoitando a interpretación do poema Negra Sombra de Rosalía de Castro que fixo o gaiteiro Carlos Núñez na cerimonia”, subliñou a presidenta da fundación, que lembrou que nesta ocasión José lle comentara “así merece a pena morrer” e por iso cando, ao cumprirse o primeiro aniversario da súa morte en xuño de 2011, as súas cinzas foron depositadas ao pé dunha oliveira centenaria, traída do seu pobo natal e transplantada no Campo das Cebolas fronte á Fundación José Saramago Casa dos Bicos en Lisboa, “varios gaiteiros interpretaron esta peza”.

A relación con Torrente Ballester foi só un dos múltiples exemplos que se puxo sobre a mesa á hora de lembrar a estreita relación do Nobel portugués con Galicia, lugar que visitara en numerosas ocasións, entre outras para participar nun Congreso de Literatura Comparada organizado pola profesora da Universidade de Vigo Carmen Becerra “outra boa amiga que tiña nesta terra e colaboradora habitual da fundación”, recalcou Del Río, que informou tamén de que na actualidade hai cátedras dedicadas ao estudo da obra deste autor nos cinco continentes.

Posta en marcha de múltiples proxectos conxuntos
A sinatura deste primeiro convenio de colaboración vai facilitar o desenvolvemento de proxectos de divulgación social e de transferencia do coñecemento, así como a organización e realización de todo tipo de actividades de divulgación, difusión e promoción da figura e da obra deste autor, tales como cursos, conferencias, simposios ou seminarios, así como o intercambio e colaboración en todo tipo de proxectos culturais e literarios e/ou sociais de interese común. 

“O noso gran obxectivo é o estudo e a difusión da obra deste autor”, subliñou Burghard Baltrusch, que resaltou a importancia de fortalecer as relacións entre Portugal e Galicia a partir das ideas de José Saramago. “De conseguir pór en marcha a cátedra unha das primeiras cousas que faríamos sería pór en valor todo aquilo que trae consigo a figura e a obra de Saramago para Galicia, por un lado, pero tamén para o mundo lusófono e, de forma aínda máis xeral, para o contexto da cultura peninsular”, explicou o director do Departamento de Filoloxía Galega e Latina, que recalcou que a cátedra estaría ligada á posta en marcha de múltiples actividades relacionadas coa promoción da lingua, a literatura e a cultura portuguesas.

Clúster en humanidades
Segundo explicou o reitor vigués tras a sinatura, este proxecto de colaboración nace ao calor do recentemente creado clúster en humanidades. “Se ben o campus de Vigo está especializado no mundo da tecnoloxía isto non significa que teñamos que descoidar a investigación humanística”, recalcou Mato, ao tempo que fixo fincapé en que este tipo de proxectos contribúen de xeito importante á internacionalización da Universidade “pois a posta en marcha da cátedra suporá tamén multiplicar todas as posibilidades de cooperación intelixente que poidamos ter co resto de institucións que dende outros países tamén teñen as súas propias cátedras Saramago”.


Assinalando também as presenças de Sérgio Letria (director geral da Fundação José Saramago), 
e dos professores Burghard Baltrusch e Carlos Nogueira

sábado, 25 de abril de 2015

25 de Abril de 1974... Três visões da revolução dos cravos nas obras de José Saramago


"Levantado do Chão"

(...) «Todos os dias são iguais, e nenhum se parece. Pelo meio da tarde chegaram à vinha notícias que desassossegaram o pessoal, ninguém tinha certezas do que tivesse sido, Diz-se que há tropas em Lisboa, ouvi na rádio» (...) «Em dois tempos se desfez o ritmo do trabalho, a cadência da enxada passou a ser vergonhosa distracção, e Maria Adelaide não é menos que os outros, está de nariz levantado, curiosa» (...) «Neste lugar do latifúndio, tão longe do Carmo de Lisboa, não se ouviu um tiro nem anda gente a gritar pelos descampados» (...) « Ah, isso é que é uma revolução.» (...) «A circulação é de lá vem um, faz-se a viagem depressa, e de ansiedades ali mesmo se reduzem as mais instantes, há unanimidade de cobrador, motorista e passageiros, o governo foi a terra, acabou-se o Tomás e acabou-se o Marcelo, neste ponto desfaz-se o acordo geral, não se sabe bem, alguém falou em junta, mas os outros duvidam, junta não é nome de governo, junta é de freguesia» (...)
Caminho, 10.ª edição
Páginas 350 a 352

(Fotografia de Helena Mesquita, 
Avenida da Liberdade - Lisboa, 25 de Abril de 2015)


"A Noite"

"Torres (Exultando)
Aconteceu! Aconteceu! (...) É tudo verdade! Há tropas na Emissora, na Televisão, no Rádio Clube. E o Quartel-General, em S. Sebastião, está cercado. E outros locais, Fora de Lisboa, também. Eu escrevo a notícia. Esperem, é só um bocadinho, vai ser rápido. Eu não demoro... eu não demoro... (...) Pronto já está. Querem ouvir?

Director (Estendendo a mão)
Dê-me isso Torres. Não vai para a tipografia sem que eu veja.

Torres (Como se despertasse)
Não vale a pena, senhor director. Só escrevi o que acabei de dizer. Nem sequer afirmo que as tropas saíram à rua para derrubar o governo. Nem sequer isso, imagine. Esteja descansado. Sei muito bem que o senhor procura um pretexto.

Director (Intimativo)
Ordeno-lhe que me entregue esse papel! Olhe que se arrepende!

Jerónimo (Tirando simplesmente o papel da mão de Torres)
Não se arrepende, não, senhor director. Cuide o senhor de si, que bem vai precisar, (...) Vamos, rapazes. Já ganhámos a nossa noite. (...)

(...)

Todos Juntos (Em tons diferentes)
A máquina já está a andar!

Grupo do Administrador (Começando em surdina e alternado com o grupo de Torres)
Há-de parar! Há-de parar! Há-de parar! Há-de parar!

Grupo de Torres (Mesmo jogo)
Andar! Andar! Andar! Andar! (O ruído da rotativa cresce.)"
Caminho, 2.ª edição
Páginas 112 a 115

(Fotografia, momentos de tensão entre as tropas 
estacionadas no Terreiro do Paço e marinha no Rio Tejo, 25 de Abril de 2015)

"Manual de Pintura e Caligrafia"
"O regime caiu. Golpe militar, como se esperava. Não sei descrever o dia de hoje: as tropas, os carros de combate, a felicidade, os abraços, as palavras de alegria, o nervosismo, o puro júbilo. Estou neste momento sozinho: M. foi encontrar-se com alguém do Partido, não sei onde. Vai acabar a clandestinidade. O meu auto-retrato já esta muito adiantado. Dormíamos em minha casa, M. e eu, quando o Chico, noctívago, telefonou, aos gritos, que ouvíssemos a rádio. Levantámo-nos de um salto (estás a chorar, meu amor?): «Aqui Posto de Comando das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa...» Abraçámo-nos (meu amor, estás a chorar), e embrulhados no mesmo lençol, abrimos a janela: a cidade, oh cidade, ainda noite por cima das nossas cabeças, mas já uma claridade difusa ao longe. Eu disse: «Amanhã vamos buscar o António.» M. apertou-se muito contra mim. «E um dia destes dar-te-ei uns papeis que aí tenho. Para leres.» «Segredos?», perguntou ela, sorrindo. «Não, papeis. Coisas escritas.»"
Caminho, 4.ª edição
Página 311


"Diálogos com José Saramago" - Estrutura e capítulos da obra do Prof. Carlos Reis


Estrutura e capítulos da obra do Prof. Carlos Reis

Nota Prévia - apresentação da nova edição (datada de 21 de Setembro de 2014)
(...) " Não termino sem lembrar que este livro não teria sido possível sem a generosa disponibilidade de quem foi um grande escritor e amigo inesquecível." (...) Página 8

Apresentação - apresentação da obra (1998)
(...) "Aos amigos mostra Saramago a sua ilha (com orgulho, revela-me o escritor que oficialmente fizeram dele cidadão honorário de Lanzarote); e justamente não se cansa de chamar a atenção para a convulsiva beleza de um cenário que só visto pode ser razoavelmente apreciado, mas dificilmente entendido..." (...) Página 10

Introdução
"O escritor em contrução"

Diálogo I
"Sobre formação, aprendizagem e profissão do escritor"

Diálogo II
"Sobre a condição do escritor"

Diálogo III
"Sobre a História como experiência"

Diálogo IV
"Sobre o escritor e a linguagem da literatura"

Diálogo V
"Sobre géneros literários"

Diálogo VI
"Sobre a narrativa e romance"

Diálogo VII
"Sobre temas e valores, sentidos e destinos comuns"

Diálogos virtuais

"A Estátua e a Pedra ou a magia das ficções" 
Texto lido na apresentação de "A Estátua e a Pedra", de José Saramago 
(Lisboa, Fundação José Saramago, 7 de Maio de 2013)
Texto do professor/escritor Carlos Reis



A Casa José Saramago en Tías, Lanzarote - "Día del Libro 2015: III Premio de Narrativa José Saramago"

Excelente iniciativa que A CASA JOSÉ SARAMAGO (Tías, Lanzarote) realizou. 
Jovens, leitores, por certo, entusiastas da obra de Saramago, estiveram em concurso.

Aqui de deixa a informação.
Aqui se deixa o testemunho e o orgulho por esta iniciativa.

Bem hajam os que caminham...


“Con la misma vehemencia con que reivindicamos los derechos, reivindiquemos también el deber de nuestros deberes. Tal vez así el mundo pueda ser un poco mejor”. 
José Saramago

"María del Río y Pancho Hernández, alcalde de Tías, junto a las ganadoras del Premio"

Pode ser lido e consultado em
http://acasajosesaramago.com/dia-del-libro-2015-iii-premio-de-narrativa-jose-saramago/

"Qué maravillosa tarde vivimos ayer, Día del Libro, en la entrega de premios del III Concurso de Narrativa José Saramago. La Biblioteca recibió la presencia de profesores y alumnos de 12 de los 14 centros de enseñanza secundaria de la isla, así como de Pancho Hernández, alcalde de Tías, y distintas personalidades políticas y culturales de Lanzarote. Asistimos a dos emocionantes horas de música, poesía y relatos cortos, con especial presencia de las figuras de José Saramago, Gunter Grass y Eduardo Galeano entre los autores homenajeados y el protagonismo de los jóvenes finalistas en las dos categorías del premio, que nos hablaron de sus obras y de sus inquietudes literarias, dejando patente que el futuro de este premio y de la narración corta en la isla está asegurado.

Los finalistas en la categoría de nacidos en 1999 y menores fueron:

Virginia Ardevol. IES Tías
Direy Hernández. IES Teguise
María Teresa Parrila. IES Tías
Olmo Pérez. IES Yaiza
Ania Robayna. EA Pancho Lasso
Los finalistas en la categoría de nacidos a partir del año 2000 fueron:

Zofia Daregowska. Colegio hispánico Británico
Yaiza Llamas. IES San Bartolomé
Jharol Montilla. IES Tías
Idaira Ramírez. IES Tías
Paula Torres. IES Tías

Concurrieron un total de 69 obras a concurso, superando la calidad literaria de las dos ediciones anteriores, según apreció el jurado.

Las galardonadas con el primer premio en sendas categorías fueron Virginia Ardevol, por su relato “El precio de un Ferrari” y Yaiza Llamas, por su relato “El prado de la nostalgia”. ¡Enhorabuena, campeonas!

Nos vemos el año que viene en la cuarta edición del Premio de Narración Corta José Saramago."

quinta-feira, 23 de abril de 2015

"Histórias da Emigração" em "O Caderno 2"... tão actual em 2015 como em 2009

Barco com emigrantes à chegada da ilha de Lampedusa (2011) 
Fotografia: Ettore Ferrari/EPA

No seu livro/blog, "O Caderno 2", José Saramago escreveu este texto, hoje tão actual como cruel, na expressão mais severa que o ser humano, na sua condição de sobrevivência pode sofrer. Fugir da morte para morrer. 
Os cartéis e máfias, que a troco de fortunas, obrigam os que pretendendo escapar do "inferno local", desfazem-se dos seus poucos haveres e compram, literalmente, uma ida para outro inferno.
O Mediterrâneo é um mar de morte e de corpos afogados.
Neste momento, a comunicação social ocidental e os políticos da UE, retratam e abordam este flagelo com a leviandade da coisa natural que acontece com gente de outra condição de existência.
Os que ficam na sua terra natal, que sem nada para poder vender não chegam a poder adquirir um destes bilhetes trágicos, ficam entregues às sortes da morte. Os que embarcam, em barcos super lotados e de uma fragilidade assustadora, são enviados ao engano que a morte, quase certa, os bafejará. 

Pode ser lido aqui,

"Histórias da emigração"
"Que atire a primeira pedra quem nunca teve nódoas de emigração a manchar-lhe a árvore genealógica… Tal como na fábula do lobo mau que acusava o inocente cordeirinho de lhe turvar a água do regato onde ambos bebiam, se tu não emigraste, emigrou o teu pai, e se o teu pai não precisou de mudar de sítio foi porque o teu avô, antes dele, não teve outro remédio que ir, de vida às costas, à procura do pão que a sua terra lhe negava. Muitos portugueses morreram afogados no rio Bidassoa quando, noite escura, tentavam alcançar a nado a margem de lá, onde se dizia que o paraíso de França começava. Centenas de milhares de portugueses tiveram de submeter-se, na chamada culta e civilizada Europa de além-Pirinéus, a condições de trabalho infames e a salários indignos. Os que conseguiram suportar as violências de sempre e as novas privações, os sobreviventes, desorientados no meio de sociedades que os desprezavam e humilhavam, perdidos em línguas que não podiam entender, foram a pouco e pouco construindo, com renúncias e sacrifícios quase heróicos, moeda a moeda, centavo a centavo, o futuro dos seus descendentes. Alguns desses homens, algumas dessas mulheres, não perderam nem querem perder a memória do tempo em que tiveram de padecer todos os vexames do trabalho mal pago e todas as amarguras do isolamento social. Graças lhes sejam dadas por terem sido capazes de preservar o respeito que deviam ao seu passado. Outros muitos, a maioria, cortaram as pontes que os ligavam àquelas horas sombrias, envergonham-se de terem sido ignorantes, pobres, às vezes miseráveis, comportam-se, enfim, como se uma vida decente, para eles, só tivesse começado verdadeiramente no dia felicíssimo em que puderam comprar o seu primeiro automóvel. Esses são os que estarão sempre prontos a tratar com idêntica crueldade e idêntico desprezo os emigrantes que atravessam esse outro Bidassoa, mais largo e mais fundo, que é o Mediterrâneo, onde os afogados abundam e servem de pasto aos peixes, se a maré e o vento não preferiram empurrá-los para a praia, enquanto a guarda civil não aparece para levantar os cadáveres. Os sobreviventes dos novos naufrágios, os que puseram pé em terra e não foram expulsos, terão à sua espera o eterno calvário da exploração, da intolerância, do racismo, do ódio à pele, da suspeita, do rebaixamento moral. Aquele que antes havia sido explorado e perdeu a memória de o ter sido, explorará. Aquele que foi desprezado e finge tê-lo esquecido, refinará o seu próprio desprezar. Aquele a quem ontem rebaixaram, rebaixará hoje com mais rancor. E ei-los, todos juntos, a atirar pedras a quem chega à margem de cá do Bidassoa, como se nunca tivessem eles emigrado, ou os pais, ou os avós, como se nunca tivessem sofrido de fome e de desespero, de angústia e de medo. Em verdade, em verdade vos digo, há certas maneiras de ser feliz que são simplesmente odiosas." (17 de Julho de 2009)

Blimunda #35 - Abril 2015 - Revista Digital para descarregar gratuitamente

Capa da edição de Abril (#35)

Link para aceder à edição e descarregar gratuitamente,

Sinopse via Fundação José Saramago

"Precisamente três anos depois do arranque da revista da Fundação José Saramago, a 23 de abril de 2012, e para assinalar o Dia Mundial do Livro, é hoje publicada a edição # 35 da Blimunda.

Neste mês de abril, as perdas impõe-se e é preciso falar delas. O editorial da revista é dedicado a esses finais que são começos, como afirmou uma vez vez Eduardo Galeano, um dos grandes que partiu nos últimos dias e que nos deixará muitas saudades. Nas Leituras do Mês, Gunter Grass, Manoel de Oliveira, Galeano, François Maspero e Herberto Helder são recordados, publicando-se também deste último um conjunto de poemas escolhidos por Manuel Gusmão, Gustavo Rubim, Rita Taborda Duarte, Manuel Frias Martins e Manuel Alberto Valente.

Mas há muito mais nesta edição 35 da revista. 
A Blimunda esteve no Festival Rota das Letras, em Macau, e trouxe de lá uma conversa com Murong Xuecun, que nos conta como é ser um escritor na China dos dias de hoje. Viajámos também até Aveiro para acompanhar a The Child and Book Conference, este ano dedicado à análise de temas fracturantes neste género literário.

Em Lisboa, vimos e ouvimos a 13ª edição da Festa do Jazz do São Luiz, num dossier que inclui uma entrevista com o músico Carlos Martins, director artístico da Festa, e um texto do músico Matt Pavolka que, em 2008 actuou no São Luiz apresentando um tema composto a partir da última frase do primeiro capítulo de Ensaio sobre a Cegueira.

A propósito do centenário da revista Orpheu, esse acontecimento marcante para a arte e para a literatura do século XX, a Blimunda reproduz algumas páginas do número 3 da publicação, que nunca chegou a ser impresso.

Recuperamos também um texto de Pilar del Río, escrito no ano 2000, que fala sobre o modo como Sebastião Salgado vê e retrata o mundo.

Por fim, mas não menos importante, a secção Saramaguiana publica as palavras de Ondjaki e Adriana Lisboa ditas em Washington no mês passado, no tributo a José Saramago, integrado no Festival Iberian Suite.

Feliz Dia Mundial do Livro e boas leituras!"


(Editorial da edição)


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Concerto "A Viagem do Elefante" de Luís Pastos e Trigo Limpo Teatro Acert - 30 de Abril - CCB - 21 horas

A propósito do concerto "A Viagem do Elefante" de Luís Pastos e Trigo Limpo Teatro Acert (30 de Abril - CCB Pequeno Auditório - 21 horas), recorda-se aqui os dois post's do blog "Caderno" (com a sua publicação no livro "O Caderno 2"), "O elefante em viagem" e "Regresso". 

Queremos uma casa cheia de música...

Para leitura aqui,

"O elefante em viagem"
"Os leitores recordarão que os nomes das duas aldeias que a expedição encontrou no seu caminho para Figueira de Castelo Rodrigo nunca foram mencionados pelo narrador da história. Essas aldeias, tal como se encontram descritas, foram simples inventos necessários à ficção e não tinham nem têm qualquer correspondência na vida real. Parecerá portanto abusivo aos amantes do rigor histórico que Salomão esteja a preparar-se hoje para uma viagem que, não sendo documentalmente a que foi, bem o poderia ter sido, ainda que dela não tenha ficado qualquer registo. A vida traz muitos acasos no bolso e não se pode excluir que, em um ou outro caso, a letra tenha acertado com a tabuleta. É certo que a História não diz que Salomão tivesse pisado terras de Castelo Novo, Sortelha ou Cidadelhe, mas também é impossível jurar que tal não sucedeu. Dessa obviedade nos servimos, nós, Fundação José Saramago, para idear e organizar uma viagem que vai começar hoje em Belém, diante do mosteiro dos Jerónimos e nos levará à fronteira, lá em cima, onde aconteceu aquilo dos couraceiros austríacos que pretendiam levar o elefante ao arquiduque. Que o itinerário é arbitrário, protestará o leitor, nós, porém, se no-lo permitem, preferiremos chamar-lhe um dos inúmeros possíveis. Andaremos por fora dois dias e do que neles se passar faremos relato. Quem vai? Vai a Fundação em peso, vão mais uns poucos amigos fixes de Salomão, jornalistas portugueses e espanhóis, tudo boa gente. Ficai em paz. Até ao nosso regresso, adeus, adeus."
(Quarta-feira, 17 de Junho de 2009)


Para leitura aqui,
em http://caderno.josesaramago.org/47860.html

"Regresso"
"O elefante gostou do que viu e fê-lo saber à companhia, embora em nenhum ponto o itinerário que escolhemos tivesse coincidido com aquele que a sua memória de elefante zelosamente guardava. Que haviam, disse, ele e os soldados de cavalaria, subido para o norte quase a pisar a linha da fronteira, por isso eram os caminhos tão ruins. Comparada com a viagem de então, esta foi um passeio: boas estradas, bons alojamentos, bons restaurantes, o próprio arquiduque, ainda que habituado aos luxos da Europa central, teria ficado surpreendido. A expedição foi para trabalhar, mas disfrutou como se andasse de férias. Até os sofridos câmaras, obrigados a carregar com equipamentos de sete quilos ao ombro, estavam encantados. O interessante é que nem os nossos amigos, nem os jornalistas conheciam os lugares que visitámos. Melhor para eles, que dali levaram muito que contar e recordar. Começámos por Constância, onde se crê que Camões viveu e teve casa, de cujas janelas terá visto mil vezes o abraço do Zêzere e do Tejo, aquele suave remanso da água na água capaz de inspirar os versos mais belos. Dali fomos para Castelo Novo para ver a Casa da Câmara, do tempo de D. Dinis, e o chafariz joanino que lhe está pacificamente encostado. Vimos também a lagariça, essa espécie de dorna ao ar livre para a pisa das uvas, cavada na rocha bruta em tempos que se acredita serem os da pré-história. Dormimos no Fundão, terra de cerejas por excelência, e na manhã seguinte ala para Belmonte onde nasceu Pedro Álvares Cabral, direitos à igreja de S. Tiago, da minha particular devoção. Ali está uma das mais comovedoras esculturas românicas que existem na face da terra, uma pietà de granito toscamente pintado, com um Cristo exangue deitado sobre os joelhos da sua mãe. Ao pé desta estátua, a célebre pietà de Miguel Ângelo que se encontra no Vaticano não passa de um suspiro maneirista. Não foi fácil arrancar o pessoal à extática contemplação em que havia caído, mas lá os conseguimos levar aliciando-os com o enigma arquitectónico de Centum Cellas, essa construção inacabada cuja problemática finalidade foi e continua e ser objecto das mais acaloradas discussões. Seria uma torre de vigia? Uma hospedaria para viajantes de passagem? Uma prisão, embora o neguem as rasgadas janelas que subsistem? Não se sabe. Saciada a fome de imagens, o destino seguinte seria Sortelha, a das muralhas ciclópicas. Ali nos caiu em cima uma trovoada como poucas, relâmpagos em rajada, trovões a condizer, chuva a cântaros e granizo que era como metralha. Não chegámos a beber o café, a corrente eléctrica sumira-se. Uma hora foi o que demorou o céu a escampar. Ainda chovia quando entrámos no autocarro, a caminho de Cidadelhe, sobre o qual não escreverei. Remeto o leitor interessado e de boa vontade para as quatro ou cinco páginas que lhe dediquei na Viagem a Portugal. Os companheiros arregalaram os olhos perante o pálio de 1707, depois foram ver aldeia, os relevos nas portas das casas, os caixotões da igreja matriz com retratos de santos. Vinham transfigurados e felizes. Agora só faltava Castelo Rodrigo. O presidente da câmara municipal de Figueira de Castelo Rodrigo esperava-nos na ponte sobre o Côa, a pouca distância de Cidadelhe. De Castelo Rodrigo eu conservava a imagem de há trinta anos, quando lá fui pela primeira vez, uma vila velha decadente, em que as ruínas já eram só uma ruína de ruínas, como se tudo aquilo estivesse a desfazer-se em pó. Hoje vivem 140 pessoas em Castelo Rodrigo, as ruas estão limpas e transitáveis, foram recuperadas as fachadas e os interiores, e, sobretudo, desapareceu a tristeza de um fim que parecia anunciado. Há que contar com as aldeias históricas, elas estão vivas. Eis a lição desta viagem."
(Segunda-feira, 22 de Junho de 2009)

domingo, 19 de abril de 2015

Citador #37 ... da estrutura e coerência do romance, em "Diálogos com José Saramago" de Carlos Reis

Citador #37
... da estrutura e coerência do romance
em "Diálogos com José Saramago"
Carlos Reis - Porto Editora
Página 134

(...) "O que me preocupa é a arquitectura do livro, a sua solidez, um sistema de vigas que suportam, de modo a que nada trema, mesmo que a história seja delirante e avance pelo fantástico de velas erguidas." (...)
José Saramago

Carlos Reis via Universidade Aberta - Documentário sobre José Saramago

Pode ser visionado pelo YouTube, aqui

... um testemunho sobre o Homem e sua Obra...