Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

domingo, 10 de janeiro de 2016

"A compreensão segundo Saramago" palavras sobre fotos de Sebastião Salgado (Brasil, 2001)

As palavras podem ser escutadas através deste clip de video do YouTube, aqui 

Ensaio audiovisual sobre fotos de Sebastião Salgado e narrativa de José Saramago.
Áudio original extraído do documentário "Janela da Alma" de João Jardim e Walter 
Carvalho (Brasil, 2001).

Trilha incidental: Hélio Delmiro ('Emotiva')
Adaptação e montagem: Pedro Bersi (SC Brasil)

"Eu não quero dizer que cada um é conforme nasce - não vou a esse ponto.

Mas, talvez devêssemos ponderar por que algumas pessoas resistem ao comportamento digamos universal -- o modo de comportasse mais geral - e outras não? 

Por que algumas pessoas mantêm uma atitude crítica em relação às coisas?

Por que algumas pessoas acham que não é por fato das coisas serem novas 
ou modernas que elas são necessariamente boas? 

Isto não é defender o antigo... é simplesmente considerar que não tem nenhuma razão para acreditar que no momento em que estou a viver é o momento em que todas as coisas que se estão a fazer - as de agora e as que vão ter efeitos no futuro - são as únicas e as melhores que poderiam estar a ser feitas e a ser pensadas, imaginadas e aplicadas. 

Não tenho qualquer razão para isso, pelo contrário, tenho muitas razões 
que me dizem que nos tomamos por um caminho errado." 

Por José Saramago

Apresentação do filme "Ensaio sobre a Cegueira" - José Saramago surpreendeu locutores do RCP


Pequeno testemunho do acontecimento, aqui via YouTube

Programa Janela Aberta, de Aurélio Gomes no RCP Rádio Clube Português  

Revisitamos a edição #20 de Janeiro de 2014 - Blimunda, revista digital sempre presente

(Capa da edição #20 - Janeiro de 2014)

Sinopse da edição, via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/blimunda-20-janeiro-2014/

"A Blimunda de janeiro chega com um conjunto de novas secções e rubricas. No corpo central da revista um texto de Sara Figueiredo Costa traça o percurso de diferentes Almanaques, esses “livrinhos para o ano todo”, e visita-se Platero e eu, obra de Juan Ramón Jiménez que agora comemora o primeiro centenário, e que José Saramago acolheu na sua Jangada de Pedra.

Novidade na Blimunda, é a secção sobre Cinema, de responsabilidade de João Monteiro, cofundador do Cineclube de Terror de Lisboa e um dos programadores do MOTELx, que aqui dá continuidade do trabalho que tem sido desenvolvido por este festival ao longo destes anos, principalmente ao nível do cinema português. A secção Cinema terá uma periodicidade bimestral nas páginas da Blimunda.

Na secção infantil e juvenil, Andreia Brites conversa com Eduardo Filipe, um dos responsáveis pela ILUSTRARTE, Bienal Internacional de Ilustração que em 2014 está a viver a sua 6.ª edição. Inaugurada a 16 de janeiro, a ILUSTRARTE apresenta até abril o melhor que se faz na ilustração internacional, numa exposição que está patente no Museu da Electricidade. A acompanhar esta conversa, apresentam-se os trabalhos de 15 ilustradores que integram esta mostra.

A fechar, como habitualmente, a Saramaguiana regressa a 2005 e à participação de José Saramago no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Também presente nesta secção, uma análise à nova edição de A Maior Flor do Mundo, texto de José Saramago que conheceu no final de 2013 uma nova edição com ilustrações de André Letria.

Às restantes rubricas que compõem a Blimunda em todos os meses, juntam-se a partir de janeiro, a Estante, local de acolhimento de 8 livros recentemente editados, e o Dicionário de Literatura Infantil e Juvenil, que de A a Z trará entradas escritas por escritores, ilustradores, editores, professores.

No início de 2014, a Blimunda deseja a todos os seus leitores Boas Leituras!"

"O leitor não lê o romance, lê o romancista" - Cadernos de Lanzarote Diário II (27/02/1994)


"Pergunto-me se o que move o leitor à leitura não será a secreta esperança ou a simples possibilidade de vir a descobrir, dentro do livro, mais do que a história contada, a pessoa invisível, mas omnipresente, que é o autor. O romance é uma mascara que oculta e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. Se a pessoa que o romancista é não interessa, o romance não pode interessar. O leitor não lê o romance, lê o romancista."

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 60 (27 de Fevereiro de 1994)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

"A Crucificação de Cristo" de Albrecht Dürer interpretado no primeiro capítulo de "O Evangelho segundo Jesus Cristo"



("A Crucificação de Cristo" - Albrecht Dürer)

O primeiro capitulo da obra de José Saramago é uma minuciosa análise e interpretação do quadro do pintor Albrecht Dürer. (Nuremberga, 21/05/1471 - 06/04/1528)

Por sugestão da Prof.ª Maria Leiria, Coordenadora da "Comunidade de Leitores Ler Saramago", enquadrada no âmbito das actividades da Fundação José Saramago, compilei espacialmente a imagem com aproximação às palavras de José Saramago.

"O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar "(...)

-.-

(...) "Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo. Pela expressão da cara, que é de inspirado sofrimento, e pela direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o Bom Ladrão." (...)


-.-

(...) "Não será possível averiguar se este tronco ainda é uma árvore, apenas adaptada, por mutilação selectiva, a instrumento de suplício, mas continuando a alimentar-se da terra pelas raízes, porquanto toda a parte inferior dela está tapada por um homem de barba comprida, vestido de ricas, folgadas e abundantes roupas, que, tendo embora levantada a cabeça, não é para o céu que olha. Esta postura solene, este triste semblante, só podem ser de José de Arimateia, que Simão de Cirene, sem dúvida outra hipótese possível, após o trabalho a que o tinham forçado, ajudando o condenado no transporte do patíbulo, conforme os protocolos destas execuções, fora à sua vida, muito mais preocupado com as consequências do atraso para um negócio que trazia aprazado do que com as mortais aflições do infeliz que iam crucificar. Ora, este José de Arimateia é aquele bondoso e abastado homem que ofereceu os préstimos de um túmulo seu para nele ser depositado o corpo principal, mas a generosidade não lhe servirá de muito na hora das santificações, sequer das beatificações, pois não tem, a envolver-lhe a cabeça, mais do que o turbante com que sai à rua todos os dias" (...) 


-.-

(...) "ao contrário desta mulher que aqui vemos em plano próximo, de cabelos soltos sobre o dorso curvo e dobrado, mas toucada com a glória suprema duma auréola, no seu caso recortada como um bordado doméstico. De certeza que a mulher ajoelhada se chama Maria, pois de antemão sabíamos que todas quantas aqui vieram juntar-se usam esse nome, apenas uma delas, por ser ademais Madalena, se distingue onomasticamente das outras, ora, qualquer observador, se conhecedor bastante dos factos elementares da vida, jurará, à primeira vista, que a mencionada Madalena é esta precisamente, porquanto só uma pessoa como ela, de dissoluto passado, teria ousado apresentar-se, na hora trágica, com um decote tão aberto, e um corpete de tal maneira justo que lhe faz subir e altear a redondez dos seios" (...)


-.-

(...) "Maria Madalena, se ela é, ampara, e parece que vai beijar,num gesto de compaixão intraduzível por palavras, a mão doutra mulher, esta sim, caída por terra, como desamparada de forças ou ferida de morte. O seu nome também é Maria, segunda na ordem de apresentação, mas, sem dúvida, primeiríssima na importância, se algo significa o lugar central que ocupa na região inferior da composição. Tirando o rosto lacrimoso e as mãos desfalecidas, nada se lhe alcança a ver do corpo, coberto pelas pregas múltiplas do manto e da túnica, cingida na cintura por um cordão cuja aspereza se adivinha. É mais idosa do que a outra Maria, e esta é uma boa razão, provavelmente, mas não a única, para que a sua auréola tenha um desenho mais complexo" (...) 
"Reclinada sobre o seu lado esquerdo, Maria, mãe de Jesus, esse mesmo a quem acabamos de aludir, apoia o antebraço na coxa de uma outra mulher, também ajoelhada" (...)


-.-

(...) "também Maria de seu nome, e afinal, apesar de não lhe podermos ver nem fantasiar o decote, talvez verdadeira Madalena. Tal como a primeira desta trindade de mulheres, mostra os longos cabelos soltos, caídos pelas costas, mas estes têm todo o ar de serem louros, se não foi pura casualidade a diferença do traço, mais leve neste caso e deixando espaços vazios no sentido das madeixas, o que, obviamente, serviu ao gravador para aclarar o tom geral da cabeleira representada. Com tais razões não pretendemos afirmar que Maria Madalena tivesse sido, de facto, loura, apenas nos estamos conformando com a corrente de opinião maioritária que insiste em ver nas louras, tanto as de natureza como as de tinta, os mais eficazes instrumentos de pecado e perdição. Tendo sido Maria Madalena, como é geralmente sabido, tão pecadora mulher, perdida como as que mais o foram, teria também de ser loura para não desmentir as convicções, em bem e em mal adquiridas, de metade do género humano. Não é, porém, por parecer esta terceira Maria, em comparação com a outra, mais clara na tez e no tom do cabelo, que insinuamos e propomos, contra as arrasadoras evidências de um decote profundo e de um peito que se exibe, ser ela a Madalena. Outra prova, esta fortíssima, robustece e afirma a identificação, e vem a ser que a dita mulher, ainda que um pouco amparando, com distraída mão, a extenuada mãe de Jesus, levanta, sim, para o alto o olhar, e este olhar, que é de autêntico e arrebatado amor, ascende com tal força que parece levar consigo o corpo todo, todo o seu ser carnal, como uma irradiante auréola capaz de fazer empalidecer o halo que já lhe está rodeando a cabeça e reduzindo pensamentos e emoções. Apenas uma mulher que tivesse amado tanto quanto imaginamos que Maria Madalena amou poderia olhar desta maneira, com o que, derradeiramente, fica feita a prova de ser ela esta, só esta, e nenhuma outra, excluída portanto a que ao lado se encontra" (...)


-.-

(...) "Maria quarta, de pé, meio levantadas as mãos, em piedosa demonstração, mas de olhar vago, fazendo companhia, neste lado da gravura, a um homem novo" (...) 


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(...) "a um homem novo, pouco mais que adolescente, que de modo amaneirado a perna esquerda flecte, assim, pelo joelho, enquanto a mão direita, aberta, exibe, numa atitude afectada e teatral, o grupo de mulheres a quem coube representar, no chão, a acção dramática. Este personagem, tão novinho, com o seu cabelo aos cachos e o lábio trémulo, é João." (...)


-.-

(...) "Tal como José de Arimateia, também esconde com o corpo o pé desta outra árvore que, lá em cima, no lugar dos ninhos, levanta ao ar um segundo homem nu" (...) 


-.-

(...) "um segundo homem nu atado e pregado como o primeiro, mas este é de cabelos lisos, deixa pender a cabeça para olhar, se ainda pode, o chão, e a sua cara, magra e esquálida, dá pena, ao contrário do ladrão do outro lado, que mesmo no transe final, de sofrimento agónico, ainda tem valor para mostrar-nos um rosto que facilmente imaginamos rubicundo, corria-lhe bem a vida quando roubava, não obstante a falta que fazem as cores aqui. Magro, de cabelos lisos, de cabeça caída para a terra que o há-de comer, duas vezes condenado, à morte e ao inferno, este mísero despojo só pode ser o Mau Ladrão, rectíssimo homem afinal, a quem sobrou consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza." (...) 


-.-

(...) "Por cima dele, também chorando e clamando como o sol que em frente está, vemos a lua em figura de mulher, com uma incongruente argola a enfeitar-lhe a orelha" (...) 


-.-

(...) "Este sol e esta lua iluminam por igual a terra, mas a luz ambiente é circular, sem sombras, por isso pode ser tão nitidamente visto o que está no horizonte" (...)


-.-

(...) "por isso pode ser tão nitidamente visto o que está no horizonte ao fundo, torres e muralhas, uma ponte levadiça sobre um fosso onde brilha água, umas empenas góticas, e lá por trás, no testo duma última colina, as asas paradas de um moinho" (...)


-.-

(...) "Cá mais perto, pela ilusão da perspectiva, quatro cavaleiros de elmo, lança e armadura fazem voltear as montadas em alardes de alta escola, mas os seus gestos sugerem que chegaram ao fim da exibição, estão saudando, por assim dizer, um público invisível." (...)


-.-

(...) "A mesma impressão de final de festa é dada por aquele soldado de infantaria que já dá um passo para retirar-se, levando, suspenso da mão direita, o que, a esta distância, parece um pano, mas que também pode ser manto ou túnica" (...)


-.-

(...) "Por cima destas vulgaridades de milícia e de cidade muralhada pairam quatro anjos, sendo dois dos de corpo inteiro, que choram, e protestam, e se lastimam, não assim um deles, de perfil grave, absorto no trabalho de recolher numa taça, até à última gota, o jorro de sangue que sai do lado direito do Crucificado." (...) 


-.-

(...) "Neste lugar, a que chamam Gólgota" (...) 
"este homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores." (...) 


-.-

(...) "É ele, finalmente, este para quem apenas olham José de Arimateia e Maria Madalena" (...) 


-.-

(...) "Tem por cima da cabeça, resplandecente de mil raios, mais do que, juntos, o sol e a lua, um cartaz escrito em romanas letras que o proclamam Rei dos Judeus, e, cingindo-a, uma dolorosa coroa de espinhos, como a levam, e não sabem, mesmo quando não sangram para fora do corpo, aqueles homens a quem não se permite que sejam reis em suas próprias pessoas." (...) 


-.-

(...) "Não goza Jesus de um descanso para os pés, como o têm os ladrões" (...) 


-.-

(...) "todo o peso do seu corpo estaria suspenso das mãos pregadas no madeiro se não fosse restar-lhe ainda alguma vida, a bastante para o manter erecto sobre os joelhos retesados, mas que cedo se lhe acabará, a vida, continuando o sangue a saltar-lhe da ferida do peito, como já foi dito." (...)


-.-

(...) "Entre as duas cunhas que firmam a cruz a prumo, como ela introduzidas numa escura fenda do chão, ferida da terra não mais incurável que qualquer sepultura de homem, está um crânio, e também uma tíbia e uma omoplata, mas o crânio é que nos importa, porque é isso o que Gólgota significa, crânio, não parece ser uma palavra o mesmo que a outra, mas alguma diferença lhes notaríamos se em vez de escrever crânio e Gólgota escrevêssemos gólgota e Crânio." (...)
"Mas também há quem afirme que este é o próprio crânio de Adão, subido do negrume profundo das camadas geológicas arcaicas, e agora, porque a elas não pode voltar, condenado eternamente a ter diante dos olhos a terra, seu único paraíso possível e para sempre perdido." (...)


-.-

(...) "Lá atrás, no mesmo campo onde os cavaleiros executam um último volteio, um homem afasta-se, virando ainda a cabeça para este lado. Leva na mão esquerda um balde e uma cana na mão direita. Na extremidade da cana deve haver uma esponja, é difícil ver daqui, e o balde, quase apostaríamos, contém água com vinagre. Este homem, um dia, e depois para sempre, será vítima de uma calúnia, a de, por malícia ou escárnio, ter dado vinagre a Jesus ao pedir ele água, quando o certo foi ter-lhe dado da mistura que traz, vinagre e água, refresco dos mais soberanos para matar a sede, como ao tempo se sabia e praticava. Vai-se embora, não fica até ao fim, fez o que podia para aliviar as securas mortais dos três condenados, e não fez diferença entre Jesus e os Ladrões, pela simples razão de que tudo isto são coisas da terra, que vão ficar na terra, e delas se faz a única história possível." 
(Fim do primeiro capítulo)



in, "O Evangelho segundo Jesus Cristo"
Caminho, 1991
Páginas 13 a 20

Entrevista ao académico Horácio Costa que revisita a obra de José Saramago (Univesp TV)

(...)"Lendo hoje o estudo minucioso e perspicaz de Horácio Costa, foi todo o passado que se desenhou e reergueu diante de mim. Senti-me de repente muito velho 
(atenção, velho de tempo, não de vida) e pensei sem nenhuma originalidade: 
«Quanto caminho andado.» "
José Saramago, 22 de Abril de 1994

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Transmitido na UnivespTV
Programa "Literatura Fundamental"
Entrevistador Ederson Granetto

Sinopse do programa
"Programa sobre o vencedor do prêmio Nobel de Literatura e 1998 José Saramago, que focaliza principalmente o livro Memorial do Convento, publicado em 1982. Ederson Granetto entrevista o poeta, tradutor, critico literário e professor da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, José Horácio Costa, pesquisador da obra de Saramago, que produziu uma tese sobre o período formativo do autor português. José Horácio Costa recebeu o prêmio Jabuti de 2014 pelo seu livro de poesias Bernini."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O «eu lógico» e o «eu intuitivo» (24/02/1994)

"O desbarato mais absurdo não é o dos bens de consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela História, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miuçalhas tivesse sabido aproveitar-se. A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza. 
Parece haver em mim como uma balança interior, um padrão aferidor que me tem permitido vigiar, de uma maneira a que chamaria intuitiva, a «economia» dos por-menores narrativos. Em princípio, o «eu lógico» não recusa nenhuma possibilidade, mas o «eu intuitivo» rege-se por umas leis próprias que o outro aprendeu a respeitar, mesmo quando tem relutância em obedecer-lhes. Evidentemente, não há aqui nenhuma ciência, salvo se este aspecto tão particular do meu trabalho se nutre de uma outra espécie de ciência, involuntária, infusa, inlocalizável, que, mero prático que sou, me limito a seguir, como quem se vai apercebendo da mudança das estações sem nada saber de equinócios e solstícios." 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 57 (24/02/1994)

O olhar da artista plástica Isa Silva... uma outra (generosa) forma de ver Saramago

Trago a divulgação da artista plástica Isa Silva e suas incursões pelas artes.

No seu site, em http://www.isasilva.com/entrada.html, temos acesso à retrospectiva do que tem sido a sua obra. Multifacetada, tal como refere na sua apresentação: 
" Frequentei a Escola de Artes de António Arroio onde nasceu o amor pela escrita.
Na minha segunda vida (como gosto de salientar) redescobri a fotografia, o desenho, a pintura e fortaleci a minha relação com a escrita.
Conjugo estas quatro paixões com a minha actividade de designer gráfica."

Aqui deixo imagem do seu olhar sobre José Saramago.
Mais info nos endereços assinalados

http://www.isasilva.com/shop/T-sf-j-saramago-tela.html



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Comunidade de Leitores Ler Saramago - Programa do 1.º Trimestre de 2016

Mais três livros de José #Saramago para ler e discutir na 
Comunidade de Leitores que a Fundação José Saramago acolhe. 
Aqui fica o programa para o primeiro trimestre de 2016.

Ver Informação de Contactos ou através da Fundação José Saramago

Sobre a técnica narrativa em José Saramago, pelo próprio (15/02/1994)

(...) "Regresso a um tema recorrente. Todas as características da minha técnica narrativa actual (eu preferiria dizer: do meu estilo) provêm de um princípio básico segundo o qual todo o dito se destina a ser ouvido. Quero com isto significar que é como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvi-das. Ora, o narrador oral não usa pontuação, fala como se estivesse a compor música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras. Certas tendências, que reconheço e confirmo (estruturas barrocas, oratória circular, simetria de elementos), suponho que me vêm de uma certa ideia de um discurso oral tomado como música. Pergunto-me mesmo se não haverá mais do que uma simples coincidência entre o carácter inorganizado e fragmentário do discurso falado de hoje e as expressões «mínimas» de certa música contemporânea..." 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 49 (15/02/1994)

"Memorial do Convento" pela Éter Produção Cultural, no Palácio Nacional de Mafra (Uma sessão por mês até Junho)


Apresentação da peça de teatro, baseada na obra de José Saramago, o "Memorial do Convento"
Informação Éter Produção Cultural, via página do Facebook, em https://www.facebook.com/EterProducaoCultural/?fref=ts

Mais informações sobre a actividade da Éter Produção Cultural, aqui no link

"Sessões 18h
9 Janeiro, 6 Fevereiro, 5 Março, 2 Abril, 7 Maio e 4 Junho. 

Em 2016 voltamos a apresentar ao público geral o espectáculo MEMORIAL DO CONVENTO, de José Saramago. 
Em cena desde 2007 o público escolar e desde 2008 para o público geral, este espectáculo já foi assistido por mais de 180 mil pessoas. Se ainda não viu, venha assistir num dos dias acima mencionados. 

RESERVAS (ver abaixo)

Sinopse:
Unidos por um amor maravilhoso, Blimunda e Baltasar reúnem-se a Padre Bartolomeu de Gusmão e ao seu sonho de voar. A Passarola, máquina voadora, misto de barco e de pássaro, nasce do saber científico de Padre Bartolomeu, da força de trabalho de Baltasar e dos poderes de Blimunda recolhendo as vontades humanas (“as nuvens fechadas”) que alimentarão a máquina e a farão voar. A história encantada, que revolucionou a literatura portuguesa, do nascimento de um convento no século XVIII.
Na presente adaptação dramatúrgica, a relação dinâmica entre os cinco atores, a música original e os espaços cénicos dão vida a dezassete personagens e a momentos essenciais de Memorial do Convento.



Ficha Técnica:
Texto: José Saramago 
Adaptação Dramatúrgica:
Filomena Oliveira e Miguel Real 
Encenação: Filomena Oliveira

Orgânica sonora e Música original:
David Martins 
Voz: Andreia João 
Piano: Sandra Nunes 

Interpretação: 
Blimunda: Leonor Cabral | Rita Fernandes | Rute Lizardo | Susana Branco
Baltasar: Pedro Oliveira | Pedro Vieira | Sérgio Moura Afonso 
Pde Bartolomeu de Gusmão: João Brás | Paulo Campos dos Reis | Rogério Jacques 
Camareiro, Pai Sete-Sóis, Arquitecto, Manuel Milho, etc.: João Mais | Miguel Simões 
Camareiro, D. Joao V, Scarlatti, Zé Pequeno, etc.: Filipe Araújo | João de Brito | Ricardo Soares

Desenho de Luz: Carlos Arroja 
Operação Luz/Som: Carlos Arroja | David Martins Pedro Moreira | Nuno Gomes | Bruno Oliveira 
Criação e adaptação do espaço cénico: 
Carlos Arroja | Vitor Fernandez 
Guarda-Roupa e Adereços: 
Éter | Câmara dos Ofícios 
Fotografia: 
André Rabaça | Edgar d’Oliveira | Filipa Vieira 
Frente de Sala: 
Filipa Vieira | Inês Oliveira Martins | Raquel Mattos 

Produção: ÉTER-Produção Cultural

RESERVAS/INFORMAÇÕES 
ÉTER: book@virtualeter.com | 911 906 778
TICKETLINE: Ligue 1820 (24 horas) | A partir do Estrangeiro ligue +351 21 794 14 00
LOCAIS DE VENDA: Palácio Nacional de Mafra, www.ticketline.sapo.pt, Fnac, Worten, El Corte Inglés , C. C. Dolce Vita, Casino Lisboa, Galerias Campo Pequeno, Ag. Abreu, A.B.E.P., MMM Ticket e C. c. Mundicenter, Fórum Aveiro, U-Ticketline, C.C.B, Time Out Mercado da Ribeira, Shopping Cidade do Porto, Lojas NOTE, SuperCor – Supermercados e ASK ME Lisboa

"A Jangada de Pedra" no top dos mais vendidos em Dezembro de 1986 (Recorte jornal "O Diário")

in Jornal "O Diário"
Dezembro 1986

Inquéritos e dicas... Escolhas de Saramago para o Público e Expresso (05/04/1994)

in, "Cadernos de Lanzarote Diário II"
Caminho, páginas 85 e 86



5 de Abril de 1994

"Mal refeito ainda da viagem de regresso, tive de decidir-me a responder, enfim, aos inquéritos do Público e do Expresso, ambos sobre o vigésimo aniversário do 25 de Abril. A Vicente Jorge Silva, que convidou «vinte personalidades representativas dos mais variados sectores e quadrantes da vida nacional» a escolherem «os dez melhores e os dez piores acontecimentos, situações e fenómenos registados» desde a revolução, respondi brevissimamente: que o pior do 25 de Abril foi o 25 de Novembro; que o pior de Otelo foi Saraiva de Carvalho; que o pior de Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço; que o pior do Primeiro de Maio foi o Dois de Maio; que o pior da Reforma Agrária foi António Barreto; que o pior da Descolonização foi Agora Amanhem-se; que o pior das Nacionalizações foi Salve-se Quem Puder; que o pior da Reforma do Ensino foi Não Haver Ensino; que o pior da Liberdade de Expressão foi ser Liberdade Sem Expressão; que o pior da Democracia (até agora) foi Cavaco Silva. E a Joaquim Vieira, que me pedira 125 palavras sobre as circunstâncias em que recebi «a notícia de que estava em curso o derrube do Estado Novo» e «as recordações mais marcantes do período que se seguiu, até finais de 1975», dei-lhe rigorosamente as palavras pedi-das, que assim rezam: «Nesse mês dormi algumas noites em casas de amigos não marcados pelo regime. Vários camaradas meus haviam sido presos, a minha vez podia não tardar. Passei uns dias em Madrid, mas, como a polícia não se "manifestou", regressei a Lisboa. Vim a saber depois que a minha prisão estava marcada para o dia 29... Numa reunião na Seara (ouviam-se ainda tiros nas ruas) fui encarregado de escrever o editorial para o primeiro número "livre" da revista.» E rematei: «Não esquecerei o Primeiro de Maio, nem o 26 de Setembro, nem o 11 de Março, nem a Assembleia do MFA em Tancos, nem os meses em que fui director-adjunto do Diário de Notícias. Não esquecerei o Alentejo nem a Cintura Industrial. Não esquecerei o que então chamámos Esperança.» 
Suspeito que não terão apreciado as respostas nem o tom em que foram dadas. O caso é que inquéritos destes me irritam pela sua inutilidade. Servem para encher papel." 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original - João Amaral e o álbum BD baseado em "A Viagem do Elefante"

No post anterior, dei destaque ao artista plástico José Santa-Bárbara pela criação e estilização das personagens do "Memorial do Convento"; agora sob o mesmo titulo "Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original", trago João Amaral que publicou (2014) o álbum de Banda Desenhada baseado na obra "A Viagem do Elefante".
Quem leu o original de José Saramago (2008) e depois teve a feliz oportunidade de passar pela experiência de conhecer os traços, as pranchas, o volume das personagens e paisagens de enquadramento, por certo, sentirá uma fusão do que foi lido e depois percepcionado na Banda Desenhada. Está lá o espírito do autor, a sua (de ambos) ironia, a cumplicidade e as formas das palavras.
Esta obra está incluída no PNL Plano Nacional de Leitura, e pode ser adquirida através da Porto Editora (http://www.portoeditora.pt/produtos/ficha/a-viagem-do-elefante-bd?id=16006645), ou da loja situada na Fundação José Saramago, e em qualquer boa livraria.
E assim o artista plástico acrescenta algo à obra original.

João Amaral apresentando a obra na Fundação José Saramago

Aqui entrevista de apresentação da obra, via "Casa das Artes e Conhecimentos"
Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Sinopse de apresentação da entrevista
"A propósito da adaptação da Viagem do Elefante da obra de José Saramago, prémio Nobel da Literatura, para banda desenhada, aqui se reúnem em conversa Pilar del Río, João Amaral e João Caldeira.
Pilar del Río, Presidenta da Fundação José Saramago, dispensa apresentações, João Amaral é o autor da BD e João Caldeira o fundador da Casa das Artes e Conhecimentos.
A Obra de Saramago e as suas múltiplas adaptações, bem como o valor dessas adaptações e o lugar que ocupam, é dos assuntos abordados.
A Viagem do Elefante e as suas mensagens profundas, é um tópico de destaque nesta conversa.
Uma conversa que irá revelar um pouco mais sobre esta obra inserida no mundo de Saramago.
Um apontamento realizado na Fundação José Saramago."

Referências:
Pilar del Río (Presidenta da Fundação José Saramago): http://www.josesaramago.org
João Amaral (Autor do álbum): http://joaocamaral.blogspot.pt
João Caldeira Monsanto (Casa das Artes e Conhecimentos): http://www.arteseconhecimentos.com

(Capa da obra)


Alguma imagens da obra






Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original - José Santa-Bárbara "Vontades Uma Leitura de Memorial do Convento"

É unânime afirmar-se que só as grandes obras literárias merecem ser adaptadas em outros formatos.
Seja no teatro ou cinema, banda desenhada ou pinturas. O "Memorial do Convento" foi publicado em 1982 e já teve 54 edições, a última das quais em 2014 pela Porto Editora, e traduzido para um número de países que torna a obra com carácter universal (http://www.josesaramago.org/memorial-do-convento-1982/)
Aqui recupero e destaca-se a obra do artista plástico José Santa-Bárbara, "Vontades Uma Leitura de Memorial do Convento" que o Professor Carlos Reis, também estudioso da obra de José Saramago, deu especial destaque e relevo.
Das suas palavras e que podem ser consultadas no site "Figuras da Ficção", em https://figurasdaficcao.wordpress.com/category/jose-santa-barbara/ deixo com a devida referência ao autor o seguinte:

(Capa do catálogo Vontades)

«A 19 de agosto de 2001, foi inaugurada na Biblioteca Nacional, em Lisboa, uma exposição do artista plástico José Santa-Bárbara, intitulada Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento.
O motivo e os temas da exposição eram evidentes: o pintor fizera uma leitura de Memorial do Convento e as obras exibidas traduziam, num outro medium, o resultado dessa leitura. Recordo brevemente o que foi a mencionada exposição (que à época conheceu assinalável êxito de público), tal como o catálogo a testemunha: trata-se de 35 telas, compreendendo 11 estudos, com uso de diferentes técnicas e predominância do óleo  e da têmpera vinílica sobre papel colado; todos os estudos recorrem ao pastel, com uma exceção (uma aguarela). A feição geral das obras  revela-nos um conjunto de figuras com rostos alongados, individualmente e em grupos, pintados em cores sombrias e envoltos por uma atmosfera pesada e dramática.

Um dos episódios mais importantes da obra - O desfazer do jejum de Blimunda

Trata-se, neste conjunto pictórico, sobretudo de personagens, para usar um conceito que provém do romance e que aqui é pertinente. E parece estranho, à primeira vista, que nenhum dos quadros fixe a monumentalidade do convento que dá título ao romance: ele aflora apenas e de forma parcelar ou implícita em episódios (e em telas) como, por exemplo, “A ara de Cheleiros”, “Infanta gatinhando”, “Os fazedores do capricho” e sobretudo  “Os passatempos d’El-Rei”. Para além disso, o pintor fixou-se em temas e em contextos que, articulando-se com as personagens, desde logo sugerem o reiterar de componentes ideológicos que semanticamente estruturam a história contada no romance: o esforço anónimo dos operários, os cenários da Inquisição, a construção da passarola voadora. Aqueles componentes ideológicos e também, naturalmente, o tempo histórico em que transcorre a acção do Memorial do Convento, ou seja, o século XVIII português e o reinado de D. João V, que a História, digamos, oficial fixou com o cognome de Magnânimo.

Ilustração do Rei Dom João V

Encontram-se no catálogo Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento breves textos que constituem uma boa abertura para a análise de um diálogo  desenvolvido em função da triangulação História-ficção-pintura. Num deles, é o próprio pintor quem nota que Saramago “deu nome aos fazedores do capricho, João Francisco, João Elvas, Manuel Milho, Julião Mau-Tempo, José Pequeno, Francisco Marques, Joaquim da Rocha, Baltasar Mateus, Blimunda”; e logo depois cita o conhecido passo do Memorial do Convento em que são alfabeticamente elencados os nomes dos tais fazedores: “Torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo…”

Baltasar Mateus o Sete-Sóis e Blimunda a Sete-Luas

 Ou seja, todos os nomes, sem título de distinção social ou apelido de família, remetendo-se deste modo e por antecipação para a lógica da nomeação do desconhecido que reencontraremos num outro romance de Saramago, precisamente Todos os Nomes (1997). Por fim: “Aqui fica a minha «leitura» d’aquilo que para mim é a verdadeira História” (Santa-Bárbara, 2001: [4]). Como quem diz (repare-se nas aspas): há uma «leitura» outra, que não é modelizada em palavras, mas em imagens, e a “verdadeira História” requer a questionação (ideológica, bem entendido) da versão oficial que uma outra História tratou de instalar no imaginário que dela se alimentou.

Carlos Reis (A publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento.  Ilustrações do cabeçalho:   pormenores de quadros de Vontades). - 28/12/2012 

Baltasar Mateus

domingo, 3 de janeiro de 2016

"A sombra do pai" dois post no blog Caderno sobre a obra de Kafka (6 e 7 de Agosto de 2009)

Pode ser consultado e lido aqui, em
http://caderno.josesaramago.org/56066.html - Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009
http://caderno.josesaramago.org/56375.html - Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009


A sombra do pai (1)

"Mikhail Bahktine escreveu na sua Estética e Teoria do Romance: «O objecto principal do género romanesco, aquele que o “especifica”, aquele que cria a sua originalidade estilística, é o homem que fala e a sua palavra». Creio que raramente uma asserção de âmbito geral como esta é terá sido tão exacta como no caso humano e literário de Franz Kafka. Desrespeitando certos teóricos que, não destituídos de razão, se têm insurgido contra a tendência “romântica” de ir procurar à existência de um escritor os sinais da passagem do vivido para o escrito, o que, supostamente, seria a final explicação da obra, Kafka não esconde em nenhum momento (e parece fazer mesmo questão de que se note) o quadro de factores que determinaram a sua dramática vida e, em consequência, o seu trabalho de escritor: o conflito com o pai, o desentendimento com a comunidade judaica, a impossibilidade de deixar a vida celibatária pelo casamento, a enfermidade. Penso que o primeiro daqueles factores, isto é, o antagonismo nunca superado que opôs o pai ao filho e o filho ao pai, é o que constitui a trave mestra de toda a obra kafkiana, dele derivando, como os ramos de uma árvore derivam do tronco principal, o profundo desassossego íntimo que o levou à deriva metafísica, à visão de um mundo agonizando pelo absurdo, à mistificação da consciência.A primeira referência a O Processo encontra-se nos Diários, foi escrita em 29 de Julho de 1914 (a guerra desencadeara-se no dia anterior) e começa com as seguintes palavras. “Uma noite, Josef K…, filho de um rico comerciante, depois de uma grande discussão que tinha tido com o pai…”. Sabemos que não é assim que o romance irá principiar, mas o nome da personagem principal – Josef K… - já ficou anunciado, tal como em três rápidas linhas de A Metamorfose, escrito quase dois anos antes, já se anunciava o que viria a ser o núcleo temático central de O Processo. Quando, transformado da noite para o dia, sem qualquer explicação do narrador, num bicharoco nojento, misto de escaravelho e de barata, se queixa dos sofrimentos imerecidos que caem sobre o viajante de comércio em geral e sobre ele próprio em particular, Gregorio Samsa expressa-se de uma maneira que não deixa margem para dúvidas: “muitas vezes é vítima de uma simples murmuração, de um acaso, de uma reclamação gratuita, e é-lhe absolutamente impossível defender-se, uma vez que nem sequer sabe de que o acusam”. Todo O Processo está contido nestas palavras. É certo que o pai, “rico comerciante”, desapareceu da história, que a mãe só é mencionada em dois dos capítulos inacabados, e mesmo assim fugazmente e sem caridade filial, mas não me parece um excesso temerário, salvo se estou demasiado equivocado sobre as intenções do autor Kafka, imaginar que a omnipotente e ameaçadora autoridade paterna terá sido, pela estratégia da ficção, transferida para as alturas inacessíveis da Lei Última, essa que, sem precisar de enunciar uma culpa concreta recolhida nos códigos, será sempre implacável na aplicação do castigo. O angustiante e ao mesmo tempo grotesco episódio da agressão executada pelo pai de Gregorio Samsa para expulsar o filho da sala familiar, atirando-lhe com maçãs até que uma delas se lhe vai incrustar na carapaça, descreve uma agonia sem nome, a morte de qualquer esperança de comunicação."
(Continua)

A sombra do pai (2)

"Poucas páginas antes, o escaravelho Gregório Samsa ainda havia articulado penosamente as últimas palavras que a sua boca de insecto fora capaz de pronunciar: “Mãe, mãe”, Depois, como numa primeira morte, entrou na mudez de um silêncio voluntário, senão obrigado pela sua irremediável animalidade, como quem teve de resignar-se definitivamente a não ter pai, mãe e irmã no mundo das baratas. Quando por fim a criada varrer para o lixo a carcaça ressequida em que Gregório Samsa terminará transformado, a sua ausência, daí em diante, só servirá para confirmar o esquecimento a que os seus já o tinham votado. Numa carta de 28 de Agosto de 1913, Kafka irá escrever: “Vivo no meio da minha família, entre as melhores e mais amorosas pessoas que se pode imaginar, como alguém mais estranho que um estranho. Com a minha mãe, nos últimos anos, não falei, em média, mais que vinte palavras por dia, com o meu pai jamais troquei mais que as palavras de saudação”. Será preciso estar muito desatento à leitura para não perceber a dolorosa e amarga ironia contida nas próprias palavras (“Entre as melhores e mais amorosas pessoas que se pode imaginar”) que parecem estar a negá-la. Desatenção igual, creio, seria não atribuir importância especial ao facto de Kafka haver proposto ao seu editor, em 4 de Abril de 1913, que os relatos O Fogueiro (primeiro capítulo do romance América), A Metamorfose e A Sentença fossem reunidos num único volume com o título de Os Filhos (o que, aliás, só muito recentemente, em 1989, viria a suceder). Em O Fogueiro, “o filho” é expulso pelos pais por ter ofendido a honra da família ao engravidar uma criada, em A Sentença “o filho” é condenado pelo pai a morrer por afogamento, em A Metamorfose “o filho” deixou simplesmente de existir, o seu lugar foi tomado por um insecto… Mais do que a Carta ao Pai, escrita em Novembro de 1919, mas que nunca viria a ser entregue ao destinatário, são estes relatos, segundo entendo, e em particular A Sentença e A Metamorfose, que, precisamente por serem transposições literárias em que o jogo de mostrar e esconder funciona como um espelho de ambiguidades e reversos, nos oferecem com mais precisão a dimensão da ferida incurável que o conflito com o pai abriu no espírito de Franz Kafka. A Carta assume, por assim dizer, a forma e o tom de um libelo acusatório, propõe-se como um ajuste de contas final, é um balanço entre o deve e o haver de duas existências enfrentadas, de duas mútuas repugnâncias, pelo que não se pode rejeitar a hipótese de que se encontrem nela exageros e deformações dos factos reais, sobretudo quando Kafka, no final do escrito, passa subitamente a usar a voz do pai para se acusar a si mesmo… Em O Processo, Kafka pôde desfazer-se da figura paterna, objectivamente considerada, mas não da sua lei. E tal como em A Sentença o filho se suicida porque assim o tinha determinado a lei do pai, em O Processo é o próprio acusado Josef K… que acabará por conduzir os seus algozes ao lugar onde será assassinado e que, nos últimos instantes, quando a morte já se vem acercando, ainda dará por si a pensar, como um derradeiro remorso, que não tinha sabido desempenhar o seu papel até ao fim, que não tinha conseguido poupar trabalho às autoridades… Isto é, ao Pai."


Texto de Ângela Caires "Um rapaz chamado Saramago" republicado em "Cadernos de Lanzarote Diário II" (7/2/1994)

in, "Cadernos de Lanzarote Diário II"
Páginas 38 a 41, entrada com data de 7 de Fevereiro de 1994

(...) "Mãos amigas fizeram-me chegar... Dantes usava-se muito esta expressão, sobretudo em cartas dirigidas aos jornais, quando alguém que se sentia visado por alusões em geral desfavoráveis pretendia varrer publicamente a sua testada. Fazia-se assim crer que havia por aí umas boas almas cuja maior preocupação, pelos vistos, era informar (fazer chegar às mãos) o que a outras, apesar de únicas ou principais interessadas, houvesse passado despercebido. O que sucedia, em muitos casos, era não querer a pessoa visada que se soubesse que ela própria é que dera com a notícia caluniosa ou menoscabante, provavelmente por considerar indigno da sua importância tomar directo conhecimento das coisas inferiores do mundo. 
Não foi este o caso. As mãos amigas são reais e verdadeiras, são as de Iva e Manuel Freire, graças a quem, cá nesta Lanzarote onde vivo, pude ler um artigo de Ângela Caires publicado num jornal - O Fiel Inimigo - de cuja existência não tinha dado fé. O artigo chama-se «Um rapaz chamado Saramago» e é dos mais divertidos textos em que alguma vez pus os olhos. Não resisto à tentação, com a devida vénia, de trazê-lo aqui: 
«Costumo receber uns livros de capa amarela, habitados por personagens de nomes esdrúxulos, que têm em comum o facto se serem assinados por um rapaz chamado Saramago. Na dúvida se haveria de sacrificar-lhes o meu tempo, face a um antigo volume que levantei do chão, perguntei a um editor meu amigo se tal livro seria merecedor de atenção. Que não, garantiu. Aduzindo argumento demolidor: a sua editora recusara-se a publicá-lo. Com sobejas razões: o escrevente, que usa e abusa de vírgulas, raramente sabe onde colocá-las. Pontos parágrafos, então, nem vê-los. Daria um trabalho dos diabos transformar aquela massa informe de texto em prosa escorreita. Por esta razão, lá foi o original parar a uma editora de comunistas, onde, aliás, o sujeito se acoita, politicamente falando. «Os camaradas fizeram o primeiro frete, dando à estampa um volume com o nome arrevesado de Levantado do Chão que, segundo creio, passou completamente despercebido. Para não falar do flop total de outra tentativa, Memorial do Convento, de que seguramente ninguém guarda memória. Os editores, certos de que esta aventura lhes apontaria a falência, nem investiram muito no produto: não gastaram uns tostões a ilustrar as capas, produzindo-as em cartão liso de cor desmaiada. 
«O candidato a escritor poderia ter ficado por aqui. Mas a prova de que o autor não tem o menor sentido de humildade é que reincidiu. Raro é o ano em que não põe cá fora mais volumes de capa amarela, sempre com títulos desenxabidos e enganadores. 
«Nunca mais me vi livre dele. Por um aniversário, veio-me parar às mãos, camuflada em fitas e celofane, uma Jangada de Pedra, que mais não era do que urna narrativa alucinada da experiência vivida por um cão com pavores de tremores de terra. Num Natal couberam-me sete exemplares da História do Cerco de Lisboa, que não é história de um cerco nem de Lisboa, mas, sim, de um revisor às voltas com uma esquisita sinalefa tida por deleatur. Para não falar do dia em que ofereci a um sobrinho com pendor para as belas artes um Manual de Pintura e Caligrafia que nada tinha a ver com pincéis nem caneta. A última afronta, qualquer coisa como O Evangelho segundo Jesus Cristo, é a prova concreta da sua total falha de recursos criativos. Nem plagiar a Bíblia o sujeito sabe. E, mesmo depois dos conselhos do dr. Sousa Lara ("homem, vá para casa, leia, estude"), continua a escrever. Continua. Continua. 
«Como ninguém lhe compra livros, acho que vêm todos parar à minha estante, por via de amigos e familiares que adoram pregar-me partidas - não sei por que é que a editora insiste em publicar as suas mal arrumadas prosas, arruinando-se certamente. Coisas de comunistas. 
«Além do mais, como escritor, o homem é um perigo. Imagine-se que os seus textos vão parar às escolas. Lá se vai o denodado esforço de Couto dos Santos, de Roberto Carneiro, de Deus Pinheiro, e de outros intrépidos ministros da Educação, para as criancinhas aprenderem o bom português da dra. Edite Estrela. 
«Aterrador, não é? O pior é que a criatura, ainda por cima, se ri de nós. Não sei porquê. Nunca lhe deram o Prémio Nobel. Vive exilado numa ilha do fim do mundo. Casado com uma espanhola. Como se isto não bastasse, há um montão de anos que está desempregado. Por causa daquele seu mau feitio, a teimosia própria de quem não enxerga de que lado sopra o poder, nunca será funcionário do dr. Santana Lopes nem presidente da Câmara de Cascais. Bem feita.» 
Em tudo Ângela Caires sabe do que fala. Até sabe que a Bertrand recusou publicar o Levantado do Chão... Regalámo-nos de riso aqui. As gargalhadas de Carmélia e de Pilar deviam ter-se ouvido em Fuerteventura. Espero que não tenham faltado em Portugal, de mistura com alguns sorrisos tão amarelos como as capas dos meus livros..."~

Informação sobre a autora do texto, via Wikipédia aqui
"Maria Ângela Moreira de Caires (n. Funchal, 31 de Agosto de 1939 - m. Mafra, 27 de Agosto de 2013) foi uma escritora e jornalista portuguesa. Trabalhou nas redacções dos jornais Sempre Fixe, Diário de Lisboa, O Jornal, Visão, O Inimigo. O Pasquim, Tribuna e Notícias de Lourenço Marques foram outros jornais em que escreveu.
Também colaborou, nos anos 60 do século XX, no jornal satírico Re-Nhau-Nhau, que se publicou no Funchal e foi a mais duradoura publicação periódica do género que se publicou em Portugal (entre 1929 a 1977)
Copywriter em várias agências de publicidade durante alguns anos, é ainda autora dos romances Daqui em diante só há dragões (de 1988, um romance cuja ação se passa no Ambriz, em Angola, antes das guerras de libertação, e que viria a dar origem à série televisiva O café do Ambriz, produzida e transmitida pela RTP) e O amante da Bela Otero (publicado em 1989).

Obras principais
O segundo homem, Lisboa, 1957.
Madrugada cinzenta, Lisboa, 1959.
Yolanda, Lisboa, 1960.
As pedras envelhecem, 1964.
Daqui em diante só há dragões, Venda Nova, 1988.
O amante da bela Otero, Venda Nova, 1989.
O Capitão Tormenta, 1989-1990 (inédito).

Antologias
Narrativa Literária de Autores da Madeira: século XX. Nelson Veríssimo, org. Funchal, 1990. p. 201-208.
Contos Madeirenses. Nelson Veríssimo, org. Porto, 2005. p. 215-224.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Passagem de ano 1994/1995... e os vinte minutos que sobravam nas Canárias



Publicado em "Cadernos de Lanzarote Diário II"
Caminho, página 268

Recuperado via página do Facebook da Fundação José Saramago, aqui

28 de Dezembro de 1997 - Comentário às palavras do editorial do jornal Expresso

«Pior do que um mundo com guerras, com fome e com doenças só um mundo de homens todos iguais, pacíficos e saudáveis.» Este foi o pedacinho-de-ouro oferecido pelo Expresso no seu editorial de ontem, provavelmente para acautelar o futuro do negócio. Tem toda a razão: esses homens iguais, pacíficos e saudáveis não leriam certamente o Expresso...